typewriter w 4 hands

 

 


Nesta edição entrou uma nova história: O PROBLEMA, ou uma nova complicação para o próximo escritor.
Cada história tem cinco capítulos e a cada sessão, sorteamos quem escreve o próximo.

Resumos:

O PROBLEMA é um homem às voltas numa rotunda e a abrir novos caminhos. A placa «abrigo de montanha» parece promissora. Vê uma 4L com que tinha sido sua, embora modificada. «Então, de novo aqui» é a deixa e o enigma a resolver.

Na história A MALA, Susana prepara-se para partir, põe a máscara e arrasta a mala. Na estação, o revisor diz-lhe que a protecção já não é necessária. Ela olha para a carruagem e finalmente percebeu – a sua mala estava cheia de máscaras, de todo o tipo, de todas as certificações. Mais um sinal do absurdo que a persegue. Decide rumar à Feira da Ladra.

UM DIA DE CHUVA NUM CAFÉ começa com uma mulher hipnotizada pela língua desconhecida de uma mulher que fala ao telemóvel num café. A língua estranha deve ser basco e ela deve chamar-se Sabina Arana, conclui a narradora. Segue-a até ao Bairro, um local pouco recomendável. Um dossiê passa de mãos ««Como fazer uma bomba para mandar isto tudo pelos ares.» Mau… etarras?

Problema sério na FOLGA INDESEJADA: um dia da semana tira folga com consequências em catadupa. Agora Sérgio Godinho está num dilema – o que vai acontecer ao tema da Feira da Ladra, às tantas da madrugada…? A rima, senhores, o que será da rima? Entra a semanada e põe terça-feira em tribunal, o que desencadeia manobras burocráticas com entre a ACT, a Segurança Social e uma junta médica. Entretanto Sérgio Godinho espera que o público não dê pelas alterações ao seu tema.

O SENHOR BELO deixa de cumprir o seu papel: adjectivar. A confusão e a revolta instalam-se. Não adianta procurar substitutos, aquele adjectivo não pode desaparecer assim de repente. Um ___ pandemónio. O Sr. Barata chega-se à frente, ainda com fresco sotaque dos brasis, propõe «um barato» como novo adjetivo nacional. Mas as entidades supremas não estão pelos ajustes. A Sra. Xenófoba vê aqui a sua oportunidade. Os seus propósitos são apoiados por muitos, mas rapidamente, não só substitui o Senhor Belo, como espalha o terror. Um movimento de clandestinidade começa a organizar-se.

No CAMPO DE PAPOILAS um casal em fuga da cidade, sedento de liberdade está num campo de papoilas que os acolhe-os com o seu perfume e brisa. De repente cai uma chuvada, os trovões e apito do comboio confundem-se. O casal sorri sempre e fala em ir para casa. Um som débil chama-os – é um enérgico recém-nascido que alguém deve ter atirado do comboio. E agora? E se pensam que o roubaram? Um deles tem um plano.

O REGRESSO é a história de Bruno que volta ao local onde viveu e com a memória de sirenes após um acidente contra uma árvore icónica da região. Vê-se à porta de uma casa que lhe é familiar. Uma voz chama-o. É Inocêncio, amigo de juventude, agora caído em desgraça. Tenta vender-lhe um candeeiro, mas enquanto Bruno matuta na infelicidade do amigo, este bate-lhe com o objecto na cabeça e sai do local aviado com a bem fornecida carteira de Bruno. De novo ouvem-se sirenes. Combalido, Bruno recorda que um amigo nunca foi boa rês. Subitamente leva a mão à carteira. Ufa… sim, a carta ainda lá está. Aliviado, Bruno recorda o primeiro acidente, a busca pela dose indispensábel de endorfinas e dopamina e a humilhação do salto da carrinha em andamento. A carta continua por explicar.

 
 
 

O PROBLEMA I
 
Nas últimas vezes tinha sido sempre assim. Por mais voltas que desse na rotunda, ia sempre acabar numa estrada nova, onde tinha de ir abrindo caminho à medida que ia avançando. Nem o Machado se lembraria desta, até porque no tempo dele creio que a rotunda ainda não tinha sido inventada e os caminhos de que falava eram mais de bosques e montanha. Estava perdido nestes pensamentos quando reparei na placa com uma seta de direção onde mal se liam as palavras “abrigo de montanha”. Por mais estranho que me parecesse a coincidência, coisa em que não acreditava, resolvi abrir caminho pela seta e tentar descobrir se o tal abrigo existia e o que me aguardava. Nem o facto de estar numa planície me afastou da ideia. Antes pelo contrário. Que faria um abrigo de montanha numa zona que era totalmente plana? Depois de andar 45 minutos no que penso ser uma linha reta, sem nada que aparecesse no horizonte, olho para trás para descobrir que a vista era exatamente igual. Olho de novo para a frente e lá estava. A menos de 50 metros erguia-se o abrigo, com um sinal luminoso a piscar onde se lia “abrigo de montanha”. Estacionada frente à porta, uma velha 4L dava um ar familiar à cena. A chaminé fumegava e na porta estava uma placa que dizia “aberto”. Olhei a matrícula e reconheci-a imediatamente: tinha sido minha. Mas não me lembro de ter aquelas cores todas. Foi então que uma voz se fez ouvir: “então? De novo aqui?”

Francisco Feio

 

A MALA I, II

Olhava a mala fechada, junto à porta e revia mentalmente o seu conteúdo. Será que se tinha esquecido de alguma coisa? Agarrou na mala, meteu-a em cima da mesa que estava no meio da sala e quando a ia abrir, parou. Como se poderia ter esquecido de alguma coisa numa casa que estava vazia. Restava apenas a mesa, o sofá onde tinha dormido e aquela mala que continha o que restava do seu passado e seria o início do seu futuro.
Pela janela aberta chegou o som de uma buzina em três toques curtos; tinha chegado o transporte para o terminal ferroviário. Susana arrastou a mala pelas escadas até sair para a rua onde o motorista lhe estendia uma máscara que prontamente ajeitou a tapar o nariz e a boca, um gesto que tinha repetido à exaustão nos últimos anos.
Atravessava a cidade deserta e pensava que não havia razão para ter estado tanto tempo à espera do transporte. Na realidade, já nem se lembrava de o ter pedido ou o que estaria ali a fazer. Chegou ao terminal e arrastou de novo a mala pelo cais à procura da linha certa. O revisor olhou para ela enquanto lhe estendia o bilhete e disse: sabe que já não é necessário usar máscara, não sabe? Olhou atentamente para o homem, mas foi só quando olhou para o interior da carruagem que percebeu.
A Susana percebeu... percebeu... e tornou a perceber.
A sua preciosa mala só lá tinha dentro, imagine-se... máscaras não estava em crer. Percebeu.
Que absurdo! Percebeu.
Mas desde há quanto tempo eu sou perseguida por absurdos???
Não quero acreditar!!! Percebeu.
Tenho máscaras que vão desde certificadas a engraçadas, àquelas que só cheiram a higiene. Entendeu.
- Eu compreendo-a, disse-lhe gentilmente o revisor.
Decifrou-a. P'lo ar incrédulo que ela desmascarara.
- Já passou!!!
- ...Hmm... pergunta ela... e a Feira da Ladra ainda lá está?
- ...Sim...e desinfectada!!! Sorriu.
- ...Ok... resolvido: bilhete para Santa Apolónia!

