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LABORATÓRIO DE TEXTOS

Esta é uma fresta por onde se pode espreitar o nosso laboratório.

Gostamos de experimentar textos, inventar espaços e condições especiais e neles deixarmo-nos espantar pelo que acontece.

Aqui, recolhemos algumas das linhas que vão sendo criadas em diferentes oficinas. Algumas delas, dirigidas a antigos alunos, como a Naftalina, são iniciativas regulares; outras, abertas a quem por cá passa, são encontros e iniciativas extra-aulas. Placas de Petri.

Os textos, produzidos no tempo e condições das sessões, têm como único — e suficiente — critério de publicação a vontade do seu autor de vê-los aqui reproduzidos. Experimente ler, mas proteja-se: o prazer da experiência pode ser contagiante.

MiniatureBookCollector

 

Escrever em cerca de 100 palavras pequenas histórias é um desafio. Como equilibrar a história com o tema não expresso? Como gerir a passagem de um estado ao outro, que é a característica do conto, num espaço (e tempo!) tão curto? Os participantes responderam com uma grande diversidade de estilos. Como parâmetros: uma cor, um nome e um objeto: violeta, Sara, sacola.

A segunda parte da sessão foi reservada ao Folhetim - o andamento das historias está reunido na entrada mais recente do blog. 


O espelho
Desviar o olhar era uma arte e Sara exercia-a com a mestria de quem estava habituada a fazê-lo. Aquela hora as ruas começavam a ficar cheias, mas não há hora perfeita para sair de casa. Os passos eram cada vez mais decididos e o corpo ia ganhando uma postura mais confiante. Apenas a cabeça se mantinha a olhar mais o chão que o futuro. Até a sacola que trazia ao ombro lhe parecia agora mais leve do que quando saiu; não tinha muito para a encher. Parou na última montra antes do final da rua e olhou-se no espelho. Sim; o olho estava violeta. Era a certeza que nunca mais iria regressar.
        francisco feio

 

Orlando chegou ainda antes da hora. Como o seu passo vai desacelerando decidiu sair mais cedo. O banco do jardim, onde sempre se sentavam, estava coberto de flores. Violetas. Tal como o vestido que Sara tinha usado na primeira vez que ali estiveram. Apressou-se a limpá-lo e sentou-se, com a sacola sobre os joelhos. Dela tirou o vinho e os dois copos. Olhou para o céu e viu que ainda havia tempo. O sol ainda ia bem alto. Não seria desta vez que perderia o pôr do sol, do primeiro dia do ano, no banco de jardim onde se tinham conhecido. Ainda que, a partir de hoje, o fizesse sozinho.
       Francisco Semedo


O vento fazia-se sentir descaradamente nos cabelos de Sara. A sacola, presa pelo ombro, apenas por sua teimosia não corria atrás do silvo do vento. Haviam-lhe dito que vivia nos campos, de um violeta mordaz que lhe entrava pelo peito adentro, a cura para a loucura de sua mãe.
Tencionava correr no caminho de volta, rasgar os pés nas pedras. Desejava retornar com tal ansiedade que só depois de sua mãe ser assegurada viva viriam os golfejos de dor.
Deitou-se sobre a terra, quedou-se de olhos abertos engolindo o céu e, de uma só vez, tossiu a esperança do corpo.
       Rodrigo Rufino

 

O país da Sara tem a forma de um retângulo, com água por parte. É antigo, e por isso, já muito assistiu, tanto que nem mil sacolas chegariam para as arrumar.
No país da Sara, pode-se reclamar e dizer, por exemplo, que o nosso que nos corre nas veias é violeta.
Neste momento, o país da Sara não está bem, assim como quando estamos com uma dor de barriga muito forte.
Há pessoas no país da Sara que querem voltar a 1926. A Sara só quer que ele volte a ficar vermelho e verde.
         Tiago Pina


A sacola violeta
A menina Sara tem uma sacola violeta que lhe ofereceu a sua madrinha. Ela tem muitas sacolas, mas só quer a sacola violeta.
Há um motivo por essa predileção: a sacola violeta, como fazem os óculos cor-de-rosa, deixa-a ver tudo com outros olhos, o de otimismo e para a Sara isso é muito importante, já que ela frequentemente vive situações que lhe causam tristeza.
A sacola violeta acompanha-a quando está sozinha, como os pais não se preocupam com ela e cuidam apenas dos seus interesses.
Nessas ocasiões, a sacola fala com ela e conta-lhe histórias de mundos longínquos, mas bonitos.
          Giuseppa Giangrande


Naquele belo dia de primavera fui até ao jardim perto de minha casa.
Sentava-me naquele mesmo banco a cada dia a olhar as violetas que cresciam vagarosamente.
Olhar para elas lembravam-me a minha doce Sara, que partira tão repentinamente.
A sua ausência respirava-se em cada divisão de minha casa e só encontrava paz naquele jardim.
Nisto vem ter num repente um gato preto que se encosta a mim e eu, assustado, deixo que ele não se afaste e partilho aquele momento de quietude com ele.
Olho de soslaio para a minha sacola e vejo que a Sara havia deixado um bilhete, como era seu grande hábito.
Abro e leio: Eu não fugi.
            Mariana Matias


A sacola estava escondida debaixo do armário da sala. Lá dentro acumulavam-se os pequenos tesouros que Sara transportava para todo o lado: o seu livro de desenhos, os lápis, as gravuras, as pedrinhas, os espelhos. Abriu o fecho com antecipação: hoje ia estrear as aguarelas novas. Ainda não tinha escolhido o que pintar, mas sabia que seria em tons de violeta, a sua cor favorita.
Cuidadosamente tateou o interior e, horrorizada, sentiu uma massa viscosa a envolver-lhe os dedos: a sacola estava cheia de lama.
- Ah Luís, Luís, que te mato quando for grande!
            Conceição Brito

 

kandinski

                                                                                                                                            Kandinski, Pintar a música

 

Sentidos cruzados

Franz Liszt, Duke Ellington ou Pharrel Williams são apenas alguns dos músicos que ao ouvir notas ou instrumentos vêem cores. Liszt diria à orquestra algo com «menos rosa, senhores, este trecho é violeta». A sinestesia, ou o despertar de uma experiência sensorial a partir do estímulo de outro sentido, é um fenómeno conhecido e funciona a vários níveis. O escritor Vladimir Nabokov, por exemplo, dizia que a sequência de letras «NZSPYGV» era o arco-íris, o poeta francês Arthur Rimbaud escreveu o célebre Vogais, mostrando-nos as cores por detrás de cada letra.
Ao abordar os Sentidos, um dos temas-chave da escrita, mergulhámos na sinestesia e fomos à procura das cores, sabores, temperatura e imagens do excepcional e hipnótico, Music for 18 Musicians, de Steve Reich.
Depois de alguns exercícios, os participantes escreveram um texto livre.

 


Agora que é noite, o comboio continua a atravessar a imensidão que nos separa ainda do mar. A paisagem desapareceu da janela, as luzes vão-se desvanecendo e ganha presença o som do rodado a passar nas travessas com uma cadência de metrónomo a marcar o tempo para uma peça de música que cada um tocará como bem entender. A pauta que nos foi distribuída no início da vagem está em branco e cada um vai construindo a sua música à medida das suas possibilidades. O comboio é como uma orquestra em movimento, em que cada músico toca a sai parte em silêncio, sem saber o que os outros tocam. E assim se vai construindo uma grande sinfonia interior que todos tocam e ninguém irá ouvir. Esse silêncio é o único registo que fica da viagem e o único que perdurará no tempo.
Francisco Feio

 

Vejo rostos apressados em cima de corpos que se movem quietos, direitos, dentro de máquinas com rodas que andam sozinhas e produzem ruidos estranhos. Há filas intermináveis dessas máquinas de lata e quatro rodas, às vezes só duas. Buzinas estridentes assustam-me porque não sei de onde vêm. De cada lado dessas ruas há outras máquinas de lata, paradas, e depois delas outras ruas contíguas a casas altas com muitas janelas, muito alinhadas e ordenadas. Estas ruas só têm pessoas, que caminham rápido, sacos nas mãos, algumas falando e gesticulando mas estão sozinhas, não se percebe para quem e com quem falam.
Nada sei, nada conheço ou reconheço. Estarei num filme de ficção científica ou num futuro distópico mas no mundo donde venho ainda não se inventou nem a ficção científica nem a distopia.
Paula Carvalho


Uma luz clara, brilhante, tão brilhante que deixa ver tudo em branco, mas que depois se faz azul.
Uma luz que deixa sentir tranquilidade, calma e que dá felicidade.
Instantâneos de uma fotografia que passam e que recordam um tempo maravilhoso, em que se saboreou a felicidade e a liberdade.
Desejo de que esse tempo volte.
Giuseppa Giangrande

