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LABORATÓRIO DE TEXTOS

Esta é uma fresta por onde se pode espreitar o nosso laboratório.

Gostamos de experimentar textos, inventar espaços e condições especiais e neles deixarmo-nos espantar pelo que acontece.

Aqui, recolhemos algumas das linhas que vão sendo criadas em diferentes oficinas. Algumas delas, dirigidas a antigos alunos, como a Naftalina, são iniciativas regulares; outras, abertas a quem por cá passa, são encontros e iniciativas extra-aulas. Placas de Petri.

Os textos, produzidos no tempo e condições das sessões, têm como único — e suficiente — critério de publicação a vontade do seu autor de vê-los aqui reproduzidos. Experimente ler, mas proteja-se: o prazer da experiência pode ser contagiante.

jornais

 

Tema: MANCHETE. Escrever a partir de notícias de jornal

Nesta sessão explorámos as ligações e possibilidades de cruzamento entre escrita literária e escrita jornalística.
Porque aparentemente a distância é ainda maior, tomámos como exemplo a poesia, inspirada ou que recorre a linguagem jornalística. O mote foi dado com poemas de Alexandre O'Neill, Carlos Queirós, Manuel Bandeira, Daniel Filipe.

1 - Da notícia ao texto literário.

Como transformar uma notícia num texto literário, poema ou texto fragmentado?
Que história, ainda que breve e depurada, podemos revelar? Como manter o equilíbrio?

Transformar em pequeno texto cada notícia, ou ambas.

 

ze pipo

                 xanana

 

As últimas chamadas

A 5 de novembro as últimas chamadas
Quem falou com ele?
Não há resposta à essa pergunta
Ainda estão as luzes apagadas
em redor da pessoa desparecida.

O presidente jardineiro

Na capital timorense
há um presidente jardineiro
Os jardins da cidade agora
têm alguém que cuida deles
e reflorescem esplendorosos.
                                  Giuseppa Giangrande


I
Há seis meses
Ele falava ao telefone
Todos o viram
Enquanto falava, dobrou a esquina
E sumiu
Desapareceu
Evaporou
O telefone foi encontrado
O homem continua desaparecido.

II

Primeiro foram as armas.
Era preciso lutar.
Depois vieram as reuniões e as solenidades.
Era preciso governar.
Agora são os jardins.
Cultivar a beleza ainda é preciso.
                                              Paulo de Lima


Valham- nos Anjos.
Sempre os anjos.
Omnipresentes e tão cientes.
Não lhes cabe registar.
Resta-lhes o sabê-lo.
Somente o sabem.
Falo-vos de atitudes elegantemente rapinadas ao civismo tido como marginal.

Surgem de noite. Não deixam rasto.
Ficam reluzindo no dia as sementes de lugares.
Lugares donde se arrancaram as ervas daninhas.
Sementes livres...
Sementes de ajardinados acarinhados.

Não há nomes por chamar.
As atitudes tomaram- lhes o lugar.
Chega sempre o Natal.
Quente e frio.
É verdade é facto.
                          L@dyBirdBeL

 
João sem jeito era soldado combatente e matava à bala.
Depois foi telefonista e apagava os registos das chamadas convenientes.
Um dia decidiu ser jardineiro para cortar as flores e atirá-las ao vento.
Foi visto a última vez em Tomar.
                                           Helena Campos
 
 
 

2 - Continuar a distopia

Depois de ouvirmos o trecho da Invenção do Amor de e por Daniel Filipe, continuar a história dos amantes, da cidade, da liberdade, da repressão.

A Invenção do Amor, Daniel Filipe

 

… Mas o homem e a mulher
já fugiram para os jardins escondidos
do amor e dos sonhos
e de ali deixam chegar às pessoas
uma mensagem de amor.
Já que os sonhos e o amor
são revolucionários,
nos corações das pessoas
floresce finalmente a flor vermelha
da tolerância e da liberdade
Ninguém pode reprimir o
avanço do amor.
                             Giuseppa Giangrande


É indispensável encontrá-los.
As autoridades decretaram que o amor é um vírus perigoso e determinaram que todos ficassem em suas casas.
Dizem nas rádios e na televisão que se trata de uma epidemia grave que deve ser combatida a qualquer custo.
Mas talvez seja tarde. Pois começam a ser vistos por toda a cidade casais de mãos dadas.
Casais que desafiam o confinamento e vão para as praças e os parques se beijar.
São detidos imediatamente. Mas já faltam carros para transportar todos os presos e prisões para encarcerá-los.
E começam também a circular outras versões para o discurso oficial das autoridades.
O amor não é o vírus, dizem essas versões.
Na verdade, é a vacina contra a monotonia e os dias cinzas, contra tudo que desbota a vida.
As autoridades têm medo.
Os amantes, esperança.
                                        Paulo de Lima
 

Para quem vive e o não sabe...
Para quem nos morre num porquê..

