Blog

LABORATÓRIO DE TEXTOS

Esta é uma fresta por onde se pode espreitar o nosso laboratório.

Gostamos de experimentar textos, inventar espaços e condições especiais e neles deixarmo-nos espantar pelo que acontece.

Aqui, recolhemos algumas das linhas que vão sendo criadas em diferentes oficinas. Algumas delas, dirigidas a antigos alunos, como a Naftalina, são iniciativas regulares; outras, abertas a quem por cá passa, são encontros e iniciativas extra-aulas. Placas de Petri.

Os textos, produzidos no tempo e condições das sessões, têm como único — e suficiente — critério de publicação a vontade do seu autor de vê-los aqui reproduzidos. Experimente ler, mas proteja-se: o prazer da experiência pode ser contagiante.

«Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve.» Vergílio Ferreira

zzzlabirint

Unidos, separados, rivais ou cúmplices, a relação entre o «eu» e o «eu escritor» ocupou parte da sessão de hoje. O ponto de partida foi o texto seguinte de Jorge Luís Borges:

«Ao outro, a Borges, é que sucedem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e demoro-me, talvez já mecanicamente, a olhar para o arco de um vestíbulo e o portão gradeado; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo o seu nome numa lista de professores ou num dicionário biográfico. Agradam-me os relógios de areia, os mapas, a tipografia do século XVIII, as etimologias, o gosto do café e a prosa de Stevenson; o outro partilha comigo estas preferências, mas de um modo vaidoso transformando-as em atributos de um ator. Seria exagerado afirmar que a nossa relação é hostil; eu vivo, eu deixo-me viver, para que Borges possa tramar a sua literatura, e essa literatura justifica-me. Não me custa nada confessar que alcançou certas páginas válidas, mas estas páginas não podem salvar-me, talvez porque o bom já não seja de ninguém, nem mesmo do outro, mas da linguagem ou da tradição. Além disso, eu estou destinado a perder-me, definitivamente, e só algum instante de mim poderá sobreviver no outro […] Há alguns anos tentei livrar-me dele e passei das mitologias de subúrbio aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora são de Borges e terei de imaginar outras coisas. Assim minha vida é uma fuga e tudo perco e tudo é do esquecimento, ou do outro. Não sei qual dos dois escreve esta página.»
Jorge Luís Borges, Borges e eu


A escritora e eu
Não escrevo sobre coisas de que não gosto, que não conheço.
Quando escrevo, prefiro encontrar “inspiração”nas lembranças, em todas aquelas coisas que me dão alegria.
Escrever para mim revelou - se algo inesperado. Nunca tinha pensado em que um dia podia tornar-me uma escritora. Por amor de Deus! Não me considero verdadeiramente uma escritora, mas o exercício de escrever dá-me a oportunidade de mergulhar em outros mundos, é como um desafio, também linguístico, que me permite em certo sentido de lançar uma ponte entre o meu aqui e o meu ali, de me aproximar a realidades também distantes. E de traduzir em palavras a minha imaginação, os meus desejos, as minhas saudades...

Giuseppa Giangrande


O laranjinha de olhos verdes saltava-me para o colo e estendia o dorso que eu afagava, numa volúpia de carícias, até à cauda ondulante. Quando eu parava, miava deliciado e colocava as patas dianteiras nos meus ombros, encostando os bigodes à minha face.
E assim ficava eu tardes de verão com um gato agarrado a mim, num abraço laranja e felpudo. Nesses dias, tínhamos longas conversas em gatês em que nos compreendíamos perfeitamente. Ele lamuriava-se nos seus miados delicados e eu respondia, na mesma língua, numa toada íntima.
Certo dia, a porta ficou aberta e ele atreveu-se a conhecer mundo. Foi barbaramente abocanhado por um cão.
E, no entanto, nunca escrevo sobre isto.
Eu odeio cães desde a infância, seres quezilentos de bocarra escancarada, sempre a ladrarem estrondosamente, a rosnarem com os dentes afiados ávidos de morder, e na sua malvadez, assassinaram o meu querido gato. Eu odeio cães, mas apesar disso, são eles que aparecem nas minhas ficções, são eles que são fiéis às minhas personagens, são eles que ganem de mansinho, de olhos a pedir festas, nas entrelinhas dos meus textos ficcionais.
Igualmente, eu que toda a vida fiz fila nas paragens de autocarro e desci escadas de metro por entre as turbas agitadas, eu que nunca sequer tirei carta de condução, apresento as minhas personagens ao volante de potentes automóveis, a atirar para as janelas embaciadas espirais de fumo de um cigarro que eu nunca fumei.

Helena Campos


A escritora e eu
Ela escreve à mão e sofre com os dedos presos que eu estraguei pelos teclados. Prefere a verdade dessa dor, a verdade da caligrafia irregular, das palavras hesitadas e riscadas. Eu faço outras escritas - mentiras rápidas a preto e branco, tiros ao alvo. As madrugadas fascinam-nos, mas eu já não a acordo tão cedo como antes e, com o tempo, acabámos por partilhar também a preguiça. Perco-me na poesia e tento impô-la à outra. Em vão. Não se atreve, diz. Mas, aqui e ali, há uma personagem que fica parada a contemplar um fruto que amadurece, alguém com um abraço que derrete serras de neve. Sem ela saber, boicoto-lhe os movimentos. Preencho-lhe os dias com mudaneidades, distraio-as com frases-feitas, faço-a corar com textos berrantes. Não sei quem é mais impostora.
C. Borges

«Não só não me importo, como acho uma honra ser pirateado», Miguel Esteves Cardosozzz_olho.jpg

O intertexto cruza linhas de vários autores para criar uma nova narrativa, apropriada e recontextualizada pelo autor. É uma das forma mais irresistiveis de partir para a escrita e de soltar a criatividade. Também para o leitor há o prazer em descobrir as «piscadelas de olho» que o autor vai deixando com citações e referências.

Na sessão, partimos de exemplos visuais, o Caravaggio da Cindy Sherman, por exemplo, e lemos Alberto Pimenta e Chico Buarque. Como material base para o intertexto, os participantes tinham alguns textos bem conhecidos: o Fogo que arde sem se ver, a Balada da Neve do Augusto Gil, os primeiros artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, uma lista de provérbios, um excerto do Cântico dos Cânticos o início do Inferno de Dante. Os participantes trouxeram ainda Fernando Pessoa.

 

Noite
É noite, fecho os olhos e vejo-me a caminho da Praça do Comércio. É uma noite brilhante como uma estrela, mas sopra uma ligeira brisa que acaricia o Tejo. Aproximo-me à beira, estou perto do Cais das Colunas.
Aparece um barco a vela, com velas brancas, parece um daqueles navios que há muito tempo sulcavam os mares e que se tinha perdido no mar indefinido, como escrevia Pessoa. O rio é assim, é como um mar indefinido.
Fico com fixos olhos rasos de ânsia
Fitando a proibida azul distância...
Abro os olhos, agora não estou mais lá fora, em Lisboa, mas perto de uma janela a fitar o céu estrelado, outro mar indefinido.

Giuseppa Giangrande
A partir de A Noite e outros texto de A Mensagem, Fernando Pessoa

 

Pau que nasce torto nunca se endireita.
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos, para inglês ver. No final do dia:
Não sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer ser nada
Á parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Sonhos que nunca se concretizam porque a tesoura do mal é incansável na poda das minhas vãs esperanças de realizá-los.
E é assim que
No meio do caminho da vida
vi-me perdida numa selva escura
E uma infinita tristeza
uma funda turvação
entra em mim, fica em mim presa
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?

Helena Campos
A partir de: provérbio popular, Declaração Un.Direitos Humanos, Álvaro de Campos (Tabacaria), Dante (Inferno), Augusto Gil (Balada da Neve).

 
 

 

 z book

Histórias completas (a partir de novembro/21)
 

Duvidar é humano e eu sou apenas humana (completo)

Não devia ter sido tão assertiva. Fui um tanto rude. Mas de que outra maneira poderia eu defender-me? Ela agiu mal e eu tinha que a fazer ver isso mesmo. Não porque eu lhe esteja a tentar dar uma educação que ela não teve, mas sim porque ela tem que perceber que não pode esperar tratar-me daquela maneira sem que eu responda. Não deixarei que a minha pacificidade demonstrada até então seja confundida com fraqueza. No entanto, mesmo sabendo que ela agiu mal pelo que fez, não consigo não me sentir mal, culpada pela maneira como falei. Talvez houvesse outra maneira de me expressar. É uma parvoíce, eu sei. Mas é humano duvidar, é humano errar. De certa forma, quem me diz que ela não está a pensar também no mesmo? Pela pessoa que é não creio que seja o caso. Mas não tenho a certeza, naturalmente. Quero ser uma pessoa melhor, não quero errar. Mas de que forma espero eu melhorar sem errar?
Eu sou uma máquina a fazer erros, erros em linha de montagem, erros em cascata, o erro sistemático, o erro em dominó, o erro tragédia grega.A babel da linguagem, a polissemia, as múltiplas interpretações de uma frase.
Aspiro a uma vida bonançosa e não à sobressaturação em que vivo atolada.
Ela era a minha chefe, a minha patroa, dela dependia a minha sobrevivência.
Que naquela empresa não havia teletrabalho – disse ela com displicência
- Como? – espantou-se o inspector da ACT – estamos em pandemia!
E chamou-se o sindicato e 3 doutos advogados para clarificar a frase.
- Chame a polícia! Meta em tribunal!
Já imaginava as calúnias no tribunal.
- Chega sempre atrasada, passa a vida no dentista, não sabe nada.
Os machistas dos juízes haveriam de ficar do lado da entidade patronal, e eu estou farta desta violência opaca que nos tolhe.
Vi-me a mim própria, como um autómato de cera, a assinar um acordo de revogação infame e suicidário e sair porta fora para uma Lisboa alienada.
Sim, a alienação apoderou-se de mim, assim como da cidade. A minha cabeça estava confusa, vagabundava pelas ruas de Lisboa, sem que percebesse nada do que estava a acontecer ao meu redor.
Assim transcorreram as horas, num caminho que parecia sem fim.
Era já noite, apanhei um eléctrico que me levou a dar a volta à cidade, parecia que estava num carrossel, numa ronda louca que não parava.
Acho que acabei por adormecer, porque de repente uma mão me sacudiu do torpor em que me encontrava.
Saí do eléctrico, que me restituiu de qualquer maneira à vida, na cidade vazia.
Desde uma janela rompeu o silêncio da noite uma antiga canção italiana: Città vuota e fiquei a pensar em como podia sair daquele beco sem saída...
A filosofia new age veio em meu auxílio e uma das minhas vozes (chamo-lhe Bette porque é uma típica personalidade de tipo A, sempre motivada para me pôr em movimento. É verdade que a Bette original não é nada new age, mas no calor dos apuros estas distinções são detalhes com pouca importância), recitou: Uma longa viagem começa com um único passo!
E os meus pés obedeceram, começaram a mover-se, um à frente do outro, em direção à janela de onde provinha a canção «Le strade piene/ La folla intorno a me/Mi parla e ride».
Nisto, o telemóvel começou também a cantar dentro na mala, «Peguei, trinquei e meti-te na cesta,/ ris e dás-me a volta à cabeça/Vem cá, tenho sede, quero o teu amor d'água fresca/ Peguei, trim».
- Alô?
- Estou a falar com a senhora Clara Machado dos Reis?
- A própria.
- Sou o senhor Calvo, do sindicato. Estou a telefonar-lhe para resolvermos esta situação amigavelmente.
Foi nesse momento que a sua personalidade mais pragmática, a Senhora Custódia, se manifestou.
-Já está resolvido, não se preocupe.
Antes de o homem poder responder, Custódia tirou da mala o controlo remoto e premiu o botão. Clara recuperou os sentidos com o som da explosão do edifício para o qual tinha retornado, ao som da música sugestiva das suas personalidades.
-Desculpe, não a consegui ouvir bem com o barulho de fundo?
Clara desligou o telefone, horrorizada com o sucedido, mas depois, a música regressou. De olhos arregalados para as chamas, um pé começou a mover-se, depois o outro. As mãos também inconscientemente se juntaram à dança. Por fim, Clara entregou-se ao impulso súbito de se despedir da sua antiga vida e começar de novo. Tudo graças às suas ricas amigas. Conheciam-na de ginjeira e sabiam como motivá-la a resolver os seus dilemas existenciais.
Clara Barreto
Helena Campos
Giuseppa Giangrande
Patrícia Louro
José Maria Covas

Fantasmas na biblioteca (completo)

