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Nesta sessão, recordámos Enid Blyton (GB, 1897 – 1968) que ficou conhecida pelas suas colecções de livros de aventuras para crianças e adolescentes.
O seu primeiro livro foi publicado em 1922 e o último em 1965. Terá escrito perto de 800 livros – nos anos 50, publica em média 50 livros por ano, o que deu origem a rumores de que recorreria a escritores-fantasma, o que sempre negou. Embora hoje criticada pelo seu estilo repetitivo, moralista e pela visão preconceituosa do mundo, os seus livros acompanharam milhões de jovens. 
As colecções que criou incluem: Os Cinco, Os Sete, As Gémeas no Colégio de Santa Clara, O Colégio das Quatro Torres, Colecção Mistério, Noddy.

Depois de falarmos um pouco da autora e dos principais traços das histórias de aventuras, criámos as nossas. 

 

O Farol das Berlengas
As ondas agitavam-se ao largo de Peniche, arrastando o barco rumo às Berlengas num carrossel de espuma. Rita, uma miúda rebelde de longos cabelos de um louro tão pálido que parecia branco e de uns olhos azuis tão claros que pareciam liquefazer-se, tentava não vomitar.
- Põe-te no meio do convés e fixa os olhos na bandeira portuguesa – aconselhara a mãe
Uma onda verde de náusea perpassava todos os rostos e alguns acabavam por ceder ao vómito.
Quando o barco atracou e despejou uma turba de jovens passageiros vomitados, Rita desatou a correr pela ilha acima, até ao farol, esfarelando a vegetação rasteira e surpreendendo ninhos de gaivotas grasnantes.
-Olhem ali! – exclamou ela para os amigos apontando para as pontiagudas ilhas Faroés. Lá em baixo, o Forte de São João despertava a curiosidade todos.
- Não vão para ali – ordenou a guia – circulem só pelos trilhos assinalados.
A noite chegou cedo e inundou a ilha numa bruma de silêncio. Rita não dormia e foi por isso a única que viu a luz do farol piscar três vezes.
No dia seguinte, ela e os amigos foram averiguar. Nenhum barco passara de noite e o faroleiro estava ausente.
- Talvez tivesses sonhado – disseram os amigos
- Não – teimou ela – eu sei que vi
Na noite seguinte à mesma hora, o farol voltou a piscar três vezes. Ela saiu da tenda sem acordar ninguém. Tudo na ilha parecia fantasmagórico e conduzir ao precipício que desabava no oceano, as gaivotas dormiam e um vento gélido ondulava a esparsa vegetação.
Rita chegou ao farol e ele continuou a piscar.
- Sinais de luzes, códigos – pensou ela na sua imaginação juvenil.
- Quem está aí? – gritou enquanto esmurrava a porta.
Foi então que a luz se transformou em som e um prisioneiro esquecido pôde enfim pedir socorro.
             Helena Campos
 
O baloiço e a Pastora
No baloiço, havia um rapaz com uma carapuça.
Era um casaco bastante quentinho; o que lhe sabia bem, é: Até o sol estava mesmo muito frio.
Não havia muitas nuvens.
Estamos num dia ainda sem companhia.
Nisto, aparece ela.
Este rapaz, era muito amigo dela, só em segredo.
Esta menina que tinha um barrete mesmo dela.
Amarelo e terno.
O baloiço, irritado, atirou com o rapaz ao chão, porque, já estava , ele, com mais atenção, ao que se passava debaixo do barrete, do que à grande árvore que tinha, como corajoso hábito,
com os pés tentar alcançar, baloiçar e rir. Leve.
Neste jardim havia cataratas, balancés, quase florestas, e havia banzé.
Confusões tantas, que baralhavam qualquer baralhado, que as tentasse recompor.
Ora, a nossa Pastora, que orientava ventanias, nos dias como os de hoje, à falta de nuvens lá no céu, soprava folhas de papel, que a dançar foram directinhas aos pincéis e aos frasquinhos.
Os nossos meninos assim que repararam no que tinha acabado de acontecer, foram num ápice às malas da escola de onde tiraram as tintas que tanto gostavam de ao breu esconder nas cores.
A chuva lembrou- se de chover afinal, envolveu as tintas nos pinceis, e os amigos acreditaram:
Somos bailarinos, baloiçantes e pintores!
- Como te chamas?
                           L@dyBirdBel>
 
