O Folhetim é um exemplo daquilo que fazemos na Naftalina: histórias por etapas, a várias mãos escolhidas por sorteio. De cada vez, o escritor tem de adaptar o seu estilo a uma nova narrativa, uma nova reviravolta. Uma experiência estimulante e divertida.

Folga Indesejada

Era uma vez um dia da semana que decidiu tirar folga por tempo indeterminado. Não queria saber da Feira da Ladra, nem do Carnaval, nem de qualquer outro acontecimento que tivesse de ser alterado para outro dia qualquer.

Entregou o pré-aviso à coordenadora dos dias, a Semanada, que ficou assim, como dizer, chateada com F mesmo grande.

— Trabalha de 6 em 6 dias e quer folga? E agora, o que é que eu faço?

Telefonou ao Sérgio Godinho e, depois de lhe dizer todas aquelas coisas que se dizem a uma figura conhecida («Gosto muito da sua música, dos seus livros, etc…»), acrescentou muito desconsolada:
— Tem uma letra de uma música que terá de alterar, porque a dita cuja decidiu tirar folga e, por lei, não podemos nem sequer dizer ou cantar o seu nome.

Depois de descobrir a que palavra se referia a Semanada, Sérgio Godinho tentou reformular a tão badalada canção.

A rapariga podia continuar a ir vender mágoas ao desbarato que isso não fazia diferença nenhuma. Também podia ir vender o que quisesse, que era para onde dormia melhor. Mas e o início? Será que podia começar assim:

— É quinta-feira, feira de Carcavelos, abre hoje às cinco da madrugada? Não rima.

A Semanada pensou melhor, chamou o advogado e pôs a terça-feira em Tribunal. A terça-feira chamou o Sindicato dos Dias, Meses, Anos e Períodos de Tempo Relativos e fizeram queixa na Autoridade para as Condições de Trabalho. A terça-feira meteu baixa na Segurança Social porque estava em burnout, trabalhava desde a antiga Grécia e precisava de descansar. A Semanada pediu à Segurança Social uma junta médica de verificação de incapacidades para retirar a baixa à terça-feira, a fim de obrigá-la a regressar ao trabalho. A terça-feira pediu consulta de Medicina do Trabalho e meteu baixa não remunerada.

Entretanto, o Sérgio Godinho continuava sem saber o que fazer com a canção, embora lhe passasse pela cabeça substituir simplesmente por «É dia de Feira da Ladra», na esperança de que o público se lembrasse de que dia se tratava.

A situação estava a arrastar-se há demasiado tempo e começava já a extravasar as feiras e a atingir outros sectores que atraem grande público. A terça-feira de Carnaval resolveu fazer greve, muito ajudada pelas autoridades de saúde e mesmo o Domingo de Páscoa esteve até à última hora para dizer que não contassem com ele, apesar de no fim lhe ter faltado coragem.
Por esta altura, já o Sérgio Godinho tinha desistido e estava agora a braços com a Etelvina, na esperança de que, se a revolta chegasse aos nomes, este, pouco usado nos dias que correm, seria dos últimos a levantar problemas. O que ninguém esperava foi o que aconteceu de seguida. Estava mesmo a ver-se: a arraia-miúda revolta-se e não se sabe onde as coisas vão parar. Andava a Semanada em protestos e reuniões de comités diversos e nem deu conta das movimentações acima na hierarquia. Sem aviso prévio, aí estavam os meses a protestar. As quinzenas, coitadas, animadas à espera do bom tempo e do fim do confinamento, nem tiveram tempo de se organizar. Numa manhã amena, o porta-voz dos meses falou às rádios e televisões: os meses estavam fartos de marcar o calendário e iam retirar-se de cena. O ano estava oficialmente mergulhado no caos.

Intervieram então novamente os dias da semana, querendo fazer raciocinar os meses em protesto. Não tinha nenhum sentido aquela revolta: o que ia acontecer agora? O perigo era grande: noutros países, os meses tinham a firme intenção de começar uma greve… Os primeiros a juntarem-se aos portugueses foram os meses italianos, que cruzaram os braços em sinal de solidariedade. Então ao Sérgio Godinho ocorreu uma ideia: organizar um festival da canção onde os protagonistas tinham de ser canções que celebravam os meses e as feiras. Convidou, por exemplo, o Riccardo Del Turco, para que cantasse Luglio col bene che ti voglio, Angelo Branduardi tinha de intervir com Alla Fiera dell’ Est per due soldi... Será que os cantores conseguiriam fazer os meses arrepiar caminho?

Julho reclamou de imediato, não queria ver o seu nome associado a tantos «ai, ai, ais», e as feiras chisparam de indignação: «uma canção sobre comprar ratos numa feira? Estás maluco, ó Sérgio?? Nunca mais ninguém ia às feiras, só os técnicos de laboratórios de investigação para se abastecerem!!!»
O ano, apesar de estar oficialmente mergulhado no caos, teve uma ideia: fez uma pesquisa no Google e voilá, instantaneamente apareceu uma playlist de musiquinhas com títulos para todos os meses do ano, desde Roberta Campos e Nando Reis, a gorgolejar sobre amor em Janeiro, até Taylor Swift a chorar Dezembro, passando pelo deprimente Novembro dos Guns N’ Roses.
Será que não há melhor do que isto?, matutou o ano. Há séculos que se toca música e só me aparecem coisas destas?

O Século ouviu o seu nome a ser invocado em vão. E não gostou. Mesmo nada, nadinha. E decidiu que não estava para essas ofensas. Trabalhava cem anos a fio sem outro reconhecimento que não fossem uns algarismos romanos sempre com umas letritas coladas a chamar-lhe antes e depois!!! Vá lá, tinha tido um fugaz reconhecimento quando lhe deram o título de Século das Luzes, mas não durou muito tempo. Assim, tomou uma decisão: decidiu tirar também uma folga. Conferenciou com o século XX, que se recusou a sair da sua merecida reforma. «Não querias mais nada, já dei os meus 100 anos».

Procurou o século XXII, que lhe fez um gesto feio com a mão. Era o que faltava, ainda mal lhe começavam a nascer os dentes de leite e já tinha de governar o mundo? Ainda por cima com o péssimo trabalho que o XXI estava a fazer, com tantas guerras e mortes, fome por tantos continentes e esta peste incontrolada? Um apocalipse!

O XXI propôs uma solução: convidava-se aquele cantor dos caracóis para cantar «Ó tempo volta para trás, traz-me tudo o que perdi». Se o tempo se comovesse e trouxesse tudo o que tinha sido perdido, estava o assunto arrumado. Se o tempo, na sua infinita indiferença nada fizesse, o XXI entraria em greve, porque ainda não tinha tempo de serviço para se reformar. E em democracia, todos têm os mesmos direitos.

E foi assim que uma folga inesperada de um dia da semana trouxe o terminar do tempo, que não se comoveu nem ficou indiferente, apenas fez o que o universo lhe ordenou: nada.

Tiago Pina

Helena Campos

Francisco Feio

Giuseppa Giangrande

Conceição Brito