- Você andou no liceu ABC – irrompeu uma voz no silêncio da biblioteca municipal.
Eu levantei os olhos para ver quem falava, mas não o reconheci. Tinha ido à biblioteca ultimar uma pesquisa necessária e não esperava que o passado se intrometesse, de rompante e a más horas, na calmaria ordeira do presente.
Fixei o meu despropositado interlocutor e respondi:
- Sim, é verdade, mas isso foi há 35 anos.
Mas para ele não havia 35 anos, era como se estivesse plantado e enraizado no ABC e o passado fosse eternamente presente, sem descolar do chão sagrado da infância.
- Mas você era da minha turma? – perguntei, perscrutando o seu rosto, subitamente rubicundo, em busca de perceber quem ele era.
O meu cérebro, atafulhado e gasto, não conseguia localizar, assim de repente, no catálogo de colegas da adolescência, quem era aquele sujeito.
- E você foi para que área? – indagou ele, antes de fugir com uma pressa inusitada, deixando-me a olhar para aquela porta que vai dar ao passado.
Aquilo da área fez-me localizá-lo, tinha-me cruzado com ele, nos idos de 84, no gabinete de orientação vocacional do 9ºano, onde eu desgracei a minha vida ao escolher a área errada.
Depois, voltei a encontra-lo mais 3 vezes, em diferentes bibliotecas, como um fantasma, que surgia do nada, abalroando o silêncio daqueles templos de leitura e acabando por fugir velozmente, como se fugisse para o interior dos livros.
Voltei à primeira biblioteca. Estava decidida a continuar o trabalho de pesquisa com que me tinha comprometido. E isto apesar do pânico de ser máquina nervosa de não escrever coisa nenhuma. Afinal aquela história de fantasmas não podia ser verdade. Claro está; não contei a ninguém; não me fossem dar como louca varrida por um fantasma do 9.º ano. Vá lá, não tinha as cuecas rotas; já não era mau.
— Parvoíce. — exprimia o meu cérebro.
Sentei-me noutro sítio. Justamente, o oposto de onde me sentava habitualmente. Não fosse o Senhor Fantasma tecê-las e aparecer-me de novo. Abri, mais uma vez, O Discurso do Método, cuja tradução portuguesa insistia em chamar «Renato Cartésio» a Monsieur Descartes. «O bom senso é a coisa do mundo mais bem distribuída».
— Que reconfortante; nada melhor que ideias claras e distintas! — desabafava o meu cérebro consigo mesmo.
O fantasma inesperadamente saiu do livro e falou-me:
— Pandam, pandam. Aqui ‘tou eu; em espécie de malin génie.
— Cruzes canhoto! Lá está ele outra vez. — expeli eu de surpresa.
Julguei estar louca; lá continua ele a turvar-me as ideias, agora escuras e indistintas. Qual corcundinha perturbador, das histórias de infância alemães, do início do século, ele assobiava e girava os livros sob a mesa. O Senhor Bibliotecário olhava-me com um ar inquisidor, pois eu fechava os livros de rompante — na sua perspectiva claramente redutora — para que eles (os livros) o levassem.
— Raios o partam! — pensava o meu cérebro indiscutivelmente atarefado.
Ele corria entre as estantes dos livros e eu, num ímpeto, corria atrás ou através dele.
— Já nem sei bem. — lamuriava-se o meu cérebro que já não aguentava com uma gata pelo rabo.
Tudo isto foi o suficiente para que o bibliotecário se precipitasse atrás de mim a correr, gerando uma perturbação generalizada na biblioteca normalmente pacata.
O Senhor Fantasma abriu a porta do passado — a tal por onde o havia reconhecido da primeira vez — e sem hesitar corri atrás dele, entrando lá para dentro. Ou era isso, ou teria que explicar algo inexplicável ao Senhor Bibliotecário.
Lá entrei e ele esfumou-se.
Um ambiente profundamente azul, mas de uma claridade inusitada. Um passo instrumental de tonalidades inescrutáveis e na minha cabeça um gira-discos impossível cantarolava lentamente: «Huuummm / She wooore bluuue veeel-vet / Bluer than velvet was the night / Softer than satin was the light / From the stars / She wooore bluuuue velvet / Bluer than velvet weeere her eyes». Era uma sala toda enfeitada com espelhos emoldurados à maneira dos russos. Enormes, douradamente espalhafatosos, mas de algum modo graves. Cada espelho reflectia a imagem de uma fase da minha vida até aos idos de ‘84, onde eu me via acompanhada desse fantasma. Ele-mesmo, o Senhor Fantasma, mantendo-se igual a si próprio, mas em situações onde não poderia ter estado, segundo a memória que o meu cérebro conservava desses eventos. E o disco girava repetitivamente na minha cabeça nesse tempo em suspenso como uma fotografia, cujo canto inferior esquerdo estava queimado pelo sol.
Abri os olhos na hora do fecho da Biblioteca, cabeça encostada nos braços, sobre o livro. Pisquei várias vezes em busca da imagem do azul infinito do meu pesadelo, entre atração e horror... Mas tudo parecia igual, a mesma mesa, na mesma sala de sempre. As pessoas saiam da sala aos poucos, silenciosamente, apenas murmúrios de despedida ao bibliotecário. Habitantes normais deste mundo recolhido, não identifiquei o meu fantasma nem os fantasmas de mim própria.
Levantei-me devagar, receosa do que poderia ser real ou imaginário, de ser novamente tomada por aquela memória psicadélica dos meus receios. Não acreditava que o pó e o tédio do “Discurso do Método” pudessem ter um efeito tão fantasioso. Não tinha experimentado cogumelos...
Invadiu-me o medo, a idade... a saúde... teria tido um AVC? Já que li que nas paragens do coração, quando e cronometro do nosso corpo interrompe, o nosso cérebro passa-nos rasteiras, o passado nos assalta e o azul, um azul profundo nos arrasta.
Quando cheguei a casa encontrei o Discurso do Método na entrada. Quem teria tido a amabilidade de mo entregar? Talvez alguém vira como o meu estado mental me tinha feito deixar o livro na mesa da biblioteca, com a folha de requisição por cima. No entanto, a folha de requisição permanecia vazia.
Ao folhear as páginas deparei-me com uma carta dirigida a mim pelo meu colega fantasma. Nesse momento, o filme da nossa vida passou à frente dos meus olhos e, não aguentando mais, caí no chão, enquanto as lágrimas inundavam-me a cara. Mas por que razão eu lhe tinha pedido para me impressionar com um gelado naquele dia abrasador? Talvez se não tivesse atravessado a rua a correr, para apanhar a carrinha, estaríamos na mesma área, a fazer juntos pesquisa na biblioteca…
E, como disse, passaram pelos meus olhos imagens de um passado que, muito infelizmente, não vai voltar.
Apesar de tudo, não tinha morrido, nada disso... andava a ler aquela carta e as lágrimas continuavam a cair copiosamente...
O texto, ao final, lembrou-me algumas coisas que tinha esquecido e que estavam escondidas no fundo da minha alma. Agora entendia o que aquela visita inesperada nas várias bibliotecas significava para mim: eu tinha sempre considerado as minhas escolhas como um erro, mas talvez não fosse assim... sim, finalmente podia entender também o sentido da vida e do ser feliz: é importante não ter remorsos e a felicidade é amar o que se tem...
Aquele fantasma tinha irrompido na minha vida para me lembrar disso e agora queria muito reencontrá-lo para agradecer, quiçá possa ter novamente essa oportunidade...

Helena Campos
Benjamim
Helena Aragão
José Maria Covas
Giuseppa Giangrande

O desafio (completo)

Não tinha escrito já há muito tempo, não tinha vontade de fazê-lo, não sei por quê.
O meu amigo, o meu editor, vendo a minha indolência, desafiou-me a escrever algo, estava em jogo a minha reputação de escritor de renome. Deu-me um ultimato: dois dias para escrever uma história, não era importante o quê. Fundamental: ter uma história.
Então, o que fazer? Comecei a fumar como uma chaminé e daquelas linhas traçadas pelo fumo, começou a surgir algo interessante, pelo menos assim creio...
Para encontrar inspiração, tomei a decisão de dar um passeio, chegar até o rio e desfrutar do dia soalheiro.
A vista de um barco à vela sugeriu-me que podia escrever algo sobre mundos diferentes, longínquos, apesar de eu nunca ter viajado...
De afogadilho, corri como o vento para a minha casa e sentei-me para começar a escrever: frente a mim, a janela aberta, através da qual entrava uma leve brisa que levantava ligeiramente as folhas de papel que tinha posto no meu escritório. Na minha mão, a caneta... desta vez não ia escrever ao computador...
As caravelas traziam especiarias e sedas das Índias e era uma grande barulheira no cais, uma azáfama de promissora riqueza e ociosidade.
Um sujeito de chapéu negro e vestes negras olhava o cais e escrevia de pé sobre uma pedra. Outro sujeito, cego de um olho, nadava furiosamente, com um manuscrito amarrado aos cabelos.
A terra estremeceu e as caravelas foram arremessadas para longe. Impossível atracar no cais. O cais, essa saudade de pedra, um quinto império obliquamente visionado, ali na barra do tejo.
- Olha o barco! – grita alguém, interrompendo a torrente de palavras do escritor.
Quando olhei para o cais, achei que estava a sonhar. A caravela da minha história tinha se materializado no rio. O pobre zarolho agarrava-se à âncora que velozmente descia enquanto a tripulação desembarcava. Finalmente a minha escrita tinha feito algo de bom!
Corri até ao barco na ânsia de ajudar o famoso escritor que se estava a afogar. Estendi-lhe a mão e, ao sair da água, a figura apressadamente desenrolou os cabelos para confirmar se o manuscrito estava intacto. A maré de alegria visível na cara do poeta despertou um negro impulso dentro de mim. Lembrei-me do ódio que sentira quando o meu editor me comparara com ele em termos de sucesso literário. Foi por isso que arranquei das mãos calejadas do náufrago o trabalho da sua vida e, de seguida, o incendiei com o meu isqueiro.
Ai! Rasguei o silêncio com um grito. Não fosse o cigarro queimar-me o dedo e não me aperceberia das chamas que comiam o papel. Sempre tive um sono profundo. Na minha atrapalhação, tentei apagar o fogo com as folhas que já tinha escrito. Idiota. A brisa tinha-se transformado num vento forte e espalhou as fagulhas por todo o escritório. Matei o assunto de uma vez por todas com a camisola que me tinha oferecido a Dulce, a mulher que escrevia livros duas vezes. Fechei a janela, com força. Na minha secretária, encontrava-se uma mancha negra onde antes pousavam páginas escritas. Empurrei o entulho para o chão e voltei a pegar na caneta. Entre calores: do suor e da irritação, veio a mim a determinação de Camões.
Eu era um escritor!
Um dia e meio, chegava. 
O sonho pode materializar-se, fechei os olhos, respirei fundo e voltei a ver a caravela. Agora ela partiu do porto rumo ao oceano para explorar, descobrir e enfrentar obstáculos como outras séculos antes o fizeram, pois há a uma imensidão de saber no mar que ainda não foi conquistado pela humanidade.
A pequena caravela já não leva aprendizes de marinheiro imundos a bordo, mas sim uma equipa de cientistas para estudar ecossistemas marítimos. Já não abre caminho para conhecer novas terras e gentes, mas saberes provenientes das profundezas do mar.
A aventura agora é outra, o desafio da minha caravela é explorar novas formas de vida que nos permitam construir o um mundo mais sustentável. Ela parte eu vejo-a desaparecer ao longe no imenso azul e aguardo pelo seu regresso, pelas novidades que ela me trazer de volta que e permitam à humanidade enfrentar os novos desafios do futuro.
Giuseppa Giangrande
Helena Campos
José Maria Covas
Rita Santos
Sandra Martins

 

 

