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LABORATÓRIO DE TEXTOS

Esta é uma fresta por onde se pode espreitar o nosso laboratório.

Gostamos de experimentar textos, inventar espaços e condições especiais e neles deixarmo-nos espantar pelo que acontece.

Aqui, recolhemos algumas das linhas que vão sendo criadas em diferentes oficinas. Algumas delas, dirigidas a antigos alunos, como a Naftalina, são iniciativas regulares; outras, abertas a quem por cá passa, são encontros e iniciativas extra-aulas. Placas de Petri.

Os textos, produzidos no tempo e condições das sessões, têm como único — e suficiente — critério de publicação a vontade do seu autor de vê-los aqui reproduzidos. Experimente ler, mas proteja-se: o prazer da experiência pode ser contagiante.

nafta maqEscrev4maos

 

 

Nesta edição terminámos UM DIA DE CHUVA NUM CAFÉ e entrou banda sonora nos textos! 
Cada história tem cinco capítulos e a cada sessão, sorteamos quem escreve o próximo.

Resumos:

Na HISTÓRIA NOVA começa com a possibilidade de um engate. Mas o objecto de desejo acusa o amigo de se andar sempre a queixar da velha história das consequências de sair do armário. Ele recolhe-se, lembra-se dos caminhos que segui e da pessoa que custou deixar para trás. É despertado por uma voz que vem do passado. Espantado, vê o seu pai – incapaz de falar, ouve-o a convidá-lo para jantar, como se pai não tivesse sido a causa do seu afastamento, da perda da sua juventude.

O PROBLEMA é um homem às voltas numa rotunda e a abrir novos caminhos. A placa «abrigo de montanha» parece promissora. Vê uma 4L com que tinha sido sua, embora modificada. «Então, de novo aqui» pergunta alguém. O homem olha de novo para a 4L, não há dúvida que era a sua. Olha para o interlocutor. À sua frente está ele próprio, 35 anos mais novo. Aterrado, entra na cabana que em tempos conhecera. Tudo igual, até o aroma do café nas brasas da lareira. Em pânico pede explicações. O seu alter-ego leva-o para a mesa e o protagonista sente-se cansado e satisfeito ao mesmo tempo. O eu-memória dialoga com o eu-matéria e leva-o a sentir o bater de coração e anuncia que tem boas e más notícias.

Na história A MALA, Susana prepara-se para partir, põe a máscara e arrasta a mala. Na estação, o revisor diz-lhe que a protecção já não é necessária. Ela olha para a carruagem e finalmente percebeu – a sua mala estava cheia de máscaras, de todo o tipo, de todas as certificações. Mais um sinal do absurdo que a persegue. Decide rumar à Feira da Ladra. Na Feira fica fascinada com o cartaz que anuncia «Cadeados que não fecham: cuidado com as imitações, oh Casimiros.», decide encher a mala com os aloquetes, mas não sabe do sarilho que se está a meter com o Sr. Meira – o tal que abre a Feira da Malveira à quinta-feira.

A FOLGA INDESEJADA agora tem banda sonora! É a história de um dia da semana que tira folga com consequências em catadupa. Agora Sérgio Godinho está num dilema – o que vai acontecer ao tema da Feira da Ladra, às tantas da madrugada…? Entra a semanada e põe terça-feira em tribunal, o que desencadeia manobras burocráticas com entre a ACT, a Segurança Social e uma junta médica. A terça de Carnaval fez greve, a semanada embrenha-se em protestos, as quinzenas foram ultrapassadas pelos acontecimentos e os meses decidiram retirar-se de cena. O ano ficou mergulhado num caos. Em Itália, os meses solidarizam-se e cruzam os braços. Sérgio Godinho tem uma nova ideia: um festival da canção com temas que celebram os meses e as feiras. Ouvindo a banda sonora incluída na história, será que isto vai resultar?

 

HISTÓRIA NOVA III

Os olhos azuis do bonito desconhecido à minha frente mudavam de tom. Mais uns minutos e teria mais um engate bem-sucedido. O sorriso passava-lhe dos lábios pálidos para os olhos entrecerrados, os dedos musculosos já procuravam a minha pele. Só precisava do toque final.
- ´Tás a sempre a contar a mesma história.
- Hã? – este é o problema de focar a atenção. Perdes perspetiva dos perigos que te rodeiam. E este perigo particular falava demasiado alto, demasiado depressa, demasiado enérgico. A mão forte no meu braço, sinto o corpo girar, o que vejo não é o bonito desconhecido de olhos azuis e sorriso tímido à minha frente, o que vejo é o meu amigo Paulo a tentar manter-se em pé.
- Já ninguém te aguenta. Blábláblá, cresceste numa cidade pequena, blá, sair do armário, blá. Fugiste de casa porque se ficasses o teu pai te matava por seres maricas. Já sabemos, pá. Já sabemos. Blábláblá. Quantos anos é que tens agora? Trinta? Não achas que é altura de contares uma história nova?
Sim, pensei. Gostava de contar uma nova história, mas infelizmente estas histórias são sempre as mesmas, ainda que possam parecer diferentes. E depois era a minha história. Como queria ele que a história ficasse diferente de um dia para o outro? Fui-me sentar num canto da sala e numa rápida viagem pela memória percebi que todos os anos passados seriam sempre poucos e não deixavam nenhuma vontade de voltar. Nunca mais tinha sabido de ninguém, nem do que poderá ter acontecido depois de ter saído de casa naquela manhã em direção à escola, pelo caminho habitual, até ao cruzamento que à direita leva ao centro da vila e à esquerda ao resto do mundo. Nem hesitou quando voltou à esquerda, com a mesma naturalidade de quem faz esse caminho todos os dias. Só lamentava não se ter despedido de uma pessoa, mas sabia que não lhe poderia pedir que o seguisse. Sentiu uma mão, agora suave, a agarrar-lhe o braço e uma voz do passado a chamá-lo pelo nome.
- Olá, João, nem acredito que és tu! Como estás, filho?
Ficou pregado ao chão, imóvel, quase sem respirar, enquanto os olhos se enchiam de lágrimas e os lábios balbuciavam sons incoerentes. Não era possível, não podia estar a acontecer surgir à sua frente o ser que mais odiara e que o forçara a seguir um caminho tão distinto daquele que tinha planeado.
Com um gesto raivoso limpou o rosto e virou-se para se afastar. Mas o pai sacudiu-lhe a mão, num longo aperto, passou-lhe o braço à volta dos ombros, e abraçou-o com firmeza.
- Há quanto tempo, filho! Tenho sabido notícias tuas por amigos e pelas notícias de jornais da especialidade. Desde a morte da tua mãe que pouco saio, mas as pessoas vão-me contando. A Inês também pergunta por ti.
João continuava estático, sem conseguir articular uma frase coerente, uma frase que traduzisse toda a frustração, ódio e perda que o acompanharam durante os últimos anos. As palavras do pai caiam sobre ele em catadupa, afogando-o e sufocando-o.
Quem era este sujeito que fora a causa do seu afastamento, da perda da sua juventude e da sua inocência e que agora o olhava com tanta ternura? Não sabia se havia de rir ou de lhe dar um murro e mandá-lo para o outro lado do inferno donde fugira
- Anda, filho, vamos tomar a bebida, daqui a pouco já são horas de jantar e faço questão que jantes comigo. Temos tanta vida para contar e acho que já é tempo de saber porque partiste.

