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A escrita na primeira pessoa faz parte da história da literatura. Pode ser diarística, confessional. Ou mais ficcional, onde o autor escreve num «eu» que criou e narra de acordo com a visão, vocabulário e recursos dessa personagem. Este ponto de partida pode tornar-se um exercício de escrita interessantes - escrever do ponto de vista de alguém com problemas mentais, ou alguém que perdeu a memória, uma criança, um analfabeto (que talvez dite um texto), um animal.

Seguimos a última vida e criámos textos na primeira pessoa a partir de outras personagens.

 

 

Evolução

Não sabia para onde ia. Também nunca tinha pensado no assunto. Era como se fosse uma máquina orgânica programada para realizar certas tarefas. Andava pelas redondezas em busca de fácil alimento e voltava para o ninho um dia atrás do outro. Imitava os humanos nesse aspeto. Eles viviam e morriam no mesmo local sempre a fazer mesma coisa, quer fosse ir para o trabalho de contabilidade ou casar-se e ter filhos. De facto, não percebia como é que esta era a espécie dominante. Os poucos pensamentos que tinham apodreciam após anos e anos de entupimento mental. Não era muito difícil ultrapassar estes vegetais ambulantes e viver à sua custa.
Ele começara a questionar-se acerca das suas ações há já algum tempo, portanto sabia o que queria, ao contrário dos outros corvos, ainda presos à sua natureza básica. Era bom não só habitar mansões esquecidas pelos seus ocupantes com luz, aquecimento e comida à sua disposição, mas também de dar uso às asas. Sim, elas definiam-no, pois permitiam-lhe ver mais além do que os humanos num curto espaço de tempo.
Os humanos haviam criado latas voadoras para tentarem ser como ele sem sucesso. As suas criações não faziam parte deles, porque eram apenas casulos usados para percorrer longas distâncias. Os humanos que saíam lá de dentro eram os mesmos que começaram a viagem. Permaneciam inalterados, presos nos seus corpos. Já Jacinto mudara com cada navegação ao sentir a mudança do vento, da chuva, do mar, da terra e do sol.
Apercebera-se de que as asas eram o veículo para a liberdade, a maneira de fugir da sua condição animal. Estaria a usá-las como era suposto? O universo não lhe podia ter dado esta ferramenta para não ser aproveitada, ou então não queria saber e a decisão era inteiramente dele. De uma maneira ou doutra, acreditava em si e na sua capacidade de um dia fazer o que as mentes humanas já nem conseguiam imaginar: soltar as amarras e sair desta bolha prisional chamada Terra. Talvez assim conheceria outros como ele para finalmente ter companhia neste estranho mundo que o concebeu.

José Maria Covas

O que as paredes viram

De súbito explodi. As portas das minhas salas abriram-se em simultâneo, largando uma multidão de pés em fuga. Uma professora tropeçou no seu salto agulha e estatelou-se no cinzento da rampa. Um alarme suou estridentemente e abriram-se portões que nunca se tinham aberto.
- É sair, é sair, rápido, rápido!
Ele procurou a menina dos seus olhos, queria pegar nela ao colo, num ímpeto de primeiro amor, e sair dali para fora, provar-lhe de vez que era um herói, mas havia entre eles, como num pesadelo, um mar de corpos agitados. Impossível de atravessar.
Há primeiros amores que nunca se consumam, gastam-se os olhos e os dias e resta na memória um rastilho recalcado do que poderia ter sido.
O colega que fabricara o explosivo abrigara-se na cave que oscilava aos saltos de todas as cores entre o álcool e a droga.
Reunião no conselho directivo. Sanção disciplinar máxima: expulsão.
Não sei se o explosivo tinha ácido sulfúrico ou hidróxido de sódio. Nunca fui bom a química. Cheira mal o laboratório.
À noite dei na televisão. Fui notícia de abertura no telejornal. Estávamos em 1986 e passava a seguir o filme Morte no Nilo. Agatha Christie.

Helena Campos


Eis que apareceram uns homens aqui no fundo do mar. Têm objetos estranhos nas mãos, o que estão a fazer? Pelo menos um pouco de movimento depois de tantos séculos de solidão, aqui na profundidade marina.
Contudo, tenho histórias interessantes para contar... desde aquele dia em que estava a voltar a Portugal daquelas terras longínquas com uma carga de mercadorias e objetos preciosos.
Mas a força do destino não quis que voltássemos, vítimas de uma tempestade que nos empurrou até esse abismo.
Estava numa agonia, esperava este momento em que alguém reparasse em mim. Estou ansioso por contar as minhas histórias, só assim posso voltar a viver...

