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Arrumámos a casa com o desfecho das histórias ainda abertas. Em setembro voltamos à escrita a várias mãos. E outras!


LEGÍTIMA DEFESA

A rapariga saiu pesadamente da cama. Mais que levantar-se, descolou-se dos lençóis molhados de suor e salpicados de sangue. Mais um dia, mais um espancamento, mais um passo para a sua total anulação.
Mas hoje não chorara nem gritara, enquanto ele lhe batia, repetindo e repetindo, no mesmo ritmo: «Faço isto (estalo)…para (estalo)...teu bem... (murro)».
Acrescentando sempre – «porque quero o teu bem, não te esqueças. Quem dá o pão dá a educação».
Seu tarado, murmurou ela – não hás-de conseguir. Podes matar-me, mas não me vais dobrar nunca. Mais depressa te mato eu.
Parou subitamente. Que ideia libertadora! Porque não pensara nisso há mais tempo? Já era suficientemente crescida para conseguir fazer frente ao miserável, especialmente à noite, quando ele chegava a casa bêbado – o que acontecia quase todos os dias.
Arranjava uma faca – não, podia não ter força para a cravar bem fundo! Ou não acertar no sítio certo!...
Então o machado de cortar os cavacos para o fogão…Também não, se falhasse ele rachava-a de alto a baixo.
Tinha de ser um martelo, ou uma barra de ferro. Escondia-se atrás da porta e ele nem tinha tempo de se virar: Pás, bem no alto da cabeça para ele desmaiar ou morrer logo.
Enquanto se ia confortando com estas maquinações, lavou-se, mudou de roupa, tratou de esconder os hematomas e tomou 5 aspirinas. Quando se penteava, olhou para o espelho sobre o lavatório, viu o rosto pisado, o lábio que ainda sangrava, e não conteve as lágrimas de ódio.
- Foi a última vez que me tocaste. Na próxima vez que te atrevas, mato-te! Em legítima defesa!
Havia atrás da porta uma longa barra de ferro cuja proveniência ela já nem se lembrava. Veio bêbado o traste na noite seguinte. Escondeu-se atrás da porta e aplicou-lhe um golpe certeiro na cabeça zonza. Ele caiu ao chão e vai de bater naquela cabeçorra com a força maior de muitos anos recalcados.
Alcançou um facão e cortou-lhe as carótidas. O traste expirou. A faca continuou a trabalhar, desceu atá às virilhas e capou-o, depois desmembrou-o dedo a dedo, membro a membro, vazou-lhe os olhos e esmagou-os debaixo dos pés, reduziu-lhe a cabeça à marretada até ao tamanho de um punho, acabou de cortar o resto do pescoço e todo o dia retalhou aquela carne porcina. Foi deitando pedaço a pedaço na sanita e puxando o autoclismo.
Quando os vizinhos mais tarde lhe perguntaram por ele, respondeu que morrera em coma alcoólico e todos acreditaram.
A verdade era um segredo entre ela e o cano do esgoto e esse, nas grandes cidades, é o cúmplice perfeito dos lodaçais da existência.

Conceição Brito Lopes
Helena Campos

 

ADIVINHA

O meu santuário é um aeroporto, qualquer aeroporto, todos os aeroportos, grandes, pequenos, no centro de cidades ou perdidos num descampado longe de outros sinais de civilização. Podem vendar-me, meter-me num avião, deixar-me noutra geografia, sacar-me do avião e, de olhos tapados, posso adivinhar onde estou. Os meus amigos não acreditavam que possuísse este talento, puseram-me à prova. Começámos em Oslo, dificuldade média: tempo de voo cerca de 4 horas, o que exclui a maior parte da Europa, e quando senti o frio soube que estávamos a norte. Podia ser Estocolmo também, mais coisa, menos coisa, mas os suecos são extrovertidos, e o silêncio que nos recebeu tirou-me de dúvidas. Depois Londres, Gatwick. Munique. Levava acertados 3 dos 5 voos. Ainda apanhámos o voo seguinte, havia um pânico no ar que tornava difícil escutar os rumores locais. Quando aterrámos, pela primeira vez não sabia onde estava: tantas vozes, tão altas, e medo, tanto medo. Guerra, pensei. Mas guerra não é um aeroporto. Síria? Iémen? Não, não podia ser. O tempo estava todo mal: o tempo de voo, o clima. O tempo era outro já, mas isso só o saberíamos passado tempo, e por enquanto ainda estávamos só a 7 de março do ano em que o a.C e d.C mudaram de significado. Em Paris, disseram-me.
Mas eu não acreditava… pelo que me sugeriam a minha perspicácia e o meu talento, aquilo não podia ser Paris. Tirei a venda e à minha frente abriu-se um espetáculo devastador: eu tinha razão, aquilo não era Paris. Aquilo tampouco era o meu tempo, a minha dimensão, nem sequer conseguia entender; pensamentos obscuros ocuparam a minha cabeça, comecei a ver aquele espetáculo, a ficar obcecada pela ideia da morte… Mais uma vez, dei-me conta da falta do meu tempo, talvez o que eu via fosse algo distante ou se calhar não. Ouvi-me gritar por socorro e acordei, assustada… Tudo tinha sido um pesadelo, mas no meu coração instalou-se uma dúvida: será que eu tinha visto, era na verdade o espelho da alma aflita? Era melhor não pensar nisso e voltar a pôr pé em terra, nunca mais aeroportos!

Patrícia Louro
Giuseppa Giangrande

 

A CAMINHO DA ESTAÇÃO

Sempre que Joana ia apanhar o comboio, na estação que ficava perto de casa, escolhia ir pela rua da padaria que aquela hora estava a acabar de cozer a última fornada de pão. Lembrava-lhe o cheiro de quando era pequena e abria a porta de casa para retirar o pão que o padeiro lá tinha deixado antes da primeira luz da manhã. Há muito tempo que já não havia pão à porta e o trajeto matinal era uma lembrança que lhe aquecia a alma. No regresso, vinha por outra rua, mais curta e hoje sem cheiros a evocar memórias. A loja dos jornais tinha fechado, a pastelaria tinha virado banco, a mercearia do senhor António não tinha tido ninguém para lhe pegar depois da sua morte e até o barbeiro da esquina tinha desistido das barbas e dos cabelos. Joana sabia que um dia sairia de casa, viraria à esquerda para a rua da padaria, mas daquele forno já não sairia mais pão. Na rua do regresso tinha sido assim. Sem aviso prévio as casas iam fechando, os rostos desaparecendo e o silêncio entranhando. Por isso parava sempre antes de virar a esquina, enchia o peito de ar e enfrentava a rua de passo decidido com a secreta esperança que nada tivesse mudado. Mas aquele dia ia ser diferente.
Quando virou a rua, não sentiu o cheiro do pão. Um grande cartaz à porta dizia “Trespassa-se à melhor oferta”. Joana meditou e perguntou-se: E porque não? Joana não era nacionalista, nem patriota; era de Chelas.
Andava há algum tempo, talvez há demasiado, a pensar dar uma volta à sua vida. Todos os dias se queixava que o seu bairro de sempre estava a desaparecer, diariamente via o desânimo dos habitantes e, não raras vezes, ouvia os vizinhos a incentivá-la.
- Menina Joana, faça alguma coisa que tem a vida toda pela frente. Até o nome nos querem tirar.
Se queria fazer a diferença, talvez o anúncio fosse um sinal.
Gostaria de ver o acrescento que aquela agência imobiliária colocava depois de os negócios ficarem ultimados. Já era, se nos é permitida a publicidade.
Quando chegou à estação, não entrou no comboio. Sentou-se no banco e tentou recordar-se do pão que o seu avô fazia. Lembrava-se de todos os passos.
A sua cabeça de analista financeira dizia-lhe que se decidisse ir em frente, arriscava tudo o que até então tinha como garantido. Um bom ordenado, subsídio de férias, férias na neve e na praia, apoio à saúde, folhas de Excel a perder de vista, análises de risco e a meio da manhã, um sumo, um café e uma sandes de queijo fresco da Padaria Portuguesa.
Levantou-se e deu meia volta.
Bateu à porta na esperança de que alguém lá estivesse dentro. Quando abriram, não reconheceu a pessoa, mas o cheiro que emanava do interior era parecido ao que cheirava todos os dias.
- Bom dia, queria saber o que é preciso para me candidatar à Junta de Freguesia de Marvila!

Francisco Feio
Tiago Pina


O PREÇO DAS DIÁSPORAS

Amílcar passou o olhar altivo pelas pessoas reunidas no hall do velório. O semi-sorriso irónico estampado na figura erguida um bom palmo acima dos que o rodeavam, recuou ainda um passo subtil.
Dez anos de permanência em Frankfurt, e um alto cargo no reino da informática, depois de ter passado por Praga e Moscovo tinham-lhe aumentado o grau de distância social aceitável.
Vitória saiu do salão onde velara o pai para se dirigir depois ao cemitério onde se realizava a breve missa e a cremação. O seu rosto sempre firme e impávido descaira para o choro compulsivo, de pronto aconchegado pelos abraços das amigas. Trabalhara com afinco máximo, como em tudo o que fazia, para acompanhar o pai enquanto o Alzheimer lhe ía engolindo a razão e a vontade e depois, quando o corpo se fragilizara mais e a cabeça se recusava a comer até que a química e os tratamentos foram debalde. Era uma matriarca decidida e despachada que conduzia o navio como um almirante que se queria invencível.
Amílcar, longe das lágrimas dela, como da cultura de onde partira para abraçar a carreira e depois a nova família numa terra a que chamava sua com afeto na voz, continuava a soltar ironias.
Saído da cerimónia prévia à cremação, lançou ainda “As tuas primas são tão minúsculas!”
“É verdade”, respondeu-lhe Vitória. “Trabalham muito, ao ponto da Marta já ter sido operada três vezes à coluna. As noites passadas enquanto médica nos hospitais a fazer banco, custaram-lhe caro”.
Amílcar deu-lhes uma curta boleia e, passando a outro assunto, perguntou ao filho como andavam as notas do 12.º ano e sobre as opções que ele vislumbrava. O filho esticou as longas pernas como pôde e aproveitou as palavras gotejadas pelo pai para estabelecer diálogo. Terminado o percurso, o filho arrastou-se em busca de prolongamento de proximidade, esticou os braços palpando o ar por um afago. Cortando a hipótese de prolongar estes momentos, o pai pôs aspereza na voz e disse-lhe que não se esquecesse da mochila no porta-bagagens. Um adeus seco sucedeu-se e o pequeno núcleo de família e alguns amigos íntimos continuaram a conversar durante uns minutos antes de se despedirem com abraços cordiais e de regressarem a casa.
Amílcar saiu dali com vontade de ir comer dióspiros. Sempre que tinha de lidar com alguma coisa que o deixava desconfortável, era a este fruto que recorria. Funcionava como antidepressivo ou na sua linguagem, software contra qualquer maleita.
O casamento com Vitória acabara porque esta não queria ser uma nómada, mesmo que digital. Nem o nascimento do filho, Alberto, lhe travara a ideia de conhecer outras cidades, nelas trabalhar e quando se fartasse do frio, das pessoas, da língua, zarpar para qualquer outro sítio. Bastava-lhe pegar no computador, no carregador e poderia trabalhar em qualquer parte do globo.
Desde pequeno, jurara que nunca mais ninguém se riria dele. O rol de enxovalho era extenso e, não bastas vezes, o conculcar atingia tamanho desprezo que, ao Amílcar, só lhe apetecia chorar por dentro.
- “Olha o Gordo!”, “Vidrinhos”, “Só se vê com uma lupa” e outros que me abstenho de continuar.
Só Vitória não o escarnecia, talvez por partilhar com ele o excesso de gordura, as hastes e a altura diminuta e o gosto pelos dióspiros. Tamanhas afinidades só poderiam resultar em boda, debaixo de um diospireiro, claro está.
Amílcar procurava uma loja que lhe saciasse a fome quando viu um homem a decapitar um pombo.
Dentado a seu lado um miúdo, que aparentava uns 8 anos, começou a chorar histericamente, aterrorizado, chocado com a imagem do pombo decapitado ainda a agitar debilmente as asas como se tentasse recuperar a cabeça ensanguentada.
O homem, talvez pai do rapaz, sacudiu-o bruscamente pelos ombros e, numa língua que Amílcar não foi capaz de identificar, falou-lhe asperamente. A criança encolheu-se, anulou-se na cadeira, chorando cada vez mais alto, com os olhos dilatados pelo pânico.
O brutamontes levantou uma mão grossa e deu-lhe um tabefe na boca, na tentativa estúpida de o calar. Amílcar, que os observava, sentiu-se a reviver a amargura dos muitos anos de vexames e humilhações, maus tratos e insultos que sofrera.
Num impulso irreprimível, mas controlado, avançou uns passos e desferiu um potente murro na cara do abusador de crianças e pombos indefesos.
E, enquanto o homem, tonto e atónito, tentava estancar o sangue que lhe jorrava do nariz, Amílcar afastou-se, tranquilamente, acompanhado pela salva de palmas dos circunstantes que se tinham retraído.
Apossou-se dele uma enorme euforia e começou a rir às gargalhadas, sentindo que as cadeias que transportava há tantos anos se tinham, finalmente, começado a soltar. Ah! O doce sabor da vingança!
E nem fora preciso comer um dióspiro…

Lídia Vieira
Tiago Pina
Conceição Brito

 

 

UMA NOITE DE VERÃO I

Uma noite de verão fazia muito calor, aqui onde ela estava. Já era muito tarde, não conseguia dormir; levantou-se da cama, abriu a janela e ficou a olhar para as estrelas.
De repente, uma luz pequena pousou antes na balaustrada, logo no seu ombro. Ela ficou assustada, mas num instante da luz proveio uma voz suave , que a sossegou. Nessa voz, ela reconheceu a voz do seu coração que lhe retrouxe lembranças de um tempo longínquo, em que tinha sido feliz, mas a que ela tinha renunciado. Uma lágrima desceu no seu rosto, a voz da luz chegou-lhe ao coração. Porque tinha renunciado à felicidade e à liberdade que muitos anos antes tinham passado pela sua vida?