 

Há uma urgência no ar. Há sempre uma urgência no ar, pensava ela. Sempre, sempre, sempre, alguma outra coisa para fazer, para pensar, para experimentar. “há dois tipos de pessoas, as que estão sempre à procura de algo novo, e as que estão satisfeitas.” Deixou o cérebro ir. “há dois tipos de pessoas, as que vão explorar o mundo, e as que ficam a cultivar a terra.” O cérebro já estava longe. “há dois tipos de pessoas, as que se enfrentam a cada batalha, e as que sorteiam os obstáculos, qual barco a navegar entre rápidos”.
Abriu os olhos, na carruagem cheia do metro, cheia de perfumes, algum suor, muito cansaço acumulado de noites mal dormidas. Abriu os olhos e não encontrou nenhuns outros olhos para se ver refletida. Fechou-os novamente.
“Há dois tipos de pessoas, as que andam de transportes públicos, e as que não.”
“Há dois tipos de pessoas….”, o cérebro parou por um momento, e os olhos abriram-se contra a vontade dela. E ali estavam, frescos, esses olhos onde agora se via refletida, não sabendo se ela própria era das pessoas que estavam satisfeitas ou sempre à procura de algo novo.
Quis fechar os olhos, esquecer a urgência, deixar o cérebro ir.
Tinha ela ido explorar o mundo? Ou sorteado obstáculos? Ou…?
Os olhos aproximaram-se.
“Há dois tipos de pessoas, e depois o resto de todos nós”, murmurou-lhe ao ouvido a detentora dos outros olhos.
Patrícia Louro

 

vermeer

 

Falámos do que trouxemos para a balança, este ano tão desequilibrada. Flámos das angústias e da esperança. Estes foram os nossos balanços do ano. 



Sempre tive dificuldade em fazer balanços. Ia buscar as coisas boas e as coisas más
que tinham marcado o período sob avaliação – um dia, um mês, um ano – e construía
uma média final, tarefa nem sempre fácil.
Optei por seguir os conselhos de uma amiga americana, muito dada a fazer listas:
numa coluna inscrevo as coisas boas e na coluna ao lado registo as coisas más.
O processo até nem é difícil: o bom para a esquerda, o mau para a direita.
O pior é quando as colunas começam a engrossar com factos que já foram
trabalhados e editados pela memória ou pelo esquecimento. A simplicidade e a
clareza dos registos começam a nublar-se, a perder a nitidez, a interagir, como tintas
que se misturam e diluem mutuamente.
Foi óptimo ter feito aquele estágio, que sensação de plenitude intelectual! Mas não ter
conseguido começar a trabalhar, como esperava, faz o quê da minha pequena vitória?
Qual a média, o balanço final destes dois acontecimentos antagónicos?
Uma derrota?
Logo se vê?
Anularam-se?
Depois de contabilizados os ganhos e as perdas, o balanço real não é sempre
assumido, sendo, muitas vezes, apenas aquilo que é necessário para conseguir
passar à fase seguinte.
Vou, assim, considerar que o que sinto e penso hoje, esta semana, este mês, não
traduz, necessariamente, a súmula de tudo o que se passei, o balanço final de um ano
que já está a acabar mas que só findará quando deixar de doer.
Conceição Brito Lopes
 
 

Andamos de baloiço, o mundo é uma bola.
É um vaivém de acontecimentos, bons e maus.
Mas, ao final, o que importa é voltar à beleza das coisas simples, que vêm do coração.
E dar-se conta do que verdadeiramente nos faz felizes, as coisas pequenas da vida.
E, sobretudo, voltar a ver a cor da esperança.
Giuseppa Giangrande



O futuro chegou.
Disso a convicta certeza.
A Morte é certa, na Vida.
O Futuro também o é..
Seja Ele, curto ou comprido, nunca por cumprir.
Então aprendemos, Humanidade a entender o Presente no Futuro…
Este, mais inabalável e consistente.
Exigente, que não mente, criar desta prenda em Natal,
Um clarão, sempre além em felicidades, nos futuros recorrentes e tão próprios
Porém, um verbo… * O* Verbo… amar.
Há que teimar,
Há mais do que nunca, acreditar.

O riso começou o sorriso…continuous e a balança equilibrou.
Tenhamos fé.
Saudade…
A balança faz o medo, mas não contamina antes proteje.
O medo ainda mais no presente, das magnificas idades.
O future, livre, tranquilo, ele está a instalar-se.
Ontem, hoje e amanhã.
Tudo salvo na vida que se prepara sempre para mais um amanhã.
Hoje surpresa, ontem inesperado
Amanhã a luz o sabe. Sempre é nat@l
Por cumprir? Não…
Faça-se o Universo, o território e o chão onde ainda sabemos contnuar.
Descobrir, desejar, encontrar, enfim…amar.
L@dyBirdBeL
 
 

O desconcerto do mundo ou as angústias de uma espécie que inventa gaiolas para os
outros e desta vez foi engaiolada.

Se há coisa que sei da espécie humana, é que a memória tem asas de pássaro. Os
humanos são animais que morrem por camadas, o passado vai-se esfumando e amanhã
irão para a praia, afogar o azul da neura no azul das águas.
Amanhã, esta pandemia fará bocejar os estudantes nas aulas de História e as datas, os
países, o número de mortos figurarão em cábulas escondidas nas mangas dos casacos.
Mal de quem ficou sem pão, sem trabalho, sem casa, sem pais, sem ninguém.
Mal de quem viu a vida transformada numa concatenação de desgraças como uma
tragédia grega, sendo o vírus, qual caixa de pandora, a origem de todos os males
vindouros.
Todos os outros continuarão como se nada fosse.
E no cinema, alguém avisará o protagonista do Regresso ao Futuro para não conduzir o
carro da máquina do tempo para o famigerado ano de 2020.
E o público rirá entre pipocas.
Helena Campos

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Nesta sessão, recordámos Enid Blyton (GB, 1897 – 1968) que ficou conhecida pelas suas colecções de livros de aventuras para crianças e adolescentes.
O seu primeiro livro foi publicado em 1922 e o último em 1965. Terá escrito perto de 800 livros – nos anos 50, publica em média 50 livros por ano, o que deu origem a rumores de que recorreria a escritores-fantasma, o que sempre negou. Embora hoje criticada pelo seu estilo repetitivo, moralista e pela visão preconceituosa do mundo, os seus livros acompanharam milhões de jovens. 
As colecções que criou incluem: Os Cinco, Os Sete, As Gémeas no Colégio de Santa Clara, O Colégio das Quatro Torres, Colecção Mistério, Noddy.

Depois de falarmos um pouco da autora e dos principais traços das histórias de aventuras, criámos as nossas. 

 

O Farol das Berlengas
As ondas agitavam-se ao largo de Peniche, arrastando o barco rumo às Berlengas num carrossel de espuma. Rita, uma miúda rebelde de longos cabelos de um louro tão pálido que parecia branco e de uns olhos azuis tão claros que pareciam liquefazer-se, tentava não vomitar.
- Põe-te no meio do convés e fixa os olhos na bandeira portuguesa – aconselhara a mãe
Uma onda verde de náusea perpassava todos os rostos e alguns acabavam por ceder ao vómito.
Quando o barco atracou e despejou uma turba de jovens passageiros vomitados, Rita desatou a correr pela ilha acima, até ao farol, esfarelando a vegetação rasteira e surpreendendo ninhos de gaivotas grasnantes.
-Olhem ali! – exclamou ela para os amigos apontando para as pontiagudas ilhas Faroés. Lá em baixo, o Forte de São João despertava a curiosidade todos.
- Não vão para ali – ordenou a guia – circulem só pelos trilhos assinalados.
A noite chegou cedo e inundou a ilha numa bruma de silêncio. Rita não dormia e foi por isso a única que viu a luz do farol piscar três vezes.
No dia seguinte, ela e os amigos foram averiguar. Nenhum barco passara de noite e o faroleiro estava ausente.
- Talvez tivesses sonhado – disseram os amigos
- Não – teimou ela – eu sei que vi
Na noite seguinte à mesma hora, o farol voltou a piscar três vezes. Ela saiu da tenda sem acordar ninguém. Tudo na ilha parecia fantasmagórico e conduzir ao precipício que desabava no oceano, as gaivotas dormiam e um vento gélido ondulava a esparsa vegetação.
Rita chegou ao farol e ele continuou a piscar.
- Sinais de luzes, códigos – pensou ela na sua imaginação juvenil.
- Quem está aí? – gritou enquanto esmurrava a porta.
Foi então que a luz se transformou em som e um prisioneiro esquecido pôde enfim pedir socorro.
             Helena Campos
 
