naft labirinto

 

Escrever com palavras obrigatórias é outro tipo de constrangimento que nos obriga a introduzir o acaso no texto, utilizando os nossos recursos para manter a lógica inicial e tirar partido da palavra/ideia nova. Esta técnica pode ser utilizada com um conjunto de palavras iniciais ou como fizemos na sessão: todos começam a escrever, a meio da escrita, cada um vai dizendo em voz alta uma palavra que está a escrever, todos restantes participantes são obrigados a incluir essa palavra no seu texto. A primeira palavra, para todos, foi «amarelo».
A segunda parte da sessão foi dedicada ao projecto FOLHETIM.


Dizem que as primeiras impressões são feitas nos primeiros segundos de conhecer alguém. A minha primeira impressão, mais que uma impressão foi uma sensação, um misto de ofensa e repulsa. Quando estás em cima de um palco, com um holofote nos olhos, a maioria das primeiras impressões são menos intensas. Culpo o amarelo da t-shirt que estava a usar. Era tão mau que obviamente o tive de incorporar imediatamente.
Voltemos atrás, entrei no prédio tarde. Fazia vento nesse dia, e o trânsito sofreu. Entre os taxistas que gesticulavam e bradavam ao céu, o metro apinhado, quase não pude pensar, respirar quando cheguei.
O que quero dizer é: estava chateada nesse início de noite, o dia tinha tido demasiadas horas até à hora de subir ao palco, e aquela t-shirt amarela ofendeu-me mais que a conta.
-Temos um canário na audiência hoje. Seja bem-vindo senhor canário.
Ali em cima do palco, não o senti, claro. Sente-se menos. O ambiente tornou-se preto, negro como breu, algo que só percebi demasiado tarde. A voz bradou “não te estás a ver ao espelho, caralho!”
Da minha linha do horizonte, existiam duas opções nesse momento. Alinhavar outra piada em cima do joelho sobre o senhor canário e arriscar uma tempestade furiosa, ignorar e arriscar uma tempestade interior, ou como dizem os ingleses, tomar a estrada mais alta. Do cimo de um palco toda a queda parece um abismo.
Por uma vez, escolhi a estrada mais alta, o que não deixa de ser irónico, considerando que o meu material é literalmente uma coleção de más decisões com consequências ainda mais nefastas que as intenções detrás.
Enfim, já sabem que estrada mais alta foi essa, está no youtube e devo-lhe o início da minha fama.
“Apetece-me um ovo estrelado, e não é por causa do senhor canário. Apetece-me um ovo estrelado como ser livre que sou de comer o que me apetece”, e do cimo do palco não vi a comoção de abaixo, o holofote nos olhos a cegar-me mais. O burburinho elevava-se, e eu maldizia a estrada mais alta – aprendi a lição nessa noite, o melhor é antagonizar o público, as falinhas mansas não nos levam a lado nenhum.
Alguém tinha, para dizê-lo de maneira elegante, removido as suas vestes. E por baixo dessas vestes não havia uma barreira de segurança, só pele. E de cima do palco, os holofotes agora girados para o público iluminavam a pele muito branca de uma tipa muito bêbeda agitando algo no braço esquerdo, imerso na escuridão. A t-shirt amarela caiu-me aos pés, e o senhor canário tem afinal umas mamas muito aperaltadas.

Patrícia Louro
 
 

Amarelo, era o prédio que vi nascer a crescer, na minha rua.
Com o tempo, tão amarelado, solucionado, ficou preto.
Muito bem iluminado, aguentava também ventos, tempestades que teimavam em gesticular nas arvores vizinhas.
De noite da cor do céu, não trazia medo a ninguém, nem era essa a intenção.
A partir de determinadas horas, imitava-se, assemelhava-se o velho amarelo, mas desta vez, no céu, e era aí que o prédio se sentia ao espelho e no horizonte da saudade.
Pensava o nosso prédio em tempestades e:
Supunha serem a estrada da vida de amores abismo lá no céu, tantas vezes por isso estrelado.
Livre, o céu voava e cortava nuvens e corações eternos, verdadeiros amantes.
Na vida, talvez até desconcertados, na morte ornamentados de vestes enrugadas das chuvadas e das poesias barreira livre que é viver, e não o saber.

Joana Dinis


Amarelo era o nome de um dos pratos favoritos do meu colégio. Tinha tudo para ser bom: a cor, o aroma, os ingredientes, o sabor. Era salpicado com folhinhas de salsa que faziam um efeito maravilhoso, quais pequenas malaquites num mar de ovos, batatas fritas e bife picado.
Conseguia comer quantidades gargantuanas: não tinha ossos, espinhas ou peles, era só abastecer, mastigar e engolir com êxtase.
O meu primo Guilherme, que andava no Colégio Militar, contou-me que também lhes serviam esse pitéu em almoços de 5ª feira, mas não partilhava o meu entusiasmo.
Em contrapartida, falava com gáudio da célebre «sopa de bichos», um rústico caldo de batatas e couves mal lavadas, em cuja superfície flutuava uma imensidão de cadáveres de insectos, alados ou não, e até algumas lagartas rechonchudas. O ponto alto da ingestão da sopa eram as apostas para ver quem conseguia trincar, com várias mordidas, um dos nojentos bichos. Ele nunca fora cliente desses desafios, era demasiado picuinhas para imitar os aborígenes que vira na Austrália a assar e comer lagartões do tamanho de dedos!!
Enquanto o meu colégio existiu, o Amarelo foi sempre o almoço escolhido para o Dia da Antiga Aluna.
Nunca ninguém conseguiu replicar o prosaico e delicioso repasto.

