Pela primeira vez, Portugal ganhou o 1.º prémio, com o microconto «A Encarregada». Foi atribuído a Sandra Henriques. Parabéns! Leia o conto vencedor aqui

1) Fale-nos um pouco de si e do seu percurso em torno da escrita.

Nasci em 1978, nos Açores, e cresci com um pé nas Flores e outro no Corvo. Para não ferir susceptibilidades, digo sempre que tenho o coração nas duas ilhas. Escrever sempre foi uma coisa muito visceral, orgânica, necessária. Fossem pequenas histórias de ficção, assim que aprendi a escrever frases completas, ou participações no jornal da escola, ou contos que não saíam da gaveta, ou, mais tarde, blogs. Na adolescência, queria ser jornalista, por causa de uma entrevista à PJ Harvey, no jornal Blitz. Mostrava a mulher para lá da artista e, até hoje, ainda influencia a forma como escrevo. Mudei-me para Lisboa em 1997 e não entrei em Ciências da Comunicação como queria, mas em Estudos Portugueses, uma espécie de «curso ao lado». Estava, contudo, na faculdade onde queria estar: a FCSH. Entre o final da licenciatura (em 2004) e 2013, a escrita era um hobby que mantinha paralelo ao emprego, até que, em 2014, cansada do mundo corporativo, decidi inverter as coisas. Sem portfolio nem contactos, comecei um blog em inglês sobre turismo cultural sustentável, onde pudesse mostrar trabalho, e que ainda mantenho de forma mais ou menos regular. Coincidiu com a altura em que Lisboa e os Açores estavam a destacar-se como destinos turísticos e, por causa do blog, comecei a colaborar com frequência com a Lonely Planet e outras publicações de viagens, a escrever sobre as minhas duas casas. Além dessas colaborações, trabalho como ghostwriter e copywriter de conteúdos digitais, em português e em inglês.

2) Como se sentiu, primeiro ao ser vencedora do concurso português e depois do internacional?

Ambos foram uma surpresa, mas por motivos diferentes. Ganhar o concurso português foi a confirmação de que eu era capaz de escrever ficção e de que o trabalho começava a dar frutos. Os contos eram anónimos, o júri não tinha forma de saber quem era o autor, e depois soube que A Encarregada tinha sido selecionada por unanimidade. Não vou dizer que estive serena até saírem os resultados do concurso internacional porque estaria a mentir. Sabia que a essência do texto não se tinha perdido na tradução (foi uma das coisas que tomei em consideração antes de submeter o conto), mas daí até acreditar que o júri internacional ia gostar ia um passo gigante. Tinha muita confiança na Albertina como personagem, mas tinha também a consciência de que, a partir do momento em que um conto fala em personagens a regressar a sepulturas, podia ser meio caminho andado para não ser levado a sério. Essa é outra luta que travo há anos e que, agora, tenho ainda mais vontade de continuar a travar: a escrita de terror é séria. Curiosamente, o autor belga que ficou em terceiro lugar tinha recomendado A Encarregada no Twitter às pessoas que não podiam votar no microconto dele. De repente, ter alguém que não me conhece, que eu nem sei se gosta do género, a dizer publicamente que, de todos, aquele era o conto favorito foi a terceira boa surpresa deste concurso.

3) Como foi o processo na escrita deste microconto?

Os meus contos começam quase sempre pelas personagens. Às vezes, são imaginárias, mas na maioria das vezes são pessoas com quem me cruzo. Mesmo quando estou a escrever sobre viagens, passo imenso tempo a observar pessoas. No caso d’A Encarregada, lamento desiludir-vos, a Albertina não existe. Já os gatos são reais e, havendo latas de comida, costumam andar pelo Cemitério dos Prazeres. A figura da Albertina surgiu-me enquanto estava ocupada a pensar noutras coisas (o que também é habitual). E nunca mais me largou, revista das cusquices das celebridades debaixo do braço e tudo. Esbocei vários cenários e histórias possíveis para a Albertina protagonizar, nenhuma delas de terror e nenhuma me agradava. E ou escrevia um microconto para encaixar num gosto generalizado ou escrevia algo que me desse gozo. Preferi divertir-me com a tarefa de escrever uma história que encaixasse naquela personagem e no tema do concurso; achei que ela daria uma excelente guardiã de cemitérios, que alimenta gatos vadios e que impede que os vivos e os mortos se cruzem, mesmo que desempenhe essa tarefa rotineira com o enfado de quem não tem outro remédio. Dizer o máximo no menor número de palavras é um desafio a que já estou habituada, mas mesmo assim o conto ainda passou por umas quatro ou cinco versões até sentir que não devia mexer mais. E o passo final foi traduzi-lo para inglês antes de o submeter, para ter a certeza de que a história não se perdia na tradução, caso avançasse para a fase seguinte.

4) O que gosta de ler?

Gosto de ler terror e ficção científica, acho que isso é óbvio. Gosto de ler autobiografias, sobretudo de escritores, porque inevitavelmente falam do seu processo criativo e descubro que, conceituados ou não, todos temos os mesmos receios. O On Writing, do Stephen King; os diários do Michael Palin durante o período dos Monty Python e as autobiografias da Tina Fey (Bossy Pants) e da Amy Poehler (Yes Please) foram leituras muito importantes nos dois últimos anos. Gosto de ler não-ficção que desconstrua coisas que damos como adquiridas. Recentemente, li os dois livros da Joana Gorjão Henriques sobre o racismo em Portugal (Racismo em Português e Racismo no País dos Brancos Costumes) e li o The Five, da Hallie Rubenhold, uma historiadora britânica que devolve a humanidade às mulheres vítimas do Jack the Ripper, contando a história delas baseada em factos, e não como foram retratadas pela imprensa na altura.

5) Esta vitória dá-lhe motivação extra para continuar a escrever ou a responsabilidade agora é maior?

A motivação já existia, mas a responsabilidade agora é maior. Eu tinha um plano muito certinho para 2021: fazer o curso Escrever Terror, trabalhar e aperfeiçoar a técnica, submeter contos a publicações (e provavelmente colecionar rejeições; aliás, um dia antes de sair este anúncio, tinha recebido um e-mail de rejeição) e ir construindo esta aventura de escrever ficção especulativa em português. A vitória no concurso veio acelerar um bocadinho o processo, mas ainda preciso de «arrumar» algumas coisas e respirar fundo antes de mergulhar. Tento, contudo, escrever um bocadinho todos os dias, nem que seja entre dois textos de trabalho.

6) Já tem novos projetos?

Continuo a trabalhar com os meus clientes de ghostwriting e a escrever sobre viagens. Em junho, colaborei no meu segundo livro com a Lonely Planet (o primeiro, Secret City, saiu em 2020), que vai ser lançado em 2022 — é um guia sobre Portugal que não é um guia, escrito por seis autores. Terei um conto na antologia Sangue Novo, organizada pelo Pedro Lucas Martins, que deve sair no final de 2021. E, porque nem a dormir desligo o cérebro, tenho andado a magicar como é que posso usar o sucesso d’A Encarregada para validar o terror e os escritores do género em português. Não prometo ter novidades já este ano, mas. à velocidade que 2021 tem andado, nunca se sabe.