O Labirinto das Escolhas 

Apareceram-lhe 5 ofertas de emprego ao mesmo tempo.
Na vida é sempre assim: durante largo tempo não temos nada, mas quando aparece algo, aparece às catrefadas, um engarrafamento de oportunidades e o peso inexorável da escolha.
E escolhemos sempre mal, e depois a culpa, a responsabilidade, a suprema angústia sartreana de quem está condenado à liberdade.
Sempre fora torturada por indecisões intermináveis e naquele instante voltou à estrada que se bifurca, à vertigem da decisão, a memória que se repetirá para toda a vida: porque não escolhi ao contrário?
Desenhou uma grelha com 6 linhas e 3 colunas onde escreveu as 5 hipóteses, vantagens e inconvenientes de cada uma, na senda de um qualquer algoritmo de engenharia decisional que lhe iluminasse a escolha acertada.
O algoritmo não surgiu, as vantagens e desvantagens cintilavam aleatoriamente em toda a tabela.
Era um momento pluripotencial, em que tinha abertos todos os destinos, todas as possibilidades, como um deus cego, ou como um escritor diante de uma página em branco.
O que fazer então? Decidiu entregar-se à sorte. Preparou cinco papelinhos em que escreveu os nomes dos cinco empregos - entre eles, havia um trabalho numa escola, um emprego de secretária, uma oferta para trabalhar numa editora em Lisboa, o que teria significado deixar a sua cidade, mas quem sabe... às vezes as maiores incógnitas escondem surpresas agradáveis - e começou o sorteio da sua lotaria. Tirou à sorte o primeiro papelinho e saiu a oferta de trabalho em Lisboa. Ficou um pouco perplexa e já que não estava convencida quanto àquele primeiro sorteio, tirou à sorte novamente. Parecia que o acaso estava a fazer pouco dela, porque saiu outra vez a oferta de emprego em Lisboa... Interrogou-se sobre aquela coisa tão estranha, estava preocupada com o dilema, agora o importante era saber o que ela verdadeiramente queria, ou seja... será queria realmente dar um salto para o desconhecido?
Novamente perante aquela encruzilhada .
Ou escolher aleatoriamente o que a sorte lhe destinava ou interiorizar bem o que queria fazer
Voltou a fazer uma tabela analisando os pontos negativos e positivos
De facto sair da sua zona de conforto onde se movimentava com segurança e partir para a cidade grande, impessoal, sem pontos de referência eram um ponto negativo
Iniciar um trabalho que parecia aliciante pois tratava-se de um projecto inovador com uma equipa jovem que parecia integrar- se no seu perfil eram um ponto positivo.
Resolveu contactar o responsável da empresa para esclarecer algumas duvidas e o resultado foi muito esclarecedor poderia ficar a trabalhar em casa, os encontros de grupo eram na maioria das vezes on-line, só precisava de ir a empresa uma vez por semana e ordenado era aceitável para uma principiante.
Então estava decidido não?
Não! o bichinho da dúvida persistia e se … na outra empresa as condições fossem ainda melhores?
Tomou então uma decisão, fez um novo quadro com todas as questões que queria perguntar nesta outra empresa com o registo de impressão positiva ou negativa para cada uma das questões e no final teria mesmo que decidir.
Então ligou…
- Memorex Limitada, bom dia!
- Bom dia... é por causa do anúncio de emprego...
- Senhorita, a entrevista é hoje, daqui a 20 minutos! É vir já, é vir já!
A voz urgente não lhe dava outra alternativa. E, se calhar, o melhor era não ter tempo para pensar.
Saíu do metro a correr e deu logo com o nome da firma em letras elegantes numa placa de vidro. Entrou no prédio e abriu o elevador - era antigo, de madeira, ferragens douradas e até com banquinho de veludo vermelho encostado ao espelho. De que tempo viria?
Estendeu a mão para a porta do escritório que se abriu de par em par. Estava numa enorme recepção de tecto alto pintado de anjos rosados e nuvens gordas.
- Boa tarde, senhorita!
Baixou os olhos até ao seu interlocutor.
- Amado Rubro, gerente. Por aqui, por aqui, venha senhorita...
Seguiu o homem por um longo corredor de tapete alto e fofo. As portas de um lado e outro mostravam gabinetes - um totalmente verde, decorado com plantas carnudas, outro, com tapeçarias indianas nas paredes, um, de espelho, outro, branco leitoso.
Entraram numa sala de reuniões. Trazia o curriculum na mão.
- Sim, sim, tudo visto, é para começar já..
- Mas..., o salário..., as condições...., o horário... ? - a lista de perguntas tão bem ensaiada esbarrava com a pressa frenética do gerente.
- É tudo como está na carta da senhorita. Vamos começar, que temos muito que escrever!
- Mas... escrever o quê, para quem, enfim... qual é o vosso ramo...?
- Memorex, senhorita, Memorex: fazemos memórias, novas recordações à la carte para clientes especiais. Vamos, vamos...
O seu novo trabalho tinha três tempos distintos: o de pesquisa, o da leitura e o de escrita. Levou-a a bibliotecas, a arquivos, tanto públicos, como pessoais, debruçando-se sobre inúmeros documentos, diários, cartas, fotografias, enfim o essencial de uma vida. Passava desses materiais, para as entrevistas, para os relatos na primeira pessoa, embora soubesse que quem conta acrescenta sempre um ponto. O passado ia-se compondo à frente dos seus olhos. Lia, relia, de forma objetiva, e só então, passava para a escrita, para a parte ficcionada, embora fosse importante ter um referente real.
Era essencial que a história fosse verosímil, que estivesse enquadrada no espaço e no tempo certo, senão, havia o sério risco de a invenção ser descortinada. Na Memorex, Lda. isso era um pecado capital, que poderia incorrer em processos morosos por parte dos seus famosos clientes, que pagavam as memórias em peso de ouro. Os clientes gozavam de um estatuto de privacidade total, levando a que todos na empresa tivessem assinado um contrato de confidencialidade, redigido pelo melhor escritório de advogados da cidade. Quando havia problemas no escritório, vinha sempre um batalhão deles, para ajudar nas questões legais.
Descobriu o seu talento para criar memórias infalíveis, tão possíveis de serem reais, que ninguém seria capaz de apresentar prova contrária. O seu momento favorito, era sentar-se à secretária de carvalho castanho escuro e deixar os dedos voar no teclado do computador. Quanto mais escrevia, mais sentia que tinha encontrado a sua vocação. E quando os clientes a pediam especificamente, embora trabalhasse sobre um pseudónimo, dava-lhe uma enorme alegria, sentia-se reconhecida. Era quase irónico, que ao investigar a vida de outras pessoas, tivesse começado a compreender de outra forma a natureza humana, dando-lhe também a ela uma segurança nos seus passos. Ela mais que ninguém, com as suas indecisões e com o seu passado desinteressante, conseguia compreender porque os clientes pagavam por essas memórias, por isso era tão boa no seu trabalho. Enquanto escrevia memórias, ia ao mesmo tempo escrevendo em paralelo um novo capítulo na história da sua vida.


Helena Campos
Giuseppa Giangrande
Isabel Soares
C.Borges
Filipa Bernardo

 

Ludmila e os Anjos

    Compravam cartuchos de cerejas e iam comê-los para os jardins, faltavam às aulas e aos trabalhos sem que nada de mal lhes acontecesse, adoravam algodão doce, baloiços, o nascer do sol e a lua cheia. Observando bem, percebia-se que, homens ou mulheres, todos inham bochechas como nuvens e soltavam risinhos que despertavam brisas lilases. Mas, de resto, estava a ficar cada vez mais difícil distingui-los dos verdadeiros seres humanos. Ludmila não estava contente com isso. Tinha acordado cedo, como sempre, e quando abriu a janela para deixar o resto da torrada aos pardais, viu um deles. Decidiu agir drasticamente.
   Meteu a cabeça fora da janela e gritou:
- Tu aí aproxima-te, quero-te conhecer melhor, saber como e onde vives e como poderemos ser amigos.
Mas ele, esvoaçando perto da janela, fixou-a com os olhos brilhantes e soltando um risinho maroto, deixou cair delicadamente uma cereja apetitosa no parapeito da janela.
Depois voando aos zig-zags no céu escondeu-se atrás de uma nuvem desapareceu como por magia
Voltou a gritar:
-Não me podes fazer isto.
Precisava de descobrir uma forma de o conquistar. «Já sei», lembrou-se, « talvez procurando naquela arca da minha avó, guardada no sótão e cheia de livros antigos, eu descubra algum texto sobre artes de comunicar com o sobrenatural, e assim consiga encontrar uma forma de os cativar…»
Então Ludmila foi ao sótão. Num primeiro momento não conseguiu ver a arca, escondida coberta por um lençol de cor azul. Levantou devagarinho o lençol que, por sua vez, fez alçar uma leve nuvem de pó, abriu a arca e ali estava o tesouro da sua avó: uma verdadeira biblioteca com textos de diferentes géneros que difundiam uma aura quase mágica. Tinham títulos como: A magia da música, O encanto do mar, Outros mundos... Entre os textos encontrou o que estava a procurar, mas só a imagem da capa deixava entender que o livro tinha a ver com os anjos: leu o título escrito numa língua desconhecida: Melekler... quem poderia agora ajudá-la a decifrar aquele idioma tão esquisito e para ela desconhecido? E então perguntou-se como teria aquele livro chegado até a arca da sua avó...
Ao abri-lo, deparou-se com uma carta, com uma caligrafia irrepreensível, as letras todas alinhadas e bem caligrafadas, sinal que a mesma já tinha alguns anos. Sabendo que estava a cometer uma ilegalidade, porque as cartas que não nos são endereçadas, não são para perscrutar, Ludmila começou a lê-la.
«Querida Jesus, com o mavioso toque da minha caneta, e como prova de todo o meu amor, ofereço-te este livro, redigido numa escrita que apareceu por volta do ano 500 a.C, na Península Ibérica, conhecida como a Escrita do Sudoeste, e que fala de anjos que apareciam para dar fortuna e boas colheitas aos povos que habitavam esta coordenada geográfica da Hispânia. Se o quiseres desvendar, segue até Loulé e procura pelo Senhor Maia dos Anjos. Toda a gente o conhece.»
Do teu, e aqui a leitura era irreconhecível.
Ludmila ficou sem saber o que pensar. A avó teria tido um amante? Valeria a pena descodificar aquela escrita? O senhor Maia dos Anjos estaria ainda vivo?
   «Ora a avó nasceu em 1918» – pensou com os seus botões – «há mais de um século portanto, morreu há dez anos, já entrada nos noventa, o senhor dos Anjos deveria rondar essa idade, dificilmente estará vivo. Uma pena que a mãe não esteja bem da cabeça, nem vale a pena perguntar-lhe, só iria gerar confusão...Por outro lado, ela parece lembrar-se melhor dos acontecimentos do passado. Loulé, Loulé, porquê Loulé? Toda a nossa família é beirã, bem toda, toda também não sei, porque a mãe é filha de pai incógnito incógnito, não daqueles incógnitos no registo mas que toda a gente sabia quem era. E por isso o autor da carta não era amante – será que era o avó incógnito?».
Ludmilla «googlou», sem convicção, «Maia dos Anjos», como única resposta apareceu uma sociedade de advogados no Brasil que dava pelo nome de «Maia & Anjos» e certamente não teria nada a ver com o assunto.
«Oh, que irritação!»
Abeirou-se da mansarda, olhou o jardim que anoitecia devagar, convidando ao repouso, à serenidade, em que Ludmilla progressivamente se deixou cair, esquecendo o frenesim que a afligia. Longe e perto os pequenos seres continuavam o seu afã ordenado, quais formigas. Os últimos raios de sol reflectiam-se neles, como que projectando uma aura quase invisível a olho nu. De repente caiu a noite e todo o jardim se iluminou, com o brilho de mil luzes que desenhavam sinos, laços e bolas, estrelas e cornetas; um arco engalanado unia a copa de duas árvores e nele podia ler-se «Feliz Natal Ludmilla». Era dia 28 de Novembro, começava o Advento.

C. Borges
Isabel Soares
Giuseppa Giangrande
Tiago Pina
Paula Carvalho

A oliveira que matava miguelistas

     Lancei-me à estrada e pelas indicações muito vagas que tinha, cheguei a uma vila do Alentejo e indaguei pela oliveira, convencido que a oleácea era uma atração turística; se não é grande novidade uma oliveira resistir várias centenas de anos, ter uma que matou com os seus próprios ramos, dezenas de miguelistas, deveria ser motivo de orgulho.
Ninguém sabia e, pelos olhares desconfiados que fizeram, diria que me acharam meio estavanado, para não pronunciar mesmo atoleimado. Ia já desistir, quando um senhor se abeirou de mim.
- Ouça lá, o senhor acredita mesmo nessa história ou é tão parvo como parece?
     Olhei-o, mantendo a expressão que me fazia passar por parvo. Interiormente, senti um arrepio frio, seco, metálico, os olhos, semicerrados, formando uma linha plana e negra, entre as frontes e o nariz, a boca, de tão fina, tornando-se invisível.
- Não há por aí, sequer, um olival antigo, não é dessas modernices que os espanhóis cá vieram plantar, todos alinhadinhos, quais tranças de carapinhas...
- Pois, compadre, venha daí comigo que já lhe mostro um desses antigos, já o mê avô e antes dele os avós dele e os avós dos avós lá trabalharam.
O “venha daí comigo” era só uma força de expressão. Meti-o no carro, obriguei-o a apertar o cinto e arranquei. Enquanto avançava pela sinuosa estrada municipal que me conduziria a um estradão pensei se os ramos de oliveiras suportariam um peso de 70 quilos para poder cumprir a função que eu, com indisfarçável gozo interior, ia antecipando.
    Saí do carro apressadamente, tirei o saco de pedras e coloquei-o num dos ramos finos daquela árvore ancestral. Eis a minha surpresa quando o ramo instantaneamente se quebrou.
- Estava à espera de uma árvore que se soubesse defender… Ela não ficou aqui parada quando os miguelistas a tentaram cortar aos bocados para fazer lenha.
Má hora em que disse isto, pois um novo galho brotou do cepo do velho na minha direção, penetrando o meu corpo e deixando-me empoleirado no ar a ver o meu próprio sangue a escorrer. Tinha pouco tempo. Reuni as minhas forças, encarei o homem pálido que se encontrava paralisado no chão e supliquei-lhe para tirar da sua lapela um bloco de notas e uma caneta.
De seguida pus-me a escrever desenfreadamente até chegar ao momento actual, em que o último sopro de vida me deixa ao acabar com a frase que ficará numa tabuleta aqui perto para a posterioridade: «Esta árvore parece franzina, mas por favor não se metam com ela para satisfazer a vossa curiosidade, pois as aparências enganam!»
     O alentejano ficou para ali espantado a olhar para aquele sujeito que lhe apareceu não sabia de onde e que acabava de ser morto por uma oliveira. Coçou a cabeça. A sua mente pendulava em dúvida sobre a decisão a tomar.
- Se chamo a polícia, ainda pensam que eu sou o assassino. Se não chamo, apodrece o cadáver pendurado na árvore.
Nisto passa um jipe que se detém ao pé da oliveira e dele sai um sujeito alto e barbudo.
- Eu conheço este homem – afirmou, apontando para a árvore – É o Miguel Travassos, foi meu colega. O que é que se passou aqui?
- Olhe – gaguejou o alentejano – este senhor pediu papel para escrever e de repente sentiu-se mal e a modos que desmaiou.
O barbudo arranca o papel das mãos do morto e fica assombrado.
E mais assombrado fica quando o tronco da árvore se abre com um fecho éclair e sai de lá um individuo a rir-se – Mais um que caiu na armadilha!
     Grande foi o espanto para o homem barbudo e o pobre alentejano. O indivíduo que tinha surgido do tronco da árvore continuava a rir, agora desatava às gargalhadas e avançava com olhar ameaçador para os dois homens. Foi o barbudo a certo ponto que dominou a situação. Não se sabe como é que de repente apareceu na sua mão direita um machado, que ele lançou com força contra o sujeito surgido da oliveira. O alentejano, neste entretanto, estava pasmado, incapaz de mexer um dedo... Ainda maior foi o seu assombro quando o machado atingiu em pleno peito o homem da árvore, que caiu redondamente no chão. Ao mesmo tempo, Miguel ressuscitou. Foi assim que um homem barbudo matou a oliveira que matava os miguelistas.

