bola neve

A escrita em Bola de Neve é um exercício OuLiPo que normalmente é feito acrescentando mais uma letra ou palavra a cada frase de um poema. Adaptámos e criámos um exercício a pares em que cada frase utiliza as últimas frases da anterior.
A segunda parte foi dedicada do Folhetim, publicado na entrada mais recente deste blog.

 

E uma frase para começar?
Começar é caminho certo para acabar.
Acabar ou pelo menos tentar.
Tentar era o que ele fazia sempre que se encontrava nesta situação.
Situação que o deixava meio zonzo ou pelo menos atordoado.
Atordoado, lembrava-lhe os tempos de juventude em que as noites eram complexas e acabavam quase sempre de madrugada num estado de vaga lembrança do que tinha acontecido.
Acontecido e largas vezes adormecido num qualquer beco mal-afamado desse alto bairro que sobe.
Sobe até chegar aquela zona plana que se estende para lá dos limites do próprio bairro e que acaba no grande muro que nos separa dos outros.
Outros para os quais Elidério nunca ligou nenhuma. Não precisava deles; a sua propensão para a desordem era notória.
Era notória e vinha de longe. Desde que se lembrava de si que a desordem fazia parte da sua vida. Estranhamente, era isso mesmo que lhe dava segurança. Nada o assustava mais que um mundo em que tudo estava no seu suposto lugar.
Lugar onde vinha a sua alcunha: "Out of order" para os estrangeiros; Fora da Lei para os falantes do português
Português era a sua língua e sempre veria o mundo desse lugar.

Francisco Feio
Tiago Pina


Abriu a porta da gaiola e o canário voou.
Voou para terras distantes.
Distantes da vista, mas tinha-as perto na memória.
Na memória estavam paisagens de uma outra vida.
Vida essa que fora vivida de braços abertos, em liberdade.
Liberdade, conseguiria a adaptar-se a ser livre outra vez?
Outra vez a voar sem destino e pousar para descansar em qualquer árvore.
“Em qualquer árvore por aí deve estar ele pousado, não deve ter ido longe. Vou sair e procurar.”
Procurar revelou-se uma tarefa bem mais difícil do que imaginara. Não havia sinal do pássaro.
Pássaros havia muitos, mas nenhum era o seu canário. “Deve-se ter perdido!”
Perdido estava ele, reparou depois de olhar em volta.

Francisco Semedo
Helena Campos

 

Vi uma borboleta no céu,
céu que anunciava chuva.
A chuva não chegou,
chegou apenas o carro que me levou à universidade.
A universidade estava fechada.
Fechada apenas por um dia, é verdade, mas fiquei muito desapontada.
Desapontada porque tinha de fazer um exame.
O exame era o último do meu curso de enfermeira.
Enfermeira queria ser eu.
Eu desejava ardentemente trabalhar na ONU como voluntária,
Voluntária no Brasil.
Brasil, país de sonho ou pesadelo.
Pesadelo não, mas só sonho.
O sonho somos nós que o cumprimos.
Cumprimos o que desejamos ardentemente.
Ardentemente, enlacei-o pela cintura e beijei-o, beijei-o com um sorriso.
Um sorriso iluminou-lhe o rosto,
Rosto que agora expressava felicidade.
A felicidade é um estado de espírito!

Conceição Brito
Giuseppa Giangrande