NOVA TEMPORADA 2021/22


Aqui, na Naftalina-Sabonária, escrevemos textos durante a sessão inspirados num tema, texto ou estilo apresentados na sessão. Também continuamos com o projecto FOLHETIM, a acompanhar também neste blog, em publicação separada.
Nesta sessão inspirámo-nos no conceito de «delírio organizado» que nos trouxe a citação de A. Lobo Antunes. A proposta foi começar com uma palavra «escrita». A partir daí, fazer associações livres, até a caneta ou teclado, tiver vontade de começar uma pequena história.

 

Escrita
Essência
Grita
Cria
Espanta

A mente de Demétrio estava imóvel. Era natural, pois o impossível acabara de ocorrer. Mas como? Talvez até fosse isso que o espantara, pois sabia que, de facto, o acontecimento tinha uma causa, agora se esta se encontrava enquadrada em qualquer padrão do conhecimento humano a resposta certamente era não. No entanto, desconhecia se o seu grito teria sido de horror ou de alegria ao se aperceber que o que apareceu à sua frente após ter escrito “Fim ou início?” na última página desafiava o meio envolvente.
Podem as palavras ter tanta força ao ponto de tornarem o abstrato em algo concreto, ancorado a esta realidade, mas que continua ligado a outro plano de existência? O que será mais verdadeiro, ele, sentado nesta cadeira com os pés presos ao chão de madeira e as suas mãos agarradas tanto à pena como ao papel, ou a sua criação, uma ideia que não se encontra presente neste mundo? Não sabe. Nem sabe se esta ideia manifestada faz parte dele, se a criou de raiz para complementar o que ele sabia que tinha em falta, se lhe foi apresentada por um ser superior à qual ela pertence, ou até se ele estaria a pensar nesta situação ao contrário: será que ele era a criação e não o criador?
O que ficou a seguir a saber era que tinha três opções: podia negar a existência daquela entidade e, portanto, desconstruí-la de maneira a preservar a sua própria identidade e meio ambiente, pensar que de facto já era tempo de haver uma mudança e de recomeçar do zero ao ser o ele atual obliterado, ou de optar por o antigo e o novo coexistirem, ajudando-se um ao outro com as suas melhores qualidades.
Escolheu a terceira opção. Lentamente, ergueu-se, ouviu os sussurros de aprovação e de incentivo. Estendeu a sua mão. A figura converteu-se num líquido negro e verde que voou pelo quarto hospitalar, tocou nos seus dedos, percorreu os seus braços e penetrou os seus olhos, desaparecendo dentro de si. Estava contente. Abriu a janela enquanto as fendas surgiam na sua cara e percorriam o seu corpo de cima a baixo, ergueu os braços e desintegrou-se. As partículas de ambos foram de seguida levadas por uma brisa para serem reconstituídos noutro lugar, noutra época, como algo diferente, algo mais.
              José Maria Campos


