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O Espanador limpa o pó dos locais mais recônditos. Desta vez, foi até ao armário dos sapatos e das fez-se ao caminho dos textos com 3 desafios:

Uma história com sapatos
Este sapato tem a sua história
Uma história com a expressão «gastar a sola dos sapatos».

Eis alguns dos textos escritos na sessão.

 

 

 

 

Uma história cheia de sapatos

Ele vivera toda a vida com uma pedra no sapato – tinha a profissão errada – e volta e meia dava à sola dos maus empregos que ia arranjando. O irmão dizia-lhe que havia sempre um sapato velho para um pé cansado e que haveria de encontrar um emprego à medida. Ele contraponha que todos os patrões eram ingratos, faziam
dele gato e sapato e havia mais ingratos que sapatos. Uma vida a gastar sola de sapatos a procurar empregos que não serviam, pois, a vida era dura como a sola de um sapato. Os outros, a quem Deus dava botas apesar de já terem sapatos, não conseguiam porem-se nos sapatos dele. Arranjar um emprego estável era uma bota que ele não conseguia descalçar. Andava de sapato raso sem cunha e quando finalmente alguém por caridade lhe meteu uma cunha bateu as botas.

Helena Campos

 

Uma história sobre sapatos

A Ana adorava sapatos desde criança. Sapatos, sapatilhas - ou ténis como muito mais tarde aprendeu - botas, sandálias, chinelos. O que servisse no pé e no seu gosto, nem sempre muito requintado, a Ana calçava. Vibrava com o cheirinho a sapatos novos nas duas sapatarias onde ia com a mãe e a avó nos anos 90, antes de os centros comerciais acabarem com a magia de entrar numa loja quentinha e luminosa, num final de tarde escuro e chuvoso de Inverno. Normalmente um fim de Sábado, depois da missa. Era a melhor hora para comprar sapatos, segundo os antigos. 
De mão dada com a mãe e a avó, a pequena Ana fervilhava de entusiasmo quando experimentava calçado nunca antes usado por ninguém. Não tinha riscos, nem vincos nem a sola suja nem formato de pé. Um sapato novo era como um caderno em branco onde muitas histórias podiam ser escritas. 
Escolhidos os sapatos e paga a fatura que a pequena Ana não entendia, era chegada a hora de imediatamente os calçar. Viver em sapatos novos era viver mais alegre, era um mundo de experiências e histórias novas. Os sapatos velhos eram remetidos à sua nova caixa e, com muito gosto, encerrados os seus tempos áureos. 
O problema da pequena Ana vinha depois: colocar os sapatos no chão e, efetivamente, andar neles. A sujidade das ruas, os vincos ao dobrar o pé e, pior que tudo, a possibilidade de alguém distraído e desastrado pisar o sapato novo!
A experiência de comprar sapatos novos terminava invariavelmente em lágrimas, nesta dicotomia que a vida também é, entre as aventuras que ansiamos e os arranhões que tememos. 


Este sapato tem a sua história

A minha avó mostrou-o numa das mãos:
Este sapato, tal como o vês, tem a sua história. 
E contou-me que aquele sapato pertencera a António, que não conseguia esquecer.
Por vezes, disse-me, deitava-se na cama com o sapatinho pequeno entre as duas almofadas: a dela e a do meu avô, que mantinha o seu lugar na cama intacto, mesmo já lá não dormindo há tantos anos. E assim adormecia, com o marido e o filho juntinho de si, imaginando-os felizes ao rirem-se dela e da sua falta de oportunismo para finalmente ocupar a cama inteira. 
Uma noite, no silêncio do pequeno apartamento onde agora vivia sozinha, jura tê-los ouvido a rir. “Eram eles”, disse-me. “O teu avô e o teu tio que eu bem os ouvi”. 
Quando acordou, o sapatinho continuava no mesmo lugar, entre as duas almofadas. Inexplicavelmente, dentro de um deles, repousava uma pétala de rosa amarela. “Eram as flores que o teu avô me dava sempre”, explicou-me em lágrimas. “Nos dias em que as saudades do meu António apertavam, eram rosas amarelas que me aqueciam o coração”. 


