kandinski

                                                                                                                                            Kandinski, Pintar a música

 

Sentidos cruzados

Franz Liszt, Duke Ellington ou Pharrel Williams são apenas alguns dos músicos que ao ouvir notas ou instrumentos vêem cores. Liszt diria à orquestra algo com «menos rosa, senhores, este trecho é violeta». A sinestesia, ou o despertar de uma experiência sensorial a partir do estímulo de outro sentido, é um fenómeno conhecido e funciona a vários níveis. O escritor Vladimir Nabokov, por exemplo, dizia que a sequência de letras «NZSPYGV» era o arco-íris, o poeta francês Arthur Rimbaud escreveu o célebre Vogais, mostrando-nos as cores por detrás de cada letra.
Ao abordar os Sentidos, um dos temas-chave da escrita, mergulhámos na sinestesia e fomos à procura das cores, sabores, temperatura e imagens do excepcional e hipnótico, Music for 18 Musicians, de Steve Reich.
Depois de alguns exercícios, os participantes escreveram um texto livre.

 


Agora que é noite, o comboio continua a atravessar a imensidão que nos separa ainda do mar. A paisagem desapareceu da janela, as luzes vão-se desvanecendo e ganha presença o som do rodado a passar nas travessas com uma cadência de metrónomo a marcar o tempo para uma peça de música que cada um tocará como bem entender. A pauta que nos foi distribuída no início da vagem está em branco e cada um vai construindo a sua música à medida das suas possibilidades. O comboio é como uma orquestra em movimento, em que cada músico toca a sai parte em silêncio, sem saber o que os outros tocam. E assim se vai construindo uma grande sinfonia interior que todos tocam e ninguém irá ouvir. Esse silêncio é o único registo que fica da viagem e o único que perdurará no tempo.
Francisco Feio

 

Vejo rostos apressados em cima de corpos que se movem quietos, direitos, dentro de máquinas com rodas que andam sozinhas e produzem ruidos estranhos. Há filas intermináveis dessas máquinas de lata e quatro rodas, às vezes só duas. Buzinas estridentes assustam-me porque não sei de onde vêm. De cada lado dessas ruas há outras máquinas de lata, paradas, e depois delas outras ruas contíguas a casas altas com muitas janelas, muito alinhadas e ordenadas. Estas ruas só têm pessoas, que caminham rápido, sacos nas mãos, algumas falando e gesticulando mas estão sozinhas, não se percebe para quem e com quem falam.
Nada sei, nada conheço ou reconheço. Estarei num filme de ficção científica ou num futuro distópico mas no mundo donde venho ainda não se inventou nem a ficção científica nem a distopia.
Paula Carvalho


Uma luz clara, brilhante, tão brilhante que deixa ver tudo em branco, mas que depois se faz azul.
Uma luz que deixa sentir tranquilidade, calma e que dá felicidade.
Instantâneos de uma fotografia que passam e que recordam um tempo maravilhoso, em que se saboreou a felicidade e a liberdade.
Desejo de que esse tempo volte.
Giuseppa Giangrande

 

Há uma urgência no ar. Há sempre uma urgência no ar, pensava ela. Sempre, sempre, sempre, alguma outra coisa para fazer, para pensar, para experimentar. “há dois tipos de pessoas, as que estão sempre à procura de algo novo, e as que estão satisfeitas.” Deixou o cérebro ir. “há dois tipos de pessoas, as que vão explorar o mundo, e as que ficam a cultivar a terra.” O cérebro já estava longe. “há dois tipos de pessoas, as que se enfrentam a cada batalha, e as que sorteiam os obstáculos, qual barco a navegar entre rápidos”.
Abriu os olhos, na carruagem cheia do metro, cheia de perfumes, algum suor, muito cansaço acumulado de noites mal dormidas. Abriu os olhos e não encontrou nenhuns outros olhos para se ver refletida. Fechou-os novamente.
“Há dois tipos de pessoas, as que andam de transportes públicos, e as que não.”
“Há dois tipos de pessoas….”, o cérebro parou por um momento, e os olhos abriram-se contra a vontade dela. E ali estavam, frescos, esses olhos onde agora se via refletida, não sabendo se ela própria era das pessoas que estavam satisfeitas ou sempre à procura de algo novo.
Quis fechar os olhos, esquecer a urgência, deixar o cérebro ir.
Tinha ela ido explorar o mundo? Ou sorteado obstáculos? Ou…?
Os olhos aproximaram-se.
“Há dois tipos de pessoas, e depois o resto de todos nós”, murmurou-lhe ao ouvido a detentora dos outros olhos.
Patrícia Louro