Francisco Feio
Joana Dinis


UM DIA DE CHUVA NUM CAFÉ I, II

Uma vez - era um dia de chuva e não tinha comigo o meu guarda-chuva- entrei num café que me ofereceu abrigo. Sentei-me e depois de mandar vir um chá para aquecer-me um pouco, chamou-me a atenção uma mulher que estava sentada numa mesa, não muito longe de mim. Conseguia ouvir as suas palavras, enquanto ela estava a falar ao telemóvel. Ela, porém, falava numa língua desconhecida para mim; era um idioma que na voz daquela mulher tinha um som melodioso, embora tenha percebido que havia alguma tristeza nas suas palavras. Tentei interpretar os seus pensamentos e o que estava a dizer, estava como que encantada pelo mistério que parecia envolver aquela voz e aquelas palavras.
Pensei que poderia estar a separar-se de alguém (às vezes, separar-se é uma coisa triste) ou estar zangada ou simplesmente ser uma pessoa atreita a depressões. Fantasiava nestes pensamentos quando a mulher se levantou e, quando tirava a carteira para pagar, vi no interior da sua mala, uma pequena bandeira do País Basco.
Pensei para com os meus botões: o idioma deve ser o basco, a mulher deve ser de lá. E devia estar a falar com alguém também basco, ou pelo menos, que soubesse a língua.
Baptizei-a rapidamente como Sabina Arana, em homenagem ao pai fundador do nacionalismo basco, e quando ela saiu do café, decidi segui-la.
A rapariga saiu do café, continuou pela rua em direção ao mercado e virou na 1.ª à esquerda, para o Bairro dos Desgraçados, ou em linguagem inclusiva, o Bairro das Pessoas menos afortunadas pelas vicissitudes da vida que infelizmente sofreram.
- Isto não é bom.
O Bairro era assim conhecido por ser um sítio de negócios pouco claros, um território onde o número de identificação fiscal não era preciso e se pagava a dinheiro.
A Sabina Arana acenou a uma pessoa, que se dirigiu a ela e lhe entregou um dossiê que dizia «Como fazer uma bomba para mandar isto tudo pelos ares.»
Tu queres ver que tropecei numa etarra que quer reativar um comando qualquer?

Giuseppa Giangrande
Tiago Pina


FOLGA INDESEJADA I, II

Era uma vez um dia da semana que decidiu tirar folga por tempo indeterminado. Não queria saber da feira da Ladra, nem do Carnaval, nem de qualquer outro acontecimento que tivesse de ser alterado para outro dia qualquer.
Entregou o pré-aviso à coordenadora dos dias, a Semanada, que ficou assim, como dizer, chateada com F mesmo grande.
- Trabalha de 6 em 6 dias e quer folga? E agora, o que é que eu faço?
Telefonou ao Sérgio Godinho e, depois de lhe dizer todas aquelas coisas que se dizem a uma figura conhecida “Gosto muito da sua música, dos seus livros, etc…” disse-lhe, muito desconsolada.
- Tem uma letra de uma música que terá de alterar, porque a dita cuja decidiu tirar folga e, por lei, não podemos nem sequer dizer ou cantar o seu nome.
Depois de descobrir a que palavra se referia a Semanada, Sérgio Godinho tentou reformular a tão badalada canção.
A rapariga podia continuar a ir vender mágoas ao desbarato que isso não fazia diferença nenhuma. Também podia ir vender o que quisesse que era para onde dormia melhor. Mas, e o início? Será que podia começar assim:
- É quinta-feira, feira de Carcavelos, abre hoje às cinco da madrugada? Não rima.
A semanada pensou melhor, chamou o advogado e pôs a terça-feira em Tribunal. A terça-feira chamou o Sindicato dos dias, meses, anos e períodos de tempo relativos e fizeram queixa na Autoridade para as Condições de Trabalho. A terça-feira meteu baixa na Segurança Social porque estava em burn-out, trabalhava desde a antiga Grécia e precisava de descansar. A semanada pediu à Segurança Social uma junta médica de verificação de incapacidades para retirar a baixa à terça-feira a fim de obrigál-a a regressar ao trabalho. A terça-feira pediu consulta de Medicina do Trabalho e meteu baixa não remunerada.
Entretanto, o Sérgio Godinho continuava sem saber o que fazer com a canção embora lhe passasse pela cabeça substituir simplesmente por “É dia de feira da ladra” na esperança de que o público se lembrasse de que dia se tratava.

Tiago Pina
Helena Campos


O SENHOR BELO I, II, III

Há muito tempo atrás, houve um adjetivo que deixou de adjetivar.
Até esse dia, o senhor Belo sempre cumprira a sua função, respeitando sempre a sua ordem nas frases, não se baralhando com o género e o número e respeitando escrupulosamente os graus em que deveria aparecer.
Nunca ninguém tinha apresentado qualquer reclamação, nem feito queixa à entidade superior que mandava nos adjetivos. O senhor Belo não mostrava sinais de estar doente, de ter dificuldades financeiras nem de passar por alguma crise de amores.
Foi por isso com alguma estranheza que, quando se começou a perceber tal omissão, os outros adjetivos começaram, em surdina, a comentar:
- Agora, o Belo não adjetiva?
- O que é que se passou?
Começavam a surgir relatos de pessoas que se diziam muito incomodadas:
- Ontem, abri a janela, estava um sol magnífico e disse para os meus botões: Que ____ dia! mas surgiu uma voz que disse: Lamentamos, mas o adjetivo em causa não está disponível. Tente outro!
Os mais tolerantes ainda aceitavam a sugestão e procuravam um sinónimo, mas e os teimosos? Teimavam, insistiam e vociferavam:
- Tentar outro??? Eu quero o ____ e mais nenhum.
O Sr. Barata, que era vizinho do Sr. Belo, ouviu os acesos protestos e resolveu intervir. Tinha regressado há pouco tempo do Brasil, onde vivera 40 anos, e ainda não tinha decidido como ocupar a reforma. Teve uma ideia brilhante: foi falar com a sábia entidade superior que manda nos adjectivos e apresentou uma proposta. Ele, Barata, passaria a substituir o Sr. Belo nas frases de júbilo ou encanto, na sua versão masculina. Por exemplo: «que-----passeio!» passava a ser «que barato este passeio!»; ou «que barato foi este filme» em vez de «que ----filme».
A entidade superior que manda nos adjectivos, chamada Diccionário Final e Total da Língua Portuguesa, respondeu que Portugal não era o Brasil e que barato não significava necessariamente ----- no nosso País. E indeferiu a proposta, por unanimidade e com aclamação.
No outro extremo da rua vivia a Sra. Xenófoba, a quem agradou esta decisão. Viu a sua oportunidade e, movendo-se, sem alarde mas com firmeza…
… propôs ser ela a que poderia substituir o Senhor___. Lamentavelmente, a proposta da Senhora Xenófoba encontrou o favor de muitos, tinha chegado uma época na qual os vários Senhores e Senhoras Xenófobos tinham terreno fértil para deixar propagar as suas ideias, sobre tudo entre pessoas muito ignorantes que eram partidárias do mote “orgulhosamente sós”. Mas, a um primeiro momento de euforia- parecia ter chegado o adjetivo certo para o papel de¬¬¬¬___. Após um breve tempo, seguiu o desconforto e surgiu o medo, porque a Senhora Xenófoba e os amigos dela semeavam o terror entre os que, pouco a pouco, se opunham aos seus ditames.
Organizou-se, então, na clandestinidade, um movimento de oposição e protesta que…

Tiago Pina
Conceição Brito
Giuseppa Giangrande

 

