«O mundo é um inferno e a má escrita destrói a qualidade do nosso sofrimento.», Tom Waits.fd5a8fdf1589a78463492a8c9c009b9a
Nesta sessão deixámo-nos inspirar por Tom Waits para escrever livremente, ou seja, melhorar a qualidade o nosso sofrimento.
 
 

Diversão

Como sempre, coloquei a almofada no banco rígido e sentei-me a comer umas pipocas doces, à espera do início do combate habitual.
A bola iria ser lançada ao ar durante longas horas, até à exaustão dos participantes e enfurecimento dos espetadores. Depois iria ser a parte interessante em que finalmente os fãs dos perdedores iriam ao encontro dos apoiantes dos vencedores, segurando firmemente nos seus assentos em chamas para o inevitável ajuste de contas. A festa continuaria então fora do estádio com a destruição das vias públicas, monumentos e edifícios da cidade adversária.
Uma experiência verdadeiramente única de se ver. Eis, portanto a minha surpresa quando a meio do jogo houve um delicioso acrescento de qualidade à história. Não é que a opinião de aficionados como eu foi tida em conta pelos organizadores do evento para este ter um desenlace mais emocionante?
Ao ver os guerreiros da minha equipa a desferir golpes cirúrgicos aos calcanhares dos inimigos desapercebidos com as navalhinhas ocultas na sola das suas chuteiras fiquei tão animado como o resto da multidão. Foi uma delícia presenciar a mescla do verde do campo com o sangue dos derrotados, pois os mais diversos padrões artísticos de sofrimento humano começaram a surgir na tela regada. Aliás, era uma bela maneira de se passar para as celebrações finais de forma rápida e sem impasses aborrecidos.
Agora sim posso dizer que nunca vi melhor espetáculo à face da terra!

José Maria Covas

Não dormir é um inferno
 
Milhões de pensamentos, não sempre bons...As horas passam e sinto um peso no peito...
Ah, que bom dormir, estar envolta nos sonhos e cair nos braços de Morfeu
Que me transportam para lugares distantes, mas queridos.
Ou talvez seja melhor- quando as noites se tornam um inferno - ler, que é sonhar pela mão de outrem...
Dando voltas na cama, queria saber onde é que a noite escondeu o sono e os sonhos...

Giuseppa Giangrande

Uma gota

- Quais são as tuas resoluções para o novo ano?
A pergunta apanhou-me desprevenida. Quero dizer, nem sequer a pergunta em si. Estávamos em setembro, essa pergunta não seria mais adequada para a época de dezembro a fevereiro?
- A minha é melhorar a qualidade do sofrimento. Próprio e alheio.
Olhei para ela com cara de parva, mais perdida que um coelho encadeado. Olhei pela janela, olhei para ela, voltei a olhar pela janela. Como ela continuava à espera de uma resposta, acabei por abrir a boca (acabo sempre por abrir a boca, e acabo a arrepender-me 81% das vezes).
- Qual Ano Novo?
- Ano Novo?
- Sim… Perguntaste-me pelas resoluções de Ano Novo…?
- Não. Perguntei-te pelas resoluções para o novo ano. O novo ano letivo, sabes? O que acaba de começar?
Acentuou muito o novo ano. A ordem das palavras é importante, etc.
- Ah, esse. Não costumo fazer resoluções, aparte sobreviver com a sanidade intacta.
- Ui! A sanidade intacta! Isso sim, é pôr a fasquia alta.
- Diz a pessoa que pretende melhorar a qualidade do sofrimento próprio e alheio, - murmurei.
Fez-se um silêncio. Imagina que nos olhámos como nos westerns, as últimas pessoas à face da terra, o vento a soprar, pó no ar, frente a frente com as mãos preparadas para sacar, uma gota de suor a escorrer lenta bochecha-queixo abaixo. Imagina o silêncio a esticar-se.
E depois ao mesmo tempo:
- A sanidade relativamente intacta!
- Sofrer sem que seja por nada.
Se fosse um western, teríamos acertado as duas, e o mundo acabaria. Em vez disso, levantamo-nos e abraçamo-nos.
- Tive saudades tuas durante o verão.

Patrícia Louro