Das guerras que nos são impostas eis- nos mais um porquê.
Porquê tanta garantia que a espingarda é de exibir e o amor de proibir?

Porque estão as crianças a brincar acompanhadas de sorrisos sonantes sinceros invisíveis escondidos e mascarados?
Desmascarando as gargalhadas e descobri- las de boa fé.
Senti- las acutilantes e distraídas honestas e sabê- las tão sentidas.
Para quem vive sem nunca te ver.
Para quê morrer se nunca te crer foi para valer.

Tudo isto não faz sentido.
Tudo isto me baralha, tudo isto se instala.
Tudo isto me faz morrer.
                                     L@dyBirdBeL


E mais homens e mulheres se encontrem
Contra a lei, contra a ordem
E a repressão baixe os braços, cansada e finalmente vencida
Porque um dia a repressão há-de morrer
E há-de nascer um pássaro com asas de neve, numa aurora tão longamente ansiada
Decrete-se uma lei onde se assassinem todos os amantes
Construam-se prisões de alta segurança
Coloquem-se cadeiras eléctricas para os detractores, achincalhadores da ordem
Antes que um dia um cravo espetado numa arma anuncie a aurora da liberdade sem regresso
E depois do adeus, passarão aves
Quebrar-se-ão grilhetas,
e não sobrará ninguém para contar a história daquele cartaz
                                                                                 Helena Campos

 

 
 

 

Em julho e setembro organizámos uma atividade de passeio e escrita sobre Lisboa. A partir de um roteiro preparado previamente pelos os becos e calçadas à volta da Sé, Castelo e Rossio, os participantes escreveram e fotografaram. Voltaremos a estes passeios mais vezes.

  

Rossio

Os meus passeios levam-me à praça do Rossio, sobretudo à noite. A luz do dia que me acompanhou nos meus caminhos de manhã aqui é substituída pela luz da lua, romântica e porta-voz dos sonhos. Ela, o azul obscuro do céu noturno e as luzes dos faróis refletem-se na calçada do chão que parece tomar vida e se transforma em ondas, como as dos mares que em tempos longínquos navegaram as caravelas portuguesas. As estátuas que adornam as fontes da praça projetam sombras. De longe, chega uma voz da Mouraria, que entoa um fado.

Giuseppa Giangrande

 

                                          G1         G2

 

 


Rua da Saudade

Nasci e vivi na Rua da Saudade, num quarto andar do número 23, com vista para o Tejo, prédio famoso porque nele viveram o Ary das canções do festival e o O’Neill, aquele da coisa em forma de assim. O andar era o último, gelado no inverno, tórrido no verão. Vivíamos lá três gerações – avós paternos, pais, dois irmãos rapazes, um mais velho dez anos e o outro seis, que cedo fizeram pela vida, tornaram-se um, canalizador, o outro electricista, e cedo casaram, com moças do Bairro – ambas da Rua das Merceeiras -, e mudaram-se para Santo António dos Cavaleiros. Ao Domingo vinham almoçar connosco.
No Santo António de 1980, tinha eu 16 anos e acabado o décimo primeiro ano. A Directora de Turma chamara os meus pais para lhes dizer que eu era inteligente e devia continuar os estudos mas a conversa nem começou porque o velho disse que não ia, não queria doutores na família e doutoras ainda menos - e a minha mãe não se atrevia a contradizê-lo. A minha vida era calcorrear as vielas da Sé, descer do Limoeiro à Baixa, e fazer os recados da avó nas retrosarias da Rua da Conceição, ou subir aos Lóios, descer as Escadas de S. Crispim, apanhar S. Mamede e daí a Rua da Madalena, e na Praça da Figueira fazer as compras para a despensa. Não desgostava daquela vida preguiçosa mas sentia que tinha que haver mais – mulheres a cozer e a bordar o dia todo, as agulhas que se partiam, os dedos que se picavam, a vista que se finava aos poucos, o avô a tossir e a arrastar os chinelos, o velho a chegar ao fim do dia com cheiro a suor requentado, a entregar a marmita vazia e, ao fim do mês, o salário com que se pagava a renda, a água, a luz e o gás, porque a comida, essa, saía das rendas e dos bordados. Sem saber o que queria da vida sabia que aquilo não era vida para mim.
Nessa noite de Santo António fui com um grupo para o Largo da Sé para saltar a fogueira e comer umas sardinhas e um caldo verde. A avó tinha-me dado duas notas de cinquenta, daquelas com a Rainha Santa, e o meu pai uma das verdes, com a cara do Santo que dava nome à noite. Foi nessa noite e no Largo da Sé que conheci o João Carlos, mais velho que eu dez anos, um borracho, lindo de morrer, louro, branco e com olhos verdes de gato. Magro, muito magro, eu também o era, não tinha ainda formas de mulher, era lisa com uma tábua. De costas ou de frente parecíamos dois rapazinhos. O João Carlos não era do bairro, era fino e de boas famílias, morava num andar na Rodrigo da Fonseca, com elevador e aquecimento central. Sozinho, que os pais tinham ido para o Brasil em 74 e por cá o deixaram a estudar Direito e com mesada milionária – ou assim me contou a história. Mudei-me para a Rodrigo da Fonseca nessa noite, noite em que passei da infância ao inferno, sem parar no purgatório.
Hoje é noite de Santo António, tenho vinte anos e sei que estou a morrer. Tornei-me esquelética, quase transparente, os meus ossos furam a pele, que está coberta de manchas negras. Mal respiro, já tive várias pneumonias e ninguém me diz o que tenho. Ou podem ter dito e eu esqueci-me, como costuma acontecer. Só não me esqueço de duas coisas – da explosão que senti naquela madrugada de Santo António, quando o João Carlos pela primeira vez me injectou o cavalo e que a partir daí a minha vida foi a busca incessante de voltar a sentir a explosão.