O baloiço e a Pastora
No baloiço, havia um rapaz com uma carapuça.
Era um casaco bastante quentinho; o que lhe sabia bem, é: Até o sol estava mesmo muito frio.
Não havia muitas nuvens.
Estamos num dia ainda sem companhia.
Nisto, aparece ela.
Este rapaz, era muito amigo dela, só em segredo.
Esta menina que tinha um barrete mesmo dela.
Amarelo e terno.
O baloiço, irritado, atirou com o rapaz ao chão, porque, já estava , ele, com mais atenção, ao que se passava debaixo do barrete, do que à grande árvore que tinha, como corajoso hábito,
com os pés tentar alcançar, baloiçar e rir. Leve.
Neste jardim havia cataratas, balancés, quase florestas, e havia banzé.
Confusões tantas, que baralhavam qualquer baralhado, que as tentasse recompor.
Ora, a nossa Pastora, que orientava ventanias, nos dias como os de hoje, à falta de nuvens lá no céu, soprava folhas de papel, que a dançar foram directinhas aos pincéis e aos frasquinhos.
Os nossos meninos assim que repararam no que tinha acabado de acontecer, foram num ápice às malas da escola de onde tiraram as tintas que tanto gostavam de ao breu esconder nas cores.
A chuva lembrou- se de chover afinal, envolveu as tintas nos pinceis, e os amigos acreditaram:
Somos bailarinos, baloiçantes e pintores!
- Como te chamas?
                           L@dyBirdBel>
 
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O Manuel era um rapaz muito estudioso, adorava ler e por isso todos os dias, depois da escola, ia à biblioteca do seu bairro, perto de Belém.
Uma tarde que estava ali a ler um livro de aventuras sobre terras longínquas, notou algo de estranho que provinha de uma das estantes: uma luzinha azul.
Atraído pela luz, aproximou-se  e, como por encanto, encontrou-se na Lisboa da época dos descobrimentos. Viu à frente dos seus olhos um enorme navio e ficou pasmado.
De repente, um homem puxou-lhe os cabelos e quis arrastá-lo não se sabe onde.
Felizmente, aquela luz misteriosa apareceu novamente para tirar a vista àquele homem que ficou cego e Manuel pôde ver-se livre dele e seguir a luz.
De novo encontrou-se, um pouco aturdido, na biblioteca.
                              Giuseppa Giangrande
 
 
 
A lagoa
Era um trio famoso; não havia sarilho na terra em que não estivessem metidos. O Fernando e o Luís eram mais ou menos da mesma idade e o Tiago um pouco mais novo e irrequieto.
Numa tarde de verão especialmente quente, foram todos até ao rio, a uma zona escondida e de difícil acesso que formava uma lagoa e onde a água era mais fria que nos outros locais. Quando chegaram, de respiração ofegante e a escorrer suor, olharam em direção à lagoa e ficaram petrificados. Não havia água. A lagoa estava seca e, no que seria o seu leito, havia uma casa sem portas nem janelas. Por sugestão do Tiago desceram, apreensivos, e por mais que caminhassem, demoravam a chegar ao fundo. Chegados, começaram a tornear a estranha casa. As paredes eram quentes, a pedra lisa e muito mais branca do que parecia vista de cima. Era perfeita. Não parecia haver nenhuma entrada ou abertura, nem sinais de que alguma vez tivessem existido. De repente ouviu-se a voz do Luís a tentar murmurar qualquer coisa de impercetível. Olharam-no e estava com ar aterrorizado, a apontar para cima e a tentar articular qualquer coisa que não se entendia. Seguiram-lhe lentamente o braço com o olhar e não queriam acreditar no que viam. Por cima deles estava a água, toda a água da lagoa, em suspenso por cima da casa como uma grande nuvem à espera de desabar. Desataram a correr fazendo o caminho de regresso até à borda da lagoa. O Fernando ia mais atrás e, quando ia a chegar à borda do lago, gritou quando um imenso chapão de água lhe caiu em cima. Abriu os olhos e viu o Luís que, debruçado sobre ele, lhe deu uma palmada na cara e disse:
- Então, pá? O sol fez-te mal? Desmaiaste e caíste redondo no chão. Despacha-te e anda ao banho.
Meio atordoado, levantou-se do chão, olhou o lago e já os outros mergulhavam e desapareciam sob a superfície das águas. Fez-se silêncio.
                           francisco feio

A aventura do rato e das tangerinas
O rato espreitou cuidadosamente para baixo, empoleirado na beira do telhado do alpendre. Mirava, gulosamente, as tangerinas douradas e laranja, cheirando, com deleite, o aroma que se delas se desprendia.
Teria de se despachar e ser ágil porque a aventura de roubar fruta não era desprovida de perigos. Mas valia o esforço!
As suas orelhitas rosadas moviam-se, nervosas, captando qualquer ruído, por mais insignificante, e os bigodes indicavam-lhe a distância até ao ramo mais próximo onde tencionava banquetear-se.
Olhou de novo para baixo, e só viu o casal de melros do costume, empenhados, sem sucesso, em debicar a fruta, fazendo-a cair no chão, num deslizar sibilino por entre a densa folhagem da árvore. Eram inofensivos, mas pouco espertos, pensou com desdém, mas sem rancor. Com tanta agitação, o gato pardo, que patrulhava o jardim, iria ficar alerta.
Olhou de novo, cuidadosamente, e, num salto bem medido, lançou-se para o ramo mais próximo, cobiçando gulosamente os pequenos globos perfumados.
Não reparou que, do meio das folhas, duas luzes azuis apontavam na sua direcção. Ébrio de abundância, descascava delicadamente uma tangerina que iria comer, sem ver o gato pardo que o emboscava, alongado contra os ramos, fundindo-se nas suas cores, dissimulado, invisível, letal.
Os melros, que esvoaçavam sem parar para poderem detectar inimigos, aperceberam-se do perigo e explodiram num pipilar ruidosamente de aviso, ao mesmo tempo que faziam voos rasantes sobre o dono dos olhos azuis, o gato pardo.
O rato não esperou para iniciar o banquete e fugiu velozmente, matutando que, afinal, os melros não eram assim tão burros nem ingénuos como pareciam.
O gato, chocado com o ataque inesperado das pequenas aves, caiu da árvore e ficou todo arranhado. Confortou-se a comer, como vingança, a tangerina descascada que o rato deixou para trás.
Mas não gostou….
                             Conceição Brito
 
 
 
Uma aventura das novas
Era o ano em que a palavra aventura ganhou novos significados. Bom, na verdade, muitas palavras ganharam novos significados nesse ano. Em novembro, os alemães faziam anúncios a apelar à heroicidade e grandes sentimentos dos seus compatriotas: “Sejam heróis, fiquem em casa.”, e os testemunhos exaltados da virtude de ficar em casa no meio de uma pandemia, a encher a barriga de piza e a fazer aquilo que em qualquer outro momento seria um pecado capital para um alemão que se preze: fazer nenhum. Se um alemão não produz, continua a ser alemão? Sim, desde que o ano seja 2020. 
“Nextflix and chill” também cobrou outras conotações. “Vá para fora cá dentro”. “Spain is different”. Era como se juntássemos todos os tópicos culturais e se fizesse uma paródia deles. Exceto que não era uma paródia, porque a pandemia era a sério.
As nossas heroínas são na verdade anti- heroínas. Esta aventura não teria acontecido se tivessem sido heroínas e ficado em casa, dedicadas ao netflix and chill, no novo ou no antigo significado.
Mas porque Spain is different, e dentro de Spain, Madrid é ainda mais different, as nossas heroínas podiam sair de casa. Podiam ir ao cinema. Podiam ir a um bar. E a coisa estranha desse ano estranho é que sair para ir ver um filme ao cinema era em si mesmo uma aventura. Não uma aventura das antigas, mas já dissemos que aventura mudou de significado esse ano.
A primeira das nossas heroínas usava uma máscara com cães, cachorrinhos sobre um fundo de mapa antigo. A segunda uma máscara de desporto preta. A primeira heroína detestava usar máscaras na mesma medida em que a segunda as adorava.
Neste Madrid frio (nada disso, diriam os nossos heroicos alemães, sabem lá vocês o que é frio!), e meio vazio (se Madrid tem as ruas vazias ainda é Madrid? Desde que seja 2020, já sabemos que sim), ir ao cinema é uma aventura com muitas pequenas dificuldades. A primeira: há gente a morrer, é-nos permitido ir ao cinema? Permitimo-nos nós ir ao cinema?
Tanto a heroína das máscaras com cachorrinhos como a da máscara desportiva decidiram que sim, e haveria um monte de gente que as crucificaria em termos modernos, ou seja, qualquer coisa inflamada no Twitter, entre essa gente os tais alemães heroicos que ficavam em casa, produtivamente a netflix and chill.
Aos obstáculos emocionais de ir ao cinema no meio de uma pandemia, e navegar um ambiente em que sair de cada para fazer alguma coisa que não fosse trabalhar ou às compras, ainda que tomando todas as precauções, era um pecado capital (quando é que nos tornamos todos alemães no sul, afinal?), juntavam-se os desafios logísticos ou logístico-emocionais: arranjar bilhetes para um festival de cinema: acabou-se a dolce vita e os planos de última hora, compras os bilhetes com duas semanas de antecedência ou bye-bye. (se os amigos alemães das nossas heroínas não estivessem metidos em casa a deprimir-se pela falta de luz e pelos nazis e conspiranóicos que não paravam de crescer, estariam impressionados com esta capacidade de planeamento).
Chegar ao cinema (decisão heroica de ir a pé e arriscar morte por hipotermia, ou ir de metro e ser péssimo patriota?). Como estamos em Madrid, as nossas heroínas vão de metro. Maus patriotas são os catalães ou os bascos, andem eles de a pé ou de metro.
Limpar as mãos com gel ao entrar na sala de cinema. A nossa heroína que detesta máscaras adora o gel, e a que adora máscaras odeia o gel. Cada qual prefere liberdade em partes corporais diferentes.
Respeitar distância de segurança e os lugares vazios entre lugares ocupados. Essa coisa tão simples de estender uma mão quando se ouve a pessoa ao lado a fungar num desses momentos em que a alma se rompe numa sala escura. Com esse lugar vazio, essa mão estendida é mais que um simples gesto de conforto, é uma declaração política, uma declaração de guerra ou desafio sobre uma cadeira vazia. A mão foi estendida e as mãos pegajosas do gel entrelaçaram-se, e como nos dias do antigamente disseram mais palavras que todas as outras palavras que trocaram as heroínas nessa noite.
E como depois do cinema era tarde, tiveram a parte frustrada da aventura, tentar beber mais uma. Que não se pode, há recolher obrigatório, e a malta leva isso de interagir com a polícia a sério. Há uma bonita tradição de multas a comércios na cidade, e ninguém se quer arriscar.
A moral da história? Não há. Também não há heroínas, nem as nossas que foram ao cinema, nem os alemães que ficaram (ou não) em casa. Atrever-se a ser humano foi a aventura do ano.
         Patrícia Louro
 
