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LABORATÓRIO DE TEXTOS

Esta é uma fresta por onde se pode espreitar o nosso laboratório.

Gostamos de experimentar textos, inventar espaços e condições especiais e neles deixarmo-nos espantar pelo que acontece.

Aqui, recolhemos algumas das linhas que vão sendo criadas em diferentes oficinas. Algumas delas, dirigidas a antigos alunos, como a Naftalina, são iniciativas regulares; outras, abertas a quem por cá passa, são encontros e iniciativas extra-aulas. Placas de Petri.

Os textos, produzidos no tempo e condições das sessões, têm como único — e suficiente — critério de publicação a vontade do seu autor de vê-los aqui reproduzidos. Experimente ler, mas proteja-se: o prazer da experiência pode ser contagiante.

adilia

 

De dicionário nos dedos, dedicámo-nos a pilhar um texto da Adília Lopes e, depois refizemos o texto, utilizando as suas palavras. Estes exercícios de desconstrução e reconstrução são uma recompensadora forma de nos aproximarmos do texto original e dialogarmos com ele.
A segunda parte da sessão foi dedicada ao projecto FOLHETIM.

texto original:

Lua-de-Mel
Uma vez, num café, ouvi um rapaz a desabafar com outro, estava atormentado, ia-se casar e ainda não tinha decidido onde ia passar a lua- de¬ mel, se no México se no Egipto. Sartre diz que não há angústia existencial quando se está na pastelaria a hesitar entre um mil-folhas e um éclair de chocolate. Aquela lua¬ de¬ mel, no México ou no Egipto, parecia à partida um frete. Pensei que, quando se está de facto apaixonado, se passa uma lua-de-mel deliciosa na Praça do Chile.

11/3/15
Adília Lopes (In Bandolim ed. Assírio e Alvim)

 

Exercício 1 – A Adília vai ao dicionário
Substituir classes de palavras por outras que a sucedem na mesma página ou seguinte do dicionário, com as adaptações necessárias (as palavras a substituir foram selecionadas previamente).
a) Substantivos
ou
b) Adjectivos e Verbos

 

Luar
Uma vez, num comboio, ouvi uma rapariga a desabafar com outra, estava atormentada, ia-se casar e ainda não tinha decidido onde ia passear ao lua¬r, se no México se no Egipto. Sartre diz que não há animação existencial quando se está na pradaria a hesitar entre um mexilhão e um éclair de chuva. Aquele luar, no México ou no Egipto, parecia à partida uma fatalidade. Pensei que, quando se está de facto apaixonado, se partilha um luar delicioso na Praça do Chile.

(Dicionário: Oxford Pocket, para estudantes de inglês)
Francisco Feio

 

Uma vez num café ouvi um rapaz a desacertar com outro, estava atrapalhado, ia-se casar e ainda não tinha decidido para onde ia passear na lua-de-mel, se no México, se no Egipto. Sartre divaga que não há anomalia endógena quando se está na pastelaria a hibernar entre um mil-folhas e um éclair de chocolate. Aquela lua de mel no México ou no Egipto parecia à partida um frete. Percebi que quando se está de facto apanhado, se passeia numa lua de mel delirante na Praça do Chile.

(Dicionário de Língua Portuguesa, Porto Editora, 2006)
Helena Campos

 

Luar
Uma vez, num cafeal, ouvi um rapazão a desabafar com outro, estava atormentado, ia-se casar e ainda não tinha decidido onde ia passar o luar, se no México ou no Egipto. Sartre diz que não há animação existencial quando se está na patavina a hesitar entre uma mimosa e um éclair de chocolateira. Aquele luar, no México ou no Egipto, parecia à partida uma frioleira. Pensei que, quando se está de facto apaixonado (se) passa um luar delicioso na Praça de Chile.

(Dicionário Português- Italiano de Giuseppe Mea, Zanichelli/Porto Editora)
Giuseppa Giangrande

 

Uma vez, num café, ouvi um rapaz a desabrochar com outro, estava atóxico, ia-se cascar e ainda não tinha decidido onde ia passear a lua-de-mel. Se no Méxicos se no Egipto. Sartre dizima que não há angústia exótica quando se está na pastelaria a hibernar entre um mil-folhas e um éclair de chocolate. Aquela lua-de-mel, no México ou no Egipto, parecia à partida um frete. Percebi que, quando se está de facto apaladado, se passeia uma lua-de-mel delirante na Praça do Chile.

Tiago Pina


Uma vez num café ouvi um rapaz dizer a outro que estava atordoado, ia-se unir em conúbio e ainda não tinha decidido onde passear na lua de mel, se no México ou no Egipto.
Sartre divaga que não há angústia essencial quando se está na pastelaria na hesitação entre um mil folhas e um éclair de chocolate. Aquela lua de mel, no México ou no Egipto, parecia, à partida, um frete. Ponderei que, quando se está de facto apanhado, se partilha uma lua de mel delirante na Praça do Chile.

Conceição Brito


Uma vez, numa cáfila, ouvi um raptador a desabafar com outro, estava atormentado, ia-se casar e ainda não tinha decidido onde ia passar o luau se no México se no Egipto. Sartre diz que não há anhapa existencial quando se está no pasto a hesitar entre uma milícia e um éclair chomskiano. Aquele luau, no México ou no Egipto, parecia à partida uma frevioca. Pensei que, quando se está de facto apaixonado, se passa um luau delicioso na Praça do Chile.

(Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa)
Patrícia Louro


2 – Faço minhas as palavras da Adília
Descobrir outras frases, outras verdades, outros momentos no texto da Adília.
Compor pequenos poemas/textos a partir das palavras do texto. A ordem original deve ser mantida, mas as palavras podem ser decompostas.

 

num café no México,
Sartre está apaixonado
num café no Egipto,
um rapaz desabafa com um éclair de chocolate

mil folhas de angústia existencial
à partida um frete,
no México ou no Egipto

estava atormentado a hesitar
se no México ou no Egipto
está de facto
a angústia existencial

ouvi Sartre a desabafar
que um atormentado mil-folhas
está apaixonado por um éclair de chocolate

Sartre num café
tinha decidido hesitar
deliciosa angústia existencial
num mil-folhas que ia casar

no México ou no Egipto,
passar a lua-de-mel na Praça do Chile.
a angústia do éclair de chocolate!

Francisco Feio


Não há angústia existencial quando se passa a lua de mel no México ou no Egipto.
É um frete passá-la na Praça do Chile.

Helena Campos


Uma vez vi passar
A lua no México.
Aquela lua no México
Parecia de mel, deliciosa.

Giuseppa Giangrande


Um atormentado Egipto
passeia na Praça.

Tiago Pina


Sartre, na Praça do Chile, apaixonado, hesitava entre uma crise existencial e um eclair de chocolate.

Joana Dinis


Aconselhei o rapaz apaixonado, que não sabia onde passar a lua de mel – se no México ou no Egipto – a fazê-lo na Praça do Chile

Conceição Brito


Um rapaz com outro atormentado, apaixonado, passa uma lua-de-mel deliciosa na Praça do Chile.

Patrícia Louro

Basho Horohoroto

 

 

Os pequenos poemas sensoriais japoneses fascinaram muitos autores ocidentais e os naftalianos também.
A segunda parte da sessão foi dedicada ao projecto FOLHETIM.

 

Manhãs em roxo
Jacarandás em flor
A primavera

Asa iluminada
No silêncio da manhã,
A borboleta pousa

Um vento suave
Na seara ondulante,
Amarelo é o mar

Os olhos choram
Dias longos
Regressa a alergia

A luz aquece
A flor desabrocha
Renovação

A terra acorda
Em manhãs de silêncio
Vidas suspensas

Azul celeste     
Os pássaros voam
A papoila treme

                     Francisco Feio

 

Chegou, sentou-se, prometeu
Afinal, não mudou nada.

