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I - Um conto à nossa maneira
Exercício inspirado no texto de Raymond Queneau, Un conte à votre façon.
Em grupo, os participantes escreveram duas histórias diferentes. Depois, combinaram-se os contos com as frases que indicam percursos diferentes da história.
A escrita colaborativa decorre, assim, a três níveis: escrita em grupo, recombinação das histórias dos grupos, escolha do leitor da história que quer ler.


1
Era uma vez um Zé Ninguém que pedia nas ruas de Lisboa.
  Se não se interessa por zé ninguéns, vá para 2
  Se está satisfeito, vá para 3

2
Era uma vez um cavalo de corridas, que vivia numa coudelaria luxuosa e todos os dias de manhã ia treinar.
  Se não se se interessa por equinos vá para 1
  Se está satisfeito, vá para 4

3
Uma noite teve um sonho psicadélico em que vivia num palácio rodeado de ouro e prata.
  Se não quer que ele sonhe, vá para 4
  Se quer saber o que significa o sonho, vá para 5

4
Uma noite não conseguiu adormecer, então decidiu passar a noite acordado a polir metais e a relinchar contra o seu destino.
Se quer saber o que aconteceu a seguir vá para 6
Se quer que quer ele durma um bocadinho, vá para 5

5
Quando acordou, veio-lhe à cabeça o ditado popular «Querer é poder!» e percebeu imediatamente o significado do sonho.
  Se gosta deste ditado, vá para 7
  Se não gosta de ditados populares, vá para 6

6
Quando amanheceu, consultou o seu horóscopo: finalmente tinha todos os planetas alinhados para triunfar, o que nunca tinha sucedido.
  Se não acredita em horóscopos vá para 5
  Se quer saber o que aconteceu depois, vá para 7

7
Essa revelação deu-lhe coragem para declarar o seu amor a uma senhora benfeitora que o ajudava frequentemente.
  Se quer seguir a história de amor, vá para 9
  Se está a achar isto enjoativo, vá para 8

8
Irritado, decidiu que era altura de se vingar da Maria Antonieta que lhe tinha um coice e uma dentada numa orelha e que agora era famosa por ter começado a falar inglês sem ninguém a ter ensinado.
  Se quer saber o que se passou depois, vá para 10
  Se preferia uma história sem ódios antigos, vá para 7

9
Mas o objecto do seu amor rejeitou-o porque o ajudava em nome de Cristo.
  Se quer dar mais uma hipótese ao amor, vá para 11
  Se quer saber o que aconteceu a seguir, vá para 8


10
Quando se encontrou cara a cara com a sua inimiga, percebeu que era estrábica e que nem sequer o tinha visto no primeiro dia.
  Se quer saber o que se passou a seguir, vá para 11
  Se não quer saber mais nada, vá para 12


11
Completamente baralhado, foi para uma taberna e pôs-se a beber. Até que, de repente, encontrou quem viria a ser o amor da sua vida: uma fadista que cantava tristemente ao som das guitarras.
  Se quer saber o que isto significa, vá para 12
  Se nada na vida tem significado, vá para 13.


12
Afinal, nada importava, pensou para si próprio. E disse: a vida são dois dias e o carnaval são três.
Respirou fundo e decidiu mudar de carreira e aprender a falar russo e jogar xadrez.

FIM


13
Reflectindo, disse para si próprio: vida é um acaso absurdo, é uma lotaria imprevisível.
Respirou fundo e decidiu escrever versos para um fado que veio a tornar-se um grande êxito português.

FIM

 

Participantes:
Conceição Brito
Giuseppa Giangrande
Helena Campos
Lídia Lopes
Patrícia Louro


II - Histórias cruzadas
Com uma estrutura fixa, as histórias multiplicam-se em ínúmeras e inesperadas versões. Cada participante escreveu uma história. Depois combinámos num quadro onde cada quadrado pode combinar com qualquer outro. Alguns resultados são mais surrealistas do que outros - mas levantam boas ideias para próximos textos!

 

Capturar

 

Participantes: 

Conceição Brito
Giuseppa Giangrande
Helena Campos
Lídia Lopes
Patrícia Louro



III - Textos de 10 minutos escritos com palavras obrigatórias sugeridas pelos participantes

 

Rosa
O dia começou cor-de-rosa. Bom. Não era bem cor-de-rosa, mas o ser que nos ocupa esta história não é um designer gráfico a trabalhar com quadricromia, portanto digamos que o dia começou cor-de-rosa.
Era um dia como outro qualquer. Era um dia como só esse dia podia ser dia. Era um grande dia. Ou pelo menos era um grande dia para o pequeno ser que nos ocupa esta história: uma lagarta lagartinha, feliz como uma perdiz, ou o seu equivalente em mundo lagartil: viver num ramo de carvalho, alto, muito alto (lembre-se, caro leitor, do tamanho de uma lagarta, se ainda conseguir evocar os seus dias de infância. Um carvalho é, para uma lagarta, e como se dizia nos meus idos tempos, bué da alto).
Mas voltemos à história que nos ocupa. A lagarta acordou com um céu cor-de-rosa. Espreguiçou-se, comeu meia folha de carvalho, e fletiu os músculos de lagarta (bué da pequenos, mas súper poderosos), e fez uma corrida até um ramo mais baixo. Correu, correu, correu, chegou. Bebeu a água das folhas do ramo mais baixo do carvalho, para isso tinha descido.
E porque esta é uma história sobre pequenos tamanhos, nesse ramo baixo do carvalho, a feliz como uma perdiz lagarta encontrou-se com o seu destino, uma criancinha de idade indeterminada para a lagarta (que não percebia muito de humanos, mas nós podemos dizer que teria uns 6 ou 7 anos), e brandia como uma espada um abridor de cartas em forma de punhal, roubado à socapa, do home office do pai (e por uma vez, não há nenhuma culpa da mãe da história que nos ocupa).
A lagarta curiosa desceu um pouco mais. A criança distraída subiu o braço. E desse encontro infeliz, metade da lagarta caiu no chão, e a outra metade ficou agarrada ao ramo.
Quanto à criança, foi chorar para o colo da mãe.
             Patrícia Louro

Foi à sombra dos ramos de um carvalho frondoso e pejado de bolotas que se viram pela primeira vez, enquanto observavam uma corrida desenfreada de lagartas.
Nesse tempo, tudo parecia cor de rosa até ao dia em que veio a carta de despedida aberta furiosamente com um abridor de cartas em forma de punhal.
As lagartas tinham sumido nos interstícios do muro musgoso e as bolotas todas caídas e atiradas aos porcos, como alimento, pronunciavam um inverno cinzento e pesado de águas.
   Helena Campos
 
Era uma vez uma lagarta que vivia à sombra dum ramo de carvalho. Um dia veio um bicho que a desafiou para uma corrida: o seu objetivo era comê-la.
A lagarta aceitou o desafio. Quando o bicho já estava a ponto de agarrá-la, a lagarta tornou-se numa borboleta cor de rosa e voou alto no céu.
   Giuseppa Giangrande