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Sessão 18 abril | Tema: A meias, ou mais. Escritas colectivas

1 – Jogos surrealistas

a) cadáver esquisito
(a partir da morfologia da frase original «o cadáver esquisito beberá vinho novo»)

O VÍRUS ADMIRÁVEL LEVARÁ HOMENS E MULHERES TRISTONHOS
Paulo e Paula

O POETA VERDADEIRO COMERÁ O PASSADO AGUDO
Zé António, Mariana, Francisco, Paulo, Paula

O HOMEM PREGUIÇOSO MORRERÁ NO PASSADO OPACO
Lídia, Tânia, Paula, Paulo, Francisco

O PADEIRO FININHO DEBICARÁ BONECOS TEMEROSOS
Cristina, Mariana, José, Lídia, Tânia

b) Se... então

SE NÃO FOSSE PRENDADA, FARIA MUITAS COISAS DE MANEIRA DIFERENTE – QUASE TUDO, ALIÁS - MAS AÍ O MUNDO JÁ NÃO TERIA SIDO IGUAL
Carlos, Paula

SE NÃO HOUVER AMANHÃ, OS PÁSSAROS NÃO SE RECOLHERÃO
Mariana, Zé António

SE NÃO CHOVESSE, AS REDES SOCIAIS SERIAM LUGARES MAIS AGRADÁVEIS
Francisco, Paulo

SE NÃO HOUVESSE FERMENTO, A PRIMAVERA SERIA AINDA MAIS MISERÁVEL.
Tânia, Lídia

SE NÃO TIVÉSSEMOS CUIDADO, NÃO TERÍAMOS NOS CASADO
Paula, Carlos

2 – Bola de neve
A cada frase, acrescentam-se palavras, antes ou depois ou no meio.

OS PARDAIS CANTAM CONTENTES
NEM OS PARDAIS CANTAM CONTENTES
NEM OS DONOS DOS PARDAIS CANTAM CONTENTES
NEM OS DONOS DOS PARDAIS TONTOS CANTAM DESCONTENTES
AGORA NEM VOCÊS NEM OS DONOS DOS PARDAIS TONTOS CANTAM CONTENTES.
AGORA NEM EU NEM VOCÊS NEM OS CRETINOS DOS DONOS DOS PARDAIS QUE SE DIZEM TONTOS CANTAM CONTENTES
AGORA, COM TANTO GALO A CANTAR NA ESTUFA FRIA, NEM EU NEM VOCÊS NEM OS CRETINOS DOS DONOS DOS PARDAIS QUE SE DIZEM TONTOS CANTAM CONTENTES
ORA BOLAS NEM COM TANTO GALO A CANTAR NA ESTUFA FRIA, NEM EU NEM VOCÊS NEM OS CRETINOS DOS DONOS DOS PARDAIS QUE SE DIZEM TONTOS, CANTAM CONTENTES
ORA BOLAS, NEM COM TANTO GALO A CANTAR NA ESTUFA FRIA, NEM EU NEM VOCÊS NEM OS CRETINOS QUE CRITICAM OS DONOS DOS PARDAIS QUE SE DIZEM INTELIGENTES, MAS SÃO UNS TONTOS QUE NÃO FICAM EM CASA, CANTAM CONTENTES.
Cristina, Francisco, Tânia, Zé António, Lídia, Carlos, Paula, Mariana, Paulo

3 - Texto com palavras de todos.

Cada um contribuiu com uma palavra. Depois, cada um escreveu um texto com todas.
Palavras: segredo, D. Quitéria, triste, nenúfar, madrugada, Rua da Madalena, felicidade, 1 chave, carta

Até à próxima
Sabem quem morreu? A D. Quitéria, do terceiro esquerdo ali do vinte e cinco. Veio para cá viver há uns trinta anos, mais coisa menos coisa, na altura era uma trintona, a resvalar para os quarentas, radiosa, voluptuosa, mesmo, na rua todas as cabeças se voltavam à sua passagem, os olhos dos homens gulosos, os das mulheres assassinos. Não era segredo nenhum que não havia na Rua da Madalena adolescente que, acordado ou a dormir, com ela não sonhasse. Alguns, mais afoitos, cobravam a chave aos amigos para verem as vistas do estendal da roupa da Quitéria, na esperança, doce, de ter a felicidade de ver cuecas de renda, ligueiros, bodies e soutiens de seda – que era coisa que as mães deles não gastavam porque atavio de mulher de má vida e pior fama, eufemismo para puta. Pois nunca viram mais do que panos da loiça tristes e lençóis estampados de nenúfares uns, outros com as copas do baralho das cartas, o que a todos cortou a tusa. Nunca se lhe conheceu homem. Também com aqueles lençóis...
Paula Carvalho

