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Histórias completas (a partir de novembro/21)
 

Duvidar é humano e eu sou apenas humana (completo)

Não devia ter sido tão assertiva. Fui um tanto rude. Mas de que outra maneira poderia eu defender-me? Ela agiu mal e eu tinha que a fazer ver isso mesmo. Não porque eu lhe esteja a tentar dar uma educação que ela não teve, mas sim porque ela tem que perceber que não pode esperar tratar-me daquela maneira sem que eu responda. Não deixarei que a minha pacificidade demonstrada até então seja confundida com fraqueza. No entanto, mesmo sabendo que ela agiu mal pelo que fez, não consigo não me sentir mal, culpada pela maneira como falei. Talvez houvesse outra maneira de me expressar. É uma parvoíce, eu sei. Mas é humano duvidar, é humano errar. De certa forma, quem me diz que ela não está a pensar também no mesmo? Pela pessoa que é não creio que seja o caso. Mas não tenho a certeza, naturalmente. Quero ser uma pessoa melhor, não quero errar. Mas de que forma espero eu melhorar sem errar?
Eu sou uma máquina a fazer erros, erros em linha de montagem, erros em cascata, o erro sistemático, o erro em dominó, o erro tragédia grega.A babel da linguagem, a polissemia, as múltiplas interpretações de uma frase.
Aspiro a uma vida bonançosa e não à sobressaturação em que vivo atolada.
Ela era a minha chefe, a minha patroa, dela dependia a minha sobrevivência.
Que naquela empresa não havia teletrabalho – disse ela com displicência
- Como? – espantou-se o inspector da ACT – estamos em pandemia!
E chamou-se o sindicato e 3 doutos advogados para clarificar a frase.
- Chame a polícia! Meta em tribunal!
Já imaginava as calúnias no tribunal.
- Chega sempre atrasada, passa a vida no dentista, não sabe nada.
Os machistas dos juízes haveriam de ficar do lado da entidade patronal, e eu estou farta desta violência opaca que nos tolhe.
Vi-me a mim própria, como um autómato de cera, a assinar um acordo de revogação infame e suicidário e sair porta fora para uma Lisboa alienada.
Sim, a alienação apoderou-se de mim, assim como da cidade. A minha cabeça estava confusa, vagabundava pelas ruas de Lisboa, sem que percebesse nada do que estava a acontecer ao meu redor.
Assim transcorreram as horas, num caminho que parecia sem fim.
Era já noite, apanhei um eléctrico que me levou a dar a volta à cidade, parecia que estava num carrossel, numa ronda louca que não parava.
Acho que acabei por adormecer, porque de repente uma mão me sacudiu do torpor em que me encontrava.
Saí do eléctrico, que me restituiu de qualquer maneira à vida, na cidade vazia.
Desde uma janela rompeu o silêncio da noite uma antiga canção italiana: Città vuota e fiquei a pensar em como podia sair daquele beco sem saída...
A filosofia new age veio em meu auxílio e uma das minhas vozes (chamo-lhe Bette porque é uma típica personalidade de tipo A, sempre motivada para me pôr em movimento. É verdade que a Bette original não é nada new age, mas no calor dos apuros estas distinções são detalhes com pouca importância), recitou: Uma longa viagem começa com um único passo!
E os meus pés obedeceram, começaram a mover-se, um à frente do outro, em direção à janela de onde provinha a canção «Le strade piene/ La folla intorno a me/Mi parla e ride».
Nisto, o telemóvel começou também a cantar dentro na mala, «Peguei, trinquei e meti-te na cesta,/ ris e dás-me a volta à cabeça/Vem cá, tenho sede, quero o teu amor d'água fresca/ Peguei, trim».
- Alô?
- Estou a falar com a senhora Clara Machado dos Reis?
- A própria.
- Sou o senhor Calvo, do sindicato. Estou a telefonar-lhe para resolvermos esta situação amigavelmente.
Foi nesse momento que a sua personalidade mais pragmática, a Senhora Custódia, se manifestou.
-Já está resolvido, não se preocupe.
Antes de o homem poder responder, Custódia tirou da mala o controlo remoto e premiu o botão. Clara recuperou os sentidos com o som da explosão do edifício para o qual tinha retornado, ao som da música sugestiva das suas personalidades.
-Desculpe, não a consegui ouvir bem com o barulho de fundo?
Clara desligou o telefone, horrorizada com o sucedido, mas depois, a música regressou. De olhos arregalados para as chamas, um pé começou a mover-se, depois o outro. As mãos também inconscientemente se juntaram à dança. Por fim, Clara entregou-se ao impulso súbito de se despedir da sua antiga vida e começar de novo. Tudo graças às suas ricas amigas. Conheciam-na de ginjeira e sabiam como motivá-la a resolver os seus dilemas existenciais.
Clara Barreto
Helena Campos
Giuseppa Giangrande
Patrícia Louro
José Maria Covas

Fantasmas na biblioteca (completo)