Giuseppa Giangrande

 


HISTÓRIA NOVA IV

Os olhos azuis do bonito desconhecido à minha frente mudavam de tom. Mais uns minutos e teria mais um engate bem-sucedido. O sorriso passava-lhe dos lábios pálidos para os olhos entrecerrados, os dedos musculosos já procuravam a minha pele. Só precisava do toque final.
- ´Tás a sempre a contar a mesma história.
- Hã? – este é o problema de focar a atenção. Perdes perspetiva dos perigos que te rodeiam. E este perigo particular falava demasiado alto, demasiado depressa, demasiado enérgico. A mão forte no meu braço, sinto o corpo girar, o que vejo não é o bonito desconhecido de olhos azuis e sorriso tímido à minha frente, o que vejo é o meu amigo Paulo a tentar manter-se em pé.
- Já ninguém te aguenta. Blábláblá, cresceste numa cidade pequena, blá, sair do armário, blá. Fugiste de casa porque se ficasses o teu pai te matava por seres maricas. Já sabemos, pá. Já sabemos. Blábláblá. Quantos anos é que tens agora? Trinta? Não achas que é altura de contares uma história nova?
Sim, pensei. Gostava de contar uma nova história, mas infelizmente estas histórias são sempre as mesmas, ainda que possam parecer diferentes. E depois era a minha história. Como queria ele que a história ficasse diferente de um dia para o outro? Fui-me sentar num canto da sala e numa rápida viagem pela memória percebi que todos os anos passados seriam sempre poucos e não deixavam nenhuma vontade de voltar. Nunca mais tinha sabido de ninguém, nem do que poderá ter acontecido depois de ter saído de casa naquela manhã em direção à escola, pelo caminho habitual, até ao cruzamento que à direita leva ao centro da vila e à esquerda ao resto do mundo. Nem hesitou quando voltou à esquerda, com a mesma naturalidade de quem faz esse caminho todos os dias. Só lamentava não se ter despedido de uma pessoa, mas sabia que não lhe poderia pedir que o seguisse. Sentiu uma mão, agora suave, a agarrar-lhe o braço e uma voz do passado a chamá-lo pelo nome.
- Olá, João, nem acredito que és tu! Como estás, filho?
Ficou pregado ao chão, imóvel, quase sem respirar, enquanto os olhos se enchiam de lágrimas e os lábios balbuciavam sons incoerentes. Não era possível, não podia estar a acontecer surgir à sua frente o ser que mais odiara e que o forçara a seguir um caminho tão distinto daquele que tinha planeado.
Com um gesto raivoso limpou o rosto e virou-se para se afastar. Mas o pai sacudiu-lhe a mão, num longo aperto, passou-lhe o braço à volta dos ombros, e abraçou-o com firmeza.
- Há quanto tempo, filho! Tenho sabido notícias tuas por amigos e pelas notícias de jornais da especialidade. Desde a morte da tua mãe que pouco saio, mas as pessoas vão-me contando. A Inês também pergunta por ti.
João continuava estático, sem conseguir articular uma frase coerente, uma frase que traduzisse toda a frustração, ódio e perda que o acompanharam durante os últimos anos. As palavras do pai caiam sobre ele em catadupa, afogando-o e sufocando-o.
Quem era este sujeito que fora a causa do seu afastamento, da perda da sua juventude e da sua inocência e que agora o olhava com tanta ternura? Não sabia se havia de rir ou de lhe dar um murro e mandá-lo para o outro lado do inferno donde fugira
- Anda, filho, vamos tomar a bebida, daqui a pouco já são horas de jantar e faço questão que jantes comigo. Temos tanta vida para contar e acho que já é tempo de saber porque partiste.
O João não acreditava no que estava a ouvir. O pai tinha a desfaçatez de perguntar o porquê da sua saída... que descaramento! Com certeza, havia uma explicação para tudo isso: agora ele estava sozinho, precisava de companhia e fazia como se nada tivesse acontecido... Ele não sabia quanto lhe tinha custado tomar aquela decisão de sair de casa para não voltar mais... Na verdade, o João não sabia para que lado se havia de virar... O pai disse - de repente - que corriam boatos ao seu respeito. Então, por muitas voltas que desse, o resultado seria sempre o mesmo: o seu pai não tinha mudado, enquanto que os anos tinham transformado o João. O pai continuava a ter preconceitos... De repente, no bar ouviu-se uma velha canção italiana: Nessuno mi può giudicare, nemmeno tu...

Patrícia Louro
Francisco Feio
Conceição Brito
Giuseppa Giangrande

 

O PROBLEMA 

Nas últimas vezes tinha sido sempre assim. Por mais voltas que desse na rotunda, ia sempre acabar numa estrada nova, onde tinha de ir abrindo caminho à medida que ia avançando. Nem o Machado se lembraria desta, até porque no tempo dele creio que a rotunda ainda não tinha sido inventada e os caminhos de que falava eram mais de bosques e montanha. Estava perdido nestes pensamentos quando reparei na placa com uma seta de direção onde mal se liam as palavras “abrigo de montanha”. Por mais estranho que me parecesse a coincidência, coisa em que não acreditava, resolvi abrir caminho pela seta e tentar descobrir se o tal abrigo existia e o que me aguardava. Nem o facto de estar numa planície me afastou da ideia. Antes pelo contrário. Que faria um abrigo de montanha numa zona que era totalmente plana? Depois de andar 45 minutos no que penso ser uma linha reta, sem nada que aparecesse no horizonte, olho para trás para descobrir que a vista era exatamente igual. Olho de novo para a frente e lá estava. A menos de 50 metros erguia-se o abrigo, com um sinal luminoso a piscar onde se lia “abrigo de montanha”. Estacionada frente à porta, uma velha 4L dava um ar familiar à cena. A chaminé fumegava e na porta estava uma placa que dizia “aberto”. Olhei a matrícula e reconheci-a imediatamente: tinha sido minha. Mas não me lembro de ter aquelas cores todas. Foi então que uma voz se fez ouvir: “então? De novo aqui?”
Antes de responder, fitei longamente a minha - de certeza minha - 4L. As cores brilhantes não deixavam perceber que já fora verde e já se desfizera, em tempos, de encontro a um muro. As recordações acudiram em catadupa e desviei os olhos para o indivíduo que me fitava da porta e convidava a entrar. O tempo parou subitamente: perante mim estava eu próprio, 35 anos mais novo, tal como era na primeira vez em que, durante uma caminhada na montanha, me abriguei nesta mesma cabana para fugir a uma forte borrasca.
Antes de entrar olhei para trás e não avistei nada que não fosse o deserto a perder de vista e a estrada, por onde viera, que se descolava, com lentidão, para um horizonte invisível.
Com as pernas a tremer, cruzei a soleira da porta e olhei em volta. Estava tudo igual, a mesma mesa de tampo riscado, as cadeiras desirmanadas, meia dúzia de chávenas à espera do café que murmurava sobre as brasas da lareira. Parecia sentir-lhe ainda o gosto, amargo e reconfortante, naquele dia já esquecido, mas nunca perdido.
Olhei para o meu alter ego, que sorria tranquilamente, e numa voz enrouquecida pelo pânico, disse:
-Vais ter de me explicar o que se passa!
Fiquei pasmado, não sabia o que dizer e custava mexer-me. Então, o meu alter ego, quase como se fosse uma criança, pegou na minha mão e levou-me para a mesa. Lá sentado, fechei-me no meu mutismo. Mas as sensações que eu tinha, eram de cansaço e de satisfação ao mesmo tempo. O meu alter ego estava lá a espera de uma explicação que não vinha. Eu estava imerso nos meus pensamentos, era como no mundo das coisas de há tantos anos, como num poema de Guido Gozzano, numa evocação de um tempo que tinha voltado...
-Futuro eu, queres as boas ou as más notícias?, interrompeu-me o meu eu do passado, sem rugas, sem marcas de cansaço e noites mal dormidas debaixo dos olhos e do queixo. Não podia ver, claro, mas com um fígado intacto também.
-Por acaso, eu nem tenho fígado. Tu tens a matéria, eu tenho a memória. Olha – pegou-me na mão e não senti nada entre os dedos, uma força invisível controlava-me a mão, aproximou-a do coração, não, do lugar onde o coração devia estar, e não senti nada, nenhum movimento, nenhum rumor. Olhei sem perceber, a ousadia de usar palavras perdida entre as brasas da lareira.
– Queres sentir-me?, ofereceu.
- Sim.
- De certeza?
- Sim.
O meu eu passado, sem matéria, sorriu, um sorriso lavado pela luz, aproximou novamente a minha mão do coração, e senti o meu coração bater-lhe no peito, no meu peito, vi diante de mim o percurso do sangue, às voltas na rotunda, uma estrada nova, abrindo caminho pelas artérias de ida, passando por uma seta de direção quando mudava para as veias, “abrigo de montanha”, uma linha reta numa planície.
- Então, queres as boas ou as más notícias?
As boas notícias são como os abrigos de montanha, deixam-nos protegidos, de maneira que disse:
- As más.
Percebi pela sua cara que o meu Eu passado talvez não esperasse esta resposta.
- Seja. A estrada por onde vieste, não tem volta.
- As boas?
- Ficaremos aqui os dois.
Olhei para ele. O tempo não perdoa.
O não voltar para trás não me incomodava. Conviver com o meu Eu passado, aí a conversa já era outra.
Ele lembrava-me o que tinha perdido há 35 anos.
Não fora só um companheiro de escalada; o tempo irado levara-me a paixão da minha vida.
Demorei a superar a perda, já não era altura de voltar.
- Irei na mesma. Como na canção, o que foi não volta a ser.
Saí do abrigo. Olhei à minha volta. Vi a imagem do Pierre.
- A deusa levou-me, abraçou-me nos seus braços.
Chorei então as lágrimas que sustivera nos últimos 35 anos. O meu Eu passado esfumou-se.
Pude então seguir viagem nesta planície que teima em não acabar.

