«Escrever é a pintura das palavras.», Voltaire.

Nesta sessão escrevemos a partir de uma conhecida obra da artista portuguesa Helena Almeida (1934-2018). A imagem funcionou como ponto de partida que cada participante trabalhou livremente.

 

 helenaVasconcelos

 


Fora / dentro / fora
Cor / negro / branco cinza
Luz / sombra / sombras
Opaco / fosco/ translúcido
Encobrir / descobrir
Fechar / abrir
Olhar / não olhar
Escutar / não escutar
Cheirar / não cheirar
Saborear / não saborear
Sentir / não sentir
Respirar / Suster
Inspirar / Expirar
Suspender / extender
Contrair / expandir
Pousar / fluir / flutuar
Sólido / líquido / gasoso
Neve / rio / nuvem
Princípio / caminho / fim
Querer / rejeitar
Escolher / duvidar
Amar / odiar
Princípio / fim
Nascer / viver / morrer
Ir / ficar
Rir / chorar
Verbo / sujeito
Directo / indirecto
Querer / rejeitar
Verão / inverno
Primavera / Outono
Vermelho / branco
Verde / amarelo
Verde / verde / verde
Vale / montanha / cume
Nascente / foz
Novo / velho

Se no princípio era o verbo, onde fica o sujeito?
Se os rios correm para o mar onde ficam os meus risos? E os choros, têm lugar? Ou habitam-me de madrugada, à hora que ninguém vê?
Vem vida, vamos juntas, a par, não me deixes, não me pregues mais partidas, não mudes as tuas perguntas porque já esgotei as respostas.
Sim, eu sei que queria seguir um caminho que nunca ninguém percorrera, calcá-lo e fazê-lo meu, sob o arco dum céu de veludo e sem outra bagagem que não os meus demónios.
Olho agora esse caminho, em que sombras se adensam e um nevoeiro espesso aperta, sem outra opção que não seja seguir um trilho, expulsar demónios e convocar os anjos que me deixaram cedo demais.
Vou, não vou? (É uma afirmação, não uma pergunta).Levo na bagagem as memórias, os risos, as cores, dos verões e dos serões que passaram, que nada pesam, ao contrário da certeza deste opressor inverno polar.

Paula Carvalho


ALEXANDRA ESCONDEU-SE ATRÁS DO AZUL

Alexandra escondeu-se atrás do azul enquanto observava o filho Daniel a pintar o silêncio gota a gota, no tempo em que uma arma biológica atingia o mundo.
- She got the blues – gozavam na empresa onde lhe caiam os tostões ao fim do mês. Colocada numa sala deserta sem fazer nada e nem assim lhe davam teletrabalho na pandemia. Era o assédio moral em pleno, até o sindicato a oprimia. A negra opressão da ditadura a que fora votada a sua carreira. Queres uns tostões ao fim do mês? Deita os canudos ao lixo e 4ª classe para a frente.
Meteu baixa por depressão por tempo indeterminado.
Arranjou uma caixa de aguarelas e começou a pintar sapatos em cima de cabeças, diplomas rasgados, vidas a partirem-se pelas escadas abaixo.
Lá fora, a pandemia rugia, 300 mortos por dia, 15 000 infectados por dia e ela pintava vírus dentudos a estrangularem inocentes ante o riso da bandeira chinesa.
Certa tarde, abandonou as pinturas e foi prostrar-se à janela da casa, agora transformada em gaiola anti-virus. Quando regressou à sala, uma flor azul tinha nascido na tela. O filho autista, com os dedos cobertos de tinta azul, olhava fixamente a parede com os seus olhos de céu nocturno.