Escrita
escriva
criva
balas
rimas
força

O Quinquilhas trabalhava com rimas; gostava de se ver a si próprio como um carpinteiro, mas em vez de madeira, o seu material eram palavras. Pegava nas sílabas, baralhava-as, distribuía-as, engalanava-as, perfumava-as e colocava-as num caderninho onde estas ganhavam forma. Quando estavam prontas, dava-as a experimentar a alguns amigos.
- Estão muito doces!
- Falta-lhes um pouco de sal!
- Estão no ponto!
- Experimenta grelhar mais um bocadinho!
Desde que aprendera a ler, na Escola Básica de Marvila, as palavras sempre lhe despertaram um interesse que não tinha para os números. As lengalengas deixavam-no feliz por as poder continuar.
“Atirei o pau ao gato, to, to, mas o gato, to, to não morreu, eu, eu, Dona Chica, ca, ca, assustou-se, se, se com o berro, com o berro que o gato deu. MIAU! Encontrei-o na praia do Vau, au, au, a chorar, ar, ar, Dona Pipa, pa, pa, teve pena, na, na e levou-o e levou-o para casa, sa,sa!”
No bairro onde vivia, sítio com fama de ter má fama, a força, algumas vezes, era conquistada ao murro, outras bastava acenar com uma arma. Para Quinquilhas, as rimas, os poemas que fazia, eram as suas balas, eram a maneira que tinha de comunicar.
Por isso, quando tinha 16 anos, apresentou-se a um concurso com uma história sobre dois senhores que no dia 7 de setembro de 2002, receberam uma carta do IPO a dizer que tinham cancro. Os dois senhores moravam em Chelas, mas não se conheciam. Com os tratamentos, descobriram que viviam perto um do outro.
Começava aqui uma amizade que só a doença travou.
A história convenceu o júri que lhe atribuiu uma menção honrosa.
Para Quinquilhas, era importante desmistificar a má reputação que o seu bairro tinha. Por isso, escrevia na esperança que um dia, as notícias noticiassem:
- Hoje, em Chelas, apareceram palavras, rimas, restos de frases nas casas das pessoas!
Um dia, tinha 19 anos, ao sair de casa, viu um arco-íris a aparecer do nada a iluminar Chelas. Achou aquilo tão bonito que sacou do seu caderno e ia começar a escrever quando uma bala perdida lhe entrou na cabeça.
Caiu logo ali, juntamente com o caderno. A última entrada dizia:
“-Uma palavra pode ser doce, mas não adocicada.
Uma palavra pode estar congelada, mas não é gelo.
Uma palavra pode ter força, mas não é ela que mata.”
                       Tiago Pina


TETO
Há três meses que a Guida procurava um teto para comprar e o tempo urgia. Correra os bairros de que mais gostava, mas tudo lhe estava vedado por excesso de zeros nos preços apontados. E nem as sugestões de descontos de 20% ou de supressão do pagamento da escritura a animavam. Os vendedores solícitos insistiam em enaltecer as vantagens do jardim de um rés-do-chão sombrio ou a luminosidade de um sótão liliputiano proibitivo para o seu metro e oitenta. Só os imóveis por construir correspondiam a um empréstimo próximo do teto de esforço aceitável para o programa de validação imposto pela banca. Tudo o resto era risível para os funcionários que a atendiam, tentativa após tentativa.
A Guida ía preenchendo os seus dados e impressões num caderninho de escola onde antes fizera as redações. Só que não conseguia escrevinhar nada com um possível final feliz.
Todos os domingos, os pais convidavam-na a almoçar para ‘porem a escrita em dia’. Expor oralmente e expôr-se ao sorriso benigno da mãe e aos comentários mordazes do pai organizava-lhe o pensamento cada vez menos delirante, a cada dia mais focado.
O discurso do senhorio, outrora afável, depois irrompendo com o argumento da necessidade para uso próprio, disfarçava cada vez menos a adesão ao arrendamento lucrativo. Uma tentação que mudaria a vida de muitas pessoas para sempre.
Calcorreados tantos bairros, muito cabisbaixa de tanta frustração e raiva, começou a buscar os quadrados dos escritos, coisa tão rara. Num prédio remodelado, o seu olhar encostou-se a três novos pisos de cobertura contendo os clássicos quadradinhos. Decidiu ir tentar a sua sorte, procurando num novo aluguer e na Deco interlocutores menos espinhosos do que as instituições bancárias. Pigarreou e procurou andar sem tropeços, ritmando palmadinhas no seu caderno de bolso.
                       Lídia Vieira


