poesia

 

«Sê sempre um poeta, mesmo em prosa», Baudelaire
Baudelaire relembra-nos que prosa e poesia bebem provavelmente da mesma nascente. Pedimos aos nossos participantes que escrevessem em voz alta, que ouvissem o som da palavra a cair da fonte e deixassem cair na página sem os constrangimentos de sentido fechado da prosa.

 

 

 

O passeio

Percorri já vários caminhos, desde becos recônditos que desembocavam no mar através de uma rede de caves, túneis e cavernas, até vales repletos de construções humanas com vários níveis de complexidade. O meu percurso de eleição é o que me permite alcançar, passo a passo, pedra sobre pedra, uma terra só acessível por uma escada da altura de uma montanha. Este local ao qual chamo casa torna a vida em morte e a morte em vida. Contém as melhores partes de cada experiência, permite a minha boca saborear as labaredas solares, tocar em água tão fria que me gela os ossos e ver os movimentos aleatório das correntes de ar que me elevam até ao centro da espiral de corvos onde o dia se torna noite. Aqui, passado, presente e futuro convergem num diálogo contínuo entre o que é e o que pode ser, cristalizando qualquer sonho num templo de possibilidades.

José Maria Covas


Todos os dias são domingos

Escrever aos domingos, é o que resta a quem gosta de o fazer, mas tem outras profissões para alimentar a da escrita.
Por exemplo, andei a semana inteira com uns pensamentos sobre um conto. Vou por ali, introduzo uma personagem no terceiro parágrafo, mato-a no sexto, tenho de ter cuidado para ela não aparecer no 9.º, tenho de arranjar um início forte que valha a pena, tudo sem interesse.
Vai daí, ontem, deitei-me por volta das 11 da noite e não é que à meia noite e vinte minutos me surgiu uma ideia, daquelas que a gente tem de se levantar e apontá-la para não se esquecer. Lá está, e eu não acredito em coincidências, mas já era domingo.
António Duarte, homem pacato e dado a passeios junto ao mar, foi o primeiro a ver a chegada da hora nova. Segundo ele, uma gaivota trazia-a às costas e lançou-a aos poucos, operação que durou exatamente 60 minutos. A hora nova sorriu, pôs-se em posição e foi à sua vida, atrasando tudo 3600 segundo. Sobre a hora antiga, sabemos que foi descansar para outras paragens mais condignas com a sua condição noctívaga.
Este é um exemplo de um texto de domingo, que amanhã será apagado pois não tem qualidade. E é assim a vida de quem escrevinha só quando pode. Escreve 30 palavras, apaga 50. Reescreve mais 40 e apaga 35. Salvam-se 5. Dessas cinco, esperamos que se multipliquem por algumas mais. Mas é a alegria de ver essa meia dezena que nos faz aguardar ansiosamente pelo próximo domingo ou pela próxima oportunidade de retribuir qualquer coisa que tenha de se escrever com sílabas.

Tiago Pina


Escrever aos domingos

Escrever aos domingos... é um momento importante em que ideias, palavras, mensagens e muito mais se cruzam, como duas estradas, ou dois caminhos que levam à Itália e a Portugal. É uma maneira para deixar reaparecer lembranças bonitas, cores, como o azul do céu, o cor de rosa e o vermelho das flores, imagens de um tempo que parece longínquo, sabores, os abraços...
Escrever aos domingos é deixar ressoar vozes, sons, melodias... Escrever aos domingos é um momento de encontro, apesar das distâncias. Escrever aos domingos é deixar-se levar pela saudade e pela esperança de um novo encontro, apaixonar-se por algo que nunca se conheceu, que talvez fica sempre desconhecido, mas que faz permanecer o seu rasto no coração.

Giuseppa Giangrande
 

Domingo à tarde

Domingo à tarde era um lírio da paz. Uma cortina vermelha a ondular sobre uma seara verde que rodeava a mesa redonda e metálica onde pendia a caneta hesitante sobre o papel impávido.
Domingo à tarde era uma brecha de silêncio numa semana caótica onde a vida a escorraçava sempre, num eterno retorno ao mesmo lugar de Sísifo cansado.
O tambor da máquina a centrifugar a roupa. Uma osga que teimava em aparecer e que latia como um cão a esfolar o silêncio.
E de súbito, a torrente. As palavras a disputarem uma nesga de espaço no papel impávido, a acotovelarem-se como numa feira, as palavras riscadas porque arrependidas de nascer, desajustadas no conjunto, inconvenientes como uma nódoa na brancura aristocrática do papel.
As palavras que não vinham porque se recusavam a vir, porque descansavam, exaustas, de tanto serem solicitadas ao dicionário.
As metáforas que lhe fugiam, as metáforas gastas que lhe surgiam a despropósito.
E lá miava a osga num grito quase humano, a intrometer-se dentro das palavras, a usar as vírgulas como muletas e a varrer com a cauda bamboleante o que restava do sentido.

Helena Campos