Francisco Feio
Conceição Brito
Giuseppa Giangrande
Patrícia Louro
Tiago Pina


A MALA 

Olhava a mala fechada, junto à porta e revia mentalmente o seu conteúdo. Será que se tinha esquecido de alguma coisa? Agarrou na mala, meteu-a em cima da mesa que estava no meio da sala e quando a ia abrir, parou. Como se poderia ter esquecido de alguma coisa numa casa que estava vazia. Restava apenas a mesa, o sofá onde tinha dormido e aquela mala que continha o que restava do seu passado e seria o início do seu futuro.
Pela janela aberta chegou o som de uma buzina em três toques curtos; tinha chegado o transporte para o terminal ferroviário. Susana arrastou a mala pelas escadas até sair para a rua onde o motorista lhe estendia uma máscara que prontamente ajeitou a tapar o nariz e a boca, um gesto que tinha repetido à exaustão nos últimos anos.
Atravessava a cidade deserta e pensava que não havia razão para ter estado tanto tempo à espera do transporte. Na realidade, já nem se lembrava de o ter pedido ou o que estaria ali a fazer. Chegou ao terminal e arrastou de novo a mala pelo cais à procura da linha certa. O revisor olhou para ela enquanto lhe estendia o bilhete e disse: sabe que já não é necessário usar máscara, não sabe? Olhou atentamente para o homem, mas foi só quando olhou para o interior da carruagem que percebeu.
A Susana percebeu... percebeu... e tornou a perceber.
A sua preciosa mala só lá tinha dentro, imagine-se... máscaras não estava em crer. Percebeu.
Que absurdo! Percebeu.
Mas desde há quanto tempo eu sou perseguida por absurdos???
Não quero acreditar!!! Percebeu.
Tenho máscaras que vão desde certificadas a engraçadas, àquelas que só cheiram a higiene. Entendeu.
- Eu compreendo-a, disse-lhe gentilmente o revisor.
Decifrou-a. P'lo ar incrédulo que ela desmascarara.
- Já passou!!!
- ...Hmm... pergunta ela... e a Feira da Ladra ainda lá está?
- ...Sim...e desinfectada!!! Sorriu.
- ...Ok... resolvido: bilhete para Santa Apolónia!
Ao chegar a Santa Apolónia, Susana foi acolhida por uma atmosfera alegre, pensou que talvez os absurdos já tivessem acabado aquela perseguição de que já estava farta. Dirigiu os seus passos rumo à Feira da Ladra. Agora - como por encanto - nem sequer precisava de arrastar a mala, que se tinha tornado - era incrível, mas verdadeiro - muito leve, ou se calhar, era ela mais leve…
Lá, na Feira da Ladra, viu muitas pessoas como sempre nos dias de feira, não acreditava nos seus olhos… Agora queria livrar-se definitivamente daquela mala, símbolo dos absurdos que a perseguiam, pousou-a no chão e abriu-a: outro encanto…
da mala saíram borboletas de muitas cores e…
E, com as borboletas, Susana foi arrastada da Feira da Ladra para a Feira da Malveira que, espreitando e roubando alguma ideia à história da Folga Indesejada, que, como estarão recordados, provocou uma crise na rima de Sérgio Godinho que, diga-se, poderia ser substituída por
«É quinta-feira
Feira da Malveira
Abre hoje pela mão do Senhor Meira.»
Mas, como não quero estar aqui a estragar a história à colega que está a resolver o problema, Susana deu consigo na Malveira, onde para além das quinquilharias que se encontram na Feira da Ladra, oferece também uma atração única: a possibilidade de comprar cadeados que não fecham. Exatamente, são vendidos assim mesmo.
Há várias bancas que os vendem, todos certificados. Para o efeito, pediram, isto é, pagaram os direitos de autor (e novamente o Sérgio Godinho aparece para aqui aos trambolhões) e instalaram à entrada do recinto um cartaz que anuncia:
«Cadeados que não fecham: Cuidado com as imitações, oh Casimiros.»
Susana ficou fascinada com os aloquetes: tal como as máscaras, existiam de várias cores, tamanhos e especialidades.
Encheu a mala com todos os espécimes que encontrou e decidiu que passariam a ser o seu presente de Natal para todos os amigos, familiares, conhecidos e desconhecidos.
Não imaginava era o sarilho onde se estava a meter com o Senhor Meira, que para os distraídos é quem abre a Feira da Malveira.
Na realidade, o único cadeado que fechava era o do Senhor Meira, que o utilizava para fechar a feira todos os dias.
Era um cadeado igual a todos os outros. A única diferença era que fechava. Susana perguntou ao Senhor Meira onde o tinha encontrado e ele disse que era um cadeado que estava avariado e que tinha sido deitado fora por ser inútil. Ele próprio não sabia bem o que fazer com ele e foi a mulher, farta de o ver olhar tamanha bizarria, que lhe deu a solução; usa-o para fechar a feira, homem! Ele achou a ideia genial. Apesar da feira ser ao ar livre e não ter porta, o senhor Meira não achou que isso fosse um problema. Espetou duas estacas no chão e passou duas correntes que se uniam pelo tal cadeado. Se o espaço era aberto, para que servia então o cadeado? O Senhor Meira olhou para ela. Primeiro um pouco incrédulo, depois um pouco transtornado e por fim derrotado. Com uma simples pergunta, tinham deitado por terra todo o empenho e diligência com que diariamente encerrava a feira. O trabalho de uma vida reduzido à sua inutilidade. Susana regressou à feira da ladra e despachou metade dos cadeados. Com a mala mais leve apanhou o comboio de regresso. Já em casa sentou-se, cansada, a pensar na imagem do Senhor Meira, a olhar o inútil cadeado. Quando acordou demorou a perceber porque tinha uma máscara na cara. Ao lado dela ouvia-se o som ritmado de máquinas a que estava ligada e uma voz, por detrás de uma máscara e viseira disse-lhe: bem-vinda de regresso!
 
Francisco Feio
Joana Dinis
Giuseppa Giangrande
Tiago Pina
Francisco Feio


FOLGA INDESEJADA

Era uma vez um dia da semana que decidiu tirar folga por tempo indeterminado. Não queria saber da feira da Ladra, nem do Carnaval, nem de qualquer outro acontecimento que tivesse de ser alterado para outro dia qualquer.
Entregou o pré-aviso à coordenadora dos dias, a Semanada, que ficou assim, como dizer, chateada com F mesmo grande.
- Trabalha de 6 em 6 dias e quer folga? E agora, o que é que eu faço?
Telefonou ao Sérgio Godinho e, depois de lhe dizer todas aquelas coisas que se dizem a uma figura conhecida “Gosto muito da sua música, dos seus livros, etc…” disse-lhe, muito desconsolada.
- Tem uma letra de uma música que terá de alterar, porque a dita cuja decidiu tirar folga e, por lei, não podemos nem sequer dizer ou cantar o seu nome.
Depois de descobrir a que palavra se referia a Semanada, Sérgio Godinho tentou reformular a tão badalada canção.
A rapariga podia continuar a ir vender mágoas ao desbarato que isso não fazia diferença nenhuma. Também podia ir vender o que quisesse que era para onde dormia melhor. Mas, e o início? Será que podia começar assim:
- É quinta-feira, feira de Carcavelos, abre hoje às cinco da madrugada? Não rima.
A semanada pensou melhor, chamou o advogado e pôs a terça-feira em Tribunal. A terça-feira chamou o Sindicato dos dias, meses, anos e períodos de tempo relativos e fizeram queixa na Autoridade para as Condições de Trabalho. A terça-feira meteu baixa na Segurança Social porque estava em burn-out, trabalhava desde a antiga Grécia e precisava de descansar. A semanada pediu à Segurança Social uma junta médica de verificação de incapacidades para retirar a baixa à terça-feira a fim de obrigál-a a regressar ao trabalho. A terça-feira pediu consulta de Medicina do Trabalho e meteu baixa não remunerada.
Entretanto, o Sérgio Godinho continuava sem saber o que fazer com a canção embora lhe passasse pela cabeça substituir simplesmente por “É dia de feira da ladra” na esperança de que o público se lembrasse de que dia se tratava.
A situação estava a arrastar-se há demasiado tempo e começava já a extravasar as feiras e a atingir outros sectores que atraem grande público. A terça-feira de carnaval resolveu fazer greve, muito ajudada pelas autoridades de saúde e mesmo o domingo de páscoa esteve até à última hora a dizer que não contassem com ele, apesar de no fim lhe ter faltado a coragem de levar a sua recusa por diante.
Por esta altura, já o Sérgio Godinho tinha desistido e estava agora a braços com a Etelvina, na esperança de que se a revolta chegasse aos nomes, este, pouco usado nos dias que correm, seria dos últimos a levantar problemas. O que ninguém esperava foi o que aconteceu de seguida. Estava mesmo a ver-se; a arraia-miúda revolta-se e não se sabe onde as coisas vão parar. Andava a semanada em protestos e reuniões de comités diversos e nem deu conta das movimentações acima na hierarquia. Sem aviso prévio, aí estavam os meses a protestar. As quinzenas, coitadas, animadas à espera do bom tempo e do fim do confinamento, nem tiveram tempo de se organizar. Numa manhã amena, o porta-voz dos meses falou às rádios e televisões: os meses estavam fartos de marcar o calendário e iam retirar-se de cena. O ano estava oficialmente mergulhado no caos.
Intervieram então novamente os dias da semana, querendo fazer raciocinar os meses em protesto. Não tinha nenhum sentido aquela revolta: o que ia acontecer agora? O perigo era grande: em outros países os meses tinham a firme intenção de começar uma greve… os primeiros a juntarem-se aos meses portugueses foram os italianos, que cruzaram os braços em sinal de solidariedade. Então ao Sérgio Godinho ocorreu uma ideia: organizar um festival da canção onde os protagonistas tinham de ser canções que celebravam os meses e as feiras. Convidou, por exemplo, o Riccardo Del Turco para que cantasse Luglio col bene che ti voglio, Angelo Branduardi tinha de intervir com Alla Fiera dell’ Est per due soldi... Será que os cantores conseguiriam fazer arrepiar caminho aos meses?
Julho reclamou de imediato, porque não queria ver o seu nome associado a tantos ai,ai, ais, e as feiras chisparam de indignação: uma canção sobre comprar ratos numa feira? Estás maluco, oh Sérgio?? Nunca mais ninguém ia às feiras, só os técnicos de laboratórios de investigação, para se abastecerem!!!
O ano, apesar de estar oficialmente mergulhado no caos, teve uma ideia: fez uma pesquisa no google e voilá, instantâneamente apareceu uma play list de musiquinhas com títulos para todos os meses do ano, desde Roberta Campos e Nando Reis a gorgolejar sobre amor em Janeiro, até Taylor Swift a chorar Dezembro, passando pelo deprimente Novembro dos Guns’ and Roses.
Será que não há melhor do que isto? matutou o ano. Há séculos que se toca música e só me aparecem coisas destas?
O século ouviu o seu nome a ser invocado em vão. E não gostou. Mesmo nada, nadinha. E decidiu que não estava para essas ofensas. Trabalhava cem anos a fio sem outro reconhecimento que não fossem uns algarismos romanos sempre com umas letritas coladas a chamar-lhe antes e depois!! Vá lá, tinha tido um fugaz reconhecimento quando lhe deram o título de Século das Luzes, mas não durou muito tempo. Assim tomou uma decisão: decidiu tirar também uma folga. Conferenciou com o século XX, que se recusou a sair da sua merecida reforma: «não querias mais nada, já dei os meus 100 anos».
Procurou o século XXII, que lhe fez um gesto feio com a mão, era o que faltava, ainda mal lhe começavam a nascer os dentes de leite e já tinha de governar o mundo? Ainda por cima com o péssimo trabalho que o XXI estava a fazer, com tantas guerras e mortes, fome por tantos continentes e esta peste incontrolada? Um apocalipse!
O XXI propôs uma solução: convidava-se aquele cantor dos caracóis para cantar «Oh tempo volta para trás, traz-me tudo o que perdi». Se o tempo se comovesse e trouxesse tudo o que tinha sido perdido, estava o assunto arrumado. Se o tempo, na sua infinita indiferença nada fizesse, o XXI entraria em greve porque ainda não tinha tempo de serviço para se reformar. E em democracia todos têm os mesmos direitos.
E foi assim que uma folga inesperada de um dia da semana trouxe o terminar do tempo, que não se comoveu nem ficou indiferente, apenas fez o que o universo lhe ordenou: nada.
 
