Tema: Microcontos

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1.º Um microconto a partir da história A Princesa e a Ervilha.

Era madrugada quando Nini saiu da rave, rave privada cujo destino era tão mas tão secreto que só se conhecia quando lá se chegava, seguindo indicações hieroglíficas de sms privadas. Uma vez mais, como perdera o iphone última geração, não sabia onde estava. Olhou os sapatos, tristes, mais um par roto. Suspirou, antecipando explicações sobre o telefone perdido e os sapatos feitos num trapo.
Foi atingida pela escuridão da noite e pela depressão Bárbara, cega por ambas. Caminhou ao acaso. Um jorro de água, nascido de fonte incógnita, vergou-a.
Acordou numa cama de dossel, fofa como chantilly ou claras em castelo ou não estivesse deitada em cima de inúmeros edredons e colchões. Pensou que morrera com entrada directa no paraíso até que entrou o homem velho, de coroa na cabeça, com uma taça fumegante e lhe disse: “Hoje temos favas com chouriço.” “Oh– exclamou ela - não pode ser antes ervilhas com bacon e ovos escalfados?!”.
                Paula Carvalho

O segredo do cão
Trabalhara a vida toda, enriquecera, viajara pelo mundo, conhecera lugares onde ninguém jamais havia pisado, amara e fora amado. Entretanto, ao completar 60 anos, Pedro não se considerava um homem feliz. Faltava-lhe algo. Procurou todo tipo de terapia para descobrir que mal secreto enchia seu coração de melancolia. Tudo em vão.
Começava a conformar-se com a ideia de ser para sempre um homem infeliz quando, um dia, ao caminhar por um parque, viu um velho com um cão. O velho tinha o semblante mais sereno que Pedro havia visto em sua vida. Aproximou-se e perguntou:
- Velho, pareces tão feliz. Como conseguiste atingir felicidade tão plena?
- Vês o meu cão? Observa como ele corre e se diverte. Ele não pensa no que lhe falta. Apenas celebra o que tem. Aprendi com ele o segredo da felicidade.
                Paulo Lima

As ervilhas mágicas
Era uma vez uma rapariga pobre que vivia no campo junto à sua mãe. Não tinham nada, apenas conseguiam comer graças à uma planta de ervilhas. A rapariga era muito bonita. Um dia passou por ali, perto da sua casa, um príncipe que se apaixonou por ela. Queria casar com ela, mas o rei e a rainha opunham -se à essa ligação por causa da pobreza da rapariga.
A pobrezinha ficou muito triste e chorou muitas lágrimas que caíram ao pé da planta de ervilhas. Essas tornaram-se numa chuva de ouro, pelo que a rapariga ficou muito rica e pôde casar com o príncipe.
                   Giuseppa Giangrande


O Exame
O João estava cansado de procurar a mulher com quem queria partilhar a sua vida. Bonitas, feias, ricas, pobres, cultas, alegremente ignorantes, percorrera já uma gama imensa de candidatas a futuras esposas.
O seu desejo era que a figura idealizada fosse culta, bem-educada e, acima de tudo, com impecáveis maneiras. Lembrava, agoniado, a última candidata que quase o matara de vergonha, no São Carlos, ao bater palmas nas pausas da orquestra.
Até que conheceu a Teresa.
Ela apareceu à hora certa, no local combinado. Iam jantar a um restaurante chique, muito chique, e o teste à mesa seria implacável: um exército de talheres, uma congregação de copos, um aglomerado de acepipes.
Imperturbável, ela sugeriu a ementa com a finura de uma gourmet, aprovou os vinhos como verdadeira connoisseur e dispensou o aperitivo.
A refeição decorreu suave como uma sinfonia. O garfo certo, o copo adequado, leves toques nos lábios com o guardanapo, sem esfregar.
Voz suave, conversa inteligente, sentido de humor.
Que maravilha, pensou. É esta!
- O que quer para terminar? perguntou ele.
- Apenas um palito para tirar este pedaço de carne que ficou preso nos dentes – respondeu ela, enquanto adiantava o serviço usando, delicadamente, a unha do dedo mindinho.
                     Conceição Brito


Ervilha
A alegria andava a passear e encontrou uma ervilha que queria brincar.
Rebolaram riam e festejavam tão distraídas que a um cantinho duma sala foram parar.Acordaram o Príncipe encantado se bem que de realidade inteirado.
A alegria pediu á amiga ervilha que chamasse as suas irmãs e com a ajuda dum chouriço e ovos comemorou o seu feliz acaso
                         L@dyBirdBeL

livro

 

 

 

 

 

2.º Um conto de 100 palavras com o início, «Chegara a hora».

