aacubos

 

Lipograma, do grego «leipogrammatikos», «leipein» (retirar, deixar) e »gramma» (letra): «ao que falta uma letra», é uma figura de estilo que consiste em produzir um texto ao qual deliberadamente se retira uma ou mais letras do alfabeto. A intenção é sempre desconstruir os automatismos da linguagem.
Nesta sessão a proposta foi que cada um escrevesse livremente o seu texto, escolhendo a letra que queria retirar, de acordo com o sentido ou intenção do texto.
A segunda parte da sessão foi dedicada ao projecto FOLHETIM.

 

O rapaz que regressa para acabar por ficar sozinho

Todos os meses ele teve o mesmo movimento de início de regresso.
Carlos não vinha a casa há quatro anos. Tinha saído farto das disputas com o irmão.
Pensou que estava na altura de regressar e enterrar de vez todas as querelas que se meteram entre eles.
Tinha na ideia de que haveria um antes da zanga, mas na realidade esse antes já se dissolvia numa vaga lembrança.
Nada o tinha preparado para este regresso. O irmão tinha desaparecido na véspera, desejoso de o encontrar.
Partiu para um lugar que ele sabe bem ser de perda.
E desse lugar não se regressa.
Há sítios assim.
Os pensamentos podem ser poços sem fundo.

[lipograma: em cada linha falta uma vogal sucessivamente]
Francisco Feio


A Falta

Faltavam dentes na boca.
Faltavam estrelas no céu nocturno.
Faltava luz no dia acabado de nascer.
Faltava esperança na alma de quem se atirou da ponte.
Faltavam carros na ponte deserta na altura em que alguém quis cair.
Faltava água no rio que morria lá em baixo.
Faltava o silêncio nas ruas tumultuosas da cidade.
Faltava alguém que realmente tivesse ajudado.
Faltaram dentes para engolir o mundo.

[lipograma em «h»]
Helena Campos


São itinerantes, mas ficam no ouvido

Um dia, enquanto repetia “Era uma vez duas que se transformaram em três e à noite ainda aparecia mais uma” João imaginou levá-las a sítios onde elas pudessem repousar e satisfazer quem as quisesse ouvir, sentir, cheirar e até comê-las, se alguém tivesse fome para isso.
Comprou uma carrinha, forrou-a por dentro e por fora e partiu pelas estradas, não pelas A´s seguidas de um número, mas pelas IC, EN e por outros asfaltos que nem direito tinham a acrónimo e lançou-as todas as tardes.
O ritual era sempre igual: chegava, montava o pequeno palco, esperava pelos convidados e começava: “Todos os dias, Dom 5, o Fugitivo, fugia da ordem e deixava o 4 e o 6 perdidos” ou então “Era uma vez um poema chamado Golo que vivia num livro, mas, no seu íntimo tinha o sonho de "praiar".
Fosse pela novidade de ver o João a transformar-se, a ganhar vida, os olhos a colorirem, ou por outra razão qualquer, a miudagem ficava maravilhada. De repente, deixavam de estar na aldeia e estavam a acompanhar as aventuras de Dom 5 ou a pensar: Será que o Golo consegue ir à praia? ou a acompanhar a do gato que ensinou a gaivota a voar.
Alguns pensaram que bom seria que o João pudesse ficar, não 1001 tardes, mas muitas a ouvir ou a repetir o que tão bem fazia.
João e a sua carrinha fizeram muitos quilómetros, tendo imensas por contar. Qualquer dia, reúne-as num livro chamado: “São itinerantes, mas ficam no ouvido”.

[lipograma com a palava «histórias»]
Tiago Pina

 

Míngua

«Falta-me o…» e tossia. Tossia, e tossia novamente. Passávamos o tempo assim: «falta-me o…», tosse, muda de tema.
Acabou batizado «tossinhas mansas». Aqueles ataques, não tinham nada de acaso. Aqueles ataques, o «falta-me o» nunca acabado, mais que não vinham-lhe em cinco ocasiões distintas. Vejamos: quando se esquivava a questões, quando o apanhavam num embuste, quando não lhe davam a atenção devida, quando se ia de mansinho, e quando tinha ataques de tosse. A última opção, falando limpo, contava como a última e menos abundante. A última, a única! Acostumados ao «falta-me o…» inacabado, não demos pela dessemelhança desse «falta-me o…» de todos os demais. A ambulância chegou, sim, chegou. Mas ele já tinha finado.

[lipograma em «r»]
Patrícia Louro

 


Laboratór...oooops; desculpem... não posso. Não me posso esquecer.
Era só mesmo esta que me faltava não poder. Escrevo. Posso. Posso escrever.
Logo hoje, que estamos na véspera de tantos cravos L... oooops; desculpem não posso.
Não me posso esquecer.
Añh?? Voadores? Cravos voadores?? Não me posso alhear... será que me faço entender?
O que estou eu a esconder? O way out - atenção adjuvante da batota, este entretém; sempre de traço colado ao papel aos avanços e recuos; há-de chegar o «Lá chegados».
Mandem lá para o ar, os vossos, provavelmente, ao lado dos melros.... desagregados da verdade... ou talvez não.
Acertarão na palavra-chave? Mas vou dar-vos faltas... sem, portanto, nunca esquecer a tão ausente letra... logo de começo quase me escapou..., ofereço-vos neste meu espaço que é a cabeça labiríntica, dada a última pista sim!!! LABIRINTO.

[lipograma explicado no texto]
Joana Dinis