Folhetim

FOLHETIM é um projecto de histórias a várias mãos vão sendo escritas ao longo das sessões. Cada história tem 5 episódios. 

 

À ESPERA

à espera
sentada à espera da primavera
veio outra coisa
chegou a fome, chegou a guerra

melhores coisas aconteceram a uma quinta-feira
eu nasci a uma quinta-feira, não digo que fui incrível, mas nunca fui uma guerra.

nesta quinta-feira,
um espaço contestado entre este e oeste
ergueu-se à porta de casa, no jardim

um pedaço de terra que
ameaçava rasgar-se em dois
puxado por forças téctonicas
que seguiam caminhos separados
ao final de tantos anos juntas

dizem que este ano a colheita de trigo não será a mesma
os campos que sobreviverem até ao verão, não serão colhidos

os que morrerem, morrem queimados, tóxicos

a terra estéril, e o mundo com fome, com medo, com sede de vingança
quando não tivermos trigo para comer, alimentar-nos-emos de raiva.

mas a primavera ainda não chegou, e tudo ainda pode mudar.

é sentar e esperar.

«Estranho, este pequeno texto», pensou. Surgido numa folha manuscrita, como que enfiada à pressa num livro de química da biblioteca, intrigava-o profundamente.
Fome e guerra eram coisas que desconhecia, embora tivesse lido sobre o tema e o mundo vivesse em paz há várias décadas.
Já a primavera era-lhe familiar. Uma estação do ano que durava seis meses e alternava com o outono.
Quanto ao trigo, há muito que muito que deixara de ser produzido, desde que a dieta humana passara exclusivamente a ser baixa em calorias e rica em gorduras.
«Será algo anterior ao Degelo, uma peça com valor arqueológico», concluiu.
Pegou nas duas folhas de papel, amarrotou-as distraída. Uma acertou em cheio no caixote do lixo, a outra escondeu-se debaixo da estante. Não sabia nada de guerra, muito pouco de paz, e menos ainda de dietas e do futuro.
Bebeu o resto do chá frio. Se estivesse no futuro a olhar para agora, o que poderia ver? Se estivesse agora a escrever para o futuro, o que poderia contar?
Levantou-se. Resgatou primeiro a folha do caixote. Ajoelhada diante da estante, estendeu o braço. A primeira coisa que a mão tocou estava fria e pegajosa. Engoliu o mal-estar, moveu a mão. Encontrou a segunda folha, perfeitamente amarrotada. Trazia um troço de cotão agarrado.
Tinha acabado de se sentar quando a porta se abriu.
- Depressa! Anda, temos de ir já! 
Trouxe comigo a carta de amor. Talvez fosse importante para alguém. Esse pensamento acentuou-se quando vi de relance o corpo do bibliotecário cravado de balas. A boca por onde escorria um rio de dor e os óculos embaciados pareciam suplicar pelo meu auxílio. Tinha de encontrar a tal Juliana no meio do fumo, por entre os incêndios e edifícios abandonados.
Após longas horas de luta vi-a no fim da vila, escondida por detrás de uma árvore. Corri enquanto gritava o seu nome, ela veio ao meu encontro, mas ao entregar a mensagem, caí no chão, tendo uma bala me trespassado o pulmão. Juliana brevemente olhou para mim com desdém e, quando um dos oficiais inimigos apareceu, beijou-o vigorosamente antes de juntos desaparecerem pela estrada fora num descapotável. Assim fiquei ali estendido, pensando se a minha história, devido aquele tonto sacrifício, teria um próximo capítulo ou não. 
Tinham sido aquelas imagens terríveis que afetaram o meu sonho. O som metálico do despertador fez - me sobressaltar, corri para a casa de banho para lavar o suor do meu rosto.
Logo corri para a secretária, onde tinha deixado a folha de papel com o poema escrito: tinha medo de não encontrar o texto, fiquei aliviado já que estava lá, mas ao mesmo tempo decidi tirá-lo ao lixo, aquele poema - era isso o que sentia - era a causa do meu pesadelo.
Claro, não queria esquecer a realidade desta altura, mas comecei a escrever um novo poema, que tinha que ser uma mensagem de esperança, sem imagens de morte.
 