O Mistério do Nenúfar Verde
Após receber uma misteriosa e triste carta, Dona Quitéria, minha vizinha de porta, confidenciou-me nesta madrugada um bombástico segredo!
Após isso, deu-me uma chave e pediu-me que a guardasse. Em seguida, fez-me um exótico chá de folhas de Nenúfar Verde do Tibete – o que segundo ela é o elixir da felicidade! Em meia hora,
inebriados, pusemo-nos a dançar loucamente na Rua da Madalena. Dona Quitéria gritava aos quatro ventos: "esse segredo levaremos para o nosso túmulo! Use a chave para descobrir a porta secreta!".
Despachei-me de pronto para casa e deixei a chave que recebi em baixo do capacho de fronte à porta de seu apartamento.
Repeti a dose de chá. Pensei alto:
- Eu hein Dna. Quitéria! Essa história é sua!
- O chá aceito repetir! Obrigado Dona Quitéria!
Carlos Borges

A madrugada escurecia a Rua da Madalena.
Nenúfar Felicidade coloca a chave na ranhura silenciosamente. Entra em casa e em cima da cómoda vê um envelope com o seu nome. Abre e começa a ler a carta.
"Guardo este segredo há meses. O apelido que me deste em matrimónio não faz mais sentido. A nossa vida tornou-se um lugar triste. Fui para casa dos meus pais. Preciso de tempo. Assinado, Quitéria."
Tânia Teixeira ( www.anetadadulce.pt)

D. Quitéria nem queria acreditar quando abriu a carta. A chave tinha chegado! Adeus madrugadas tristes, adeus velha Rua da Madalena. Saiu em segredo, abriu o portão do parque e foi direita ao tanque. Lá estava - o seu Alfredo, esperando-a em cima de um nenúfar com o seu sorriso batráquio.
Cristina Borges

Dona Quitéria subia sempre a Rua da Madalena, ainda de madrugada, e entrava pelo miolo urbano que a levava até ao castelo. No lago central ficava a olhar os nenúfares e a admirar a sua capacidade de se manter à tona da água, mesmo quando algum dos batráquios que habitavam o lago viesse pôr em perigo a fragilidade das suas folhas. Dona Quitéria transmitia uma felicidade triste desde que recebera a carta acompanhada daquela chave que lhe abriria a porta para um segredo que, agora, não queria conhecer. Toda a vida tinha procurado desvendar o mistério que rodeava o seu falecido e, agora que tinha essa possibilidade, percebeu que os segredos só valem enquanto se mantiverem secretos. Nessa manhã, olhou mais uma vez os nenúfares e, antes de se levantar, deixou cair lentamente a chave nas águas do lago.
Francisco Feio

Dona Quitéria subia a Rua da Madalena com a carta na mão. Há muitos anos não chegava em casa tão tarde. Normalmente, às três da manhã já estava em sono profundo. Mas não naquela madrugada.
Parou diante da porta do seu prédio. Olhou para o outro lado da rua e irritou-se mais uma vez com o símbolo ridículo do hotel recém-inaugurado, que havia desalojado dezenas de antigos moradores da rua. Que relação poderia haver entre aquele desenho estilizado de um nenúfar com o restante da fachada do edifício? Porque diabos um hotel na baixa pombalina havia de se chamar Nenúfar. Suspirou, desconsolada.
Procurou a chave de casa na bolsa. Subiu lentamente as escadas e entrou no pequeno apartamento, fechando e trancando com cuidado a porta atrás de si. Deixou-se cair na poltrona, exausta.
Tirou a carta do envelope e leu novamente as revelações estarrecedoras que ela continha. Toda sua felicidade fora construída em cima de uma mentira. E todos os envolvidos naquela história suja estavam mortas. Menos ela. Lembrou-se do verso da canção que o seu falecido marido, um brasileiro que ela agora descobrira ser um farsante, gostava de cantarolar: Tristeza não tem fim, felicidade sim.
Paulo Lima

D. Quitéria há muito que não dormia bem. Ora era o vizinho surdo que não baixava o volume do televisor, ora era o gato que teimava em miar a meio da noite.
Numa dessas madrugadas decidiu escrever uma carta, por se sentir tão triste naquela noite tão fria, tão negra e tão só.
Decidiu escrever à Elisabete a perguntar pelos nenúfares que ela tinha no seu grande jardim, cheio de cores, orvalho e natureza.
No meio dessas palavras pensou que lhe deveria contar esse segredo que tanto a atormentava, dia após dia. E escreveu essa amálgama de acontecimentos, palavra a palavra, sentindo no fim de tudo, um grande alívio e felicidade por ter partilhado, ainda que no papel, que tinha herdado a casa da Tia Maria na Rua da Madalena.
Enquanto escrevia entretinha-se com a chave, ora a tilintar, ora a passar-lhe por entre os dedos.
Iria mudar-se finalmente para a cidade, deixando este cafofo no interior do país.
Mariana Matias