O CAMPO DE PAPOILAS I, II, III

Os dois queriam ter uma nova vida, fugir da monotonia daqueles dias tão sombrios. Deixaram a cidade trazendo consigo, no coração, muitas e grandes esperanças. Não tinha sido fácil abandonar o seu lugar, mas agora aquela que era a sua velha vida ficou para trás deles.
O único desejo deles era ter a liberdade, livrar-se das obrigações que a sociedade lhes impunha.
O caminho tinha sido longo, finalmente chegaram a um lugar que parecia mágico: um campo enorme, cheio de papoilas apareceu aos olhos deles. Havia no ar uma ligeira brisa que acariciava o verde do campo e as flores vermelhas, que pareciam dançar ao ritmo daquele vento suave. Do campo exalava- se um perfume, trazido pelas papoilas que ondulavam no verde do prado…
Do quase nada apeteceu-lhes andar de comboio...
Do céu e de repente, muitas, muitas nuvens, quase tantas como papoilas; sofregamente, a chuva cai por sobre os lagos, por sobre as estufas, por sobre as papoilas, por sobre tantos e tantos cheiros que de uma só vez parece que se soltam e se desnorteiam...estavam em todo o lado... E eles sorriam.
Um relâmpago, a seguir outro...agora o trovão 1,2,3,4,5,6,7 BARRUUUUMMMM, ouve-se o comboio, uhh,uhh pouca terra, muita água, BARRRRUM, cada vez mais perto: 1,2 e 3 Ai ai!! Passa o combóio que só passa, não vai parar: " A seguir vem o próximo disse logo o maquinista desabafando para a máscara da farda, acenando para os pintos calçudos.
E as papoilas...essas dançavam e choravam: Tanta alegria, quanta liberdade desde que se com paciência se vai da sente à flor... Papoilas vermelhas, sem dor.
Água da cor do breu, aquele que aprendeu a brilhar. Chuva teimosa. Mora no céu, n sua casa são as nuvens e de vez em quando vem ver debaixo o nosso mesmo céu.
- Vamos para casa...não achas?
- Sim...
E sorriem.
O comboio abrandou e quase parou na curva apertada, mais à frente, mas não o tentaram alcançar, e foram caminhando ao longo dos carris, sem pressa.
Ainda não tinham andado umas centenas de metros quando lhes pareceu ouvir um ruído que se assemelhava ao miar dos gatos. Gatos aqui? Na débil luz do fim do dia conseguiram distinguir a origem do barulho: uma trouxa de roupa, que se agitava enérgica e sonoramente. Com cuidado foram afastando panos e, com grande espanto e horror, descobriram que cobriam um bebé. Sem saberem o que fazer com a criatura, pegaram-lhe ao colo para ver se trazia alguma identificação. Absolutamente nada, mas estava agasalhado e limpo, e era tão pequenino que ainda tinha restos do cordão umbilical no seu pequeno ventre. Os jovens olharam um para o outro:
- acho que foi alguém que o atirou do comboio ali na curva - disse um.
- que vamos fazer? Ainda pensam que o roubámos! – assustou-se o outro.
- tenho uma ideia, vê lá se concordas…

Giuseppa Giangrande
Joana Dinis
Conceição Brito


O REGRESSO I, II, III, IV

Tudo estava diferente desde que partira depois dos motins que assolaram a cidade naquele que seria o último verão da sua juventude. Não que houvesse uma data certa para a entrada na vida adulta, mas tudo o que acontecera nesses meses acabou por ser uma barreira que separa um antes e um depois. Um marco temporal gravado não só na memória, mas igualmente no corpo. Bruno está agora diante da frondosa árvore onde ainda estão visíveis, se bem que esbatidas pelo tempo, as marcas do violento embate da sua carrinha contra aquele tronco gigantesco, um ícone turístico local que refere serem necessários 12 homens para o abraçar. Fecha os olhos e fica à escuta. O som das sirenes é agora distante e a luz do dia esbateu as luzes azuis e vermelhas que ainda viu a bailar na noite antes de perder os sentidos.
Bruno está agora diante da casa que o viu nascer. Não tem nada a ver com a lembrança que tinha dela. Parece-lhe muito maior, o que é estranho pois com a idade os espaços vão-se tornando mais pequenos. Limpou os óculos calmamente e percebeu que afinal já não era a sua casa. Era uma construção que nada tinha a ver com a que tinha conhecido. Bruno, disse uma voz hesitante atrás dele. Voltou-se e disse que sim.
- Há quanto tempo!!! – exclamou a voz hesitante.
Bruno reconheceu-o pela mancha branca das pestanas.
- Inocêncio, o que é feito de ti, rapaz?
- Olha, cá vou andando. Isto está difícil.
Bruno olhou para Inocêncio com mais atenção e viu que, de facto, as coisas estavam espinhosas. O ar acabado, as calças rotas, os sapatos sem atacadores eram a prova dos espinhos que, por vezes, nos atravessam a vida. Na mão trazia um saco de plástico com qualquer coisa volumosa no interior.
- Estás a ver a tua antiga casa? Agora é uma loja de velharias.
- Pois, é o que estou a ver.
- Olha, não me queres comprar isto?
De dentro do saco tirou um candeeiro com ar de quem pertenceu ao cenário da Vila Faia ou que repousava na secretária de Duarte e Companhia.
- Precisava de vender isto, para ter algum para comer. Desde que fiquei sem trabalho que…
Bruno ficou sem reação. Inocêncio apercebeu-se e disse-lhe:
- Tu ainda tiveste sorte. Foste contra a bisarma, mas recebeste a indemnização da Câmara. Eu…
De facto, apesar de culpado do acidente, Bruno ainda conseguira processar o Estado porque a árvore já deveria ter sido deitada abaixo, apesar de atração local. O advogado de Bruno, Doutor Campos da Moita, senhor muito reconhecido na praça, lá desencantara o ofício que mandava a dita cuja para o maneta, de modo que Bruno ainda tinha alguns euros para se valer.
Inocêncio, num passe de magia, pegou no candeeiro, atirou-o contra a cabeça de Bruno e surripiou-lhe a carteira, onde algumas notas estavam alinhadas por ordem crescente.
Fugiu com elas, deixando Bruno no chão a ouvir novamente as sirenes que o vinham acudir.
E foi uma longa e dolorosa sessão de déjà vue: os carros de polícia a parar com um grito dos pneus no asfalto quente, os vultos fardados a correr na sua direcção, uma mão a tactear-lhe a cabeça «dói aqui?, dói aqui?». Doía em toda a parte, mas desta vez não desmaiou, apenas fechou os olhos para afastar o brilho insuportável do sol e esconder a sua não menos insuportável humilhação.
Que estúpido! O leopardo não muda as suas malhas e o Inocêncio, ladrãozeco recorrente, também não mudara as dele. Como pudera esquecer-se? O Inocência até cumprira pena por furto, mas não aprendia, voltava sempre ao seu mester preferido de apropriação de bens alheios. As vítimas já lhe conheciam o modus operandi e nem se davam ao trabalho de apresentar queixa: iam à sua procura, davam-lhe uma carga de pancada, recuperavam o que ainda podiam e, não podendo, lá lhe partiam uns dentes ou uns dedos, abriam-lhe uns lanhos na cabeça para ele não repetir a avaria.
Enquanto esperavam a ambulância, Bruno conseguiu, finalmente, abrir o olho que não estava magoado, e viu, com alívio, a sua carteira no chão, mesmo ali ao lado. Pegou-lhe e abriu-a com mãos trémulas de antecipação. Ainda lá estava a carta! Involuntariamente levou o envelope aos lábios e murmurou «obrigado, obrigado, graças a Deus».
Aquela carta era a razão por que voltara a esta terra do inferno, onde jurara nunca mais pôr os pés. Iria procurar quem a escrevera e, finalmente, tentar reconciliar-se com o passado.
O pingo de sangue caía em câmara lenta queixo abaixo, e Bruno, aliviado pela posse da carta, distraído pela espera, perguntou-se se ficaria com uma cicatriz na sobrancelha. Uma cicatriz-convite para começar uma conversa. Para chamar a atenção de um olhar de 2 a 4 metros. A dor não era desconhecida para Bruno, não desde o acidente, um zumbido permanente em dias de chuva no nariz. Quem não o conhecia confundia-o com um cocainómano nesses dias de chuva, em mais de um dia de chuva tinha acabado num cubículo estreito pelas razões erradas, saindo de rabo entre as pernas. Não era que não gostasse de drogas, sorriu, acariciou a carta, era mais que a sua droga de eleição não era a branquinha. Não, a sua droga do coração, graças ao acidente, era uma combinação de endorfinas e dopamina, e exigia-lhe mais esforço e envolvimento pessoal que tapar uma narina e respirar forte pela outra. Exigia-lhe chamar a atenção de um olhar, a palavra ou o gesto certo, saliva, suor e sémen.
As luzes vermelhas e azuis da ambulância cegaram-no, viu a árvore ao longe, doze homens para a abraçar, imaginava-os de tronco nu, os músculos perfilados contra o tronco, ouviu as palavras ofendidas dele outra vez antes de saltar da carrinha em movimento, o pé forte no acelerador, as lágrimas quentes a caírem em câmara lenta queixo abaixo, a árvore já ali.

