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«Os escritores vivem duas vezes.», Natalie Goldberg

Na escrita cruzam-se tantas vidas que às vezes as linhas confundem-se e dão origem a biografias fantásticas. Nesta sessão, a proposta foi reinventar a vida de uma personagem, real ou de ficção. Dos muitos textos que nos podem inspirar para esta actividade, merece destaque o livro Histórias Falsas do Gonçalo M. Tavares.

 

 


Biografia de Shakespeare

Foram encontrados alguns escritos de William Shakespeare em siciliano. Graças a esses textos tem sido possível reconstruir a sua verdadeira biografia. O tal Shakespeare na realidade era Giovanni ou Michelangelo Florio, filho de uma condessa de Messina. Por causa das suas ideias heréticas foi obrigado a deixar a Sicília e depois chegou a Veneza, onde encontrou um mercador lhe emprestou dinheiro para uma viagem que o levaria, após diversas peripécias, a Inglaterra. Durante a sua estadia em Veneza, apaixonou-se pela bela Julieta, a filha do Doge, o homem mais poderoso da cidade, mas aquele amor foi contrariado e o pobre Michelangelo foi forçado a deixar a cidade. Outra vez uma fuga: o navio em que viajava foi atingido por uma tempestade que o fez rumar à Dinamarca onde uma sereia, que era uma princesa, lhe salvou a vida e o levou à corte do príncipe Hamlet. Aqui mais uma vez o Michelangelo foi protagonista de uma história de amor infeliz, junto a Ofélia, a noiva do príncipe. Fugiu novamente devido a isso, deixando Hamlet fora de si de raiva. Chegou finalmente a Inglaterra onde teve um enorme êxito, graças também às obras escritas em siciliano, como "Tantu trafficu pi nienti", ou seja "Much ado about nothing".

Giuseppa Giangrande

Pessoa ressuscitado

Ao acordar, Mister James Head descobriu que o seu quarto estava cheio de luar. Quando a lua começava a ser real, era tempo de partir.
Ele morria e nunca mais acabava de morrer. A curva da estrada era interminável.
Desta vez fora Mr. James Head e revisitara a cidade da sua infância pavorosamente perdida, onde outrora na barra do Tejo, de frente para o Atlântico, saudara o futuro.
E o futuro materializara-se ali na velocidade e na forma de pequenas máquinas a toque de dedo.
O seu antigo rosto tomava conta de tudo, rolhas, canecas, porta-chaves, cartões bancários, e era vendido aos turistas em miríades de objectos avulsos como símbolo da nação.
Na pele de Mr. James Head conseguira um lugar de professor na Faculdade de Letras onde tamborilava dedos impacientes em cátedras gastas e estrondeava gargalhadas perante a critica à sua obra.
As letras eram agora uma inundação de mulheres, toleironas deslumbradas que salivavam à mínima ressonância poética e borboleteavam à sua volta pedindo orientação para teses inúteis a que ele se recusava com displicência órfica.
Mas aquela Clara Queiróz era diferente, até no sobrenome lembrava a outra com quem há cem anos passeava tardes vagarosas no Jardim da Estrela.
E só a ela deu a chave de uma velha casa azul, ali ao Príncipe Real, onde a sua arca jazia com papeis nunca antes tocados e que ela devia abrir naquela hora crepuscular e absurda.
Ela chegou, ajoelhou-se junto à arca com luvas reverentes e ele, escondido na sala ao lado, colocou o bigode, os óculos, vestiu a gabardine, pôs o chapéu e assomou à porta.
- Ai que eu estou a alucinar! – gritou ela, levando as mãos à cabeça.
- Mas tu ainda não percebeste, Clara? Eu sou Fernando Pessoa.

Helena Campos


Qualquer Ana pode ser Karenina

Ana era a “hit girl” do momento, bonita, dona de dois olhos azeitonados, rosto oval, cabelos pretos liso, invariavelmente apanhados numa trança, elegante, talvez um pouco magra demais, sempre aprumada, ao invés de andar à moda, ela ditava-a, inteligente e culta, cursara Clássicas e Histórico-Filosóficas, estudara inglés e francês muito para além do imposto pelo ensino oficial, lera avidamente os livros que havia na casa do pais, na dos avós, na dos padrinhos. Beneficiando do ar dos tempos, que às mulheres já permitia que estudassem e lessem sem que por tal fossem crismadas de esquisitas ou mesmo perigosas, e do ambiente liberal vivido em casa, tinha até ao casamento sido dispensada dos lavores, da cozinha, da puericultura e afins.
O casamento foi rápido. O marido – quinze anos mais velho, advogado conceituado, viúvo dum casamento que terminara envolto em mistério [da mulher dizia-se que morrera no parto mas também que se suicidara ou ainda que fora morta às mãos dum amante, consentido pelo marido, já então impotente], mistério cultivado pelo próprio ao recusar activamente falar sobre o assunto - tinha o charme que se insiste que têm dos homens de quarenta anos, de que as mulheres nunca beneficiam, pois dizia eu, o marido encantou-a com versos sussurrados de Baudelaire, ausente de todas as atrás referidas Bibliotecas, daiquiris e slows lascivos ao som de Gainsbourg e Jane Birkin, transgressões absolutas num Porto conservador e praticante da moral da Família Inglesa e das Pupilas do Senhor Reitor dum Júlio Dinis falecido há quase um século.
Ninguém nunca soube o que se passara na lua de mel, gozada nas Américas – novidade absoluta num meio em que as meninas sonhavam com Veneza; Paris ou Roma, mas se contentavam com ir a Lisboa, quando muito à Madeira – mas para todos era visível que Ana regressara um tudo nada mais magra, com olhos um tudo nada maiores e mais brilhantes, com olheiras até então inexistentes. Tudo foi levada à conta da mudança de estado e da excitação dos States, de Nova Iorque, de Chicago, de S. Francisco, das muitas flores e do muito love, nunca ninguém sonhando, sequer, que talvez houvesse algumas outras coisas cujo nome ainda mal se sabia no Portugal de então.
O marido embrenhou-se de novo nos casos, não de tribunal, não era essa a praia dele, mas na advocacia de negócios, rendia mais e dependia apenas dele.
E em Ana continuava a acentuar-se a cada vez mais evidente magreza, o brilho dos olhos, as olheiras profundas. As leituras continuavam, as reuniões diletantes também, mas tudo se consumia num sem propósito que lhe esvaziava o fulgor. Ana já não era “hit”, estava magrérrima, ao estilo heroin chic só celebrado uma vintema de anos depois, os olhos perderam o brilho, o cabelo teve que ser cortado cada vez mais curto para encher o rosto, a roupa de bom corte não assentava nos ossos.
Um dia Ana conheceu um dos clientes do marido, um russo descendente de russos brancos, olhos azuis (tão azuis como os do Vronsky da sua homónima Karenina), e por ele se perdeu, mais do que já se perdera da Ana que um dia fora.

Paula Carvalho