D. Quitéria levanta-se de madrugada, gosta de cumprimentar a Aurora e sente-se triste quando falha a esse encontro matinal com a mitologia. Dar-lhe-ia também Febo os bons dias?
Com uma velha chave enferrujada, abre a caixa de correio onde há anos não chega uma única carta. Logo desce a Rua da Madalena, deambula por Rossio e Restauradores, sobe a Avenida e o Parque e vai banhar a vista e a alma nos melancólicos nenúfares da outrossim melancólica Estufa Fria.
É esse o singelo segredo para o seu irrisório pedaço de felicidade diária.
José António Santos

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4 de Abril, Naftalina online. Vozes e rostos no fio dos dias a confessar pecados, tão leves..., e oferecer o prazer da palavra.

Exercício 1: Um pecado de infância

Pecadilho
Nunca rezei as 10 Avé-Marias que me eram impostas de cada vez que ia ao confessionário. Sempre tive a dúvida se estava perdoado por inteiro ou só na percentagem de Avé-Marias rezadas.
Aliás a expectaiva, mais que a absolvição, era antecipar qual a penitância do dia. Porque me eram prescritas umas vezes Avé-Marias e outras Pai- Nossos?
Suspeito ter sido esta a minha iniciação na diferença de géneros.
José Santos

Tinha uma grande amiga na primeira classe, de nome Marta.
Éramos unha com carne e de tal modo inseparáveis que duvidam se seria somente uma amizade inocente. Mas um dia, no grande pátio do Colégio tivemos uma zaragata por um pequeno porta-chaves felpudo pois queríamos brincar ao mesmo tempo.
Sempre fui bruta, na verdadeira ascensão do termo: na contenção da força e mais tarde - com a idade - com as palavras, mas naquela tarde, irritei-me de tal modo que a empurrei e ela foi contra as grades de uma janela.
Percebi desde logo que tinha sido demais, e pouco tempo depois vi uma gota de sangue a cair-lhe para a gola da camisa. Tinha-lhe feito um golpe na cabeça.
Serviu-me de susto sendo este o meu grande pecado.
Mariana Matias

O cubo pouco mágico Knorr
A minha infância foi recheada de pequenos pecadilhos, as mais das vezes disparates e asneirolas, em resultado de muita energia e criatividade que, como um rio desordenado, me faziam correr para nascente ao invés de ir para a foz. Alguns foram sabidos de imediato – era difícil esconder colares de contas ou brincos rebentados ...
Dos nunca revelados lembro-me do dia em que, gulosa, achei que se um caldo Knorr dava bom sabor à comida havia de ser coisa boa; na despensa, sozinha, meti o cubo culinário mágico na boca e meti-me num sarilho – sobreveio um enorme enjoo, que durou várias horas e não me deixou jantar. Pais e irmãos preocupados levaram a crise à conta do fígado, ainda frágil da hepatite recente, o que a cor amarelada parecia justificar.
Só no Verão passado o confessei à minha mãe e à minha irmã, depois de ter sabido que a minha mãe, gulosa por chocolates, atacara a despensa em busca dum quadrado de chocolate gourmet, porque aromatizado de flor de sal, e queixara-se (amargamente) de que aquele chocolate não prestava para nada, exibindo enjoada um invólucro de prata que continha os restos dum caldo de carne.
Quem sai aos seus...
Paula Carvalho

Pecado de Natal
Quando eu era pequena, devia ter uns 6 ou 7 anos, todos os Natais ajudava a minha Mãe a montar a árvore de Natal e uma das decorações que eu mais gostava eram uns chocolates com formas de Pai Natal, bolas decorativas, sinos, que ficavam na árvore até à noite de Natal, altura em que me era dada autorização para os comer. Como eu era muito gulosa e não aguentava até dia 24 ia comendo os chocolates sem ninguém ver, compunha as pratas muito bem compostas e voltava a pô-las na árvore como se nada tivesse acontecido. Claro que quando o truque se descobriu a minha mãe ficou bastante zangada comigo e nunca mais se puseram chocolates na árvore de Natal.
Rute Gonçalves

Exercício 2: Um objecto que é pecado.
Encontrar um objecto que associamos a um pecado e descrever.

Sou complexo:
Eu sou a ira; ou melhor, sou o veículo de toda a ira. É através de mim que destilam o ódio quotidiano por tudo e por todos, a falta de amor-próprio e o vazio com que encaram o presente e o futuro.
Sou também a inveja, aquele que traz tudo, no que procuras o que não tens e sem nada te dar.
Sou a soberba ruidosa, feita marca e símbolo, independentemente do que na realidade sou, algo que se exibe como instrumento de poder.
Sou também a preguiça, aquele que te faz sentar, horas a fio, com a ilusão de que estás a aprender alguma coisa quando na realidade está, na maioria das vezes, a adormecer o teu pensamento.

