«Os escritores de ficção científica prevêem o inevitável.», Isaac Asimovzzz utopias
Nesta sessão inspirámo-nos no criador das 3 Leis da Robótica, em música e textos de ficção científica.
Estas foram as histórias que criámos.
 

Borboletário
 
Aqui no borboletário, levo uma existência marcada pela cadência das asas. Cada espécie tem o seu arbusto, o seu lugar. Sou responsável pela manutenção do asseio, da ordem e do equilíbrio deste sistema. Conheço cada mariposa que nasce. Recolho as que caem, cansadas de voar e de viver. Coloco-as, então, nas histórias que contos às crianças que nos vêm visitar. Por vezes irrompem pássaros transviados por aqui adentro. Causam estragos e fazem grande alarido. São sempre uma aparição ou, quiçá, um prenúncio. Depressa tudo volta a serenar.
Contemplo as borboletas, magia do ar e quase consigo esquecer a sua natureza intangível.
Aqui, debaixo da redoma de hologramas que habitamos, onde a matéria é cada vez menos densa e a consciência mais pesada.
Fernanda O’Brien
 
Os livros
 
Estou cansada... os meus olhos estão a arder por ter que seguir os milhões de letras que desfilam no ecrã.
Há já anos tivemos que renunciar aos livros, esses objetos que agora quase ninguém conhece, sobretudo as crianças, acostumadas até a brincar apenas com os videojogos... nenhuma delas brinca com os amigos na rua, ah, era muito bonito ouvir as vozes alegres delas...
Fecho e abro os olhos: ainda bem! Era só um sonho... levanto-me do sofá, abro a janela e lá em baixo estão crianças que jogam à bola, felizes. Dirijo o meu olhar para o estante onde estão os meus livros, tomo um deles, «Os Lusíadas», de Camões, folheio as páginas, cheiram bem, sento -me novamente e leio...
Giuseppa Giangrande
 
Nostradamus
 
Nos idos de 1500, Nostradamus profetizou que no início de 2000, o anti-Cristo haveria de emergir do povo amarelo, habitante do reino dos morcegos, e engolir o mundo.
Em 2020, o povo amarelo manipulou um vírus que alastrou pelo planeta e ceifou milhões de vidas.
Os maníacos da investigação científica e os obcecados do marketing digital tanto empreenderam que destruíram as calotes polares e a chuva nunca mais voltou.
Em 2022, um louco na Rússia lançou todo o armamento nuclear, químico e biológico de que dispunha, e o planeta Terra explodiu de um ápice.
Um tipo que se ia suicidar de uma janela teve o trabalho facilitado assim como outro que inventava um implante de um botão de suicídio imediato.
As cinzas do planeta vaguearam pelo espaço e pousaram nas mãos de Cristo que sorriu para Nostradamus, no buraco negro onde o céu esteve escondido desde o início dos tempos.
Helena Campos

Sentir
 
Passaram-se mais anos, do que aqueles que tinha desde que disse “sim”.
Não assinei nenhum papel. Nem gravações. Não há qualquer registo. Nunca os há.
Apenas uma assinatura cerebral.
O único momento em que me permiti dizer “sim”, na minha mente.
O descuido. O lapso momentâneo.
Ainda sou do tempo em que as conversas que tinhamos connosco próprios, eram privadas.
Bastou um momento de fraqueza.
As nossas gerações não sabem o que é poder. Somos observados, por olhos que não conhecemos e por olhos que não vemos, que nos julgam a todo o momento.
A culpa foi da minha geração que os deixou entrar.
Dissemos que sim, depois voltamos a dizer que sim, depois ainda outro sim…
Quando demos por nós, o fim eram as regras.
Por nossa culpa, os nossos filhos não podem ter um pensamento errado sem ter receio de uma punição severa.
Por nossa culpa, os nossos descendentes nunca saberão o que é ansiar sem ter medo de ser interrogado, torturado e utilizado como um saco de carne para eles disporem a seu bel-prazer.
Eu, fui dos que lutou por esta sociedade.
Como me deixei levar.
Mesmo assim, durante muito tempo persisti.
Vi colegas e vizinhos desaparecerem. Até aí tudo bem.
Na minha cabeça, era certo. Os meios justificam os fins.
Por uma sociedade mais pura. Mais feliz.
Só me custou quando começaram a ir atrás dos meus.
Primeiro pensei que não podiam ser tão bons quanto os tinha em conta.
Depois, que se calhar não tinham de ser perfeitos.
Em seguida, talvez estivéssemos todos a ser demasiado rígidos.
Acreditei que enquanto sociedade iriamos apercebermo-nos do erro e ajustar, antes que fosse demasiado tarde.
Os meus filhos desapareceram.
Foi quando, por fim, desmoronei.
Tudo estava errado. Mas também já não queria saber.
À minha volta, a sociedade era uma amálgama sem nexo nem consequência. Não queria saber.
Vivi para ver o sol tornar-se cinzento.
O prazer morreu. E com ele nós também.
Então, cometi o erro.
Esqueci as normas de conduta e olhei para ela.
Já nem sabia o que era luxúria quando o fiz.
Cobicei. E ela sentiu que a cobicei.
Os olhos que tudo vêem não perdoaram a minha falha.
Fui levado para a Sala pouco depois.
Um homem à minha frente disse-me, sem mexer os lábios, o MAL que eu tinha cometido e como todos os MALES, devem ser expurgados, de imediato. Havia, contudo, uma solução. Ele disse-me qual era.
A minha pele era importante. Nela, podia residir a solução para vários males.
Só tinha de dizer “sim” e deixavam-me continuar a existir.
Por momentos, senti-me um ser humano que responde a uma pergunta, de igual para igual e disse que “sim”, sem proferir uma palavra.
Estava feito.
O homem saiu da sala. Nunca mais o vi. Mas, também, nunca mais vi ninguém.
Só os robots que retiram camada a camada a minha preciosa pele e verificam os meus sinais vitais durante todo o dia, todos os dias que restam da minha vida.
Pensei que já não existia sofrimento.
Afinal, ainda havia espaço dentro de mim, para sentir.
Rita Santos
Jacinta chegou a casa era já noite, com o cansaço da odisseia que tinha sido aquele 27 de março a latejar nos seus pés.
Entrou no escritório sentou-se na cadeira das secretárias e ligou o computador. Desde pequena que tinha dificuldade em lidar com mortes, e tinha visto bastantes, mas agora havia uma maneira de não ter de chorar mais.
Digitou a sua password e entrou na aplicação. Depis, afastou o cabelo da nuca e com os dedos sentiu a entrada USB. Puxou o cabo do computador e ligou-se. Olhou para a fotografia de Manuel na mesa. No ecrã surgiu a mensagem: «Deseja esquecer o dia todo?» - Jacinta disse que sim.
Quem não morre vive para sempre e Manuel continuaria, agora, vivo dentro de si.
Rita Santos
 
