non finito

                                                                                                                                                                  Michelangelo, Escravos

Tema: Era uma v... | Textos inacabados


1 - O poema fragmentado
A partir de uma versão parcial, e sem conhecerem o original, os participantes completaram as frases de um poema, fazendo-o seu.

 

O meu poema teve um sonho:
Diz às palavras vivam
E ide procurar conhecimento;
O meu poema tem o brilho do saber.
Posso vê-lo cintilando
Em cornucópias de prata
Sem pressa
Ou receio.
Pergunto-lhe: com que sonhaste?
Mas apenas me envolve
E fica ali a pulsar na dádiva da plenitude.
                                           Conceição Brito Lopes

O meu poema teve um furo
Diz às palavras: não sei se tenho salvação
e ide procurar ajuda.
O meu poema tem remendo
posso vê-lo a insuflar esperança.
Em fé
sem medo de morrer de velhice
ou de doença.
Pergunto-lhe: mas vais ficar bem?
mas apenas me devolve um suspiro
e fica ali apenas a existir.
                          Tânia Teixeira


O meu poema teve um problema
Diz às palavras: Voem no céu
E ide procurar versos.
O meu poema tem agora versos
Posso vê-lo feliz
em companhia dos seus versos
sem preocupações
ou tristeza.
Pergunto-lhe: O que é que te deixa ficar tão feliz?
Mas apenas ouve a voz dos seus versos
E fica ali a regalá-los.
                   Giuseppa Giangrande


O meu poema teve um bloqueio
Diz às palavras: regressem
E ide procurar as fontes
O meu poema tem angústias de alma, febres de perfeição
Posso vê-lo a tremer, a hesitar
Em tardes outonais de fim de linha
Sem rumo
Ou ponto de mira
Pergunto-lhe onde está
Mas apenas murmura em surdina algo desconexo
E fica ali a olhar o vazio
                    Helena Campos


O meu poema teve um sonho do qual acorda pensativo
Diz às palavras: deixem-me só
e ide procurar outras palavras que as substituam e sejam mais verdadeiras.
O meu poema tem esperança
Posso vê-lo desnudo
em busca da raiz da emoção
sem vocabulário
ou gramática
Pergunto-lhe: o que queres dizer afinal?
mas apenas se cala
e fica ali a página em branco
                             Paulo de Lima


Poema original que inspirou o exercício:

O meu poema teve um esgotamento nervoso.
Já não suporta mais as palavras.
Diz às palavras: palavras
ide embora,
ide procurar outro poema
onde habitar.
O meu poema tem destas coisas
de vez em quando.
Posso vê-lo: ali distendido
em cama de linho muito branco
sem perspectivas ou desejo
quedando-se num silêncio
pálido
como um poema clorótico.
Pergunto-lhe: posso fazer alguma coisa por ti?
mas apenas me fixa o olhar;
fica ali a fitar-me de olhos vazios
e boca seca.
                Daniel Jonas, in Os Fantasmas Inquilinos

 

2 - Fragmentos que contam histórias.
É possível contar uma história apenas com frases inacabadas? Ao fazer o exercício, percebemos que deixar por dizer dá outra expressividade ao texto.

 

Sonhava acordada com...
Ela pediu-lhe que...
Assustei-me e...
E não foram felizes para sempre porque...
Sem saber como..
A luz apagou-se...
Lembrou-se...
Naquela madrugada...
Ainda o sol não tinha raiado...
Sonhava acordada com...
O passado...
Ainda mal acabara...
Quando o carro...
Assustou-se...
Ele nunca mais lhe respondeu e...
Se não chover...
Quando chegaram ao funeral...
Ela pediu-lhe que...
Era uma vez.
         Tânia Teixeira


Já não sou
Odeio quando
Ouvi algo de


Não tive como
Enganei-me
Não soube escolher
O tempo
Não fui a
Não disse que
Hoje não há
Dizes para
Insistes em
Não há
Já não há
O tempo
Nunca será
          Helena Campos


Era uma vez
A madastra fazia anos que
O príncipe sempre com medo de
Até o dia que
A bebida no copo estava
Um gole e o príncipe
No meio da noite chega o
Beija o príncipe e ele
Fogem os dois de mãos
A madastra tenta
Mas volta com as mãos
A princesa decide que
E a madastra perde sua
                    Paulo de Lima

 


3 - Non finito em texto
Este exercício foi uma tentativa de exploração do non finito em texto.
O non finito nas artes plásticas (exemplo da reprodução de Michaelangelo acima) é uma obra inacabada que permite espreitar para as marcas do criador, para o processo criativo. Será possível fazer o mesmo em texto? Experimentámos.

 

...
Às 12 badaladas Branca pica-se no fuso do tear e desmaia. Nesse mesmo momento, a sua preciosa carruagem transforma-se numa abóbora e os sete anões acorrem a salvá-la.
(Estou tramada! Espelho meu, espelho meu, haverá alguém que confunda mais as histórias de princesas do que eu? Nunca sei quem é maltratada pela madrasta - serão todas? - ou pica o dedo, ou come a maçã, ou tem um príncipe - ah! isso sei, são todas!)
...
A luz da manhã rompe-lhe o sono e a ladeá-la está um monstro que a assusta.
- Calma Bela! - responde-lhe ele.
- O que é que aconteceu?
- Foste amaldiçoada pela rainha má, mas eu vou levar-te para longe e ficarás sã e salva.
- Como? - responde ela atordoada.
- Neste tapete mágico!
(Mentiria se dissesse como me desenvencilhar deste problema. Ah! Com um clichê!)
...
Num castelo num alto de um monte verdejante, a princesa e o seu amado viveram felizes para sempre.
                                                                                                                                    Tânia Teixeira

 

helna

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 …….de Neve e……

……….e, finalmente! alisou a última das sete caminhas. Olhou em redor, com cuidado, para não bater com a cabeça no tecto baixo [adjectivo redundante?]. O espelho do quarto continuava totalmente tapado (tantas recordações más) [mas ainda não quero falar disso ]
e os seus amiguinhos em breve chegariam para almoçar. Que vida horrível, sempre na cozinha!!
Só de pensar em comida, ficou com fome (no palácio comia-se tão bem! e tinha aios para servir, não tinha que cozinhar)
(…..) lá estava a maçã a olhar para ela, a chamar por ela. Afinal não a ia repartir com os sete anões, ia comê-la já, como a velha recomendara.
……ainda teve tempo para perceber que o egoísmo pode ser perigoso.
                                                                            Conceição Brito Lopes


Branca de Neve estava a preparar o lanche dos anos, que logo chegariam do trabalho, quando ouviu batidas na porta. Intrigada, foi abrir. Era uma velha/senhora (decidir qual palavra usar. Não quero que digam que discrimino os idosos etc. e tal)
(Talvez seja mais verossímil se ela olhasse antes quem está batendo. Mas pode quebrar o ritmo.)
Boa tarde, minha jovem.
Boa tarde, senhora. Em que posso ajudá-la?
(Ressaltar o caráter ingénuo da Branca de Neve.)
Tenho aqui umas maçãs que estou vendendo para comprar comida para meus netinhos. A senhora gostaria de comprar uma?
Claro, minha senhora. Espere aqui que vou pegar o dinheiro.
Ela foi até a cômoda, pegu umas moedas e voltou para a porta. Pagou a velha e pegou uma maçã. (Não, a velha tem de dar a maça envenenada para ela. Ou todas as maçãs do cesto estão envenenadas?)
Parece muito gostosa mesmo.
Dê uma mordida para ver como é suculenta.
(Fazer suspense com a mordida?)
                                      Paulo de Lima