Francisco Feio
Tiago Pina
Conceição Brito
Patrícia Louro




O TÚNEL DE CAMARATE (completo)

Sem fazerem barulho, a lembrar os raides noturnos que faziam juntos, dirigiram-se para as traseiras do restaurante em direção ao túnel, que os livraria da multa por violação de todas as regras do dever de confinamento, não fosse dar-se o caso deste ser um túnel de escoamento de água que ia desaguar a um ribeiro.
Uma vez lá dentro, e como havia uma forte corrente de água a entrar, Zé Massano e Mário Antunes olharam um para o outro e o juramento que fizeram há muitos anos, ecoou nas paredes curvas do túnel:
- Ninguém fica para trás!
Esta promessa poderia fazer sentido no mato, agora ali em Camarate, no meio de um túnel que não se via a saída?
Zé Massano pegou no canivete que tinha no bolso, olhou para o companheiro de armas e…
Os dois avançaram no túnel.
O Zé pegara no canivete para que lhes desse sorte, como já tinha sido há muitos anos no mato. Quem sabe se também ali eles precisarem do canivete para combater contra feras verdadeiras ou imaginárias? O Zé e o Mário na realidade tinham de combater contra a corrente de água que continuava a subir e a encher. Os dois amigos olharam um para o outro: parecia impossível escapar aquela corrente que no final os submergiu e os arrastou.
Perderam os sentidos, mas tiveram a sorte do seu lado: a corrente livrou-os da escuridão e estreiteza do túnel e devolveu-os à luz, à normalidade tão desejada no tempo do confinamento.
Ampararam-se um no outro e saíram do ribeiro. Ou melhor, da água que aquilo de ribeiro tinha muito pouco. Eram duas fracas figuras que se sentavam agora na margem do corredor de água, cobertos de limos e outras coisas bem menos higiénicas. Mário, olhando para o companheiro a tentar, sem sucesso, recompor a sua imagem, não conseguiu domar uma alta gargalhada.
“Estás a rir-te de quê, oh artista? Deves pensar que estás com melhor ar que eu!” – disse Zé Massano furioso.
“Estou de rir-me de nós. Dois velhos viúvos, que combateram na guerra, que sobreviveram a sei lá mais o quê, não conseguiram ficar em casa dois ou três dias nesta altura de doidos sem se encontrarem para beber um copito. E agora andaram a rastejar dentro de um esgoto para não terem de ouvir um ralhete da polícia e desembolsar umas dezenas de Euros. Diz-me tu se não é para rir…”
Zé Massano não se deixou levar pela súbita boa disposição do companheiro e alargou o seu queixume:
“Pois eu não acho graça nenhuma, até porque o pior ainda está para chegar.” Dada a surpresa de Mário, lá decidiu explicar que tinha dito à filha, com quem vivia, que ia só à Farmácia porque se lhe tinham acabado os comprimidos para a tensão. “Como é que lhe explico agora aparecer neste estado?”.
Mário esboçou um sorriso e disse com calma: “Fácil, escuta com atenção...”
- Dizes à tua filha que apanhaste uma molha. Estava ou não estava a chover torrencialmente quando chegamos ao restaurante?
- É verdade, estava.
Tinham desaguado em parte incerta, os pés a enterrarem-se em lamas e limos. Era uma zona baldia, florestada que se estendia à frente deles. Deambularam livremente a respirar o ar sem ameaças de vírus, sem obrigações de máscaras e álcool até que avistaram sob uma árvore frondosa de vastos galhos pendentes, os olhos vítreos de um cadáver que ali jazia. Era de um rapaz novo, e ainda estava bastante inteiro. Aqueles olhos, o cheiro a esgoto, a morte também cheirava a esgoto não no princípio, uns dias depois, mas este cheiro não era do cadáver, era deles, só deles, "ninguém fica para trás"... Zé Massano ouviu a mina a explodir outra vez, apertou o canivete, os nós dos dedos brancos e doridos. Gritos, pedaços de carne a semear a terra vermelha e sedenta. Não conseguia respirar, e agora não era por causa da máscara. Eram esses olhos, sempre os olhos, silenciosos, doloridos, mortos. Quietos.
Mário ria-se, ria-se, ria-se, ria cada vez mais, as palavras tão presas no peito, que nem as gargalhadas as conseguiam libertar.
Era de um rapaz novo, e ainda bastante inteiro, como eles antes da guerra.

Tiago Pina
Giuseppa Giangrande
Francisco Semedo
Helena Campos
Patrícia Louro


«THAT'S ALL FOLKS» (completo)

«That’s all folks!», repetia entredentes, enquanto esperava atrás da porta. Não lhe arrancariam nem mais uma palavra. Não é que tivesse alergia às palavras, ou suspeitasse da sua inutilidade. Aos seus olhos era mais simples: tinha uma vida inteira de palavras a falar por si, uma vida inteira de ações a substanciar essas palavras. Eram muitas palavras, ditas, repetidas, demasiadas vezes, demasiado o mesmo. Agora acumulava-se-lhe nos ossos o cansaço, uma certeza cimentada pelo cansaço, pela repetição das mesmas perguntas, pela procura incessante das respostas certas que parassem as perguntas. Ou de respostas que mudassem as perguntas. Se alguém quisesse saber porquê, só tinha de percorrer para trás o caminho que tinha trazido os seus saltos altos até aqui, a esta porta.
«That’s all folks!», a mão suada e trémula rodou a maçaneta e saiu.
O sol que brilhava lá fora contrastou dolorosamente nos seus olhos com a escuridão de onde saia. Quando os conseguiu abrir viu o jardim. O mesmo jardim que em criança tinha visto pela primeira vez no dia em que, a custo de uns joelhos esfolados, subiu a árvore para o espreitar por cima do alto muro. Parecera-lhe encantado como nas histórias, falsas, que lhe liam. As sebes cortadas com uma precisão microscópica, o cheiro quente das flores e a grande fonte no meio. Hoje tudo estava assustadoramente igual, mas o encanto esse tinha abandonado aquelas partes há muito tempo. Durante anos pensou como seria estar ali e agora só lhe faltava um passo. Deu-o. A ausência de sentimentos desiludiu-a. Continuou a andar até chegar à fonte e parou em frente dela. Olhou para cima e, por um instante, viu-o, criança, lá em cima outra vez. Como naquele dia em que ele lhe falou, do cimo da fonte para o cimo da árvore. Fechou os olhos e sacudiu a angústia.
“Estão prontos para a receber!” ouviu do outro lado do jardim. «That’s all folks!» sibilou baixinho. De uma maneira ou de outra, hoje tudo acabava.
Mas não era assim: naquele dia nada acabava. A história dela seguia, continuava graças a água da fonte que a lavou, a livrou de todas as angústias.
Voltaram os sentimentos e ela voltou a vê-lo, ali no cimo da árvore. Fechou os olhos e chegou à altura dele. Não sentia cansaço, apenas alegria; parou à frente dele. O seu coração começou a bater quando pensou: será que ele me vai dar respostas que mudem as perguntas? Respostas certas? Vão deixar as palavras de falar por si? Mas ele só disse que nada para ela acabava, teriam de falar para ela ter as certezas de precisava.
Dirigiu-se aos advogados que a esperavam para finalmente poderem ler o testamento do seu Pai. Eram três senhores engravatados com ar altivo. Sentou-se calmamente ainda com a imagem dele no cimo da árvore e à medida que iam lendo o que o Pai decidira, ia-se formando uma ideia - cada vez mais clara - que este seria o início e o fim de tudo o que a atormentava há tanto tempo.
"That's all folks!", ressoava no seu peito.
A voz monocórdica de um deles dizia que o Pai tinha uma fortuna avaliada num milhão de Euros.
Estremeceu.
Um milhão de euros resolvia tudo. Não haveria mais perguntas nem mais respostas. Um milhão de euros era a resposta. Não há nada no mundo que o dinheiro não resolva. E quando transportou pelo jardim a pasta milionária, ele já não estava lá.

