NOVA TEMPORADA 2021/22

Nesta nova temporada do FOLHETIM começamos com 5 novas histórias que depois serão continuadas por outros participantes. Cada história terá 5 episódios. 


SONHOS começa com uma personagem fechada num quarto a lutar com a escrita. Como transpôr para papel o desconcerto da mente?
A OLIVEIRA QUE MATAVA MIGUELISTAS será verdade ou mito? Uma personagem faz-se ao Alentejo à procura da famosa oleácea.
DELÍRIOS é a história de Tomás que investiga um crime, mas não consegue livrar-se de duas obsessões: a Sandra que partiu e um certo presidente alemão igualzinho àquela vítima.
UMA GAIVOTA livre e viajada regressa ao seu lar no Miradouro da Graça e conta a história de uma cerejeira que guardava um segredo.
LUDMILA E OS ANJOS começa com a personagem irritada por já não se conseguir distinguir anjos de ser humanos. Decide tomar uma atitude.


SONHO 1
Há quanto tempo estaria naquele quarto? Talvez semanas, ou até meses… Era tão difícil saber. Aliás, era exatamente por causa disso que tinha ido para aquele local longínquo, no qual o dia é um feixe de luz que atravessa o vidro da janela por uns breves instantes antes de ser consumido novamente pelas trevas envolventes. Precisava escrever. O problema não era a falta de ideias, tinha uma arca cheia delas, mas sim transfigurá-las da mente para o papel. Para isso tinha que estar totalmente concentrado e alheado da realidade do seu dia a dia, de maneira a meditar acerca da construção do universo da sua história.

José Maria Campos


A OLIVEIRA QUE MATAVA MIGUELISTAS 1
Lancei-me à estrada e pelas indicações muito vagas que tinha, cheguei a uma vila do Alentejo e indaguei pela oliveira, convencido que a oleácea era uma atração turística; se não é grande novidade uma oliveira resistir várias centenas de anos, ter uma que matou com os seus próprios ramos, dezenas de miguelistas, deveria ser motivo de orgulho.
Ninguém sabia e, pelos olhares desconfiados que fizeram, diria que me acharam meio estavanado, para não pronunciar mesmo atoleimado. Ia já desistir, quando um senhor se abeirou de mim.
- Ouça lá, o senhor acredita mesmo nessa história ou é tão parvo como parece?

Tiago Pina


DELÍRIOS 1
Um dos delírios que mais inquietavam Tomás era aquele em que um presidente alemão, meio prostrado num sofá, se foi despedindo estranha e misteriosamente da vida. Fora uma espécie de delírio individual que abriu portas escancarradas a um delírio coletivo.
Tomás examinou o cadáver inerte, frio, acinzentado metodicamente. O facto de ser madrugador ajudava-o pois não só conseguia dar o seu máximo no sossego da alvorada como ganhara fama de ser altamente intuitivo. Naquela manhã, porém, carregado como estava com o desgosto pela partida de Sandra, só conseguia repetir-se que ‘não via um boi’ acerca daquele corpo sem marcas gritantes de violência quanto mais o selo de um psicopata, ou mesmo de um assassino em série, que tão bem preencheriam algumas páginas sensacionalistas. Só o rosto pesadamente adormecido o prendia por lhe lembrar o do presidente cujo enigma ele tanto gostaria de ter investigado pessoalmente. Uma hora e meia depois, já com a equipa reunida, pôs-se à escuta de pistas que o despertassem para o diagnóstico que teimava em fugir-lhe. O que iria divulgar no final da manhã?

Lídia Vieira


UMA GAIVOTA 1
Uma gaivota voa livre e feliz no céu. Ela está muito feliz por ser uma gaivota, porque não tem laços, pode ir e voar aonde ela quer, apesar de ter a sua casinha numa árvore no Miradouro da Graça em Lisboa. O que é mais interessante é que ela um dia pode estar em Lisboa, um dia na Sicília, um dia em África, um dia em vi rem ajuda Goa… e ainda mais interessante é que ela todas as vezes que volta para Lisboa, pode contar muitas histórias, até às crianças que nos dias de sol brincam nas ruas perto do Miradouro e às pessoas que lhe dão alguma migalha para comer. Acabou de voltar esta vez do Japão e está a contar a história de uma cerejeira que guardava um segredo…

Giuseppa Giangrande


LUDMILA E OS ANJOS 1
Compravam cartuchos de cerejas e iam comê-los para os jardins, faltavam às aulas e aos trabalhos sem que nada de mal lhes acontecesse, adoravam algodão doce, baloiços, o nascer do sol e a lua cheia. Observando bem, percebia-se que, homens ou mulheres, todos tinham bochechas como nuvens e soltavam risinhos que despertavam brisas lilases. Mas, de resto, estava a ficar cada vez mais difícil distingui-los dos verdadeiros seres humanos. Ludmila não estava contente com isso. Tinha acordado cedo, como sempre, e quando abriu a janela para deixar o resto da torrada aos pardais, vi um deles. Decidiu agir drasticamente.

C. Borges