O texto nasce num domingo ao fim do dia, aquela hora que dá o nó na barriga do «amanhã é dia de escola». É aí que acontece o Teias de Aranha, a oficina de ex-alunos, dedicada à escrita de terror. Leia e faça figas para que segunda-feira chegue depressa.

A Amendoeira 

A amendoeira floria. Era fevereiro. As humildes pétalas mostravam uma beleza pudica,  contrariando o frio da tarde e um céu esquecido por Deus. O tronco áspero da árvore aconchegava um homem, amarrado por uma corda sem escrúpulos. Estava na posição do salvador, de braços abertos e mãos pregadas aos galhos da madeira. 

Faltavam-lhe as pálpebras. Foram cortes precisos de um bisturi sem piedade. O sangue enchia-lhe a cara, mas corria pelos lados e obrigava, assim, aos olhos escancarados uma visão clara. Em frente dele, o mestre do escalpelo e uma criança sentada numa cadeira de palha. Era ela que dirigia esta cena macabra.

Ordenou despelar o peito do prisioneiro. Queria vê-lo padecer. O esfolador cortou, com mestria absoluta, pele e carne dispensáveis à vitalidade humana. O infante desejou, a seguir, que as pernas fossem talhadas até aos ossos. Gritos contínuos de sofrimento eram engolidos pela paisagem áspera. Berros amargos eram lançados ao firmamento cinzento. O peito estava aberto, as pernas cavadas e o sangue corria até à terra, formando raízes malditas. O martírio continuou até a noite sentir mágoa. Rasgaram-se lábios; orelhas; braços; dedos; pés. 

Entretanto, a criança levantou-se, dirigiu-se, em passo lento, ao corpo esfarrapado e pediu pelo instrumento da tortura. Entre carnes e peles descaídas, encontrou o falo do atormentado. Cortou-o, sem hesitação, e enfiou o conquistado troféu entre os poucos dentes restantes do crucificado. Foi este o castigo escolhido para o seu violador. 

Este homem marcou-o para sempre. Roubou-lhe o corpo; roubou-lhe a alma; roubou-lhe a inocência; ofereceu-lhe o ódio. Agora, era simplesmente um pedaço de matéria indefinida. Ao fim, espetou-lhe o metal no coração. Sentiu-se aliviado e viu uma pétala rosa e branca, lentamente, cair no chão.

Ricardo Alfaia