Patrícia Louro
Francisco Semedo
Giuseppa Giangrande
Mariana Matias
Helena Campos


MINIATURAS (completo)

Para maior cidade do universo, era demasiado pequena. Já era a terceira vez esta semana que se cruzava com as mesmas pessoas a caminho do emprego. É verdade que era sempre em sítios diferentes do percurso, mas eram sempre as mesmas pessoas e sempre na mesma sequência. O mais estranho de tudo é que as conhecia a todas, de vista, mas de cidades diferentes onde tinha vivido em momentos dispersos da sua vida. Tinha mudado para aqui havia 2 anos e não estava arrependido de ter aceitado a oferta de emprego que lhe tinha aparecido, um pouco do nada, mas no momento certo. Foi num impulso que aceitou e só pensou na decisão que tinha tomado no dia seguinte, enquanto atravessava os ares a caminho da que viria a ser, ainda não o sabia, a última cidade que iria conhecer. Para trás deixava uma vida sem grande história, ou com história nenhuma, já que tudo o que tinha de importante lhe coube numa pequena mala que jazia agora no porão do avião onde seguia. Nem telefonou ao patrão a dizer que não voltava; talvez o fizesse depois de chegar.
A manhã estava luminosa, a temperatura tinha subido e atravessava a cidade a passo não muito rápido, mas decidido. Foi quando chegou ao cruzamento e parou à espera da mudança do semáforo, que o dia ia irremediavelmente mudar. Olhou em frente e lá estava.
Lá estava ela. Nunca teria imaginado que iria vê-la novamente.
De algum modo, tinha ficado nas suas lembranças, talvez mais do que qualquer outra pessoa de todas as cidades onde tinha vivido.
O aspeto mais estranho desse encontro imprevisto e inesperado era que ela tinha significado algo na sua vida sem histórias, ou melhor, naquela vida que acreditava ser sem histórias.
Não falaram, apenas olharam um para outro: naquele momento, teve a certeza de que a sua vida, de repente, tinha mudado e para sempre.
Tomou uma decisão: ia ficar, não sabia porquê, mas tinha essa certeza.
Ia ficar porque agora era o seu coração que lhe dizia isso: volta atrás e fica.
Depois de refrear o impulso de andarilho, pensou em todas as qualidades deste lugar. Trânsito ordenado, ruas limpas, parques de quebrar de cansaço quaisquer pernas. E abraçou esta última ideia. Resolveu pôr-se em forma e foi correr diariamente, depois do trabalho, para a mancha verde em frente ao seu apartamento de varanda envidraçada. E rematava o exercício com uma caminhada lenta e ritmada, exatamente no sentido que a vira percorrer.
Passaram-se os meses e a sua balança já lhe sorria alegremente. Um peso conforme à moda e um mar de possibilidades para a saúde e para um vestuário atraente. Mas dela, nem sinais. Praguejava fortemente, amaldiçoando o seu acanhamento. Acrescentou um passatempo à sua vida. Ingressou numa turma de olaria e depressa se sentiu em casa, de tal modo o cheiro do barro lhe lembrava a terra onde plantava legumes e batatas com o seu avô. Em breve a prateleira superior da estante maior ficou apinhada de troféus multiformes.
Quando as obras de louça já chegavam perto do fogão, pensou que talvez já fosse hora de se iniciar na cozinha, que, pelo menos, gerava obras perecíveis e comestíveis. Tão bem-sucedido foi que, em ano e meio, já se preparava para se aventurar numa escola de Cordons Bleus. Mas Matilde tardava em dar sinais de vida e ele não queria desprender-se de mais uma cidade que implicava agora um corte com o seu fundo mais emocional. Porém, avançou. Chegada a semana da viagem desejada e com os documentos prontos para a partida, o patrão previamente informado, já estava mais conformado e sonhava com a Cidade Luz. Quem sabe se dali não surgiria um brilho mais forte para o seu futuro?
Decidiu que, se era para cortar amarras, devia deixar tudo para trás. Já tinha cancelado o contrato de arrendamento e vendido quase todos os pertences. Faltava apenas a sua singela coleção de obras de olaria. Por alguma razão era difícil pensar em desfazer-se delas. Talvez porque representavam a esperança de que tudo podia ser diferente. Foi quando viu Matilde, que fez as mudanças na sua vida que o levaram a dedicar-se a elas. A primeira que tinha feito era até uma tentativa da silhueta dela. De qualquer forma, a decisão estava tomada. Tinha abandonado a esperança e, sendo assim, não podia guardar resquícios que o fizessem pensar o contrário. Dirigiu-se à estante despida e enfiou as pequenas peças numa sacola de pano. Num qualquer fórum na Internet tinham-lhe recomendado uma galeria de escultura que, diziam, fazia boas ofertas por qualquer pedaço de barro minimamente moldado. Pegou na sacola e saiu de casa. Quando chegou à rua percebeu que estava triste, mas isso não era novidade. Decidiu ir a pé para arejar a melancolia.
Chegado à morada indicada, de olhos postos nos números no topo das ombreiras das portas trabalhadas, palmilhou a calçada em busca do 145. A avenida estava a chegar ao fim e ainda ia no 99. Sentiu a esperança novamente a importuná-lo, mas durou pouco e rapidamente, por qualquer razão, os números das portas saltaram do 103 para o 143. Com o conforto da desilusão, decidiu percorrer as portas que restavam de olhos no chão. Olhou para cima. A tabuleta reflectiu o Sol contra ele e entrou ainda meio encadeado, balbuciando um qualquer cumprimento à turva personagem na sua frente. Depois ouviu Matilde.
E ali estava ela, recortada em contraluz, tal como a vira na primeira vez. Era a dona da galeria que lhe ia comprar as peças. Ele sempre há coincidências!
- Há quanto tempo! – sussurraram ambos, ele com as mãos um tanto trémulas, subitamente tímido, diante daquele sonho materializado, ela com as peças esquecidas nas mãos. Trôpegos como dois adolescentes, saíram e percorreram as ruas da cidade aproveitando a última luz do ocaso. E seria aquela para ele a última cidade. O trota-mundos que ele fora encontrara por fim o seu porto de abrigo.

Francisco Feio
Giuseppa Giangrande
Lídia Vieira
Francisco Semedo
Helena Campos


A LÍNGUA DOS OLHOS (completo)

Olhou para o espelho: os olhos dela falavam.
Falavam em muitas coisas, em inumeráveis sentimentos e sensações, às vezes tempestuosas.
Os olhos, porém, queriam que ela também falasse, que desse liberdade a tudo aquilo que ela sentia e tinha no seu coração.
Então ela pediu aos seus olhos que falassem, que continuassem a falar, porque ela não conseguia expressar claramente os seus sentimentos, aquilo que estava fechado no seu coração e que não podia dizer através da sua voz.
E foi naquele momento que os seus olhos falaram novamente, com lágrimas.
Eram lágrimas de felicidade ou de tristeza? Era saudade? De quem? De quê?
Caiam pele fora, gota a gota, recheadas de lembranças, memórias e angústias.
Os olhos queriam que ela falasse daquela tarde, daquele revirar tão abrupto na sua vida.
As lágrimas eram de profunda tristeza, pelo vazio imenso que se instalou no seu peito ao ver a sua casa em chamas.
Regressar a esse dia era demasiado doloroso, pelas coisas que desapareceram, mas particularmente, por tudo aquilo que lá vivera.
Mas o que ela não queria mesmo revisitar dentro de si era o porquê daquele incêndio.
Aí, as lágrimas pararam de cair.
Não aguentava mais o som, por isso fechou os olhos para os silenciar. Já tinha revivido aquela tarde cem vezes. “Não foi culpa tua”, murmurou para si mesma, com doçura. Mas quando reabriu os olhos eles disseram-lhe, molhados, a mesma coisa que todos os olhos que a olharam desde esse dia. “Mataste-os a todos. Perdeste o controlo e mataste-os”. Calou novamente os olhos. Inspirou fundo, expirou com força e calma ao mesmo tempo e numa paz fingida voltou lá. O gosto das lágrimas na boca era igual ao que tinha sentido. Ouviu outra vez os gritos ameaçadores e sentiu outra vez o frio no peito, que lhe entrava pela sua camisa rasgada. Sentiu o mesmo medo e em todo o corpo voltou a tremer. Queria fugir, mas não sabia para onde se aquela era a única casa que tinha conhecido. Todos os que amou na vida estavam ou tinham estado ali. Ouviu outra vez os passos atrás de si e gritos, mais gritos. Seria possível o amor transformar-se naquilo? Sentiu outra vez o puxão nos cabelos. Deixou-se cair de joelhos da mesma forma que caíra quando foi atirada naquela tarde. Sentiu a mesma raiva a chegar à garganta, mas hoje não gritou. Hoje não entregou a sua mão à lareira, nem pegou com ela nas brasas iluminadas, nem lhas atirou. Hoje não se ergueu. E hoje também não ia fugir.
Eulália, Láli para todos os que a amavam, estava desfeita de tal forma que já não lhe restavam forças para remoer o funesto incêndio.
Sim, tinham morrido todos. Sim, tinha sido a única a salvar-se por causa de um vício que a matava aos poucos. Sim, uma parte de si tinha ido com as fagulhas, como ia a outra parte sempre que cedia à prata castanha.
Já tinha sido julgada, condenada e decapitada por todos os que a conheciam.
Levantou-se e foi até aos escombros; o cheiro a queimado, a claridade das labaredas, os gritos, as lágrimas acordaram rapidamente.
Eulália, presa na sua cabeça, entrou na drogaria ao lado do que outrora fora a sua casa, comprou álcool, material inflamável e, dirigindo-se para as ruínas, ateou um fogo na esperança de que este levasse a memória e trouxesse de volta os seus filhos, o seu marido que dormiam tranquilamente a sesta quando Lália deixou o cigarro acesso ao pé do fogão e saiu para se ir envenenar mais um pouco.
O fogo apenas ardia como o coração dela e os seus olhos. Eulália, pouco a pouco, teve consciência de que aquele fogo nunca faria regressar os seus filhos e o seu marido. Percebeu uma vez mais a sua solidão, o seu sentimento de culpa, todas as culpas caíam sobre ela, era impossível encontrar uma saída.
Então, voltou ao espelho e os seus olhos falaram-lhe esta vez, falaram-lhe ainda com as lágrimas que caíram no seu rosto e chegaram ao seu coração para a livrar, como por milagre, dos remorsos que tinha e que a perseguiam. Preparou uma mala com poucas coisas e foi-se embora. Pôs-se a caminho para fazer uma viagem que podia significar recuperar a sua vida, ou melhor, encontrar a salvação. Os olhos tinham-lhe dito: havia ainda uma possibilidade de salvação para ela.

