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LABORATÓRIO DE TEXTOS

Esta é uma fresta por onde se pode espreitar o nosso laboratório.

Gostamos de experimentar textos, inventar espaços e condições especiais e neles deixarmo-nos espantar pelo que acontece.

Aqui, recolhemos algumas das linhas que vão sendo criadas em diferentes oficinas. Algumas delas, dirigidas a antigos alunos, como a Naftalina, são iniciativas regulares; outras, abertas a quem por cá passa, são encontros e iniciativas extra-aulas. Placas de Petri.

Os textos, produzidos no tempo e condições das sessões, têm como único — e suficiente — critério de publicação a vontade do seu autor de vê-los aqui reproduzidos. Experimente ler, mas proteja-se: o prazer da experiência pode ser contagiante.

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tema: LITERATURA POTENCIAL. No aniversário da morte de Italo Calvino, escritas oulipianas

 

1 – Técnicas Oulipianas a partir de um texto baseado em escritos de Italo Calvino

Texto base:
Os clássicos são livros dos quais se costuma ouvir: «Estou a reler» e nunca «Estou a ler». No entanto, toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta, como a primeira. Aliás, toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura. Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. São livros que trazem consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes). É clássico aquilo que tende a relegar a actualidades a ruído de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse ruído de fundo.

 

Textos criados na sessão:


...Clássico, seja...

Os ouvintes, oram, operam, olvidam o outro, o outrem.
Ouvindo o ontem ondulando outra, outra ouvida, orando onde oiçam oficialmente.
Ontem ouviu- se oiro
Ontem ouviste oiro
Ontem ouvi onde ouvir
Ontem ouvi como ouvir
Ontem, outrora o ocaso, outro olhar. Onde? Ontem.

Amanhã aprofundarei
Enquanto houver manhãs
Igrejas abertas sem cruz, sino só
Ouvirei sempre como novidade
Uivarei a essa Lua Nova que badalará de noite aquando do meu mergulho...
...Oceano...
L@dyBirdBel
TÉCNICA: TAUTOGRAMA em «o» e ABECEDÁRIO com vogais.

 


Clássicos são os lobisomens dos quais se costuma ouvir: «Estou a remendar-te» e nunca «Estou a libertar-te».
No entanto, todo o remendado por um clássico faz uma libertação de descoberta, como a primeira.
Aliás, toda a primeira visão de um clássico é um rebanho de remendos.
Um clássico é um lobisomem que nunca terminou de dominar aquilo que tinha para dominar.
São lobisomens que tricotam a marca dos lençóis em que nos deitamos e, atrás de si, olvidam as tragédias que deixaram no cunhado ou nos cunhados que atropelaram (ou então, deixaram marca, tão simplesmente, no linho ou no cotão).
Pedro Caeiro
TÉCNICA: S+6 E V+6 - substituir cada substantivo e verbo de um texto pelo sexto que o sucede no dicionário. ​

 


Clássicos são livros dos quais se costuma ouvir “estou a reler”
Ler uma só vez não é suficiente
Aliás, a releitura de um clássico é uma descoberta
Sempre fica a sensação que foi uma primeira leitura
Sempre uma primeira leitura é de facto uma releitura
Ironicamente são livros que nunca mais acabam de dizer o que tem para dizer
Como se trouxessem consigo as marcas das leituras que precederam a nossa
Onde se vislumbram os traços que deixaram nas culturas que atravessaram
Sem prescindir da actualidade, relegam-na para ruído de fundo
Helena Campos
TÉCNICA: ACRÓSTICO com a palavra «Clássicos»


Os livros são clássicos dos quais se costuma ouvir: «Estou a reler» e nunca «Estou a ler». No entanto, todo clássico de uma releitura é uma descoberta de leitura, como a primeira. Aliás, todo primeiro clássico de uma leitura é na releitura uma realidade. Um livro é um clássico que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. São marcas que trazem consigo os livros dos traços que precederam a nossa e atrás de si as leituras que deixaram nas culturas ou na cultura que atravessaram (ou mais simplesmente nos costumes ou na linguagem). É actualidade aquilo que tende a relegar o clássico a ruído de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse ruído de fundo.
Paula Carvalho
TÉCNICA: PERMUTAÇÃO - alterar a ordem dos substantivos do seguinte modo: o primeiro pelo segundo e vice-versa, o terceiro pelo quarto, etc.