 
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Sozinha em casa

A manhã ia alta quando Milai acordou, num quarto que o frio tornara desconhecido e cujas vidraças despidas de estores permitiam a invasão do cinzento deprimente do exterior.
Por mais que se esforçasse, Milai não se reconhecia naquele ambiente, habituada que estava a ser acordada pela mãe, ao calor do aquecimento central, dos edredons fofos, dos reposteiros de cores cálidas…
Saltou da cama e não encontrou os chinelos, os pés nus encolhiam-se na madeira fria e seca, tampouco encontrou o roupão… A porta estava aberta e dava para um corredor desconhecido, cujas paredes não ostentavam nem quadros nem fotografias familiares. Avançou a medo – que casa era aquela, que chão nu e frio era aquele, onde estava a mãe que não a despertara?
Ao fundo do corredor, uma porta escancarada emoldurava uma sala revolvida – livros pelo chão, gavetas esventradas, almofadas revolvidas e cadeiras de pernas para o ar. A confusão, evidente, contaminou-lhe o pensamento, que se recusava a perceber o que via.
Um gemido em forma de miado e uma bola de pelo que lhe chocou nas pernas sinalizaram a existência de outra vida – não necessariamente a que mais gostaria de ter encontrado. O susto foi potente, deixando-a pregada no chão, o coração a bombar a toda a força, e o cérebro a gritar – e se tem pulgas, e se tem pulgas, e se tem pulgas…
Fechou os olhos. Queria a mãe, queria a sua casa, queria a sua vida de volta.
Acordou na cama fofa de edredons de cores garridas, o gato deitado aos pés da cama, alguém lhe media a febre enquanto outra pessoa lhe massaja a fronte com um pano quente embebido no que, pelo cheiro, seria álcool. Sentia-se gelada e tremia e batia os dentes como castanholas.
- Milaizinha querida – era a voz do pai –, nossa heroína! O teu sonambulismo hoje salvou-nos de sermos assaltados. Os ladrões, quando te viram à porta do escritório, pensaram que eras uma alma penada e depois o gato atirou-se a eles e deixou-lhes as caras numa chaga, um deles é alérgico a gatos e teve uma crise de asma, foi levado no 112, não se sabe se escapa.
     Paula Carvalho

 
 
 
 
 
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I - Um conto à nossa maneira
Exercício inspirado no texto de Raymond Queneau, Un conte à votre façon.
Em grupo, os participantes escreveram duas histórias diferentes. Depois, combinaram-se os contos com as frases que indicam percursos diferentes da história.
A escrita colaborativa decorre, assim, a três níveis: escrita em grupo, recombinação das histórias dos grupos, escolha do leitor da história que quer ler.


1
Era uma vez um Zé Ninguém que pedia nas ruas de Lisboa.
  Se não se interessa por zé ninguéns, vá para 2
  Se está satisfeito, vá para 3

2
Era uma vez um cavalo de corridas, que vivia numa coudelaria luxuosa e todos os dias de manhã ia treinar.
  Se não se se interessa por equinos vá para 1
  Se está satisfeito, vá para 4

3
Uma noite teve um sonho psicadélico em que vivia num palácio rodeado de ouro e prata.
  Se não quer que ele sonhe, vá para 4
  Se quer saber o que significa o sonho, vá para 5

4
Uma noite não conseguiu adormecer, então decidiu passar a noite acordado a polir metais e a relinchar contra o seu destino.
Se quer saber o que aconteceu a seguir vá para 6
Se quer que quer ele durma um bocadinho, vá para 5

5
Quando acordou, veio-lhe à cabeça o ditado popular «Querer é poder!» e percebeu imediatamente o significado do sonho.
  Se gosta deste ditado, vá para 7
  Se não gosta de ditados populares, vá para 6

6
Quando amanheceu, consultou o seu horóscopo: finalmente tinha todos os planetas alinhados para triunfar, o que nunca tinha sucedido.
  Se não acredita em horóscopos vá para 5
  Se quer saber o que aconteceu depois, vá para 7

7
Essa revelação deu-lhe coragem para declarar o seu amor a uma senhora benfeitora que o ajudava frequentemente.
  Se quer seguir a história de amor, vá para 9
  Se está a achar isto enjoativo, vá para 8

8
Irritado, decidiu que era altura de se vingar da Maria Antonieta que lhe tinha um coice e uma dentada numa orelha e que agora era famosa por ter começado a falar inglês sem ninguém a ter ensinado.
  Se quer saber o que se passou depois, vá para 10
  Se preferia uma história sem ódios antigos, vá para 7

9
Mas o objecto do seu amor rejeitou-o porque o ajudava em nome de Cristo.
  Se quer dar mais uma hipótese ao amor, vá para 11
  Se quer saber o que aconteceu a seguir, vá para 8


10
Quando se encontrou cara a cara com a sua inimiga, percebeu que era estrábica e que nem sequer o tinha visto no primeiro dia.
  Se quer saber o que se passou a seguir, vá para 11
  Se não quer saber mais nada, vá para 12


11
Completamente baralhado, foi para uma taberna e pôs-se a beber. Até que, de repente, encontrou quem viria a ser o amor da sua vida: uma fadista que cantava tristemente ao som das guitarras.
  Se quer saber o que isto significa, vá para 12
  Se nada na vida tem significado, vá para 13.


12
Afinal, nada importava, pensou para si próprio. E disse: a vida são dois dias e o carnaval são três.
Respirou fundo e decidiu mudar de carreira e aprender a falar russo e jogar xadrez.

FIM


13
Reflectindo, disse para si próprio: vida é um acaso absurdo, é uma lotaria imprevisível.
Respirou fundo e decidiu escrever versos para um fado que veio a tornar-se um grande êxito português.

FIM

 

Participantes:
Conceição Brito
Giuseppa Giangrande
Helena Campos
Lídia Lopes
Patrícia Louro


II - Histórias cruzadas
Com uma estrutura fixa, as histórias multiplicam-se em ínúmeras e inesperadas versões. Cada participante escreveu uma história. Depois combinámos num quadro onde cada quadrado pode combinar com qualquer outro. Alguns resultados são mais surrealistas do que outros - mas levantam boas ideias para próximos textos!

