NaftaMini

 

O microconto é um dos «clássicos» da Naftalina. Desta vez inspirámo-nos num começo, num meio e num fim de textos do microcontista Fernando Guerreiro para três novos microcontos
A segunda parte da sessão foi dedicada ao projecto FOLHETIM.

 

Imprevistos
Sem que nada o fizesse prever, o rio transbordou. O sismologista nada assinalara, o meteorologista anunciara maré baixa, o Borda D'Água tão pouco se referira a sinistros. Contudo, os arrozais inundados estavam impraticáveis. E houve um morto a assinalar: o senhor José Inácio, quase sobrevivente de mais uma bebedeira, morreu afogado.

Sem derrubes
Sua alteza esperava uma receção calorosa. O Alcaide recebeu-o com pompa e vénias. Antes mesmo de receber as insígnias, o monarca estacou. Uma varejeira mordia-lhe insistentemente a mão esquerda. Tentou imediatamente matar a mosca desferindo um golpe de espada com a mão oposta em direção desta. Por pouco, feria gravemente o polegar. Guardou a arma na bainha. Assobiando, sacudiu firmemente a mosca, confessando entre dentes: "Antes isto do que a ameaça de um opositor republicano!"

Impaciências
Cândida espreitara várias vezes pelas traseiras do prédio para estudar os vizinhos indianos. Queria dar-lhes em mão o documento deixado pelo proprietário dos dois andares: uma folha A4 com um IBAN, sem nome nem número de telefone. E um prazo de contrato de arrendamento de três meses. Entrou no elevador sem esperar pelo clic da máquina. Por coincidência, o elevador abriu-se e pai e filha indianos encontravam-se lá. Talvez pela entrada pouco acertada dela, o elevador parou bruscamente uns vinte segundos e ela, já ansiosa, aguardou a reação dos dois. "Compreendido" - comentou o senhor indiano. "E obrigado. Não obtivemos respostas às chamadas de um mês inteiro. Por sorte, conseguimos um arrendamento de dois anos na Amadora".
Apesar do desconsolo, Cândida suspirou de alívio. Nunca lhe passara pela cabeça que uma avaria no elevador fosse tamanha bênção.

O incêndio lavrara em línguas ondulantes. Em baixo, na mina, perto de duzentos homens lutavam pela sobrevivência. Houve heróis que romperam o fogo, nem todos carregando corpos com vida. O envio de ventiladores e o recomeço dos elevadores determinou um saldo de cento e cinquenta vidas, a postos para a jornada seguinte. Sem troféus nem relógios de ouro. Só algumas garrafas de água e barras de granola resgatadas à pressa dos nichos das galerias.
                                                                                                                                                                              Lídia Vieira

 

O autarca
Sem que nada o fizesse prever, o rio transbordou. As ruas da aldeia desapareceram e o presidente da junta propôs logo que se mudasse o nome da terra para Veneza saloia. Chamou as televisões e apresentou um plano audacioso que metia um turismo rural de um primo e um gabinete de marketing de uma afilhada que tinha ido para Lisboa estudar essas coisas. Quem não gostou foi o Zé Manel que ficou com as mesas do café a boiar. Andou às apalpadelas na rua e descobriu a tampa do esgoto. Chamou o Quim e puxaram a coisa. Foi como Veneza. Foi-se a água e foi-se a aldeia. Foi tudo na enxurrada.

O conselheiro
Estava tudo em silêncio; só se ouvia o som irritante do inseto a voltear em torno da mesa. Foi quando ficou a pairar por cima de um naco de presunto, que o monarca tentou de imediato matar a mosca com a espada que tinha na mão. Acertou em cheio na tábua de queijos que estava ao lado. Tentou uma segunda vez e foi-se a mão do aio que tentava salvar o leitão e da terceira foi-se o abade. A pontaria não era o seu forte. Antes que ele tentasse uma quarta, o conselheiro tirou rapidamente uma mosca falsa do bolso e apresentou-a aos comensais elogiando a pontaria do monarca e todos bateram palmas. Agora poderiam comer em paz.