Giuseppa Giangrande
Mariana Matias
Francisco Semedo
Tiago Pina
Giuseppa Giangrande


CONTOS PROIBIDOS (completo)

A carta tinha ido para a morada errada. E ainda bem. Passo a explicar. Há uns anos emprestaram-me um livro muito raro, sobre um escândalo político e financeiro passado em Macau, de que só houve primeira edição, tendo o autor, entretanto, asilado em parte incerta. Li-o e reli-o, depois guardei-o na estante, sempre com a ideia de o devolver. O tempo foi passando e um dia recebi uma sms do proprietário do livro, reclamando-o. Passaram mais uns dias, talvez semanas, e nova sms. Finalmente decidi-me - embrulhei o livro em papel pardo (tenho resmas em casa), atei o embrulho com um cordel daqueles antigos, que já só se encontra nas drogarias dos bairros onde ainda há drogarias, um cordel de duas cores – azul e cru, verde e cru, vermelho e cru (este era preto e cru) – e escrevi “LIVRO” no embrulho, assim me livrando de escrever uma qualquer nota de pedido de desculpas pois a tarifa de expedição de livros não permite, sequer, que nele vá agarrado um cabelo quanto mais um cartão de visita. Afincadamente, escrevi o nome e a morada do destinatário. Quer dizer, escrevi o nome do destinatário e a rua onde ele residia. Como a morada só se completa com o código postal, foi aqui que a história começou (ou continuou, pois começar tinha começado quando me emprestaram o livro), ao inserir o meu código postal e não o do destinatário.
A princípio estranhei não ter notícia do destinatário, que tanta pressa parecia ter em reaver o livro; depois não pensei mais no assunto até ao dia em que chegou mais uma mensagem a perguntar se sempre o tinha enviado. Respondi que sim e não voltei a ter resposta. O assunto estava encerrado e um dia, ao regressar de viagem, esperava-me um postal dos correios para ir levantar uma encomenda, com a menção “morada desconhecida”. Entreguei o postal e devolveram-me a minha encomenda. Segundo o funcionário, aquela morada não existia naquele código postal. Existiam 52 ruas com o mesmo nome no país, 26 com o mesmo número de porta, 8 com o mesmo andar, mas nenhuma naquele código postal. Ainda me perguntou se sendo tão perto, não seria melhor ir entregá-la em mão. Perante a minha estranheza apontou-me o código postal e disse-me: a rua não conheço, mas este código é desta zona e abrange três quarteirões.
Levei o embrulho comigo. Estava tal e qual o tinha feito, com o mesmo papel pardo atado com o mesmo fio de cores. Abri-o para fazer um novo e quando folheei o livro, escorregou de entre as páginas uma fotografia que ali deve ter ficado esquecida. Olhei-a. Nunca a tinha visto e parecia-me que não seria minha. Foi quando olhei com mais atenção que percebi. Ou melhor, que nunca iria perceber o que se estava a passar.
Peguei na fotografia e o meu corpo, primeiro a cabeça, depois o resto dos membros,
mergulhou para dentro do retrato.
Dei comigo em Lisboa, eu que não punha lá os pés há 20 anos, na rua onde crescera e passara a minha infância.
A rua estava igual à memória que mantinha dela; o jardim onde berlindava, parecia chamar-me como quando tinha 6 anos e corria para lá; as mesmas pessoas, o Sr. Alberto, sentado no banco, a gritar «Foi penalty», tudo parecia ter ficado em 1999, ano em que fugi para Macau, ter com o meu pai que, coitado, sofria com as calúnias de um escândalo em que se vira envolvido com uns magnatas macaenses.
Estava em Alvalade, mas sabia que não era possível; ninguém mergulha para dentro de uma fotografia e toma parte da ação. Desci a rua e dei de caras com o «Lulu», meu amigo de sempre e por quem sempre tinha tido uma paixão. Este reconheceu-me e, antes que pudesse dizer alguma coisa, tirou uma pistola e disparou dois tiros que me acertaram na cabeça.
- Um é por me fazeres passar por menina e o outro é pelo meu pai que se suicidou por causa do teu.
O meu corpo jazia na rua, na minha rua, mas eu não estava morto. Como nos sonhos, nas histórias não se morre.
Instintivamente anunciei-lhe o próprio nome, ao que ela respondeu:
“Sim, bem sei quem sou. E quem vem a ser o senhor?” – Continuei estarrecido a olhar para ela sem dizer uma palavra. Não a via desde que fugi com o pai para Macau mas tudo nela estava perturbantemente igual. O sorriso cínico, as mãos esguias, as sobrancelhas finas, a olhar impaciente. Dei conta então que estava a tremer. Tanto tempo passado a sonhar com isto e no fim só tinha de voltar aqui. Mas o que fazia ela em casa do “Lulu”? Num instante, coberto de antecipação olhei para a mão de Filomena. Nada de aliança.
“Desculpe, mas tenho mais que fazer do que ficar aqui a olhar para si? Acabei de mudar para esta casa e tenho muita coisa por arrumar. Sabe, o antigo dono dela era um antigo colega de escola, que soube há pouco tempo ter morrido e… Enfim, posso ajudá-lo com alguma coisa?” – Aparentemente, o meu aspeto estava mais mudado que o dela. Lembrei-me de todas as vezes que a fora buscar a casa dos pais para passear no Jardim e finalmente consegui dizer:
“Só um momento! Peço imensa desculpa, mas preciso de fazer uma coisa”
Virei costa e fui a correr ao jardim, colhi uma rosa vermelha e voltei à porta, que como expectável estava fechada. Bati. Filomena abriu e antes que pudesse descarregar em mim a raiva que tinha nos olhos disse:
“Nunca antes estive à tua porta sem te trazer uma rosa vermelha… Não seria hoje a primeira vez”. A raiva sumiu-se-lhe dos olhos e trocou-a por surpresa:
“Cristóvão?” – disse ela.
Sorri e respondi: “Que me dizes, vamos passear no jardim?”
Vi o «Lulu» afastar-se, acender um cigarro (será que ainda fumava SG Gigante?) e eu só me perguntava como é que tinha escrito o meu código postal e não o do dono do livro.
Fechei os olhos e quando os abri senti uma violenta dor de cabeça: tinha batido com a testa na esquina da mesa quando me baixei para apanhar a foto que deslizara de dentro do livro para o chão.
O Lulu, murmurei com estranheza. O estupor do Lulu tinha-me dado dois tiros, ainda que fictícios, a mim, seu fã incondicional! Sabia lá que os outros lhe chamavam menina! Para mim ele era o sol que iluminava o meu planeta…até ao dia em que dei de caras com a Filomena e a minha vida mudou para sempre…pelo menos durante algum tempo!
É verdade que ele fez umas cenas camilianas debaixo da minha janela, encheu o pátio da escola com dislates e ameaças, mas o meu destino estava traçado: Filomena ou nada!
Esta mudança alegrou imensamente o meu progenitor, conservador empedernido, mas teve consequências funestas para o Lulu, cujo pai, igualmente dinossáurico e inimigo do meu pai, se atirou de carro, da falésia de Peniche para o mar.
Todas estas recordações passaram diante dos meus olhos, com uma clareza dolorosa. Deve ter sido da pancada, concluí.
Sem vislumbrar culpa, nem saber porquê, senti uns violentos remorsos pela estultícia da minha juventude e decidi tentar corrigir o que ainda podia ser corrigido, nem que fosse só para, egoistamente, sentir algum apaziguamento.
Vou procurar o Lulu, pode ser que esta espécie de sonho tenha sido um aviso. Será que ainda mora na mesma casa?
Rapidamente, chamei um Uber e desci em frente daquela moradia que tão bem conhecera. Com mão trémula toquei a campainha e afastei-me um pouco, sem saber bem porquê.
A porta abriu-se com vigor e à minha frente surgiu uma imagem que nunca esquecera: Filomena!
Instintivamente anunciei-lhe o próprio nome, ao que ela respondeu: “Sim, bem sei quem sou. E quem vem a ser o senhor?” – Continuei estarrecido a olhar para ela sem dizer uma palavra. Não a via desde que fugi com o pai para Macau mas tudo nela estava perturbantemente igual. O sorriso cínico, as mãos esguias, as sobrancelhas finas, a olhar impaciente. Dei conta então que estava a tremer. Tanto tempo passado a sonhar com isto e no fim só tinha de voltar aqui. Mas o que fazia ela em casa do “Lulu”? Num instante, coberto de antecipação olhei para a mão de Filomena. Nada de aliança.
“Desculpe, mas tenho mais que fazer do que ficar aqui a olhar para si? Acabei de mudar para esta casa e tenho muita coisa por arrumar. Sabe, o antigo dono dela era um antigo colega de escola, que soube há pouco tempo ter morrido e… Enfim, posso ajudá-lo com alguma coisa?” – Aparentemente, o meu aspeto estava mais mudado que o dela. Lembrei-me de todas as vezes que a fora buscar a casa dos pais para passear no Jardim e finalmente consegui dizer:
“Só um momento! Peço imensa desculpa, mas preciso de fazer uma coisa”
Virei costa e fui a correr ao jardim, colhi uma rosa vermelha e voltei à porta, que como expectável estava fechada. Bati. Filomena abriu e antes que pudesse descarregar em mim a raiva que tinha nos olhos disse:
“Nunca antes estive à tua porta sem te trazer uma rosa vermelha… Não seria hoje a primeira vez”. A raiva sumiu-se-lhe dos olhos e trocou-a por surpresa:
“Cristóvão?” – disse ela.
Sorri e respondi: “Que me dizes, vamos passear no jardim?”