Conceição Brito

 

Amarela era a salsa, já um pouco murcha. O meu primo, chefe num restaurante, não sabia o que fazer: como preparar o molho para cozinhar a “pasta alla Norma”? O que fazer? Um cliente tinha pedido aquele prato, já esperava há algum tempo e um contínuo vaivém dos empregados dizia que o cliente estava impaciente e se queixava do serviço… O meu primo ia tornar-se no novo Toni, o inventor do “panettone”: para dar cor à salsa, pôs um pouco de “pesto” genovês no ramo que voltou a ser verde.
Teve sorte, porque o cliente apreciou muito aquela combinação de sabores. Mas o meu primo tinha-se visto em palpos de aranha…

Giuseppa Giangrande


Hoje sinto-me amarelo. Não o macilento, mas o do Sol, assim a fugir da salsa, como se fosse possível fugir da salsa.
Há dias em que não me sinto de nenhuma cor, mas hoje acordei e tive uma sensação amarelada. Pensei que seria um bom dia para telefonar ao meu primo que nestas coisas das cores, costuma ter sempre uma boa justificação.
Disse-me que uma vez teve um cliente que começou a dizer que se sentia amarelo e passado cinco minutos estava a cantar o Yellow Submarine dos Beatles no meio da rua. Talvez o amarelo atue como quando bebemos uma garrafa de vodka, isto é, solta o cantor que há em nós.
De qualquer maneira, o meu primo, disse-me que talvez fosse boa ideia que tentasse ser mais extrovertido, observação que fingi não ouvir.
Desliguei o telefone e fiquei a remoer as palavras do meu primo.
Abri o meu equipamento de Karaoke e escolhi uma música do Chico Buarque chamada A cor amarela. Comecei a cantar, a tentar imaginar-me num bar cheio de gente. Parei imediatamente. Só de imaginar todos a olharem para mim, corei, mas em vez de ficar vermelho, fiquei… amarelo.
As cores não nos libertam, nós é que nos pintamos.

Tiago Pina


Ficámos a olhar em silêncio a rua deserta. O pó amarelo entranhava-se na roupa. Amarela era a cor da fome e talvez da sede. Um campanário de uma igreja ao longe, alguns prédios dispersos, um pano também amarelo a esvoaçar ao vento. Alguém gesticulava furiosamente numa janela velha. Sob um céu opaco de nuvens densas, as horas pesavam lentamente. Onde iria dar aquela estrada que se afundava no horizonte? Á esquerda os prédios eram pretos, à direita um cemitério era o espelho da vida, o fim inexorável de todo o existir. Ao centro dois burros pachorrentos pastavam esquecidos. Com aquele céu carregado, ainda viria uma tempestade. Era melhor voltar atrás, não descer para aquele poço que nos sugava para um abismo e regressar à estrada larga e amarela que trilháramos até então. Voltarmos a ser livres sobre um céu estrelado nas nossas vestes naturais e sem barreiras.

Helena Campos

 

Era de noite e chovia. A estrada parecia não ter fim e foi por pouco que não o vi, no seu impermeável amarelo a gesticular em direção aos carros que passavam.
O vento levantava-lhe o impermeável, daqueles longos, de obra, o que era estranho porque não parecia haver obras na estrada.
Ao longe via-se que o céu mudava de cor, passando do cinzento de chumbo a um leve azul que parecia uma aguarela desbotada
Já estava com o tempo muito apertado e se parasse de certeza que não ia chegar a horas. Por isso avancei, a olhar pelo espelho para ver se entendia qual a razão de tanto gesto.
Agora, no horizonte, uma linha preta, densa, nascia da terra em direção ao tal azul desbotado que fazia de céu.
Era sinal de tempestade, daquelas que parecem a mãe de todas as tempestades. A existir um anjo da guarda, era bom que acordasse e se manifestasse.
A estrada continuava livre, em direção ao horizonte.
A chuva tinha parado, o céu tinha aberto um pouco e a luz que restava do dia chegava com dificuldade ao chão.
Amarelo de novo, mas agora não era um impermeável a agitar-se ao vento. Era uma barreira de luzes intermitentes, que marcava o fim do caminho.
Saí do carro e avancei a pé. O mundo acabava ali. A barreira separava o chão que pisava do abismo.
Encostei-me ao carro a tentar lembrar-me para onde me dirigia. Não me conseguia lembrar de um destino; apenas da estrada. A noite chegou e o céu abriu-se como uma veste que se rasga. Para lá da pele que nos separa da noite, um céu estrelado e brilhante ignorava-nos na nossa banal insignificância.

Francisco Feio