Tiago Pina
Paula Carvalho
José Maria Covas
Helena Campos
Giuseppa Giangrande

 

Recomeçar do zero

    A vida dela tinha sido sempre cinzenta, sempre na mesma rotina. Para dizer a verdade, tinha certa aversão às inovações de qualquer tipo.
Chegou a pandemia e a solidão, que fizeram a sua vida ainda mais cinzenta… quase cortou com os poucos contactos que tinha até àquele momento. E, de facto, a sua vida tinha sido isso: um vínculo muito forte com o verbo CORTAR. Tinham-lhe cortado as asas, cortado relações e cortado muito mais. Só ficara o sofrimento.
Agora, depois meses de isolamento, estava decidida a tomar as rédeas da sua vida, queria recomeçar de zero e apagar o passado. Ligou o rádio e ouviu Ricomincio da qui.
    Infelizmente o seu italiano estava um bocado ferrugento, por isso mudou de canal. Um locutor entusiasmado apregoava uma pulseira com polos magnéticos que atraíam a ressonância das profundezas terrestres e mudavam de cor e a vida de qualquer um. Era só ligar. Estava por tudo. Nem acreditava. Nunca tinha ganhado nada na vida e agora estava à porta da Rádio Relâmpago com o coração a bater. Na recepção já estava o envelope com o seu nome. Sentou-se num banco e abriu o pacote. Era linda, brilhante, cintilante e chamava por si. Pôs a pulseira no pulso. A cor de prata ficava mesmo bem com o resto do bronzeado do Verão. Abriu o volumoso livrinho que dizia anunciava: MagiMagnet – Pulseira mágica. Instruções e advertências. Tantas instruções, que estupidez, pensou, e levantou os olhos ao céu. Nesse momento chegava o autocarro. As instruções ficaram para trás. Deu um salto e agarrou-se com força ao poste do autocarro. A pulseira brilhava no seu pulso. Agora estava azul.
   O azul também combinava com o resto do bronzeado. Por isso, estava satisfeita.
Amplificou o som da rádio onde estavam a anunciar a entrega do prémio e sentiu-se grata por esta vitória.
Durante dez minutos fez-se embalar pelas melodias da Antena 3, para onde entretanto mudara. Bamboleava-se como uma praticante de Hula-Hula, oscilando entre voltas e contravoltas em torno de uma roda imaginária. Já quase conseguia visualizar o sucesso destes esforços, desde que os mantivesse durante as semanas necessárias. Outro recomeço cantaria e poderia regressar às saias e calças entretanto abandonadas por manifesta escassez de tecido nas ancas e na cintura. Estendeu o seu enlevo a um miúdo que lhe fazia caretas de se escangalhar a rir. Azar do menino, nada a faria cortar com os magníficos exercícios.
O autocarro deu um valente solavanco, e, quando se virou, indignada em direção do condutor que lhe estragava o parêntesis de ginásio, dirigiu um braço desajeitado para o suposto ofensor. Instantaneamente, a pulseira emitiu um raio luminoso sobre o espelho que o condutor consultava, ferindo-lhe a vista, levando-o a chocar estrondosamente com outra carreira. Gritos de pânico seguiram-se antes mesmo de ela parar de admirar o seu adorno.
- O que me terá escapado? -pensou, enquanto vários dedos apontados para ela encorajavam o polícia a algemá-la e a pô-la fora do veículo.
    - Assassina! Bruxa! Queria matar-nos a todos... Enfeitiçou o condutor com uma luz saída do nada... só pode ser um bruxedo do Demo! – vozes desencontradas vociferavam impropérios diversos, alguns impróprios para transcrição até porque o alvo era a mãe, não ela, como costuma aliás acontecer com os pobres dos árbitros. Sentia-se leve, apesar do ambiente tenso e explosivo, que, qual electricidade estática em dias de trovoada seca, apenas esperava a ignição certa para detonar e tudo mandar pelos ares, ela incluída.
Moveu o braço, ainda dourado do sol do Verão passado, a pulseira lançou um raio metálico, qual espada de Jedi, que a todos, menos ela, cegou. Aproveitou a confusão para se libertar das algemas, galgou os degraus do autocarro, olhou para ambos os lados e desatou a correr loucamente, em direcção à Liberdade anunciada pela toponímia local, sempre era avenida, larga e comprida, muito melhor do que a travessa donde saíra de manhã.
Bem sabendo que não o podia fazer, olhou para trás...
    E a pulseira desapareceu, tal como estava escrito nas advertências.
O pessoal do autocarro recuperou a visão e desatou a correr, enfurecido, atrás dela. Ela desceu o metro da avenida e atirou-se para dentro de uma carruagem que partia, quase a fechar a porta. Os seus perseguidores jamais a encontrariam.
Saiu na estação terminal da Amadora, entrou num cabeleireiro, pintou o cabelo de louro, comprou uns óculos e uma roupa vintage, respondeu a um anúncio de emprego colocado numa montra e assim recomeçou do zero.
Às vezes, basta uns instantes com uma pulseira nova para a sorte mudar.

Giuseppa Giangrande
C. Borges
Lídia Vieira
Paula Carvalho
Helena Campos

 
 
Uma Gaivota

Uma gaivota voa livre e feliz no céu. Ela está muito feliz por ser uma gaivota, porque não tem laços, pode ir e voar aonde ela quer, apesar de ter a sua casinha numa árvore no Miradouro da Graça em Lisboa. O que é mais interessante é que ela um dia pode estar em Lisboa, um dia na Sicília, um dia em África, um dia em vi rem ajuda Goa… e ainda mais interessante é que ela todas as vezes que volta para Lisboa, pode contar muitas histórias, até às crianças que nos dias de sol brincam nas ruas perto do Miradouro e às pessoas que lhe dão alguma migalha para comer. Acabou de voltar esta vez do Japão e está a contar a história de uma cerejeira que guardava um segredo…
Pois contara-lhe a cerejeira quão estranha se sentia com as modificações sofridas ao longo de todos os dias do ano: à explosão branca e perfumada que lhe vestia os ramos, sucedia-se a queda do virginal manto e o crescimento de frutos redondos e carnudos, vermelhos côr de pecado, após o que chegava uma pausa fresca e verdejante, mas, quando mais precisava de aconchego e agasalho, entrava numa hibernação despida e nua. Isto ano após ano, sem pausa, descanso, alteração ou imprevisão. “Quem me dera ser gaivota!”, suspirara a cerejeira “Partir e conhecer outros mundos, navegar pelos ares, ver as coisas ao longe e ao perto, não ter raízes...”
Ao suspirar com mais força, não é que a cerejeira tremeu e se desequilibrou? Quando as raízes se soltaram da terra, o ruído das pedras da calçada a chocarem umas contra as outras foi intenso e ensurdecedor. Uma senhora idosa que trazia o cão pela trela ainda se magoou ao tentar desviar-se de uma mão-cheia delas que a atingiram de raspão e o poodle da senhora perdeu o piu com o golpe que as pedras lhe fizeram no dorso.
Entretanto, a cerejeira inchada com o sufoco de perder a sustentação, só pensava em pôr-se em pontas, mas as raízes contorcidas em nada a ajudavam. Via-se já moribunda e derrotada para sempre nos seus sonhos de liberdade e vida mais ampla. No meio de tanto pânico, perdeu os sentidos.
Acordou com a frescura da manhã. Os jardineiros da Câmara esforçavam-se por a pôr em pé, e, à pergunta “Prontos?” reergueram-na e replantaram-na numa operação delicadíssima.
A cerejeira gritava debalde: “Não, não me prendam! Eu quero mudar de vida! Deixem-me voar.” E os homens, já muito transpirados, iam dizendo: “Pobrezinha, uma árvore tão bonita de que todos gostam. Merece bem uma segunda oportunidade!”
E os calceteiros convocados completaram a obra de restauro, perante o choque da bela cerejeira.
Mas à segunda foi de vez. Foi numa noite de breu povoada pelo silêncio absoluto. Ginasticou as raízes com toda a fúria que tinha até eclodir daquela prisão subterrânea e projectar-se nos céus. Falharam-lhe as asas que não tinha, sacudiu os galhos, fracos músculos, contra o vento e acabou por cair numa lixeira ali perto onde um carro do lixo descarregava caixotes.
- Que é isto? Agora caem árvores do céu? – espantou-se um funcionário
- E é uma cerejeira! Alguém que não gosta de cerejas – disse outro
- Mas ela vinha a voar!
- Alguém que a tinha num vaso num andar alto e a jogou fora. Vou levá-la para o meu quintal.
Ainda estremunhada pela queda, a cerejeira tentava libertar-se do lixo mal cheiroso, quando avistou a gaivota sua amiga que esgravatava na lixeira.
-Ora aqui estás tu de novo , mas minha amiga tenho que te confessar, afinal voar não foi nada uma boa ideia .Além de não ter visto nada ,não falei com ninguém e quando tentei ninguém me ligou ,a queda foi muito desagradável e agora aqui estou eu mergulhada nesta porcaria fedorenta, magoada e com alguns ramos partidos.
Felizmente vão me levar para um novo quintal onde espero tomar um bom banho e ser replantada com os pés bem assentes na terra ,e junto de companheiras simpáticas que alegrem os meus dias .
A gaivota sorriu e desejando -lhe dias melhores, voou para junto das outras companheiras.
No meio duma chinfrineira e esvoaçar de “adeuses” o bando partiu à procura de novas aventuras…

Giuseppa Giangrande
Paula Carvalho
Lídia Vieira
Helena Campos
Isabel Soares

 

 Sonhos

    Há quanto tempo estaria naquele quarto? Talvez semanas, ou até meses… Era tão difícil saber. Aliás, era exatamente por causa disso que tinha ido para aquele local longínquo, no qual o dia é um feixe de luz que atravessa o vidro da janela por uns breves instantes antes de ser consumido novamente pelas trevas envolventes. Precisava escrever. O problema não era a falta de ideias, tinha uma arca cheia delas, mas sim transfigurá-las da mente para o papel. Para isso tinha que estar totalmente concentrado e alheado da realidade do seu dia a dia, de maneira a meditar acerca da construção do universo da sua história.
    Estendeu o olhar para o horizonte azul que sempre o inspirara e deparou com uma senhora grisalha que passeava na calçada afagando um gato cinzento de pêlos reluzentes. A senhora, esguia e de passos determinados, derretia a sua firmeza em afagos e beijinhos breves ao seu bem escovado felino. Num desses momentos de distração deleitosa, o pescoço do gato esticou-se e o ágil acrobata de quatro patas aterrou no asfalto. Trazia um pardalinho entre os dentes aguçados. A senhora desfez o sorriso amoroso e ergueu o indicador admoestando:
- Oh, seu malvado! Vá, não te mexas e abre a boca devagarinho.
O gato mimado fez ouvidos moucos e, ostentando dentes semi-serrados, desenhou-lhe com as unhas um trilho de esqui, sangrando-lhe o braço estendido.
   Um gato traidor. Gente traidora. A traição sempre fora um bom mote para uma história. O desconcerto do mundo.De um lado, um personagem crédulo, de moral íntegra, uma boa pessoa, no que bom significa trouxa, pacóvio. Um simplório incapaz de entender a vida.Do outro lado, uma raposa astuta, de lábia matreira, de grande rodagem mundana a cortar as pernas ao tonto. Enfim, uma história tão velha como o mundo.Pegou numa esferográfica verde e num papel amarelo e começou a verter torrencialmente a história de um sujeito que tinha estudado para padre em tempos de antanho.De súbito, a realidade sobrepõe-se à escrita que se interrompe pasmada diante de uma pancadaria estrondosa na porta do quarto. 
    Abriu os olhos e foi acordando lentamente, permanecendo numa semi-vigília estremunhada, própria de acordares intempestivos.
Que história sem pés nem cabeça, pensou alto, sentindo um misto de angústia e de alívio, esperando ter o caderno de apontamentos e a caneta na mesa de cabeceira para a anotar, com todos os pormenores.
Entretanto, a pancaria estrondosa na porta do quarto transformara-se num som metálico que emanava dum objecto que vibrava sons e luzes – um despertador? Nestes tempos modernos, um telemóvel?
Orientado pela luz psicadélica do objeto que vibrava, tacteou a mesa de cabeceira mas apenas encontrou o vazio.
- Ai, ai, ai – gemeu, o pânico puro invadindo-lhe todo o corpo, bloqueando a mente, sentindo que estava prestes a hiperventilar, sem lexotans nem sacos de papel para ordenar a respiração.
Quando pensava que nada poderia ser pior, sentiu que algo húmido e macio lhe fazia cócegas no pescoço. Na sua cabeça, o coração parou de bater. Morri – pensou.
    Mas pouco a pouco recuperou a tranquilidade. Começou a tocar-se a testa, o pescoço, as mãos... Felizmente, estava tudo bem. Acendeu a luz e deu-se conta de que não tinha ido desta para melhor. Foi à cozinha, bebeu um copo de água e deu um suspiro de alívio. Assomou à janela, a luz do sol e o azul do céu acolheram-no. Decidiu sair de casa, para desfrutar daquele dia, na esperança de poder encontrar uma qualquer inspiração e finalmente poder escrever. Com os pensamentos voltou ao sonho, que tinha sido na realidade um pesadelo... uma vez em casa, sentou-se à mesa, tomou a caneta e começou a escrever. Voltando ao sonho, quis escrever algo mais positivo.
- É importante alimentar e infundir esperanças, não só descrever o mal.- pensou.
E as palavras fluíram na folha de papel, antes branca.
 