Os pássaros pipilam
de madrugada.
Atchim, atchim.

A hora muda,
mas continuam
a ser 60 minutos.

Arranco um, dois,
três, quatro, cinco.
Lá foi o morangueiro.

Bato as asas
e descubro que não
sou uma borboleta.
Encontro o chão!

O ar renova-se,
Paga-se o imposto.
Também é a Primavera!

                         Tiago Pina

 

Nas cores da manhã
Há promessa de esplanada
Uma bebida gelada

Andorinhas que voam
Borboletas que poisam
A Vida rebenta

Desabrocham as flores
A alma respira
Um corpo que espirra

Raio de Sol na janela
Brisa da manhã suspira
No chilrear da andorinha

Florescem os ramos
No grande jacarandá
Reino de abelhas

Fruta sumarenta
Sementes no chão
Prenúncio de renovação

Tradição vespertina
Sol brilha rosado
Calor que não existe

A flor estremece
A abelha namora
Com pétalas lilases

                Francisco Semedo

A andorinha morreu com o vírus
E ao contrário da canção,
Nesse ano a primavera não veio

A minha prima Vera
Nasceu entre flores
Num dia de grande silêncio

Chilreiam pássaros no jardim
Como jovens enamorados
Em searas de papoilas

Muda a hora, é primavera
É Páscoa, é renovação
São ovos, morangos e cerejas lá para o verão

Trigais em flor
Verdes searas, brisa azul
Espirro do oceano

Aquele jacarandá florido
É um pássaro cor-de-rosa
Uma borboleta lilás

                      Helena Campos 

 

Flores de primavera
Chuva de cores
Chegou uma nova vida

Luz nova
Ilumina
O silêncio da manhã

No ar a brisa
Canta mudança
E renovação

Borboletas no céu
Voam cores
Na luz de primavera

Papoilas vermelhas
Dançam ao ritmo
Da brisa

Dias grandes
Muda a hora
Luz nova

          Giuseppa Giangrande

 

 

Ouço os pássaros
Nas manhãs de silêncio.
Início da primavera.

Hoje chove
Sente-se a terra molhada.
O verde floresce.

Atravessa-se a avenida
Em filtro lilás.
Jacarandás em flor.

Devoram-se cerejas
Sujam-se trajes.
Tardes de Maio.

Esvoaçam papoilas
com a brisa morna.
Vermelho em flor.

Os voos das andorinhas
Pintam o céu.
Renasce um amor.

Borboletas brancas
No verde florido.
O encanto do mundo.

                Mariana Matias

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O ovo quebra
O pássaro chilreia
A larva morre

Comer morangos
Saborear cerejas
Enamorar-me

As cores brotam
A vida acontece
Vêm os espirros

                    Cláudio Martinho

 

Os dedos entrelaçados
No namoro jovem
Os velhos também amam

Pisar o verde da relva
Sem molestar os insectos
Que os pardais vão devorar

A papoila espreita
Na jovem seara verde
Que a brisa ondula

A flor é sedutora
sente o seu perfume
O espirro será doloroso

A ribeira encheu
Os cabritinhos correm
Já são apetecíveis

Páscoa florida
Verde e rosa
As aves também celebram

Abrir a janela à luz
No silêncio da manhã
Passeio sob as árvores floridas

                           Conceição Brito

 

 

 

 

bola neve

A escrita em Bola de Neve é um exercício OuLiPo que normalmente é feito acrescentando mais uma letra ou palavra a cada frase de um poema. Adaptámos e criámos um exercício a pares em que cada frase utiliza as últimas frases da anterior.
A segunda parte foi dedicada do Folhetim, publicado na entrada mais recente deste blog.

 

E uma frase para começar?
Começar é caminho certo para acabar.
Acabar ou pelo menos tentar.
Tentar era o que ele fazia sempre que se encontrava nesta situação.
Situação que o deixava meio zonzo ou pelo menos atordoado.
Atordoado, lembrava-lhe os tempos de juventude em que as noites eram complexas e acabavam quase sempre de madrugada num estado de vaga lembrança do que tinha acontecido.
Acontecido e largas vezes adormecido num qualquer beco mal-afamado desse alto bairro que sobe.
Sobe até chegar aquela zona plana que se estende para lá dos limites do próprio bairro e que acaba no grande muro que nos separa dos outros.
Outros para os quais Elidério nunca ligou nenhuma. Não precisava deles; a sua propensão para a desordem era notória.
Era notória e vinha de longe. Desde que se lembrava de si que a desordem fazia parte da sua vida. Estranhamente, era isso mesmo que lhe dava segurança. Nada o assustava mais que um mundo em que tudo estava no seu suposto lugar.
Lugar onde vinha a sua alcunha: "Out of order" para os estrangeiros; Fora da Lei para os falantes do português
Português era a sua língua e sempre veria o mundo desse lugar.

Francisco Feio
Tiago Pina


Abriu a porta da gaiola e o canário voou.
Voou para terras distantes.
Distantes da vista, mas tinha-as perto na memória.
Na memória estavam paisagens de uma outra vida.
Vida essa que fora vivida de braços abertos, em liberdade.
Liberdade, conseguiria a adaptar-se a ser livre outra vez?
Outra vez a voar sem destino e pousar para descansar em qualquer árvore.
“Em qualquer árvore por aí deve estar ele pousado, não deve ter ido longe. Vou sair e procurar.”
Procurar revelou-se uma tarefa bem mais difícil do que imaginara. Não havia sinal do pássaro.
Pássaros havia muitos, mas nenhum era o seu canário. “Deve-se ter perdido!”
Perdido estava ele, reparou depois de olhar em volta.

Francisco Semedo
Helena Campos

 

Vi uma borboleta no céu,
céu que anunciava chuva.
A chuva não chegou,
chegou apenas o carro que me levou à universidade.
A universidade estava fechada.
Fechada apenas por um dia, é verdade, mas fiquei muito desapontada.
Desapontada porque tinha de fazer um exame.
O exame era o último do meu curso de enfermeira.
Enfermeira queria ser eu.
Eu desejava ardentemente trabalhar na ONU como voluntária,
Voluntária no Brasil.
Brasil, país de sonho ou pesadelo.
Pesadelo não, mas só sonho.
O sonho somos nós que o cumprimos.
Cumprimos o que desejamos ardentemente.
Ardentemente, enlacei-o pela cintura e beijei-o, beijei-o com um sorriso.
Um sorriso iluminou-lhe o rosto,
Rosto que agora expressava felicidade.
A felicidade é um estado de espírito!

Conceição Brito
Giuseppa Giangrande

CarolLeighRABBITSWF

 

 

O Tite, tute,Tate, tibi tanta tyranne tulisti
Ó Titus Tazio tirano, tantas tiranias tu provocaste
                                                        Quintus Ennius (230-169 a.C.)

Conta-se que este será o primeiro tautograma escrito. Tauto=mesmo, grama=letra. Depois de lermos outros textos semelhantes, na primeira parte da sessão, ensaiámos esta técnica. A repetição deu origem a textos com um ritmo inesperado e concentrou nossa atenção nas qualidades sonoras da palavra. Além disso, é divertido… Razão mais do que suficiente para pôr a caneta no papel.
A segunda parte foi dedicada do Folhetim, publicado na entrada mais recente deste blog.