Tiago Pina
Helena Campos
Francisco Feio
Giuseppa Giangrande
Conceição Brito

 

UM DIA DE CHUVA, NUM CAFÉ 

Uma vez - era um dia de chuva e não tinha comigo o meu guarda-chuva - entrei num café que me ofereceu abrigo. Sentei-me e depois de mandar vir um chá para aquecer-me um pouco, chamou-me a atenção uma mulher que estava sentada numa mesa, não muito longe de mim. Conseguia ouvir as suas palavras, enquanto ela estava a falar ao telemóvel. Ela, porém, falava numa língua desconhecida para mim; era um idioma que na voz daquela mulher tinha um som melodioso, embora tenha percebido que havia alguma tristeza nas suas palavras. Tentei interpretar os seus pensamentos e o que estava a dizer, estava como que encantada pelo mistério que parecia envolver aquela voz e aquelas palavras.
Pensei que poderia estar a separar-se de alguém (às vezes, separar-se é uma coisa triste) ou estar zangada ou simplesmente ser uma pessoa atreita a depressões. Fantasiava nestes pensamentos quando a mulher se levantou e, quando tirava a carteira para pagar, vi no interior da sua mala, uma pequena bandeira do País Basco.
Pensei para com os meus botões: o idioma deve ser o basco, a mulher deve ser de lá. E devia estar a falar com alguém também basco, ou pelo menos, que soubesse a língua.
Baptizei-a rapidamente como Sabina Arana, em homenagem ao pai fundador do nacionalismo basco, e quando ela saiu do café, decidi segui-la.
A rapariga saiu do café, continuou pela rua em direção ao mercado e virou na 1.ª à esquerda, para o Bairro dos Desgraçados, ou em linguagem inclusiva, o Bairro das Pessoas menos afortunadas pelas vicissitudes da vida que infelizmente sofreram.
- Isto não é bom.
O Bairro era assim conhecido por ser um sítio de negócios pouco claros, um território onde o número de identificação fiscal não era preciso e se pagava a dinheiro.
A Sabina Arana acenou a uma pessoa, que se dirigiu a ela e lhe entregou um dossiê que dizia «Como fazer uma bomba para mandar isto tudo pelos ares.»
Tu queres ver que tropecei numa etarra que quer reativar um comando qualquer?
É que este lugar, já por si, só lhe falta o cemitério, os prédios todos grafitados e com erva a brotar dos telhados, com o símbolo dos okupa escrito por todo o lado.
Começou-me a dar vontade de rir, é que há muito tempo atrás, fui roubada, na Galiza por um qualquer independentista que ficou na posse dos meus documentos.
Só a mim… passados praticamente 30 anos, em plena crise de meia-idade, deu-me para ter o look dessa altura…pensei…algo que não ficou bem resolvido, não há coincidências…
Vamos lá a ver o que é que eu faço aqui…
Refugiei-me, comprei uma boina basca, em tudo semelhante à dos independentistas Galegos.
Verifiquei-me de meias vermelhas.
Independência para mim própria, tentei brincar comigo
Estava numa situação muito marada, que surtia em mim uma explosão de emoções e balancés. Gostava.
Assumi EUSKADI, não me vou disfarçar daqui.
Liberdade é liberdade saberei sair enquanto tal de tudo e de todos.
Dei com a porta onde ela entrou, quem eu perseguia, a tal Sabina Arana, pediram-me a senha para entrar arrisquei: KORTATU (grupo de música Punk intervencionista), em cheio, entrei.
Lá estava eu… assisti à divulgação, com todos reunidos, do dossier.
Senti fogo no estômago, estava assustada, confesso.
Estava disfarçada de mim de há 30 anos atrás, a qualquer pretexto contar-lhes-ia a minha aventura na Galiza, aquando da boleia de Bilbao para Vigo. Quando fui roubada, talvez se lembrassem de mim.
Portanto, para o bem e para o mal já fazia parte pensei: Sai enquanto estiveres a ganhar…
O número fiscal, como já disse não interessa e eu estava de facto cheia de dinheiro.
- E tu, qual é a tua especialidade?, não vejas como, as meias e a boina ensinaram-me basco, e percebo tudo. O problema é que perdida nas minhas fantasias, não me dei conta das especialidades já reclamadas. Estava numa enrascada, arrisquei
- Marketing e relações internacionais, que foi recebido coletivamente com aprovação, uns quantos sussurros de incredulidade e olhares de admiração, e um grande revirar de olhos do corpulento tipo que dirigia a reunião.
- Estas modernices que me mandam agora. Então, não há aqui ninguém que saiba montar bombas? Estes jovens…, palavras que lançaram uma nuvem sobre o ambiente que se tinha relaxado. Ao fundo alguém levanta uma mão, timidamente
- Eu sei fazer explosivos, mas bombas não. Explosivos em carros, disseram-me que era para isso. Agora são bombas para quê?, o tipo que dirigia a reunião revirou ainda mais os olhos,
- Fazer explosivos, fazer bombas, são sinónimos…, interrompido imediatamente pelo da mão tímida
- Não são nada sinónimos, e a precisão é importante, crucial. Sobretudo quando se trabalha com explosivos.
O tipo que dirigia a reunião via-se que tinha o pavio curto, e que estava a chegar quase ao fim. Perguntei-me se explodiria como uma bomba ou como um carro atestado de explosivos.
Quando recuperei os sentidos, estava encostada a uns caixotes do lixo e tinha vista para o que sobrava do barracão que era agora uma pilha de madeiras queimadas e ferros retorcidos.
De início ainda pensei que fosse a polícia, o exército ou um grupo rival. Aos poucos veio-me a imagem do rapaz que afinal sabia tanto de explosivos e de bombas como eu e todos os outros. Estavam todos amontoados em torno da mesa, concentrados a seguir com o olhar e a respiração suspensa os gestos do rapaz que ia manipulando explosivos, pregos, porcas e parafusos para servirem de estilhaços, detonadores e baterias com o à-vontade de quem não faz a mínima ideia do que está a fazer.
Eu estava atrás do chefe corpulento, dobrado sobre a mesa e já tinha desistido de estar em bicos dos pés para tentar seguir a coreografia. Alguém disse um palavrão num basco tão basco que não consegui entender. Também ninguém deve ter entendido. A violência do sopro e o que sobrava do chefe fizeram-me atravessar a parede.
A chuva caía, a boina tinha voado e o resto da minha roupa também era agora vermelha. Um abrigo e um chá quente era só o que precisava. E de dormir.

Giuseppa Giangrande
Tiago Pina
Joana Dinis
Patrícia Louro
Francisco Feito


O SENHOR BELO 

Há muito tempo atrás, houve um adjetivo que deixou de adjetivar.
Até esse dia, o senhor Belo sempre cumprira a sua função, respeitando sempre a sua ordem nas frases, não se baralhando com o género e o número e respeitando escrupulosamente os graus em que deveria aparecer.
Nunca ninguém tinha apresentado qualquer reclamação, nem feito queixa à entidade superior que mandava nos adjetivos. O senhor Belo não mostrava sinais de estar doente, de ter dificuldades financeiras nem de passar por alguma crise de amores.
Foi por isso com alguma estranheza que, quando se começou a perceber tal omissão, os outros adjetivos começaram, em surdina, a comentar:
- Agora, o Belo não adjetiva?
- O que é que se passou?
Começavam a surgir relatos de pessoas que se diziam muito incomodadas:
- Ontem, abri a janela, estava um sol magnífico e disse para os meus botões: Que ____ dia! mas surgiu uma voz que disse: Lamentamos, mas o adjetivo em causa não está disponível. Tente outro!
Os mais tolerantes ainda aceitavam a sugestão e procuravam um sinónimo, mas e os teimosos? Teimavam, insistiam e vociferavam:
- Tentar outro??? Eu quero o ____ e mais nenhum.
O Sr. Barata, que era vizinho do Sr. Belo, ouviu os acesos protestos e resolveu intervir. Tinha regressado há pouco tempo do Brasil, onde vivera 40 anos, e ainda não tinha decidido como ocupar a reforma. Teve uma ideia brilhante: foi falar com a sábia entidade superior que manda nos adjectivos e apresentou uma proposta. Ele, Barata, passaria a substituir o Sr. Belo nas frases de júbilo ou encanto, na sua versão masculina. Por exemplo: «que-----passeio!» passava a ser «que barato este passeio!»; ou «que barato foi este filme» em vez de «que ----filme».
A entidade superior que manda nos adjectivos, chamada Diccionário Final e Total da Língua Portuguesa, respondeu que Portugal não era o Brasil e que barato não significava necessariamente ----- no nosso País. E indeferiu a proposta, por unanimidade e com aclamação.
No outro extremo da rua vivia a Sra. Xenófoba, a quem agradou esta decisão. Viu a sua oportunidade e, movendo-se, sem alarde mas com firmeza…
… propôs ser ela a que poderia substituir o Senhor___. Lamentavelmente, a proposta da Senhora Xenófoba encontrou o favor de muitos, tinha chegado uma época na qual os vários Senhores e Senhoras Xenófobos tinham terreno fértil para deixar propagar as suas ideias, sobre tudo entre pessoas muito ignorantes que eram partidárias do mote “orgulhosamente sós”. Mas, a um primeiro momento de euforia- parecia ter chegado o adjetivo certo para o papel de___. A pós um breve tempo, seguiu o desconforto e surgiu o medo, porque a Senhora Xenófoba e os amigos dela semeavam o terror entre os que, pouco a pouco, se opunham aos seus ditames.
Organizou-se, então, na clandestinidade, um movimento de oposição e protesto que…
… que se movia nos túneis liderado pelo sr. º Belo que, desgostoso com este novo estado das coisas, decidiu agir.
Para tal, o silêncio era indispensável. Já não sabia em quem podia confiar; os amigos de antigamente estavam a ter problemas com os “Xenofobianos”; por exemplo, o Desengonçado tinha sido preso, veio a saber-se depois, denunciado pelo Enjoado.
A senhora Xenófoba, desconfiada de tudo e de todos, pagava alvíssaras a quem relatasse alguma atividade suspeita.
Uma noite, o Delator, encontrou-se com ela e disse:
- Corre por aí que o Belo lidera um movimento contra si. Nunca mais ninguém o viu.
Desgostosa com a falta de respeito do senhor Belo pela nova ordem dos acontecimentos, encetou uma caça ao adjetivo que recebeu o nome de código “Operação Chega de Beleza”. Espalhou cartazes pelas paredes, montou vigilâncias, tentou fazer de tudo o que era possível para encontrar o senhor Belo, mas a procura não deu em nada.
Este, sabendo das movimentações que faziam para o apanhar, decidiu fugir. Com os contactos feitos no submundo dos túneis, conseguiu disfarçar-se e, depois de longos dias sem ver ninguém a calcorrear cimento sujo, percebeu que tinha chegado a outro país, quando o primeiro adjetivo que o viu lhe disse:
- Ça va bien?
Saído de uma vida de túneis e esconderijos, sobressaltos de coração e sofrimentos feios, o senhor Belo ficou deveras surpreendido por passar por vilas e aldeias que lhe pareciam cenários bem pintados com canteiros coloridos junto às portas, nas janelas e em muitos jardins. E que dizer de tantos monumentos geniais? A travessia alindou-lhe as memórias que bem precisavam de um novo fôlego.
O senhor Belo viveu uma vida regalada mais pelo ânimo e disciplina pessoal do que por bens materiais, muito pela esperança que lhe inspirava este país de liberdade e livre expressão. E pelo apreço dos que admiravam a sua coragem e ousadia, mais a bela família que a ele se reuniu. Pois a beleza era sem dúvida rainha naquele país encantado com a criação a todos os níveis. Ele era o beau tableau, a belle robe, o beau temps... até nas famílias este adjetivo reinava pimpão: a belle fille, o beau frère, a belle mère... Sem interditos, censuras, mortes, nem exílios forçados.
Esta história teria tido um final feliz e belamente perfeito não fossem os desenvolvimentos num partido chefiado agora por uma senhora de imagem ariana que lhe trouxe à memória intolerâncias antigas com trajes modernos e uma mão cheia de novas problemáticas. Ainda pensou em militar contra tais infâmias, mas sentiu que o seu papel era pôr a sua pedrinha diária de esforço no seu querido e saudoso Portugal.

