A escrita sensorial é um dos pilares da escrita. Os textos tocam-se, saboreiam-se, cheiram-se... Não é a primeira vez que abordamos este tema na Naftalina e desta vez procurámos outropontozzzz sentidos de vista: o dejá vu. O fenómeno neurológico que faz com que a experiência vivida seja armazenada na memória de médio ou longo prazo, é vivido com um misto de estranheza e familiaridade, como algo que os nossos sentidos já registaram noutro tempo, noutra vida.
O excerto do poema Sudden Light de Dante Gabriel Rossetti inspirou-nos:
I have been here before,
But when or how I cannot tell:
I know the grass beyond the door,
The sweet keen smell,
The sighing sound, the lights around the shore
 
 
 

Acordei como sempre às seis da manhã, em ponto, ao som da música acolhedora do Ed Sheeran.
Quando me viro e olho para ele, ele já está sempre acordado com um sorriso largo no rosto e beija-me com um hálito a menta fresca, que me acorda definitivamente.
Ele levanta-se de imediato para preparar o pequeno almoço, eu fico mais algum tempo a sentir o quente da cama que me aconchega e em faz sentir segura, aos poucos começo a sentir o aroma a café e do pão quente vindo da cozinha e que por breves instantes me faz viajar até a casa da minha avó nas férias do Natal.
Levanto-me, tomo um duche rápido a água fresca a escorrer sobre a minha pele enche-me de energia e afasta a letargia de há pouco.
Visto-me e desço as escada, ele já tem a mesa de pequeno almoço pronta na varanda que está virada para o jardim, o chilrear dos pássaros produz uma melodia deliciosa que adoça o meu iogurte light de morango, sinto-me no paraíso.
- Está na hora! - Diz ele
Abraçamo-nos e despedimo-nos com um beijo apaixonado, húmido que me reconforta e aquece para todo o dia.
É sempre assim todas as manhãs, uma vez por mês desde á 5 anos, quando tenho de uma reuniões com o Conselho de Administração
Não sei como seria sem ele!

Sandra Martins


Vida?

Regresso à praia da minha infância. Mudou tanto. As casas piscatórias a poucos metros de distância eram agora mansões góticas, tendo o verde do chão sido aprisionado por baixo do betão. O cheiro salgado, gerado pelo batimento das ondas no cais, havia sido substituído pelo cheiro a queimado, que voava das fábricas distantes. Até o mar, anteriormente convidativo, parecia mais agreste. A água parecia quase congelar os incautos e a areia, projetada para cima dos fugitivos pelas rajadas do vento, tornara-se áspera.
Aquela memória do que fora outrora permanecia comigo. Impulsionara as minhas viagens em navios de carga para o Novo Mundo quando a vila fora anexada à cidade. Família e amigos fora separada pelas correntes da vida laboral, tendo já alguns partido para lá do horizonte, mas mesmo assim procurava o local onde poderia voltar a reencontrar essas sensações, essa conexão com o berço da vida.
Não fui bem-sucedido. África, Ásia, Américas e Europa não conseguiram recriar os momentos passageiros da minha antiga vida. Outrora poderiam, mas agora também estavam num processo de decomposição. Ah, a Humanidade, tão feia que é ao disfarçar as suas tendências parasíticas com palavras belas. Progresso…mais aparenta ser um Retrocesso ponderado e virulento a caminho da extinção.
Já não estarei cá para o ver. Sento-me, inspiro fundo, e depois levanto-me. Ao usar o instrumento da minha libertação, nem noto a transição. Deixo a minha carcaça imperfeita, saio disparado, atravesso as nuvens tóxicas deste mundo abandonado e vou em direção ao solarengo portão no alto, de volta a casa.

José Maria Covas

 


Os sentidos em alerta

Tinha o telemóvel na mão quando subi as escadas. Até o corrimão era áspero. No último andar um círculo de portas negras numeradas e o murmúrio de vozes de um homem e de uma mulher.
Sentei-me à espera enquanto mastigava um naco de pão com um travo de bolor. Algo ali cheirava a morte.
Da porta 4 saiu um vulto feminino que se escapuliu pela escadaria abaixo. A porta fechou-se e voltou a abrir-se pouco depois.
Era um sujeito entroncado, de farto cabelo negro e todo vestido de escuro que vinha receber-me. Uma figura sinistra.
Tinha o telemóvel na mão e pensei em dizer-lhe que tinha de me ir embora imediatamente porque surgira uma emergência. Mais valia tê-lo feito.
Antes ainda de ouvir-lhe a voz metálica, vi-lhe a expressão do olhar. Já vira aquele olhar há 30 anos, no tipo que me destruíra a vida, a cintilação da malvadez, uma luz satânica quente como o fogo, ávida de destruir vidas, como um lobo que espera pacientemente a sua presa e se delicia com a sua súbita aparição.
- Você tem uma intuição poderosa, use-a! – dissera-me alguém há muitos anos.
Os sinais de alerta vermelho dispararam todos no meu cérebro – É igual ao outro de há 30 anos, vais-te queimar!
Tinha o telemóvel na mão. Podia ter dito que havia uma emergência e fugir…

Helena Campos

 
O dia era azul, quando cheguei ali.
Tudo me dava uma sensação de bem-estar, sobretudo porque, apesar de não ter estado naquela cidade antes, sentia que eu lhe pertencia de alguma maneira.
O sol acariciava levemente o meu rosto, o azul do céu e as cores das flores eram um espectáculo para os meus olhos.
Logo, quando me sentei à borda de uma piscina rodeada por árvores e pus os pés na água, foi como voltar a um tempo distante...para dizer a verdade, era como se ele voltasse para mim e revi cenas da minha infância, um lago, e ouvi vozes alegres e queridas...

Giuseppa Giangrande