- Você andou no liceu ABC – irrompeu uma voz no silêncio da biblioteca municipal.
Eu levantei os olhos para ver quem falava, mas não o reconheci. Tinha ido à biblioteca ultimar uma pesquisa necessária e não esperava que o passado se intrometesse, de rompante e a más horas, na calmaria ordeira do presente.
Fixei o meu despropositado interlocutor e respondi:
- Sim, é verdade, mas isso foi há 35 anos.
Mas para ele não havia 35 anos, era como se estivesse plantado e enraizado no ABC e o passado fosse eternamente presente, sem descolar do chão sagrado da infância.
- Mas você era da minha turma? – perguntei, perscrutando o seu rosto, subitamente rubicundo, em busca de perceber quem ele era.
O meu cérebro, atafulhado e gasto, não conseguia localizar, assim de repente, no catálogo de colegas da adolescência, quem era aquele sujeito.
- E você foi para que área? – indagou ele, antes de fugir com uma pressa inusitada, deixando-me a olhar para aquela porta que vai dar ao passado.
Aquilo da área fez-me localizá-lo, tinha-me cruzado com ele, nos idos de 84, no gabinete de orientação vocacional do 9ºano, onde eu desgracei a minha vida ao escolher a área errada.
Depois, voltei a encontra-lo mais 3 vezes, em diferentes bibliotecas, como um fantasma, que surgia do nada, abalroando o silêncio daqueles templos de leitura e acabando por fugir velozmente, como se fugisse para o interior dos livros.
Voltei à primeira biblioteca. Estava decidida a continuar o trabalho de pesquisa com que me tinha comprometido. E isto apesar do pânico de ser máquina nervosa de não escrever coisa nenhuma. Afinal aquela história de fantasmas não podia ser verdade. Claro está; não contei a ninguém; não me fossem dar como louca varrida por um fantasma do 9.º ano. Vá lá, não tinha as cuecas rotas; já não era mau.
— Parvoíce. — exprimia o meu cérebro.
Sentei-me noutro sítio. Justamente, o oposto de onde me sentava habitualmente. Não fosse o Senhor Fantasma tecê-las e aparecer-me de novo. Abri, mais uma vez, O Discurso do Método, cuja tradução portuguesa insistia em chamar «Renato Cartésio» a Monsieur Descartes. «O bom senso é a coisa do mundo mais bem distribuída».
— Que reconfortante; nada melhor que ideias claras e distintas! — desabafava o meu cérebro consigo mesmo.
O fantasma inesperadamente saiu do livro e falou-me:
— Pandam, pandam. Aqui ‘tou eu; em espécie de malin génie.
— Cruzes canhoto! Lá está ele outra vez. — expeli eu de surpresa.
Julguei estar louca; lá continua ele a turvar-me as ideias, agora escuras e indistintas. Qual corcundinha perturbador, das histórias de infância alemães, do início do século, ele assobiava e girava os livros sob a mesa. O Senhor Bibliotecário olhava-me com um ar inquisidor, pois eu fechava os livros de rompante — na sua perspectiva claramente redutora — para que eles (os livros) o levassem.
— Raios o partam! — pensava o meu cérebro indiscutivelmente atarefado.
Ele corria entre as estantes dos livros e eu, num ímpeto, corria atrás ou através dele.
— Já nem sei bem. — lamuriava-se o meu cérebro que já não aguentava com uma gata pelo rabo.
Tudo isto foi o suficiente para que o bibliotecário se precipitasse atrás de mim a correr, gerando uma perturbação generalizada na biblioteca normalmente pacata.
O Senhor Fantasma abriu a porta do passado — a tal por onde o havia reconhecido da primeira vez — e sem hesitar corri atrás dele, entrando lá para dentro. Ou era isso, ou teria que explicar algo inexplicável ao Senhor Bibliotecário.
Lá entrei e ele esfumou-se.
Um ambiente profundamente azul, mas de uma claridade inusitada. Um passo instrumental de tonalidades inescrutáveis e na minha cabeça um gira-discos impossível cantarolava lentamente: «Huuummm / She wooore bluuue veeel-vet / Bluer than velvet was the night / Softer than satin was the light / From the stars / She wooore bluuuue velvet / Bluer than velvet weeere her eyes». Era uma sala toda enfeitada com espelhos emoldurados à maneira dos russos. Enormes, douradamente espalhafatosos, mas de algum modo graves. Cada espelho reflectia a imagem de uma fase da minha vida até aos idos de ‘84, onde eu me via acompanhada desse fantasma. Ele-mesmo, o Senhor Fantasma, mantendo-se igual a si próprio, mas em situações onde não poderia ter estado, segundo a memória que o meu cérebro conservava desses eventos. E o disco girava repetitivamente na minha cabeça nesse tempo em suspenso como uma fotografia, cujo canto inferior esquerdo estava queimado pelo sol.
Abri os olhos na hora do fecho da Biblioteca, cabeça encostada nos braços, sobre o livro. Pisquei várias vezes em busca da imagem do azul infinito do meu pesadelo, entre atração e horror... Mas tudo parecia igual, a mesma mesa, na mesma sala de sempre. As pessoas saiam da sala aos poucos, silenciosamente, apenas murmúrios de despedida ao bibliotecário. Habitantes normais deste mundo recolhido, não identifiquei o meu fantasma nem os fantasmas de mim própria.
Levantei-me devagar, receosa do que poderia ser real ou imaginário, de ser novamente tomada por aquela memória psicadélica dos meus receios. Não acreditava que o pó e o tédio do “Discurso do Método” pudessem ter um efeito tão fantasioso. Não tinha experimentado cogumelos...
Invadiu-me o medo, a idade... a saúde... teria tido um AVC? Já que li que nas paragens do coração, quando e cronometro do nosso corpo interrompe, o nosso cérebro passa-nos rasteiras, o passado nos assalta e o azul, um azul profundo nos arrasta.
Quando cheguei a casa encontrei o Discurso do Método na entrada. Quem teria tido a amabilidade de mo entregar? Talvez alguém vira como o meu estado mental me tinha feito deixar o livro na mesa da biblioteca, com a folha de requisição por cima. No entanto, a folha de requisição permanecia vazia.
Ao folhear as páginas deparei-me com uma carta dirigida a mim pelo meu colega fantasma. Nesse momento, o filme da nossa vida passou à frente dos meus olhos e, não aguentando mais, caí no chão, enquanto as lágrimas inundavam-me a cara. Mas por que razão eu lhe tinha pedido para me impressionar com um gelado naquele dia abrasador? Talvez se não tivesse atravessado a rua a correr, para apanhar a carrinha, estaríamos na mesma área, a fazer juntos pesquisa na biblioteca…
E, como disse, passaram pelos meus olhos imagens de um passado que, muito infelizmente, não vai voltar.
Apesar de tudo, não tinha morrido, nada disso... andava a ler aquela carta e as lágrimas continuavam a cair copiosamente...
O texto, ao final, lembrou-me algumas coisas que tinha esquecido e que estavam escondidas no fundo da minha alma. Agora entendia o que aquela visita inesperada nas várias bibliotecas significava para mim: eu tinha sempre considerado as minhas escolhas como um erro, mas talvez não fosse assim... sim, finalmente podia entender também o sentido da vida e do ser feliz: é importante não ter remorsos e a felicidade é amar o que se tem...
Aquele fantasma tinha irrompido na minha vida para me lembrar disso e agora queria muito reencontrá-lo para agradecer, quiçá possa ter novamente essa oportunidade...