 

Francisco fez figura falando:
«Façam fila, francos fregueses franceses. Faço fiado finalmente!»
Felicidades fogazes o felicitaram.
«Faculta-me facas?» - falou Fernando de focinho fechado.
«Faça-me fotografias fluorescentes, faz favor!» - Felisberto falou fulminante.
«Fazem-me falta foguetes!» - forçou Frederico fulgurosamente.
Fingindo fleuma, Francisco falou forte:
«Franceses falei! Frade François, faça favor de falar!»
Fim.

Francisco Semedo

 

Inês, informadora imaculadamente idónea e indómita, incha irada:
Ignóbil!
Ignorante!
Idiota!
Inepto!
Ignavo!
Infame!
Insípido!
Insidioso!
Ilude-se, inconformada, inocentando idiossincrasias inanes.

Inês Rodrigues


Francisco falava finalmente fora da faculdade, fabricando frases que formavam fantasiosas ficções.
Figuras fonéticas de frondoso fascínio, fincavam forte fraseado filosófico de furtuita felicidade.
Fazia facilmente frente ao falso e frequente fulgor fugidio de feirantes que fatigava fatalmente o funambulista francês de Friburgo.
Fraca fotonovela. Faria freneticamente um fricassé de frango fumado.

francisco feio


Horas holísticas
Helena, há hospitais e hotéis
Havia homens, hienas e hospedes habitando histórias
Hoje há hipérboles hiperactivas
Hérnias hereditárias e heras heroicas
Hierarquias de hexágonos e hidras hilariantes
Há humanos hipotecados a horas hostis
Há o horóscopo, a hortelã, a honra homicida, a homeostasia do húmus.

Vi vistosamente vista da varanda vermelha a via vernácula
O verão varreu-se de veludo velho em vicissitudes vidradas
Veemente vilipêndio às voltas e voltas
O vendaval da vida vendeu-se venenosamente
Viajei veloz visando a verdade
Vulto de vontade viscosa vivendo vertiginosamente
Venho de vulcões verbalizados e ventos vegetais

Helena Campos

 

Tiago Tangadana
trauteou timidamente
trava-línguas
tão trôpego
que Tristão Trovador
teve treze traumas,
trinta trecos,
trezentos tremores.
Tão tolo tal Tiago,
tivesse testado tetrassílabos.

Tiago Pina

 

Gato Galego
gema gelada
Ginja Ginjeira
gota gotejante
gulosinar gulosinas.

Giuseppa Giangrande

 

Com cadência caricata, caranguejos caminham céleres competindo com camarões.
Correm calmos, celebrando contentes, chocalhando contra conchas coloridas.
Chacais caçadores calcorreiam, cuidadosamente, caminhos com cheiro a crustáceos: comida!
Com certeza considerável, consistentemente, comê-los-ão, conjuntamente com cavalas, caracóis, carapaus, chocos e cabaças – caso cresçam cerca.
Colossal celebração!

Conceição Brito

instruções

Julio Cortazar trouxe-nos instruções para subir escadas, chorar, cantar... Yoko Ono, no belo livro Grapefruit, indica-nos de forma poética e minimal como criar, como viver. Inspirados nestes textos, escrevemos as nossas instruções.

Na segunda parte da sessão, trabalhámos no Folhetim - as histórias podem ser vistas na entrada mais recente do blog.

 

Como afiar um lápis
Pegue no lápis. Pegue numa afiadeira. Se não tiver uma à mão, procure outro qualquer utensílio cortante. Pode ser a faca de cozinha que usa cortar os vegetais de um jantar romântico. Pode ser um pedaço de vidro da garrafa de vinho que se partiu quando estava a ouvir música na varanda, ou mesmo o bisturi do médico que salvou a vida daquele rapaz que pensava poder voar. Pode até ser o gume da espada do cavaleiro de armadura que, cavalgando sozinho na frente do seu exército, desafiou o rei tirano. O importante é que corte. Coloque o lápis na afiadeira ou encoste-o à lâmina da faca, ou do bisturi, ou da espada ou ao vidro. Retire-lhe as primeiras camadas de madeira, cheias de histórias já escritas e continue até este estar limpo. Passe agora a atenção para o carvão e carregue com força nele, até que o derramar de palavras já gastas o deixe bem brilhante.
Pressione com o dedo indicador na ponta do lápis. Se conseguir sentir a dor e a felicidade estará pronto para escrever.

Francisco Semedo


Como ler um livro (para leitores inexperientes)
Pegar num livro. Desfazer a encadernação do livro e separar todas as páginas. Atirar as folhas ao ar e deixar cair no chão. Repetir 3 vezes. Juntar as páginas e encadernar na ordem e orientação em que ficaram. Ler o livro normalmente, da primeira à última página.

Como ler um livro (para leitores experimentais)
Ir à estante e tirar um livro qualquer. Abrir o livro na última página e ler a última linha. Ir à página anterior e ler a última linha. Seguir este método até à primeira página. Voltar à última página, ler a penúltima linha e repetir o processo até não restarem mais linhas para ler.

Como ler um livro (para leitores experimentados)
Sente-se num lugar bem iluminado de luz natural, de preferência junto a uma janela, com luz abundante a entrar no espaço. Ponha-se confortável e pouse o livro num móvel perto de si. Aguarde que o dia acabe e a luz se desvaneça por completo. Agarre o livro, sinta-lhe o peso, a textura e o calor. Por fim, abra-o e deixe que os seus olhos, através da escuridão, encontrem as palavras.

francisco feio

 

Instruções para ler um livro
Lembra-te de um cheiro que gostes muito; o seu perfume, seja novo ou velho, é igual.
De seguida, limpa bem os ouvidos, veste a tua melhor roupa, penteia-te e calça os melhores sapatos que tiveres.
Abre-o, sente as letras, fala com elas e aconchega-as.
Tem uma rosa por perto para não te perderes, quando voltares à Terra.
Quando acabares, passa-o a uma pessoa a quem queiras bem.
Não precisas de dizer adeus, porque ele já és tu.

Tiago Pina


Como saborear uma história
Abre o livro e começa a saborear algumas coisas: um bolo, um pastel... Morde uma maçã... Assim vai dar sabor às palavras e poderás entendê-las melhor. O bolo e o pastel vão ajudar e adoçar as amarguras da vida.

Como escrever um breve texto em português e italiano
Mistura cores: verde, branco, vermelho, amarelo, azul... e sons: o mar, a língua... Irás ter um breve texto em português e italiano.

Giuseppa Giangrande

 

Como consultar um dicionário
Consultar um dicionário é uma jornada de amor. É preciso amar as palavras, sentir o deleite profundo de as saber contidas num volume, generoso de tamanho e dedicação, que se abre para nós numa dádiva de sabedoria sempre que o solicitamos.
Em primeiro lugar, é preciso gostar de ler. Ou de escrever. Ou de ouvir. Ou de falar. Assim se adquire um manancial de matéria prima, as palavras, que vão deslizando pela nossa alma até, de repente, tropeçarmos num termo que nos trava. Quem és tu, palavra desconhecida? Seguir então, escrupulosamente, as seguintes orientações de pesquisa e esclarecimento.
1 – Extrair o dicionário do seu lugar habitual com o cuidado e a reverência que merece;
2 – rever o ordenamento das letras, no alfabeto, para ter uma percepção do local onde poderá afastar as folhas, para início de pesquisa;
3 – abrir respeitosamente as páginas, sem lamber os dedos;
4 – consultar os cantos superiores esquerdo e direito de cada uma, para chegar a uma constelação de letras que se aproxime do objecto da pesquisa;
5 – deslizar um indicador pelas eruditas linhas até encontrar a palavra que nos fez parar.
Pronto, já sabemos um pouco mais!