José Maria Covas
Lídia Vieira
Helena Campos
Paula Carvalho
Giuseppa Giangrande
 
 
Delírios 
 
   Um dos delírios que mais inquietavam Tomás era aquele em que um presidente alemão, meio prostrado num sofá, se foi despedindo estranha e misteriosamente da vida. Fora uma espécie de delírio individual que abriu portas escancarradas a um delírio coletivo.
Tomás examinou o cadáver inerte, frio, acinzentado metodicamente. O facto de ser madrugador ajudava-o pois não só conseguia dar o seu máximo no sossego da alvorada como ganhara fama de ser altamente intuitivo. Naquela manhã, porém, carregado como estava com o desgosto pela partida de Sandra, só conseguia repetir-se que ‘não via um boi’ acerca daquele corpo sem marcas gritantes de violência quanto mais o selo de um psicopata, ou mesmo de um assassino em série, que tão bem preencheriam algumas páginas sensacionalistas. Só o rosto pesadamente adormecido o prendia por lhe lembrar o do presidente cujo enigma ele tanto gostaria de ter investigado pessoalmente. Uma hora e meia depois, já com a equipa reunida, pôs-se à escuta de pistas que o despertassem para o diagnóstico que teimava em fugir-lhe. O que iria divulgar no final da manhã?
   Morrer assim pé ante pé, desligar a vida com se apaga um botão era característico de certos venenos que arroxeavam o sangue, paralisavam os pulmões e o cérebro expirava sem oxigénio como um peixe num aquário seco.
Sandra é que era especialista em drogas e batera com a porta. Toda a gente acabava mais tarde ou mais cedo por se volatilizar no ar.
- O que dizemos à comunicação social, doutor?
- Olhe, diga que morreu intoxicado por um veneno ainda não identificado.
De facto, o presidente alemão com quem aquele individuo se parecia sobremaneira também morrera de um estranho veneno que resultava desconhecido em todos os testes de laboratório.
   Aqui há gato!
Não se consegue identificar o veneno, já foram chamados especialistas e nada.
Por outro lado, também não se consegue perceber porquê assassinar este homem, um pacato cidadão comum.
Será porque era parecido com o tal presidente alemão? Terá sido uma ingestão acidental?
Pelo facto de estarmos perante a presença duma substância totalmente desconhecida da comunidade científica, acho que deveremos orientar a nossa investigação na procura dum cientista extremista, pois não é nada bom continuar à solta na posse de uma substância tão poderosa.
E logo agora que a Sandra bateu com a porta ela que costuma ser uma ajuda preciosa nestes casos.
Outro problema vai ser a Comunicação Social que estão de dentes afiados para saber quais a nossas suspeitas e não nos vão deixar tranquilos, o que perturba sempre a investigação.
   Aquele crime era um quebra-cabeças, a solução do caso parecia estar muito longe. De repente, quando parecia impossível chegar ao ponto final da investigação apareceram de maneira inexplicável na mão do morto algumas flores de cor azul, assim explicou a Sandra. O caso fazia-se ainda mais misterioso... A notícia do crime chegou a Alemanha e um dia Tomás recebeu um telefonema de um colega da polícia federal de Berlim. O tal Martin Piekkenagen falou também de misteriosas flores azuis encontradas na mão do presidente alemão. O Instituto Robert Koch tinha sido chamado para colaborar e deslindar a questão, tão complicada. Tomás era atormentado pelas dúvidas: havia uma possibilidade que o caso chegasse ao fim?
    Chegou a casa. Vazia. Sem Sandra. Desde que entrara naquele clube de leitura, tudo tinha mudado. Já não cheirava a leite creme ou aos mimos que ela preparava. Em vez disso, começara a haver grupo de homens barbudos e mulheres com meias grossas a ocupar-lhe o sofá e os maples a dar opiniões irritantes sobre livros – ah a Ana Karenina, ah o Nome da Rosa. Espera! Tomás ficou alerta. Havia qualquer coisa nesse livro, o que era, o que era… um veneno, isso era certo, mas como era…? Tomás deu um salto. Marcou o número da esquadra – vá, lá, vá, lá, Santos, atende homem… Sem esperar e com o telemóvel na mão enfiou uma manga no casaco e correu pelo quarteirão, subiu a escadas da esquadra, a arfar e a gritar:
- As flores, as flores…
Olhavam-no confusos. Tomás continuou a gritar:
- As flores, as flores...
Seguido por dois agentes correu pelo corredor para o gabinete do médico legista. Abriram a porta. O cadáver estava na mesa. No chão, jazia o médico com as flores entre os dedos.
Tomás fez uma conferência de imprensa, deu entrevistas, apareceu em todo o lado. Em quem apareceu também foi a Sandra, impressionada com a nova fama do ex-namorado. No café, Tomás contou-lhe o Caso das Flores Azuis. Rosablu era um clube de botânica para excêntricos interessados na mais misteriosa cor da natureza. Enviavam uns aos outros sementes, bolbos, enxertos e ervas. Uma mistura de bagas dos Himalaias tinha finalmente dado resultado, misturada com terra dava origem a flores de um azul puríssimo que vendiam por milhares. Mas se alguém tocasse nas pétalas, o pólen entrava pelos poros e ia paralisando todos os órgãos. Em todo o mundo todos os pés estavam a ser localizados e destruídos sob supervisão rigorosa. Amanhã mesmo chegavam os técnicos a Lisboa. Então ainda lá estava a planta? Sandra pediu, insistiu, fez beicinho, sussurou-lhe promessas ao ouvido. Era só ver... Prometia, prometia mesmo. A caminho na noite escura, perguntava mais, chamava-lhe herói, e como era isso de venderem a planta por milhares...?
Lídia Vieira
Helena Campos
Isabel Soares
Giuseppa Giangrande
C. Borges

 

zzzbiografias

 

«Os escritores vivem duas vezes.», Natalie Goldberg

Na escrita cruzam-se tantas vidas que às vezes as linhas confundem-se e dão origem a biografias fantásticas. Nesta sessão, a proposta foi reinventar a vida de uma personagem, real ou de ficção. Dos muitos textos que nos podem inspirar para esta actividade, merece destaque o livro Histórias Falsas do Gonçalo M. Tavares.

 

 


Biografia de Shakespeare

Foram encontrados alguns escritos de William Shakespeare em siciliano. Graças a esses textos tem sido possível reconstruir a sua verdadeira biografia. O tal Shakespeare na realidade era Giovanni ou Michelangelo Florio, filho de uma condessa de Messina. Por causa das suas ideias heréticas foi obrigado a deixar a Sicília e depois chegou a Veneza, onde encontrou um mercador lhe emprestou dinheiro para uma viagem que o levaria, após diversas peripécias, a Inglaterra. Durante a sua estadia em Veneza, apaixonou-se pela bela Julieta, a filha do Doge, o homem mais poderoso da cidade, mas aquele amor foi contrariado e o pobre Michelangelo foi forçado a deixar a cidade. Outra vez uma fuga: o navio em que viajava foi atingido por uma tempestade que o fez rumar à Dinamarca onde uma sereia, que era uma princesa, lhe salvou a vida e o levou à corte do príncipe Hamlet. Aqui mais uma vez o Michelangelo foi protagonista de uma história de amor infeliz, junto a Ofélia, a noiva do príncipe. Fugiu novamente devido a isso, deixando Hamlet fora de si de raiva. Chegou finalmente a Inglaterra onde teve um enorme êxito, graças também às obras escritas em siciliano, como "Tantu trafficu pi nienti", ou seja "Much ado about nothing".

Giuseppa Giangrande

Pessoa ressuscitado

Ao acordar, Mister James Head descobriu que o seu quarto estava cheio de luar. Quando a lua começava a ser real, era tempo de partir.
Ele morria e nunca mais acabava de morrer. A curva da estrada era interminável.
Desta vez fora Mr. James Head e revisitara a cidade da sua infância pavorosamente perdida, onde outrora na barra do Tejo, de frente para o Atlântico, saudara o futuro.
E o futuro materializara-se ali na velocidade e na forma de pequenas máquinas a toque de dedo.
O seu antigo rosto tomava conta de tudo, rolhas, canecas, porta-chaves, cartões bancários, e era vendido aos turistas em miríades de objectos avulsos como símbolo da nação.
Na pele de Mr. James Head conseguira um lugar de professor na Faculdade de Letras onde tamborilava dedos impacientes em cátedras gastas e estrondeava gargalhadas perante a critica à sua obra.
As letras eram agora uma inundação de mulheres, toleironas deslumbradas que salivavam à mínima ressonância poética e borboleteavam à sua volta pedindo orientação para teses inúteis a que ele se recusava com displicência órfica.
Mas aquela Clara Queiróz era diferente, até no sobrenome lembrava a outra com quem há cem anos passeava tardes vagarosas no Jardim da Estrela.
E só a ela deu a chave de uma velha casa azul, ali ao Príncipe Real, onde a sua arca jazia com papeis nunca antes tocados e que ela devia abrir naquela hora crepuscular e absurda.
Ela chegou, ajoelhou-se junto à arca com luvas reverentes e ele, escondido na sala ao lado, colocou o bigode, os óculos, vestiu a gabardine, pôs o chapéu e assomou à porta.
- Ai que eu estou a alucinar! – gritou ela, levando as mãos à cabeça.
- Mas tu ainda não percebeste, Clara? Eu sou Fernando Pessoa.

Helena Campos


Qualquer Ana pode ser Karenina

Ana era a “hit girl” do momento, bonita, dona de dois olhos azeitonados, rosto oval, cabelos pretos liso, invariavelmente apanhados numa trança, elegante, talvez um pouco magra demais, sempre aprumada, ao invés de andar à moda, ela ditava-a, inteligente e culta, cursara Clássicas e Histórico-Filosóficas, estudara inglés e francês muito para além do imposto pelo ensino oficial, lera avidamente os livros que havia na casa do pais, na dos avós, na dos padrinhos. Beneficiando do ar dos tempos, que às mulheres já permitia que estudassem e lessem sem que por tal fossem crismadas de esquisitas ou mesmo perigosas, e do ambiente liberal vivido em casa, tinha até ao casamento sido dispensada dos lavores, da cozinha, da puericultura e afins.
O casamento foi rápido. O marido – quinze anos mais velho, advogado conceituado, viúvo dum casamento que terminara envolto em mistério [da mulher dizia-se que morrera no parto mas também que se suicidara ou ainda que fora morta às mãos dum amante, consentido pelo marido, já então impotente], mistério cultivado pelo próprio ao recusar activamente falar sobre o assunto - tinha o charme que se insiste que têm dos homens de quarenta anos, de que as mulheres nunca beneficiam, pois dizia eu, o marido encantou-a com versos sussurrados de Baudelaire, ausente de todas as atrás referidas Bibliotecas, daiquiris e slows lascivos ao som de Gainsbourg e Jane Birkin, transgressões absolutas num Porto conservador e praticante da moral da Família Inglesa e das Pupilas do Senhor Reitor dum Júlio Dinis falecido há quase um século.
Ninguém nunca soube o que se passara na lua de mel, gozada nas Américas – novidade absoluta num meio em que as meninas sonhavam com Veneza; Paris ou Roma, mas se contentavam com ir a Lisboa, quando muito à Madeira – mas para todos era visível que Ana regressara um tudo nada mais magra, com olhos um tudo nada maiores e mais brilhantes, com olheiras até então inexistentes. Tudo foi levada à conta da mudança de estado e da excitação dos States, de Nova Iorque, de Chicago, de S. Francisco, das muitas flores e do muito love, nunca ninguém sonhando, sequer, que talvez houvesse algumas outras coisas cujo nome ainda mal se sabia no Portugal de então.
O marido embrenhou-se de novo nos casos, não de tribunal, não era essa a praia dele, mas na advocacia de negócios, rendia mais e dependia apenas dele.
E em Ana continuava a acentuar-se a cada vez mais evidente magreza, o brilho dos olhos, as olheiras profundas. As leituras continuavam, as reuniões diletantes também, mas tudo se consumia num sem propósito que lhe esvaziava o fulgor. Ana já não era “hit”, estava magrérrima, ao estilo heroin chic só celebrado uma vintema de anos depois, os olhos perderam o brilho, o cabelo teve que ser cortado cada vez mais curto para encher o rosto, a roupa de bom corte não assentava nos ossos.
Um dia Ana conheceu um dos clientes do marido, um russo descendente de russos brancos, olhos azuis (tão azuis como os do Vronsky da sua homónima Karenina), e por ele se perdeu, mais do que já se perdera da Ana que um dia fora.

Paula Carvalho

360 F 334059444 PaE3rumRnMsqeK6XaVp0pKoDQ12SWwCl
«Se soa a escrita, reescreve», Elmore Leonard
 
Escrever diálogos é um equlíbrio entre a oralidade e os códigos da escrita. Mas também apenas através de uma conversa entre personagens, pode ler-se uma narrativa completa, uma história que vai para além do que é dito. 
Para treinarmos, propusemos este último caminho. 
 
 

A entrevista

- Bom dia. Venho para a entrevista de emprego. Fui convocada.
- Certo. E o seu nome é?
- Judite Silva
- Sim, está aqui o seu currículo. Porque concorreu a esta vaga?
- Fiquei desempregada o mês passado e ando à procura de uma nova oportunidade de trabalho.
- Porque ficou desempregada? A empresa onde estava faliu?
- Não. Mudou de gerência. A nova gerência decidiu reduzir o pessoal
- Estou a ver. Descreva-me as suas funções.
- Bem, atualizava bases de dados, fazia tabelas e gráficos, traduzia catálogos, trocava emails com clientes e fornecedores.
- Ou seja, tarefas administrativas. Mas você tem um curso superior, não tem? E já é sénior com essa idade, não é? Não lhe davam outras responsabilidades?
- A gestão era muito autocrática…Não havia categorias profissionais. Era obedecer.
- Então porque não mudou de empresa mais cedo? Com essa idade…
- Porque não havia anúncios durante a crise económica.
- Mas você tem de mexer-se. Tem de ser resiliente, empreendedora e proactiva
- Pois
- Pois. Nós não queremos gente velha e lerda aqui, está a perceber?
- Olhe, eu não gosto de psicólogos. Sempre a acharem que a culpa é dos pobres. A gente só quer um salário ao fim do mês para comer e pagar a renda da casa. Adeus – levantou-se e bateu com a porta.