 

Capturar

 

Participantes: 

Conceição Brito
Giuseppa Giangrande
Helena Campos
Lídia Lopes
Patrícia Louro



III - Textos de 10 minutos escritos com palavras obrigatórias sugeridas pelos participantes

 

Rosa
O dia começou cor-de-rosa. Bom. Não era bem cor-de-rosa, mas o ser que nos ocupa esta história não é um designer gráfico a trabalhar com quadricromia, portanto digamos que o dia começou cor-de-rosa.
Era um dia como outro qualquer. Era um dia como só esse dia podia ser dia. Era um grande dia. Ou pelo menos era um grande dia para o pequeno ser que nos ocupa esta história: uma lagarta lagartinha, feliz como uma perdiz, ou o seu equivalente em mundo lagartil: viver num ramo de carvalho, alto, muito alto (lembre-se, caro leitor, do tamanho de uma lagarta, se ainda conseguir evocar os seus dias de infância. Um carvalho é, para uma lagarta, e como se dizia nos meus idos tempos, bué da alto).
Mas voltemos à história que nos ocupa. A lagarta acordou com um céu cor-de-rosa. Espreguiçou-se, comeu meia folha de carvalho, e fletiu os músculos de lagarta (bué da pequenos, mas súper poderosos), e fez uma corrida até um ramo mais baixo. Correu, correu, correu, chegou. Bebeu a água das folhas do ramo mais baixo do carvalho, para isso tinha descido.
E porque esta é uma história sobre pequenos tamanhos, nesse ramo baixo do carvalho, a feliz como uma perdiz lagarta encontrou-se com o seu destino, uma criancinha de idade indeterminada para a lagarta (que não percebia muito de humanos, mas nós podemos dizer que teria uns 6 ou 7 anos), e brandia como uma espada um abridor de cartas em forma de punhal, roubado à socapa, do home office do pai (e por uma vez, não há nenhuma culpa da mãe da história que nos ocupa).
A lagarta curiosa desceu um pouco mais. A criança distraída subiu o braço. E desse encontro infeliz, metade da lagarta caiu no chão, e a outra metade ficou agarrada ao ramo.
Quanto à criança, foi chorar para o colo da mãe.
             Patrícia Louro

Foi à sombra dos ramos de um carvalho frondoso e pejado de bolotas que se viram pela primeira vez, enquanto observavam uma corrida desenfreada de lagartas.
Nesse tempo, tudo parecia cor de rosa até ao dia em que veio a carta de despedida aberta furiosamente com um abridor de cartas em forma de punhal.
As lagartas tinham sumido nos interstícios do muro musgoso e as bolotas todas caídas e atiradas aos porcos, como alimento, pronunciavam um inverno cinzento e pesado de águas.
   Helena Campos
 
Era uma vez uma lagarta que vivia à sombra dum ramo de carvalho. Um dia veio um bicho que a desafiou para uma corrida: o seu objetivo era comê-la.
A lagarta aceitou o desafio. Quando o bicho já estava a ponto de agarrá-la, a lagarta tornou-se numa borboleta cor de rosa e voou alto no céu.
   Giuseppa Giangrande

 Tema: Microcontos

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1.º Um microconto a partir da história A Princesa e a Ervilha.

Era madrugada quando Nini saiu da rave, rave privada cujo destino era tão mas tão secreto que só se conhecia quando lá se chegava, seguindo indicações hieroglíficas de sms privadas. Uma vez mais, como perdera o iphone última geração, não sabia onde estava. Olhou os sapatos, tristes, mais um par roto. Suspirou, antecipando explicações sobre o telefone perdido e os sapatos feitos num trapo.
Foi atingida pela escuridão da noite e pela depressão Bárbara, cega por ambas. Caminhou ao acaso. Um jorro de água, nascido de fonte incógnita, vergou-a.
Acordou numa cama de dossel, fofa como chantilly ou claras em castelo ou não estivesse deitada em cima de inúmeros edredons e colchões. Pensou que morrera com entrada directa no paraíso até que entrou o homem velho, de coroa na cabeça, com uma taça fumegante e lhe disse: “Hoje temos favas com chouriço.” “Oh– exclamou ela - não pode ser antes ervilhas com bacon e ovos escalfados?!”.
                Paula Carvalho

O segredo do cão
Trabalhara a vida toda, enriquecera, viajara pelo mundo, conhecera lugares onde ninguém jamais havia pisado, amara e fora amado. Entretanto, ao completar 60 anos, Pedro não se considerava um homem feliz. Faltava-lhe algo. Procurou todo tipo de terapia para descobrir que mal secreto enchia seu coração de melancolia. Tudo em vão.
Começava a conformar-se com a ideia de ser para sempre um homem infeliz quando, um dia, ao caminhar por um parque, viu um velho com um cão. O velho tinha o semblante mais sereno que Pedro havia visto em sua vida. Aproximou-se e perguntou:
- Velho, pareces tão feliz. Como conseguiste atingir felicidade tão plena?
- Vês o meu cão? Observa como ele corre e se diverte. Ele não pensa no que lhe falta. Apenas celebra o que tem. Aprendi com ele o segredo da felicidade.
                Paulo Lima

As ervilhas mágicas
Era uma vez uma rapariga pobre que vivia no campo junto à sua mãe. Não tinham nada, apenas conseguiam comer graças à uma planta de ervilhas. A rapariga era muito bonita. Um dia passou por ali, perto da sua casa, um príncipe que se apaixonou por ela. Queria casar com ela, mas o rei e a rainha opunham -se à essa ligação por causa da pobreza da rapariga.
A pobrezinha ficou muito triste e chorou muitas lágrimas que caíram ao pé da planta de ervilhas. Essas tornaram-se numa chuva de ouro, pelo que a rapariga ficou muito rica e pôde casar com o príncipe.
                   Giuseppa Giangrande


O Exame
O João estava cansado de procurar a mulher com quem queria partilhar a sua vida. Bonitas, feias, ricas, pobres, cultas, alegremente ignorantes, percorrera já uma gama imensa de candidatas a futuras esposas.
O seu desejo era que a figura idealizada fosse culta, bem-educada e, acima de tudo, com impecáveis maneiras. Lembrava, agoniado, a última candidata que quase o matara de vergonha, no São Carlos, ao bater palmas nas pausas da orquestra.
Até que conheceu a Teresa.
Ela apareceu à hora certa, no local combinado. Iam jantar a um restaurante chique, muito chique, e o teste à mesa seria implacável: um exército de talheres, uma congregação de copos, um aglomerado de acepipes.
Imperturbável, ela sugeriu a ementa com a finura de uma gourmet, aprovou os vinhos como verdadeira connoisseur e dispensou o aperitivo.
A refeição decorreu suave como uma sinfonia. O garfo certo, o copo adequado, leves toques nos lábios com o guardanapo, sem esfregar.
Voz suave, conversa inteligente, sentido de humor.
Que maravilha, pensou. É esta!
- O que quer para terminar? perguntou ele.
- Apenas um palito para tirar este pedaço de carne que ficou preso nos dentes – respondeu ela, enquanto adiantava o serviço usando, delicadamente, a unha do dedo mindinho.
                     Conceição Brito


Ervilha
A alegria andava a passear e encontrou uma ervilha que queria brincar.
Rebolaram riam e festejavam tão distraídas que a um cantinho duma sala foram parar.Acordaram o Príncipe encantado se bem que de realidade inteirado.
A alegria pediu á amiga ervilha que chamasse as suas irmãs e com a ajuda dum chouriço e ovos comemorou o seu feliz acaso
                         L@dyBirdBeL

livro

 

 

 

 

 

2.º Um conto de 100 palavras com o início, «Chegara a hora».

Pontualmente

Chegar à hora foi disciplina auto-imposta na sua longa vida de adulta, um misto de carta de alforria e de foral dos atrasos traumáticos duma educação ao Deus-dará. Da libertação nasceu a nova escravidão, a pontualidade de chegar antes da hora, e, depois, muito antes da hora. Em dias de compromisso matutino, agendava três despertares, dois em despertadores de corda e um do serviço homónimo dos telefones-de-lisboa-e-porto, de que nunca precisava pois despertava de hora a hora, sempre antes da hora. 

Partiu um dia de madrugada, sem hora marcada, ainda assim na sua hora.