Giuseppa Giangrande

 

Ouvi fechar uma porta com estrondo ao longe e despertei numa cama que não era a minha (ou era?). Estava tudo escuro, não havia uma fisga de luz, e no pânico de tentar perceber onde estava derrubei algo com os pés, ouvi o som do vidro a estilhaçar no chão. Voltas e voltas, talvez tenha gritado, ou pensei gritar, sem me conseguir lembrar como tinha ali chegado. Onde estava? Quando o barulho do meu coração a bater descompassadamente parecia ir engolir-me, a minha mão encontrou o que parecia ser um interruptor e sem saber bem como acendi a luz.
Reconheci o velho cobertor verde que me cobria as pernas, e o quarto da minha infância, com a mobília bege florida, embora não soubesse como tinha ido parar ali. Senti um aperto no pescoço e descobri um fio de ouro amarelo, com um medalhão em forma de coração, abri-o e lá dentro estava a fotografia de um homem, o qual nunca vi.
Não sei quanto tempo passou desde que abri o medalhão, nem como fechei a luz. O quarto esfumou-se e deu lugar a um jardim, onde voava (Que asas eram aquelas? Quando aprendi a voar?). Assim que pensei, deixei de saber voar. Pousei no que parecia ser o dedo de uma criança, um menino:
- Uma joaninha! Apanhei uma joaninha, mamã!
Tentei falar, com medo que me esmagasse, consciente da minha frágil condição. Lembrei-me que as joaninhas não falam, só voam. Senti as asas a mexer e voltei a saber como voar.
A porta voltou a fechar, voltei à cama (que cama?). O velho cobertor tinha desaparecido, procurei de seguida com os dedos o colar no pescoço, também já lá não estava lá. Voltei a acender a luz, e o meu quarto de menina, tinha-se transformado no meu.

Filipa Bernardo

O sol entra pelas frestas das cortinas do meu quarto. Acordo. Sinto-me feliz e descansada. Olho para o lado e não vejo o Luís. Deve ter se levantado mais cedo e foi comprar o leite para o nosso pequeno-almoço. “Vou começar a preparar as torradas”, pensei. Levanto-me, sento-me na cama e deparo-me com um degrau junto aos meus pés. “Para que raio é isto?”, disse, ignorando a sua existência. Levanto-me para ir à casa de banho. As pernas doem-me. Talvez tenha abusado ontem nas caminhadas. “Não faz mal, amanhã já deixaram de me doer”. Vou até ao lavatório e olho-me ao espelho. “Sou eu esta velhota? Meu deus! Que idade tenho eu?” Sinto uma dor angustiante no peito, porque subitamente me apercebo. O meu marido faleceu. Um misto de solidão, impotência e medo apoderam-se de mim. Começo a chorar copiosamente. Lembro-me do que ele diria se me estivesse a ver: “Vai fazer o que vieste fazer, sua parva. Continuas a ter necessidades fisiológicas!”. “Certo. É verdade, Luís. Tenho que ir fazer chichi”, exclamei.
Sem vontade de comer, dirijo-me à cozinha. Lembro-me da primeira noite que passámos juntos. Nessa madrugada eu tinha sentido fome e ele fez-me os melhores ovos mexidos que já alguma vez tinha comido. Sinto-me estúpida. Como é que ele não está comigo? Porquê? Porque é que ele tinha que morrer primeiro que eu? Sempre lhe disse: “Não comas isso, Luís, sabes que te faz mal! Vai ao médico, Luís. Tem cuidado com a tua saúde!”. Ouço uma chave na porta. “Luís?”, digo esperançosamente. Mas não, é o meu filho Diogo. É verdade, eu tenho um filho. “Olá, querido. Senta-te que a mãe faz-te uma torrada.”, digo cumprimentando-o com um beijo. Vou para agarrar na faca, e sinto uma tontura. Tropeço no tapete da cozinha. O meu filho agarra-me e diz: “Deixa estar, mãe, eu faço as torradas. Senta-te, aqui.”. Fico a olhar para o meu filho de costas, alto, com as proporções certas e com um belo rabo. “Tal pai, tal filho, afinal. Como é que de um dia para o outro me tornei nesta velha que nem consegue preparar a sua comida, nem se lembra do seu filho…”, pensei. Adormeço na cadeira da cozinha, entre lágrimas.
Era Outono e estava a chover a cântaros. De regresso a casa, eu e o Luís levamos pela mão o nosso filho que caminha entre nós. “Vou pisar a poça, não quero!”, exclama o pequeno. E mesmo antes de ter tempo de chegar junto dela, eis que eu e o Luís o levantamos pelos braços. De seguida, puxou-nos para que repetíssemos uma e outra vez.
Sinto um abanão no braço. “Em que poça tens tu receio de te molhar agora?”, disse eu, acordando sobressaltada. Vejo um homem à minha frente. Começo a gritar “Luís, oh meu deus, quem é este homem? Socorro!”. “Mãe, sou eu o teu filho.” “Não podes ser, o meu filho é apenas uma criança!” “Certo, mãe, é um facto que serei sempre uma criança. Mas também sou eu, mãe. O teu filho Diogo. Está tudo bem.” É verdade. De repente reconheço-o. Mas se ele é tão crescido. Não faz sentido. “O teu pai ainda está a dormir?, pergunto”. “Não, mãe. O pai não está a dormir”. “Ah, então deve ter saído para ir comprar leite. Eu prefiro esperar por ele para tomar o pequeno-almoço”.

Clara Barreto