Paula Tavares de Carvalho

P

minha laranja amarga e doce, meu poema, feito de gomos de saudade, minha pena, pesada e leve,
secreta e pura, minha passagem para o breve breve instante da loucura

Captura de ecrã 2020 09 25 190651

 

 

 

  

 

 

 

 

tema: LITERATURA POTENCIAL. No aniversário da morte de Italo Calvino, escritas oulipianas

 

1 – Técnicas Oulipianas a partir de um texto baseado em escritos de Italo Calvino

Texto base:
Os clássicos são livros dos quais se costuma ouvir: «Estou a reler» e nunca «Estou a ler». No entanto, toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta, como a primeira. Aliás, toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura. Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. São livros que trazem consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes). É clássico aquilo que tende a relegar a actualidades a ruído de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse ruído de fundo.

 

Textos criados na sessão:


...Clássico, seja...

Os ouvintes, oram, operam, olvidam o outro, o outrem.
Ouvindo o ontem ondulando outra, outra ouvida, orando onde oiçam oficialmente.
Ontem ouviu- se oiro
Ontem ouviste oiro
Ontem ouvi onde ouvir
Ontem ouvi como ouvir
Ontem, outrora o ocaso, outro olhar. Onde? Ontem.

Amanhã aprofundarei
Enquanto houver manhãs
Igrejas abertas sem cruz, sino só
Ouvirei sempre como novidade
Uivarei a essa Lua Nova que badalará de noite aquando do meu mergulho...
...Oceano...
L@dyBirdBel
TÉCNICA: TAUTOGRAMA em «o» e ABECEDÁRIO com vogais.

 


Clássicos são os lobisomens dos quais se costuma ouvir: «Estou a remendar-te» e nunca «Estou a libertar-te».
No entanto, todo o remendado por um clássico faz uma libertação de descoberta, como a primeira.
Aliás, toda a primeira visão de um clássico é um rebanho de remendos.
Um clássico é um lobisomem que nunca terminou de dominar aquilo que tinha para dominar.
São lobisomens que tricotam a marca dos lençóis em que nos deitamos e, atrás de si, olvidam as tragédias que deixaram no cunhado ou nos cunhados que atropelaram (ou então, deixaram marca, tão simplesmente, no linho ou no cotão).
Pedro Caeiro
TÉCNICA: S+6 E V+6 - substituir cada substantivo e verbo de um texto pelo sexto que o sucede no dicionário. ​

 


Clássicos são livros dos quais se costuma ouvir “estou a reler”
Ler uma só vez não é suficiente
Aliás, a releitura de um clássico é uma descoberta
Sempre fica a sensação que foi uma primeira leitura
Sempre uma primeira leitura é de facto uma releitura
Ironicamente são livros que nunca mais acabam de dizer o que tem para dizer
Como se trouxessem consigo as marcas das leituras que precederam a nossa
Onde se vislumbram os traços que deixaram nas culturas que atravessaram
Sem prescindir da actualidade, relegam-na para ruído de fundo
Helena Campos
TÉCNICA: ACRÓSTICO com a palavra «Clássicos»