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O Manuel era um rapaz muito estudioso, adorava ler e por isso todos os dias, depois da escola, ia à biblioteca do seu bairro, perto de Belém.
Uma tarde que estava ali a ler um livro de aventuras sobre terras longínquas, notou algo de estranho que provinha de uma das estantes: uma luzinha azul.
Atraído pela luz, aproximou-se  e, como por encanto, encontrou-se na Lisboa da época dos descobrimentos. Viu à frente dos seus olhos um enorme navio e ficou pasmado.
De repente, um homem puxou-lhe os cabelos e quis arrastá-lo não se sabe onde.
Felizmente, aquela luz misteriosa apareceu novamente para tirar a vista àquele homem que ficou cego e Manuel pôde ver-se livre dele e seguir a luz.
De novo encontrou-se, um pouco aturdido, na biblioteca.
                              Giuseppa Giangrande
 
 
 
A lagoa
Era um trio famoso; não havia sarilho na terra em que não estivessem metidos. O Fernando e o Luís eram mais ou menos da mesma idade e o Tiago um pouco mais novo e irrequieto.
Numa tarde de verão especialmente quente, foram todos até ao rio, a uma zona escondida e de difícil acesso que formava uma lagoa e onde a água era mais fria que nos outros locais. Quando chegaram, de respiração ofegante e a escorrer suor, olharam em direção à lagoa e ficaram petrificados. Não havia água. A lagoa estava seca e, no que seria o seu leito, havia uma casa sem portas nem janelas. Por sugestão do Tiago desceram, apreensivos, e por mais que caminhassem, demoravam a chegar ao fundo. Chegados, começaram a tornear a estranha casa. As paredes eram quentes, a pedra lisa e muito mais branca do que parecia vista de cima. Era perfeita. Não parecia haver nenhuma entrada ou abertura, nem sinais de que alguma vez tivessem existido. De repente ouviu-se a voz do Luís a tentar murmurar qualquer coisa de impercetível. Olharam-no e estava com ar aterrorizado, a apontar para cima e a tentar articular qualquer coisa que não se entendia. Seguiram-lhe lentamente o braço com o olhar e não queriam acreditar no que viam. Por cima deles estava a água, toda a água da lagoa, em suspenso por cima da casa como uma grande nuvem à espera de desabar. Desataram a correr fazendo o caminho de regresso até à borda da lagoa. O Fernando ia mais atrás e, quando ia a chegar à borda do lago, gritou quando um imenso chapão de água lhe caiu em cima. Abriu os olhos e viu o Luís que, debruçado sobre ele, lhe deu uma palmada na cara e disse:
- Então, pá? O sol fez-te mal? Desmaiaste e caíste redondo no chão. Despacha-te e anda ao banho.
Meio atordoado, levantou-se do chão, olhou o lago e já os outros mergulhavam e desapareciam sob a superfície das águas. Fez-se silêncio.
                           francisco feio

