z book

Histórias completas (a partir de novembro/21)

 

 Sonhos

    Há quanto tempo estaria naquele quarto? Talvez semanas, ou até meses… Era tão difícil saber. Aliás, era exatamente por causa disso que tinha ido para aquele local longínquo, no qual o dia é um feixe de luz que atravessa o vidro da janela por uns breves instantes antes de ser consumido novamente pelas trevas envolventes. Precisava escrever. O problema não era a falta de ideias, tinha uma arca cheia delas, mas sim transfigurá-las da mente para o papel. Para isso tinha que estar totalmente concentrado e alheado da realidade do seu dia a dia, de maneira a meditar acerca da construção do universo da sua história.
    Estendeu o olhar para o horizonte azul que sempre o inspirara e deparou com uma senhora grisalha que passeava na calçada afagando um gato cinzento de pêlos reluzentes. A senhora, esguia e de passos determinados, derretia a sua firmeza em afagos e beijinhos breves ao seu bem escovado felino. Num desses momentos de distração deleitosa, o pescoço do gato esticou-se e o ágil acrobata de quatro patas aterrou no asfalto. Trazia um pardalinho entre os dentes aguçados. A senhora desfez o sorriso amoroso e ergueu o indicador admoestando:
- Oh, seu malvado! Vá, não te mexas e abre a boca devagarinho.
O gato mimado fez ouvidos moucos e, ostentando dentes semi-serrados, desenhou-lhe com as unhas um trilho de esqui, sangrando-lhe o braço estendido.
   Um gato traidor. Gente traidora. A traição sempre fora um bom mote para uma história. O desconcerto do mundo.De um lado, um personagem crédulo, de moral íntegra, uma boa pessoa, no que bom significa trouxa, pacóvio. Um simplório incapaz de entender a vida.Do outro lado, uma raposa astuta, de lábia matreira, de grande rodagem mundana a cortar as pernas ao tonto. Enfim, uma história tão velha como o mundo.Pegou numa esferográfica verde e num papel amarelo e começou a verter torrencialmente a história de um sujeito que tinha estudado para padre em tempos de antanho.De súbito, a realidade sobrepõe-se à escrita que se interrompe pasmada diante de uma pancadaria estrondosa na porta do quarto. 
    Abriu os olhos e foi acordando lentamente, permanecendo numa semi-vigília estremunhada, própria de acordares intempestivos.
Que história sem pés nem cabeça, pensou alto, sentindo um misto de angústia e de alívio, esperando ter o caderno de apontamentos e a caneta na mesa de cabeceira para a anotar, com todos os pormenores.
Entretanto, a pancaria estrondosa na porta do quarto transformara-se num som metálico que emanava dum objecto que vibrava sons e luzes – um despertador? Nestes tempos modernos, um telemóvel?
Orientado pela luz psicadélica do objeto que vibrava, tacteou a mesa de cabeceira mas apenas encontrou o vazio.
- Ai, ai, ai – gemeu, o pânico puro invadindo-lhe todo o corpo, bloqueando a mente, sentindo que estava prestes a hiperventilar, sem lexotans nem sacos de papel para ordenar a respiração.
Quando pensava que nada poderia ser pior, sentiu que algo húmido e macio lhe fazia cócegas no pescoço. Na sua cabeça, o coração parou de bater. Morri – pensou.
    Mas pouco a pouco recuperou a tranquilidade. Começou a tocar-se a testa, o pescoço, as mãos... Felizmente, estava tudo bem. Acendeu a luz e deu-se conta de que não tinha ido desta para melhor. Foi à cozinha, bebeu um copo de água e deu um suspiro de alívio. Assomou à janela, a luz do sol e o azul do céu acolheram-no. Decidiu sair de casa, para desfrutar daquele dia, na esperança de poder encontrar uma qualquer inspiração e finalmente poder escrever. Com os pensamentos voltou ao sonho, que tinha sido na realidade um pesadelo... uma vez em casa, sentou-se à mesa, tomou a caneta e começou a escrever. Voltando ao sonho, quis escrever algo mais positivo.
- É importante alimentar e infundir esperanças, não só descrever o mal.- pensou.
E as palavras fluíram na folha de papel, antes branca.
José Maria Covas
Lídia Vieira
Helena Campos
Paula Carvalho
Giuseppa Giangrande

 