Os clássicos são REUNIÕES DE CADERNOS MANUSCRITOS OU IMPRESSOS COSIDOS ORDENADAMENTE dos quais se costuma ouvir: «Estou a reler» e nunca «Estou a ler». No entanto, todo ACTO DE RELER um clássico é um ACTO DE LER de INVENTO, como O QUE NUMA CLASSE OU SÉRIE ESTÁ EM PRIMEIRO LUGAR. Aliás, todO primeirO ACTO DE LER de um clássico é na realidade um ACTO DE RELER. Um clássico é umA REUNIÃO DE CADERNOS MANUSCRITOS OU IMPRESSOS COSIDOS ORDENADAMENTE que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. São REUNIÕES DE CADERNOS MANUSCRITOS OU IMPRESSOS COSIDOS ORDENADAMENTE que trazem consigo OS CUNHOS dOs ACTO DE RELER que precederam O nossO e atrás de si os VESTÍGIOS que deixaram nO ESTUDO ou nOS ESTUDOS que atravessaram (ou mais simplesmente na EXPRESSÃO DOS PENSAMENTOS OU SENTIMENTOS POR PALAVRAS ou nos USOS). É clássico aquilo que tende a relegar a OCASIÃO PRESENTE a OSTENTAÇÃO de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir dessa OSTENTAÇÃO de fundo.
Paula Carvalho
TÉCNICA: DEFINIÇÕES - Substituir alguns termos pela sua definição de dicionário.
 

2 – Redefinições para as Seis Propostas Para o Próximo Milénio de Italo Calvino

Leveza: airosamente, nuvem, voadora, algodão, pairar, bailar, esperteza
Rapidez: estrada, morte, vida, alegria, motor, barulho, explosão
Exactidão: ferozmente, facto, verdade, real, prontidão, escrita, tranquilidade
Visibilidade: mar, terra, binóculos, guerra, importância, família, ilha
Multiplicidade: cidadania, respeito, interrogação liberdade, parafuso, cultura, camaradagem
Consistência: ferro, fogo, navio, avião, avô, laço, puré
Pedro Caeiro, L@dyBirdBeL

Deus livre a Literatura da exactidão
Para isso bastam as ciências exactas
Toda a arte é multiplicidade e leveza
Toda a arte torna presentes os invisíveis evidentes de que é feita a alma
Helena Campos


O livro tem de estar bem escrito, com muitas metáforas, tem de permitir visualizar o que se está a ler, tem de fazer sentir bem. E também um pouco de poesia, é libertador, não enfadonho. Também gosto da consistência, uma coerência no argumento, nas personagens, detalhes que não se perdem.
Leveza – fluidez, elegância narrativa, pormenores, picaresco, pictórico. As histórias-mosaico ou dimensionais com várias personagens a contar a mesma história na sua perspectiva (exemplos: Amor & Cia, Julian Barnes Quarteto de Alexandria, Lawrence Durrell).
Consistência – fio condutor excepção: o surrealismo
Paula Carvalho

 

 

 

20 de Junho | No solstício de Verão, escritas em bola de neve.

Para inspirar: um cadáver esquisito em dança

 

 

1. ÎLLOT – MOLLO

À medida que se escreve, cada um vai dizendo uma palavra em voz alta que todos têm de incorporar no texto