Patrícia Louro
Francisco Feio
Conceição Brito

 

O PROBLEMA IV

Nas últimas vezes tinha sido sempre assim. Por mais voltas que desse na rotunda, ia sempre acabar numa estrada nova, onde tinha de ir abrindo caminho à medida que ia avançando. Nem o Machado se lembraria desta, até porque no tempo dele creio que a rotunda ainda não tinha sido inventada e os caminhos de que falava eram mais de bosques e montanha. Estava perdido nestes pensamentos quando reparei na placa com uma seta de direção onde mal se liam as palavras “abrigo de montanha”. Por mais estranho que me parecesse a coincidência, coisa em que não acreditava, resolvi abrir caminho pela seta e tentar descobrir se o tal abrigo existia e o que me aguardava. Nem o facto de estar numa planície me afastou da ideia. Antes pelo contrário. Que faria um abrigo de montanha numa zona que era totalmente plana? Depois de andar 45 minutos no que penso ser uma linha reta, sem nada que aparecesse no horizonte, olho para trás para descobrir que a vista era exatamente igual. Olho de novo para a frente e lá estava. A menos de 50 metros erguia-se o abrigo, com um sinal luminoso a piscar onde se lia “abrigo de montanha”. Estacionada frente à porta, uma velha 4L dava um ar familiar à cena. A chaminé fumegava e na porta estava uma placa que dizia “aberto”. Olhei a matrícula e reconheci-a imediatamente: tinha sido minha. Mas não me lembro de ter aquelas cores todas. Foi então que uma voz se fez ouvir: “então? De novo aqui?”
Antes de responder, fitei longamente a minha - de certeza minha - 4L. As cores brilhantes não deixavam perceber que já fora verde e já se desfizera, em tempos, de encontro a um muro. As recordações acudiram em catadupa e desviei os olhos para o indivíduo que me fitava da porta e convidava a entrar. O tempo parou subitamente: perante mim estava eu próprio, 35 anos mais novo, tal como era na primeira vez em que, durante uma caminhada na montanha, me abriguei nesta mesma cabana para fugir a uma forte borrasca.
Antes de entrar olhei para trás e não avistei nada que não fosse o deserto a perder de vista e a estrada, por onde viera, que se descolava, com lentidão, para um horizonte invisível.
Com as pernas a tremer, cruzei a soleira da porta e olhei em volta. Estava tudo igual, a mesma mesa de tampo riscado, as cadeiras desirmanadas, meia dúzia de chávenas à espera do café que murmurava sobre as brasas da lareira. Parecia sentir-lhe ainda o gosto, amargo e reconfortante, naquele dia já esquecido, mas nunca perdido.
Olhei para o meu alter ego, que sorria tranquilamente, e numa voz enrouquecida pelo pânico, disse:
-Vais ter de me explicar o que se passa!
Fiquei pasmado, não sabia o que dizer e custava mexer-me. Então, o meu alter ego, quase como se fosse uma criança, pegou na minha mão e levou-me para a mesa. Lá sentado, fechei-me no meu mutismo. Mas as sensações que eu tinha, eram de cansaço e de satisfação ao mesmo tempo. O meu alter ego estava lá a espera de uma explicação que não vinha. Eu estava imerso nos meus pensamentos, era como no mundo das coisas de há tantos anos, como num poema de Guido Gozzano, numa evocação de um tempo que tinha voltado...
-Futuro eu, queres as boas ou as más notícias?, interrompeu-me o meu eu do passado, sem rugas, sem marcas de cansaço e noites mal dormidas debaixo dos olhos e do queixo. Não podia ver, claro, mas com um fígado intacto também.
-Por acaso, eu nem tenho fígado. Tu tens a matéria, eu tenho a memória. Olha – pegou-me na mão e não senti nada entre os dedos, uma força invisível controlava-me a mão, aproximou-a do coração, não, do lugar onde o coração devia estar, e não senti nada, nenhum movimento, nenhum rumor. Olhei sem perceber, a ousadia de usar palavras perdida entre as brasas da lareira.
– Queres sentir-me?, ofereceu.
- Sim.
- De certeza?
- Sim.
O meu eu passado, sem matéria, sorriu, um sorriso lavado pela luz, aproximou novamente a minha mão do coração, e senti o meu coração bater-lhe no peito, no meu peito, vi diante de mim o percurso do sangue, às voltas na rotunda, uma estrada nova, abrindo caminho pelas artérias de ida, passando por uma seta de direção quando mudava para as veias, “abrigo de montanha”, uma linha reta numa planície.
- Então, queres as boas ou as más notícias?