 
 
Jacinta chegou a casa era já noite, com o cansaço da odisseia que tinha sido aquele 27 de março a latejar nos seus pés.
Entrou no escritório sentou-se na cadeira das secretárias e ligou o computador. Desde pequena que tinha dificuldade em lidar com mortes, e tinha visto bastantes, mas agora havia uma maneira de não ter de chorar mais.
Digitou a sua password e entrou na aplicação. Depis, afastou o cabelo da nuca e com os dedos sentiu a entrada USB. Puxou o cabo do computador e ligou-se. Olhou para a fotografia de Manuel na mesa. No ecrã surgiu a mensagem: «Deseja esquecer o dia todo?» - Jacinta disse que sim.
Quem não morre vive para sempre e Manuel continuaria, agora, vivo dentro de si.   
Rita Gomes

 

O filho do Diabo

O filho do diabo pode amar o seu Pai? Era uma pergunta inevitável para Hans Bessman naquela manhã em que se vê confrontado com as notícias hediondas sobre os massacres levados a cabo pelos russos em Kiev.
A sucessão de imagens arquivadas há muito na sua memória brotava agora vulcanicamente, como farrapos soltos de magma incandescente a incendiar o cérebro. Recordar sua mãe Ulrika e o horror soviético era incontornável e deixava-o paralisado.
Seria possível o diabo amar o seu Pai?
Nascera em Brandeburgo, num berço dourado, num lar feliz em que se ouvia epicamente o som de Wagner, discutia-se Friedrich Nietzsche, e a gloria germânica.
O seu afetuoso Pai, Rodolfo Bessman, era alto e forte, como um cavaleiro teutónico, tarjava orgulhosamente um uniforme das SS no dia em que morreu metralhado na defesa de Berlin em 1945.
A invasão russa, a barbari, as violações, a obsessão pela morte indiscriminada, tudo fazia feder a podre, a pólvora e a vodka na capital do Reich.
A viúva Ulrika Bessman, fora uma alemã orgulhosa, mas tudo acabara mal, a Pátria tombara, restando apenas a chacina, a dor, o medo e vergonha.
Por amor, sim por amor, tenta poupar os seus cinco filhos ao sofrimento e à desonra, despejando a luger de família na sua prole, guardando a última bala para estourar os seus próprios miolos de seguida.
Morreram todos os Bessman, ou quase todos...
Hans, foi salvo ainda com vida por um oficial soviético que o cuida e entrega a uma enfermeira da Cruz Vermelha.
Ingrid era o nome dela, Ludovic o do herói russo que o salvara.
Hans filho de um Nazi e mãe assassina, foi odiado e apelidado de um «imundo», um proscrito pelos vencedores e vítimas da guerra, um portador de uma culpa que não lhe pertencia.
Hans, não poderia sobreviver se não tivesse amado o diabo em segredo, o que haveria de ser dele, sem esse pai extremoso e inventado de quem tanto sentia falta. Era verdade que ele amara o diabo um dia e não via mal algum nisso.

Frederico d'Orey