Helena Campos
Benjamim
Helena Aragão
José Maria Covas
Giuseppa Giangrande

O desafio (completo)

Não tinha escrito já há muito tempo, não tinha vontade de fazê-lo, não sei por quê.
O meu amigo, o meu editor, vendo a minha indolência, desafiou-me a escrever algo, estava em jogo a minha reputação de escritor de renome. Deu-me um ultimato: dois dias para escrever uma história, não era importante o quê. Fundamental: ter uma história.
Então, o que fazer? Comecei a fumar como uma chaminé e daquelas linhas traçadas pelo fumo, começou a surgir algo interessante, pelo menos assim creio...
Para encontrar inspiração, tomei a decisão de dar um passeio, chegar até o rio e desfrutar do dia soalheiro.
A vista de um barco à vela sugeriu-me que podia escrever algo sobre mundos diferentes, longínquos, apesar de eu nunca ter viajado...
De afogadilho, corri como o vento para a minha casa e sentei-me para começar a escrever: frente a mim, a janela aberta, através da qual entrava uma leve brisa que levantava ligeiramente as folhas de papel que tinha posto no meu escritório. Na minha mão, a caneta... desta vez não ia escrever ao computador...
As caravelas traziam especiarias e sedas das Índias e era uma grande barulheira no cais, uma azáfama de promissora riqueza e ociosidade.
Um sujeito de chapéu negro e vestes negras olhava o cais e escrevia de pé sobre uma pedra. Outro sujeito, cego de um olho, nadava furiosamente, com um manuscrito amarrado aos cabelos.
A terra estremeceu e as caravelas foram arremessadas para longe. Impossível atracar no cais. O cais, essa saudade de pedra, um quinto império obliquamente visionado, ali na barra do tejo.
- Olha o barco! – grita alguém, interrompendo a torrente de palavras do escritor.
Quando olhei para o cais, achei que estava a sonhar. A caravela da minha história tinha se materializado no rio. O pobre zarolho agarrava-se à âncora que velozmente descia enquanto a tripulação desembarcava. Finalmente a minha escrita tinha feito algo de bom!
Corri até ao barco na ânsia de ajudar o famoso escritor que se estava a afogar. Estendi-lhe a mão e, ao sair da água, a figura apressadamente desenrolou os cabelos para confirmar se o manuscrito estava intacto. A maré de alegria visível na cara do poeta despertou um negro impulso dentro de mim. Lembrei-me do ódio que sentira quando o meu editor me comparara com ele em termos de sucesso literário. Foi por isso que arranquei das mãos calejadas do náufrago o trabalho da sua vida e, de seguida, o incendiei com o meu isqueiro.
Ai! Rasguei o silêncio com um grito. Não fosse o cigarro queimar-me o dedo e não me aperceberia das chamas que comiam o papel. Sempre tive um sono profundo. Na minha atrapalhação, tentei apagar o fogo com as folhas que já tinha escrito. Idiota. A brisa tinha-se transformado num vento forte e espalhou as fagulhas por todo o escritório. Matei o assunto de uma vez por todas com a camisola que me tinha oferecido a Dulce, a mulher que escrevia livros duas vezes. Fechei a janela, com força. Na minha secretária, encontrava-se uma mancha negra onde antes pousavam páginas escritas. Empurrei o entulho para o chão e voltei a pegar na caneta. Entre calores: do suor e da irritação, veio a mim a determinação de Camões.
Eu era um escritor!
Um dia e meio, chegava. 
O sonho pode materializar-se, fechei os olhos, respirei fundo e voltei a ver a caravela. Agora ela partiu do porto rumo ao oceano para explorar, descobrir e enfrentar obstáculos como outras séculos antes o fizeram, pois há a uma imensidão de saber no mar que ainda não foi conquistado pela humanidade.
A pequena caravela já não leva aprendizes de marinheiro imundos a bordo, mas sim uma equipa de cientistas para estudar ecossistemas marítimos. Já não abre caminho para conhecer novas terras e gentes, mas saberes provenientes das profundezas do mar.
A aventura agora é outra, o desafio da minha caravela é explorar novas formas de vida que nos permitam construir o um mundo mais sustentável. Ela parte eu vejo-a desaparecer ao longe no imenso azul e aguardo pelo seu regresso, pelas novidades que ela me trazer de volta que e permitam à humanidade enfrentar os novos desafios do futuro.
Giuseppa Giangrande
Helena Campos
José Maria Covas
Rita Santos
Sandra Martins

 

 