Um dia de sorte
Saíra cedo com medo de chegar atrasado. Ia ser um dia importante. Enquanto descia no elevador ia revendo mentalmente a apresentação. Ainda demorou a perceber que havia alguma coisa que não batia certo. O elevador estava parado. Carregou nos botões sem que nada acontecesse, bateu na porta, chamou, premiu o botão de alarme que parecia tão mudo quanto os outros. O telemóvel não tinha sinais de apanhar rede. De todos os dias, era neste que isto não podia acontecer. Foi-se resignando, imaginando o futuro de regresso à base e a ter de lutar novamente para chegar à beira de outra promoção. Era final de dia quando o elevador se moveu e as portas abriram. Foi então que soube que à hora a que deveria estar a começar a sua apresentação, um avião atravessara a sala. Ninguém se apercebeu. Nunca lhe passara pela cabeça que uma avaria no elevador fosse tamanha bênção.
                                                                                                                                                                                      Francisco Feio


Voltamos depois do intervalo
Sem que nada o fizesse prever, o rio transbordou. Houve gritos, corredoiras, ai valha-me deus, silêncio. No dia seguinte, o rio estava de volta ao seu leito.

Tragédia anunciada
A chegada do conselheiro especial para os assuntos do transporte fluvial do trigo foi anunciada com pompa e circunstância. O monarca tentou de imediato matar a mosca com a espada que tinha na mão. Distraído pelo anúncio só reparou demasiado tarde que a mosca lhe tinha pousado na outra mão.

Encontros de primeiro grau
Estava como sempre, atrasada. Fazendo cálculos mentais, se o elevador chegasse nos próximos 23 segundos, se se demorasse 15 entre andares, e menos de 20 em cada andar, conseguiria chegar a tempo. Estendeu a mão para o botão, e outra pousou-se-lhe. Sentiu uma pequena corrente elétrica percorrer-lhe a mão, estender-se pelo braço e aquecer-lhe o coração. Nunca lhe passara pela cabeça que uma avaria no elevador fosse tamanha bênção.
                                                                                                                                                                                     Patrícia Louro


A alegria
Sem que nada o fizesse prever, o rio transbordou de alegria. Se já é estranho alguém rebentar de felicidade, imaginem o que é um rio galgar as margens de contentamento.

Dom 5, o Fugitivo
Dom 5, o Fugitivo escapuliu-se da folha onde se encontrava a somar moscas. Um delas, pousou-lhe no colo.
O monarca tentou de imediato matá-la com a espada que tinha na mão. De repente, vieram-lhe à memória as palavras de sua mãe, a Rainha Dona Primeira: não nos devemos meter em batalhas que não conseguimos ganhar.

O nómada
Esta história conta a vida de um nómada, sem piso fixo, a subir e descer.
Um dia, uma violenta tempestade de relâmpagos, trovões, ondas a galgarem furiosas, peixes a saltarem como se estivessem numa cama elástica, rebentou com o sistema elétrico da cidade.
O nómada ao chegar a um prédio, subiu as escadas. No 2.º andar, tropeçou e bateu com a cabeça.
Foi para o hospital onde lhe disseram que teria de ficar ali pelo menos 2 semanas.
Nunca lhe passara pela cabeça que uma avaria no elevador fosse tamanha bênção.

A solidão
Todos os dias de manhã, António sai do autocarro e repara no único carro parado no estacionamento. Ignora se ainda lá está do dia anterior ou se chegou quando a noite se despedia.
Por muito que não queira, António é aquele carro.
                                                                                                                                                                                    Tiago Pina

 

O dia tinha começado mal
O dia tinha começado mal... era o dia do exame e não se tinha levantado cedo. A sua amiga ligou para ela e disse-lhe: «Despacha-te que estamos atrasadas. Se não te despachares, perdemos o comboio e vamos a chegar tarde. Vestiu-se de afogadilho, fechou a porta de casa e entrou no elevador. Já estava morta de cansaço, o dia tinha começado mal e continuou assim... de repente, o elevador parou, com um empurrão. E agora? Entrou em pânico, queria tocar a rebate, mas nada... Tentou telefonar para a sua amiga, mas o telemóvel era como um corpo morto... Começou a gritar a plenos pulmões e... acordou banhada de suor... tinha sido um pesadelo, nos últimos dias vivia sob o pesadelo dos exames.
                                                                                                                                                             Giuseppa Giangrande