            Paula Carvalho


Despedida
Chegara a hora. Jorge pegou a mala, apagou as luzes e saiu.
O carro já o esperava na frente do prédio. O motorista cumprimentou-o com um aceno de cabeça, guardou sua mala no banco da frente, assumiu seu lugar e deu a partida.
Jorge pediu-lhe que desligasse o rádio. Pela janela, via desfilar pela última vez as paisagens tão familiares.
Lúcia o esperava no porto. Abraçaram-se longamente e ele embarcou sem olhar para trás.
Permaneceu no convés até que o navio tivesse deixado o continente para trás. Abriu a urna e jogou as cinzas do seu passado no mar.
         Paulo Lima

Inspiração em Oscar Wilde
O comboio partiu com a minha vida dentro. Fiquei no cais à espera que a minha vida regressasse e nunca mais regressou. Comecei a percorrer a linha férrea no seu encalço, na peugada do meu outro eu, o caminho alternativo que eu deveria ter percorrido. Era tempo de juntar-me ao que eu poderia ter sido. Chegara a hora.
            Helena Campos

Encontro
Chegara a hora. Tinha esperado muito tempo por aquele instante. De ali a pouco ia conhecê-l
Que ia dizer-lhe? E ele? Que ia dizer-me?livro 2
Mil pensamentos ocupavam a minha cabeça. E, entretanto, o meu coração palpitava na espera.Saí finalmente para a rua, ao meu lado via só passar sombras. Ao final, cheguei ao lugar combinado para o nosso encontro e ali vi-o, parecia ele também emocionado. Aproximei-me dele e na oscuridade a sua figura adquiriu formas bem definidas. Naquele momento não conseguimos dizer nada, as nossas mãos juntaram-se e os nossos corações também.
             Giuseppa Giangrande
 
Chegara a hora! As contrações, longas, contínuas, excruciantes, diziam-lhe que fosse pedir ajuda. Bebé não espera para nascer, aparece no mundo quando chega a sua hora, sem pedir licença. Com esforço, apoiou-se no grande rochedo e tentou erguer-se, mas as pernas não tiveram força e caiu de joelhos no chão atapetado de folhas. Um espasmo brutal percorreu-lhe o corpo: a criança ia nascer agora, ali. Respirou fundo, recolheu todas as suas forças, e, no caudal original da vida, a sua filha emergiu, reivindicando ruidosamente o seu lugar no mundo.
                   Conceição Brito
 

Disse-me o Poeta, «Antes o atrito que o contrato»
Chegara a hora, tardara, mas finalmente nos encontrou.
Por debaixo de tantos cubos de gelo submersos em solidão, ele contemplava as bolinhas de sabão de arco íris trajadas sopradas divertidas imparáveis brincalhonas...
O milagre.
Éramos tão sós e na solitude chegara a hora.
             L@dyBirdBeL

 

(fotos: pegandawlbuilt.com)

 

non finito

                                                                                                                                                                  Michelangelo, Escravos

Tema: Era uma v... | Textos inacabados


1 - O poema fragmentado
A partir de uma versão parcial, e sem conhecerem o original, os participantes completaram as frases de um poema, fazendo-o seu.

 

O meu poema teve um sonho:
Diz às palavras vivam
E ide procurar conhecimento;
O meu poema tem o brilho do saber.
Posso vê-lo cintilando
Em cornucópias de prata
Sem pressa
Ou receio.
Pergunto-lhe: com que sonhaste?
Mas apenas me envolve
E fica ali a pulsar na dádiva da plenitude.
                                           Conceição Brito Lopes

O meu poema teve um furo
Diz às palavras: não sei se tenho salvação
e ide procurar ajuda.
O meu poema tem remendo
posso vê-lo a insuflar esperança.
Em fé
sem medo de morrer de velhice
ou de doença.
Pergunto-lhe: mas vais ficar bem?
mas apenas me devolve um suspiro
e fica ali apenas a existir.
                          Tânia Teixeira


O meu poema teve um problema
Diz às palavras: Voem no céu
E ide procurar versos.
O meu poema tem agora versos
Posso vê-lo feliz
em companhia dos seus versos
sem preocupações
ou tristeza.
Pergunto-lhe: O que é que te deixa ficar tão feliz?
Mas apenas ouve a voz dos seus versos
E fica ali a regalá-los.
                   Giuseppa Giangrande


O meu poema teve um bloqueio
Diz às palavras: regressem
E ide procurar as fontes
O meu poema tem angústias de alma, febres de perfeição
Posso vê-lo a tremer, a hesitar
Em tardes outonais de fim de linha
Sem rumo
Ou ponto de mira
Pergunto-lhe onde está
Mas apenas murmura em surdina algo desconexo
E fica ali a olhar o vazio
                    Helena Campos


O meu poema teve um sonho do qual acorda pensativo
Diz às palavras: deixem-me só
e ide procurar outras palavras que as substituam e sejam mais verdadeiras.
O meu poema tem esperança
Posso vê-lo desnudo
em busca da raiz da emoção
sem vocabulário
ou gramática
Pergunto-lhe: o que queres dizer afinal?
mas apenas se cala
e fica ali a página em branco
                             Paulo de Lima


Poema original que inspirou o exercício:

O meu poema teve um esgotamento nervoso.
Já não suporta mais as palavras.
Diz às palavras: palavras
ide embora,
ide procurar outro poema
onde habitar.
O meu poema tem destas coisas
de vez em quando.
Posso vê-lo: ali distendido
em cama de linho muito branco
sem perspectivas ou desejo
quedando-se num silêncio
pálido
como um poema clorótico.
Pergunto-lhe: posso fazer alguma coisa por ti?
mas apenas me fixa o olhar;
fica ali a fitar-me de olhos vazios
e boca seca.
                Daniel Jonas, in Os Fantasmas Inquilinos

 

2 - Fragmentos que contam histórias.
É possível contar uma história apenas com frases inacabadas? Ao fazer o exercício, percebemos que deixar por dizer dá outra expressividade ao texto.

 

Sonhava acordada com...
Ela pediu-lhe que...
Assustei-me e...
E não foram felizes para sempre porque...
Sem saber como..
A luz apagou-se...
Lembrou-se...
Naquela madrugada...
Ainda o sol não tinha raiado...
Sonhava acordada com...
O passado...
Ainda mal acabara...
Quando o carro...
Assustou-se...
Ele nunca mais lhe respondeu e...
Se não chover...
Quando chegaram ao funeral...
Ela pediu-lhe que...
Era uma vez.
         Tânia Teixeira


Já não sou
Odeio quando
Ouvi algo de


Não tive como
Enganei-me
Não soube escolher
O tempo
Não fui a
Não disse que
Hoje não há
Dizes para
Insistes em
Não há
Já não há
O tempo
Nunca será
          Helena Campos


Era uma vez
A madastra fazia anos que
O príncipe sempre com medo de
Até o dia que
A bebida no copo estava
Um gole e o príncipe
No meio da noite chega o
Beija o príncipe e ele
Fogem os dois de mãos
A madastra tenta
Mas volta com as mãos
A princesa decide que
E a madastra perde sua
                    Paulo de Lima

 


3 - Non finito em texto
Este exercício foi uma tentativa de exploração do non finito em texto.
O non finito nas artes plásticas (exemplo da reprodução de Michaelangelo acima) é uma obra inacabada que permite espreitar para as marcas do criador, para o processo criativo. Será possível fazer o mesmo em texto? Experimentámos.

 

...
Às 12 badaladas Branca pica-se no fuso do tear e desmaia. Nesse mesmo momento, a sua preciosa carruagem transforma-se numa abóbora e os sete anões acorrem a salvá-la.
(Estou tramada! Espelho meu, espelho meu, haverá alguém que confunda mais as histórias de princesas do que eu? Nunca sei quem é maltratada pela madrasta - serão todas? - ou pica o dedo, ou come a maçã, ou tem um príncipe - ah! isso sei, são todas!)
...
A luz da manhã rompe-lhe o sono e a ladeá-la está um monstro que a assusta.
- Calma Bela! - responde-lhe ele.
- O que é que aconteceu?
- Foste amaldiçoada pela rainha má, mas eu vou levar-te para longe e ficarás sã e salva.
- Como? - responde ela atordoada.
- Neste tapete mágico!
(Mentiria se dissesse como me desenvencilhar deste problema. Ah! Com um clichê!)
...
Num castelo num alto de um monte verdejante, a princesa e o seu amado viveram felizes para sempre.
                                                                                                                                    Tânia Teixeira

 

helna

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 …….de Neve e……

……….e, finalmente! alisou a última das sete caminhas. Olhou em redor, com cuidado, para não bater com a cabeça no tecto baixo [adjectivo redundante?]. O espelho do quarto continuava totalmente tapado (tantas recordações más) [mas ainda não quero falar disso ]
e os seus amiguinhos em breve chegariam para almoçar. Que vida horrível, sempre na cozinha!!
Só de pensar em comida, ficou com fome (no palácio comia-se tão bem! e tinha aios para servir, não tinha que cozinhar)
(…..) lá estava a maçã a olhar para ela, a chamar por ela. Afinal não a ia repartir com os sete anões, ia comê-la já, como a velha recomendara.
……ainda teve tempo para perceber que o egoísmo pode ser perigoso.
                                                                            Conceição Brito Lopes