O Labirinto das Escolhas 

Apareceram-lhe 5 ofertas de emprego ao mesmo tempo.
Na vida é sempre assim: durante largo tempo não temos nada, mas quando aparece algo, aparece às catrefadas, um engarrafamento de oportunidades e o peso inexorável da escolha.
E escolhemos sempre mal, e depois a culpa, a responsabilidade, a suprema angústia sartreana de quem está condenado à liberdade.
Sempre fora torturada por indecisões intermináveis e naquele instante voltou à estrada que se bifurca, à vertigem da decisão, a memória que se repetirá para toda a vida: porque não escolhi ao contrário?
Desenhou uma grelha com 6 linhas e 3 colunas onde escreveu as 5 hipóteses, vantagens e inconvenientes de cada uma, na senda de um qualquer algoritmo de engenharia decisional que lhe iluminasse a escolha acertada.
O algoritmo não surgiu, as vantagens e desvantagens cintilavam aleatoriamente em toda a tabela.
Era um momento pluripotencial, em que tinha abertos todos os destinos, todas as possibilidades, como um deus cego, ou como um escritor diante de uma página em branco.
O que fazer então? Decidiu entregar-se à sorte. Preparou cinco papelinhos em que escreveu os nomes dos cinco empregos - entre eles, havia um trabalho numa escola, um emprego de secretária, uma oferta para trabalhar numa editora em Lisboa, o que teria significado deixar a sua cidade, mas quem sabe... às vezes as maiores incógnitas escondem surpresas agradáveis - e começou o sorteio da sua lotaria. Tirou à sorte o primeiro papelinho e saiu a oferta de trabalho em Lisboa. Ficou um pouco perplexa e já que não estava convencida quanto àquele primeiro sorteio, tirou à sorte novamente. Parecia que o acaso estava a fazer pouco dela, porque saiu outra vez a oferta de emprego em Lisboa... Interrogou-se sobre aquela coisa tão estranha, estava preocupada com o dilema, agora o importante era saber o que ela verdadeiramente queria, ou seja... será queria realmente dar um salto para o desconhecido?
Novamente perante aquela encruzilhada .
Ou escolher aleatoriamente o que a sorte lhe destinava ou interiorizar bem o que queria fazer
Voltou a fazer uma tabela analisando os pontos negativos e positivos
De facto sair da sua zona de conforto onde se movimentava com segurança e partir para a cidade grande, impessoal, sem pontos de referência eram um ponto negativo
Iniciar um trabalho que parecia aliciante pois tratava-se de um projecto inovador com uma equipa jovem que parecia integrar- se no seu perfil eram um ponto positivo.
Resolveu contactar o responsável da empresa para esclarecer algumas duvidas e o resultado foi muito esclarecedor poderia ficar a trabalhar em casa, os encontros de grupo eram na maioria das vezes on-line, só precisava de ir a empresa uma vez por semana e ordenado era aceitável para uma principiante.
Então estava decidido não?
Não! o bichinho da dúvida persistia e se … na outra empresa as condições fossem ainda melhores?
Tomou então uma decisão, fez um novo quadro com todas as questões que queria perguntar nesta outra empresa com o registo de impressão positiva ou negativa para cada uma das questões e no final teria mesmo que decidir.
Então ligou…
- Memorex Limitada, bom dia!
- Bom dia... é por causa do anúncio de emprego...
- Senhorita, a entrevista é hoje, daqui a 20 minutos! É vir já, é vir já!
A voz urgente não lhe dava outra alternativa. E, se calhar, o melhor era não ter tempo para pensar.
Saíu do metro a correr e deu logo com o nome da firma em letras elegantes numa placa de vidro. Entrou no prédio e abriu o elevador - era antigo, de madeira, ferragens douradas e até com banquinho de veludo vermelho encostado ao espelho. De que tempo viria?
Estendeu a mão para a porta do escritório que se abriu de par em par. Estava numa enorme recepção de tecto alto pintado de anjos rosados e nuvens gordas.
- Boa tarde, senhorita!
Baixou os olhos até ao seu interlocutor.
- Amado Rubro, gerente. Por aqui, por aqui, venha senhorita...
Seguiu o homem por um longo corredor de tapete alto e fofo. As portas de um lado e outro mostravam gabinetes - um totalmente verde, decorado com plantas carnudas, outro, com tapeçarias indianas nas paredes, um, de espelho, outro, branco leitoso.
Entraram numa sala de reuniões. Trazia o curriculum na mão.
- Sim, sim, tudo visto, é para começar já..
- Mas..., o salário..., as condições...., o horário... ? - a lista de perguntas tão bem ensaiada esbarrava com a pressa frenética do gerente.
- É tudo como está na carta da senhorita. Vamos começar, que temos muito que escrever!
- Mas... escrever o quê, para quem, enfim... qual é o vosso ramo...?
- Memorex, senhorita, Memorex: fazemos memórias, novas recordações à la carte para clientes especiais. Vamos, vamos...
O seu novo trabalho tinha três tempos distintos: o de pesquisa, o da leitura e o de escrita. Levou-a a bibliotecas, a arquivos, tanto públicos, como pessoais, debruçando-se sobre inúmeros documentos, diários, cartas, fotografias, enfim o essencial de uma vida. Passava desses materiais, para as entrevistas, para os relatos na primeira pessoa, embora soubesse que quem conta acrescenta sempre um ponto. O passado ia-se compondo à frente dos seus olhos. Lia, relia, de forma objetiva, e só então, passava para a escrita, para a parte ficcionada, embora fosse importante ter um referente real.
Era essencial que a história fosse verosímil, que estivesse enquadrada no espaço e no tempo certo, senão, havia o sério risco de a invenção ser descortinada. Na Memorex, Lda. isso era um pecado capital, que poderia incorrer em processos morosos por parte dos seus famosos clientes, que pagavam as memórias em peso de ouro. Os clientes gozavam de um estatuto de privacidade total, levando a que todos na empresa tivessem assinado um contrato de confidencialidade, redigido pelo melhor escritório de advogados da cidade. Quando havia problemas no escritório, vinha sempre um batalhão deles, para ajudar nas questões legais.
Descobriu o seu talento para criar memórias infalíveis, tão possíveis de serem reais, que ninguém seria capaz de apresentar prova contrária. O seu momento favorito, era sentar-se à secretária de carvalho castanho escuro e deixar os dedos voar no teclado do computador. Quanto mais escrevia, mais sentia que tinha encontrado a sua vocação. E quando os clientes a pediam especificamente, embora trabalhasse sobre um pseudónimo, dava-lhe uma enorme alegria, sentia-se reconhecida. Era quase irónico, que ao investigar a vida de outras pessoas, tivesse começado a compreender de outra forma a natureza humana, dando-lhe também a ela uma segurança nos seus passos. Ela mais que ninguém, com as suas indecisões e com o seu passado desinteressante, conseguia compreender porque os clientes pagavam por essas memórias, por isso era tão boa no seu trabalho. Enquanto escrevia memórias, ia ao mesmo tempo escrevendo em paralelo um novo capítulo na história da sua vida.


Helena Campos
Giuseppa Giangrande
Isabel Soares
C.Borges
Filipa Bernardo

 