Tiago Pina
Conceição Brito
Giuseppa Giangrande
Tiago Pina
Lídia Vieira

 

O CAMPO DE PAPOILAS 

Os dois queriam ter uma nova vida, fugir da monotonia daqueles dias tão sombrios. Deixaram a cidade trazendo consigo, no coração, muitas e grandes esperanças. Não tinha sido fácil abandonar o seu lugar, mas agora aquela que era a sua velha vida ficou para trás deles.
O único desejo deles era ter a liberdade, livrar-se das obrigações que a sociedade lhes impunha.
O caminho tinha sido longo, finalmente chegaram a um lugar que parecia mágico: um campo enorme, cheio de papoilas apareceu aos olhos deles. Havia no ar uma ligeira brisa que acariciava o verde do campo e as flores vermelhas, que pareciam dançar ao ritmo daquele vento suave. Do campo exalava- se um perfume, trazido pelas papoilas que ondulavam no verde do prado…
Do quase nada apeteceu-lhes andar de comboio...
Do céu e de repente, muitas, muitas nuvens, quase tantas como papoilas; sofregamente, a chuva cai por sobre os lagos, por sobre as estufas, por sobre as papoilas, por sobre tantos e tantos cheiros que de uma só vez parece que se soltam e se desnorteiam...estavam em todo o lado... E eles sorriam.
Um relâmpago, a seguir outro...agora o trovão 1,2,3,4,5,6,7 BARRUUUUMMMM, ouve-se o comboio, uhh,uhh pouca terra, muita água, BARRRRUM, cada vez mais perto: 1,2 e 3 Ai ai!! Passa o combóio que só passa, não vai parar: " A seguir vem o próximo disse logo o maquinista desabafando para a máscara da farda, acenando para os pintos calçudos.
E as papoilas...essas dançavam e choravam: Tanta alegria, quanta liberdade desde que se com paciência se vai da sente à flor... Papoilas vermelhas, sem dor.
Água da cor do breu, aquele que aprendeu a brilhar. Chuva teimosa. Mora no céu, n sua casa são as nuvens e de vez em quando vem ver debaixo o nosso mesmo céu.
- Vamos para casa...não achas?
- Sim...
E sorriem.
O comboio abrandou e quase parou na curva apertada, mais à frente, mas não o tentaram alcançar, e foram caminhando ao longo dos carris, sem pressa.
Ainda não tinham andado umas centenas de metros quando lhes pareceu ouvir um ruído que se assemelhava ao miar dos gatos. Gatos aqui? Na débil luz do fim do dia conseguiram distinguir a origem do barulho: uma trouxa de roupa, que se agitava enérgica e sonoramente. Com cuidado foram afastando panos e, com grande espanto e horror, descobriram que cobriam um bebé. Sem saberem o que fazer com a criatura, pegaram-lhe ao colo para ver se trazia alguma identificação. Absolutamente nada, mas estava agasalhado e limpo, e era tão pequenino que ainda tinha restos do cordão umbilical no seu pequeno ventre. Os jovens olharam um para o outro:
- acho que foi alguém que o atirou do comboio ali na curva - disse um.
- que vamos fazer? Ainda pensam que o roubámos! – assustou-se o outro.
- tenho uma ideia, vê lá se concordas…
Ele viajara muito para lá chegar. Do Arizona, de avião e com uma escala em Nova Iorque, fizera o percurso até Paris, e, da capital francesa tomara o comboio mais lento que encontrou para chegar ao local desejado. Os seus olhos raramente se despregaram da janela da carruagem onde viajou. Só uma vez se despediu de uma senhora grisalha com olhos muito azuis, gordinha e de roupas garridas e malas antiquadas. Era exatamente como a memória muito distante que trazia da avó paterna, sorridente e firme.
Fora o pai a convencê-lo a fazer a viagem, para construir memórias, como agora se usa. A viagem Paris-Lille pareceu-lhe curta comparada com as distâncias largas que enfrentava nos Estados Unidos, só para ir veranear num rio. E, finalmente, o maquinista fez uma frenagem suave e o comboio, cheirando a novo, estacou convidativo. A mala apertada nos dedos, a mochila endireitada, e, eis que ele saltou deste século, em busca de sinais de um episódio de há mais de cem anos. Decidiu sentir ele próprio parte do peso suportado pelo seu antepassado e com a bagagem, que de bélica só tinha um conjunto de navalhas suíças e a faca com que fizera as sandes do percurso a pé, pausou para merendar antes de empreender caminho até às colinas disformes de Mesen, nesta estação cobertas de papoilas.
- E se esta for a oportunidade que falávamos?
- Como assim?
- Este bebé pode ser nosso e começarmos aqui, no meio das papoilas, a nova etapa das nossas vidas. Repara, ninguém nos conhece, construímos a nossa família.
Sorriram. Ironicamente, talvez aquele bebé recém-nascido lhes pudesse dar um novo rumo.
Indiferentes à chuva, foram para casa e, no campo de papoilas, começaram o segundo capítulo das suas vidas.
O construtor de memórias avançava em direção à Flandres, pouco convencido da história que os seus pais lhe contavam quando era pequeno.
Fora ali, numa dessas curvas que fora atirado, há uns anos atrás, da janela de um comboio.

Giuseppa Giangrande
Joana Dinis
Conceição Brito
Lídia Vieira
Tiago Pina

 

O REGRESSO 

Tudo estava diferente desde que partira depois dos motins que assolaram a cidade naquele que seria o último verão da sua juventude. Não que houvesse uma data certa para a entrada na vida adulta, mas tudo o que acontecera nesses meses acabou por ser uma barreira que separa um antes e um depois. Um marco temporal gravado não só na memória, mas igualmente no corpo. Bruno está agora diante da frondosa árvore onde ainda estão visíveis, se bem que esbatidas pelo tempo, as marcas do violento embate da sua carrinha contra aquele tronco gigantesco, um ícone turístico local que refere serem necessários 12 homens para o abraçar. Fecha os olhos e fica à escuta. O som das sirenes é agora distante e a luz do dia esbateu as luzes azuis e vermelhas que ainda viu a bailar na noite antes de perder os sentidos.
Bruno está agora diante da casa que o viu nascer. Não tem nada a ver com a lembrança que tinha dela. Parece-lhe muito maior, o que é estranho pois com a idade os espaços vão-se tornando mais pequenos. Limpou os óculos calmamente e percebeu que afinal já não era a sua casa. Era uma construção que nada tinha a ver com a que tinha conhecido. Bruno, disse uma voz hesitante atrás dele. Voltou-se e disse que sim.
- Há quanto tempo!!! – exclamou a voz hesitante.
Bruno reconheceu-o pela mancha branca das pestanas.
- Inocêncio, o que é feito de ti, rapaz?
- Olha, cá vou andando. Isto está difícil.
Bruno olhou para Inocêncio com mais atenção e viu que, de facto, as coisas estavam espinhosas. O ar acabado, as calças rotas, os sapatos sem atacadores eram a prova dos espinhos que, por vezes, nos atravessam a vida. Na mão trazia um saco de plástico com qualquer coisa volumosa no interior.
- Estás a ver a tua antiga casa? Agora é uma loja de velharias.
- Pois, é o que estou a ver.
- Olha, não me queres comprar isto?
De dentro do saco tirou um candeeiro com ar de quem pertenceu ao cenário da Vila Faia ou que repousava na secretária de Duarte e Companhia.
- Precisava de vender isto, para ter algum para comer. Desde que fiquei sem trabalho que…
Bruno ficou sem reação. Inocêncio apercebeu-se e disse-lhe:
- Tu ainda tiveste sorte. Foste contra a bisarma, mas recebeste a indemnização da Câmara. Eu…
De facto, apesar de culpado do acidente, Bruno ainda conseguira processar o Estado porque a árvore já deveria ter sido deitada abaixo, apesar de atração local. O advogado de Bruno, Doutor Campos da Moita, senhor muito reconhecido na praça, lá desencantara o ofício que mandava a dita cuja para o maneta, de modo que Bruno ainda tinha alguns euros para se valer.
Inocêncio, num passe de magia, pegou no candeeiro, atirou-o contra a cabeça de Bruno e surripiou-lhe a carteira, onde algumas notas estavam alinhadas por ordem crescente.
Fugiu com elas, deixando Bruno no chão a ouvir novamente as sirenes que o vinham acudir.
E foi uma longa e dolorosa sessão de déjà vue: os carros de polícia a parar com um grito dos pneus no asfalto quente, os vultos fardados a correr na sua direcção, uma mão a tactear-lhe a cabeça «dói aqui?, dói aqui?». Doía em toda a parte, mas desta vez não desmaiou, apenas fechou os olhos para afastar o brilho insuportável do sol e esconder a sua não menos insuportável humilhação.
Que estúpido! O leopardo não muda as suas malhas e o Inocêncio, ladrãozeco recorrente, também não mudara as dele. Como pudera esquecer-se? O Inocência até cumprira pena por furto, mas não aprendia, voltava sempre ao seu mester preferido de apropriação de bens alheios. As vítimas já lhe conheciam o modus operandi e nem se davam ao trabalho de apresentar queixa: iam à sua procura, davam-lhe uma carga de pancada, recuperavam o que ainda podiam e, não podendo, lá lhe partiam uns dentes ou uns dedos, abriam-lhe uns lanhos na cabeça para ele não repetir a avaria.
Enquanto esperavam a ambulância, Bruno conseguiu, finalmente, abrir o olho que não estava magoado, e viu, com alívio, a sua carteira no chão, mesmo ali ao lado. Pegou-lhe e abriu-a com mãos trémulas de antecipação. Ainda lá estava a carta! Involuntariamente levou o envelope aos lábios e murmurou «obrigado, obrigado, graças a Deus».
Aquela carta era a razão por que voltara a esta terra do inferno, onde jurara nunca mais pôr os pés. Iria procurar quem a escrevera e, finalmente, tentar reconciliar-se com o passado.
O pingo de sangue caía em câmara lenta queixo abaixo, e Bruno, aliviado pela posse da carta, distraído pela espera, perguntou-se se ficaria com uma cicatriz na sobrancelha. Uma cicatriz-convite para começar uma conversa. Para chamar a atenção de um olhar de 2 a 4 metros. A dor não era desconhecida para Bruno, não desde o acidente, um zumbido permanente em dias de chuva no nariz. Quem não o conhecia confundia-o com um cocainómano nesses dias de chuva, em mais de um dia de chuva tinha acabado num cubículo estreito pelas razões erradas, saindo de rabo entre as pernas. Não era que não gostasse de drogas, sorriu, acariciou a carta, era mais que a sua droga de eleição não era a branquinha. Não, a sua droga do coração, graças ao acidente, era uma combinação de endorfinas e dopamina, e exigia-lhe mais esforço e envolvimento pessoal que tapar uma narina e respirar forte pela outra. Exigia-lhe chamar a atenção de um olhar, a palavra ou o gesto certo, saliva, suor e sémen.
As luzes vermelhas e azuis da ambulância cegaram-no, viu a árvore ao longe, doze homens para a abraçar, imaginava-os de tronco nu, os músculos perfilados contra o tronco, ouviu as palavras ofendidas dele outra vez antes de saltar da carrinha em movimento, o pé forte no acelerador, as lágrimas quentes a caírem em câmara lenta queixo abaixo, a árvore já ali.
Conseguiu fugir e finalmente abriu a carta. Não tinha nada dentro. Apenas um papel amarelecido pelo tempo com os vestígios indecifráveis da caligrafia de alguém. Agendou uma consulta de psicanálise para largar o passado no divã, a árvore, os acidentes, o amigo ladrão, as drogas e tudo o mais. Que o passado ficasse como aquele papel, um passado indiferente em tons esbatidos e impossíveis de ler.

Francisco Feio
Tiago Pina
Conceição Brito
Patrícia Louro
Helena Campos

 

O TÚNEL DE CAMARATE 

Sem fazerem barulho, a lembrar os raides noturnos que faziam juntos, dirigiram-se para as traseiras do restaurante em direção ao túnel, que os livraria da multa por violação de todas as regras do dever de confinamento, não fosse dar-se o caso deste ser um túnel de escoamento de água que ia desaguar a um ribeiro.
Uma vez lá dentro, e como havia uma forte corrente de água a entrar, Zé Massano e Mário Antunes olharam um para o outro e o juramento que fizeram há muitos anos, ecoou nas paredes curvas do túnel:
- Ninguém fica para trás!
Esta promessa poderia fazer sentido no mato, agora ali em Camarate, no meio de um túnel que não se via a saída?
Zé Massano pegou no canivete que tinha no bolso, olhou para o companheiro de armas e…
Os dois avançaram no túnel.
O Zé pegara no canivete para que lhes desse sorte, como já tinha sido há muitos anos no mato. Quem sabe se também ali eles precisarem do canivete para combater contra feras verdadeiras ou imaginárias? O Zé e o Mário na realidade tinham de combater contra a corrente de água que continuava a subir e a encher. Os dois amigos olharam um para o outro: parecia impossível escapar aquela corrente que no final os submergiu e os arrastou.
Perderam os sentidos, mas tiveram a sorte do seu lado: a corrente livrou-os da escuridão e estreiteza do túnel e devolveu-os à luz, à normalidade tão desejada no tempo do confinamento.
Ampararam-se um no outro e saíram do ribeiro. Ou melhor, da água que aquilo de ribeiro tinha muito pouco. Eram duas fracas figuras que se sentavam agora na margem do corredor de água, cobertos de limos e outras coisas bem menos higiénicas. Mário, olhando para o companheiro a tentar, sem sucesso, recompor a sua imagem, não conseguiu domar uma alta gargalhada.
“Estás a rir-te de quê, oh artista? Deves pensar que estás com melhor ar que eu!” – disse Zé Massano furioso.
“Estou de rir-me de nós. Dois velhos viúvos, que combateram na guerra, que sobreviveram a sei lá mais o quê, não conseguiram ficar em casa dois ou três dias nesta altura de doidos sem se encontrarem para beber um copito. E agora andaram a rastejar dentro de um esgoto para não terem de ouvir um ralhete da polícia e desembolsar umas dezenas de Euros. Diz-me tu se não é para rir…”
Zé Massano não se deixou levar pela súbita boa disposição do companheiro e alargou o seu queixume:
“Pois eu não acho graça nenhuma, até porque o pior ainda está para chegar.” Dada a surpresa de Mário, lá decidiu explicar que tinha dito à filha, com quem vivia, que ia só à Farmácia porque se lhe tinham acabado os comprimidos para a tensão. “Como é que lhe explico agora aparecer neste estado?”.
Mário esboçou um sorriso e disse com calma: “Fácil, escuta com atenção...”
- Dizes à tua filha que apanhaste uma molha. Estava ou não estava a chover torrencialmente quando chegamos ao restaurante?
- É verdade, estava.
Tinham desaguado em parte incerta, os pés a enterrarem-se em lamas e limos. Era uma zona baldia, florestada que se estendia à frente deles. Deambularam livremente a respirar o ar sem ameaças de vírus, sem obrigações de máscaras e álcool até que avistaram sob uma árvore frondosa de vastos galhos pendentes, os olhos vítreos de um cadáver que ali jazia. Era de um rapaz novo, e ainda estava bastante inteiro. Aqueles olhos, o cheiro a esgoto, a morte também cheirava a esgoto não no princípio, uns dias depois, mas este cheiro não era do cadáver, era deles, só deles, "ninguém fica para trás"... Zé Massano ouviu a mina a explodir outra vez, apertou o canivete, os nós dos dedos brancos e doridos. Gritos, pedaços de carne a semear a terra vermelha e sedenta. Não conseguia respirar, e agora não era por causa da máscara. Eram esses olhos, sempre os olhos, silenciosos, doloridos, mortos. Quietos.
Mário ria-se, ria-se, ria-se, ria cada vez mais, as palavras tão presas no peito, que nem as gargalhadas as conseguiam libertar.
Era de um rapaz novo, e ainda bastante inteiro, como eles antes da guerra.