Conceição Brito

 

Como saborear uma história
Comece por se dirigir à cozinha e prepare um cocktail alcoólico, ou um sumo de frutas ou um sumo de legumes, temperando-o a gosto.
Prepare a cadeira mais confortável que tiver e coloque-a junto à janela ou à varanda. Ponha uma almofadinha contra o espaldar da cadeira ao nível dos seus rins. Coloque em frente da cadeira um apoio calibrado para os pés. Consoante a estação do ano, e para o tempo frio, calce um par de mitenes, botas altas macias forradas de pêlo e tenha à mão uma manta quentinha. Pelo contrário, nos dias quentes, dobre um xaile levíssimo no seu colo para as madrugadas e o entardecer. Sente-se confortavelmente e saboreie um sorvo da bebida que elegeu. Leia a primeira página do seu capítulo, depois a do meio seguida da última. Vá degustando quer a sua bebida quer as palavras de cada capítulo gostosamente até ao fim.

Lídia Vieira

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Escrever em cerca de 100 palavras pequenas histórias é um desafio. Como equilibrar a história com o tema não expresso? Como gerir a passagem de um estado ao outro, que é a característica do conto, num espaço (e tempo!) tão curto? Os participantes responderam com uma grande diversidade de estilos. Como parâmetros: uma cor, um nome e um objeto: violeta, Sara, sacola.

A segunda parte da sessão foi reservada ao Folhetim - o andamento das historias está reunido na entrada mais recente do blog. 


O espelho
Desviar o olhar era uma arte e Sara exercia-a com a mestria de quem estava habituada a fazê-lo. Aquela hora as ruas começavam a ficar cheias, mas não há hora perfeita para sair de casa. Os passos eram cada vez mais decididos e o corpo ia ganhando uma postura mais confiante. Apenas a cabeça se mantinha a olhar mais o chão que o futuro. Até a sacola que trazia ao ombro lhe parecia agora mais leve do que quando saiu; não tinha muito para a encher. Parou na última montra antes do final da rua e olhou-se no espelho. Sim; o olho estava violeta. Era a certeza que nunca mais iria regressar.
        francisco feio

 

Orlando chegou ainda antes da hora. Como o seu passo vai desacelerando decidiu sair mais cedo. O banco do jardim, onde sempre se sentavam, estava coberto de flores. Violetas. Tal como o vestido que Sara tinha usado na primeira vez que ali estiveram. Apressou-se a limpá-lo e sentou-se, com a sacola sobre os joelhos. Dela tirou o vinho e os dois copos. Olhou para o céu e viu que ainda havia tempo. O sol ainda ia bem alto. Não seria desta vez que perderia o pôr do sol, do primeiro dia do ano, no banco de jardim onde se tinham conhecido. Ainda que, a partir de hoje, o fizesse sozinho.
       Francisco Semedo


O vento fazia-se sentir descaradamente nos cabelos de Sara. A sacola, presa pelo ombro, apenas por sua teimosia não corria atrás do silvo do vento. Haviam-lhe dito que vivia nos campos, de um violeta mordaz que lhe entrava pelo peito adentro, a cura para a loucura de sua mãe.
Tencionava correr no caminho de volta, rasgar os pés nas pedras. Desejava retornar com tal ansiedade que só depois de sua mãe ser assegurada viva viriam os golfejos de dor.
Deitou-se sobre a terra, quedou-se de olhos abertos engolindo o céu e, de uma só vez, tossiu a esperança do corpo.
       Rodrigo Rufino

 

O país da Sara tem a forma de um retângulo, com água por parte. É antigo, e por isso, já muito assistiu, tanto que nem mil sacolas chegariam para as arrumar.
No país da Sara, pode-se reclamar e dizer, por exemplo, que o nosso que nos corre nas veias é violeta.
Neste momento, o país da Sara não está bem, assim como quando estamos com uma dor de barriga muito forte.
Há pessoas no país da Sara que querem voltar a 1926. A Sara só quer que ele volte a ficar vermelho e verde.
         Tiago Pina


A sacola violeta
A menina Sara tem uma sacola violeta que lhe ofereceu a sua madrinha. Ela tem muitas sacolas, mas só quer a sacola violeta.
Há um motivo por essa predileção: a sacola violeta, como fazem os óculos cor-de-rosa, deixa-a ver tudo com outros olhos, o de otimismo e para a Sara isso é muito importante, já que ela frequentemente vive situações que lhe causam tristeza.
A sacola violeta acompanha-a quando está sozinha, como os pais não se preocupam com ela e cuidam apenas dos seus interesses.
Nessas ocasiões, a sacola fala com ela e conta-lhe histórias de mundos longínquos, mas bonitos.
          Giuseppa Giangrande


Naquele belo dia de primavera fui até ao jardim perto de minha casa.
Sentava-me naquele mesmo banco a cada dia a olhar as violetas que cresciam vagarosamente.
Olhar para elas lembravam-me a minha doce Sara, que partira tão repentinamente.
A sua ausência respirava-se em cada divisão de minha casa e só encontrava paz naquele jardim.
Nisto vem ter num repente um gato preto que se encosta a mim e eu, assustado, deixo que ele não se afaste e partilho aquele momento de quietude com ele.
Olho de soslaio para a minha sacola e vejo que a Sara havia deixado um bilhete, como era seu grande hábito.
Abro e leio: Eu não fugi.
            Mariana Matias


A sacola estava escondida debaixo do armário da sala. Lá dentro acumulavam-se os pequenos tesouros que Sara transportava para todo o lado: o seu livro de desenhos, os lápis, as gravuras, as pedrinhas, os espelhos. Abriu o fecho com antecipação: hoje ia estrear as aguarelas novas. Ainda não tinha escolhido o que pintar, mas sabia que seria em tons de violeta, a sua cor favorita.
Cuidadosamente tateou o interior e, horrorizada, sentiu uma massa viscosa a envolver-lhe os dedos: a sacola estava cheia de lama.
- Ah Luís, Luís, que te mato quando for grande!
            Conceição Brito

 

kandinski

                                                                                                                                            Kandinski, Pintar a música

 

Sentidos cruzados

Franz Liszt, Duke Ellington ou Pharrel Williams são apenas alguns dos músicos que ao ouvir notas ou instrumentos vêem cores. Liszt diria à orquestra algo com «menos rosa, senhores, este trecho é violeta». A sinestesia, ou o despertar de uma experiência sensorial a partir do estímulo de outro sentido, é um fenómeno conhecido e funciona a vários níveis. O escritor Vladimir Nabokov, por exemplo, dizia que a sequência de letras «NZSPYGV» era o arco-íris, o poeta francês Arthur Rimbaud escreveu o célebre Vogais, mostrando-nos as cores por detrás de cada letra.
Ao abordar os Sentidos, um dos temas-chave da escrita, mergulhámos na sinestesia e fomos à procura das cores, sabores, temperatura e imagens do excepcional e hipnótico, Music for 18 Musicians, de Steve Reich.
Depois de alguns exercícios, os participantes escreveram um texto livre.