Ludmila e os Anjos

    Compravam cartuchos de cerejas e iam comê-los para os jardins, faltavam às aulas e aos trabalhos sem que nada de mal lhes acontecesse, adoravam algodão doce, baloiços, o nascer do sol e a lua cheia. Observando bem, percebia-se que, homens ou mulheres, todos inham bochechas como nuvens e soltavam risinhos que despertavam brisas lilases. Mas, de resto, estava a ficar cada vez mais difícil distingui-los dos verdadeiros seres humanos. Ludmila não estava contente com isso. Tinha acordado cedo, como sempre, e quando abriu a janela para deixar o resto da torrada aos pardais, viu um deles. Decidiu agir drasticamente.
   Meteu a cabeça fora da janela e gritou:
- Tu aí aproxima-te, quero-te conhecer melhor, saber como e onde vives e como poderemos ser amigos.
Mas ele, esvoaçando perto da janela, fixou-a com os olhos brilhantes e soltando um risinho maroto, deixou cair delicadamente uma cereja apetitosa no parapeito da janela.
Depois voando aos zig-zags no céu escondeu-se atrás de uma nuvem desapareceu como por magia
Voltou a gritar:
-Não me podes fazer isto.
Precisava de descobrir uma forma de o conquistar. «Já sei», lembrou-se, « talvez procurando naquela arca da minha avó, guardada no sótão e cheia de livros antigos, eu descubra algum texto sobre artes de comunicar com o sobrenatural, e assim consiga encontrar uma forma de os cativar…»
Então Ludmila foi ao sótão. Num primeiro momento não conseguiu ver a arca, escondida coberta por um lençol de cor azul. Levantou devagarinho o lençol que, por sua vez, fez alçar uma leve nuvem de pó, abriu a arca e ali estava o tesouro da sua avó: uma verdadeira biblioteca com textos de diferentes géneros que difundiam uma aura quase mágica. Tinham títulos como: A magia da música, O encanto do mar, Outros mundos... Entre os textos encontrou o que estava a procurar, mas só a imagem da capa deixava entender que o livro tinha a ver com os anjos: leu o título escrito numa língua desconhecida: Melekler... quem poderia agora ajudá-la a decifrar aquele idioma tão esquisito e para ela desconhecido? E então perguntou-se como teria aquele livro chegado até a arca da sua avó...
Ao abri-lo, deparou-se com uma carta, com uma caligrafia irrepreensível, as letras todas alinhadas e bem caligrafadas, sinal que a mesma já tinha alguns anos. Sabendo que estava a cometer uma ilegalidade, porque as cartas que não nos são endereçadas, não são para perscrutar, Ludmila começou a lê-la.
«Querida Jesus, com o mavioso toque da minha caneta, e como prova de todo o meu amor, ofereço-te este livro, redigido numa escrita que apareceu por volta do ano 500 a.C, na Península Ibérica, conhecida como a Escrita do Sudoeste, e que fala de anjos que apareciam para dar fortuna e boas colheitas aos povos que habitavam esta coordenada geográfica da Hispânia. Se o quiseres desvendar, segue até Loulé e procura pelo Senhor Maia dos Anjos. Toda a gente o conhece.»
Do teu, e aqui a leitura era irreconhecível.
Ludmila ficou sem saber o que pensar. A avó teria tido um amante? Valeria a pena descodificar aquela escrita? O senhor Maia dos Anjos estaria ainda vivo?
   «Ora a avó nasceu em 1918» – pensou com os seus botões – «há mais de um século portanto, morreu há dez anos, já entrada nos noventa, o senhor dos Anjos deveria rondar essa idade, dificilmente estará vivo. Uma pena que a mãe não esteja bem da cabeça, nem vale a pena perguntar-lhe, só iria gerar confusão...Por outro lado, ela parece lembrar-se melhor dos acontecimentos do passado. Loulé, Loulé, porquê Loulé? Toda a nossa família é beirã, bem toda, toda também não sei, porque a mãe é filha de pai incógnito incógnito, não daqueles incógnitos no registo mas que toda a gente sabia quem era. E por isso o autor da carta não era amante – será que era o avó incógnito?».
Ludmilla «googlou», sem convicção, «Maia dos Anjos», como única resposta apareceu uma sociedade de advogados no Brasil que dava pelo nome de «Maia & Anjos» e certamente não teria nada a ver com o assunto.
«Oh, que irritação!»
Abeirou-se da mansarda, olhou o jardim que anoitecia devagar, convidando ao repouso, à serenidade, em que Ludmilla progressivamente se deixou cair, esquecendo o frenesim que a afligia. Longe e perto os pequenos seres continuavam o seu afã ordenado, quais formigas. Os últimos raios de sol reflectiam-se neles, como que projectando uma aura quase invisível a olho nu. De repente caiu a noite e todo o jardim se iluminou, com o brilho de mil luzes que desenhavam sinos, laços e bolas, estrelas e cornetas; um arco engalanado unia a copa de duas árvores e nele podia ler-se «Feliz Natal Ludmilla». Era dia 28 de Novembro, começava o Advento.

C. Borges
Isabel Soares
Giuseppa Giangrande
Tiago Pina
Paula Carvalho

A oliveira que matava miguelistas

     Lancei-me à estrada e pelas indicações muito vagas que tinha, cheguei a uma vila do Alentejo e indaguei pela oliveira, convencido que a oleácea era uma atração turística; se não é grande novidade uma oliveira resistir várias centenas de anos, ter uma que matou com os seus próprios ramos, dezenas de miguelistas, deveria ser motivo de orgulho.
Ninguém sabia e, pelos olhares desconfiados que fizeram, diria que me acharam meio estavanado, para não pronunciar mesmo atoleimado. Ia já desistir, quando um senhor se abeirou de mim.
- Ouça lá, o senhor acredita mesmo nessa história ou é tão parvo como parece?
     Olhei-o, mantendo a expressão que me fazia passar por parvo. Interiormente, senti um arrepio frio, seco, metálico, os olhos, semicerrados, formando uma linha plana e negra, entre as frontes e o nariz, a boca, de tão fina, tornando-se invisível.
- Não há por aí, sequer, um olival antigo, não é dessas modernices que os espanhóis cá vieram plantar, todos alinhadinhos, quais tranças de carapinhas...
- Pois, compadre, venha daí comigo que já lhe mostro um desses antigos, já o mê avô e antes dele os avós dele e os avós dos avós lá trabalharam.
O “venha daí comigo” era só uma força de expressão. Meti-o no carro, obriguei-o a apertar o cinto e arranquei. Enquanto avançava pela sinuosa estrada municipal que me conduziria a um estradão pensei se os ramos de oliveiras suportariam um peso de 70 quilos para poder cumprir a função que eu, com indisfarçável gozo interior, ia antecipando.
    Saí do carro apressadamente, tirei o saco de pedras e coloquei-o num dos ramos finos daquela árvore ancestral. Eis a minha surpresa quando o ramo instantaneamente se quebrou.
- Estava à espera de uma árvore que se soubesse defender… Ela não ficou aqui parada quando os miguelistas a tentaram cortar aos bocados para fazer lenha.
Má hora em que disse isto, pois um novo galho brotou do cepo do velho na minha direção, penetrando o meu corpo e deixando-me empoleirado no ar a ver o meu próprio sangue a escorrer. Tinha pouco tempo. Reuni as minhas forças, encarei o homem pálido que se encontrava paralisado no chão e supliquei-lhe para tirar da sua lapela um bloco de notas e uma caneta.
De seguida pus-me a escrever desenfreadamente até chegar ao momento actual, em que o último sopro de vida me deixa ao acabar com a frase que ficará numa tabuleta aqui perto para a posterioridade: «Esta árvore parece franzina, mas por favor não se metam com ela para satisfazer a vossa curiosidade, pois as aparências enganam!»
     O alentejano ficou para ali espantado a olhar para aquele sujeito que lhe apareceu não sabia de onde e que acabava de ser morto por uma oliveira. Coçou a cabeça. A sua mente pendulava em dúvida sobre a decisão a tomar.
- Se chamo a polícia, ainda pensam que eu sou o assassino. Se não chamo, apodrece o cadáver pendurado na árvore.
Nisto passa um jipe que se detém ao pé da oliveira e dele sai um sujeito alto e barbudo.
- Eu conheço este homem – afirmou, apontando para a árvore – É o Miguel Travassos, foi meu colega. O que é que se passou aqui?
- Olhe – gaguejou o alentejano – este senhor pediu papel para escrever e de repente sentiu-se mal e a modos que desmaiou.
O barbudo arranca o papel das mãos do morto e fica assombrado.
E mais assombrado fica quando o tronco da árvore se abre com um fecho éclair e sai de lá um individuo a rir-se – Mais um que caiu na armadilha!
     Grande foi o espanto para o homem barbudo e o pobre alentejano. O indivíduo que tinha surgido do tronco da árvore continuava a rir, agora desatava às gargalhadas e avançava com olhar ameaçador para os dois homens. Foi o barbudo a certo ponto que dominou a situação. Não se sabe como é que de repente apareceu na sua mão direita um machado, que ele lançou com força contra o sujeito surgido da oliveira. O alentejano, neste entretanto, estava pasmado, incapaz de mexer um dedo... Ainda maior foi o seu assombro quando o machado atingiu em pleno peito o homem da árvore, que caiu redondamente no chão. Ao mesmo tempo, Miguel ressuscitou. Foi assim que um homem barbudo matou a oliveira que matava os miguelistas.