Francisco Feio
Conceição Brito
Giuseppa Giangrande
Patrícia Louro


A MALA IV

Olhava a mala fechada, junto à porta e revia mentalmente o seu conteúdo. Será que se tinha esquecido de alguma coisa? Agarrou na mala, meteu-a em cima da mesa que estava no meio da sala e quando a ia abrir, parou. Como se poderia ter esquecido de alguma coisa numa casa que estava vazia. Restava apenas a mesa, o sofá onde tinha dormido e aquela mala que continha o que restava do seu passado e seria o início do seu futuro.
Pela janela aberta chegou o som de uma buzina em três toques curtos; tinha chegado o transporte para o terminal ferroviário. Susana arrastou a mala pelas escadas até sair para a rua onde o motorista lhe estendia uma máscara que prontamente ajeitou a tapar o nariz e a boca, um gesto que tinha repetido à exaustão nos últimos anos.
Atravessava a cidade deserta e pensava que não havia razão para ter estado tanto tempo à espera do transporte. Na realidade, já nem se lembrava de o ter pedido ou o que estaria ali a fazer. Chegou ao terminal e arrastou de novo a mala pelo cais à procura da linha certa. O revisor olhou para ela enquanto lhe estendia o bilhete e disse: sabe que já não é necessário usar máscara, não sabe? Olhou atentamente para o homem, mas foi só quando olhou para o interior da carruagem que percebeu.
A Susana percebeu... percebeu... e tornou a perceber.
A sua preciosa mala só lá tinha dentro, imagine-se... máscaras não estava em crer. Percebeu.
Que absurdo! Percebeu.
Mas desde há quanto tempo eu sou perseguida por absurdos???
Não quero acreditar!!! Percebeu.
Tenho máscaras que vão desde certificadas a engraçadas, àquelas que só cheiram a higiene. Entendeu.
- Eu compreendo-a, disse-lhe gentilmente o revisor.
Decifrou-a. P'lo ar incrédulo que ela desmascarara.
- Já passou!!!
- ...Hmm... pergunta ela... e a Feira da Ladra ainda lá está?
- ...Sim...e desinfectada!!! Sorriu.
- ...Ok... resolvido: bilhete para Santa Apolónia!
Ao chegar a Santa Apolónia, Susana foi acolhida por uma atmosfera alegre, pensou que talvez os absurdos já tivessem acabado aquela perseguição de que já estava farta. Dirigiu os seus passos rumo à Feira da Ladra. Agora - como por encanto - nem sequer precisava de arrastar a mala, que se tinha tornado - era incrível, mas verdadeiro - muito leve, ou se calhar, era ela mais leve…
Lá, na Feira da Ladra, viu muitas pessoas como sempre nos dias de feira, não acreditava nos seus olhos… Agora queria livrar-se definitivamente daquela mala, símbolo dos absurdos que a perseguiam, pousou-a no chão e abriu-a: outro encanto…
da mala saíram borboletas de muitas cores e…
E, com as borboletas, Susana foi arrastada da Feira da Ladra para a Feira da Malveira que, espreitando e roubando alguma ideia à história da Folga Indesejada, que, como estarão recordados, provocou uma crise na rima de Sérgio Godinho que, diga-se, poderia ser substituída por
«É quinta-feira
Feira da Malveira
Abre hoje pela mão do Senhor Meira.»
Mas, como não quero estar aqui a estragar a história à colega que está a resolver o problema, Susana deu consigo na Malveira, onde para além das quinquilharias que se encontram na Feira da Ladra, oferece também uma atração única: a possibilidade de comprar cadeados que não fecham. Exatamente, são vendidos assim mesmo.
Há várias bancas que os vendem, todos certificados. Para o efeito, pediram, isto é, pagaram os direitos de autor (e novamente o Sérgio Godinho aparece para aqui aos trambolhões) e instalaram à entrada do recinto um cartaz que anuncia:
«Cadeados que não fecham: Cuidado com as imitações, oh Casimiros.»
Susana ficou fascinada com os aloquetes: tal como as máscaras, existiam de várias cores, tamanhos e especialidades.
Encheu a mala com todos os espécimes que encontrou e decidiu que passariam a ser o seu presente de Natal para todos os amigos, familiares, conhecidos e desconhecidos.
Não imaginava era o sarilho onde se estava a meter com o Senhor Meira, que para os distraídos é quem abre a Feira da Malveira.