Gastar a sola dos sapatos

Gasto a sola dos sapatos e o chão da maternidade. Percorro mais quilómetros hoje do que em qualquer uma das mini-maratonas em que ultimamente me (es)forço a participar. Não gosto propriamente de as fazer, mas seduz-me imaginar que fujo da realidade, desta vida que não escolhi.
Quando páro de correr, estou aqui e não vejo saída. Estou nesta vida que eu não quero, nesta rotina que nada tem do que sonhei para mim. Um filho! Estou prestes a ter um filho e nem por mim próprio sei olhar. Que exemplo de pai serei eu? O que tenho eu para ensinar a um novo ser humano a quem eu já desejei a morte mesmo antes da vida? O que lhe vou contar sobre o amor - a minha verdade? Serei capaz de suportar o olhar de condescendência adolescente quando, ta como me disse o meu pai, lhe disser que o amor é uma “treta inventada por Hollywood"? Quanto tempo levará até que ele desista de mim - um pai frustrado, sem amor e sem valor, que lhe deu a vida e lhe desejou a morte?
“Parabéns, Pai. O seu rapaz já é um valentão!”. Não reajo. Vejo-o, mas não lhe toco. E então choro. Choro como nunca e sinto o sabor diferente destas lágrimas. “São lágrimas de amor”, atira-me a enfermeira, sem piedade pela minha convulsão sentimental embaraçosa. Sinto-me a sufocar: o meu pobre cérebro não sabe como processar tanta informação emocional.
Arrependo-me: de não o querer, de maldizer o dia em que, por uma horas de prazer, o concebi. Como fui ridículo durante toda a vida; tantas palavras inúteis, tanto tempo mal gasto. Deus deu-me botas, filho, e eu já tinha sapatos.

 

Ana Rocha

 

Problema

A situação de Ernesto era preocupante. De facto, os sapatos eram perfeitos. Protegiam os seus pés de todas as intempéries, permitiam-lhes percorrer o país de uma ponta a outra num só dia sem nunca ficarem cansados. Contudo, os sapatos eram tão bons que não os conseguia tirar. O interior tinha se tornado numa câmara selada e os seus pobres pés, encurralados, serviam de alimento aos residentes fúngicos e bacterianos das profundezas. Pouco faltava para um dia a carne, junto com as suas enervações, desaparecer. Esse seria o dia em que os ossos deixariam de ser guiados pela sua vontade e finalmente descansariam no chão. Se ao menos tivesse dado mais atenção à etiqueta dos sapatos quando os comprou: Muito obrigado, ao comprar estes sapatos orgânicos está a prestar uma grande ajuda ao meio ambiente.

Desafio

Alcina mostrou-o numa das mãos.
Este sapato, tal como vês, tem a sua história.
E contou-me que aquele sapato pertencera a Jorge, que não conseguia se separar do seu tesouro reluzente.
Por vezes até enchia com ouro fundido o interior na esperança de começar a nascer na sua própria pele joias e safiras.
Uma noite, sentiu que precisava de se divertir e fez uma aposta com a sua criada. Se ela conseguisse remover o sapato sem o danificar podia ficar com ele. A criada concordou com os termos, mas nada fez, ficou sentada no quarto até Vladimir adormecer profundamente depois de uma das suas habituais bebedeiras. Quando acordou não conseguiu sentir o pé direito a mexer-se. Alcina tinha-o habilmente removido a partir do tornozelo com uma serra ao longo da noite para não atingir a preciosidade. Ora bem, não tinha outra opção senão cumprir o prometido. A criada saiu toda contente dos seus aposentos, mostrando a todos no corredor o seu prémio merecido. Pobre Jorge, tinha de se contentar por ainda ter o sapato do pé esquerdo.
 

Desejo

Finalmente. Porque é que não tinha pensado fazer isto há mais tempo, pensava Augusto enquanto cavava. Era ainda criança quando Dom Afonso lhe tinha tido: Se trabalhares bem serás recompensado. Não precisava de dinheiro porque a mansão providenciava-o com comida e alojamento, mas sempre quis ter algo que o destacasse dos demais. As botas do seu mestre eram a moda da altura e, portanto, cobiçadas. O problema era que Dom Afonso lhas deixara no seu testamento. Portanto, em vez de esperar mais pela vida decorrer de forma natural, Augusto decidiu apressá-la. Nesse momento sentiu a tampa do caixão a bater na pá, abriu-o e agradeceu ao seu mestre as botas bem merecidas.

José Maria Covas