 


Agora que é noite, o comboio continua a atravessar a imensidão que nos separa ainda do mar. A paisagem desapareceu da janela, as luzes vão-se desvanecendo e ganha presença o som do rodado a passar nas travessas com uma cadência de metrónomo a marcar o tempo para uma peça de música que cada um tocará como bem entender. A pauta que nos foi distribuída no início da vagem está em branco e cada um vai construindo a sua música à medida das suas possibilidades. O comboio é como uma orquestra em movimento, em que cada músico toca a sai parte em silêncio, sem saber o que os outros tocam. E assim se vai construindo uma grande sinfonia interior que todos tocam e ninguém irá ouvir. Esse silêncio é o único registo que fica da viagem e o único que perdurará no tempo.
Francisco Feio

 

Vejo rostos apressados em cima de corpos que se movem quietos, direitos, dentro de máquinas com rodas que andam sozinhas e produzem ruidos estranhos. Há filas intermináveis dessas máquinas de lata e quatro rodas, às vezes só duas. Buzinas estridentes assustam-me porque não sei de onde vêm. De cada lado dessas ruas há outras máquinas de lata, paradas, e depois delas outras ruas contíguas a casas altas com muitas janelas, muito alinhadas e ordenadas. Estas ruas só têm pessoas, que caminham rápido, sacos nas mãos, algumas falando e gesticulando mas estão sozinhas, não se percebe para quem e com quem falam.
Nada sei, nada conheço ou reconheço. Estarei num filme de ficção científica ou num futuro distópico mas no mundo donde venho ainda não se inventou nem a ficção científica nem a distopia.
Paula Carvalho


Uma luz clara, brilhante, tão brilhante que deixa ver tudo em branco, mas que depois se faz azul.
Uma luz que deixa sentir tranquilidade, calma e que dá felicidade.
Instantâneos de uma fotografia que passam e que recordam um tempo maravilhoso, em que se saboreou a felicidade e a liberdade.
Desejo de que esse tempo volte.
Giuseppa Giangrande

 

Há uma urgência no ar. Há sempre uma urgência no ar, pensava ela. Sempre, sempre, sempre, alguma outra coisa para fazer, para pensar, para experimentar. “há dois tipos de pessoas, as que estão sempre à procura de algo novo, e as que estão satisfeitas.” Deixou o cérebro ir. “há dois tipos de pessoas, as que vão explorar o mundo, e as que ficam a cultivar a terra.” O cérebro já estava longe. “há dois tipos de pessoas, as que se enfrentam a cada batalha, e as que sorteiam os obstáculos, qual barco a navegar entre rápidos”.
Abriu os olhos, na carruagem cheia do metro, cheia de perfumes, algum suor, muito cansaço acumulado de noites mal dormidas. Abriu os olhos e não encontrou nenhuns outros olhos para se ver refletida. Fechou-os novamente.
“Há dois tipos de pessoas, as que andam de transportes públicos, e as que não.”
“Há dois tipos de pessoas….”, o cérebro parou por um momento, e os olhos abriram-se contra a vontade dela. E ali estavam, frescos, esses olhos onde agora se via refletida, não sabendo se ela própria era das pessoas que estavam satisfeitas ou sempre à procura de algo novo.
Quis fechar os olhos, esquecer a urgência, deixar o cérebro ir.
Tinha ela ido explorar o mundo? Ou sorteado obstáculos? Ou…?
Os olhos aproximaram-se.
“Há dois tipos de pessoas, e depois o resto de todos nós”, murmurou-lhe ao ouvido a detentora dos outros olhos.
Patrícia Louro

 

vermeer

 

Falámos do que trouxemos para a balança, este ano tão desequilibrada. Flámos das angústias e da esperança. Estes foram os nossos balanços do ano. 



Sempre tive dificuldade em fazer balanços. Ia buscar as coisas boas e as coisas más
que tinham marcado o período sob avaliação – um dia, um mês, um ano – e construía
uma média final, tarefa nem sempre fácil.
Optei por seguir os conselhos de uma amiga americana, muito dada a fazer listas:
numa coluna inscrevo as coisas boas e na coluna ao lado registo as coisas más.
O processo até nem é difícil: o bom para a esquerda, o mau para a direita.
O pior é quando as colunas começam a engrossar com factos que já foram
trabalhados e editados pela memória ou pelo esquecimento. A simplicidade e a
clareza dos registos começam a nublar-se, a perder a nitidez, a interagir, como tintas
que se misturam e diluem mutuamente.
Foi óptimo ter feito aquele estágio, que sensação de plenitude intelectual! Mas não ter
conseguido começar a trabalhar, como esperava, faz o quê da minha pequena vitória?
Qual a média, o balanço final destes dois acontecimentos antagónicos?
Uma derrota?
Logo se vê?
Anularam-se?
Depois de contabilizados os ganhos e as perdas, o balanço real não é sempre
assumido, sendo, muitas vezes, apenas aquilo que é necessário para conseguir
passar à fase seguinte.
Vou, assim, considerar que o que sinto e penso hoje, esta semana, este mês, não
traduz, necessariamente, a súmula de tudo o que se passei, o balanço final de um ano
que já está a acabar mas que só findará quando deixar de doer.
Conceição Brito Lopes
 
 

Andamos de baloiço, o mundo é uma bola.
É um vaivém de acontecimentos, bons e maus.
Mas, ao final, o que importa é voltar à beleza das coisas simples, que vêm do coração.
E dar-se conta do que verdadeiramente nos faz felizes, as coisas pequenas da vida.
E, sobretudo, voltar a ver a cor da esperança.
Giuseppa Giangrande



O futuro chegou.
Disso a convicta certeza.
A Morte é certa, na Vida.
O Futuro também o é..
Seja Ele, curto ou comprido, nunca por cumprir.
Então aprendemos, Humanidade a entender o Presente no Futuro…
Este, mais inabalável e consistente.
Exigente, que não mente, criar desta prenda em Natal,
Um clarão, sempre além em felicidades, nos futuros recorrentes e tão próprios
Porém, um verbo… * O* Verbo… amar.
Há que teimar,
Há mais do que nunca, acreditar.

O riso começou o sorriso…continuous e a balança equilibrou.
Tenhamos fé.
Saudade…
A balança faz o medo, mas não contamina antes proteje.
O medo ainda mais no presente, das magnificas idades.
O future, livre, tranquilo, ele está a instalar-se.
Ontem, hoje e amanhã.
Tudo salvo na vida que se prepara sempre para mais um amanhã.
Hoje surpresa, ontem inesperado
Amanhã a luz o sabe. Sempre é nat@l
Por cumprir? Não…
Faça-se o Universo, o território e o chão onde ainda sabemos contnuar.
Descobrir, desejar, encontrar, enfim…amar.
L@dyBirdBeL
 
 

O desconcerto do mundo ou as angústias de uma espécie que inventa gaiolas para os
outros e desta vez foi engaiolada.

Se há coisa que sei da espécie humana, é que a memória tem asas de pássaro. Os
humanos são animais que morrem por camadas, o passado vai-se esfumando e amanhã
irão para a praia, afogar o azul da neura no azul das águas.
Amanhã, esta pandemia fará bocejar os estudantes nas aulas de História e as datas, os
países, o número de mortos figurarão em cábulas escondidas nas mangas dos casacos.
Mal de quem ficou sem pão, sem trabalho, sem casa, sem pais, sem ninguém.
Mal de quem viu a vida transformada numa concatenação de desgraças como uma
tragédia grega, sendo o vírus, qual caixa de pandora, a origem de todos os males
vindouros.
Todos os outros continuarão como se nada fosse.
E no cinema, alguém avisará o protagonista do Regresso ao Futuro para não conduzir o
carro da máquina do tempo para o famigerado ano de 2020.
E o público rirá entre pipocas.
Helena Campos

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Nesta sessão, recordámos Enid Blyton (GB, 1897 – 1968) que ficou conhecida pelas suas colecções de livros de aventuras para crianças e adolescentes.
O seu primeiro livro foi publicado em 1922 e o último em 1965. Terá escrito perto de 800 livros – nos anos 50, publica em média 50 livros por ano, o que deu origem a rumores de que recorreria a escritores-fantasma, o que sempre negou. Embora hoje criticada pelo seu estilo repetitivo, moralista e pela visão preconceituosa do mundo, os seus livros acompanharam milhões de jovens. 
As colecções que criou incluem: Os Cinco, Os Sete, As Gémeas no Colégio de Santa Clara, O Colégio das Quatro Torres, Colecção Mistério, Noddy.