A aventura do rato e das tangerinas
O rato espreitou cuidadosamente para baixo, empoleirado na beira do telhado do alpendre. Mirava, gulosamente, as tangerinas douradas e laranja, cheirando, com deleite, o aroma que se delas se desprendia.
Teria de se despachar e ser ágil porque a aventura de roubar fruta não era desprovida de perigos. Mas valia o esforço!
As suas orelhitas rosadas moviam-se, nervosas, captando qualquer ruído, por mais insignificante, e os bigodes indicavam-lhe a distância até ao ramo mais próximo onde tencionava banquetear-se.
Olhou de novo para baixo, e só viu o casal de melros do costume, empenhados, sem sucesso, em debicar a fruta, fazendo-a cair no chão, num deslizar sibilino por entre a densa folhagem da árvore. Eram inofensivos, mas pouco espertos, pensou com desdém, mas sem rancor. Com tanta agitação, o gato pardo, que patrulhava o jardim, iria ficar alerta.
Olhou de novo, cuidadosamente, e, num salto bem medido, lançou-se para o ramo mais próximo, cobiçando gulosamente os pequenos globos perfumados.
Não reparou que, do meio das folhas, duas luzes azuis apontavam na sua direcção. Ébrio de abundância, descascava delicadamente uma tangerina que iria comer, sem ver o gato pardo que o emboscava, alongado contra os ramos, fundindo-se nas suas cores, dissimulado, invisível, letal.
Os melros, que esvoaçavam sem parar para poderem detectar inimigos, aperceberam-se do perigo e explodiram num pipilar ruidosamente de aviso, ao mesmo tempo que faziam voos rasantes sobre o dono dos olhos azuis, o gato pardo.
O rato não esperou para iniciar o banquete e fugiu velozmente, matutando que, afinal, os melros não eram assim tão burros nem ingénuos como pareciam.
O gato, chocado com o ataque inesperado das pequenas aves, caiu da árvore e ficou todo arranhado. Confortou-se a comer, como vingança, a tangerina descascada que o rato deixou para trás.
Mas não gostou….
                             Conceição Brito
 
 
 
Uma aventura das novas
Era o ano em que a palavra aventura ganhou novos significados. Bom, na verdade, muitas palavras ganharam novos significados nesse ano. Em novembro, os alemães faziam anúncios a apelar à heroicidade e grandes sentimentos dos seus compatriotas: “Sejam heróis, fiquem em casa.”, e os testemunhos exaltados da virtude de ficar em casa no meio de uma pandemia, a encher a barriga de piza e a fazer aquilo que em qualquer outro momento seria um pecado capital para um alemão que se preze: fazer nenhum. Se um alemão não produz, continua a ser alemão? Sim, desde que o ano seja 2020. 
“Nextflix and chill” também cobrou outras conotações. “Vá para fora cá dentro”. “Spain is different”. Era como se juntássemos todos os tópicos culturais e se fizesse uma paródia deles. Exceto que não era uma paródia, porque a pandemia era a sério.
As nossas heroínas são na verdade anti- heroínas. Esta aventura não teria acontecido se tivessem sido heroínas e ficado em casa, dedicadas ao netflix and chill, no novo ou no antigo significado.
Mas porque Spain is different, e dentro de Spain, Madrid é ainda mais different, as nossas heroínas podiam sair de casa. Podiam ir ao cinema. Podiam ir a um bar. E a coisa estranha desse ano estranho é que sair para ir ver um filme ao cinema era em si mesmo uma aventura. Não uma aventura das antigas, mas já dissemos que aventura mudou de significado esse ano.
A primeira das nossas heroínas usava uma máscara com cães, cachorrinhos sobre um fundo de mapa antigo. A segunda uma máscara de desporto preta. A primeira heroína detestava usar máscaras na mesma medida em que a segunda as adorava.
Neste Madrid frio (nada disso, diriam os nossos heroicos alemães, sabem lá vocês o que é frio!), e meio vazio (se Madrid tem as ruas vazias ainda é Madrid? Desde que seja 2020, já sabemos que sim), ir ao cinema é uma aventura com muitas pequenas dificuldades. A primeira: há gente a morrer, é-nos permitido ir ao cinema? Permitimo-nos nós ir ao cinema?
Tanto a heroína das máscaras com cachorrinhos como a da máscara desportiva decidiram que sim, e haveria um monte de gente que as crucificaria em termos modernos, ou seja, qualquer coisa inflamada no Twitter, entre essa gente os tais alemães heroicos que ficavam em casa, produtivamente a netflix and chill.
Aos obstáculos emocionais de ir ao cinema no meio de uma pandemia, e navegar um ambiente em que sair de cada para fazer alguma coisa que não fosse trabalhar ou às compras, ainda que tomando todas as precauções, era um pecado capital (quando é que nos tornamos todos alemães no sul, afinal?), juntavam-se os desafios logísticos ou logístico-emocionais: arranjar bilhetes para um festival de cinema: acabou-se a dolce vita e os planos de última hora, compras os bilhetes com duas semanas de antecedência ou bye-bye. (se os amigos alemães das nossas heroínas não estivessem metidos em casa a deprimir-se pela falta de luz e pelos nazis e conspiranóicos que não paravam de crescer, estariam impressionados com esta capacidade de planeamento).
Chegar ao cinema (decisão heroica de ir a pé e arriscar morte por hipotermia, ou ir de metro e ser péssimo patriota?). Como estamos em Madrid, as nossas heroínas vão de metro. Maus patriotas são os catalães ou os bascos, andem eles de a pé ou de metro.
Limpar as mãos com gel ao entrar na sala de cinema. A nossa heroína que detesta máscaras adora o gel, e a que adora máscaras odeia o gel. Cada qual prefere liberdade em partes corporais diferentes.
Respeitar distância de segurança e os lugares vazios entre lugares ocupados. Essa coisa tão simples de estender uma mão quando se ouve a pessoa ao lado a fungar num desses momentos em que a alma se rompe numa sala escura. Com esse lugar vazio, essa mão estendida é mais que um simples gesto de conforto, é uma declaração política, uma declaração de guerra ou desafio sobre uma cadeira vazia. A mão foi estendida e as mãos pegajosas do gel entrelaçaram-se, e como nos dias do antigamente disseram mais palavras que todas as outras palavras que trocaram as heroínas nessa noite.
E como depois do cinema era tarde, tiveram a parte frustrada da aventura, tentar beber mais uma. Que não se pode, há recolher obrigatório, e a malta leva isso de interagir com a polícia a sério. Há uma bonita tradição de multas a comércios na cidade, e ninguém se quer arriscar.
A moral da história? Não há. Também não há heroínas, nem as nossas que foram ao cinema, nem os alemães que ficaram (ou não) em casa. Atrever-se a ser humano foi a aventura do ano.
         Patrícia Louro
 