Branca de Neve estava a preparar o lanche dos anos, que logo chegariam do trabalho, quando ouviu batidas na porta. Intrigada, foi abrir. Era uma velha/senhora (decidir qual palavra usar. Não quero que digam que discrimino os idosos etc. e tal)
(Talvez seja mais verossímil se ela olhasse antes quem está batendo. Mas pode quebrar o ritmo.)
Boa tarde, minha jovem.
Boa tarde, senhora. Em que posso ajudá-la?
(Ressaltar o caráter ingénuo da Branca de Neve.)
Tenho aqui umas maçãs que estou vendendo para comprar comida para meus netinhos. A senhora gostaria de comprar uma?
Claro, minha senhora. Espere aqui que vou pegar o dinheiro.
Ela foi até a cômoda, pegu umas moedas e voltou para a porta. Pagou a velha e pegou uma maçã. (Não, a velha tem de dar a maça envenenada para ela. Ou todas as maçãs do cesto estão envenenadas?)
Parece muito gostosa mesmo.
Dê uma mordida para ver como é suculenta.
(Fazer suspense com a mordida?)
                                      Paulo de Lima

 

jornais

 

Tema: MANCHETE. Escrever a partir de notícias de jornal

Nesta sessão explorámos as ligações e possibilidades de cruzamento entre escrita literária e escrita jornalística.
Porque aparentemente a distância é ainda maior, tomámos como exemplo a poesia, inspirada ou que recorre a linguagem jornalística. O mote foi dado com poemas de Alexandre O'Neill, Carlos Queirós, Manuel Bandeira, Daniel Filipe.

1 - Da notícia ao texto literário.

Como transformar uma notícia num texto literário, poema ou texto fragmentado?
Que história, ainda que breve e depurada, podemos revelar? Como manter o equilíbrio?

Transformar em pequeno texto cada notícia, ou ambas.

 

ze pipo

                 xanana

 

As últimas chamadas

A 5 de novembro as últimas chamadas
Quem falou com ele?
Não há resposta à essa pergunta
Ainda estão as luzes apagadas
em redor da pessoa desparecida.

O presidente jardineiro

Na capital timorense
há um presidente jardineiro
Os jardins da cidade agora
têm alguém que cuida deles
e reflorescem esplendorosos.
                                  Giuseppa Giangrande


I
Há seis meses
Ele falava ao telefone
Todos o viram
Enquanto falava, dobrou a esquina
E sumiu
Desapareceu
Evaporou
O telefone foi encontrado
O homem continua desaparecido.

II

Primeiro foram as armas.
Era preciso lutar.
Depois vieram as reuniões e as solenidades.
Era preciso governar.
Agora são os jardins.
Cultivar a beleza ainda é preciso.
                                              Paulo de Lima


Valham- nos Anjos.
Sempre os anjos.
Omnipresentes e tão cientes.
Não lhes cabe registar.
Resta-lhes o sabê-lo.
Somente o sabem.
Falo-vos de atitudes elegantemente rapinadas ao civismo tido como marginal.

Surgem de noite. Não deixam rasto.
Ficam reluzindo no dia as sementes de lugares.
Lugares donde se arrancaram as ervas daninhas.
Sementes livres...
Sementes de ajardinados acarinhados.

Não há nomes por chamar.
As atitudes tomaram- lhes o lugar.
Chega sempre o Natal.
Quente e frio.
É verdade é facto.
                          L@dyBirdBeL

 
João sem jeito era soldado combatente e matava à bala.
Depois foi telefonista e apagava os registos das chamadas convenientes.
Um dia decidiu ser jardineiro para cortar as flores e atirá-las ao vento.
Foi visto a última vez em Tomar.
                                           Helena Campos
 
 
 

2 - Continuar a distopia

Depois de ouvirmos o trecho da Invenção do Amor de e por Daniel Filipe, continuar a história dos amantes, da cidade, da liberdade, da repressão.

A Invenção do Amor, Daniel Filipe

 

… Mas o homem e a mulher
já fugiram para os jardins escondidos
do amor e dos sonhos
e de ali deixam chegar às pessoas
uma mensagem de amor.
Já que os sonhos e o amor
são revolucionários,
nos corações das pessoas
floresce finalmente a flor vermelha
da tolerância e da liberdade
Ninguém pode reprimir o
avanço do amor.
                             Giuseppa Giangrande


É indispensável encontrá-los.
As autoridades decretaram que o amor é um vírus perigoso e determinaram que todos ficassem em suas casas.
Dizem nas rádios e na televisão que se trata de uma epidemia grave que deve ser combatida a qualquer custo.
Mas talvez seja tarde. Pois começam a ser vistos por toda a cidade casais de mãos dadas.
Casais que desafiam o confinamento e vão para as praças e os parques se beijar.
São detidos imediatamente. Mas já faltam carros para transportar todos os presos e prisões para encarcerá-los.
E começam também a circular outras versões para o discurso oficial das autoridades.
O amor não é o vírus, dizem essas versões.
Na verdade, é a vacina contra a monotonia e os dias cinzas, contra tudo que desbota a vida.
As autoridades têm medo.
Os amantes, esperança.
                                        Paulo de Lima
 

Para quem vive e o não sabe...
Para quem nos morre num porquê..

Das guerras que nos são impostas eis- nos mais um porquê.
Porquê tanta garantia que a espingarda é de exibir e o amor de proibir?

Porque estão as crianças a brincar acompanhadas de sorrisos sonantes sinceros invisíveis escondidos e mascarados?
Desmascarando as gargalhadas e descobri- las de boa fé.
Senti- las acutilantes e distraídas honestas e sabê- las tão sentidas.
Para quem vive sem nunca te ver.
Para quê morrer se nunca te crer foi para valer.

Tudo isto não faz sentido.
Tudo isto me baralha, tudo isto se instala.
Tudo isto me faz morrer.
                                     L@dyBirdBeL


E mais homens e mulheres se encontrem
Contra a lei, contra a ordem
E a repressão baixe os braços, cansada e finalmente vencida
Porque um dia a repressão há-de morrer
E há-de nascer um pássaro com asas de neve, numa aurora tão longamente ansiada
Decrete-se uma lei onde se assassinem todos os amantes
Construam-se prisões de alta segurança
Coloquem-se cadeiras eléctricas para os detractores, achincalhadores da ordem
Antes que um dia um cravo espetado numa arma anuncie a aurora da liberdade sem regresso
E depois do adeus, passarão aves
Quebrar-se-ão grilhetas,
e não sobrará ninguém para contar a história daquele cartaz
                                                                                 Helena Campos

Em julho e setembro organizámos uma atividade de passeio e escrita sobre Lisboa. A partir de um roteiro preparado previamente pelos os becos e calçadas à volta da Sé, Castelo e Rossio, os participantes escreveram e fotografaram. Voltaremos a estes passeios mais vezes.

  

Rossio

Os meus passeios levam-me à praça do Rossio, sobretudo à noite. A luz do dia que me acompanhou nos meus caminhos de manhã aqui é substituída pela luz da lua, romântica e porta-voz dos sonhos. Ela, o azul obscuro do céu noturno e as luzes dos faróis refletem-se na calçada do chão que parece tomar vida e se transforma em ondas, como as dos mares que em tempos longínquos navegaram as caravelas portuguesas. As estátuas que adornam as fontes da praça projetam sombras. De longe, chega uma voz da Mouraria, que entoa um fado.

Giuseppa Giangrande

 

                                          G1         G2

 

 