Tiago Pina
Giuseppa Giangrande
Francisco Semedo
Helena Campos
Patrícia Louro


«THAT'S ALL FOLKS» 

«That’s all folks!», repetia entredentes, enquanto esperava atrás da porta. Não lhe arrancariam nem mais uma palavra. Não é que tivesse alergia às palavras, ou suspeitasse da sua inutilidade. Aos seus olhos era mais simples: tinha uma vida inteira de palavras a falar por si, uma vida inteira de ações a substanciar essas palavras. Eram muitas palavras, ditas, repetidas, demasiadas vezes, demasiado o mesmo. Agora acumulava-se-lhe nos ossos o cansaço, uma certeza cimentada pelo cansaço, pela repetição das mesmas perguntas, pela procura incessante das respostas certas que parassem as perguntas. Ou de respostas que mudassem as perguntas. Se alguém quisesse saber porquê, só tinha de percorrer para trás o caminho que tinha trazido os seus saltos altos até aqui, a esta porta.
«That’s all folks!», a mão suada e trémula rodou a maçaneta e saiu.
O sol que brilhava lá fora contrastou dolorosamente nos seus olhos com a escuridão de onde saia. Quando os conseguiu abrir viu o jardim. O mesmo jardim que em criança tinha visto pela primeira vez no dia em que, a custo de uns joelhos esfolados, subiu a árvore para o espreitar por cima do alto muro. Parecera-lhe encantado como nas histórias, falsas, que lhe liam. As sebes cortadas com uma precisão microscópica, o cheiro quente das flores e a grande fonte no meio. Hoje tudo estava assustadoramente igual, mas o encanto esse tinha abandonado aquelas partes há muito tempo. Durante anos pensou como seria estar ali e agora só lhe faltava um passo. Deu-o. A ausência de sentimentos desiludiu-a. Continuou a andar até chegar à fonte e parou em frente dela. Olhou para cima e, por um instante, viu-o, criança, lá em cima outra vez. Como naquele dia em que ele lhe falou, do cimo da fonte para o cimo da árvore. Fechou os olhos e sacudiu a angústia.
“Estão prontos para a receber!” ouviu do outro lado do jardim. «That’s all folks!» sibilou baixinho. De uma maneira ou de outra, hoje tudo acabava.
Mas não era assim: naquele dia nada acabava. A história dela seguia, continuava graças a água da fonte que a lavou, a livrou de todas as angústias.
Voltaram os sentimentos e ela voltou a vê-lo, ali no cimo da árvore. Fechou os olhos e chegou à altura dele. Não sentia cansaço, apenas alegria; parou à frente dele. O seu coração começou a bater quando pensou: será que ele me vai dar respostas que mudem as perguntas? Respostas certas? Vão deixar as palavras de falar por si? Mas ele só disse que nada para ela acabava, teriam de falar para ela ter as certezas de precisava.
Dirigiu-se aos advogados que a esperavam para finalmente poderem ler o testamento do seu Pai. Eram três senhores engravatados com ar altivo. Sentou-se calmamente ainda com a imagem dele no cimo da árvore e à medida que iam lendo o que o Pai decidira, ia-se formando uma ideia - cada vez mais clara - que este seria o início e o fim de tudo o que a atormentava há tanto tempo.
"That's all folks!", ressoava no seu peito.
A voz monocórdica de um deles dizia que o Pai tinha uma fortuna avaliada num milhão de Euros.
Estremeceu.
Um milhão de euros resolvia tudo. Não haveria mais perguntas nem mais respostas. Um milhão de euros era a resposta. Não há nada no mundo que o dinheiro não resolva. E quando transportou pelo jardim a pasta milionária, ele já não estava lá.


Patrícia Louro
Francisco Semedo
Giuseppa Giangrande
Mariana Matias
Helena Campos


MINIATURAS 

Para maior cidade do universo, era demasiado pequena. Já era a terceira vez esta semana que se cruzava com as mesmas pessoas a caminho do emprego. É verdade que era sempre em sítios diferentes do percurso, mas eram sempre as mesmas pessoas e sempre na mesma sequência. O mais estranho de tudo é que as conhecia a todas, de vista, mas de cidades diferentes onde tinha vivido em momentos dispersos da sua vida. Tinha mudado para aqui havia 2 anos e não estava arrependido de ter aceitado a oferta de emprego que lhe tinha aparecido, um pouco do nada, mas no momento certo. Foi num impulso que aceitou e só pensou na decisão que tinha tomado no dia seguinte, enquanto atravessava os ares a caminho da que viria a ser, ainda não o sabia, a última cidade que iria conhecer. Para trás deixava uma vida sem grande história, ou com história nenhuma, já que tudo o que tinha de importante lhe coube numa pequena mala que jazia agora no porão do avião onde seguia. Nem telefonou ao patrão a dizer que não voltava; talvez o fizesse depois de chegar.
A manhã estava luminosa, a temperatura tinha subido e atravessava a cidade a passo não muito rápido, mas decidido. Foi quando chegou ao cruzamento e parou à espera da mudança do semáforo, que o dia ia irremediavelmente mudar. Olhou em frente e lá estava.
Lá estava ela. Nunca teria imaginado que iria vê-la novamente.
De algum modo, tinha ficado nas suas lembranças, talvez mais do que qualquer outra pessoa de todas as cidades onde tinha vivido.
O aspeto mais estranho desse encontro imprevisto e inesperado era que ela tinha significado algo na sua vida sem histórias, ou melhor, naquela vida que acreditava ser sem histórias.
Não falaram, apenas olharam um para outro: naquele momento, teve a certeza de que a sua vida, de repente, tinha mudado e para sempre.
Tomou uma decisão: ia ficar, não sabia porquê, mas tinha essa certeza.
Ia ficar porque agora era o seu coração que lhe dizia isso: volta atrás e fica.
Depois de refrear o impulso de andarilho, pensou em todas as qualidades deste lugar. Trânsito ordenado, ruas limpas, parques de quebrar de cansaço quaisquer pernas. E abraçou esta última ideia. Resolveu pôr-se em forma e foi correr diariamente, depois do trabalho, para a mancha verde em frente ao seu apartamento de varanda envidraçada. E rematava o exercício com uma caminhada lenta e ritmada, exatamente no sentido que a vira percorrer.
Passaram-se os meses e a sua balança já lhe sorria alegremente. Um peso conforme à moda e um mar de possibilidades para a saúde e para um vestuário atraente. Mas dela, nem sinais. Praguejava fortemente, amaldiçoando o seu acanhamento. Acrescentou um passatempo à sua vida. Ingressou numa turma de olaria e depressa se sentiu em casa, de tal modo o cheiro do barro lhe lembrava a terra onde plantava legumes e batatas com o seu avô. Em breve a prateleira superior da estante maior ficou apinhada de troféus multiformes.
Quando as obras de louça já chegavam perto do fogão, pensou que talvez já fosse hora de se iniciar na cozinha, que, pelo menos, gerava obras perecíveis e comestíveis. Tão bem-sucedido foi que, em ano e meio, já se preparava para se aventurar numa escola de Cordons Bleus. Mas Matilde tardava em dar sinais de vida e ele não queria desprender-se de mais uma cidade que implicava agora um corte com o seu fundo mais emocional. Porém, avançou. Chegada a semana da viagem desejada e com os documentos prontos para a partida, o patrão previamente informado, já estava mais conformado e sonhava com a Cidade Luz. Quem sabe se dali não surgiria um brilho mais forte para o seu futuro?
Decidiu que, se era para cortar amarras, devia deixar tudo para trás. Já tinha cancelado o contrato de arrendamento e vendido quase todos os pertences. Faltava apenas a sua singela coleção de obras de olaria. Por alguma razão era difícil pensar em desfazer-se delas. Talvez porque representavam a esperança de que tudo podia ser diferente. Foi quando viu Matilde, que fez as mudanças na sua vida que o levaram a dedicar-se a elas. A primeira que tinha feito era até uma tentativa da silhueta dela. De qualquer forma, a decisão estava tomada. Tinha abandonado a esperança e, sendo assim, não podia guardar resquícios que o fizessem pensar o contrário. Dirigiu-se à estante despida e enfiou as pequenas peças numa sacola de pano. Num qualquer fórum na Internet tinham-lhe recomendado uma galeria de escultura que, diziam, fazia boas ofertas por qualquer pedaço de barro minimamente moldado. Pegou na sacola e saiu de casa. Quando chegou à rua percebeu que estava triste, mas isso não era novidade. Decidiu ir a pé para arejar a melancolia.
Chegado à morada indicada, de olhos postos nos números no topo das ombreiras das portas trabalhadas, palmilhou a calçada em busca do 145. A avenida estava a chegar ao fim e ainda ia no 99. Sentiu a esperança novamente a importuná-lo, mas durou pouco e rapidamente, por qualquer razão, os números das portas saltaram do 103 para o 143. Com o conforto da desilusão, decidiu percorrer as portas que restavam de olhos no chão. Olhou para cima. A tabuleta reflectiu o Sol contra ele e entrou ainda meio encadeado, balbuciando um qualquer cumprimento à turva personagem na sua frente. Depois ouviu Matilde.
E ali estava ela, recortada em contraluz, tal como a vira na primeira vez. Era a dona da galeria que lhe ia comprar as peças. Ele sempre há coincidências!
- Há quanto tempo! – sussurraram ambos, ele com as mãos um tanto trémulas, subitamente tímido, diante daquele sonho materializado, ela com as peças esquecidas nas mãos. Trôpegos como dois adolescentes, saíram e percorreram as ruas da cidade aproveitando a última luz do ocaso. E seria aquela para ele a última cidade. O trota-mundos que ele fora encontrara por fim o seu porto de abrigo.

