tiago

Na última edição desta temporada, o tema foi versões do acontecimento. Contar uma história sob outra perspectiva é uma forma criativa de recriar um texto e, num texto original, tornar a história mais cativante. Nesta sessão decidimos pegar numa história de um dos nossos talentos da Naftalina, o Tiago Pina que publicou recentemente o livro Os Piolhos do 4 - a história de uma tabuada que encrava e das atribulações para resolver o problema.

Partimos de um trecho da história e imaginámos novos finais.

«[...]Era oficial: a tabuada do 3 tinha encravado.
O Vítor pegou nela e levou-a a uma oficina.
O mecânico olhou para ela e, muito solenemente, declarou:
- Nós aqui arranjamos motores, mas isso tem ar de estar sujo. Leva-a à lavandaria.
O Vítor saiu da oficina e entrou na primeira lavandaria que encontrou.
A senhora que o atendeu, depois de dar uma olhadela, disse:
- Podemos lavá-la, mas não me parece que seja sujidade.
A tabuada do 3 andou às voltas na máquina de lavar e estendeu-se em cima da tábua de engomar. Ficou lavada e bem-cheirosa, mas continuou encravada.
- O melhor é levá-la ao médico – disse a senhora da lavandaria – Uma vez, tivemos um caso parecido, mas desencravou com a lavagem.
O Vítor foi ao hospital com a tabuada. Fez a triagem, deram-lhe a pulseira verde, que é a menos grave, e esperou pela sua vez.
Quando o chamaram, o Vítor explicou o que tinha acontecido.
- Bem, vamos auscultá-lo para ver se é alguma coisa dos pulmões – disse o médico. – Com este tempo frio, a gente constipa-se e, às vezes, os números encravam.
A auscultação não deu em nada. Nem o exame dos olhos. Nem aos ouvidos. Nem ao nariz.
- Oh, rapaz, o problema não é físico – declarou o médico. – Se amanhã não passar, põe-lhe um bocadinho de óleo. Se continuar encravada, aconselho-te a levá-la [...]»

 

- Se continuar encravada, leve-a a um psicanalista, pode ser psicológico.
A tabuada deitou-se no divã e queixou-se que multiplicava por 3 desde o tempo da Grécia antiga e que estava muito cansada. O psicanalista considerou que a monotonia do trabalho por tão longo tempo levava naturalmente ao burn-out e que da parte dele não havia nenhuma doença psíquica. Sugeriu que fosse a um contabilista que esses, sim, eram especialistas em números.
O contabilista atestou os óculos no nariz e não viu nada de errado naquelas contas. De súbito, entra o filho do contabilista e ao ver aquele objecto, inútil para quem nasceu na geração dos computadores, parte-o e deita-o no lixo..

Helena Campos

 

…a um sítio que eu conheço, que fica na Travessa do Zarco, ali para os lados orientais da cidade. Quando lá chegares, pergunta pelo Manuel Geraldo, que é um velho marinheiro. Toda a gente sabe quem é.
O Vítor e a tabuada do 3 estranharam aquilo tudo, mas por portas e travessas, mais por travessas do que por portas, lá chegaram à dita que era uma rua sem saída com duas dezenas de pequenas casas, onde ninguém fechava a porta à chave.
Encontraram uma senhora e perguntaram-lhe pelo velho embarcadiço.
- É a 2.ª casa, filho! Que bela tabuada tens tu!
O Vítor e a tabuada do 3 bateram à porta e explicaram a situação ao Manuel Geraldo que ficou muito intrigado com a situação e olhem que se comentava por ali que o velho marujo falava com os peixes, com as ondas e até com a Lua.
O marinheiro sacudiu a tabuada, besuntou-a com areia, mas nada feito. Propôs ao Vítor irem dar um passeio de barco.
Mal se pôs ao caminho, os peixes souberam logo que o velho marinheiro estava de volta. Passaram a palavra na linguagem de peixe e passados 10 minutos, os robalos, as sardinhas, as pescadas, as douradas e mais peixes juntaram-se perto do barco do Manuel Geraldo que ficou muito contente por ver e rever todos aqueles animais.
Uns diziam-lhe:
- Desde que desapareceste, o mar nunca mais foi o mesmo.
- Nem uma visitinha nos fizeste, seu velho teimoso.
- Agora, trazes tabuadas? Não me digas que precisa de ser batizada.
O Manuel ria-se com estes comentários enquanto ia perguntando e dizendo:
- Então, e a família? Vai tudo bem?
- Estás mais gordo, daqui a pouco só flutuas.
Depois da euforia por se terem reencontrado, o Manuel Geraldo pegou na tabuada e atirou-a ao mar. Fosse pelo desconforto do sal, da água fria ou de uma bocarra de uma sardinha, a tabuada do 3, rapidamente se desencravou; muito aflita, veio à superfície e pediu ao Vítor e ao velho para voltar ao barco.

Tiago Pina


…Ao psicólogo, para ver o que está na sua cabeça. O Vítor levou a tabuada ao psicólogo, ficou uma hora na sala de espera, quando apareceu o psicólogo com a tabuada na mão e disse que o problema não era de natureza psicólogica, ele mesmo não sabia dar nenhuma explicação àquele fenómeno.
O Vítor ficou confuso ao ouvir as palavras do especialista… o que fazer agora? Foi a mesma tabuada que, cansada de ir de um lado ao outro e de ouvir sempre as mesmas coisas e a mesma palavra “encravada”, bufou de raiva, despeitada, e pediu ao Vítor para levá- la para a escola, onde trabalhava uma professora que tinha a solução ao seu problema: ensinar a tabuada do 3, do 4,… de maneira diferente, livre de esquemas.
Finalmente, alguém acertou! É verdade que ficar prisioneiros de determinados esquemas sempre fixos não nos leva a nada!

Giuseppa Giangrande


Passar óleo? pensou o Vítor. Não sei se vou ser capaz, os algarismos podem começar a desaparecer e depois como é que a tabuada do 3 vai comunicar com as outras tabuadas?
Decidiu levá-la a um spa porque sabia que passavam óleos perfumados nas pessoas para as relaxar, podia ser que assim a tabuada do 3 se descontraísse e desencravasse.
Não, meu rapaz- disseram-lhe -, aqui não massajamos tabuadas abaixo de 6, terás que procurar noutro lugar. Se calhar um mergulho no mar ajudava….
Vítor decidiu que seria ele a desencravar a tabuada. Começou, de mansinho a murmurar 3x1, até sentir um leve arfar da primeira linha. Encorajado, cantarolou, 3x2, e a tabuada, vibrou ligeiramente. Estava a ir bem até aqui! O 3x3 e o 3x4 foram embalados com rapp, mas a tabuada do 3 não gostou, ficou hirta. Bom, vou cantar com a música do Jardim da Celeste. Sucesso! Até o 3x5 e o 3x6 se juntaram à roda, ligeiros e ágeis, como sempre tinham sido.
O Vítor, entusiasmado, continuou a aliciar o 3 com As Pombinhas da Catrina, a Abelha Maia e a Ah, ah, ah, Minha Machadinha, até todas as linhas se desencravarem. Que alegria! A tabuada do 2 e a do 4, vieram felicitar a sua vizinha do 3 pela completa recuperação e tomaram a firme decisão de nunca encravarem enquanto não fosse descoberto outro remédio, menos barulhento, para essa situação

Conceição Brito