Os livros são clássicos dos quais se costuma ouvir: «Estou a reler» e nunca «Estou a ler». No entanto, todo clássico de uma releitura é uma descoberta de leitura, como a primeira. Aliás, todo primeiro clássico de uma leitura é na releitura uma realidade. Um livro é um clássico que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. São marcas que trazem consigo os livros dos traços que precederam a nossa e atrás de si as leituras que deixaram nas culturas ou na cultura que atravessaram (ou mais simplesmente nos costumes ou na linguagem). É actualidade aquilo que tende a relegar o clássico a ruído de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse ruído de fundo.
Paula Carvalho
TÉCNICA: PERMUTAÇÃO - alterar a ordem dos substantivos do seguinte modo: o primeiro pelo segundo e vice-versa, o terceiro pelo quarto, etc.


Os clássicos são REUNIÕES DE CADERNOS MANUSCRITOS OU IMPRESSOS COSIDOS ORDENADAMENTE dos quais se costuma ouvir: «Estou a reler» e nunca «Estou a ler». No entanto, todo ACTO DE RELER um clássico é um ACTO DE LER de INVENTO, como O QUE NUMA CLASSE OU SÉRIE ESTÁ EM PRIMEIRO LUGAR. Aliás, todO primeirO ACTO DE LER de um clássico é na realidade um ACTO DE RELER. Um clássico é umA REUNIÃO DE CADERNOS MANUSCRITOS OU IMPRESSOS COSIDOS ORDENADAMENTE que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. São REUNIÕES DE CADERNOS MANUSCRITOS OU IMPRESSOS COSIDOS ORDENADAMENTE que trazem consigo OS CUNHOS dOs ACTO DE RELER que precederam O nossO e atrás de si os VESTÍGIOS que deixaram nO ESTUDO ou nOS ESTUDOS que atravessaram (ou mais simplesmente na EXPRESSÃO DOS PENSAMENTOS OU SENTIMENTOS POR PALAVRAS ou nos USOS). É clássico aquilo que tende a relegar a OCASIÃO PRESENTE a OSTENTAÇÃO de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir dessa OSTENTAÇÃO de fundo.
Paula Carvalho
TÉCNICA: DEFINIÇÕES - Substituir alguns termos pela sua definição de dicionário.
 

2 – Redefinições para as Seis Propostas Para o Próximo Milénio de Italo Calvino

Leveza: airosamente, nuvem, voadora, algodão, pairar, bailar, esperteza
Rapidez: estrada, morte, vida, alegria, motor, barulho, explosão
Exactidão: ferozmente, facto, verdade, real, prontidão, escrita, tranquilidade
Visibilidade: mar, terra, binóculos, guerra, importância, família, ilha
Multiplicidade: cidadania, respeito, interrogação liberdade, parafuso, cultura, camaradagem
Consistência: ferro, fogo, navio, avião, avô, laço, puré
Pedro Caeiro, L@dyBirdBeL

Deus livre a Literatura da exactidão
Para isso bastam as ciências exactas
Toda a arte é multiplicidade e leveza
Toda a arte torna presentes os invisíveis evidentes de que é feita a alma
Helena Campos


O livro tem de estar bem escrito, com muitas metáforas, tem de permitir visualizar o que se está a ler, tem de fazer sentir bem. E também um pouco de poesia, é libertador, não enfadonho. Também gosto da consistência, uma coerência no argumento, nas personagens, detalhes que não se perdem.
Leveza – fluidez, elegância narrativa, pormenores, picaresco, pictórico. As histórias-mosaico ou dimensionais com várias personagens a contar a mesma história na sua perspectiva (exemplos: Amor & Cia, Julian Barnes Quarteto de Alexandria, Lawrence Durrell).
Consistência – fio condutor excepção: o surrealismo
Paula Carvalho

 

 

 

20 de Junho | No solstício de Verão, escritas em bola de neve.

