«Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve.» Vergílio Ferreira

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Unidos, separados, rivais ou cúmplices, a relação entre o «eu» e o «eu escritor» ocupou parte da sessão de hoje. O ponto de partida foi o texto seguinte de Jorge Luís Borges:

«Ao outro, a Borges, é que sucedem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e demoro-me, talvez já mecanicamente, a olhar para o arco de um vestíbulo e o portão gradeado; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo o seu nome numa lista de professores ou num dicionário biográfico. Agradam-me os relógios de areia, os mapas, a tipografia do século XVIII, as etimologias, o gosto do café e a prosa de Stevenson; o outro partilha comigo estas preferências, mas de um modo vaidoso transformando-as em atributos de um ator. Seria exagerado afirmar que a nossa relação é hostil; eu vivo, eu deixo-me viver, para que Borges possa tramar a sua literatura, e essa literatura justifica-me. Não me custa nada confessar que alcançou certas páginas válidas, mas estas páginas não podem salvar-me, talvez porque o bom já não seja de ninguém, nem mesmo do outro, mas da linguagem ou da tradição. Além disso, eu estou destinado a perder-me, definitivamente, e só algum instante de mim poderá sobreviver no outro […] Há alguns anos tentei livrar-me dele e passei das mitologias de subúrbio aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora são de Borges e terei de imaginar outras coisas. Assim minha vida é uma fuga e tudo perco e tudo é do esquecimento, ou do outro. Não sei qual dos dois escreve esta página.»
Jorge Luís Borges, Borges e eu


A escritora e eu
Não escrevo sobre coisas de que não gosto, que não conheço.
Quando escrevo, prefiro encontrar “inspiração”nas lembranças, em todas aquelas coisas que me dão alegria.
Escrever para mim revelou - se algo inesperado. Nunca tinha pensado em que um dia podia tornar-me uma escritora. Por amor de Deus! Não me considero verdadeiramente uma escritora, mas o exercício de escrever dá-me a oportunidade de mergulhar em outros mundos, é como um desafio, também linguístico, que me permite em certo sentido de lançar uma ponte entre o meu aqui e o meu ali, de me aproximar a realidades também distantes. E de traduzir em palavras a minha imaginação, os meus desejos, as minhas saudades...

Giuseppa Giangrande


O laranjinha de olhos verdes saltava-me para o colo e estendia o dorso que eu afagava, numa volúpia de carícias, até à cauda ondulante. Quando eu parava, miava deliciado e colocava as patas dianteiras nos meus ombros, encostando os bigodes à minha face.
E assim ficava eu tardes de verão com um gato agarrado a mim, num abraço laranja e felpudo. Nesses dias, tínhamos longas conversas em gatês em que nos compreendíamos perfeitamente. Ele lamuriava-se nos seus miados delicados e eu respondia, na mesma língua, numa toada íntima.
Certo dia, a porta ficou aberta e ele atreveu-se a conhecer mundo. Foi barbaramente abocanhado por um cão.
E, no entanto, nunca escrevo sobre isto.
Eu odeio cães desde a infância, seres quezilentos de bocarra escancarada, sempre a ladrarem estrondosamente, a rosnarem com os dentes afiados ávidos de morder, e na sua malvadez, assassinaram o meu querido gato. Eu odeio cães, mas apesar disso, são eles que aparecem nas minhas ficções, são eles que são fiéis às minhas personagens, são eles que ganem de mansinho, de olhos a pedir festas, nas entrelinhas dos meus textos ficcionais.
Igualmente, eu que toda a vida fiz fila nas paragens de autocarro e desci escadas de metro por entre as turbas agitadas, eu que nunca sequer tirei carta de condução, apresento as minhas personagens ao volante de potentes automóveis, a atirar para as janelas embaciadas espirais de fumo de um cigarro que eu nunca fumei.

Helena Campos


A escritora e eu
Ela escreve à mão e sofre com os dedos presos que eu estraguei pelos teclados. Prefere a verdade dessa dor, a verdade da caligrafia irregular, das palavras hesitadas e riscadas. Eu faço outras escritas - mentiras rápidas a preto e branco, tiros ao alvo. As madrugadas fascinam-nos, mas eu já não a acordo tão cedo como antes e, com o tempo, acabámos por partilhar também a preguiça. Perco-me na poesia e tento impô-la à outra. Em vão. Não se atreve, diz. Mas, aqui e ali, há uma personagem que fica parada a contemplar um fruto que amadurece, alguém com um abraço que derrete serras de neve. Sem ela saber, boicoto-lhe os movimentos. Preencho-lhe os dias com mudaneidades, distraio-as com frases-feitas, faço-a corar com textos berrantes. Não sei quem é mais impostora.
C. Borges