Francisco Feio
Joana Dinis
Giuseppa Giangrande
Tiago Pina


FOLGA INDESEJADA IV

Era uma vez um dia da semana que decidiu tirar folga por tempo indeterminado. Não queria saber da feira da Ladra, nem do Carnaval, nem de qualquer outro acontecimento que tivesse de ser alterado para outro dia qualquer.
Entregou o pré-aviso à coordenadora dos dias, a Semanada, que ficou assim, como dizer, chateada com F mesmo grande.
- Trabalha de 6 em 6 dias e quer folga? E agora, o que é que eu faço?
Telefonou ao Sérgio Godinho e, depois de lhe dizer todas aquelas coisas que se dizem a uma figura conhecida “Gosto muito da sua música, dos seus livros, etc…” disse-lhe, muito desconsolada.
- Tem uma letra de uma música que terá de alterar, porque a dita cuja decidiu tirar folga e, por lei, não podemos nem sequer dizer ou cantar o seu nome.
Depois de descobrir a que palavra se referia a Semanada, Sérgio Godinho tentou reformular a tão badalada canção.
A rapariga podia continuar a ir vender mágoas ao desbarato que isso não fazia diferença nenhuma. Também podia ir vender o que quisesse que era para onde dormia melhor. Mas, e o início? Será que podia começar assim:
- É quinta-feira, feira de Carcavelos, abre hoje às cinco da madrugada? Não rima.
A semanada pensou melhor, chamou o advogado e pôs a terça-feira em Tribunal. A terça-feira chamou o Sindicato dos dias, meses, anos e períodos de tempo relativos e fizeram queixa na Autoridade para as Condições de Trabalho. A terça-feira meteu baixa na Segurança Social porque estava em burn-out, trabalhava desde a antiga Grécia e precisava de descansar. A semanada pediu à Segurança Social uma junta médica de verificação de incapacidades para retirar a baixa à terça-feira a fim de obrigál-a a regressar ao trabalho. A terça-feira pediu consulta de Medicina do Trabalho e meteu baixa não remunerada.
Entretanto, o Sérgio Godinho continuava sem saber o que fazer com a canção embora lhe passasse pela cabeça substituir simplesmente por “É dia de feira da ladra” na esperança de que o público se lembrasse de que dia se tratava.
A situação estava a arrastar-se há demasiado tempo e começava já a extravasar as feiras e a atingir outros sectores que atraem grande público. A terça-feira de carnaval resolveu fazer greve, muito ajudada pelas autoridades de saúde e mesmo o domingo de páscoa esteve até à última hora a dizer que não contassem com ele, apesar de no fim lhe ter faltado a coragem de levar a sua recusa por diante.
Por esta altura, já o Sérgio Godinho tinha desistido e estava agora a braços com a Etelvina, na esperança de que se a revolta chegasse aos nomes, este, pouco usado nos dias que correm, seria dos últimos a levantar problemas. O que ninguém esperava foi o que aconteceu de seguida. Estava mesmo a ver-se; a arraia-miúda revolta-se e não se sabe onde as coisas vão parar. Andava a semanada em protestos e reuniões de comités diversos e nem deu conta das movimentações acima na hierarquia. Sem aviso prévio, aí estavam os meses a protestar. As quinzenas, coitadas, animadas à espera do bom tempo e do fim do confinamento, nem tiveram tempo de se organizar. Numa manhã amena, o porta-voz dos meses falou às rádios e televisões: os meses estavam fartos de marcar o calendário e iam retirar-se de cena. O ano estava oficialmente mergulhado no caos.
Intervieram então novamente os dias da semana, querendo fazer raciocinar os meses em protesto. Não tinha nenhum sentido aquela revolta: o que ia acontecer agora? O perigo era grande: em outros países os meses tinham a firme intenção de começar uma greve… os primeiros a juntarem-se aos meses portugueses foram os italianos, que cruzaram os braços em sinal de solidariedade. Então ao Sérgio Godinho ocorreu uma ideia: organizar um festival da canção onde os protagonistas tinham de ser canções que celebravam os meses e as feiras. Convidou, por exemplo, o Riccardo Del Turco para que cantasse Luglio col bene che ti voglio, Angelo Branduardi tinha de intervir com Alla Fiera dell’ Est per due soldi... Será que os cantores conseguiriam fazer arrepiar caminho aos meses?

Tiago Pina
Helena Campos
Francisco Feio
Giuseppa Giangrande

 

UM DIA DE CHUVA, NUM CAFÉ (completo)