Para inspirar: um cadáver esquisito em dança

 

 

1. ÎLLOT – MOLLO

À medida que se escreve, cada um vai dizendo uma palavra em voz alta que todos têm de incorporar no texto

Manifesto Anti-Lockdown

Na Bíblia, primeiro era o verbo, no nosso caso, primeiro foi o lockdown: não sairás de casa ... descontadas as vinte e sete excepções contantes de outras tantas alíneas da lei.
Passámos toda a Primavera confinados no confinamento do lar, a trabalhar em trabalho remoto, dito tele-trabalho. Sem sair.
Primeiro construímos a narrativa da segurança - não se usava máscara porque dava falsa sensação de segurança. Nem se faziam testes porque davam qualquer coisa que parece que também era falsa. Talvez fosse aquilo dos falsos positivos...
Não celebramos Páscoa e muito menos o dia da Mãe.
Tivemos, sim, cravos, discursos e festa na Assembleia, manif na Alameda, autocarros vindos de todo o lado, coreografias de Leni Riefenstahl.
E, de repente, Maio chegou e sem máscara não andarás e testar testarás.
E desconfinar desconfinarás, excepto nas dezassete excepções de outras tantas alíneas da lei.
Desconfinarás a bicas na baixa, a almoços no Bairro Alto, a espectáculos no Campo Pequeno em que os toureados fomos nós, o povão que come e cala – e parece que gosta.
Desconfinarás também na Praia da Rocha, tu de bikini, na espuma das ondas, os Men In Black de fato e gravata e sapato de polimento a calcar a areia.
Não se pode parar para pensar que não foi para estarmos confinados em prisão domiciliaria, a morrer de pobreza, solidão e tristeza, que se fez o 25 de Abril?
E, de repente, chegou o Verão.
Paula Carvalho

Arte de morrer

Iam sem destino pela rua fora numa tarde quente de estio. O mar ao longe era um convite à evasão. Começaram a correr, os ténis leves a bater nos traseiros, até ao primeiro autocarro que encontraram. Atiraram-se para os assentos com a luz do solstício a invadir as janelas.
Quando o veículo parou, soltaram-se como massas pegajosas a escorrer para o areal. O mar agora perto a rugir como um leão na selva. Sentaram-se na espuma à espera das ondas. A maré descia, vazava na direcção do horizonte.
Olharam um para o outro e pensaram que a vida era aquilo, a arte de morrer. Estenderam-se na areia de olhos fechados, crianças balbuciavam ao longe, talvez um cão. O trabalho que dava morrer devagar. O som de um barco, talvez de um avião no céu sem nuvens.
Não construímos nada na vida – pensavam em uníssono. Porque a maré vazava naquele dia em vez de subir? Teria dado jeito. Até a maré estava em desacordo.
No passado, circulavam sapatilhas de borracha que se vendiam à entrada daquela praia, assim como tábuas de madeira que os velhos alugavam em busca de iodo para uma saúde débil
Agora, nem sapatilhas nem tábuas, restava uma praia pedregosa abandonada entre limos e algas. Abandonada como eles aos ventos do ocaso.
Helena Campos

2. HISTÓRIA COLABORATIVA

A partir de nome de personagem, tique, ditado popular, cor e outros elementos escolhidos previamente pelos participantes.

Penélope costumava dizer que de bom grado deixava o bom gosto todo para os outros e que ela se bastava com ter o gosto de gostar de amarelo.
Tudo começou por acaso, que é como começa quase tudo, a mãe, costureira numa loja de vestir, trazia para casa, no fim de cada estação, os monos a que dava a volta e transformava em roupas decentes para Penélope e Ulisses, os gémeos que havia tido com Ambrósio, seu falecido – não porque ele se finara mas porque se finara o casamento – as cores claras e alegres, como o amarelo e o vermelho, eram para Penélope, as mais discretas – azul e verde (credo, escarro na parede!) para Ulisses. Mas, num Carnaval, Ulisses tivera direito a um fato azul e vermelho com o homem morcego estampado, enquanto Penélope se vestira de veludo azul, como a Pequena Sereia, aquela cuja verdadeira história nada tinha de Disney mas era sim um repositório de horrores e de violência de género – maldito Andresen, reflectia Penélope, enquanto coçava a cabeça, e que ainda bem que tudo se passara há umas décadas pois se fosse agora teria a pobre da mãe sido acusada de perpetuar estereótipos de género.
Paula Carvalho

Algures na China
Os morcegos de dentes arreganhados eram um grande problema.
Gostava do azul do crepúsculo colado com a noite, do silêncio deserto do mercado nocturno, um vasto chão cheio de sangue coalhado, animais esventrados. Os dentes dos morcegos a faiscar no escuro.
Ambrósio circulava pelas sombras cosido com o negrume, ainda assim apanhou o vírus. Quem anda à chuva molha-se.
Helena Campos

Até já! Voltamos depois do Verão.

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