Francisco Feio
Giuseppa Giangrande
Lídia Vieira
Francisco Semedo
Helena Campos


A LÍNGUA DOS OLHOS 

Olhou para o espelho: os olhos dela falavam.
Falavam em muitas coisas, em inumeráveis sentimentos e sensações, às vezes tempestuosas.
Os olhos, porém, queriam que ela também falasse, que desse liberdade a tudo aquilo que ela sentia e tinha no seu coração.
Então ela pediu aos seus olhos que falassem, que continuassem a falar, porque ela não conseguia expressar claramente os seus sentimentos, aquilo que estava fechado no seu coração e que não podia dizer através da sua voz.
E foi naquele momento que os seus olhos falaram novamente, com lágrimas.
Eram lágrimas de felicidade ou de tristeza? Era saudade? De quem? De quê?
Caiam pele fora, gota a gota, recheadas de lembranças, memórias e angústias.
Os olhos queriam que ela falasse daquela tarde, daquele revirar tão abrupto na sua vida.
As lágrimas eram de profunda tristeza, pelo vazio imenso que se instalou no seu peito ao ver a sua casa em chamas.
Regressar a esse dia era demasiado doloroso, pelas coisas que desapareceram, mas particularmente, por tudo aquilo que lá vivera.
Mas o que ela não queria mesmo revisitar dentro de si era o porquê daquele incêndio.
Aí, as lágrimas pararam de cair.
Não aguentava mais o som, por isso fechou os olhos para os silenciar. Já tinha revivido aquela tarde cem vezes. “Não foi culpa tua”, murmurou para si mesma, com doçura. Mas quando reabriu os olhos eles disseram-lhe, molhados, a mesma coisa que todos os olhos que a olharam desde esse dia. “Mataste-os a todos. Perdeste o controlo e mataste-os”. Calou novamente os olhos. Inspirou fundo, expirou com força e calma ao mesmo tempo e numa paz fingida voltou lá. O gosto das lágrimas na boca era igual ao que tinha sentido. Ouviu outra vez os gritos ameaçadores e sentiu outra vez o frio no peito, que lhe entrava pela sua camisa rasgada. Sentiu o mesmo medo e em todo o corpo voltou a tremer. Queria fugir, mas não sabia para onde se aquela era a única casa que tinha conhecido. Todos os que amou na vida estavam ou tinham estado ali. Ouviu outra vez os passos atrás de si e gritos, mais gritos. Seria possível o amor transformar-se naquilo? Sentiu outra vez o puxão nos cabelos. Deixou-se cair de joelhos da mesma forma que caíra quando foi atirada naquela tarde. Sentiu a mesma raiva a chegar à garganta, mas hoje não gritou. Hoje não entregou a sua mão à lareira, nem pegou com ela nas brasas iluminadas, nem lhas atirou. Hoje não se ergueu. E hoje também não ia fugir.
Eulália, Láli para todos os que a amavam, estava desfeita de tal forma que já não lhe restavam forças para remoer o funesto incêndio.
Sim, tinham morrido todos. Sim, tinha sido a única a salvar-se por causa de um vício que a matava aos poucos. Sim, uma parte de si tinha ido com as fagulhas, como ia a outra parte sempre que cedia à prata castanha.
Já tinha sido julgada, condenada e decapitada por todos os que a conheciam.
Levantou-se e foi até aos escombros; o cheiro a queimado, a claridade das labaredas, os gritos, as lágrimas acordaram rapidamente.
Eulália, presa na sua cabeça, entrou na drogaria ao lado do que outrora fora a sua casa, comprou álcool, material inflamável e, dirigindo-se para as ruínas, ateou um fogo na esperança de que este levasse a memória e trouxesse de volta os seus filhos, o seu marido que dormiam tranquilamente a sesta quando Lália deixou o cigarro acesso ao pé do fogão e saiu para se ir envenenar mais um pouco.
O fogo apenas ardia como o coração dela e os seus olhos. Eulália, pouco a pouco, teve consciência de que aquele fogo nunca faria regressar os seus filhos e o seu marido. Percebeu uma vez mais a sua solidão, o seu sentimento de culpa, todas as culpas caíam sobre ela, era impossível encontrar uma saída.
Então, voltou ao espelho e os seus olhos falaram-lhe esta vez, falaram-lhe ainda com as lágrimas que caíram no seu rosto e chegaram ao seu coração para a livrar, como por milagre, dos remorsos que tinha e que a perseguiam. Preparou uma mala com poucas coisas e foi-se embora. Pôs-se a caminho para fazer uma viagem que podia significar recuperar a sua vida, ou melhor, encontrar a salvação. Os olhos tinham-lhe dito: havia ainda uma possibilidade de salvação para ela.

Giuseppa Giangrande
Mariana Matias
Francisco Semedo
Tiago Pina
Giuseppa Giangrande


CONTOS PROIBIDOS

A carta tinha ido para a morada errada. E ainda bem. Passo a explicar. Há uns anos emprestaram-me um livro muito raro, sobre um escândalo político e financeiro passado em Macau, de que só houve primeira edição, tendo o autor, entretanto, asilado em parte incerta. Li-o e reli-o, depois guardei-o na estante, sempre com a ideia de o devolver. O tempo foi passando e um dia recebi uma sms do proprietário do livro, reclamando-o. Passaram mais uns dias, talvez semanas, e nova sms. Finalmente decidi-me - embrulhei o livro em papel pardo (tenho resmas em casa), atei o embrulho com um cordel daqueles antigos, que já só se encontra nas drogarias dos bairros onde ainda há drogarias, um cordel de duas cores – azul e cru, verde e cru, vermelho e cru (este era preto e cru) – e escrevi “LIVRO” no embrulho, assim me livrando de escrever uma qualquer nota de pedido de desculpas pois a tarifa de expedição de livros não permite, sequer, que nele vá agarrado um cabelo quanto mais um cartão de visita. Afincadamente, escrevi o nome e a morada do destinatário. Quer dizer, escrevi o nome do destinatário e a rua onde ele residia. Como a morada só se completa com o código postal, foi aqui que a história começou (ou continuou, pois começar tinha começado quando me emprestaram o livro), ao inserir o meu código postal e não o do destinatário.
A princípio estranhei não ter notícia do destinatário, que tanta pressa parecia ter em reaver o livro; depois não pensei mais no assunto até ao dia em que chegou mais uma mensagem a perguntar se sempre o tinha enviado. Respondi que sim e não voltei a ter resposta. O assunto estava encerrado e um dia, ao regressar de viagem, esperava-me um postal dos correios para ir levantar uma encomenda, com a menção “morada desconhecida”. Entreguei o postal e devolveram-me a minha encomenda. Segundo o funcionário, aquela morada não existia naquele código postal. Existiam 52 ruas com o mesmo nome no país, 26 com o mesmo número de porta, 8 com o mesmo andar, mas nenhuma naquele código postal. Ainda me perguntou se sendo tão perto, não seria melhor ir entregá-la em mão. Perante a minha estranheza apontou-me o código postal e disse-me: a rua não conheço, mas este código é desta zona e abrange três quarteirões.
Levei o embrulho comigo. Estava tal e qual o tinha feito, com o mesmo papel pardo atado com o mesmo fio de cores. Abri-o para fazer um novo e quando folheei o livro, escorregou de entre as páginas uma fotografia que ali deve ter ficado esquecida. Olhei-a. Nunca a tinha visto e parecia-me que não seria minha. Foi quando olhei com mais atenção que percebi. Ou melhor, que nunca iria perceber o que se estava a passar.
Peguei na fotografia e o meu corpo, primeiro a cabeça, depois o resto dos membros,
mergulhou para dentro do retrato.
Dei comigo em Lisboa, eu que não punha lá os pés há 20 anos, na rua onde crescera e passara a minha infância.
A rua estava igual à memória que mantinha dela; o jardim onde berlindava, parecia chamar-me como quando tinha 6 anos e corria para lá; as mesmas pessoas, o Sr. Alberto, sentado no banco, a gritar «Foi penalty», tudo parecia ter ficado em 1999, ano em que fugi para Macau, ter com o meu pai que, coitado, sofria com as calúnias de um escândalo em que se vira envolvido com uns magnatas macaenses.
Estava em Alvalade, mas sabia que não era possível; ninguém mergulha para dentro de uma fotografia e toma parte da ação. Desci a rua e dei de caras com o «Lulu», meu amigo de sempre e por quem sempre tinha tido uma paixão. Este reconheceu-me e, antes que pudesse dizer alguma coisa, tirou uma pistola e disparou dois tiros que me acertaram na cabeça.
- Um é por me fazeres passar por menina e o outro é pelo meu pai que se suicidou por causa do teu.
O meu corpo jazia na rua, na minha rua, mas eu não estava morto. Como nos sonhos, nas histórias não se morre.
Instintivamente anunciei-lhe o próprio nome, ao que ela respondeu:

“Sim, bem sei quem sou. E quem vem a ser o senhor?” – Continuei estarrecido a olhar para ela sem dizer uma palavra. Não a via desde que fugi com o pai para Macau mas tudo nela estava perturbantemente igual. O sorriso cínico, as mãos esguias, as sobrancelhas finas, a olhar impaciente. Dei conta então que estava a tremer. Tanto tempo passado a sonhar com isto e no fim só tinha de voltar aqui. Mas o que fazia ela em casa do “Lulu”? Num instante, coberto de antecipação olhei para a mão de Filomena. Nada de aliança.
“Desculpe, mas tenho mais que fazer do que ficar aqui a olhar para si? Acabei de mudar para esta casa e tenho muita coisa por arrumar. Sabe, o antigo dono dela era um antigo colega de escola, que soube há pouco tempo ter morrido e… Enfim, posso ajudá-lo com alguma coisa?” – Aparentemente, o meu aspeto estava mais mudado que o dela. Lembrei-me de todas as vezes que a fora buscar a casa dos pais para passear no Jardim e finalmente consegui dizer:
“Só um momento! Peço imensa desculpa, mas preciso de fazer uma coisa”
Virei costa e fui a correr ao jardim, colhi uma rosa vermelha e voltei à porta, que como expectável estava fechada. Bati. Filomena abriu e antes que pudesse descarregar em mim a raiva que tinha nos olhos disse:
“Nunca antes estive à tua porta sem te trazer uma rosa vermelha… Não seria hoje a primeira vez”. A raiva sumiu-se-lhe dos olhos e trocou-a por surpresa:
“Cristóvão?” – disse ela.
Sorri e respondi: “Que me dizes, vamos passear no jardim?”
Vi o «Lulu» afastar-se, acender um cigarro (será que ainda fumava SG Gigante?) e eu só me perguntava como é que tinha escrito o meu código postal e não o do dono do livro.
Fechei os olhos e quando os abri senti uma violenta dor de cabeça: tinha batido com a testa na esquina da mesa quando me baixei para apanhar a foto que deslizara de dentro do livro para o chão.
O Lulu, murmurei com estranheza. O estupor do Lulu tinha-me dado dois tiros, ainda que fictícios, a mim, seu fã incondicional! Sabia lá que os outros lhe chamavam menina! Para mim ele era o sol que iluminava o meu planeta…até ao dia em que dei de caras com a Filomena e a minha vida mudou para sempre…pelo menos durante algum tempo!
É verdade que ele fez umas cenas camilianas debaixo da minha janela, encheu o pátio da escola com dislates e ameaças, mas o meu destino estava traçado: Filomena ou nada!
Esta mudança alegrou imensamente o meu progenitor, conservador empedernido, mas teve consequências funestas para o Lulu, cujo pai, igualmente dinossáurico e inimigo do meu pai, se atirou de carro, da falésia de Peniche para o mar.
Todas estas recordações passaram diante dos meus olhos, com uma clareza dolorosa. Deve ter sido da pancada, concluí.
Sem vislumbrar culpa, nem saber porquê, senti uns violentos remorsos pela estultícia da minha juventude e decidi tentar corrigir o que ainda podia ser corrigido, nem que fosse só para, egoistamente, sentir algum apaziguamento.
Vou procurar o Lulu, pode ser que esta espécie de sonho tenha sido um aviso. Será que ainda mora na mesma casa?
Rapidamente, chamei um Uber e desci em frente daquela moradia que tão bem conhecera. Com mão trémula toquei a campainha e afastei-me um pouco, sem saber bem porquê.
A porta abriu-se com vigor e à minha frente surgiu uma imagem que nunca esquecera: Filomena!
Instintivamente anunciei-lhe o próprio nome, ao que ela respondeu: “Sim, bem sei quem sou. E quem vem a ser o senhor?” – Continuei estarrecido a olhar para ela sem dizer uma palavra. Não a via desde que fugi com o pai para Macau mas tudo nela estava perturbantemente igual. O sorriso cínico, as mãos esguias, as sobrancelhas finas, a olhar impaciente. Dei conta então que estava a tremer. Tanto tempo passado a sonhar com isto e no fim só tinha de voltar aqui. Mas o que fazia ela em casa do “Lulu”? Num instante, coberto de antecipação olhei para a mão de Filomena. Nada de aliança.
“Desculpe, mas tenho mais que fazer do que ficar aqui a olhar para si? Acabei de mudar para esta casa e tenho muita coisa por arrumar. Sabe, o antigo dono dela era um antigo colega de escola, que soube há pouco tempo ter morrido e… Enfim, posso ajudá-lo com alguma coisa?” – Aparentemente, o meu aspeto estava mais mudado que o dela. Lembrei-me de todas as vezes que a fora buscar a casa dos pais para passear no Jardim e finalmente consegui dizer:
“Só um momento! Peço imensa desculpa, mas preciso de fazer uma coisa”
Virei costa e fui a correr ao jardim, colhi uma rosa vermelha e voltei à porta, que como expectável estava fechada. Bati. Filomena abriu e antes que pudesse descarregar em mim a raiva que tinha nos olhos disse:
“Nunca antes estive à tua porta sem te trazer uma rosa vermelha… Não seria hoje a primeira vez”. A raiva sumiu-se-lhe dos olhos e trocou-a por surpresa:
“Cristóvão?” – disse ela.
Sorri e respondi: “Que me dizes, vamos passear no jardim?”