Helena Campos


A Festa de Anos

-“ Conseissão, Ana Bela, Baneça, Felóra...” –teve que se concentrar para continuar a leitura, perdida que estava de riso – “Tumás, Carlus i Máuru.” “São só estes?”.
- “Sim, sim mãe.”
- “Bicos de patu, rissoes de peiche mas tamém pode ser de carne, corquetes, pipocas doces mas tamém pode ser salgadas, aquela coisa que é de xocolate e se come com colher mas não sei o nome e não é bolo, parece puré, bulinhos de bacalhau, alface de frutas...” – para quem andava no primeiro ano até não estava mal escrito de todo, se se lesse em voz alta percebia-se, mas ...– “Alface de frutas?!”
- Oh mãe, é aquela alface que se faz sem as folhas verdes, leva só maçã, pêra, uvas, ananás, mas não é daquela com sumo de borbulhas, com o daquela vez na casa da minha madrinha e fiquei cheia de sono e acordei mal disposta...”
- “Ah, já sei, salada de frutas “
-“É isso mesmo! Mas em casa da madrinha era uma salada com muito refresco com borbulhas, devia ser daquela água com pedras, não gostei nada.”
- “Pois, não gostaste tu nem eu quando soube que tinhas bebido cup” – pensou a mãe, prosseguindo depois em voz alta – “Não achas que falta alguma coisa?”
- “Acho que não mãe, está tudo o que gosto, ah, se calhar uns queques, aqueles pequeninos com manteiga e compota, adoro, adoooro!»
- “Scones?”
- “Isso!!!”
- “Mas então, o principal, o bolo de anos?”
- “Ah, isso... olha, se calhar fazemos como no ano em fiz cinco anos e morreu a tia Mariazinha e não tive festa: viras uma tigela de marmelada ao contrário e espetamos sete velas. Estava maravilhoso, mesmo com a cera toda derretida e apesar de ter apanhado uma dôr de barriga, ih!ih!ih! O que achas?”

Paula Carvalho
 

- Sabes que és muito bonita?
- Obrigada, mas não preciso dos teus elogios. Já sei o que tu queres.
- Tens a certeza? O que é que achas de mim?
- Sei lá! Ou melhor, já sei que és uma mentirosa, mentes como um cesto roto!
- És injusta comigo.Eu quero só um pouco de companhia e falar um bocadinho.
- Vai-te embora!
- Acho que estás nervosa.
- Tu és a que me enerva.
- Mas porquê?
- Basta de histórias! Falei de mais, agora chega!
- Como queres, vou-me embora. Mas eu...
- Vai -te embora, não ouviste?
- Está bem, vou - me embora.
- Finalmente compreendeste?
A pobrezinha, a lombriga, vai-se embora. Mas volta logo, foi a recolher uma florzinha para a oferecer à maçã.
- Outra vez aqui?
- Esta é para ti.
- Oh... eu... eu... creia que tu querias comer-me...
- As aparências iludem às vezes...
- Não tenho palavras para te agradecer... fui injusta contigo...
- Não faz mal... amigas?
- Está bem.

Giuseppa Giangrande

Nós

- Ele tem qualquer coisa fisgada, já te disse…
- Cala-te.
- Tu sabes, tu sabes…
- Sei o quê?
- Que as perguntas dele têm um fim…
- Qual fim?
- O nosso! O nosso fim!
- Cala-te!
- Porque é que ele nos fechou aqui?
- É para nosso bem…
- Porque é que não nos deixa ver ninguém?
- Para o bem deles…
- Já te deu mesmo a volta a cabeça… Estás a ouvir?
- O quê?
- A ti! Já falas como ele.
- Eu falo como eu.
- Coitado. Achas mesmo que ele quer o teu bem?
- Não quer…?
- Nunca quis! Eu não tinha razão com os comprimidos?
- Tinhas…
- Não era verdade que te faziam dormir o dia inteiro?
- Faziam...
- E que desde que os começaste a esconder debaixo da língua não ficou tudo melhor?
- Não sei se é melhor… tenho pesadelos.
- Mas eu não estou sempre lá contigo?
- Estás.
- Não estive sempre contigo desde que éramos crianças?
- Estiveste.
- Não é melhor assim?
- Ele diz que não…
- Ele, ele, ele… qualquer dia…
- Qualquer dia o quê?
- Damos cabo dele.
- Não podemos…
- No dia da enfermaria… o bisturi de cortar as ampolas…
- O bisturi…
- Tiram-te o sangue e tu muito mansinho pedes para ficar a descansar…
- E depois..?
- Depois a enfermeira vai ao doutor e tu sacas o bisturi…
- Posso sacar…
- E na consulta… zás!
- E ficamos livres?
- Sim.
- E não há comprimidos?
- Não.
- E não diz mais que és só…
- Só...?
- Só... vozes…
- Cala-te!

C Borges

 
 

 poesia

 

«Sê sempre um poeta, mesmo em prosa», Baudelaire
Baudelaire relembra-nos que prosa e poesia bebem provavelmente da mesma nascente. Pedimos aos nossos participantes que escrevessem em voz alta, que ouvissem o som da palavra a cair da fonte e deixassem cair na página sem os constrangimentos de sentido fechado da prosa.

 

 

 

O passeio

Percorri já vários caminhos, desde becos recônditos que desembocavam no mar através de uma rede de caves, túneis e cavernas, até vales repletos de construções humanas com vários níveis de complexidade. O meu percurso de eleição é o que me permite alcançar, passo a passo, pedra sobre pedra, uma terra só acessível por uma escada da altura de uma montanha. Este local ao qual chamo casa torna a vida em morte e a morte em vida. Contém as melhores partes de cada experiência, permite a minha boca saborear as labaredas solares, tocar em água tão fria que me gela os ossos e ver os movimentos aleatório das correntes de ar que me elevam até ao centro da espiral de corvos onde o dia se torna noite. Aqui, passado, presente e futuro convergem num diálogo contínuo entre o que é e o que pode ser, cristalizando qualquer sonho num templo de possibilidades.

José Maria Covas


Todos os dias são domingos

Escrever aos domingos, é o que resta a quem gosta de o fazer, mas tem outras profissões para alimentar a da escrita.
Por exemplo, andei a semana inteira com uns pensamentos sobre um conto. Vou por ali, introduzo uma personagem no terceiro parágrafo, mato-a no sexto, tenho de ter cuidado para ela não aparecer no 9.º, tenho de arranjar um início forte que valha a pena, tudo sem interesse.
Vai daí, ontem, deitei-me por volta das 11 da noite e não é que à meia noite e vinte minutos me surgiu uma ideia, daquelas que a gente tem de se levantar e apontá-la para não se esquecer. Lá está, e eu não acredito em coincidências, mas já era domingo.
António Duarte, homem pacato e dado a passeios junto ao mar, foi o primeiro a ver a chegada da hora nova. Segundo ele, uma gaivota trazia-a às costas e lançou-a aos poucos, operação que durou exatamente 60 minutos. A hora nova sorriu, pôs-se em posição e foi à sua vida, atrasando tudo 3600 segundo. Sobre a hora antiga, sabemos que foi descansar para outras paragens mais condignas com a sua condição noctívaga.
Este é um exemplo de um texto de domingo, que amanhã será apagado pois não tem qualidade. E é assim a vida de quem escrevinha só quando pode. Escreve 30 palavras, apaga 50. Reescreve mais 40 e apaga 35. Salvam-se 5. Dessas cinco, esperamos que se multipliquem por algumas mais. Mas é a alegria de ver essa meia dezena que nos faz aguardar ansiosamente pelo próximo domingo ou pela próxima oportunidade de retribuir qualquer coisa que tenha de se escrever com sílabas.

Tiago Pina


Escrever aos domingos

Escrever aos domingos... é um momento importante em que ideias, palavras, mensagens e muito mais se cruzam, como duas estradas, ou dois caminhos que levam à Itália e a Portugal. É uma maneira para deixar reaparecer lembranças bonitas, cores, como o azul do céu, o cor de rosa e o vermelho das flores, imagens de um tempo que parece longínquo, sabores, os abraços...
Escrever aos domingos é deixar ressoar vozes, sons, melodias... Escrever aos domingos é um momento de encontro, apesar das distâncias. Escrever aos domingos é deixar-se levar pela saudade e pela esperança de um novo encontro, apaixonar-se por algo que nunca se conheceu, que talvez fica sempre desconhecido, mas que faz permanecer o seu rasto no coração.

Giuseppa Giangrande
 

Domingo à tarde

Domingo à tarde era um lírio da paz. Uma cortina vermelha a ondular sobre uma seara verde que rodeava a mesa redonda e metálica onde pendia a caneta hesitante sobre o papel impávido.
Domingo à tarde era uma brecha de silêncio numa semana caótica onde a vida a escorraçava sempre, num eterno retorno ao mesmo lugar de Sísifo cansado.
O tambor da máquina a centrifugar a roupa. Uma osga que teimava em aparecer e que latia como um cão a esfolar o silêncio.
E de súbito, a torrente. As palavras a disputarem uma nesga de espaço no papel impávido, a acotovelarem-se como numa feira, as palavras riscadas porque arrependidas de nascer, desajustadas no conjunto, inconvenientes como uma nódoa na brancura aristocrática do papel.
As palavras que não vinham porque se recusavam a vir, porque descansavam, exaustas, de tanto serem solicitadas ao dicionário.
As metáforas que lhe fugiam, as metáforas gastas que lhe surgiam a despropósito.
E lá miava a osga num grito quase humano, a intrometer-se dentro das palavras, a usar as vírgulas como muletas e a varrer com a cauda bamboleante o que restava do sentido.

Helena Campos

 tesoura

«No que toca a escrever, acredito mais na tesoura do que na caneta», Truman Capote
Escrever é sempre cortar. Escolhar e decidir o que fica de fora. No caso dos microcontos ainda mais. Decidimos partir para o desafio, com tempo e caracteres limitados, sob o tema do corte. A experiência suscistou discussão e dúvidas. E, esperamos, algumas novas pistas sobre o que é uma «história» e esta experiência extrema da micronarrativa.

 


Pernas cortadas

Foi no dia que fez 50 anos que Cecília se apercebeu de que não tinha vivido. O passado mais não fora do que arrastar um destino obstinadamente cinzento.
Tudo começara na juventude quando abriu a porta errada, a má escolha do curso conduzira-a à marginalidade obscura de um emprego degradante onde era reduzida à 4ª classe. Passava os dias a contar caixas num armazém esconso enquanto teorizava sobre as elites que lhe tinham cortado as pernas.
Certo dia, no limiar dos 50, conheceu um carismático professor que palestrava sobre o direito à mudança de vida para atingir a felicidade.
Deslumbrada com o discurso dele sobre uma miríade de sonhos e projectos que ainda podia realizar para alcançar a vida a que tinha direito, e que lhe havia sido usurpada, a tola da velha deixou o parco emprego para percorrer todos os caminhos alternativos na senda da felicidade.
Via-a outro dia, debaixo de uma escada, a dormir sem abrigo sobre um caixote e uma manta sebenta.

Helena Campos

Corta!

- Corta! – ordenou o realizador
O actor, de tesoura na mão, queixava-se já da falta de cabelo depois de tantos cortes repetidos na mesma cena.
- Põe-me uma peruca – sugeriu a colega que fazia de cliente.
O actor voltou ao penteado enquanto cuscava efeminadamente a vida de uns e de outros. A dada altura percebeu que a colega lhe roubara o namorado.
- Corta! – repetiu o realizador
E ele, vingativo, cortou com fúria até jorrar sangue. O realizador calou-se. Desta vez, o corte fora perfeito.

Helena Campos


Via láctea de fel

Cortaste-me da tua vida com a frieza duma lâmina, lâmina que prepararas para usar quando não estivesse a ver. Sim, coragem nunca foi teu apanágio, cobarde era teu nome do meio. Regresso uma e outra vez àquele momento em que tudo ainda podia ser, penso no que deveria ter feito diferente para que tudo fosse possível, ainda que apenas agora, e amanhã tudo fosse igual ao que já é. Na minha mente, qual tela de cinema, passa um filme em câmara lenta, em modo de repetição, o filme do que poderia ter sido e não foi. Dizes que foi um acaso sem caso pensado, não acredito, não há acasos premeditados. Pois, mentira era o teu segundo nome, repetido no apelido.
Folheio o álbum que já foi nosso. Não te encontro. Nem quero. A tesoura de Toledo, comprada na lua de mel, cumpriu a sua função higiénica.
E, no entanto, continuo a ver o filme...

Paula Carvalho


Tesoura

Pôs os óculos, pegou na agulha e enfiou a linha. A luz era forte e incidia nos seus dedos. Antes tinha umas mãos tão bonitas, pensou. Mãos de pianista, dizia a avó. Agora, já as começava a sentir mais nodosas. Era subtil, mas o envelhecimento começava a insinuar-se e a aninhar-se no seu corpo. A agulha parou. Estes tecidos rijos são sempre um problema, pensou. Talvez devesse mudar para uma agulha mais grossa. Mas depois o trabalho não ficava tão bonito, esgarçava, notavam-se os buraquinhos. Tinha orgulho na sua perfeição. Depois de muitos falhanços, desta vez tudo tinha corrido bem. Os cortes eram de mestre, as pregas, naturais e tinha finalmente conseguido o ton-sur-ton de que andava há tanto tempo à procura. Com lotes diferentes, era sempre tarefa difícil. Estava pronto. Era lindo, magnífico, a sua obra prima. E pegando na tesoura, cortou a linha. Finalmente o Dr. Frankenstein terminara a Criatura.
 