Tiago Pina
Paula Carvalho
José Maria Covas
Helena Campos
Giuseppa Giangrande

 

Recomeçar do zero

    A vida dela tinha sido sempre cinzenta, sempre na mesma rotina. Para dizer a verdade, tinha certa aversão às inovações de qualquer tipo.
Chegou a pandemia e a solidão, que fizeram a sua vida ainda mais cinzenta… quase cortou com os poucos contactos que tinha até àquele momento. E, de facto, a sua vida tinha sido isso: um vínculo muito forte com o verbo CORTAR. Tinham-lhe cortado as asas, cortado relações e cortado muito mais. Só ficara o sofrimento.
Agora, depois meses de isolamento, estava decidida a tomar as rédeas da sua vida, queria recomeçar de zero e apagar o passado. Ligou o rádio e ouviu Ricomincio da qui.
    Infelizmente o seu italiano estava um bocado ferrugento, por isso mudou de canal. Um locutor entusiasmado apregoava uma pulseira com polos magnéticos que atraíam a ressonância das profundezas terrestres e mudavam de cor e a vida de qualquer um. Era só ligar. Estava por tudo. Nem acreditava. Nunca tinha ganhado nada na vida e agora estava à porta da Rádio Relâmpago com o coração a bater. Na recepção já estava o envelope com o seu nome. Sentou-se num banco e abriu o pacote. Era linda, brilhante, cintilante e chamava por si. Pôs a pulseira no pulso. A cor de prata ficava mesmo bem com o resto do bronzeado do Verão. Abriu o volumoso livrinho que dizia anunciava: MagiMagnet – Pulseira mágica. Instruções e advertências. Tantas instruções, que estupidez, pensou, e levantou os olhos ao céu. Nesse momento chegava o autocarro. As instruções ficaram para trás. Deu um salto e agarrou-se com força ao poste do autocarro. A pulseira brilhava no seu pulso. Agora estava azul.
   O azul também combinava com o resto do bronzeado. Por isso, estava satisfeita.
Amplificou o som da rádio onde estavam a anunciar a entrega do prémio e sentiu-se grata por esta vitória.
Durante dez minutos fez-se embalar pelas melodias da Antena 3, para onde entretanto mudara. Bamboleava-se como uma praticante de Hula-Hula, oscilando entre voltas e contravoltas em torno de uma roda imaginária. Já quase conseguia visualizar o sucesso destes esforços, desde que os mantivesse durante as semanas necessárias. Outro recomeço cantaria e poderia regressar às saias e calças entretanto abandonadas por manifesta escassez de tecido nas ancas e na cintura. Estendeu o seu enlevo a um miúdo que lhe fazia caretas de se escangalhar a rir. Azar do menino, nada a faria cortar com os magníficos exercícios.
O autocarro deu um valente solavanco, e, quando se virou, indignada em direção do condutor que lhe estragava o parêntesis de ginásio, dirigiu um braço desajeitado para o suposto ofensor. Instantaneamente, a pulseira emitiu um raio luminoso sobre o espelho que o condutor consultava, ferindo-lhe a vista, levando-o a chocar estrondosamente com outra carreira. Gritos de pânico seguiram-se antes mesmo de ela parar de admirar o seu adorno.
- O que me terá escapado? -pensou, enquanto vários dedos apontados para ela encorajavam o polícia a algemá-la e a pô-la fora do veículo.
    - Assassina! Bruxa! Queria matar-nos a todos... Enfeitiçou o condutor com uma luz saída do nada... só pode ser um bruxedo do Demo! – vozes desencontradas vociferavam impropérios diversos, alguns impróprios para transcrição até porque o alvo era a mãe, não ela, como costuma aliás acontecer com os pobres dos árbitros. Sentia-se leve, apesar do ambiente tenso e explosivo, que, qual electricidade estática em dias de trovoada seca, apenas esperava a ignição certa para detonar e tudo mandar pelos ares, ela incluída.
Moveu o braço, ainda dourado do sol do Verão passado, a pulseira lançou um raio metálico, qual espada de Jedi, que a todos, menos ela, cegou. Aproveitou a confusão para se libertar das algemas, galgou os degraus do autocarro, olhou para ambos os lados e desatou a correr loucamente, em direcção à Liberdade anunciada pela toponímia local, sempre era avenida, larga e comprida, muito melhor do que a travessa donde saíra de manhã.
Bem sabendo que não o podia fazer, olhou para trás...
    E a pulseira desapareceu, tal como estava escrito nas advertências.
O pessoal do autocarro recuperou a visão e desatou a correr, enfurecido, atrás dela. Ela desceu o metro da avenida e atirou-se para dentro de uma carruagem que partia, quase a fechar a porta. Os seus perseguidores jamais a encontrariam.
Saiu na estação terminal da Amadora, entrou num cabeleireiro, pintou o cabelo de louro, comprou uns óculos e uma roupa vintage, respondeu a um anúncio de emprego colocado numa montra e assim recomeçou do zero.
Às vezes, basta uns instantes com uma pulseira nova para a sorte mudar.

Giuseppa Giangrande
C. Borges
Lídia Vieira
Paula Carvalho
Helena Campos

 
 