Uma vez - era um dia de chuva e não tinha comigo o meu guarda-chuva - entrei num café que me ofereceu abrigo. Sentei-me e depois de mandar vir um chá para aquecer-me um pouco, chamou-me a atenção uma mulher que estava sentada numa mesa, não muito longe de mim. Conseguia ouvir as suas palavras, enquanto ela estava a falar ao telemóvel. Ela, porém, falava numa língua desconhecida para mim; era um idioma que na voz daquela mulher tinha um som melodioso, embora tenha percebido que havia alguma tristeza nas suas palavras. Tentei interpretar os seus pensamentos e o que estava a dizer, estava como que encantada pelo mistério que parecia envolver aquela voz e aquelas palavras.
Pensei que poderia estar a separar-se de alguém (às vezes, separar-se é uma coisa triste) ou estar zangada ou simplesmente ser uma pessoa atreita a depressões. Fantasiava nestes pensamentos quando a mulher se levantou e, quando tirava a carteira para pagar, vi no interior da sua mala, uma pequena bandeira do País Basco.
Pensei para com os meus botões: o idioma deve ser o basco, a mulher deve ser de lá. E devia estar a falar com alguém também basco, ou pelo menos, que soubesse a língua.
Baptizei-a rapidamente como Sabina Arana, em homenagem ao pai fundador do nacionalismo basco, e quando ela saiu do café, decidi segui-la.
A rapariga saiu do café, continuou pela rua em direção ao mercado e virou na 1.ª à esquerda, para o Bairro dos Desgraçados, ou em linguagem inclusiva, o Bairro das Pessoas menos afortunadas pelas vicissitudes da vida que infelizmente sofreram.
- Isto não é bom.
O Bairro era assim conhecido por ser um sítio de negócios pouco claros, um território onde o número de identificação fiscal não era preciso e se pagava a dinheiro.
A Sabina Arana acenou a uma pessoa, que se dirigiu a ela e lhe entregou um dossiê que dizia «Como fazer uma bomba para mandar isto tudo pelos ares.»
Tu queres ver que tropecei numa etarra que quer reativar um comando qualquer?
É que este lugar, já por si, só lhe falta o cemitério, os prédios todos grafitados e com erva a brotar dos telhados, com o símbolo dos okupa escrito por todo o lado.
Começou-me a dar vontade de rir, é que há muito tempo atrás, fui roubada, na Galiza por um qualquer independentista que ficou na posse dos meus documentos.
Só a mim… passados praticamente 30 anos, em plena crise de meia-idade, deu-me para ter o look dessa altura…pensei…algo que não ficou bem resolvido, não há coincidências…
Vamos lá a ver o que é que eu faço aqui…
Refugiei-me, comprei uma boina basca, em tudo semelhante à dos independentistas Galegos.
Verifiquei-me de meias vermelhas.
Independência para mim própria, tentei brincar comigo
Estava numa situação muito marada, que surtia em mim uma explosão de emoções e balancés. Gostava.
Assumi EUSKADI, não me vou disfarçar daqui.
Liberdade é liberdade saberei sair enquanto tal de tudo e de todos.
Dei com a porta onde ela entrou, quem eu perseguia, a tal Sabina Arana, pediram-me a senha para entrar arrisquei: KORTATU (grupo de música Punk intervencionista), em cheio, entrei.
Lá estava eu… assisti à divulgação, com todos reunidos, do dossier.
Senti fogo no estômago, estava assustada, confesso.
Estava disfarçada de mim de há 30 anos atrás, a qualquer pretexto contar-lhes-ia a minha aventura na Galiza, aquando da boleia de Bilbao para Vigo. Quando fui roubada, talvez se lembrassem de mim.
Portanto, para o bem e para o mal já fazia parte pensei: Sai enquanto estiveres a ganhar…
O número fiscal, como já disse não interessa e eu estava de facto cheia de dinheiro.
- E tu, qual é a tua especialidade?, não vejas como, as meias e a boina ensinaram-me basco, e percebo tudo. O problema é que perdida nas minhas fantasias, não me dei conta das especialidades já reclamadas. Estava numa enrascada, arrisquei
- Marketing e relações internacionais, que foi recebido coletivamente com aprovação, uns quantos sussurros de incredulidade e olhares de admiração, e um grande revirar de olhos do corpulento tipo que dirigia a reunião.
- Estas modernices que me mandam agora. Então, não há aqui ninguém que saiba montar bombas? Estes jovens…, palavras que lançaram uma nuvem sobre o ambiente que se tinha relaxado. Ao fundo alguém levanta uma mão, timidamente
- Eu sei fazer explosivos, mas bombas não. Explosivos em carros, disseram-me que era para isso. Agora são bombas para quê?, o tipo que dirigia a reunião revirou ainda mais os olhos,
- Fazer explosivos, fazer bombas, são sinónimos…, interrompido imediatamente pelo da mão tímida
- Não são nada sinónimos, e a precisão é importante, crucial. Sobretudo quando se trabalha com explosivos.
O tipo que dirigia a reunião via-se que tinha o pavio curto, e que estava a chegar quase ao fim. Perguntei-me se explodiria como uma bomba ou como um carro atestado de explosivos.
Quando recuperei os sentidos, estava encostada a uns caixotes do lixo e tinha vista para o que sobrava do barracão que era agora uma pilha de madeiras queimadas e ferros retorcidos.
De início ainda pensei que fosse a polícia, o exército ou um grupo rival. Aos poucos veio-me a imagem do rapaz que afinal sabia tanto de explosivos e de bombas como eu e todos os outros. Estavam todos amontoados em torno da mesa, concentrados a seguir com o olhar e a respiração suspensa os gestos do rapaz que ia manipulando explosivos, pregos, porcas e parafusos para servirem de estilhaços, detonadores e baterias com o à-vontade de quem não faz a mínima ideia do que está a fazer.
Eu estava atrás do chefe corpulento, dobrado sobre a mesa e já tinha desistido de estar em bicos dos pés para tentar seguir a coreografia. Alguém disse um palavrão num basco tão basco que não consegui entender. Também ninguém deve ter entendido. A violência do sopro e o que sobrava do chefe fizeram-me atravessar a parede.
A chuva caía, a boina tinha voado e o resto da minha roupa também era agora vermelha. Um abrigo e um chá quente era só o que precisava. E de dormir.