Normalmente vivo no teu bolso. Sou o teu telefone.
Francisco Feio

O diploma
Há anos que presido à sala onde o dono da casa me pendurou numa parede, e a quem limpa o pó com regularidade e afecto.
Ele é um tipo modesto, apagado, suspeito mesmo que um dos poucos orgulhos que tem é em mim. Pois eu não sou modesto, olho com superioridade para os meus insignificantes vizinhos, sem história nem brilho.
Emoldurado em madeira nobre, redigido em latim, autenticado pelo Magnífico Reitor, de fita de seda, chancela e brasão, eu sou o diploma da Universidade e não me recrimino por este orgulho.

Na verdade, ao orgulho acrescentaria outro pecado capital – o da luxúria que sinto na minha contemplação.
José Santos

Que bem estou eu, exótico, neste mundo de penugens a discorrer do negro, branco ou castanho, com o meu roxo alaranjado fora de sítio.
Realço interesses e curiosidades. Saísse eu à rua e o desafio seria ficar por aprofundizar a primeira passagem do olhar.
Dificilmente ficam desiludidos. Os meus olhos arredondam na medida certa da astúcia ancestral e o toque empinado do final das sobrancelhas permite-me mimicar sorrisos credíveis o suficiente para garantir que as crianças continuam a fugir mais depressa do bico dos dentes.
Porquê. Pergunto-me então. Hoje, como ontem e amanhã provavelmente, me batizou a sina com este nome causador de dor e ardor ao subir pela goela do seu utilizador.
Em latim até soa bonito. Ou soava. Hoje parece mais modalidade de comida italiana. Invidia, invidia. Parece que consigo cheirar o queijo a derreter no tomate. Até isso é bonito e tem proveito.
Ainda assim, aqui estou, escondido da vista para não trazer ao de cima a versão da pessoa que naquele dia me carregou da prateleira só porque a amiga estrangeira enaltecera as características dos mochos.
Ele há vidas tramadas. Com tanto charme para espalhar, estou aqui renegado, para que a dita cuja não se deixe lembrar que o que brilha no jardim ao lado pode ser cobre, mas parece mesmo ouro!
Mariana Cabral

Capturar

Eu sou...
A vaidade do brilho e a luxúria do vermelho, a gula da bebedeira que convida ao torpor da preguiça, não poucas vezes conduzindo à ira, e não sou avara com a inveja...
Vejam-me.
Sou bela e elegante, meu brilho é estonteante. Abro-me pouco a pouco e ofereço-me a quem me quiser, prefiro ser saboreada, muitos me engolem, numa gula nem disfarçada.
Sou vermelha, encarnada, que é a cor de pecado da carne.
Por dentro sou incolor, mas não inodora e muito menos sem sabor. Lanço chamas apagadas àqueles que me devoram e à preguiça se rendem.
Sou Absolut. Absolutamente divina, devassa, dissoluta.
Paula Carvalho

A Ira vs. O Cubo de Rubik
Dá-me um certo gozo a ira que eu provoco há várias gerações. Como é que um simples objeto de entretenimento pode ser causador de tanta raiva, tanto autocomiseração, tanta falta de esperança nas próprias capacidades intelectuais? Eu fui uma grande invenção... num tempo onde não havia computadores nem internet nem redes sociais, eu fui o passatempo de muita gente, algo que desafiava a inteligência, a perspicácia, a técnica, a lucidez.
Por isso, quando a grande maioria falhou em solucionar o meu quebra-cabeças, a ira apoderou-se de muitos. Ouviram-se gritos de raiva, choros de tristeza, uivos de medo e outros barulhos e ruídos impossíveis de descrever.
Incrível como um objeto tão pequeno desencadeou em tantas almas um pecado mortal tão grave: quem nunca me tentou resolver e falhou miseravelmente, não sabe o que é ficar irado.
Rute Gonçalves

Eu sou a assassina das criaturas mais teimosas destes reinos por ora vividos: Molecula e Mineral. Se bem que criaturas tão pouco ou nada boas, só o tempo vai compensar a paciência, essa sapiência, também...com um quanto baste de resignação em certas e determinadas circunstâncias só mesmo nessa condição. D'outra forma inadequação.
Viver, descobri: É a miraculosa certeza de morrer, viver é também a miraculosa arte de saber falecer.
Gosto de assim o crer..
Por vezes a infelicidade é um privilégio com que me brindo, com que me prendo
Joana Dinis

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