Ludmila e os Anjos

    Compravam cartuchos de cerejas e iam comê-los para os jardins, faltavam às aulas e aos trabalhos sem que nada de mal lhes acontecesse, adoravam algodão doce, baloiços, o nascer do sol e a lua cheia. Observando bem, percebia-se que, homens ou mulheres, todos inham bochechas como nuvens e soltavam risinhos que despertavam brisas lilases. Mas, de resto, estava a ficar cada vez mais difícil distingui-los dos verdadeiros seres humanos. Ludmila não estava contente com isso. Tinha acordado cedo, como sempre, e quando abriu a janela para deixar o resto da torrada aos pardais, viu um deles. Decidiu agir drasticamente.
   Meteu a cabeça fora da janela e gritou:
- Tu aí aproxima-te, quero-te conhecer melhor, saber como e onde vives e como poderemos ser amigos.
Mas ele, esvoaçando perto da janela, fixou-a com os olhos brilhantes e soltando um risinho maroto, deixou cair delicadamente uma cereja apetitosa no parapeito da janela.
Depois voando aos zig-zags no céu escondeu-se atrás de uma nuvem desapareceu como por magia
Voltou a gritar:
-Não me podes fazer isto.
Precisava de descobrir uma forma de o conquistar. «Já sei», lembrou-se, « talvez procurando naquela arca da minha avó, guardada no sótão e cheia de livros antigos, eu descubra algum texto sobre artes de comunicar com o sobrenatural, e assim consiga encontrar uma forma de os cativar…»
Então Ludmila foi ao sótão. Num primeiro momento não conseguiu ver a arca, escondida coberta por um lençol de cor azul. Levantou devagarinho o lençol que, por sua vez, fez alçar uma leve nuvem de pó, abriu a arca e ali estava o tesouro da sua avó: uma verdadeira biblioteca com textos de diferentes géneros que difundiam uma aura quase mágica. Tinham títulos como: A magia da música, O encanto do mar, Outros mundos... Entre os textos encontrou o que estava a procurar, mas só a imagem da capa deixava entender que o livro tinha a ver com os anjos: leu o título escrito numa língua desconhecida: Melekler... quem poderia agora ajudá-la a decifrar aquele idioma tão esquisito e para ela desconhecido? E então perguntou-se como teria aquele livro chegado até a arca da sua avó...
Ao abri-lo, deparou-se com uma carta, com uma caligrafia irrepreensível, as letras todas alinhadas e bem caligrafadas, sinal que a mesma já tinha alguns anos. Sabendo que estava a cometer uma ilegalidade, porque as cartas que não nos são endereçadas, não são para perscrutar, Ludmila começou a lê-la.
«Querida Jesus, com o mavioso toque da minha caneta, e como prova de todo o meu amor, ofereço-te este livro, redigido numa escrita que apareceu por volta do ano 500 a.C, na Península Ibérica, conhecida como a Escrita do Sudoeste, e que fala de anjos que apareciam para dar fortuna e boas colheitas aos povos que habitavam esta coordenada geográfica da Hispânia. Se o quiseres desvendar, segue até Loulé e procura pelo Senhor Maia dos Anjos. Toda a gente o conhece.»
Do teu, e aqui a leitura era irreconhecível.
Ludmila ficou sem saber o que pensar. A avó teria tido um amante? Valeria a pena descodificar aquela escrita? O senhor Maia dos Anjos estaria ainda vivo?
   «Ora a avó nasceu em 1918» – pensou com os seus botões – «há mais de um século portanto, morreu há dez anos, já entrada nos noventa, o senhor dos Anjos deveria rondar essa idade, dificilmente estará vivo. Uma pena que a mãe não esteja bem da cabeça, nem vale a pena perguntar-lhe, só iria gerar confusão...Por outro lado, ela parece lembrar-se melhor dos acontecimentos do passado. Loulé, Loulé, porquê Loulé? Toda a nossa família é beirã, bem toda, toda também não sei, porque a mãe é filha de pai incógnito incógnito, não daqueles incógnitos no registo mas que toda a gente sabia quem era. E por isso o autor da carta não era amante – será que era o avó incógnito?».
Ludmilla «googlou», sem convicção, «Maia dos Anjos», como única resposta apareceu uma sociedade de advogados no Brasil que dava pelo nome de «Maia & Anjos» e certamente não teria nada a ver com o assunto.
«Oh, que irritação!»
Abeirou-se da mansarda, olhou o jardim que anoitecia devagar, convidando ao repouso, à serenidade, em que Ludmilla progressivamente se deixou cair, esquecendo o frenesim que a afligia. Longe e perto os pequenos seres continuavam o seu afã ordenado, quais formigas. Os últimos raios de sol reflectiam-se neles, como que projectando uma aura quase invisível a olho nu. De repente caiu a noite e todo o jardim se iluminou, com o brilho de mil luzes que desenhavam sinos, laços e bolas, estrelas e cornetas; um arco engalanado unia a copa de duas árvores e nele podia ler-se «Feliz Natal Ludmilla». Era dia 28 de Novembro, começava o Advento.

