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Escrever em cerca de 100 palavras pequenas histórias é um desafio. Como equilibrar a história com o tema não expresso? Como gerir a passagem de um estado ao outro, que é a característica do conto, num espaço (e tempo!) tão curto? Os participantes responderam com uma grande diversidade de estilos. Como parâmetros: uma cor, um nome e um objeto: violeta, Sara, sacola.

A segunda parte da sessão foi reservada ao Folhetim - o andamento das historias está reunido na entrada mais recente do blog. 


O espelho
Desviar o olhar era uma arte e Sara exercia-a com a mestria de quem estava habituada a fazê-lo. Aquela hora as ruas começavam a ficar cheias, mas não há hora perfeita para sair de casa. Os passos eram cada vez mais decididos e o corpo ia ganhando uma postura mais confiante. Apenas a cabeça se mantinha a olhar mais o chão que o futuro. Até a sacola que trazia ao ombro lhe parecia agora mais leve do que quando saiu; não tinha muito para a encher. Parou na última montra antes do final da rua e olhou-se no espelho. Sim; o olho estava violeta. Era a certeza que nunca mais iria regressar.
        francisco feio

 

Orlando chegou ainda antes da hora. Como o seu passo vai desacelerando decidiu sair mais cedo. O banco do jardim, onde sempre se sentavam, estava coberto de flores. Violetas. Tal como o vestido que Sara tinha usado na primeira vez que ali estiveram. Apressou-se a limpá-lo e sentou-se, com a sacola sobre os joelhos. Dela tirou o vinho e os dois copos. Olhou para o céu e viu que ainda havia tempo. O sol ainda ia bem alto. Não seria desta vez que perderia o pôr do sol, do primeiro dia do ano, no banco de jardim onde se tinham conhecido. Ainda que, a partir de hoje, o fizesse sozinho.
       Francisco Semedo


O vento fazia-se sentir descaradamente nos cabelos de Sara. A sacola, presa pelo ombro, apenas por sua teimosia não corria atrás do silvo do vento. Haviam-lhe dito que vivia nos campos, de um violeta mordaz que lhe entrava pelo peito adentro, a cura para a loucura de sua mãe.
Tencionava correr no caminho de volta, rasgar os pés nas pedras. Desejava retornar com tal ansiedade que só depois de sua mãe ser assegurada viva viriam os golfejos de dor.
Deitou-se sobre a terra, quedou-se de olhos abertos engolindo o céu e, de uma só vez, tossiu a esperança do corpo.
       Rodrigo Rufino

 

O país da Sara tem a forma de um retângulo, com água por parte. É antigo, e por isso, já muito assistiu, tanto que nem mil sacolas chegariam para as arrumar.
No país da Sara, pode-se reclamar e dizer, por exemplo, que o nosso que nos corre nas veias é violeta.
Neste momento, o país da Sara não está bem, assim como quando estamos com uma dor de barriga muito forte.
Há pessoas no país da Sara que querem voltar a 1926. A Sara só quer que ele volte a ficar vermelho e verde.
         Tiago Pina


A sacola violeta
A menina Sara tem uma sacola violeta que lhe ofereceu a sua madrinha. Ela tem muitas sacolas, mas só quer a sacola violeta.
Há um motivo por essa predileção: a sacola violeta, como fazem os óculos cor-de-rosa, deixa-a ver tudo com outros olhos, o de otimismo e para a Sara isso é muito importante, já que ela frequentemente vive situações que lhe causam tristeza.
A sacola violeta acompanha-a quando está sozinha, como os pais não se preocupam com ela e cuidam apenas dos seus interesses.
Nessas ocasiões, a sacola fala com ela e conta-lhe histórias de mundos longínquos, mas bonitos.
          Giuseppa Giangrande


Naquele belo dia de primavera fui até ao jardim perto de minha casa.
Sentava-me naquele mesmo banco a cada dia a olhar as violetas que cresciam vagarosamente.
Olhar para elas lembravam-me a minha doce Sara, que partira tão repentinamente.
A sua ausência respirava-se em cada divisão de minha casa e só encontrava paz naquele jardim.
Nisto vem ter num repente um gato preto que se encosta a mim e eu, assustado, deixo que ele não se afaste e partilho aquele momento de quietude com ele.
Olho de soslaio para a minha sacola e vejo que a Sara havia deixado um bilhete, como era seu grande hábito.
Abro e leio: Eu não fugi.
            Mariana Matias


A sacola estava escondida debaixo do armário da sala. Lá dentro acumulavam-se os pequenos tesouros que Sara transportava para todo o lado: o seu livro de desenhos, os lápis, as gravuras, as pedrinhas, os espelhos. Abriu o fecho com antecipação: hoje ia estrear as aguarelas novas. Ainda não tinha escolhido o que pintar, mas sabia que seria em tons de violeta, a sua cor favorita.
Cuidadosamente tateou o interior e, horrorizada, sentiu uma massa viscosa a envolver-lhe os dedos: a sacola estava cheia de lama.
- Ah Luís, Luís, que te mato quando for grande!
            Conceição Brito