Uma Gaivota

Uma gaivota voa livre e feliz no céu. Ela está muito feliz por ser uma gaivota, porque não tem laços, pode ir e voar aonde ela quer, apesar de ter a sua casinha numa árvore no Miradouro da Graça em Lisboa. O que é mais interessante é que ela um dia pode estar em Lisboa, um dia na Sicília, um dia em África, um dia em vi rem ajuda Goa… e ainda mais interessante é que ela todas as vezes que volta para Lisboa, pode contar muitas histórias, até às crianças que nos dias de sol brincam nas ruas perto do Miradouro e às pessoas que lhe dão alguma migalha para comer. Acabou de voltar esta vez do Japão e está a contar a história de uma cerejeira que guardava um segredo…
Pois contara-lhe a cerejeira quão estranha se sentia com as modificações sofridas ao longo de todos os dias do ano: à explosão branca e perfumada que lhe vestia os ramos, sucedia-se a queda do virginal manto e o crescimento de frutos redondos e carnudos, vermelhos côr de pecado, após o que chegava uma pausa fresca e verdejante, mas, quando mais precisava de aconchego e agasalho, entrava numa hibernação despida e nua. Isto ano após ano, sem pausa, descanso, alteração ou imprevisão. “Quem me dera ser gaivota!”, suspirara a cerejeira “Partir e conhecer outros mundos, navegar pelos ares, ver as coisas ao longe e ao perto, não ter raízes...”
Ao suspirar com mais força, não é que a cerejeira tremeu e se desequilibrou? Quando as raízes se soltaram da terra, o ruído das pedras da calçada a chocarem umas contra as outras foi intenso e ensurdecedor. Uma senhora idosa que trazia o cão pela trela ainda se magoou ao tentar desviar-se de uma mão-cheia delas que a atingiram de raspão e o poodle da senhora perdeu o piu com o golpe que as pedras lhe fizeram no dorso.
Entretanto, a cerejeira inchada com o sufoco de perder a sustentação, só pensava em pôr-se em pontas, mas as raízes contorcidas em nada a ajudavam. Via-se já moribunda e derrotada para sempre nos seus sonhos de liberdade e vida mais ampla. No meio de tanto pânico, perdeu os sentidos.
Acordou com a frescura da manhã. Os jardineiros da Câmara esforçavam-se por a pôr em pé, e, à pergunta “Prontos?” reergueram-na e replantaram-na numa operação delicadíssima.
A cerejeira gritava debalde: “Não, não me prendam! Eu quero mudar de vida! Deixem-me voar.” E os homens, já muito transpirados, iam dizendo: “Pobrezinha, uma árvore tão bonita de que todos gostam. Merece bem uma segunda oportunidade!”
E os calceteiros convocados completaram a obra de restauro, perante o choque da bela cerejeira.
Mas à segunda foi de vez. Foi numa noite de breu povoada pelo silêncio absoluto. Ginasticou as raízes com toda a fúria que tinha até eclodir daquela prisão subterrânea e projectar-se nos céus. Falharam-lhe as asas que não tinha, sacudiu os galhos, fracos músculos, contra o vento e acabou por cair numa lixeira ali perto onde um carro do lixo descarregava caixotes.
- Que é isto? Agora caem árvores do céu? – espantou-se um funcionário
- E é uma cerejeira! Alguém que não gosta de cerejas – disse outro
- Mas ela vinha a voar!
- Alguém que a tinha num vaso num andar alto e a jogou fora. Vou levá-la para o meu quintal.
Ainda estremunhada pela queda, a cerejeira tentava libertar-se do lixo mal cheiroso, quando avistou a gaivota sua amiga que esgravatava na lixeira.
-Ora aqui estás tu de novo , mas minha amiga tenho que te confessar, afinal voar não foi nada uma boa ideia .Além de não ter visto nada ,não falei com ninguém e quando tentei ninguém me ligou ,a queda foi muito desagradável e agora aqui estou eu mergulhada nesta porcaria fedorenta, magoada e com alguns ramos partidos.
Felizmente vão me levar para um novo quintal onde espero tomar um bom banho e ser replantada com os pés bem assentes na terra ,e junto de companheiras simpáticas que alegrem os meus dias .
A gaivota sorriu e desejando -lhe dias melhores, voou para junto das outras companheiras.
No meio duma chinfrineira e esvoaçar de “adeuses” o bando partiu à procura de novas aventuras…

Giuseppa Giangrande
Paula Carvalho
Lídia Vieira
Helena Campos
Isabel Soares

 

 Sonhos

    Há quanto tempo estaria naquele quarto? Talvez semanas, ou até meses… Era tão difícil saber. Aliás, era exatamente por causa disso que tinha ido para aquele local longínquo, no qual o dia é um feixe de luz que atravessa o vidro da janela por uns breves instantes antes de ser consumido novamente pelas trevas envolventes. Precisava escrever. O problema não era a falta de ideias, tinha uma arca cheia delas, mas sim transfigurá-las da mente para o papel. Para isso tinha que estar totalmente concentrado e alheado da realidade do seu dia a dia, de maneira a meditar acerca da construção do universo da sua história.
    Estendeu o olhar para o horizonte azul que sempre o inspirara e deparou com uma senhora grisalha que passeava na calçada afagando um gato cinzento de pêlos reluzentes. A senhora, esguia e de passos determinados, derretia a sua firmeza em afagos e beijinhos breves ao seu bem escovado felino. Num desses momentos de distração deleitosa, o pescoço do gato esticou-se e o ágil acrobata de quatro patas aterrou no asfalto. Trazia um pardalinho entre os dentes aguçados. A senhora desfez o sorriso amoroso e ergueu o indicador admoestando:
- Oh, seu malvado! Vá, não te mexas e abre a boca devagarinho.
O gato mimado fez ouvidos moucos e, ostentando dentes semi-serrados, desenhou-lhe com as unhas um trilho de esqui, sangrando-lhe o braço estendido.
   Um gato traidor. Gente traidora. A traição sempre fora um bom mote para uma história. O desconcerto do mundo.De um lado, um personagem crédulo, de moral íntegra, uma boa pessoa, no que bom significa trouxa, pacóvio. Um simplório incapaz de entender a vida.Do outro lado, uma raposa astuta, de lábia matreira, de grande rodagem mundana a cortar as pernas ao tonto. Enfim, uma história tão velha como o mundo.Pegou numa esferográfica verde e num papel amarelo e começou a verter torrencialmente a história de um sujeito que tinha estudado para padre em tempos de antanho.De súbito, a realidade sobrepõe-se à escrita que se interrompe pasmada diante de uma pancadaria estrondosa na porta do quarto. 
    Abriu os olhos e foi acordando lentamente, permanecendo numa semi-vigília estremunhada, própria de acordares intempestivos.
Que história sem pés nem cabeça, pensou alto, sentindo um misto de angústia e de alívio, esperando ter o caderno de apontamentos e a caneta na mesa de cabeceira para a anotar, com todos os pormenores.
Entretanto, a pancaria estrondosa na porta do quarto transformara-se num som metálico que emanava dum objecto que vibrava sons e luzes – um despertador? Nestes tempos modernos, um telemóvel?
Orientado pela luz psicadélica do objeto que vibrava, tacteou a mesa de cabeceira mas apenas encontrou o vazio.
- Ai, ai, ai – gemeu, o pânico puro invadindo-lhe todo o corpo, bloqueando a mente, sentindo que estava prestes a hiperventilar, sem lexotans nem sacos de papel para ordenar a respiração.
Quando pensava que nada poderia ser pior, sentiu que algo húmido e macio lhe fazia cócegas no pescoço. Na sua cabeça, o coração parou de bater. Morri – pensou.
    Mas pouco a pouco recuperou a tranquilidade. Começou a tocar-se a testa, o pescoço, as mãos... Felizmente, estava tudo bem. Acendeu a luz e deu-se conta de que não tinha ido desta para melhor. Foi à cozinha, bebeu um copo de água e deu um suspiro de alívio. Assomou à janela, a luz do sol e o azul do céu acolheram-no. Decidiu sair de casa, para desfrutar daquele dia, na esperança de poder encontrar uma qualquer inspiração e finalmente poder escrever. Com os pensamentos voltou ao sonho, que tinha sido na realidade um pesadelo... uma vez em casa, sentou-se à mesa, tomou a caneta e começou a escrever. Voltando ao sonho, quis escrever algo mais positivo.
- É importante alimentar e infundir esperanças, não só descrever o mal.- pensou.
E as palavras fluíram na folha de papel, antes branca.
 