Paula Carvalho
Francisco Feio
Tiago Pina
Conceição Brito
Francisco Semedo

 

BOLSOS VIVIDOS (completo)

As poucas vezes que levou as mãos aos bolsos, sentiu percorrer-lhe o corpo um arrepio desvairado que o levou, em menos de um ápice, a deitar-se na cama, com mantas encardidas por cima e a cabeça tapada por um gorro, de repasto das muitas traças que faziam vida nos seus armários. Assegurava, num tom de voz de militar de ocasião, que jamais o veriam colocar novamente as mãos nos bolsos, que já por mais vezes do que as que conseguia contar estivera às portas da morte e não fosse a sua Rosarinho, de mãos de orquídea e pescoço de salvação, estaria já desfeito e comido por larvas. "Porque não usas tu calças sem bolsos, se tanta maleita te provocam?", perguntavam os amigos. Isso a eles não lhes dizia respeito, mas a sua Rosarinho, que cheirava a terra molhada e chorava sonhos alados, da sua respiração brilhante, sussurrava que nos bolsos das calças ficam os restos de vida que durante o dia abandonamos. Agora, a sua Rosarinho respirava vazia em cima da cama.
E ele não conseguia deixar de pensar nas suas palavras: porventura, nos bolsos aterradores, iria encontrar a memória viva e vívida, das últimas horas de Rosarinho?
À medida que a respiração dela se ia desvanecendo, tomou uma decisão: aconchegou a delicada mão na sua e, cuidadosamente, deslizou os dedos para dentro de um dos bolsos. Um clarão de amor quase o cegou e sentiu o coração transbordar. Segurou firmemente a mão de Rosarinho e ouviu a sua voz dizer “eu estou contigo, aqui e agora, não tenhas receio”. Olhou-a e deixou-se envolver pelo brilho da sua respiração. O rosto permanecia tranquilo, imóvel.
“Onde estás, minha querida? Para que mundo me estás a levar?”
Os olhos de Rosarinho abriram-se num cintilar de diamante, os lábios desenharam um sorriso e murmurou, sem falar, “não tenhas receio, vem comigo”.
Ele deixou-se envolver por uma cornucópia de cores e partiu num sonho alado, antes de perder a consciência.
A sua mão nunca largou a de Rosarinho durante a alucinante descida em espiral pela cornucópia colorida. A descida parecia não ter fim, a cada 360 graus a velocidade da queda amentava exponencialmente: onde iriam parar? Procurou o olhar de Rosarinho em busca de um porto seguro e descansou quando viu o seu sorriso.
De repente pararam e ficaram como que suspensos no vazio, as mãos sempre juntas, os olhares presos. As cores da cornucópia desvaneceram lentamente, o cenário tornou-se mais nítido.
Estavam no quintal da casa da avó na aldeia serrana. António já não tinha o gorro traçado na cabeça e vestia uns calções de linho e uns ténis de pano. Era verão e as cigarras faziam uma barulheira infernal ao longe. António sentiu o bolso esquerdo pesado, como que a puxar-lhe os calções para baixo. Olhou novamente para Rosarinho e, sem nunca desviar o olhar, meteu a mão devagarinho no bolso. Assustou-quando os seus dedos tocaram numa superfície fria e perfeitamente lisa: eram os seus berlindes.
Donde teriam surgido? Tinha deles uma cruel lembrança, tinha a certeza que os tinha deitado para o rio depois daquele horrível acidente com a sua irmã pequenina, a Susana. Os seus olhos continuaram a fitar Rosarinho que, suavemente, entrelaçou os dedos nos seus e, juntos, retiraram as esferas multicolores do bolso, e deixaram-nas rolar por entre as mãos para o solo quente.
A náusea ácida queimou-lhe a garganta e cortou-lhe a respiração. Reviveu o momento, há tantos anos, em que se apercebeu que a sua irmãzinha parara de brincar com estes mesmos berlindes e jazia imóvel no chão.
Ele estava proibido de jogar com eles perto da criança, pareciam rebuçados e eram tentadores e perigosos.
A mãe tinha-lhe dito que olhasse pela mana durante a manhã. Escondeu os berlindes na concha da mão, que enfiou no bolso dos calções, e foram ter com os seus amigos.
Foi divertido, mas subitamente apercebeu-se que a Susana fora engolindo os berlindes que deixara abandonados no chão. O terror que sentiu mudou-o para sempre.
Mas agora Rosarinho segurou-lhe ambas as mãos e disse, num murmúrio: «Observa o passado. Acabou o teu pesadelo, podes começar a esquecer»
Ele continua deitado, imóvel, indiferente à azáfama que reina à sua volta. Na cabeça ressoam estas últimas palavras de Rosarinho sobre observar o passado e começar a esquecer. Sente-se mais confuso que o habitual. Como pode ele observar algo que começa a esquecer? A mão está fria, mais fria que o corpo. Reparou agora que tem alguma coisa na mão. Abre-a lentamente e descobre um grande berlinde de vidro, com as habituais torções coloridas no interior. Olha atentamente a esfera transparente à procura da sua irmã Susana e de Rosarinho, mas não encontra qualquer sinal delas. O quintal da casa da serra, que parecia estar ainda agora ali na sua memória, desaparecia à medida que ia rodando o vidro na sua mão. Talvez as palavras de Rosarinho não fossem um pedido, mas apenas a descrição do que seguia. A acidez na garganta voltou e pela primeira vez pareceu dar sinais de vida. Olhou com dificuldade a mão e o berlinde tinha desaparecido. Resignou-se; já nem sabia de onde lhe tinha aparecido aquilo na mão. Esquecer, era a única coisa de que se lembrava. E o pesadelo talvez fosse aquele apito intermitente que parecia marcar um compasso lento acompanhando a sua respiração. Já não se apercebeu quando o som ficou contínuo. Ainda menos quando se calou.