Paula Carvalho
Francisco Feio
Tiago Pina
Conceição Brito
Francisco Semedo

 

BOLSOS VIVIDOS 

As poucas vezes que levou as mãos aos bolsos, sentiu percorrer-lhe o corpo um arrepio desvairado que o levou, em menos de um ápice, a deitar-se na cama, com mantas encardidas por cima e a cabeça tapada por um gorro, de repasto das muitas traças que faziam vida nos seus armários. Assegurava, num tom de voz de militar de ocasião, que jamais o veriam colocar novamente as mãos nos bolsos, que já por mais vezes do que as que conseguia contar estivera às portas da morte e não fosse a sua Rosarinho, de mãos de orquídea e pescoço de salvação, estaria já desfeito e comido por larvas. "Porque não usas tu calças sem bolsos, se tanta maleita te provocam?", perguntavam os amigos. Isso a eles não lhes dizia respeito, mas a sua Rosarinho, que cheirava a terra molhada e chorava sonhos alados, da sua respiração brilhante, sussurrava que nos bolsos das calças ficam os restos de vida que durante o dia abandonamos. Agora, a sua Rosarinho respirava vazia em cima da cama.
E ele não conseguia deixar de pensar nas suas palavras: porventura, nos bolsos aterradores, iria encontrar a memória viva e vívida, das últimas horas de Rosarinho?
À medida que a respiração dela se ia desvanecendo, tomou uma decisão: aconchegou a delicada mão na sua e, cuidadosamente, deslizou os dedos para dentro de um dos bolsos. Um clarão de amor quase o cegou e sentiu o coração transbordar. Segurou firmemente a mão de Rosarinho e ouviu a sua voz dizer “eu estou contigo, aqui e agora, não tenhas receio”. Olhou-a e deixou-se envolver pelo brilho da sua respiração. O rosto permanecia tranquilo, imóvel.
“Onde estás, minha querida? Para que mundo me estás a levar?”
Os olhos de Rosarinho abriram-se num cintilar de diamante, os lábios desenharam um sorriso e murmurou, sem falar, “não tenhas receio, vem comigo”.
Ele deixou-se envolver por uma cornucópia de cores e partiu num sonho alado, antes de perder a consciência.
A sua mão nunca largou a de Rosarinho durante a alucinante descida em espiral pela cornucópia colorida. A descida parecia não ter fim, a cada 360 graus a velocidade da queda amentava exponencialmente: onde iriam parar? Procurou o olhar de Rosarinho em busca de um porto seguro e descansou quando viu o seu sorriso.
De repente pararam e ficaram como que suspensos no vazio, as mãos sempre juntas, os olhares presos. As cores da cornucópia desvaneceram lentamente, o cenário tornou-se mais nítido.
Estavam no quintal da casa da avó na aldeia serrana. António já não tinha o gorro traçado na cabeça e vestia uns calções de linho e uns ténis de pano. Era verão e as cigarras faziam uma barulheira infernal ao longe. António sentiu o bolso esquerdo pesado, como que a puxar-lhe os calções para baixo. Olhou novamente para Rosarinho e, sem nunca desviar o olhar, meteu a mão devagarinho no bolso. Assustou-quando os seus dedos tocaram numa superfície fria e perfeitamente lisa: eram os seus berlindes.
Donde teriam surgido? Tinha deles uma cruel lembrança, tinha a certeza que os tinha deitado para o rio depois daquele horrível acidente com a sua irmã pequenina, a Susana. Os seus olhos continuaram a fitar Rosarinho que, suavemente, entrelaçou os dedos nos seus e, juntos, retiraram as esferas multicolores do bolso, e deixaram-nas rolar por entre as mãos para o solo quente.
A náusea ácida queimou-lhe a garganta e cortou-lhe a respiração. Reviveu o momento, há tantos anos, em que se apercebeu que a sua irmãzinha parara de brincar com estes mesmos berlindes e jazia imóvel no chão.
Ele estava proibido de jogar com eles perto da criança, pareciam rebuçados e eram tentadores e perigosos.
A mãe tinha-lhe dito que olhasse pela mana durante a manhã. Escondeu os berlindes na concha da mão, que enfiou no bolso dos calções, e foram ter com os seus amigos.
Foi divertido, mas subitamente apercebeu-se que a Susana fora engolindo os berlindes que deixara abandonados no chão. O terror que sentiu mudou-o para sempre.
Mas agora Rosarinho segurou-lhe ambas as mãos e disse, num murmúrio: «Observa o passado. Acabou o teu pesadelo, podes começar a esquecer»
Ele continua deitado, imóvel, indiferente à azáfama que reina à sua volta. Na cabeça ressoam estas últimas palavras de Rosarinho sobre observar o passado e começar a esquecer. Sente-se mais confuso que o habitual. Como pode ele observar algo que começa a esquecer? A mão está fria, mais fria que o corpo. Reparou agora que tem alguma coisa na mão. Abre-a lentamente e descobre um grande berlinde de vidro, com as habituais torções coloridas no interior. Olha atentamente a esfera transparente à procura da sua irmã Susana e de Rosarinho, mas não encontra qualquer sinal delas. O quintal da casa da serra, que parecia estar ainda agora ali na sua memória, desaparecia à medida que ia rodando o vidro na sua mão. Talvez as palavras de Rosarinho não fossem um pedido, mas apenas a descrição do que seguia. A acidez na garganta voltou e pela primeira vez pareceu dar sinais de vida. Olhou com dificuldade a mão e o berlinde tinha desaparecido. Resignou-se; já nem sabia de onde lhe tinha aparecido aquilo na mão. Esquecer, era a única coisa de que se lembrava. E o pesadelo talvez fosse aquele apito intermitente que parecia marcar um compasso lento acompanhando a sua respiração. Já não se apercebeu quando o som ficou contínuo. Ainda menos quando se calou.


Rodrigo Rufino
Conceição Brito
Inês Rodrigues
Conceição Brito
Francisco Feio


O CONGRESSO 

Odiava aquelas festas infindáveis da embaixada: muitos sorrisos, muita conversa oca, muitas mentiras simpáticas e cansativas, muito nada fazer para parecer fazer alguma coisa. O surdo tumulto das vozes, com decibéis ditados pelo champagne generoso, as luzes brilhantes e cansativas, a música de fundo num martelar constante do inconsciente, eram o cenário habitual de tais acontecimentos.
Meu deus, o tempo que estas coisas demoram. Ainda não percebi a utilidade disto tudo. Amanhã vamos continuar a fazer tudo da mesma maneira.
E o meu contacto que nunca mais aparece
Mais um sorriso, «que prazer, há quanto tempo não o via, temos que nos encontrar para um café tranquilo» e desistiu de esperar. A dor de cabeça era insuportável, amanhã tinha uma reunião preparatória do congresso logo de manhã bem cedo. Será que esta gente nunca dorme? intrigou-se.
Pediu o casaco na recepção, e saiu para a frescura da noite. Até o cheiro intenso de combustível lhe pareceu um bálsamo.
Acenou a um táxi que se aproximava e, quando ia entrar, ouviu uma voz, que bem conhecia, dizer: «entre, tenho estado à sua espera»
Ainda hoje não sabe explicar a razão de ter entrado no táxi e não ter estranhado de imediato vê-la ali, tantos anos depois, exatamente na mesma, com o mesmo ar com que a tinha deixado, da última vez que se viram, na improvisada sala de embarque no aeroporto para onde tinham ido na esperança de apanhar os últimos voos a sair do país. Foram tempos complicados e o mundo nunca mais voltaria a ser o mesmo, apesar das festas regulares organizadas nas diversas embaixadas pretenderem o contrário. Julgava-te morto, disse ela. Já tinha deixado de te procurar e foi numa mensagem sobre o congresso que soube que tinhas reaparecido. Pois eu tinha a certeza que não tinhas escapado quando toda a tua delegação desapareceu sem deixar rasto, disse ele. Primeiro as pequenas revoluções que grassaram um pouco por todo o lado, depois o vírus que veio para ficar e agora isto. Ela ouvia em silêncio. O táxi continuava a atravessar a cidade e ele desviou o olhar para o exterior. À medida que a cidade se desenrolava na janela ia sentindo alguma estranheza que não sabia identificar. Finalmente pararam. Ele abriu a porta para sair e ela disse-lhe: sabes que o congresso não pode acontecer. Amanhã tens de os convencer a desistir.
Saiu e ficou a olhar o táxi a afastar-se. Foi então que reparou que tinham andado às voltas. Estava exatamente no lugar de onde tinha saído. Mas estava num tempo diferente. A casa onde era agora a embaixada, estava tal e qual a tinham encontrado há vinte anos quando se mudaram para ali.
- Olhe desculpe – perguntou a um transeunte que passava - Em que ano estamos?
O outro olhou-o como se ele fosse um louco atarantado.
- Não sabe a quantas anda? Está bêbado? É claro que estamos em 1984.
Devo estar a sonhar, ou então é o Regresso ao futuro! – pensou enquanto cofiava a barba e o bigode inexistentes e entrou em casa porque a porta estava aberta. As paredes forradas com fotografias dela e pósteres de bandas rock Duran Duran, Spandau Ballet, Kajagogoo, Geoge Michael, David Bowie, Orchestral Manouvers in the Dark. Um telefone preto com uma roda de algarismos, um grande gira-discos, quatro leitores de cassetes, um leitor de vídeos. Bestial! Portugal ainda não entrou na CEE, não há telemóveis nem internet.
O que é que ela tinha dito? Para avisar os outros que não ia haver congresso? Que se lixassem! Toda a vida sonhara voltar à adolescência para escolher outro curso sem ser Direito. Ia regressar ao fim do liceu, ao momento exacto da candidatura à Universidade e escolher outra área.
E foi isso mesmo que fez quando a manhã chegou, depois de uma noite mal dormida em que não parava de pensar em toda a sequência de eventos que o tinham trazido até aquele momento. Quando chegou aos serviços do ministério, percebeu pela longa fila que era dia de candidatura. Levantou os impressos, tomou o seu lugar na fila, preencheu-os enquanto a linha de pessoas se ia escoando e esperou. Foi aí que reparou, pela primeira vez, que algo não estava certo. Toda a gente falava um pouco exaltada de uma série de acontecimentos a que chamavam o grande evento e que teria ocorrido uns dias antes. Atrás dele, um grupo cantava uma música que lhe era familiar, de uma banda que vivia num poster na parede do quarto onde tinha dormido. Tinha repetido aquela música vezes sem conta, com o seu grupo de amigos, mas tinha a certeza de que as palavras não eram exatamente aquelas. Percorria a lista das faculdades e eram todas iguais em todas as cidades do país, sem qualquer opção de curso e isso parecia não incomodar nenhum dos seus colegas que aguardavam como ele.
Quando estava a chegar à porta de entrada olhou para o outro lado da rua e viu um anúncio que ocupava a fachada toda do prédio e onde se lia “O Congresso espera por ti”.
Agora que pensava nisso, a única coisa de que se lembrava era de ter saído da embaixada e ter entrado num táxi. Estava certo de que a qualquer momento ia acordar e perceber que tudo não passara de um truque manhoso que a sua mente lhe pregara. Sorriu. Foi nessa altura que se deu o embate.
O edifício do congresso explodiu. Pessoas gritavam e corriam por todo o lado. Destroços voaram em todas as direções arrastando carros e corpos. O apitar estridente que ouvia dava-lhe dores de cabeça, tonturas. Viu uma mulher puxar um braço de debaixo de um carro, o tamanho do mesmo deixou-o enjoado. Saiu dali a correr, parou uns metros depois com dificuldade em respirar. Viu o seu rosto refletido numa montra, era de novo o velho rosto de um homem de cinquenta anos. Olhou em volta, tudo voltara ao normal. Tudo estava como devia estar. Dirigiu-se para o local da explosão, o edifício estava intacto, mas havia algo diferente, como se tivesse sido reconstruído. Reparou numa placa em mármore, leu o que dizia: Em memórias das vítimas do atentado de 1984, seguido de uma lista de nomes. O estômago apertou-se, o coração bateu desenfreado nas têmporas. Nem se lembrava de ter chegado a casa, tudo parecia igual. Lavou a cara em água fria, pensou em deitar-se e foi quando reparou. Em cima da cama um pequeno envelope perfumado, reconheceria aquele perfume mesmo que tivessem passado anos, mas só tinha passado uma noite. Lá dentro, um papel com letra requintada, Bom trabalho. Sabíamos que podíamos contar contigo. Sentou-se na cama tentando perceber o que acontecera, nada fazia sentido, mas um sentimento de culpa invadia-o lentamente, sabia que tinha feito algo terrível.

Conceição Brito
Francisco Feio
Helena Campos
Francisco Feio
Cláudio Martinho