 
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Sozinha em casa

A manhã ia alta quando Milai acordou, num quarto que o frio tornara desconhecido e cujas vidraças despidas de estores permitiam a invasão do cinzento deprimente do exterior.
Por mais que se esforçasse, Milai não se reconhecia naquele ambiente, habituada que estava a ser acordada pela mãe, ao calor do aquecimento central, dos edredons fofos, dos reposteiros de cores cálidas…
Saltou da cama e não encontrou os chinelos, os pés nus encolhiam-se na madeira fria e seca, tampouco encontrou o roupão… A porta estava aberta e dava para um corredor desconhecido, cujas paredes não ostentavam nem quadros nem fotografias familiares. Avançou a medo – que casa era aquela, que chão nu e frio era aquele, onde estava a mãe que não a despertara?
Ao fundo do corredor, uma porta escancarada emoldurava uma sala revolvida – livros pelo chão, gavetas esventradas, almofadas revolvidas e cadeiras de pernas para o ar. A confusão, evidente, contaminou-lhe o pensamento, que se recusava a perceber o que via.
Um gemido em forma de miado e uma bola de pelo que lhe chocou nas pernas sinalizaram a existência de outra vida – não necessariamente a que mais gostaria de ter encontrado. O susto foi potente, deixando-a pregada no chão, o coração a bombar a toda a força, e o cérebro a gritar – e se tem pulgas, e se tem pulgas, e se tem pulgas…
Fechou os olhos. Queria a mãe, queria a sua casa, queria a sua vida de volta.
Acordou na cama fofa de edredons de cores garridas, o gato deitado aos pés da cama, alguém lhe media a febre enquanto outra pessoa lhe massaja a fronte com um pano quente embebido no que, pelo cheiro, seria álcool. Sentia-se gelada e tremia e batia os dentes como castanholas.
- Milaizinha querida – era a voz do pai –, nossa heroína! O teu sonambulismo hoje salvou-nos de sermos assaltados. Os ladrões, quando te viram à porta do escritório, pensaram que eras uma alma penada e depois o gato atirou-se a eles e deixou-lhes as caras numa chaga, um deles é alérgico a gatos e teve uma crise de asma, foi levado no 112, não se sabe se escapa.
     Paula Carvalho

 
 
 
 
 
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