José Maria Covas
Lídia Vieira
Helena Campos
Paula Carvalho
Giuseppa Giangrande
 
 
Delírios 
 
   Um dos delírios que mais inquietavam Tomás era aquele em que um presidente alemão, meio prostrado num sofá, se foi despedindo estranha e misteriosamente da vida. Fora uma espécie de delírio individual que abriu portas escancarradas a um delírio coletivo.
Tomás examinou o cadáver inerte, frio, acinzentado metodicamente. O facto de ser madrugador ajudava-o pois não só conseguia dar o seu máximo no sossego da alvorada como ganhara fama de ser altamente intuitivo. Naquela manhã, porém, carregado como estava com o desgosto pela partida de Sandra, só conseguia repetir-se que ‘não via um boi’ acerca daquele corpo sem marcas gritantes de violência quanto mais o selo de um psicopata, ou mesmo de um assassino em série, que tão bem preencheriam algumas páginas sensacionalistas. Só o rosto pesadamente adormecido o prendia por lhe lembrar o do presidente cujo enigma ele tanto gostaria de ter investigado pessoalmente. Uma hora e meia depois, já com a equipa reunida, pôs-se à escuta de pistas que o despertassem para o diagnóstico que teimava em fugir-lhe. O que iria divulgar no final da manhã?
   Morrer assim pé ante pé, desligar a vida com se apaga um botão era característico de certos venenos que arroxeavam o sangue, paralisavam os pulmões e o cérebro expirava sem oxigénio como um peixe num aquário seco.
Sandra é que era especialista em drogas e batera com a porta. Toda a gente acabava mais tarde ou mais cedo por se volatilizar no ar.
- O que dizemos à comunicação social, doutor?
- Olhe, diga que morreu intoxicado por um veneno ainda não identificado.
De facto, o presidente alemão com quem aquele individuo se parecia sobremaneira também morrera de um estranho veneno que resultava desconhecido em todos os testes de laboratório.
   Aqui há gato!
Não se consegue identificar o veneno, já foram chamados especialistas e nada.
Por outro lado, também não se consegue perceber porquê assassinar este homem, um pacato cidadão comum.
Será porque era parecido com o tal presidente alemão? Terá sido uma ingestão acidental?
Pelo facto de estarmos perante a presença duma substância totalmente desconhecida da comunidade científica, acho que deveremos orientar a nossa investigação na procura dum cientista extremista, pois não é nada bom continuar à solta na posse de uma substância tão poderosa.
E logo agora que a Sandra bateu com a porta ela que costuma ser uma ajuda preciosa nestes casos.
Outro problema vai ser a Comunicação Social que estão de dentes afiados para saber quais a nossas suspeitas e não nos vão deixar tranquilos, o que perturba sempre a investigação.
   Aquele crime era um quebra-cabeças, a solução do caso parecia estar muito longe. De repente, quando parecia impossível chegar ao ponto final da investigação apareceram de maneira inexplicável na mão do morto algumas flores de cor azul, assim explicou a Sandra. O caso fazia-se ainda mais misterioso... A notícia do crime chegou a Alemanha e um dia Tomás recebeu um telefonema de um colega da polícia federal de Berlim. O tal Martin Piekkenagen falou também de misteriosas flores azuis encontradas na mão do presidente alemão. O Instituto Robert Koch tinha sido chamado para colaborar e deslindar a questão, tão complicada. Tomás era atormentado pelas dúvidas: havia uma possibilidade que o caso chegasse ao fim?
    Chegou a casa. Vazia. Sem Sandra. Desde que entrara naquele clube de leitura, tudo tinha mudado. Já não cheirava a leite creme ou aos mimos que ela preparava. Em vez disso, começara a haver grupo de homens barbudos e mulheres com meias grossas a ocupar-lhe o sofá e os maples a dar opiniões irritantes sobre livros – ah a Ana Karenina, ah o Nome da Rosa. Espera! Tomás ficou alerta. Havia qualquer coisa nesse livro, o que era, o que era… um veneno, isso era certo, mas como era…? Tomás deu um salto. Marcou o número da esquadra – vá, lá, vá, lá, Santos, atende homem… Sem esperar e com o telemóvel na mão enfiou uma manga no casaco e correu pelo quarteirão, subiu a escadas da esquadra, a arfar e a gritar:
- As flores, as flores…
Olhavam-no confusos. Tomás continuou a gritar:
- As flores, as flores...
Seguido por dois agentes correu pelo corredor para o gabinete do médico legista. Abriram a porta. O cadáver estava na mesa. No chão, jazia o médico com as flores entre os dedos.
Tomás fez uma conferência de imprensa, deu entrevistas, apareceu em todo o lado. Em quem apareceu também foi a Sandra, impressionada com a nova fama do ex-namorado. No café, Tomás contou-lhe o Caso das Flores Azuis. Rosablu era um clube de botânica para excêntricos interessados na mais misteriosa cor da natureza. Enviavam uns aos outros sementes, bolbos, enxertos e ervas. Uma mistura de bagas dos Himalaias tinha finalmente dado resultado, misturada com terra dava origem a flores de um azul puríssimo que vendiam por milhares. Mas se alguém tocasse nas pétalas, o pólen entrava pelos poros e ia paralisando todos os órgãos. Em todo o mundo todos os pés estavam a ser localizados e destruídos sob supervisão rigorosa. Amanhã mesmo chegavam os técnicos a Lisboa. Então ainda lá estava a planta? Sandra pediu, insistiu, fez beicinho, sussurou-lhe promessas ao ouvido. Era só ver... Prometia, prometia mesmo. A caminho na noite escura, perguntava mais, chamava-lhe herói, e como era isso de venderem a planta por milhares...?
Lídia Vieira
Helena Campos
Isabel Soares
Giuseppa Giangrande
C. Borges