C. Borges
 

Corte e costura

Dona Mariana decidiu abrir a porta do seu estabelecimento e colocar o trabalho sobre o balcão corrido. Após vários confinamentos, ansiava por confecionar roupas de raíz, algo a que renunciara para se dedicar aos arranjos de costura. Com o aparecimento de uma cliente, interrompeu a costura de um bordado num magnífico vestido de noiva. O vislumbre de tecidos cuidadosamente dobrados num saco de papel encheu-a de esperança.
-“Preciso que me suba um centímetro nestas baínhas” solicitou a cliente.
-“Só isso?” – inquiriu a modista com voz desmaiada.
-“Sim”- respondeu-lhe a senhora espantada, apontando o letreiro da montra: “Fazem-se arranjos rápidos de costura”.
A modista angustiada pela falha na atualização, quase cravou a tesoura num dedo a escassos milímetros da peça que exibia.

Lídia Vieira

 

 aranhaUm conjunto de histórias de algumas das sessões de 2020/21 da arrepiante oficina Teias de Aranha. Prepare-se, virão mais...

 
 
 
 
Quase Certeiro

É certo e sabido que todos os pais têm um filho preferido, mesmo que até sejam a cara chapada uns dos outros e com feitios idênticos. André era o mais velho. Olhava para as duas irmãs com algum desdém, mas não tolerava a preferência descarada dos pais por Natacha. Ela era, como ele dizia, «a menina dos olhos deles».
Planeou o crime minuciosamente, simulando um assalto à habitação da família, com o único propósito de executar a irmã a sangue-frio.
O corpo nu foi encontrado pelos pais no chão da sala. O crânio esmagado alagou-o numa poça de vermelho-vivo. Os olhos foram retirados com um saca-rolhas, deixando dois buracos enormes com vista para o interior. Cada osso do rosto foi partido com a violência exigida, transformando-o numa papa ensanguentada. Não havia ponta que não fosse roxa e não estivesse retalhada.
Quando André chegou perto da família, não precisou de simular a perturbação. Esta ganhou forma humana e veio a caminhar até ele quando Natacha se aproximou, para chorar a morte da sua gémea, Noa.
Liliana Duarte Pereira
 
 
Cobrança

Adelinda fechou a porta da cave, acendeu a luz e pôs-se ao trabalho. Diante de si, estava um homem das Finanças, pendendo do teto por correntes. As grilhetas eram tão fortes que talvez tivessem partido as articulações — das mãos e dos pés — que não tinham sido trabalhadas pelo martelo da carne. Era bom que assim fosse para não fugir.
— Tem vindo o senhor cá há anos para se alimentar de todas as minhas poupanças, não é? Hoje, mudamos um bocadinho as coisas.
Adelinda pegou no machado que usava para cortar lenha no quintal e decepou ambas as mãos do ganancioso, seguidas dos pés. Depois, espetou agulhas nos cepos para que o sangue vertesse para diversos frascos de geleia. A seguir, como se fatiasse fiambre, aparou a barriga oval para onde fora todo o dinheiro roubado. Com cuidado. Lentamente.
Só após muitas horas e muitos gritos é que Adelinda usou uma colher de gelados para extrair os olhos, ajustando-os no topo do prato de carne que tinha o sangue como cobertura. Colocou o saque no forno de barro para ser o jantar dos seus animais. E eventualmente o seu.
Subiu então as escadas para ver televisão, enquanto esperava que a carne estivesse no ponto. E ao fechar a porta, com um sorriso, disse para o homem lá em baixo:
— Amanhã, há mais.
José Maria Covas
 
A Boleia

Sempre achei as pessoas muito cruéis e egoístas. Comigo não costumam ser simpáticas. Na verdade, gozam-me por causa dos meus dentes encavalitados e tortos. São tão grandes e incómodos que me impedem de fechar a boca corretamente. Mas todos na minha família padecem deste mal. A minha mãe diz que uma rapariga franzina e tímida como eu tem de ganhar calo para as agruras da vida. Assegurou-me de que as rasteiras e empurrões dos meus colegas de turma, por exemplo, formam o caráter. E com o tempo, aprendemos a ignorar os insultos. Aliás, já ninguém me chama pelo nome. Sou a «dentuça» ou a «dentes de cavalo». Perdi a conta às vezes que me pediram para relinchar.
Portanto, foi com grande surpresa que hoje, a caminho de casa, fui abordada com amabilidade por um senhor distinto, preocupado com a segurança de uma rapariga sozinha na rua àquelas horas da noite. Com uma simpatia rara, ofereceu-se para me dar boleia até casa. «Era o mínimo que podia fazer», sossegou-me, abrindo-me a porta do carro.
Hesitei de início, mas acabei por entrar e me sentar no banco de trás, enquanto a sua voz melodiosa me perguntava onde eu morava e se alguém me esperava em casa. Escondi um sorriso danificado, agradecida, e respondi que só a minha irmã mais nova me aguardava. Acrescentei que estava a tomar conta dela na ausência dos nossos pais.
O veículo arrancou pouco depois de trancar as portas. À medida que lhe ia dando as direções, comecei a sentir-me mal por lhe ter mentido, mas a minha mãe tinha-me pedido para levar o jantar para casa, e estes bons samaritanos são tão fáceis de enganar.
Marta Nazaré
 
A Dança

Todos sabiam o que acontecia a quem passasse pelo cemitério depois do pôr-do-sol. Não era nada de aterrador, na verdade — pelo menos para quem não fosse vivo e prescindia de crenças tão curiosas como a morte tratar-se de um sono eterno, ou os mortos deverem ficar sossegados, pelo menos enquanto os vivos estivessem por perto.
Em defesa dos residentes do cemitério, eles esperavam sempre que o último vivo abandonasse o recinto antes de começarem a sua dança. Mas se algum por lá decidia ficar, por que haveriam eles de voltar às suas posições diurnas? A eternidade era tremendamente aborrecida para se ficar parado a toda a hora.
Além disso, se um vivo ficava a observar a dança, seria certamente porque se queria juntar. E porque não? Os residentes do cemitério, apesar de inicialmente reticentes quanto a esta questão da «morte», depressa se aperceberam das vantagens da sua nova condição — adeus às preocupações tão estúpidas da vida! Perante essa completa leveza, quem não quereria dançar para todo o sempre?
Era por isso que ninguém se aproximava do cemitério depois de certas horas. Não por falta de consideração ou hospitalidade dos cadáveres. Muito pelo contrário.
Patrícia Passos de Sá

A Mais Bela Flor

Jacinto colheu as rosas brancas da estufa e ofereceu-as à filha de Orquídea. Rosa, que fazia catorze anos, agradeceu-lhe com um sorriso, mostrando-lhe os dentes de pérola. Jacinto corou e devolveu-lhe o sorriso, fixando por momentos o rosto de pele delicada, os cabelos louros ondulantes e os olhos de um tom azul-marinho.
Estava nervoso, sentado ao lado de Rosa. Nem mesmo as rosas mais exóticas exalavam o perfume que se desprendia do seu cabelo e da sua pele: um odor de gordura fresca não azeda e um cheirinho de iogurte acabado de fazer. Rosa era uma flor a desabrochar para a adolescência.
Enquanto mãe e filha conversavam, serviu-lhes uma tisana e uns biscoitos de manteiga. A senhora Orquídea, que ocupava quase dois lugares no sofá, pediu-lhe mais chá e mais biscoitos. Jacinto foi até cozinha, ferveu a água e juntou-lhe um ingrediente especial. Pouco tempo depois, Rosa e Orquídea dormiam.
Jacinto observou-as de perto e, com cuidado, amarrou-as e amordaçou-as. A seguir, levou Rosa para a estufa e aparou-a com delicadeza. Arrancou lentamente os belos olhos com uma tesoura de poda para não os danificar. Esquartejou-lhe os braços com uma pequena enxada. Descolou as unhas dos pés e das mãos com um serrote, separando com paciência a pele das unhas. Colocou-a no colo e enterrou o corpo até se ver a cabeça, deixando de fora os belos cabelos louros. Depois, regou-a com orgulho, a mais bela flor da sua estufa.
Sandra Amado

«Escrever é a pintura das palavras.», Voltaire.

Nesta sessão escrevemos a partir de uma conhecida obra da artista portuguesa Helena Almeida (1934-2018). A imagem funcionou como ponto de partida que cada participante trabalhou livremente.

 

 helenaVasconcelos

 


Fora / dentro / fora
Cor / negro / branco cinza
Luz / sombra / sombras
Opaco / fosco/ translúcido
Encobrir / descobrir
Fechar / abrir
Olhar / não olhar
Escutar / não escutar
Cheirar / não cheirar
Saborear / não saborear
Sentir / não sentir
Respirar / Suster
Inspirar / Expirar
Suspender / extender
Contrair / expandir
Pousar / fluir / flutuar
Sólido / líquido / gasoso
Neve / rio / nuvem
Princípio / caminho / fim
Querer / rejeitar
Escolher / duvidar
Amar / odiar
Princípio / fim
Nascer / viver / morrer
Ir / ficar
Rir / chorar
Verbo / sujeito
Directo / indirecto
Querer / rejeitar
Verão / inverno
Primavera / Outono
Vermelho / branco
Verde / amarelo
Verde / verde / verde
Vale / montanha / cume
Nascente / foz
Novo / velho

Se no princípio era o verbo, onde fica o sujeito?
Se os rios correm para o mar onde ficam os meus risos? E os choros, têm lugar? Ou habitam-me de madrugada, à hora que ninguém vê?
Vem vida, vamos juntas, a par, não me deixes, não me pregues mais partidas, não mudes as tuas perguntas porque já esgotei as respostas.
Sim, eu sei que queria seguir um caminho que nunca ninguém percorrera, calcá-lo e fazê-lo meu, sob o arco dum céu de veludo e sem outra bagagem que não os meus demónios.
Olho agora esse caminho, em que sombras se adensam e um nevoeiro espesso aperta, sem outra opção que não seja seguir um trilho, expulsar demónios e convocar os anjos que me deixaram cedo demais.
Vou, não vou? (É uma afirmação, não uma pergunta).Levo na bagagem as memórias, os risos, as cores, dos verões e dos serões que passaram, que nada pesam, ao contrário da certeza deste opressor inverno polar.

Paula Carvalho


ALEXANDRA ESCONDEU-SE ATRÁS DO AZUL

Alexandra escondeu-se atrás do azul enquanto observava o filho Daniel a pintar o silêncio gota a gota, no tempo em que uma arma biológica atingia o mundo.
- She got the blues – gozavam na empresa onde lhe caiam os tostões ao fim do mês. Colocada numa sala deserta sem fazer nada e nem assim lhe davam teletrabalho na pandemia. Era o assédio moral em pleno, até o sindicato a oprimia. A negra opressão da ditadura a que fora votada a sua carreira. Queres uns tostões ao fim do mês? Deita os canudos ao lixo e 4ª classe para a frente.
Meteu baixa por depressão por tempo indeterminado.
Arranjou uma caixa de aguarelas e começou a pintar sapatos em cima de cabeças, diplomas rasgados, vidas a partirem-se pelas escadas abaixo.
Lá fora, a pandemia rugia, 300 mortos por dia, 15 000 infectados por dia e ela pintava vírus dentudos a estrangularem inocentes ante o riso da bandeira chinesa.
Certa tarde, abandonou as pinturas e foi prostrar-se à janela da casa, agora transformada em gaiola anti-virus. Quando regressou à sala, uma flor azul tinha nascido na tela. O filho autista, com os dedos cobertos de tinta azul, olhava fixamente a parede com os seus olhos de céu nocturno.

Helena Campos


O MAR, UMA MANCHA AZUL

Estou à frente do mar, que me aparece como uma imensa mancha azul; está vento, que agita as ondas e as faz subir e descer. Fico submersa na onda das recordações, de um tempo agora distante.
Quem me dera poder voltar a felicidade daqueles dias, mas tenho de me resignar, - o que se foi embora não vai voltar, perdeu-se, não haja ilusões.
Olho para o céu, outra imensa mancha azul; vejo um bando de gaivotas que voam livres, felizes! Também queria ser uma delas, voar, ser feliz.
Ao olhar novamente para o mar encrespado pelas ondas, tenho consciência de que, no fim de contas, talvez a vida seja como aquelas ondas que andam numa roda-viva, que se aproximam da terra, para depois se afastarem de novo. Enfim, uma série de altos e baixos.
Ouço o canto das gaivotas que esta vez me faz acordar de uma espécie de torpor em que tinha caído; aquele canto é um convite a olhar para frente, para o futuro sem ficar apanhada nos laços do passado. Então, vejo na voz das gaivotas uma mensagem. Uma mensagem que me infunde a esperança de algo novo e melhor. De coração leve, viro as costas ao mar, aquela imensa mancha azul, e volto para casa, decidida a recomeçar do zero, olhando para o céu, outra mancha azul.

Giuseppa Giangrande

 

Não quero continuar escondida atrás deste azul imenso de dúvidas que ensombraram toda a minha vida.
Quem fui e quem sou?
Ontem triste e derrotada, hoje alegre e conquistadora, como estarei amanhã?
Um longo caminho de hesitações e receios que me aprisionam atrás deste mar de insegurança.
Quero libertar-me, emergir da profundidade, mostrar um meu outro Eu .
Dar a conhecer as minhas conquistas, experiências vividas de relação humana, de dor e sofrimento e até de morte, mas também tantos momentos de felicidade e alegria que exprimem o sentimento de missão cumprida .
Esta na hora de pegar no pincel e pintar uma nova tela.