Rodrigo Rufino
Conceição Brito
Inês Rodrigues
Conceição Brito
Francisco Feio


O CONGRESSO (completo)

Odiava aquelas festas infindáveis da embaixada: muitos sorrisos, muita conversa oca, muitas mentiras simpáticas e cansativas, muito nada fazer para parecer fazer alguma coisa. O surdo tumulto das vozes, com decibéis ditados pelo champagne generoso, as luzes brilhantes e cansativas, a música de fundo num martelar constante do inconsciente, eram o cenário habitual de tais acontecimentos.
Meu deus, o tempo que estas coisas demoram. Ainda não percebi a utilidade disto tudo. Amanhã vamos continuar a fazer tudo da mesma maneira.
E o meu contacto que nunca mais aparece
Mais um sorriso, «que prazer, há quanto tempo não o via, temos que nos encontrar para um café tranquilo» e desistiu de esperar. A dor de cabeça era insuportável, amanhã tinha uma reunião preparatória do congresso logo de manhã bem cedo. Será que esta gente nunca dorme? intrigou-se.
Pediu o casaco na recepção, e saiu para a frescura da noite. Até o cheiro intenso de combustível lhe pareceu um bálsamo.
Acenou a um táxi que se aproximava e, quando ia entrar, ouviu uma voz, que bem conhecia, dizer: «entre, tenho estado à sua espera»
Ainda hoje não sabe explicar a razão de ter entrado no táxi e não ter estranhado de imediato vê-la ali, tantos anos depois, exatamente na mesma, com o mesmo ar com que a tinha deixado, da última vez que se viram, na improvisada sala de embarque no aeroporto para onde tinham ido na esperança de apanhar os últimos voos a sair do país. Foram tempos complicados e o mundo nunca mais voltaria a ser o mesmo, apesar das festas regulares organizadas nas diversas embaixadas pretenderem o contrário. Julgava-te morto, disse ela. Já tinha deixado de te procurar e foi numa mensagem sobre o congresso que soube que tinhas reaparecido. Pois eu tinha a certeza que não tinhas escapado quando toda a tua delegação desapareceu sem deixar rasto, disse ele. Primeiro as pequenas revoluções que grassaram um pouco por todo o lado, depois o vírus que veio para ficar e agora isto. Ela ouvia em silêncio. O táxi continuava a atravessar a cidade e ele desviou o olhar para o exterior. À medida que a cidade se desenrolava na janela ia sentindo alguma estranheza que não sabia identificar. Finalmente pararam. Ele abriu a porta para sair e ela disse-lhe: sabes que o congresso não pode acontecer. Amanhã tens de os convencer a desistir.
Saiu e ficou a olhar o táxi a afastar-se. Foi então que reparou que tinham andado às voltas. Estava exatamente no lugar de onde tinha saído. Mas estava num tempo diferente. A casa onde era agora a embaixada, estava tal e qual a tinham encontrado há vinte anos quando se mudaram para ali.
- Olhe desculpe – perguntou a um transeunte que passava - Em que ano estamos?
O outro olhou-o como se ele fosse um louco atarantado.
- Não sabe a quantas anda? Está bêbado? É claro que estamos em 1984.
Devo estar a sonhar, ou então é o Regresso ao futuro! – pensou enquanto cofiava a barba e o bigode inexistentes e entrou em casa porque a porta estava aberta. As paredes forradas com fotografias dela e pósteres de bandas rock Duran Duran, Spandau Ballet, Kajagogoo, Geoge Michael, David Bowie, Orchestral Manouvers in the Dark. Um telefone preto com uma roda de algarismos, um grande gira-discos, quatro leitores de cassetes, um leitor de vídeos. Bestial! Portugal ainda não entrou na CEE, não há telemóveis nem internet.
O que é que ela tinha dito? Para avisar os outros que não ia haver congresso? Que se lixassem! Toda a vida sonhara voltar à adolescência para escolher outro curso sem ser Direito. Ia regressar ao fim do liceu, ao momento exacto da candidatura à Universidade e escolher outra área.
E foi isso mesmo que fez quando a manhã chegou, depois de uma noite mal dormida em que não parava de pensar em toda a sequência de eventos que o tinham trazido até aquele momento. Quando chegou aos serviços do ministério, percebeu pela longa fila que era dia de candidatura. Levantou os impressos, tomou o seu lugar na fila, preencheu-os enquanto a linha de pessoas se ia escoando e esperou. Foi aí que reparou, pela primeira vez, que algo não estava certo. Toda a gente falava um pouco exaltada de uma série de acontecimentos a que chamavam o grande evento e que teria ocorrido uns dias antes. Atrás dele, um grupo cantava uma música que lhe era familiar, de uma banda que vivia num poster na parede do quarto onde tinha dormido. Tinha repetido aquela música vezes sem conta, com o seu grupo de amigos, mas tinha a certeza de que as palavras não eram exatamente aquelas. Percorria a lista das faculdades e eram todas iguais em todas as cidades do país, sem qualquer opção de curso e isso parecia não incomodar nenhum dos seus colegas que aguardavam como ele.
Quando estava a chegar à porta de entrada olhou para o outro lado da rua e viu um anúncio que ocupava a fachada toda do prédio e onde se lia “O Congresso espera por ti”.
Agora que pensava nisso, a única coisa de que se lembrava era de ter saído da embaixada e ter entrado num táxi. Estava certo de que a qualquer momento ia acordar e perceber que tudo não passara de um truque manhoso que a sua mente lhe pregara. Sorriu. Foi nessa altura que se deu o embate.
O edifício do congresso explodiu. Pessoas gritavam e corriam por todo o lado. Destroços voaram em todas as direções arrastando carros e corpos. O apitar estridente que ouvia dava-lhe dores de cabeça, tonturas. Viu uma mulher puxar um braço de debaixo de um carro, o tamanho do mesmo deixou-o enjoado. Saiu dali a correr, parou uns metros depois com dificuldade em respirar. Viu o seu rosto refletido numa montra, era de novo o velho rosto de um homem de cinquenta anos. Olhou em volta, tudo voltara ao normal. Tudo estava como devia estar. Dirigiu-se para o local da explosão, o edifício estava intacto, mas havia algo diferente, como se tivesse sido reconstruído. Reparou numa placa em mármore, leu o que dizia: Em memórias das vítimas do atentado de 1984, seguido de uma lista de nomes. O estômago apertou-se, o coração bateu desenfreado nas têmporas. Nem se lembrava de ter chegado a casa, tudo parecia igual. Lavou a cara em água fria, pensou em deitar-se e foi quando reparou. Em cima da cama um pequeno envelope perfumado, reconheceria aquele perfume mesmo que tivessem passado anos, mas só tinha passado uma noite. Lá dentro, um papel com letra requintada, Bom trabalho. Sabíamos que podíamos contar contigo. Sentou-se na cama tentando perceber o que acontecera, nada fazia sentido, mas um sentimento de culpa invadia-o lentamente, sabia que tinha feito algo terrível.

Conceição Brito
Francisco Feio
Helena Campos
Francisco Feio
Cláudio Martinho