Rua da Saudade

Nasci e vivi na Rua da Saudade, num quarto andar do número 23, com vista para o Tejo, prédio famoso porque nele viveram o Ary das canções do festival e o O’Neill, aquele da coisa em forma de assim. O andar era o último, gelado no inverno, tórrido no verão. Vivíamos lá três gerações – avós paternos, pais, dois irmãos rapazes, um mais velho dez anos e o outro seis, que cedo fizeram pela vida, tornaram-se um, canalizador, o outro electricista, e cedo casaram, com moças do Bairro – ambas da Rua das Merceeiras -, e mudaram-se para Santo António dos Cavaleiros. Ao Domingo vinham almoçar connosco.
No Santo António de 1980, tinha eu 16 anos e acabado o décimo primeiro ano. A Directora de Turma chamara os meus pais para lhes dizer que eu era inteligente e devia continuar os estudos mas a conversa nem começou porque o velho disse que não ia, não queria doutores na família e doutoras ainda menos - e a minha mãe não se atrevia a contradizê-lo. A minha vida era calcorrear as vielas da Sé, descer do Limoeiro à Baixa, e fazer os recados da avó nas retrosarias da Rua da Conceição, ou subir aos Lóios, descer as Escadas de S. Crispim, apanhar S. Mamede e daí a Rua da Madalena, e na Praça da Figueira fazer as compras para a despensa. Não desgostava daquela vida preguiçosa mas sentia que tinha que haver mais – mulheres a cozer e a bordar o dia todo, as agulhas que se partiam, os dedos que se picavam, a vista que se finava aos poucos, o avô a tossir e a arrastar os chinelos, o velho a chegar ao fim do dia com cheiro a suor requentado, a entregar a marmita vazia e, ao fim do mês, o salário com que se pagava a renda, a água, a luz e o gás, porque a comida, essa, saía das rendas e dos bordados. Sem saber o que queria da vida sabia que aquilo não era vida para mim.
Nessa noite de Santo António fui com um grupo para o Largo da Sé para saltar a fogueira e comer umas sardinhas e um caldo verde. A avó tinha-me dado duas notas de cinquenta, daquelas com a Rainha Santa, e o meu pai uma das verdes, com a cara do Santo que dava nome à noite. Foi nessa noite e no Largo da Sé que conheci o João Carlos, mais velho que eu dez anos, um borracho, lindo de morrer, louro, branco e com olhos verdes de gato. Magro, muito magro, eu também o era, não tinha ainda formas de mulher, era lisa com uma tábua. De costas ou de frente parecíamos dois rapazinhos. O João Carlos não era do bairro, era fino e de boas famílias, morava num andar na Rodrigo da Fonseca, com elevador e aquecimento central. Sozinho, que os pais tinham ido para o Brasil em 74 e por cá o deixaram a estudar Direito e com mesada milionária – ou assim me contou a história. Mudei-me para a Rodrigo da Fonseca nessa noite, noite em que passei da infância ao inferno, sem parar no purgatório.
Hoje é noite de Santo António, tenho vinte anos e sei que estou a morrer. Tornei-me esquelética, quase transparente, os meus ossos furam a pele, que está coberta de manchas negras. Mal respiro, já tive várias pneumonias e ninguém me diz o que tenho. Ou podem ter dito e eu esqueci-me, como costuma acontecer. Só não me esqueço de duas coisas – da explosão que senti naquela madrugada de Santo António, quando o João Carlos pela primeira vez me injectou o cavalo e que a partir daí a minha vida foi a busca incessante de voltar a sentir a explosão.

Paula Tavares de Carvalho

P

minha laranja amarga e doce, meu poema, feito de gomos de saudade, minha pena, pesada e leve,
secreta e pura, minha passagem para o breve breve instante da loucura

Captura de ecrã 2020 09 25 190651

 

 

 

  

 

 

 

 

tema: LITERATURA POTENCIAL. No aniversário da morte de Italo Calvino, escritas oulipianas

 

1 – Técnicas Oulipianas a partir de um texto baseado em escritos de Italo Calvino

Texto base:
Os clássicos são livros dos quais se costuma ouvir: «Estou a reler» e nunca «Estou a ler». No entanto, toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta, como a primeira. Aliás, toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura. Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. São livros que trazem consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes). É clássico aquilo que tende a relegar a actualidades a ruído de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse ruído de fundo.

 

Textos criados na sessão:


...Clássico, seja...

Os ouvintes, oram, operam, olvidam o outro, o outrem.
Ouvindo o ontem ondulando outra, outra ouvida, orando onde oiçam oficialmente.
Ontem ouviu- se oiro
Ontem ouviste oiro
Ontem ouvi onde ouvir
Ontem ouvi como ouvir
Ontem, outrora o ocaso, outro olhar. Onde? Ontem.

Amanhã aprofundarei
Enquanto houver manhãs
Igrejas abertas sem cruz, sino só
Ouvirei sempre como novidade
Uivarei a essa Lua Nova que badalará de noite aquando do meu mergulho...
...Oceano...
L@dyBirdBel
TÉCNICA: TAUTOGRAMA em «o» e ABECEDÁRIO com vogais.

 


Clássicos são os lobisomens dos quais se costuma ouvir: «Estou a remendar-te» e nunca «Estou a libertar-te».
No entanto, todo o remendado por um clássico faz uma libertação de descoberta, como a primeira.
Aliás, toda a primeira visão de um clássico é um rebanho de remendos.
Um clássico é um lobisomem que nunca terminou de dominar aquilo que tinha para dominar.
São lobisomens que tricotam a marca dos lençóis em que nos deitamos e, atrás de si, olvidam as tragédias que deixaram no cunhado ou nos cunhados que atropelaram (ou então, deixaram marca, tão simplesmente, no linho ou no cotão).
Pedro Caeiro
TÉCNICA: S+6 E V+6 - substituir cada substantivo e verbo de um texto pelo sexto que o sucede no dicionário. ​

 


Clássicos são livros dos quais se costuma ouvir “estou a reler”
Ler uma só vez não é suficiente
Aliás, a releitura de um clássico é uma descoberta
Sempre fica a sensação que foi uma primeira leitura
Sempre uma primeira leitura é de facto uma releitura
Ironicamente são livros que nunca mais acabam de dizer o que tem para dizer
Como se trouxessem consigo as marcas das leituras que precederam a nossa
Onde se vislumbram os traços que deixaram nas culturas que atravessaram
Sem prescindir da actualidade, relegam-na para ruído de fundo
Helena Campos
TÉCNICA: ACRÓSTICO com a palavra «Clássicos»


Os livros são clássicos dos quais se costuma ouvir: «Estou a reler» e nunca «Estou a ler». No entanto, todo clássico de uma releitura é uma descoberta de leitura, como a primeira. Aliás, todo primeiro clássico de uma leitura é na releitura uma realidade. Um livro é um clássico que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. São marcas que trazem consigo os livros dos traços que precederam a nossa e atrás de si as leituras que deixaram nas culturas ou na cultura que atravessaram (ou mais simplesmente nos costumes ou na linguagem). É actualidade aquilo que tende a relegar o clássico a ruído de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse ruído de fundo.
Paula Carvalho
TÉCNICA: PERMUTAÇÃO - alterar a ordem dos substantivos do seguinte modo: o primeiro pelo segundo e vice-versa, o terceiro pelo quarto, etc.


Os clássicos são REUNIÕES DE CADERNOS MANUSCRITOS OU IMPRESSOS COSIDOS ORDENADAMENTE dos quais se costuma ouvir: «Estou a reler» e nunca «Estou a ler». No entanto, todo ACTO DE RELER um clássico é um ACTO DE LER de INVENTO, como O QUE NUMA CLASSE OU SÉRIE ESTÁ EM PRIMEIRO LUGAR. Aliás, todO primeirO ACTO DE LER de um clássico é na realidade um ACTO DE RELER. Um clássico é umA REUNIÃO DE CADERNOS MANUSCRITOS OU IMPRESSOS COSIDOS ORDENADAMENTE que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. São REUNIÕES DE CADERNOS MANUSCRITOS OU IMPRESSOS COSIDOS ORDENADAMENTE que trazem consigo OS CUNHOS dOs ACTO DE RELER que precederam O nossO e atrás de si os VESTÍGIOS que deixaram nO ESTUDO ou nOS ESTUDOS que atravessaram (ou mais simplesmente na EXPRESSÃO DOS PENSAMENTOS OU SENTIMENTOS POR PALAVRAS ou nos USOS). É clássico aquilo que tende a relegar a OCASIÃO PRESENTE a OSTENTAÇÃO de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir dessa OSTENTAÇÃO de fundo.
Paula Carvalho
TÉCNICA: DEFINIÇÕES - Substituir alguns termos pela sua definição de dicionário.
 

2 – Redefinições para as Seis Propostas Para o Próximo Milénio de Italo Calvino

Leveza: airosamente, nuvem, voadora, algodão, pairar, bailar, esperteza
Rapidez: estrada, morte, vida, alegria, motor, barulho, explosão
Exactidão: ferozmente, facto, verdade, real, prontidão, escrita, tranquilidade
Visibilidade: mar, terra, binóculos, guerra, importância, família, ilha
Multiplicidade: cidadania, respeito, interrogação liberdade, parafuso, cultura, camaradagem
Consistência: ferro, fogo, navio, avião, avô, laço, puré
Pedro Caeiro, L@dyBirdBeL

Deus livre a Literatura da exactidão
Para isso bastam as ciências exactas
Toda a arte é multiplicidade e leveza
Toda a arte torna presentes os invisíveis evidentes de que é feita a alma
Helena Campos


O livro tem de estar bem escrito, com muitas metáforas, tem de permitir visualizar o que se está a ler, tem de fazer sentir bem. E também um pouco de poesia, é libertador, não enfadonho. Também gosto da consistência, uma coerência no argumento, nas personagens, detalhes que não se perdem.
Leveza – fluidez, elegância narrativa, pormenores, picaresco, pictórico. As histórias-mosaico ou dimensionais com várias personagens a contar a mesma história na sua perspectiva (exemplos: Amor & Cia, Julian Barnes Quarteto de Alexandria, Lawrence Durrell).
Consistência – fio condutor excepção: o surrealismo
Paula Carvalho