Giuseppa Giangrande
Tiago Pina
Joana Dinis
Patrícia Louro
Francisco Feito


O SENHOR BELO completo

Há muito tempo atrás, houve um adjetivo que deixou de adjetivar.
Até esse dia, o senhor Belo sempre cumprira a sua função, respeitando sempre a sua ordem nas frases, não se baralhando com o género e o número e respeitando escrupulosamente os graus em que deveria aparecer.
Nunca ninguém tinha apresentado qualquer reclamação, nem feito queixa à entidade superior que mandava nos adjetivos. O senhor Belo não mostrava sinais de estar doente, de ter dificuldades financeiras nem de passar por alguma crise de amores.
Foi por isso com alguma estranheza que, quando se começou a perceber tal omissão, os outros adjetivos começaram, em surdina, a comentar:
- Agora, o Belo não adjetiva?
- O que é que se passou?
Começavam a surgir relatos de pessoas que se diziam muito incomodadas:
- Ontem, abri a janela, estava um sol magnífico e disse para os meus botões: Que ____ dia! mas surgiu uma voz que disse: Lamentamos, mas o adjetivo em causa não está disponível. Tente outro!
Os mais tolerantes ainda aceitavam a sugestão e procuravam um sinónimo, mas e os teimosos? Teimavam, insistiam e vociferavam:
- Tentar outro??? Eu quero o ____ e mais nenhum.
O Sr. Barata, que era vizinho do Sr. Belo, ouviu os acesos protestos e resolveu intervir. Tinha regressado há pouco tempo do Brasil, onde vivera 40 anos, e ainda não tinha decidido como ocupar a reforma. Teve uma ideia brilhante: foi falar com a sábia entidade superior que manda nos adjectivos e apresentou uma proposta. Ele, Barata, passaria a substituir o Sr. Belo nas frases de júbilo ou encanto, na sua versão masculina. Por exemplo: «que-----passeio!» passava a ser «que barato este passeio!»; ou «que barato foi este filme» em vez de «que ----filme».
A entidade superior que manda nos adjectivos, chamada Diccionário Final e Total da Língua Portuguesa, respondeu que Portugal não era o Brasil e que barato não significava necessariamente ----- no nosso País. E indeferiu a proposta, por unanimidade e com aclamação.
No outro extremo da rua vivia a Sra. Xenófoba, a quem agradou esta decisão. Viu a sua oportunidade e, movendo-se, sem alarde mas com firmeza…
… propôs ser ela a que poderia substituir o Senhor___. Lamentavelmente, a proposta da Senhora Xenófoba encontrou o favor de muitos, tinha chegado uma época na qual os vários Senhores e Senhoras Xenófobos tinham terreno fértil para deixar propagar as suas ideias, sobre tudo entre pessoas muito ignorantes que eram partidárias do mote “orgulhosamente sós”. Mas, a um primeiro momento de euforia- parecia ter chegado o adjetivo certo para o papel de___. A pós um breve tempo, seguiu o desconforto e surgiu o medo, porque a Senhora Xenófoba e os amigos dela semeavam o terror entre os que, pouco a pouco, se opunham aos seus ditames.
Organizou-se, então, na clandestinidade, um movimento de oposição e protesto que…
… que se movia nos túneis liderado pelo sr. º Belo que, desgostoso com este novo estado das coisas, decidiu agir.
Para tal, o silêncio era indispensável. Já não sabia em quem podia confiar; os amigos de antigamente estavam a ter problemas com os “Xenofobianos”; por exemplo, o Desengonçado tinha sido preso, veio a saber-se depois, denunciado pelo Enjoado.
A senhora Xenófoba, desconfiada de tudo e de todos, pagava alvíssaras a quem relatasse alguma atividade suspeita.
Uma noite, o Delator, encontrou-se com ela e disse:
- Corre por aí que o Belo lidera um movimento contra si. Nunca mais ninguém o viu.
Desgostosa com a falta de respeito do senhor Belo pela nova ordem dos acontecimentos, encetou uma caça ao adjetivo que recebeu o nome de código “Operação Chega de Beleza”. Espalhou cartazes pelas paredes, montou vigilâncias, tentou fazer de tudo o que era possível para encontrar o senhor Belo, mas a procura não deu em nada.
Este, sabendo das movimentações que faziam para o apanhar, decidiu fugir. Com os contactos feitos no submundo dos túneis, conseguiu disfarçar-se e, depois de longos dias sem ver ninguém a calcorrear cimento sujo, percebeu que tinha chegado a outro país, quando o primeiro adjetivo que o viu lhe disse:
- Ça va bien?
Saído de uma vida de túneis e esconderijos, sobressaltos de coração e sofrimentos feios, o senhor Belo ficou deveras surpreendido por passar por vilas e aldeias que lhe pareciam cenários bem pintados com canteiros coloridos junto às portas, nas janelas e em muitos jardins. E que dizer de tantos monumentos geniais? A travessia alindou-lhe as memórias que bem precisavam de um novo fôlego.
O senhor Belo viveu uma vida regalada mais pelo ânimo e disciplina pessoal do que por bens materiais, muito pela esperança que lhe inspirava este país de liberdade e livre expressão. E pelo apreço dos que admiravam a sua coragem e ousadia, mais a bela família que a ele se reuniu. Pois a beleza era sem dúvida rainha naquele país encantado com a criação a todos os níveis. Ele era o beau tableau, a belle robe, o beau temps... até nas famílias este adjetivo reinava pimpão: a belle fille, o beau frère, a belle mère... Sem interditos, censuras, mortes, nem exílios forçados.
Esta história teria tido um final feliz e belamente perfeito não fossem os desenvolvimentos num partido chefiado agora por uma senhora de imagem ariana que lhe trouxe à memória intolerâncias antigas com trajes modernos e uma mão cheia de novas problemáticas. Ainda pensou em militar contra tais infâmias, mas sentiu que o seu papel era pôr a sua pedrinha diária de esforço no seu querido e saudoso Portugal.

Tiago Pina
Conceição Brito
Giuseppa Giangrande
Tiago Pina
Lídia Vieira

O CAMPO DE PAPOILAS (completo)

