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Inspirados por textos de Scott Fitzgerald e diálogos da série Fargo, mergulhámos no mundo do não-dito. O desafio foi não escrever... Explicamos: criar um texto, mas onde fosse evidente o que fica por dizer, a entrelinha, o subtexto.Mas não ficámos por aqui. Depois deste primeiro texto, escrevemos a sua versão explícita, digamos assim, deixando vísivel o que no outro se adivinhava.
 
 

 

- Os meu Parabéns Catarina! A apresentação foi brilhante! Muito melhor que a minha.
- Obrigada Maria...
- Bem sei que mal tens tempo para trabalhar num projeto de tão grande dimensão, mas nunca pensei tivesses tão grande capacidade de organização!
- Obrigada, mas uma vez...
- Faço questão de ajudar-te a escolher o vestido que vais usar no dia da cerimónia de entrega do prémio no final do mês, em Londres!
- Não sabia que te preocupavas tanto comigo ...
- É claro que me preocupo, querida! Até já estive a ver alguns modelos!... Olha só para este vestido às riscas em forma de sereia! É espetacular!
- Não, sei o que diga... Sou baixa e forte, acho que não me favorece...
- Que disparate! É o ideal para ti, meu amor! Combina com o teu tom de pele, faz-te muito mais magra e tira-te à vontade uns 10 dez anos. Faço questão que o leves. Nada que possas escolher tão fantástica e maravilhosa!

 

 

 

 

- Trabalhei tanto, esforcei-me tanto, fiz uma apresentação brilhante e rejeitaram-na.
A Catarina é mãe de 3 crianças, é pequena, gorda, não tem tempo para nada e conseguiu que escolhessem a sua apresentação.
Devia ser eu a ir a Londres receber o prémio.
Vou ajuda-la a escolher um vestido que a fará horrível, fará má figura no dia de entrega do prémio. Eles vão arrepender-se de a terem escolhido.

 

 

Sandra Martins

 
 

 

- Este papel é seu. Esqueceu-se dele no pára-brisas do meu carro! Grita
- Como assim? Só lhe pedi para não estacionar atrás do meu.
- Não lhe corresponde decidir por mim, além disso o seu espaço é maior do que o meu, tem muito mais por onde escolher.
- Mas não entendo, porque leva a mal?
- O senhor pode estacionar na rua, na garagem ou até no jardim, se lhe der na gana. Faça o favor de não importunar os demais.
Atira com o papel à cara do vizinho, fecha-lhe abruptamente a porta e apanha o elevador.

 

- Este papel é seu. Não gosto que me deixe recados e me diga o que devo ou não fazer com o meu carro, ou seja com o que for.
- Não deixei recado nenhum, mas acho pouco civilizado bloquear outros carros sem avisar sequer.
- Lá porque eu não tenho uma casa com garagem e jardim, não lhe permito que me diga o que fazer, já me chega lá no trabalho ou a minha mãe.
- As invejas não se resolvem com violência.
- Pode ter mais dinheiro, mais tempo, mais liberdade de escolha e pode até ter mais espaço e um carro melhor, mas isso de me dar ordens que me façam sentir inferior e estar a ser mandado não lhe aceito.
A inveja incentiva-o a atirar o papel à cara do vizinho e a força das frustrações fecha firmemente a porta.
 

Catarina Ariztía

 

 

 

O dia passava lentamente, a Catarina, muito cansada, quase arrastava os pés.
Levava uma existência miserável, marcada pela tristeza. Perdida nos seus pensamentos, sobressaltou quando o telefone deixou ouvir o seu som.
- Estou... disse com um filo de voz
Uma voz mais forte contestou:
- Sempre a mesma voz... já preparaste o almoço?
- Sim...
- Ainda bem, estou a chegar! Até já!
Sem responder, a Catarina desligou e sentou-se no sofá, a esperar que o seu marido voltasse.

 

Quando desligou, o marido da Catarina começou a pensar que - ele era um cínico - ter casado com a Catarina tinha sido um grande erro. Era a mesma coisa que pensava a Catarina, apesar de ser uma pessoa de poucas palavras.
A Catarina lembrou-se de ocasiões perdidas e não passava um dia sem que se arrependesse da sua decisão. O marido, entretanto, no carro já mudou de ideia e depois de ter ligado para a Catarina, para avisar que tinha tido um imprevisto e que não ia almoçar, dirigiu-se ao clube de regatas.
Ainda bem, pensou a Catarina aliviada, e abriu a janela para respirar fundo.

Giuseppa Giangrande

 

- Posso ir lá, ou não? (Tchau, até ao meu regresso.)
- Tu é que sabes, mas eu tenho que comer. (Atreve-te a sair, meu camafeu!)
- Ok, mas eu posso deixar o prato arranjado e é só aqueceres. (Filho, orienta-te...)
- Vai lá. (Se saíres, escusas de voltar.)
- Tens a certeza que não te importas. (Mesmo que te importes, adeus.)
- O que é que disseste? (Mas tens coragem?)

                                                                                                       Tiago Pina

 

 

Maria Luísa continuou a dobrar a roupa. O marido continuava a falar. Não o ouvia. Sabia que devia prestar-lhe atenção, que havia pormenores e detalhes e informações e coisas que lhe convinha saber. O marido, não, nada de marido! Era melhor mudar-lhe o título já: o futuro ex-marido seguia com a diarreia verbal.
- Percebes, querida? Não és tu, sou eu.
- Percebo, percebo. Sabes, é quinta-feira, estou muito cansada. Podemos continuar esta conversa outro dia?
- Amanhã vou de viagem.
- Estamos casados há 23 anos, um dia não vai fazer diferença nenhuma.
- Vou estar fora duas semanas, não é um dia.
- Falamos daqui a duas semanas, então.

 

Maria Luísa continuou a dobrar a roupa. O marido continuava a falar. Não o ouvia. Sabia que devia prestar-lhe atenção, que havia pormenores e detalhes e informações e coisas que lhe convinha saber. O marido, não, nada de marido! Era melhor mudar-lhe o título já: o futuro ex-marido seguia com a diarreia verbal.
- Estou farto desta vida dupla. Este casamento é um beco sem saída.
- De onde é que isto saiu? Como é que nunca me disseste nada e agora queres divorciar-te?
- Não quero continuar a adiar a minha vida.
- Grandessíssimo cabrão, andas a enganar-me há não sei quanto tempo, quero lá saber se tens pressa.
- Isto é definitivo, não vou mudar de ideias. E já esperei muito tempo.
- E eu tenho tempo de sobra e nenhuma pressa.


Patrícia Louro