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«Se soa a escrita, reescreve», Elmore Leonard
 
Escrever diálogos é um equlíbrio entre a oralidade e os códigos da escrita. Mas também apenas através de uma conversa entre personagens, pode ler-se uma narrativa completa, uma história que vai para além do que é dito. 
Para treinarmos, propusemos este último caminho. 
 
 

A entrevista

- Bom dia. Venho para a entrevista de emprego. Fui convocada.
- Certo. E o seu nome é?
- Judite Silva
- Sim, está aqui o seu currículo. Porque concorreu a esta vaga?
- Fiquei desempregada o mês passado e ando à procura de uma nova oportunidade de trabalho.
- Porque ficou desempregada? A empresa onde estava faliu?
- Não. Mudou de gerência. A nova gerência decidiu reduzir o pessoal
- Estou a ver. Descreva-me as suas funções.
- Bem, atualizava bases de dados, fazia tabelas e gráficos, traduzia catálogos, trocava emails com clientes e fornecedores.
- Ou seja, tarefas administrativas. Mas você tem um curso superior, não tem? E já é sénior com essa idade, não é? Não lhe davam outras responsabilidades?
- A gestão era muito autocrática…Não havia categorias profissionais. Era obedecer.
- Então porque não mudou de empresa mais cedo? Com essa idade…
- Porque não havia anúncios durante a crise económica.
- Mas você tem de mexer-se. Tem de ser resiliente, empreendedora e proactiva
- Pois
- Pois. Nós não queremos gente velha e lerda aqui, está a perceber?
- Olhe, eu não gosto de psicólogos. Sempre a acharem que a culpa é dos pobres. A gente só quer um salário ao fim do mês para comer e pagar a renda da casa. Adeus – levantou-se e bateu com a porta.

Helena Campos


A Festa de Anos

-“ Conseissão, Ana Bela, Baneça, Felóra...” –teve que se concentrar para continuar a leitura, perdida que estava de riso – “Tumás, Carlus i Máuru.” “São só estes?”.
- “Sim, sim mãe.”
- “Bicos de patu, rissoes de peiche mas tamém pode ser de carne, corquetes, pipocas doces mas tamém pode ser salgadas, aquela coisa que é de xocolate e se come com colher mas não sei o nome e não é bolo, parece puré, bulinhos de bacalhau, alface de frutas...” – para quem andava no primeiro ano até não estava mal escrito de todo, se se lesse em voz alta percebia-se, mas ...– “Alface de frutas?!”
- Oh mãe, é aquela alface que se faz sem as folhas verdes, leva só maçã, pêra, uvas, ananás, mas não é daquela com sumo de borbulhas, com o daquela vez na casa da minha madrinha e fiquei cheia de sono e acordei mal disposta...”
- “Ah, já sei, salada de frutas “
-“É isso mesmo! Mas em casa da madrinha era uma salada com muito refresco com borbulhas, devia ser daquela água com pedras, não gostei nada.”
- “Pois, não gostaste tu nem eu quando soube que tinhas bebido cup” – pensou a mãe, prosseguindo depois em voz alta – “Não achas que falta alguma coisa?”
- “Acho que não mãe, está tudo o que gosto, ah, se calhar uns queques, aqueles pequeninos com manteiga e compota, adoro, adoooro!»
- “Scones?”
- “Isso!!!”
- “Mas então, o principal, o bolo de anos?”
- “Ah, isso... olha, se calhar fazemos como no ano em fiz cinco anos e morreu a tia Mariazinha e não tive festa: viras uma tigela de marmelada ao contrário e espetamos sete velas. Estava maravilhoso, mesmo com a cera toda derretida e apesar de ter apanhado uma dôr de barriga, ih!ih!ih! O que achas?”

Paula Carvalho
 

- Sabes que és muito bonita?
- Obrigada, mas não preciso dos teus elogios. Já sei o que tu queres.
- Tens a certeza? O que é que achas de mim?
- Sei lá! Ou melhor, já sei que és uma mentirosa, mentes como um cesto roto!
- És injusta comigo.Eu quero só um pouco de companhia e falar um bocadinho.
- Vai-te embora!
- Acho que estás nervosa.
- Tu és a que me enerva.
- Mas porquê?
- Basta de histórias! Falei de mais, agora chega!
- Como queres, vou-me embora. Mas eu...
- Vai -te embora, não ouviste?
- Está bem, vou - me embora.
- Finalmente compreendeste?
A pobrezinha, a lombriga, vai-se embora. Mas volta logo, foi a recolher uma florzinha para a oferecer à maçã.
- Outra vez aqui?
- Esta é para ti.
- Oh... eu... eu... creia que tu querias comer-me...
- As aparências iludem às vezes...
- Não tenho palavras para te agradecer... fui injusta contigo...
- Não faz mal... amigas?
- Está bem.

Giuseppa Giangrande

Nós

- Ele tem qualquer coisa fisgada, já te disse…
- Cala-te.
- Tu sabes, tu sabes…
- Sei o quê?
- Que as perguntas dele têm um fim…
- Qual fim?
- O nosso! O nosso fim!
- Cala-te!
- Porque é que ele nos fechou aqui?
- É para nosso bem…
- Porque é que não nos deixa ver ninguém?
- Para o bem deles…
- Já te deu mesmo a volta a cabeça… Estás a ouvir?
- O quê?
- A ti! Já falas como ele.
- Eu falo como eu.
- Coitado. Achas mesmo que ele quer o teu bem?
- Não quer…?
- Nunca quis! Eu não tinha razão com os comprimidos?
- Tinhas…
- Não era verdade que te faziam dormir o dia inteiro?
- Faziam...
- E que desde que os começaste a esconder debaixo da língua não ficou tudo melhor?
- Não sei se é melhor… tenho pesadelos.
- Mas eu não estou sempre lá contigo?
- Estás.
- Não estive sempre contigo desde que éramos crianças?
- Estiveste.
- Não é melhor assim?
- Ele diz que não…
- Ele, ele, ele… qualquer dia…
- Qualquer dia o quê?
- Damos cabo dele.
- Não podemos…
- No dia da enfermaria… o bisturi de cortar as ampolas…
- O bisturi…
- Tiram-te o sangue e tu muito mansinho pedes para ficar a descansar…
- E depois..?
- Depois a enfermeira vai ao doutor e tu sacas o bisturi…
- Posso sacar…
- E na consulta… zás!
- E ficamos livres?
- Sim.
- E não há comprimidos?
- Não.
- E não diz mais que és só…
- Só...?
- Só... vozes…
- Cala-te!

C Borges