Acróstico

 

O acrósticos, a palavra em espinha que guia e dá duas leituras ao texto, são uma técnica conhecemos bem da escola. Em textos «crescidos» são uma interessante forma de passar mensagens escondidas e reforçar a dupla leitura do texto.


Quem nunca aprendeu a nadar não sabe o prazer sensual que perde! Se
me dissessem que só os peixes nadam, eu tinha-me rido. O professor não nos
dera tempo suficiente, na aula de natação, para aprendermos, sem medo, a
mergulhar da prancha como golfinhos coloridos e rodopiantes. Mas não mergulhas
no mar, só precisas de te deixar abraçar pelas ondas salgadas. E esquecer.

Conceição Brito Lopes
Acróstico: Quem me dera mergulhar no mar

 

“Se os porcos sumissem”, dizia uma voz alta na outra ponta do metro, e noutra altura
eu teria ignorado a voz, mas as máscaras fizeram-me curiosa. É uma compensação, se
soubesse algo mais sobre o portador da voz, sabia mais do mundo. E não saberia muito,
o metro estava apinhado, atravessar era uma missão perto de impossível. Prefiro o
complicado ao simples, o colorido ao monocromático, o movimentado ao sossegado,
que posso dizer? Para gostos, as cores, já dizem os espanhóis.
“É hoje”, seguia, em luta contra os anúncios da próxima estação, gritando quase,
“socializar”, ligação com a linha verde, os turistas a saírem, mascarados. Lembrei os
gatos estranhados esta manhã quando fechava a porta do apartamento. E para isto, eu
tinha-me saído da rotina, metro em vez de autocarro, tinha estudado horários, ligações,
dedicado esforço a explorar as entranhas da terra em vez de ver os jacarandás em flor.
A rotina interrompida por esta voz. Atravesso devagarinho a carruagem, desejosa de
outra perspetiva do estranho com a voz aguda, capaz de precisar com exatidão agora a
coisa que me tinha chamado a atenção. Era o António, há tanto tempo não nos víamos!

Patrícia Louro
Acróstico:Se eu soubesse o complicado que é socializar gatos tinha-me dedicado a outra coisa.

 

 

Hoje está um dia quente. O tempo parou, os corpos ficam inertes na areia, o vento não sopra e
nem uma brisa, por mais leve que seja, passa do mar para terra como se tudo fosse um plano
para nos manter numa letargia silenciosa, a derreter lentamente ao ar. Não se vê ninguém a
andar. Está tudo naquele estado de indecisão em que não apetece mexer um dedo com medo
de sentir o corpo a desagregar-se, descobri-lo colado à toalha. Encalhada à beira da costa, uma
moto de água abandonada ainda tem o motor ligado. Ninguém lhe liga.

Francisco Feio
Acróstico: Hoje, nem para andar de moto.


Pertencia a uma longa linhagem de flibusteiros. Já o seu avô, Aguinaldo Pintinhas, era conhecido por ter
a mania de tentar trapacear tudo e todos. Passou-a para o seu descendente, Abílio Pintinhas, que não perdia
uma oportunidade de enzampar. Quando nasceu o seu filho, Mário Pintinhas, trazia já às costas a dinastia de
família. Seria, claro está, um charlatão do melhor que se fabricaria para aquelas bandas. Mas o Mário gostava
de passear pela floresta, apanhar flores, micar o céu e saber o porquê das coisas. Não estava interessado nos
carapeteiros que o iam visitar que diziam com evidente orgulho: Sim, senhor, que belo aviltador aqui está!

Tiago Pina
Acróstico: Pertencia a uma família de carapeteiros


Leio muitos
Textos em português
Mas apenas de literatura brasileira. È tudo muito interessante e gosto muito, mas
Queria saber e aprender mais
Conhecer mais
Autores Portugueses, também
Autoras lisboetas.
Ler outros tipos de
Textos.

Giuseppa Giangrande
Acróstico: Leio textos, mas queria conhecer mais autores, autoras lisboetas, ler textos.