Cláudia Madruga
Fernanda O'Brien
Patrícia Louro
José Maria Covas
Giuseppa Giangrande

 

 

SINAIS DE FUMO

Nas colunas do supermercado tocava a rádio local intercalada pelo Pi, pi, pi. A conta subia. Micael, funcionário do supermercado, ia passando os produtos, sobretudo conservas e mercearias, trocava com os clientes umas palavras de circunstância e aqui e ali uns pequenos sorrisos, apesar de tudo. Ninguém levava a ameaça a brincar mas também não se deixavam abater por ela, afinal ainda não passava disso, uma ameaça. As prateleiras começavam a ter um ar despido mas ainda havia suficiente para ninguém sair de mãos a abanar.
Lá fora a luz diminui, aproxima-se a hora de fecho e Micael já pensa no jantar. O som do rádio é abafado pela sirene do quartel dos bombeiros.
O armazém explodira sem que Micael, trôpego pelo cansaço, disso se tivesse apercebido.
- Estás parvo ou quê? É evacuar! – gritou-lhe o supervisor
- Ã?!
E ele evacuou, a olhar aterrado para a fumaceira, mas anestesiado pela fadiga.
Um ucraniano fugia aos berros do interior do armazém em brasa.
- Chamem polícia!
Dois tipos enrolados na bandeira russa precipitaram-se para dentro de uma carrinha que ostentava no vidro uma frase em alemão – «Moskau über alles».
A carrinha arrancara a cem à hora e rapidamente desaparecera no fundo da rua.
No supermercado o rádio continuava a debitar informação, mas de forma confusa, ataque a uma base militar... coluna de fogo...
Algo se passa no terreno.
Lá fora as pessoas regressavam a casa no fim de um dia de trabalho e tentavam transmitir normalidade dentro do possível, a maioria seguiam os seus trajetos embrenhados nos seus pensamentos.
Do outro lado da rua uma idosa à janela na companhia do seu gato pareciam congelados no tempo.
Um casal de namorados que descia a rua também seguia na sua própria bolha.
Um homem de meia idade saia da casa para ir passear o cão.
Micael pensava, estaria realmente a passar-se algo?
Ou tudo deveria ser considerado fumo branco num difícil processo de negociação que se arrastava há anos?
Ou seria sinal de algo mais grave?
Micael não entendia o que estava a acontecer ao seu redor... Sirene, evacuação... o que é que era tudo isso, se depois a vida parecia ser a de sempre? Não tinha sentido, se as pessoas continuavam com o dia a dia e despreocupadas.
E aquela comunicação no rádio que falava de um ataque e de colunas de fogo... era tudo muito estranho.
Ou possivelmente o que ele ouvira tinha sido o fruto da sua imaginação.
Decidiu então fazer um pouco de clareza e começou a perguntar à senhora que estava à janela, mas ela olhou para o Micael tranquila e respondeu-lhe que não tinha passado nada e que ela estava à janela a esperar o cortejo das danças populares.
O Micael agradeceu e voltou para a sua casa, na esperança de esclarecer o que tinha vivido naquelas horas convulsas.
Ligou o rádio e o moderador anunciou uma canção alemã, um êxito de há muitos anos: 99 Luftballons...
Micael decidiu entregar-se à música. Deixou que a melodia lhe entrasse suavemente pelos ouvidos e, a cada palavra, transformasse as preocupações do dia em notas de bateria, piano eléctrico, e guitarra. A sua cabeça era agora o centro de um concerto, onde personagens-miniatura se contorciam para lhe proporcionar o melhor espectáculo possível.
Sem que desse por isso, os seus lábios desenhavam o primeiro sorriso do dia.
A música galopava determinada para o último refrão quando um estrondo dantesco interrompeu o concerto improvisado. Micael sentiu o seu corpo ser atirado violentamente contra a parede - sem que o choque mostrasse qualquer respeito pela composição natural do corpo humano. Pernas a subir desvairadas para o lugar dos braços, braços a emaranharem-se no pescoço com a flexibilidade de um ginasta olímpica.
Demorou algum tempo a recuperar a autonomia do corpo, que lhe fora tirada quando o choque terrífico o arrancou da poltrona e o reposicionou na parte oposta da sala.
Notou que tinha um pó denso, misturado com sangue, a cobrir-lhe o rosto. Mas a música continuava a tocar como se nada tivesse acontecido.
 