Depois de falarmos um pouco da autora e dos principais traços das histórias de aventuras, criámos as nossas. 

 

O Farol das Berlengas
As ondas agitavam-se ao largo de Peniche, arrastando o barco rumo às Berlengas num carrossel de espuma. Rita, uma miúda rebelde de longos cabelos de um louro tão pálido que parecia branco e de uns olhos azuis tão claros que pareciam liquefazer-se, tentava não vomitar.
- Põe-te no meio do convés e fixa os olhos na bandeira portuguesa – aconselhara a mãe
Uma onda verde de náusea perpassava todos os rostos e alguns acabavam por ceder ao vómito.
Quando o barco atracou e despejou uma turba de jovens passageiros vomitados, Rita desatou a correr pela ilha acima, até ao farol, esfarelando a vegetação rasteira e surpreendendo ninhos de gaivotas grasnantes.
-Olhem ali! – exclamou ela para os amigos apontando para as pontiagudas ilhas Faroés. Lá em baixo, o Forte de São João despertava a curiosidade todos.
- Não vão para ali – ordenou a guia – circulem só pelos trilhos assinalados.
A noite chegou cedo e inundou a ilha numa bruma de silêncio. Rita não dormia e foi por isso a única que viu a luz do farol piscar três vezes.
No dia seguinte, ela e os amigos foram averiguar. Nenhum barco passara de noite e o faroleiro estava ausente.
- Talvez tivesses sonhado – disseram os amigos
- Não – teimou ela – eu sei que vi
Na noite seguinte à mesma hora, o farol voltou a piscar três vezes. Ela saiu da tenda sem acordar ninguém. Tudo na ilha parecia fantasmagórico e conduzir ao precipício que desabava no oceano, as gaivotas dormiam e um vento gélido ondulava a esparsa vegetação.
Rita chegou ao farol e ele continuou a piscar.
- Sinais de luzes, códigos – pensou ela na sua imaginação juvenil.
- Quem está aí? – gritou enquanto esmurrava a porta.
Foi então que a luz se transformou em som e um prisioneiro esquecido pôde enfim pedir socorro.
             Helena Campos
 
O baloiço e a Pastora
No baloiço, havia um rapaz com uma carapuça.
Era um casaco bastante quentinho; o que lhe sabia bem, é: Até o sol estava mesmo muito frio.
Não havia muitas nuvens.
Estamos num dia ainda sem companhia.
Nisto, aparece ela.
Este rapaz, era muito amigo dela, só em segredo.
Esta menina que tinha um barrete mesmo dela.
Amarelo e terno.
O baloiço, irritado, atirou com o rapaz ao chão, porque, já estava , ele, com mais atenção, ao que se passava debaixo do barrete, do que à grande árvore que tinha, como corajoso hábito,
com os pés tentar alcançar, baloiçar e rir. Leve.
Neste jardim havia cataratas, balancés, quase florestas, e havia banzé.
Confusões tantas, que baralhavam qualquer baralhado, que as tentasse recompor.
Ora, a nossa Pastora, que orientava ventanias, nos dias como os de hoje, à falta de nuvens lá no céu, soprava folhas de papel, que a dançar foram directinhas aos pincéis e aos frasquinhos.
Os nossos meninos assim que repararam no que tinha acabado de acontecer, foram num ápice às malas da escola de onde tiraram as tintas que tanto gostavam de ao breu esconder nas cores.
A chuva lembrou- se de chover afinal, envolveu as tintas nos pinceis, e os amigos acreditaram:
Somos bailarinos, baloiçantes e pintores!
- Como te chamas?
                           L@dyBirdBel>
 
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O Manuel era um rapaz muito estudioso, adorava ler e por isso todos os dias, depois da escola, ia à biblioteca do seu bairro, perto de Belém.
Uma tarde que estava ali a ler um livro de aventuras sobre terras longínquas, notou algo de estranho que provinha de uma das estantes: uma luzinha azul.
Atraído pela luz, aproximou-se  e, como por encanto, encontrou-se na Lisboa da época dos descobrimentos. Viu à frente dos seus olhos um enorme navio e ficou pasmado.
De repente, um homem puxou-lhe os cabelos e quis arrastá-lo não se sabe onde.
Felizmente, aquela luz misteriosa apareceu novamente para tirar a vista àquele homem que ficou cego e Manuel pôde ver-se livre dele e seguir a luz.
De novo encontrou-se, um pouco aturdido, na biblioteca.
                              Giuseppa Giangrande
 
 
 
A lagoa
Era um trio famoso; não havia sarilho na terra em que não estivessem metidos. O Fernando e o Luís eram mais ou menos da mesma idade e o Tiago um pouco mais novo e irrequieto.
Numa tarde de verão especialmente quente, foram todos até ao rio, a uma zona escondida e de difícil acesso que formava uma lagoa e onde a água era mais fria que nos outros locais. Quando chegaram, de respiração ofegante e a escorrer suor, olharam em direção à lagoa e ficaram petrificados. Não havia água. A lagoa estava seca e, no que seria o seu leito, havia uma casa sem portas nem janelas. Por sugestão do Tiago desceram, apreensivos, e por mais que caminhassem, demoravam a chegar ao fundo. Chegados, começaram a tornear a estranha casa. As paredes eram quentes, a pedra lisa e muito mais branca do que parecia vista de cima. Era perfeita. Não parecia haver nenhuma entrada ou abertura, nem sinais de que alguma vez tivessem existido. De repente ouviu-se a voz do Luís a tentar murmurar qualquer coisa de impercetível. Olharam-no e estava com ar aterrorizado, a apontar para cima e a tentar articular qualquer coisa que não se entendia. Seguiram-lhe lentamente o braço com o olhar e não queriam acreditar no que viam. Por cima deles estava a água, toda a água da lagoa, em suspenso por cima da casa como uma grande nuvem à espera de desabar. Desataram a correr fazendo o caminho de regresso até à borda da lagoa. O Fernando ia mais atrás e, quando ia a chegar à borda do lago, gritou quando um imenso chapão de água lhe caiu em cima. Abriu os olhos e viu o Luís que, debruçado sobre ele, lhe deu uma palmada na cara e disse:
- Então, pá? O sol fez-te mal? Desmaiaste e caíste redondo no chão. Despacha-te e anda ao banho.
Meio atordoado, levantou-se do chão, olhou o lago e já os outros mergulhavam e desapareciam sob a superfície das águas. Fez-se silêncio.
                           francisco feio

