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A técnica de escrita Mosaico inspira-se no Cento ou Centão (centão: manta de retalhos) e consiste em criar um texto a partir de fragmentos de outros.
Décimo Magno Ausónio, no séc. IV, escreveu o Cento Nuptialis a partir da Eneida e outros versos de Virgílio e descreveu o método: «a partir de vários trechos e sentidos, uma certa estrutura de versos consolidada, de tal modo que num único verso unem-se dois ou mais fragmentos, ou um verso e o seguinte, com a metade de outro. […] (é uma) pequena obra contínua de segmentos, tornada una a partir de muitos, um divertimento de seriedades, nosso a partir do alheio».
Outros exemplos da técnica incluem o canto gregoriano, com versos da Bíblia, A Terra Devastada, de T.S. Eliot, citando versos de Homero, Virgílio, Walt Whitman, Shakespeare, Baudelaire, Bram Stoker e muitos outros, inclusive canções populares, e a Antologia, de Manuel Bandeira, um poema criado a partir de outros do autor.

Partimos textos já produzidos pelos participantes noutras sessões da Naftalina e escrevemos um novo.

 

1. Ramalho saíra a custo da mina em chamas. O incêndio lavrara em línguas ondulantes.
“Houve heróis hoje, com certeza, com os elevadores avariados e a ventilação estragada não admira”, pensou ele. E, no entanto, o sindicato esforçara-se nas negociações com o patrão. Um grande embuste. “Nós passávamos o tempo assim: falta-me o… - e éramos sistematicamente travados por promessas vãs e réplicas que tudo distorciam.” Aqueles ataques não tinham nada de acaso. E o sócio do patrão era muito hábil quando se esquivava a questões, quando o apanhavam num embuste. Desculpava-se com as falhas dos fornecedores, as quebras nos lucros e quando lhe faltavam argumentos, afirmava que os desastres aconteciam quando não lhe davam a atenção devida. Acostumado a este novo «falta-me o…» de Afonso, não deu pela dessemelhança do derradeiro balbuciar. Estendeu o amigo de infância cuidadosamente no solo firme. A ambulância chegou, sim, chegou. Mas o pobre amigo já tinha finado.

2. A hora muda, mas continuam a ser sessenta minutos. Sim, é assim para todos. Dizes-me que em Tunis a primavera começou no dia 1 de junho. Curioso. Será que têm um calendário diferente? E a Tunísia fica perto. A minha bisavó esteve lá, no tempo em que só havia barcos e comboios.
                                                          Lídia Vieira

 


Ontem
Aqueles ataques, não tinham nada de acaso; era o seu sonho albanês. Um turbilhão colorido, um tornado guardado numa esfera de vidro, que se desenrola a partir de um dos polos, mas para dentro. Os tornados não sabem ficar imóveis e a nossa memória das tempestades é curta.
Deixou o cérebro ir.
Há uma urgência no ar. Instantâneos de uma fotografia que passam e que recordam um tempo em que se saboreou a felicidade; depois o resto. Desejo.
Agora que é noite, o comboio continua a atravessar a imensidão que nos separa do mar. O silêncio é o único registo que fica da viagem. Abriu os olhos e não encontrou nenhuns outros para se ver refletida.
Ele já tinha finado. Não precisas de dizer adeus, porque ele já és tu.
                                                                                           Francisco Feio

 

Gato Galego, quando voltares à Terra,
lembra-te de um cheiro que gostes muito,
que deixe sentir tranquilidade,
calma e que dê felicidade.

Ignora o pau de canela,
a tira de casca de limão,
o gengibre,
o mel
e a gema gelada.
Não precisas de dizer adeus, a hora muda e é um turbilhão colorido, como uma orquestra em movimento.

Gato Galego, eis-nos juntos
Passávamos o tempo assim
“Há dois tipos de pessoas, e depois o resto de todos nós.” Um grande embuste!

Gato Galego, pareces o mesmo todos os dias
Desconfio que à noite, ele ainda se move lentamente.

Esse silêncio é o único registo que perdurará.
                                                                          Tiago Pina

 

Há uma urgência no ar:
gulosinar gulosinas.

A hora muda,
todos os dias de manhã.

Passávamos o tempo assim,
um tempo maravilhoso em que se saboreou a felicidade e a liberdade.
Desejo de que esse tempo volte.

Uma luz clara e brilhante,
uma gema gelada,
uma gota gotejante ontem.

Era o seu sonho albanês:
pau de canela e gengibre.

Agora que é noite,
António sai do autocarro.
O autocarro parte e é como uma orquestra em movimento.

Instantâneos de uma fotografia,
o cérebro já estava longe,
os olhos aproximaram-se.

Ó Gato galego,
tem uma rosa por perto
para não te perderes, quando voltares à Terra.

Trago no bolso uma luz brilhante,
é um turbilhão colorido, outro olhar.
                                                          Giuseppa Giangrande


Há uma urgência no ar.
… parece o mesmo todos os dias, mas desconfio que, à noite, quando não estamos a olhar, ele se move lentamente atravessando a imensidão que nos separa ainda do mar.
Há sempre alguma coisa para fazer, para pensar, para experimentar: mel com um pau de canela, casca de limão, gengibre qb, sabe-lhe muito bem.
Instantâneos de uma fotografia que recordam um tempo em que saboreou a felicidade.
Desejo que esse tempo volte.
Abriu os olhos e não encontrou nenhuns outros olhos para se ver reflectida... e não precisas de dizer adeus…
                                                                                           Conceição Brito


Sonho albanês
António sai do autocarro e repara no único carro parado no estacionamento. Eis-nos juntos, a atravessar a imensidão que nos separa ainda do mar. Como a nossa memória das tempestades é curta, ele parece o mesmo todos os dias, instantâneos de uma fotografia que passa, uma luz clara, brilhante, tão brilhante que deixa ver tudo em branco, mas que depois se faz azul.
Sempre alguma outra coisa para experimentar. Gato galego, ouvi onde ouvir, 1 Pau de canela, garrafas de água e barras de granola, gengibre em mel de luar. Lembra-te de um cheiro que gostes muito, um grande embuste, outro olhar.
Quando não estamos a olhar continuam a ser 60 minutos sem troféus nem relógios de ouro. Instantâneos que recordam um tempo maravilhoso, uma grande sinfonia interior que todos tocam e ninguém irá ouvir.
António, falando limpo, deseja que esse tempo volte. Onde? Ontem.
                                                                                            Patrícia Louro