Manifesto Anti-Lockdown

Na Bíblia, primeiro era o verbo, no nosso caso, primeiro foi o lockdown: não sairás de casa ... descontadas as vinte e sete excepções contantes de outras tantas alíneas da lei.
Passámos toda a Primavera confinados no confinamento do lar, a trabalhar em trabalho remoto, dito tele-trabalho. Sem sair.
Primeiro construímos a narrativa da segurança - não se usava máscara porque dava falsa sensação de segurança. Nem se faziam testes porque davam qualquer coisa que parece que também era falsa. Talvez fosse aquilo dos falsos positivos...
Não celebramos Páscoa e muito menos o dia da Mãe.
Tivemos, sim, cravos, discursos e festa na Assembleia, manif na Alameda, autocarros vindos de todo o lado, coreografias de Leni Riefenstahl.
E, de repente, Maio chegou e sem máscara não andarás e testar testarás.
E desconfinar desconfinarás, excepto nas dezassete excepções de outras tantas alíneas da lei.
Desconfinarás a bicas na baixa, a almoços no Bairro Alto, a espectáculos no Campo Pequeno em que os toureados fomos nós, o povão que come e cala – e parece que gosta.
Desconfinarás também na Praia da Rocha, tu de bikini, na espuma das ondas, os Men In Black de fato e gravata e sapato de polimento a calcar a areia.
Não se pode parar para pensar que não foi para estarmos confinados em prisão domiciliaria, a morrer de pobreza, solidão e tristeza, que se fez o 25 de Abril?
E, de repente, chegou o Verão.
Paula Carvalho

Arte de morrer

Iam sem destino pela rua fora numa tarde quente de estio. O mar ao longe era um convite à evasão. Começaram a correr, os ténis leves a bater nos traseiros, até ao primeiro autocarro que encontraram. Atiraram-se para os assentos com a luz do solstício a invadir as janelas.
Quando o veículo parou, soltaram-se como massas pegajosas a escorrer para o areal. O mar agora perto a rugir como um leão na selva. Sentaram-se na espuma à espera das ondas. A maré descia, vazava na direcção do horizonte.
Olharam um para o outro e pensaram que a vida era aquilo, a arte de morrer. Estenderam-se na areia de olhos fechados, crianças balbuciavam ao longe, talvez um cão. O trabalho que dava morrer devagar. O som de um barco, talvez de um avião no céu sem nuvens.
Não construímos nada na vida – pensavam em uníssono. Porque a maré vazava naquele dia em vez de subir? Teria dado jeito. Até a maré estava em desacordo.
No passado, circulavam sapatilhas de borracha que se vendiam à entrada daquela praia, assim como tábuas de madeira que os velhos alugavam em busca de iodo para uma saúde débil
Agora, nem sapatilhas nem tábuas, restava uma praia pedregosa abandonada entre limos e algas. Abandonada como eles aos ventos do ocaso.
Helena Campos

2. HISTÓRIA COLABORATIVA

A partir de nome de personagem, tique, ditado popular, cor e outros elementos escolhidos previamente pelos participantes.

Penélope costumava dizer que de bom grado deixava o bom gosto todo para os outros e que ela se bastava com ter o gosto de gostar de amarelo.
Tudo começou por acaso, que é como começa quase tudo, a mãe, costureira numa loja de vestir, trazia para casa, no fim de cada estação, os monos a que dava a volta e transformava em roupas decentes para Penélope e Ulisses, os gémeos que havia tido com Ambrósio, seu falecido – não porque ele se finara mas porque se finara o casamento – as cores claras e alegres, como o amarelo e o vermelho, eram para Penélope, as mais discretas – azul e verde (credo, escarro na parede!) para Ulisses. Mas, num Carnaval, Ulisses tivera direito a um fato azul e vermelho com o homem morcego estampado, enquanto Penélope se vestira de veludo azul, como a Pequena Sereia, aquela cuja verdadeira história nada tinha de Disney mas era sim um repositório de horrores e de violência de género – maldito Andresen, reflectia Penélope, enquanto coçava a cabeça, e que ainda bem que tudo se passara há umas décadas pois se fosse agora teria a pobre da mãe sido acusada de perpetuar estereótipos de género.
Paula Carvalho

Algures na China
Os morcegos de dentes arreganhados eram um grande problema.
Gostava do azul do crepúsculo colado com a noite, do silêncio deserto do mercado nocturno, um vasto chão cheio de sangue coalhado, animais esventrados. Os dentes dos morcegos a faiscar no escuro.
Ambrósio circulava pelas sombras cosido com o negrume, ainda assim apanhou o vírus. Quem anda à chuva molha-se.
Helena Campos

Até já! Voltamos depois do Verão.

vintage summer 06