A aventura do rato e das tangerinas
O rato espreitou cuidadosamente para baixo, empoleirado na beira do telhado do alpendre. Mirava, gulosamente, as tangerinas douradas e laranja, cheirando, com deleite, o aroma que se delas se desprendia.
Teria de se despachar e ser ágil porque a aventura de roubar fruta não era desprovida de perigos. Mas valia o esforço!
As suas orelhitas rosadas moviam-se, nervosas, captando qualquer ruído, por mais insignificante, e os bigodes indicavam-lhe a distância até ao ramo mais próximo onde tencionava banquetear-se.
Olhou de novo para baixo, e só viu o casal de melros do costume, empenhados, sem sucesso, em debicar a fruta, fazendo-a cair no chão, num deslizar sibilino por entre a densa folhagem da árvore. Eram inofensivos, mas pouco espertos, pensou com desdém, mas sem rancor. Com tanta agitação, o gato pardo, que patrulhava o jardim, iria ficar alerta.
Olhou de novo, cuidadosamente, e, num salto bem medido, lançou-se para o ramo mais próximo, cobiçando gulosamente os pequenos globos perfumados.
Não reparou que, do meio das folhas, duas luzes azuis apontavam na sua direcção. Ébrio de abundância, descascava delicadamente uma tangerina que iria comer, sem ver o gato pardo que o emboscava, alongado contra os ramos, fundindo-se nas suas cores, dissimulado, invisível, letal.
Os melros, que esvoaçavam sem parar para poderem detectar inimigos, aperceberam-se do perigo e explodiram num pipilar ruidosamente de aviso, ao mesmo tempo que faziam voos rasantes sobre o dono dos olhos azuis, o gato pardo.
O rato não esperou para iniciar o banquete e fugiu velozmente, matutando que, afinal, os melros não eram assim tão burros nem ingénuos como pareciam.
O gato, chocado com o ataque inesperado das pequenas aves, caiu da árvore e ficou todo arranhado. Confortou-se a comer, como vingança, a tangerina descascada que o rato deixou para trás.
Mas não gostou….
                             Conceição Brito
 
 
 
Uma aventura das novas
Era o ano em que a palavra aventura ganhou novos significados. Bom, na verdade, muitas palavras ganharam novos significados nesse ano. Em novembro, os alemães faziam anúncios a apelar à heroicidade e grandes sentimentos dos seus compatriotas: “Sejam heróis, fiquem em casa.”, e os testemunhos exaltados da virtude de ficar em casa no meio de uma pandemia, a encher a barriga de piza e a fazer aquilo que em qualquer outro momento seria um pecado capital para um alemão que se preze: fazer nenhum. Se um alemão não produz, continua a ser alemão? Sim, desde que o ano seja 2020. 
“Nextflix and chill” também cobrou outras conotações. “Vá para fora cá dentro”. “Spain is different”. Era como se juntássemos todos os tópicos culturais e se fizesse uma paródia deles. Exceto que não era uma paródia, porque a pandemia era a sério.
As nossas heroínas são na verdade anti- heroínas. Esta aventura não teria acontecido se tivessem sido heroínas e ficado em casa, dedicadas ao netflix and chill, no novo ou no antigo significado.
Mas porque Spain is different, e dentro de Spain, Madrid é ainda mais different, as nossas heroínas podiam sair de casa. Podiam ir ao cinema. Podiam ir a um bar. E a coisa estranha desse ano estranho é que sair para ir ver um filme ao cinema era em si mesmo uma aventura. Não uma aventura das antigas, mas já dissemos que aventura mudou de significado esse ano.
A primeira das nossas heroínas usava uma máscara com cães, cachorrinhos sobre um fundo de mapa antigo. A segunda uma máscara de desporto preta. A primeira heroína detestava usar máscaras na mesma medida em que a segunda as adorava.
Neste Madrid frio (nada disso, diriam os nossos heroicos alemães, sabem lá vocês o que é frio!), e meio vazio (se Madrid tem as ruas vazias ainda é Madrid? Desde que seja 2020, já sabemos que sim), ir ao cinema é uma aventura com muitas pequenas dificuldades. A primeira: há gente a morrer, é-nos permitido ir ao cinema? Permitimo-nos nós ir ao cinema?
Tanto a heroína das máscaras com cachorrinhos como a da máscara desportiva decidiram que sim, e haveria um monte de gente que as crucificaria em termos modernos, ou seja, qualquer coisa inflamada no Twitter, entre essa gente os tais alemães heroicos que ficavam em casa, produtivamente a netflix and chill.
Aos obstáculos emocionais de ir ao cinema no meio de uma pandemia, e navegar um ambiente em que sair de cada para fazer alguma coisa que não fosse trabalhar ou às compras, ainda que tomando todas as precauções, era um pecado capital (quando é que nos tornamos todos alemães no sul, afinal?), juntavam-se os desafios logísticos ou logístico-emocionais: arranjar bilhetes para um festival de cinema: acabou-se a dolce vita e os planos de última hora, compras os bilhetes com duas semanas de antecedência ou bye-bye. (se os amigos alemães das nossas heroínas não estivessem metidos em casa a deprimir-se pela falta de luz e pelos nazis e conspiranóicos que não paravam de crescer, estariam impressionados com esta capacidade de planeamento).
Chegar ao cinema (decisão heroica de ir a pé e arriscar morte por hipotermia, ou ir de metro e ser péssimo patriota?). Como estamos em Madrid, as nossas heroínas vão de metro. Maus patriotas são os catalães ou os bascos, andem eles de a pé ou de metro.
Limpar as mãos com gel ao entrar na sala de cinema. A nossa heroína que detesta máscaras adora o gel, e a que adora máscaras odeia o gel. Cada qual prefere liberdade em partes corporais diferentes.
Respeitar distância de segurança e os lugares vazios entre lugares ocupados. Essa coisa tão simples de estender uma mão quando se ouve a pessoa ao lado a fungar num desses momentos em que a alma se rompe numa sala escura. Com esse lugar vazio, essa mão estendida é mais que um simples gesto de conforto, é uma declaração política, uma declaração de guerra ou desafio sobre uma cadeira vazia. A mão foi estendida e as mãos pegajosas do gel entrelaçaram-se, e como nos dias do antigamente disseram mais palavras que todas as outras palavras que trocaram as heroínas nessa noite.
E como depois do cinema era tarde, tiveram a parte frustrada da aventura, tentar beber mais uma. Que não se pode, há recolher obrigatório, e a malta leva isso de interagir com a polícia a sério. Há uma bonita tradição de multas a comércios na cidade, e ninguém se quer arriscar.
A moral da história? Não há. Também não há heroínas, nem as nossas que foram ao cinema, nem os alemães que ficaram (ou não) em casa. Atrever-se a ser humano foi a aventura do ano.
         Patrícia Louro
 
 
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Sozinha em casa

A manhã ia alta quando Milai acordou, num quarto que o frio tornara desconhecido e cujas vidraças despidas de estores permitiam a invasão do cinzento deprimente do exterior.
Por mais que se esforçasse, Milai não se reconhecia naquele ambiente, habituada que estava a ser acordada pela mãe, ao calor do aquecimento central, dos edredons fofos, dos reposteiros de cores cálidas…
Saltou da cama e não encontrou os chinelos, os pés nus encolhiam-se na madeira fria e seca, tampouco encontrou o roupão… A porta estava aberta e dava para um corredor desconhecido, cujas paredes não ostentavam nem quadros nem fotografias familiares. Avançou a medo – que casa era aquela, que chão nu e frio era aquele, onde estava a mãe que não a despertara?
Ao fundo do corredor, uma porta escancarada emoldurava uma sala revolvida – livros pelo chão, gavetas esventradas, almofadas revolvidas e cadeiras de pernas para o ar. A confusão, evidente, contaminou-lhe o pensamento, que se recusava a perceber o que via.
Um gemido em forma de miado e uma bola de pelo que lhe chocou nas pernas sinalizaram a existência de outra vida – não necessariamente a que mais gostaria de ter encontrado. O susto foi potente, deixando-a pregada no chão, o coração a bombar a toda a força, e o cérebro a gritar – e se tem pulgas, e se tem pulgas, e se tem pulgas…
Fechou os olhos. Queria a mãe, queria a sua casa, queria a sua vida de volta.
Acordou na cama fofa de edredons de cores garridas, o gato deitado aos pés da cama, alguém lhe media a febre enquanto outra pessoa lhe massaja a fronte com um pano quente embebido no que, pelo cheiro, seria álcool. Sentia-se gelada e tremia e batia os dentes como castanholas.
- Milaizinha querida – era a voz do pai –, nossa heroína! O teu sonambulismo hoje salvou-nos de sermos assaltados. Os ladrões, quando te viram à porta do escritório, pensaram que eras uma alma penada e depois o gato atirou-se a eles e deixou-lhes as caras numa chaga, um deles é alérgico a gatos e teve uma crise de asma, foi levado no 112, não se sabe se escapa.
     Paula Carvalho

 
 
 
 
 
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I - Um conto à nossa maneira
Exercício inspirado no texto de Raymond Queneau, Un conte à votre façon.
Em grupo, os participantes escreveram duas histórias diferentes. Depois, combinaram-se os contos com as frases que indicam percursos diferentes da história.
A escrita colaborativa decorre, assim, a três níveis: escrita em grupo, recombinação das histórias dos grupos, escolha do leitor da história que quer ler.