João Cotrim
Helena Campos
Sandra Martins
Giuseppa Giangrande
Teresa Sousa 

 

O HOMEM QUER QUERIA ABRAÇAR O SOL

Era uma vez um homem que queria abraçar o Sol. O problema não era que o Sol fosse um rei ou um deus. É que rei também é o Roberto Carlos e não recebe menos abraços por isso. A grandeza do problema era verdadeiramente astronómica: é que o Sol tem uma órbita! O circuito da mecânica celeste faz com que o Sol ande de um lado para o outro. Se o poente devém sempre nascente, é porque o Sol ao dormir, que é o que se faz à noitinha, levanta-se sempre no mesmo sítio onde se deitou. Ou então, o Sol mexe-se muito à noite e acaba por rebolar celestialmente até ao nascente.
Foi então que lhe surgiu a ideia de atrapar o Sol o tempo suficiente com uma corda para o poder agarrar. Mas como? Qualquer tipo de material seria facilmente incinerado…com a exceção de um.
O Sol era uma estrela, portanto podia ser encurralado pelas suas compatriotas! Coincidentemente lembrara-se do seu amigo, o qual inventara uma tecnologia de encolhimento. Pois é, podia usá-la para fazer uma corrente de estrelas. Não era mal pensado, até porque ao contrário do Sol, as estrelas estão fixas na abóboda celeste. Facilmente vai-se ao local com uma nave espacial e selecionam-se as melhores.
Mas se o seu plano desse resultado e parasse a bola solar fugitiva, conseguiria finalmente abraçá-la sem ela o punir? Claro que sim, por isso é que levaria um fato à prova das radiações solares, para não ser estorricado como os frangos deliciosos do seu primo.
Então começou a trabalhar para poder atingir o seu objetivo. E o que fez? Chamou a girafa que comia estrelas, protagonista da história escrita por José Eduardo Agualusa, e durante a noite ela apanhou no seu pescoço milhares de estrelas.
O plano era deixar sair as estrelas imediatamente, dispondo-as em forma de caminho para que o homem pudesse chegar ao Sol.
Levou o fato à prova das radiações solares e iniciou o seu percurso, tocando levemente com os pés as estrelas, que eram como um tapete brilhante. Chegou finalmente ao Sol, que estava a dormir, e pouco a pouco aproximou-se dele...
Isso é tudo uma grande estupidez! – irrompeu o Joãozinho contra o professor da 4ª classe – A mecânica celeste não funciona assim. Porque contam parvoíces às crianças? Odeio historietas! – E saiu desembestado pela porta fora ante o espanto de todos na sala de aula.
O João Quintela era um miúdo superdotado e seria no futuro um rapaz problemático e eventualmente um adulto inútil, um peso para a família e para a Segurança Social.
Deu dois pontapés raivosos numa bola que corria perdida no recreio enquanto se dirigia para a biblioteca, com uma única missão: derrubar a estante dos livros de histórias infantis para pôr termo ao ludibriar das crianças com fantasias absurdas.
O sol permanecia imperturbável como estrela dominadora, o João Quintela fechado no planeta continuava a girar à sua volta, mas desvalorizando esse facto.
O homem estava ainda mais determinado em abraça-lo, e nem a atitude do miúdo o atrapalhara, assustara ou demovera, agora que tinha conseguido chegar tão próximo.
Abeirou-se ainda mais, primeiro e tocou-lhe a medo com a ponta de um dedo, de imediato sentiu um corrente de energia percorrer todo o seu corpo, meio assustado, recuou. Mas atração que sentia por aquele astro voltou a faze-lo aproximar-se novamente e desta vez tocou-lhe com uma mão aberta e a corrente de energia já não o assustara como da primeira vez.
E finalmente abraçou o sol! Num gesto longo e demorado, sentiu-se carregado de emoções e sensações, sentiu-se transportado para outra dimensão.
Subitamente, sentiu-se projetado para longe deslocando-se à velocidade da luz por entre planetas, satélites e cometas, navegava ao sabor dos ventos intergalácticos, dele emanava uma luz, agora cintilava como as outras estrelas, tornara-se num pequeno sol em viagem pelo espaço.