Isabel Soares

 

Após uma breve apresentação das maleitas e queixas de Manuela ao osteopata, bem como referência aos medicamentos e pomadas utilizadas, o médico analisou o raio-x da sua coluna vertebral. Manuela foi convidada a contornar o biombo do amplo consultório de traça pombalina. Despiu a blusa, fincou os pés e inclinou o torso para que o médico palpasse a extensão das crispações e inflamações na coluna e o agravamento do desvio ósseo.
- As inflamações aumentaram-lhe claramente a escoliose e o desnível das ancas - confirmou o médico.
- Daí o sofrimento que não cessa. Eu bem tento corrigir a postura, Dr., mas não consigo, as dores não me largam. Os analgésicos não produziram o alívio desejado. Acabei por recorrer ao Valdispert 125 que me tem oferecido um sono pesado o suficiente durante as noites e a cabeça pelo menos vai funcionando.
- Sim, sim - foi concordando o médico - pressionando as áreas bloqueadas com mãos sábias para as descongestionar.
Manuela fechou os olhos e tentou descontrair-se repetindo-se: o doente é participante ativo na sua cura; tenho de colaborar. E começou a respirar com mais soltura. Cerca de uma dezena de minutos depois, o médico deu a primeira sessão do tratamento por terminada.
- Não posso avançar mais. Se a pressionar demasiado, amanhã não poderá fazer a sua vida normal.
À palavra 'normal', Manuela despertou completamente. O corpo estava ligeiramente dorido, mas o alívio ao nível das costelas e dos pulmões mais libertos, davam-lhe novo fôlego.
- Naturalmente, sentirá algumas dores durante dois dias. Os transtornos estão acentuados. Vamos marcar para daqui a três dias? A menos que surja algum problema. Nesse caso, marque que eu atendo-a como urgência.
- De acordo, Dr. Acredito que a partir de agora vou recuperar. Pena tenho eu de ter agravado tanto a questão.
Já na escada de soalho encerado, Manuela renunciou ao elevador e desceu cautelosamente o piso até ao átrio de entrada do prédio. Sentia-se como nova, ou prestes a sê-lo com uma coluna leve e flexível e um quotidiano ativo e feliz. E nunca mais se lembraria de pintar as dependências todas da casa! É certo que a reforma lhe trouxera uma sensação de desconforto e inutilidade, agora que o marido brilhava como reitor na Faculdade de Belas Artes. Ele que se dedicasse à pintura de obras artísticas e aos seus múltiplos afazeres. Ela praticaria o seu Pilates com supervisão médica como se fosse uma modalidade olímpica. Um feito para quem, em silêncio, já receava a invalidez.
 
Lídia Vieira 

NOVA TEMPORADA 2021/22

 passaros

 «A escrita, se olhares bem para ela, é um delírio organizado.», António Lobo Antunes

Aqui, na Naftalina-Sabonária, escrevemos textos durante a sessão inspirados num tema, texto ou estilo apresentados na sessão. Também continuamos com o projecto FOLHETIM, a acompanhar também neste blog, em publicação separada.
Nesta sessão inspirámo-nos no conceito de «delírio organizado» que nos trouxe a citação de A. Lobo Antunes.

A proposta foi começar com uma palavra «escrita». A partir daí, fazer associações livres, até a caneta ou teclado, tiver vontade de começar uma pequena história.

 

Escrita
Essência
Grita
Cria
Espanta

A mente de Demétrio estava imóvel. Era natural, pois o impossível acabara de ocorrer. Mas como? Talvez até fosse isso que o espantara, pois sabia que, de facto, o acontecimento tinha uma causa, agora se esta se encontrava enquadrada em qualquer padrão do conhecimento humano a resposta certamente era não. No entanto, desconhecia se o seu grito teria sido de horror ou de alegria ao se aperceber que o que apareceu à sua frente após ter escrito “Fim ou início?” na última página desafiava o meio envolvente.
Podem as palavras ter tanta força ao ponto de tornarem o abstrato em algo concreto, ancorado a esta realidade, mas que continua ligado a outro plano de existência? O que será mais verdadeiro, ele, sentado nesta cadeira com os pés presos ao chão de madeira e as suas mãos agarradas tanto à pena como ao papel, ou a sua criação, uma ideia que não se encontra presente neste mundo? Não sabe. Nem sabe se esta ideia manifestada faz parte dele, se a criou de raiz para complementar o que ele sabia que tinha em falta, se lhe foi apresentada por um ser superior à qual ela pertence, ou até se ele estaria a pensar nesta situação ao contrário: será que ele era a criação e não o criador?
O que ficou a seguir a saber era que tinha três opções: podia negar a existência daquela entidade e, portanto, desconstruí-la de maneira a preservar a sua própria identidade e meio ambiente, pensar que de facto já era tempo de haver uma mudança e de recomeçar do zero ao ser o ele atual obliterado, ou de optar por o antigo e o novo coexistirem, ajudando-se um ao outro com as suas melhores qualidades.
Escolheu a terceira opção. Lentamente, ergueu-se, ouviu os sussurros de aprovação e de incentivo. Estendeu a sua mão. A figura converteu-se num líquido negro e verde que voou pelo quarto hospitalar, tocou nos seus dedos, percorreu os seus braços e penetrou os seus olhos, desaparecendo dentro de si. Estava contente. Abriu a janela enquanto as fendas surgiam na sua cara e percorriam o seu corpo de cima a baixo, ergueu os braços e desintegrou-se. As partículas de ambos foram de seguida levadas por uma brisa para serem reconstituídos noutro lugar, noutra época, como algo diferente, algo mais.
              José Maria Covas


Escrita
escriva
criva
balas
rimas
força

O Quinquilhas trabalhava com rimas; gostava de se ver a si próprio como um carpinteiro, mas em vez de madeira, o seu material eram palavras. Pegava nas sílabas, baralhava-as, distribuía-as, engalanava-as, perfumava-as e colocava-as num caderninho onde estas ganhavam forma. Quando estavam prontas, dava-as a experimentar a alguns amigos.
- Estão muito doces!
- Falta-lhes um pouco de sal!
- Estão no ponto!
- Experimenta grelhar mais um bocadinho!
Desde que aprendera a ler, na Escola Básica de Marvila, as palavras sempre lhe despertaram um interesse que não tinha para os números. As lengalengas deixavam-no feliz por as poder continuar.
“Atirei o pau ao gato, to, to, mas o gato, to, to não morreu, eu, eu, Dona Chica, ca, ca, assustou-se, se, se com o berro, com o berro que o gato deu. MIAU! Encontrei-o na praia do Vau, au, au, a chorar, ar, ar, Dona Pipa, pa, pa, teve pena, na, na e levou-o e levou-o para casa, sa,sa!”
No bairro onde vivia, sítio com fama de ter má fama, a força, algumas vezes, era conquistada ao murro, outras bastava acenar com uma arma. Para Quinquilhas, as rimas, os poemas que fazia, eram as suas balas, eram a maneira que tinha de comunicar.
Por isso, quando tinha 16 anos, apresentou-se a um concurso com uma história sobre dois senhores que no dia 7 de setembro de 2002, receberam uma carta do IPO a dizer que tinham cancro. Os dois senhores moravam em Chelas, mas não se conheciam. Com os tratamentos, descobriram que viviam perto um do outro.
Começava aqui uma amizade que só a doença travou.
A história convenceu o júri que lhe atribuiu uma menção honrosa.
Para Quinquilhas, era importante desmistificar a má reputação que o seu bairro tinha. Por isso, escrevia na esperança que um dia, as notícias noticiassem:
- Hoje, em Chelas, apareceram palavras, rimas, restos de frases nas casas das pessoas!
Um dia, tinha 19 anos, ao sair de casa, viu um arco-íris a aparecer do nada a iluminar Chelas. Achou aquilo tão bonito que sacou do seu caderno e ia começar a escrever quando uma bala perdida lhe entrou na cabeça.
Caiu logo ali, juntamente com o caderno. A última entrada dizia:
“-Uma palavra pode ser doce, mas não adocicada.
Uma palavra pode estar congelada, mas não é gelo.
Uma palavra pode ter força, mas não é ela que mata.”
                       Tiago Pina


TETO
Há três meses que a Guida procurava um teto para comprar e o tempo urgia. Correra os bairros de que mais gostava, mas tudo lhe estava vedado por excesso de zeros nos preços apontados. E nem as sugestões de descontos de 20% ou de supressão do pagamento da escritura a animavam. Os vendedores solícitos insistiam em enaltecer as vantagens do jardim de um rés-do-chão sombrio ou a luminosidade de um sótão liliputiano proibitivo para o seu metro e oitenta. Só os imóveis por construir correspondiam a um empréstimo próximo do teto de esforço aceitável para o programa de validação imposto pela banca. Tudo o resto era risível para os funcionários que a atendiam, tentativa após tentativa.
A Guida ía preenchendo os seus dados e impressões num caderninho de escola onde antes fizera as redações. Só que não conseguia escrevinhar nada com um possível final feliz.
Todos os domingos, os pais convidavam-na a almoçar para ‘porem a escrita em dia’. Expor oralmente e expôr-se ao sorriso benigno da mãe e aos comentários mordazes do pai organizava-lhe o pensamento cada vez menos delirante, a cada dia mais focado.
O discurso do senhorio, outrora afável, depois irrompendo com o argumento da necessidade para uso próprio, disfarçava cada vez menos a adesão ao arrendamento lucrativo. Uma tentação que mudaria a vida de muitas pessoas para sempre.
Calcorreados tantos bairros, muito cabisbaixa de tanta frustração e raiva, começou a buscar os quadrados dos escritos, coisa tão rara. Num prédio remodelado, o seu olhar encostou-se a três novos pisos de cobertura contendo os clássicos quadradinhos. Decidiu ir tentar a sua sorte, procurando num novo aluguer e na Deco interlocutores menos espinhosos do que as instituições bancárias. Pigarreou e procurou andar sem tropeços, ritmando palmadinhas no seu caderno de bolso.
                       Lídia Vieira


liberdade
pensamentos

Que se tornam realidade numa folha de papel solta.
Palavras que parecem sem sentido, mas que escondem e querem dizer algo, falar ao coração. Agora compete a ti, leitor, interpretar o que elas, as palavras, querem comunicar.
Elas desejam ultrapassar os limites, que representam as imposições dadas por alguém que não tem direito a reprimir o que vem do coração. Muitas vezes elas, as palavras, são consideradas perigosas e podem fazer mal e causar sofrimento. É isso o que estou a viver, uma vida cheia de sofrimento… mas não quero mover a compaixão, desejo só que as palavras sejam um incitamento a viver livremente…
A escrita agora interrompe-se no meio da frase, que não chega ao fim…
Respiro fundo: quem pode ter escrito isso, nesta folha de papel solta, que encontrei debaixo do chão de mosaico na casa que acabo de comprar e que está a ser remodelada? Foi um homem, uma mulher a fixar essas palavras na folha de papel amarelada que agora tenho na minha mão e que me fazem sentir calafrios? O que aconteceu a essa pessoa e por que se interrompeu a frase de repente?
Ao ler essas poucas palavras, sinto-me na obrigação de fazer algo, de decifrar o enigma que está atrás deste breve texto. A única coisa que virá em minha ajuda é a data em cima da folha ou melhor o ano, posso ler apenas 1950…
                  Giuseppa Giangrande

 

Escrita
livro
biblioteca
traça
mafra
viagem
camionete

PARAGEM
A paragem da camionete tinha o abrigo estragado. A chapa do tecto estava rasgada numa estrela assimétrica que pouco fazia pela violência do sol. O banco estava solto de um dos lados e era a perna dele que fazia da que faltava. Quase cansava mais estar sentado do que em pé. Uma carrinha de caixa aberta com duas gaiolas de galinhas brancas tremeu pela estrada e deixou mais uma camada de pó nas suas botas. Agora já não fazia diferença, a caminhada tinha-as posto daquela cor que faz sede e comichão na garganta só de olhar. A camionete passava às 3, se não se atrasasse. Ainda tinha 15 minutos para contar os carros que passavam. Tirou da mochila o telemóvel. Sem rede, o costume. Desligou e voltou a ligar. Nada. Levantou-se e leu o horário em letras pequenas e um cartaz que anunciava «Nando e as Chiques, 15 de Agosto nas Festas da Senhora do Calvário». Só que era do ano passado. Admirou a cabeleira lustrosa e os ray-ban do Nando, as Chiques eram duas raparigas em collants e plumagens cor-de-rosa que sorriam muito. Bons dentes, pensou. De certeza que já tinha passado meia-hora. Seca, seca a toda a sua volta. Ouviu um motor ao longe e pegou na mochila. Olhou para a curva e viu surgir um carro azul metalizado. Pousou a mochila outra vez. O carro era bem bonito, de matrícula alemã – imigrantes, pensou, embora o modelo não batesse certo.
Pegou no telemóvel e caminhou para a frente e para trás na estrada de poeira e pedras. Depois, nem rede, nem bateria. Passaram duas horas? Havia sempre a camionete das 6. Já passava das 6? Voltou para o abrigo. O rasgão do tecto deixava ver uma nuvem cinzenta. Quase de repente começou a chover. Encolheu-se a um canto. Se ficasse bem encostado podia quase escapar à chuva. As botas ficaram outra vez pretas e a terra tornou-se lama. Um raio iluminou o céu e um trovão fê-lo vacilar. A tempestade era um canhão em cima dele. Um novo raio desceu do céu direito aos pinheiros do outro lado da estrada. Com horror viu a árvore engolir o feixe de luz e depois ficar completamente carbonizada. A trovoada durou muito tempo e ele ficou encharcado e infeliz. Sentou-se no banco a arfar, ouvindo os últimos pingos da chuva e o crepitar que vinha das árvores. Estava demasiado escuro para sair dali. O cansaço fazia-o ver luzes e ruídos que não existiam. O restolhar das folhas confundia-se com passos e sons arquejantes. O seu eco? Voltou o silêncio. Agora parecia que pontinhos de luz vinham na sua direcção. Dois a dois, calmamente, mas sem parar. Cada vez mais próximos. Tinham descido os lobos.
                   C. Borges