Os dois queriam ter uma nova vida, fugir da monotonia daqueles dias tão sombrios. Deixaram a cidade trazendo consigo, no coração, muitas e grandes esperanças. Não tinha sido fácil abandonar o seu lugar, mas agora aquela que era a sua velha vida ficou para trás deles.
O único desejo deles era ter a liberdade, livrar-se das obrigações que a sociedade lhes impunha.
O caminho tinha sido longo, finalmente chegaram a um lugar que parecia mágico: um campo enorme, cheio de papoilas apareceu aos olhos deles. Havia no ar uma ligeira brisa que acariciava o verde do campo e as flores vermelhas, que pareciam dançar ao ritmo daquele vento suave. Do campo exalava- se um perfume, trazido pelas papoilas que ondulavam no verde do prado…
Do quase nada apeteceu-lhes andar de comboio...
Do céu e de repente, muitas, muitas nuvens, quase tantas como papoilas; sofregamente, a chuva cai por sobre os lagos, por sobre as estufas, por sobre as papoilas, por sobre tantos e tantos cheiros que de uma só vez parece que se soltam e se desnorteiam...estavam em todo o lado... E eles sorriam.
Um relâmpago, a seguir outro...agora o trovão 1,2,3,4,5,6,7 BARRUUUUMMMM, ouve-se o comboio, uhh,uhh pouca terra, muita água, BARRRRUM, cada vez mais perto: 1,2 e 3 Ai ai!! Passa o combóio que só passa, não vai parar: " A seguir vem o próximo disse logo o maquinista desabafando para a máscara da farda, acenando para os pintos calçudos.
E as papoilas...essas dançavam e choravam: Tanta alegria, quanta liberdade desde que se com paciência se vai da sente à flor... Papoilas vermelhas, sem dor.
Água da cor do breu, aquele que aprendeu a brilhar. Chuva teimosa. Mora no céu, n sua casa são as nuvens e de vez em quando vem ver debaixo o nosso mesmo céu.
- Vamos para casa...não achas?
- Sim...
E sorriem.
O comboio abrandou e quase parou na curva apertada, mais à frente, mas não o tentaram alcançar, e foram caminhando ao longo dos carris, sem pressa.
Ainda não tinham andado umas centenas de metros quando lhes pareceu ouvir um ruído que se assemelhava ao miar dos gatos. Gatos aqui? Na débil luz do fim do dia conseguiram distinguir a origem do barulho: uma trouxa de roupa, que se agitava enérgica e sonoramente. Com cuidado foram afastando panos e, com grande espanto e horror, descobriram que cobriam um bebé. Sem saberem o que fazer com a criatura, pegaram-lhe ao colo para ver se trazia alguma identificação. Absolutamente nada, mas estava agasalhado e limpo, e era tão pequenino que ainda tinha restos do cordão umbilical no seu pequeno ventre. Os jovens olharam um para o outro:
- acho que foi alguém que o atirou do comboio ali na curva - disse um.
- que vamos fazer? Ainda pensam que o roubámos! – assustou-se o outro.
- tenho uma ideia, vê lá se concordas…
Ele viajara muito para lá chegar. Do Arizona, de avião e com uma escala em Nova Iorque, fizera o percurso até Paris, e, da capital francesa tomara o comboio mais lento que encontrou para chegar ao local desejado. Os seus olhos raramente se despregaram da janela da carruagem onde viajou. Só uma vez se despediu de uma senhora grisalha com olhos muito azuis, gordinha e de roupas garridas e malas antiquadas. Era exatamente como a memória muito distante que trazia da avó paterna, sorridente e firme.
Fora o pai a convencê-lo a fazer a viagem, para construir memórias, como agora se usa. A viagem Paris-Lille pareceu-lhe curta comparada com as distâncias largas que enfrentava nos Estados Unidos, só para ir veranear num rio. E, finalmente, o maquinista fez uma frenagem suave e o comboio, cheirando a novo, estacou convidativo. A mala apertada nos dedos, a mochila endireitada, e, eis que ele saltou deste século, em busca de sinais de um episódio de há mais de cem anos. Decidiu sentir ele próprio parte do peso suportado pelo seu antepassado e com a bagagem, que de bélica só tinha um conjunto de navalhas suíças e a faca com que fizera as sandes do percurso a pé, pausou para merendar antes de empreender caminho até às colinas disformes de Mesen, nesta estação cobertas de papoilas.
- E se esta for a oportunidade que falávamos?
- Como assim?
- Este bebé pode ser nosso e começarmos aqui, no meio das papoilas, a nova etapa das nossas vidas. Repara, ninguém nos conhece, construímos a nossa família.
Sorriram. Ironicamente, talvez aquele bebé recém-nascido lhes pudesse dar um novo rumo.
Indiferentes à chuva, foram para casa e, no campo de papoilas, começaram o segundo capítulo das suas vidas.
O construtor de memórias avançava em direção à Flandres, pouco convencido da história que os seus pais lhe contavam quando era pequeno.
Fora ali, numa dessas curvas que fora atirado, há uns anos atrás, da janela de um comboio.

Giuseppa Giangrande
Joana Dinis
Conceição Brito
Lídia Vieira
Tiago Pina

O REGRESSO (completo)