Pontualmente

Chegar à hora foi disciplina auto-imposta na sua longa vida de adulta, um misto de carta de alforria e de foral dos atrasos traumáticos duma educação ao Deus-dará. Da libertação nasceu a nova escravidão, a pontualidade de chegar antes da hora, e, depois, muito antes da hora. Em dias de compromisso matutino, agendava três despertares, dois em despertadores de corda e um do serviço homónimo dos telefones-de-lisboa-e-porto, de que nunca precisava pois despertava de hora a hora, sempre antes da hora. 

Partiu um dia de madrugada, sem hora marcada, ainda assim na sua hora.

            Paula Carvalho


Despedida
Chegara a hora. Jorge pegou a mala, apagou as luzes e saiu.
O carro já o esperava na frente do prédio. O motorista cumprimentou-o com um aceno de cabeça, guardou sua mala no banco da frente, assumiu seu lugar e deu a partida.
Jorge pediu-lhe que desligasse o rádio. Pela janela, via desfilar pela última vez as paisagens tão familiares.
Lúcia o esperava no porto. Abraçaram-se longamente e ele embarcou sem olhar para trás.
Permaneceu no convés até que o navio tivesse deixado o continente para trás. Abriu a urna e jogou as cinzas do seu passado no mar.
         Paulo Lima

Inspiração em Oscar Wilde
O comboio partiu com a minha vida dentro. Fiquei no cais à espera que a minha vida regressasse e nunca mais regressou. Comecei a percorrer a linha férrea no seu encalço, na peugada do meu outro eu, o caminho alternativo que eu deveria ter percorrido. Era tempo de juntar-me ao que eu poderia ter sido. Chegara a hora.
            Helena Campos

Encontro
Chegara a hora. Tinha esperado muito tempo por aquele instante. De ali a pouco ia conhecê-l
Que ia dizer-lhe? E ele? Que ia dizer-me?livro 2
Mil pensamentos ocupavam a minha cabeça. E, entretanto, o meu coração palpitava na espera.Saí finalmente para a rua, ao meu lado via só passar sombras. Ao final, cheguei ao lugar combinado para o nosso encontro e ali vi-o, parecia ele também emocionado. Aproximei-me dele e na oscuridade a sua figura adquiriu formas bem definidas. Naquele momento não conseguimos dizer nada, as nossas mãos juntaram-se e os nossos corações também.
             Giuseppa Giangrande
 
Chegara a hora! As contrações, longas, contínuas, excruciantes, diziam-lhe que fosse pedir ajuda. Bebé não espera para nascer, aparece no mundo quando chega a sua hora, sem pedir licença. Com esforço, apoiou-se no grande rochedo e tentou erguer-se, mas as pernas não tiveram força e caiu de joelhos no chão atapetado de folhas. Um espasmo brutal percorreu-lhe o corpo: a criança ia nascer agora, ali. Respirou fundo, recolheu todas as suas forças, e, no caudal original da vida, a sua filha emergiu, reivindicando ruidosamente o seu lugar no mundo.
                   Conceição Brito
 

Disse-me o Poeta, «Antes o atrito que o contrato»
Chegara a hora, tardara, mas finalmente nos encontrou.
Por debaixo de tantos cubos de gelo submersos em solidão, ele contemplava as bolinhas de sabão de arco íris trajadas sopradas divertidas imparáveis brincalhonas...
O milagre.
Éramos tão sós e na solitude chegara a hora.
             L@dyBirdBeL

 

(fotos: pegandawlbuilt.com)