liberdade
pensamentos

Que se tornam realidade numa folha de papel solta.
Palavras que parecem sem sentido, mas que escondem e querem dizer algo, falar ao coração. Agora compete a ti, leitor, interpretar o que elas, as palavras, querem comunicar.
Elas desejam ultrapassar os limites, que representam as imposições dadas por alguém que não tem direito a reprimir o que vem do coração. Muitas vezes elas, as palavras, são consideradas perigosas e podem fazer mal e causar sofrimento. É isso o que estou a viver, uma vida cheia de sofrimento… mas não quero mover a compaixão, desejo só que as palavras sejam um incitamento a viver livremente…
A escrita agora interrompe-se no meio da frase, que não chega ao fim…
Respiro fundo: quem pode ter escrito isso, nesta folha de papel solta, que encontrei debaixo do chão de mosaico na casa que acabo de comprar e que está a ser remodelada? Foi um homem, uma mulher a fixar essas palavras na folha de papel amarelada que agora tenho na minha mão e que me fazem sentir calafrios? O que aconteceu a essa pessoa e por que se interrompeu a frase de repente?
Ao ler essas poucas palavras, sinto-me na obrigação de fazer algo, de decifrar o enigma que está atrás deste breve texto. A única coisa que virá em minha ajuda é a data em cima da folha ou melhor o ano, posso ler apenas 1950…
                  Giuseppa Giangrande

 

Escrita
livro
biblioteca
traça
mafra
viagem
camionete

PARAGEM
A paragem da camionete tinha o abrigo estragado. A chapa do tecto estava rasgada numa estrela assimétrica que pouco fazia pela violência do sol. O banco estava solto de um dos lados e era a perna dele que fazia da que faltava. Quase cansava mais estar sentado do que em pé. Uma carrinha de caixa aberta com duas gaiolas de galinhas brancas tremeu pela estrada e deixou mais uma camada de pó nas suas botas. Agora já não fazia diferença, a caminhada tinha-as posto daquela cor que faz sede e comichão na garganta só de olhar. A camionete passava às 3, se não se atrasasse. Ainda tinha 15 minutos para contar os carros que passavam. Tirou da mochila o telemóvel. Sem rede, o costume. Desligou e voltou a ligar. Nada. Levantou-se e leu o horário em letras pequenas e um cartaz que anunciava «Nando e as Chiques, 15 de Agosto nas Festas da Senhora do Calvário». Só que era do ano passado. Admirou a cabeleira lustrosa e os ray-ban do Nando, as Chiques eram duas raparigas em collants e plumagens cor-de-rosa que sorriam muito. Bons dentes, pensou. De certeza que já tinha passado meia-hora. Seca, seca a toda a sua volta. Ouviu um motor ao longe e pegou na mochila. Olhou para a curva e viu surgir um carro azul metalizado. Pousou a mochila outra vez. O carro era bem bonito, de matrícula alemã – imigrantes, pensou, embora o modelo não batesse certo.
Pegou no telemóvel e caminhou para a frente e para trás na estrada de poeira e pedras. Depois, nem rede, nem bateria. Passaram duas horas? Havia sempre a camionete das 6. Já passava das 6? Voltou para o abrigo. O rasgão do tecto deixava ver uma nuvem cinzenta. Quase de repente começou a chover. Encolheu-se a um canto. Se ficasse bem encostado podia quase escapar à chuva. As botas ficaram outra vez pretas e a terra tornou-se lama. Um raio iluminou o céu e um trovão fê-lo vacilar. A tempestade era um canhão em cima dele. Um novo raio desceu do céu direito aos pinheiros do outro lado da estrada. Com horror viu a árvore engolir o feixe de luz e depois ficar completamente carbonizada. A trovoada durou muito tempo e ele ficou encharcado e infeliz. Sentou-se no banco a arfar, ouvindo os últimos pingos da chuva e o crepitar que vinha das árvores. Estava demasiado escuro para sair dali. O cansaço fazia-o ver luzes e ruídos que não existiam. O restolhar das folhas confundia-se com passos e sons arquejantes. O seu eco? Voltou o silêncio. Agora parecia que pontinhos de luz vinham na sua direcção. Dois a dois, calmamente, mas sem parar. Cada vez mais próximos. Tinham descido os lobos.
                   C. Borges