tesoura

«No que toca a escrever, acredito mais na tesoura do que na caneta», Truman Capote
Escrever é sempre cortar. Escolhar e decidir o que fica de fora. No caso dos microcontos ainda mais. Decidimos partir para o desafio, com tempo e caracteres limitados, sob o tema do corte. A experiência suscistou discussão e dúvidas. E, esperamos, algumas novas pistas sobre o que é uma «história» e esta experiência extrema da micronarrativa.

 


Pernas cortadas

Foi no dia que fez 50 anos que Cecília se apercebeu de que não tinha vivido. O passado mais não fora do que arrastar um destino obstinadamente cinzento.
Tudo começara na juventude quando abriu a porta errada, a má escolha do curso conduzira-a à marginalidade obscura de um emprego degradante onde era reduzida à 4ª classe. Passava os dias a contar caixas num armazém esconso enquanto teorizava sobre as elites que lhe tinham cortado as pernas.
Certo dia, no limiar dos 50, conheceu um carismático professor que palestrava sobre o direito à mudança de vida para atingir a felicidade.
Deslumbrada com o discurso dele sobre uma miríade de sonhos e projectos que ainda podia realizar para alcançar a vida a que tinha direito, e que lhe havia sido usurpada, a tola da velha deixou o parco emprego para percorrer todos os caminhos alternativos na senda da felicidade.
Via-a outro dia, debaixo de uma escada, a dormir sem abrigo sobre um caixote e uma manta sebenta.

Helena Campos

Corta!

- Corta! – ordenou o realizador
O actor, de tesoura na mão, queixava-se já da falta de cabelo depois de tantos cortes repetidos na mesma cena.
- Põe-me uma peruca – sugeriu a colega que fazia de cliente.
O actor voltou ao penteado enquanto cuscava efeminadamente a vida de uns e de outros. A dada altura percebeu que a colega lhe roubara o namorado.
- Corta! – repetiu o realizador
E ele, vingativo, cortou com fúria até jorrar sangue. O realizador calou-se. Desta vez, o corte fora perfeito.

Helena Campos


Via láctea de fel

Cortaste-me da tua vida com a frieza duma lâmina, lâmina que prepararas para usar quando não estivesse a ver. Sim, coragem nunca foi teu apanágio, cobarde era teu nome do meio. Regresso uma e outra vez àquele momento em que tudo ainda podia ser, penso no que deveria ter feito diferente para que tudo fosse possível, ainda que apenas agora, e amanhã tudo fosse igual ao que já é. Na minha mente, qual tela de cinema, passa um filme em câmara lenta, em modo de repetição, o filme do que poderia ter sido e não foi. Dizes que foi um acaso sem caso pensado, não acredito, não há acasos premeditados. Pois, mentira era o teu segundo nome, repetido no apelido.
Folheio o álbum que já foi nosso. Não te encontro. Nem quero. A tesoura de Toledo, comprada na lua de mel, cumpriu a sua função higiénica.
E, no entanto, continuo a ver o filme...

Paula Carvalho


Tesoura

Pôs os óculos, pegou na agulha e enfiou a linha. A luz era forte e incidia nos seus dedos. Antes tinha umas mãos tão bonitas, pensou. Mãos de pianista, dizia a avó. Agora, já as começava a sentir mais nodosas. Era subtil, mas o envelhecimento começava a insinuar-se e a aninhar-se no seu corpo. A agulha parou. Estes tecidos rijos são sempre um problema, pensou. Talvez devesse mudar para uma agulha mais grossa. Mas depois o trabalho não ficava tão bonito, esgarçava, notavam-se os buraquinhos. Tinha orgulho na sua perfeição. Depois de muitos falhanços, desta vez tudo tinha corrido bem. Os cortes eram de mestre, as pregas, naturais e tinha finalmente conseguido o ton-sur-ton de que andava há tanto tempo à procura. Com lotes diferentes, era sempre tarefa difícil. Estava pronto. Era lindo, magnífico, a sua obra prima. E pegando na tesoura, cortou a linha. Finalmente o Dr. Frankenstein terminara a Criatura.
 
C. Borges
 

Corte e costura

Dona Mariana decidiu abrir a porta do seu estabelecimento e colocar o trabalho sobre o balcão corrido. Após vários confinamentos, ansiava por confecionar roupas de raíz, algo a que renunciara para se dedicar aos arranjos de costura. Com o aparecimento de uma cliente, interrompeu a costura de um bordado num magnífico vestido de noiva. O vislumbre de tecidos cuidadosamente dobrados num saco de papel encheu-a de esperança.
-“Preciso que me suba um centímetro nestas baínhas” solicitou a cliente.
-“Só isso?” – inquiriu a modista com voz desmaiada.
-“Sim”- respondeu-lhe a senhora espantada, apontando o letreiro da montra: “Fazem-se arranjos rápidos de costura”.
A modista angustiada pela falha na atualização, quase cravou a tesoura num dedo a escassos milímetros da peça que exibia.

Lídia Vieira