Helena Campos


O MAR, UMA MANCHA AZUL

Estou à frente do mar, que me aparece como uma imensa mancha azul; está vento, que agita as ondas e as faz subir e descer. Fico submersa na onda das recordações, de um tempo agora distante.
Quem me dera poder voltar a felicidade daqueles dias, mas tenho de me resignar, - o que se foi embora não vai voltar, perdeu-se, não haja ilusões.
Olho para o céu, outra imensa mancha azul; vejo um bando de gaivotas que voam livres, felizes! Também queria ser uma delas, voar, ser feliz.
Ao olhar novamente para o mar encrespado pelas ondas, tenho consciência de que, no fim de contas, talvez a vida seja como aquelas ondas que andam numa roda-viva, que se aproximam da terra, para depois se afastarem de novo. Enfim, uma série de altos e baixos.
Ouço o canto das gaivotas que esta vez me faz acordar de uma espécie de torpor em que tinha caído; aquele canto é um convite a olhar para frente, para o futuro sem ficar apanhada nos laços do passado. Então, vejo na voz das gaivotas uma mensagem. Uma mensagem que me infunde a esperança de algo novo e melhor. De coração leve, viro as costas ao mar, aquela imensa mancha azul, e volto para casa, decidida a recomeçar do zero, olhando para o céu, outra mancha azul.

Giuseppa Giangrande

 

Não quero continuar escondida atrás deste azul imenso de dúvidas que ensombraram toda a minha vida.
Quem fui e quem sou?
Ontem triste e derrotada, hoje alegre e conquistadora, como estarei amanhã?
Um longo caminho de hesitações e receios que me aprisionam atrás deste mar de insegurança.
Quero libertar-me, emergir da profundidade, mostrar um meu outro Eu .
Dar a conhecer as minhas conquistas, experiências vividas de relação humana, de dor e sofrimento e até de morte, mas também tantos momentos de felicidade e alegria que exprimem o sentimento de missão cumprida .
Esta na hora de pegar no pincel e pintar uma nova tela.

Isabel Soares

 

Após uma breve apresentação das maleitas e queixas de Manuela ao osteopata, bem como referência aos medicamentos e pomadas utilizadas, o médico analisou o raio-x da sua coluna vertebral. Manuela foi convidada a contornar o biombo do amplo consultório de traça pombalina. Despiu a blusa, fincou os pés e inclinou o torso para que o médico palpasse a extensão das crispações e inflamações na coluna e o agravamento do desvio ósseo.
- As inflamações aumentaram-lhe claramente a escoliose e o desnível das ancas - confirmou o médico.
- Daí o sofrimento que não cessa. Eu bem tento corrigir a postura, Dr., mas não consigo, as dores não me largam. Os analgésicos não produziram o alívio desejado. Acabei por recorrer ao Valdispert 125 que me tem oferecido um sono pesado o suficiente durante as noites e a cabeça pelo menos vai funcionando.
- Sim, sim - foi concordando o médico - pressionando as áreas bloqueadas com mãos sábias para as descongestionar.
Manuela fechou os olhos e tentou descontrair-se repetindo-se: o doente é participante ativo na sua cura; tenho de colaborar. E começou a respirar com mais soltura. Cerca de uma dezena de minutos depois, o médico deu a primeira sessão do tratamento por terminada.
- Não posso avançar mais. Se a pressionar demasiado, amanhã não poderá fazer a sua vida normal.
À palavra 'normal', Manuela despertou completamente. O corpo estava ligeiramente dorido, mas o alívio ao nível das costelas e dos pulmões mais libertos, davam-lhe novo fôlego.
- Naturalmente, sentirá algumas dores durante dois dias. Os transtornos estão acentuados. Vamos marcar para daqui a três dias? A menos que surja algum problema. Nesse caso, marque que eu atendo-a como urgência.
- De acordo, Dr. Acredito que a partir de agora vou recuperar. Pena tenho eu de ter agravado tanto a questão.
Já na escada de soalho encerado, Manuela renunciou ao elevador e desceu cautelosamente o piso até ao átrio de entrada do prédio. Sentia-se como nova, ou prestes a sê-lo com uma coluna leve e flexível e um quotidiano ativo e feliz. E nunca mais se lembraria de pintar as dependências todas da casa! É certo que a reforma lhe trouxera uma sensação de desconforto e inutilidade, agora que o marido brilhava como reitor na Faculdade de Belas Artes. Ele que se dedicasse à pintura de obras artísticas e aos seus múltiplos afazeres. Ela praticaria o seu Pilates com supervisão médica como se fosse uma modalidade olímpica. Um feito para quem, em silêncio, já receava a invalidez.
 
Lídia Vieira