1
Era uma vez um Zé Ninguém que pedia nas ruas de Lisboa.
  Se não se interessa por zé ninguéns, vá para 2
  Se está satisfeito, vá para 3

2
Era uma vez um cavalo de corridas, que vivia numa coudelaria luxuosa e todos os dias de manhã ia treinar.
  Se não se se interessa por equinos vá para 1
  Se está satisfeito, vá para 4

3
Uma noite teve um sonho psicadélico em que vivia num palácio rodeado de ouro e prata.
  Se não quer que ele sonhe, vá para 4
  Se quer saber o que significa o sonho, vá para 5

4
Uma noite não conseguiu adormecer, então decidiu passar a noite acordado a polir metais e a relinchar contra o seu destino.
Se quer saber o que aconteceu a seguir vá para 6
Se quer que quer ele durma um bocadinho, vá para 5

5
Quando acordou, veio-lhe à cabeça o ditado popular «Querer é poder!» e percebeu imediatamente o significado do sonho.
  Se gosta deste ditado, vá para 7
  Se não gosta de ditados populares, vá para 6

6
Quando amanheceu, consultou o seu horóscopo: finalmente tinha todos os planetas alinhados para triunfar, o que nunca tinha sucedido.
  Se não acredita em horóscopos vá para 5
  Se quer saber o que aconteceu depois, vá para 7

7
Essa revelação deu-lhe coragem para declarar o seu amor a uma senhora benfeitora que o ajudava frequentemente.
  Se quer seguir a história de amor, vá para 9
  Se está a achar isto enjoativo, vá para 8

8
Irritado, decidiu que era altura de se vingar da Maria Antonieta que lhe tinha um coice e uma dentada numa orelha e que agora era famosa por ter começado a falar inglês sem ninguém a ter ensinado.
  Se quer saber o que se passou depois, vá para 10
  Se preferia uma história sem ódios antigos, vá para 7

9
Mas o objecto do seu amor rejeitou-o porque o ajudava em nome de Cristo.
  Se quer dar mais uma hipótese ao amor, vá para 11
  Se quer saber o que aconteceu a seguir, vá para 8


10
Quando se encontrou cara a cara com a sua inimiga, percebeu que era estrábica e que nem sequer o tinha visto no primeiro dia.
  Se quer saber o que se passou a seguir, vá para 11
  Se não quer saber mais nada, vá para 12


11
Completamente baralhado, foi para uma taberna e pôs-se a beber. Até que, de repente, encontrou quem viria a ser o amor da sua vida: uma fadista que cantava tristemente ao som das guitarras.
  Se quer saber o que isto significa, vá para 12
  Se nada na vida tem significado, vá para 13.


12
Afinal, nada importava, pensou para si próprio. E disse: a vida são dois dias e o carnaval são três.
Respirou fundo e decidiu mudar de carreira e aprender a falar russo e jogar xadrez.

FIM


13
Reflectindo, disse para si próprio: vida é um acaso absurdo, é uma lotaria imprevisível.
Respirou fundo e decidiu escrever versos para um fado que veio a tornar-se um grande êxito português.

FIM

 

Participantes:
Conceição Brito
Giuseppa Giangrande
Helena Campos
Lídia Lopes
Patrícia Louro


II - Histórias cruzadas
Com uma estrutura fixa, as histórias multiplicam-se em ínúmeras e inesperadas versões. Cada participante escreveu uma história. Depois combinámos num quadro onde cada quadrado pode combinar com qualquer outro. Alguns resultados são mais surrealistas do que outros - mas levantam boas ideias para próximos textos!

 

Capturar

 

Participantes: 

Conceição Brito
Giuseppa Giangrande
Helena Campos
Lídia Lopes
Patrícia Louro



III - Textos de 10 minutos escritos com palavras obrigatórias sugeridas pelos participantes

 

Rosa
O dia começou cor-de-rosa. Bom. Não era bem cor-de-rosa, mas o ser que nos ocupa esta história não é um designer gráfico a trabalhar com quadricromia, portanto digamos que o dia começou cor-de-rosa.
Era um dia como outro qualquer. Era um dia como só esse dia podia ser dia. Era um grande dia. Ou pelo menos era um grande dia para o pequeno ser que nos ocupa esta história: uma lagarta lagartinha, feliz como uma perdiz, ou o seu equivalente em mundo lagartil: viver num ramo de carvalho, alto, muito alto (lembre-se, caro leitor, do tamanho de uma lagarta, se ainda conseguir evocar os seus dias de infância. Um carvalho é, para uma lagarta, e como se dizia nos meus idos tempos, bué da alto).
Mas voltemos à história que nos ocupa. A lagarta acordou com um céu cor-de-rosa. Espreguiçou-se, comeu meia folha de carvalho, e fletiu os músculos de lagarta (bué da pequenos, mas súper poderosos), e fez uma corrida até um ramo mais baixo. Correu, correu, correu, chegou. Bebeu a água das folhas do ramo mais baixo do carvalho, para isso tinha descido.
E porque esta é uma história sobre pequenos tamanhos, nesse ramo baixo do carvalho, a feliz como uma perdiz lagarta encontrou-se com o seu destino, uma criancinha de idade indeterminada para a lagarta (que não percebia muito de humanos, mas nós podemos dizer que teria uns 6 ou 7 anos), e brandia como uma espada um abridor de cartas em forma de punhal, roubado à socapa, do home office do pai (e por uma vez, não há nenhuma culpa da mãe da história que nos ocupa).
A lagarta curiosa desceu um pouco mais. A criança distraída subiu o braço. E desse encontro infeliz, metade da lagarta caiu no chão, e a outra metade ficou agarrada ao ramo.
Quanto à criança, foi chorar para o colo da mãe.
             Patrícia Louro

Foi à sombra dos ramos de um carvalho frondoso e pejado de bolotas que se viram pela primeira vez, enquanto observavam uma corrida desenfreada de lagartas.
Nesse tempo, tudo parecia cor de rosa até ao dia em que veio a carta de despedida aberta furiosamente com um abridor de cartas em forma de punhal.
As lagartas tinham sumido nos interstícios do muro musgoso e as bolotas todas caídas e atiradas aos porcos, como alimento, pronunciavam um inverno cinzento e pesado de águas.
   Helena Campos
 
Era uma vez uma lagarta que vivia à sombra dum ramo de carvalho. Um dia veio um bicho que a desafiou para uma corrida: o seu objetivo era comê-la.
A lagarta aceitou o desafio. Quando o bicho já estava a ponto de agarrá-la, a lagarta tornou-se numa borboleta cor de rosa e voou alto no céu.
   Giuseppa Giangrande