Benjamim
José Maria Covas
Giuseppa Giangrande
Helena Campos

 

ESCOLHA

Não sabia o que fazer. Via-o no espelho ao acordar, nas poças da rua que percorria para o trabalho, até no vidro dos óculos quando os limpava. Sempre calado, a olhar para mim fixamente. Sentia-me cada vez mais fraco e notei ontem que o rosto parecia mais jovem no vidro da janela. Toquei na superfície refletiva e inexplicavelmente comecei a ficar melhor. Foi então que o ser falou. Manuel, está na hora de trocar. Oh não, fez-me algo. Se quiser viver, tenho de agora tomar o seu lugar no outro lado, mas valerá a pena? Afinal, vou ficar trancado, tendo apenas os meus próprios pensamentos como companhia.
E, para dizer a verdade, era boa a companhia dos meus pensamentos. E, ao final, percebi que aquele ser, que quase se tinha tornado uma perseguiçãoção, era eu mesmo.
O outro lado era o meu lado que tinha ficado escondido, incapaz de ler, até àquele momento, dentro de mim.
Tinha -me afastado de tudo o que era importante na minha vida, era um ser muito solitário.
Agora era a altura certa...se eu quiser viver, tinha que dar uma reviravolta à minha vida.
Começou a chover... aquela chuva que limpava os vidros da janela, limpava a minha existência. O ressoar de uma canção: “... E eis que ela bate no vidro,Trazendo a saudade...”
https://m.youtube.com/watch?v=tC88Oyz8Khs
Manuel começou a sentir os pés encharcados e isto fez com que voltasse a si.
Fechou a porta da varanda e entrou em casa. Olhou à sua volta, estava desarrumada, cheia de passado.
No cadeirão viu a sua figura, esperava-o. Era hora de fazer alguma coisa. Primeiro, decidiu chamar-lhe José.
Ele e José seriam uma equipa e juntos iriam dar a volta à vida de Manuel.
Com o sol já a espreitar lá fora, pegaram na mala amarela que estava a ganhar pó à porta de casa, desde aquele dia, e saíram os dois.
Já na rua, Manuel tropeçou numa montra e quando viu a manequim olhar-lhe de volta, José começou a chorar.
- Aquele tipo deve estar bêbado ou doente – comentou o funcionário da loja – a
tropeçar assim nas montras! Ó amigo, quer ajuda?
- Não, não obrigado – respondeu Manuel, enquanto a manequim lhe fazia caretas
diabólicas e José gesticulava para ele se ir embora.
Manuel regressou a casa e pegou no frasco dos comprimidos. Tinha de tomar um para
parar com aquelas alucinações. Lá estava José de novo sentado à sua frente. Manuel
não queria que na rua alguém percebesse que ele padecia daquela doença.
Mas antes disso, queria ter uma conversa final com aquele José, aquela versão mais
nova dele próprio, e orientá-lo para outra escolha num universo paralelo.
Quem sabe se a escolha tivesse sido diferente na sua juventude, ele não estivesse ali,
na meia-idade, fracassado, alucinado e encharcado em comprimidos.
No caminho, Manel desconhece as ruas. Segue, a passo cada vez mais apressado como se estivesse a ser perseguido, mas continua perdido.
O coração parecia querer sair pela boca e fazer-se ouvir, tal era o eco que sentia no peito. Parou, respirou fundo, olhou em redor e avistou uma cabine, daquelas dos anos 90, aberta, sem caixa. Desencantou umas moedas do bolso das calças, colocou na ranhura do telefone e ligou para sua casa.
- Estou? Clarisse? Clarisse, que bom ouvir-te, chegaste bem de Coimbra? Olha, estou perdido. Não sei onde estou, mas sei que não quero voltar para trás.
- Que dizes? Onde estás? Estás estranho. Vou-te buscar, mas tens de me dar referências.
- Estou frente a um prédio amarelo que tem em baixo um café chamado “Volto já”. Está fechadérrimo, isso sim.
- Acho que já sei onde é. Fica aí, abriga-te e espera.
Poucos minutos se passaram até que a irmã chegasse e o levasse para casa. De toalha nos ombros, já com os cabelos enxugados e roupa seca, dirige-se para a sala e vê José sentado. Pára, dá um gemido contido e Clarisse, percebendo a estranheza, exclama:
- Manel, apresento-te o Zé, nosso irmão. Tens um irmão gémeo. Foi criado com uma outra família por um erro no hospital. Contactou-me há um par de meses e disse-lhe que nos devia vir conhecer. Chegou antes de mim e não tive oportunidade de te comentar porque queria também que fosse uma surpresa para o teu, vosso, dia de anos. Parabéns aos dois! Brindemos e sentemo-nos a celebrar os caminhos cruzados.

José Maria Covas
Giuseppa Giangrande
Rita Gomes
Helena Campos
Catarina Ariztía