C. Borges
Isabel Soares
Giuseppa Giangrande
Tiago Pina
Paula Carvalho


Delírios 
 
   Um dos delírios que mais inquietavam Tomás era aquele em que um presidente alemão, meio prostrado num sofá, se foi despedindo estranha e misteriosamente da vida. Fora uma espécie de delírio individual que abriu portas escancarradas a um delírio coletivo.
Tomás examinou o cadáver inerte, frio, acinzentado metodicamente. O facto de ser madrugador ajudava-o pois não só conseguia dar o seu máximo no sossego da alvorada como ganhara fama de ser altamente intuitivo. Naquela manhã, porém, carregado como estava com o desgosto pela partida de Sandra, só conseguia repetir-se que ‘não via um boi’ acerca daquele corpo sem marcas gritantes de violência quanto mais o selo de um psicopata, ou mesmo de um assassino em série, que tão bem preencheriam algumas páginas sensacionalistas. Só o rosto pesadamente adormecido o prendia por lhe lembrar o do presidente cujo enigma ele tanto gostaria de ter investigado pessoalmente. Uma hora e meia depois, já com a equipa reunida, pôs-se à escuta de pistas que o despertassem para o diagnóstico que teimava em fugir-lhe. O que iria divulgar no final da manhã?
   Morrer assim pé ante pé, desligar a vida com se apaga um botão era característico de certos venenos que arroxeavam o sangue, paralisavam os pulmões e o cérebro expirava sem oxigénio como um peixe num aquário seco.
Sandra é que era especialista em drogas e batera com a porta. Toda a gente acabava mais tarde ou mais cedo por se volatilizar no ar.
- O que dizemos à comunicação social, doutor?
- Olhe, diga que morreu intoxicado por um veneno ainda não identificado.
De facto, o presidente alemão com quem aquele individuo se parecia sobremaneira também morrera de um estranho veneno que resultava desconhecido em todos os testes de laboratório.
   Aqui há gato!
Não se consegue identificar o veneno, já foram chamados especialistas e nada.
Por outro lado, também não se consegue perceber porquê assassinar este homem, um pacato cidadão comum.
Será porque era parecido com o tal presidente alemão? Terá sido uma ingestão acidental?
Pelo facto de estarmos perante a presença duma substância totalmente desconhecida da comunidade científica, acho que deveremos orientar a nossa investigação na procura dum cientista extremista, pois não é nada bom continuar à solta na posse de uma substância tão poderosa.
E logo agora que a Sandra bateu com a porta ela que costuma ser uma ajuda preciosa nestes casos.
Outro problema vai ser a Comunicação Social que estão de dentes afiados para saber quais a nossas suspeitas e não nos vão deixar tranquilos, o que perturba sempre a investigação.
   Aquele crime era um quebra-cabeças, a solução do caso parecia estar muito longe. De repente, quando parecia impossível chegar ao ponto final da investigação apareceram de maneira inexplicável na mão do morto algumas flores de cor azul, assim explicou a Sandra. O caso fazia-se ainda mais misterioso... A notícia do crime chegou a Alemanha e um dia Tomás recebeu um telefonema de um colega da polícia federal de Berlim. O tal Martin Piekkenagen falou também de misteriosas flores azuis encontradas na mão do presidente alemão. O Instituto Robert Koch tinha sido chamado para colaborar e deslindar a questão, tão complicada. Tomás era atormentado pelas dúvidas: havia uma possibilidade que o caso chegasse ao fim?
    Chegou a casa. Vazia. Sem Sandra. Desde que entrara naquele clube de leitura, tudo tinha mudado. Já não cheirava a leite creme ou aos mimos que ela preparava. Em vez disso, começara a haver grupo de homens barbudos e mulheres com meias grossas a ocupar-lhe o sofá e os maples a dar opiniões irritantes sobre livros – ah a Ana Karenina, ah o Nome da Rosa. Espera! Tomás ficou alerta. Havia qualquer coisa nesse livro, o que era, o que era… um veneno, isso era certo, mas como era…? Tomás deu um salto. Marcou o número da esquadra – vá, lá, vá, lá, Santos, atende homem… Sem esperar e com o telemóvel na mão enfiou uma manga no casaco e correu pelo quarteirão, subiu a escadas da esquadra, a arfar e a gritar:
- As flores, as flores…
Olhavam-no confusos. Tomás continuou a gritar:
- As flores, as flores...
Seguido por dois agentes correu pelo corredor para o gabinete do médico legista. Abriram a porta. O cadáver estava na mesa. No chão, jazia o médico com as flores entre os dedos.
Tomás fez uma conferência de imprensa, deu entrevistas, apareceu em todo o lado. Em quem apareceu também foi a Sandra, impressionada com a nova fama do ex-namorado. No café, Tomás contou-lhe o Caso das Flores Azuis. Rosablu era um clube de botânica para excêntricos interessados na mais misteriosa cor da natureza. Enviavam uns aos outros sementes, bolbos, enxertos e ervas. Uma mistura de bagas dos Himalaias tinha finalmente dado resultado, misturada com terra dava origem a flores de um azul puríssimo que vendiam por milhares. Mas se alguém tocasse nas pétalas, o pólen entrava pelos poros e ia paralisando todos os órgãos. Em todo o mundo todos os pés estavam a ser localizados e destruídos sob supervisão rigorosa. Amanhã mesmo chegavam os técnicos a Lisboa. Então ainda lá estava a planta? Sandra pediu, insistiu, fez beicinho, sussurou-lhe promessas ao ouvido. Era só ver... Prometia, prometia mesmo. A caminho na noite escura, perguntava mais, chamava-lhe herói, e como era isso de venderem a planta por milhares...?
Lídia Vieira
Helena Campos
Isabel Soares
Giuseppa Giangrande
C. Borges