«Não só não me importo, como acho uma honra ser pirateado», Miguel Esteves Cardosozzz_olho.jpg

O intertexto cruza linhas de vários autores para criar uma nova narrativa, apropriada e recontextualizada pelo autor. É uma das forma mais irresistiveis de partir para a escrita e de soltar a criatividade. Também para o leitor há o prazer em descobrir as «piscadelas de olho» que o autor vai deixando com citações e referências.

Na sessão, partimos de exemplos visuais, o Caravaggio da Cindy Sherman, por exemplo, e lemos Alberto Pimenta e Chico Buarque. Como material base para o intertexto, os participantes tinham alguns textos bem conhecidos: o Fogo que arde sem se ver, a Balada da Neve do Augusto Gil, os primeiros artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, uma lista de provérbios, um excerto do Cântico dos Cânticos o início do Inferno de Dante. Os participantes trouxeram ainda Fernando Pessoa.

 

Noite
É noite, fecho os olhos e vejo-me a caminho da Praça do Comércio. É uma noite brilhante como uma estrela, mas sopra uma ligeira brisa que acaricia o Tejo. Aproximo-me à beira, estou perto do Cais das Colunas.
Aparece um barco a vela, com velas brancas, parece um daqueles navios que há muito tempo sulcavam os mares e que se tinha perdido no mar indefinido, como escrevia Pessoa. O rio é assim, é como um mar indefinido.
Fico com fixos olhos rasos de ânsia
Fitando a proibida azul distância...
Abro os olhos, agora não estou mais lá fora, em Lisboa, mas perto de uma janela a fitar o céu estrelado, outro mar indefinido.

Giuseppa Giangrande
A partir de A Noite e outros texto de A Mensagem, Fernando Pessoa

 

Pau que nasce torto nunca se endireita.
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos, para inglês ver. No final do dia:
Não sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer ser nada
Á parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Sonhos que nunca se concretizam porque a tesoura do mal é incansável na poda das minhas vãs esperanças de realizá-los.
E é assim que
No meio do caminho da vida
vi-me perdida numa selva escura
E uma infinita tristeza
uma funda turvação
entra em mim, fica em mim presa
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?

Helena Campos
A partir de: provérbio popular, Declaração Un.Direitos Humanos, Álvaro de Campos (Tabacaria), Dante (Inferno), Augusto Gil (Balada da Neve).