aranhaUm conjunto de histórias de algumas das sessões de 2020/21 da arrepiante oficina Teias de Aranha. Prepare-se, virão mais...

 
 
 
 
Quase Certeiro

É certo e sabido que todos os pais têm um filho preferido, mesmo que até sejam a cara chapada uns dos outros e com feitios idênticos. André era o mais velho. Olhava para as duas irmãs com algum desdém, mas não tolerava a preferência descarada dos pais por Natacha. Ela era, como ele dizia, «a menina dos olhos deles».
Planeou o crime minuciosamente, simulando um assalto à habitação da família, com o único propósito de executar a irmã a sangue-frio.
O corpo nu foi encontrado pelos pais no chão da sala. O crânio esmagado alagou-o numa poça de vermelho-vivo. Os olhos foram retirados com um saca-rolhas, deixando dois buracos enormes com vista para o interior. Cada osso do rosto foi partido com a violência exigida, transformando-o numa papa ensanguentada. Não havia ponta que não fosse roxa e não estivesse retalhada.
Quando André chegou perto da família, não precisou de simular a perturbação. Esta ganhou forma humana e veio a caminhar até ele quando Natacha se aproximou, para chorar a morte da sua gémea, Noa.
Liliana Duarte Pereira
 
 
Cobrança

Adelinda fechou a porta da cave, acendeu a luz e pôs-se ao trabalho. Diante de si, estava um homem das Finanças, pendendo do teto por correntes. As grilhetas eram tão fortes que talvez tivessem partido as articulações — das mãos e dos pés — que não tinham sido trabalhadas pelo martelo da carne. Era bom que assim fosse para não fugir.
— Tem vindo o senhor cá há anos para se alimentar de todas as minhas poupanças, não é? Hoje, mudamos um bocadinho as coisas.
Adelinda pegou no machado que usava para cortar lenha no quintal e decepou ambas as mãos do ganancioso, seguidas dos pés. Depois, espetou agulhas nos cepos para que o sangue vertesse para diversos frascos de geleia. A seguir, como se fatiasse fiambre, aparou a barriga oval para onde fora todo o dinheiro roubado. Com cuidado. Lentamente.
Só após muitas horas e muitos gritos é que Adelinda usou uma colher de gelados para extrair os olhos, ajustando-os no topo do prato de carne que tinha o sangue como cobertura. Colocou o saque no forno de barro para ser o jantar dos seus animais. E eventualmente o seu.
Subiu então as escadas para ver televisão, enquanto esperava que a carne estivesse no ponto. E ao fechar a porta, com um sorriso, disse para o homem lá em baixo:
— Amanhã, há mais.
José Maria Covas
 
A Boleia

Sempre achei as pessoas muito cruéis e egoístas. Comigo não costumam ser simpáticas. Na verdade, gozam-me por causa dos meus dentes encavalitados e tortos. São tão grandes e incómodos que me impedem de fechar a boca corretamente. Mas todos na minha família padecem deste mal. A minha mãe diz que uma rapariga franzina e tímida como eu tem de ganhar calo para as agruras da vida. Assegurou-me de que as rasteiras e empurrões dos meus colegas de turma, por exemplo, formam o caráter. E com o tempo, aprendemos a ignorar os insultos. Aliás, já ninguém me chama pelo nome. Sou a «dentuça» ou a «dentes de cavalo». Perdi a conta às vezes que me pediram para relinchar.
Portanto, foi com grande surpresa que hoje, a caminho de casa, fui abordada com amabilidade por um senhor distinto, preocupado com a segurança de uma rapariga sozinha na rua àquelas horas da noite. Com uma simpatia rara, ofereceu-se para me dar boleia até casa. «Era o mínimo que podia fazer», sossegou-me, abrindo-me a porta do carro.
Hesitei de início, mas acabei por entrar e me sentar no banco de trás, enquanto a sua voz melodiosa me perguntava onde eu morava e se alguém me esperava em casa. Escondi um sorriso danificado, agradecida, e respondi que só a minha irmã mais nova me aguardava. Acrescentei que estava a tomar conta dela na ausência dos nossos pais.
O veículo arrancou pouco depois de trancar as portas. À medida que lhe ia dando as direções, comecei a sentir-me mal por lhe ter mentido, mas a minha mãe tinha-me pedido para levar o jantar para casa, e estes bons samaritanos são tão fáceis de enganar.
Marta Nazaré
 
A Dança

Todos sabiam o que acontecia a quem passasse pelo cemitério depois do pôr-do-sol. Não era nada de aterrador, na verdade — pelo menos para quem não fosse vivo e prescindia de crenças tão curiosas como a morte tratar-se de um sono eterno, ou os mortos deverem ficar sossegados, pelo menos enquanto os vivos estivessem por perto.
Em defesa dos residentes do cemitério, eles esperavam sempre que o último vivo abandonasse o recinto antes de começarem a sua dança. Mas se algum por lá decidia ficar, por que haveriam eles de voltar às suas posições diurnas? A eternidade era tremendamente aborrecida para se ficar parado a toda a hora.
Além disso, se um vivo ficava a observar a dança, seria certamente porque se queria juntar. E porque não? Os residentes do cemitério, apesar de inicialmente reticentes quanto a esta questão da «morte», depressa se aperceberam das vantagens da sua nova condição — adeus às preocupações tão estúpidas da vida! Perante essa completa leveza, quem não quereria dançar para todo o sempre?
Era por isso que ninguém se aproximava do cemitério depois de certas horas. Não por falta de consideração ou hospitalidade dos cadáveres. Muito pelo contrário.
Patrícia Passos de Sá

A Mais Bela Flor

Jacinto colheu as rosas brancas da estufa e ofereceu-as à filha de Orquídea. Rosa, que fazia catorze anos, agradeceu-lhe com um sorriso, mostrando-lhe os dentes de pérola. Jacinto corou e devolveu-lhe o sorriso, fixando por momentos o rosto de pele delicada, os cabelos louros ondulantes e os olhos de um tom azul-marinho.
Estava nervoso, sentado ao lado de Rosa. Nem mesmo as rosas mais exóticas exalavam o perfume que se desprendia do seu cabelo e da sua pele: um odor de gordura fresca não azeda e um cheirinho de iogurte acabado de fazer. Rosa era uma flor a desabrochar para a adolescência.
Enquanto mãe e filha conversavam, serviu-lhes uma tisana e uns biscoitos de manteiga. A senhora Orquídea, que ocupava quase dois lugares no sofá, pediu-lhe mais chá e mais biscoitos. Jacinto foi até cozinha, ferveu a água e juntou-lhe um ingrediente especial. Pouco tempo depois, Rosa e Orquídea dormiam.
Jacinto observou-as de perto e, com cuidado, amarrou-as e amordaçou-as. A seguir, levou Rosa para a estufa e aparou-a com delicadeza. Arrancou lentamente os belos olhos com uma tesoura de poda para não os danificar. Esquartejou-lhe os braços com uma pequena enxada. Descolou as unhas dos pés e das mãos com um serrote, separando com paciência a pele das unhas. Colocou-a no colo e enterrou o corpo até se ver a cabeça, deixando de fora os belos cabelos louros. Depois, regou-a com orgulho, a mais bela flor da sua estufa.
Sandra Amado