Tudo estava diferente desde que partira depois dos motins que assolaram a cidade naquele que seria o último verão da sua juventude. Não que houvesse uma data certa para a entrada na vida adulta, mas tudo o que acontecera nesses meses acabou por ser uma barreira que separa um antes e um depois. Um marco temporal gravado não só na memória, mas igualmente no corpo. Bruno está agora diante da frondosa árvore onde ainda estão visíveis, se bem que esbatidas pelo tempo, as marcas do violento embate da sua carrinha contra aquele tronco gigantesco, um ícone turístico local que refere serem necessários 12 homens para o abraçar. Fecha os olhos e fica à escuta. O som das sirenes é agora distante e a luz do dia esbateu as luzes azuis e vermelhas que ainda viu a bailar na noite antes de perder os sentidos.
Bruno está agora diante da casa que o viu nascer. Não tem nada a ver com a lembrança que tinha dela. Parece-lhe muito maior, o que é estranho pois com a idade os espaços vão-se tornando mais pequenos. Limpou os óculos calmamente e percebeu que afinal já não era a sua casa. Era uma construção que nada tinha a ver com a que tinha conhecido. Bruno, disse uma voz hesitante atrás dele. Voltou-se e disse que sim.
- Há quanto tempo!!! – exclamou a voz hesitante.
Bruno reconheceu-o pela mancha branca das pestanas.
- Inocêncio, o que é feito de ti, rapaz?
- Olha, cá vou andando. Isto está difícil.
Bruno olhou para Inocêncio com mais atenção e viu que, de facto, as coisas estavam espinhosas. O ar acabado, as calças rotas, os sapatos sem atacadores eram a prova dos espinhos que, por vezes, nos atravessam a vida. Na mão trazia um saco de plástico com qualquer coisa volumosa no interior.
- Estás a ver a tua antiga casa? Agora é uma loja de velharias.
- Pois, é o que estou a ver.
- Olha, não me queres comprar isto?
De dentro do saco tirou um candeeiro com ar de quem pertenceu ao cenário da Vila Faia ou que repousava na secretária de Duarte e Companhia.
- Precisava de vender isto, para ter algum para comer. Desde que fiquei sem trabalho que…
Bruno ficou sem reação. Inocêncio apercebeu-se e disse-lhe:
- Tu ainda tiveste sorte. Foste contra a bisarma, mas recebeste a indemnização da Câmara. Eu…
De facto, apesar de culpado do acidente, Bruno ainda conseguira processar o Estado porque a árvore já deveria ter sido deitada abaixo, apesar de atração local. O advogado de Bruno, Doutor Campos da Moita, senhor muito reconhecido na praça, lá desencantara o ofício que mandava a dita cuja para o maneta, de modo que Bruno ainda tinha alguns euros para se valer.
Inocêncio, num passe de magia, pegou no candeeiro, atirou-o contra a cabeça de Bruno e surripiou-lhe a carteira, onde algumas notas estavam alinhadas por ordem crescente.
Fugiu com elas, deixando Bruno no chão a ouvir novamente as sirenes que o vinham acudir.
E foi uma longa e dolorosa sessão de déjà vue: os carros de polícia a parar com um grito dos pneus no asfalto quente, os vultos fardados a correr na sua direcção, uma mão a tactear-lhe a cabeça «dói aqui?, dói aqui?». Doía em toda a parte, mas desta vez não desmaiou, apenas fechou os olhos para afastar o brilho insuportável do sol e esconder a sua não menos insuportável humilhação.
Que estúpido! O leopardo não muda as suas malhas e o Inocêncio, ladrãozeco recorrente, também não mudara as dele. Como pudera esquecer-se? O Inocência até cumprira pena por furto, mas não aprendia, voltava sempre ao seu mester preferido de apropriação de bens alheios. As vítimas já lhe conheciam o modus operandi e nem se davam ao trabalho de apresentar queixa: iam à sua procura, davam-lhe uma carga de pancada, recuperavam o que ainda podiam e, não podendo, lá lhe partiam uns dentes ou uns dedos, abriam-lhe uns lanhos na cabeça para ele não repetir a avaria.
Enquanto esperavam a ambulância, Bruno conseguiu, finalmente, abrir o olho que não estava magoado, e viu, com alívio, a sua carteira no chão, mesmo ali ao lado. Pegou-lhe e abriu-a com mãos trémulas de antecipação. Ainda lá estava a carta! Involuntariamente levou o envelope aos lábios e murmurou «obrigado, obrigado, graças a Deus».
Aquela carta era a razão por que voltara a esta terra do inferno, onde jurara nunca mais pôr os pés. Iria procurar quem a escrevera e, finalmente, tentar reconciliar-se com o passado.
O pingo de sangue caía em câmara lenta queixo abaixo, e Bruno, aliviado pela posse da carta, distraído pela espera, perguntou-se se ficaria com uma cicatriz na sobrancelha. Uma cicatriz-convite para começar uma conversa. Para chamar a atenção de um olhar de 2 a 4 metros. A dor não era desconhecida para Bruno, não desde o acidente, um zumbido permanente em dias de chuva no nariz. Quem não o conhecia confundia-o com um cocainómano nesses dias de chuva, em mais de um dia de chuva tinha acabado num cubículo estreito pelas razões erradas, saindo de rabo entre as pernas. Não era que não gostasse de drogas, sorriu, acariciou a carta, era mais que a sua droga de eleição não era a branquinha. Não, a sua droga do coração, graças ao acidente, era uma combinação de endorfinas e dopamina, e exigia-lhe mais esforço e envolvimento pessoal que tapar uma narina e respirar forte pela outra. Exigia-lhe chamar a atenção de um olhar, a palavra ou o gesto certo, saliva, suor e sémen.
As luzes vermelhas e azuis da ambulância cegaram-no, viu a árvore ao longe, doze homens para a abraçar, imaginava-os de tronco nu, os músculos perfilados contra o tronco, ouviu as palavras ofendidas dele outra vez antes de saltar da carrinha em movimento, o pé forte no acelerador, as lágrimas quentes a caírem em câmara lenta queixo abaixo, a árvore já ali.
Conseguiu fugir e finalmente abriu a carta. Não tinha nada dentro. Apenas um papel amarelecido pelo tempo com os vestígios indecifráveis da caligrafia de alguém. Agendou uma consulta de psicanálise para largar o passado no divã, a árvore, os acidentes, o amigo ladrão, as drogas e tudo o mais. Que o passado ficasse como aquele papel, um passado indiferente em tons esbatidos e impossíveis de ler.

Francisco Feio
Tiago Pina
Conceição Brito
Patrícia Louro
Helena Campos

O TÚNEL DE CAMARATE (completo)

Sem fazerem barulho, a lembrar os raides noturnos que faziam juntos, dirigiram-se para as traseiras do restaurante em direção ao túnel, que os livraria da multa por violação de todas as regras do dever de confinamento, não fosse dar-se o caso deste ser um túnel de escoamento de água que ia desaguar a um ribeiro.
Uma vez lá dentro, e como havia uma forte corrente de água a entrar, Zé Massano e Mário Antunes olharam um para o outro e o juramento que fizeram há muitos anos, ecoou nas paredes curvas do túnel:
- Ninguém fica para trás!
Esta promessa poderia fazer sentido no mato, agora ali em Camarate, no meio de um túnel que não se via a saída?
Zé Massano pegou no canivete que tinha no bolso, olhou para o companheiro de armas e…
Os dois avançaram no túnel.
O Zé pegara no canivete para que lhes desse sorte, como já tinha sido há muitos anos no mato. Quem sabe se também ali eles precisarem do canivete para combater contra feras verdadeiras ou imaginárias? O Zé e o Mário na realidade tinham de combater contra a corrente de água que continuava a subir e a encher. Os dois amigos olharam um para o outro: parecia impossível escapar aquela corrente que no final os submergiu e os arrastou.
Perderam os sentidos, mas tiveram a sorte do seu lado: a corrente livrou-os da escuridão e estreiteza do túnel e devolveu-os à luz, à normalidade tão desejada no tempo do confinamento.
Ampararam-se um no outro e saíram do ribeiro. Ou melhor, da água que aquilo de ribeiro tinha muito pouco. Eram duas fracas figuras que se sentavam agora na margem do corredor de água, cobertos de limos e outras coisas bem menos higiénicas. Mário, olhando para o companheiro a tentar, sem sucesso, recompor a sua imagem, não conseguiu domar uma alta gargalhada.
“Estás a rir-te de quê, oh artista? Deves pensar que estás com melhor ar que eu!” – disse Zé Massano furioso.
“Estou de rir-me de nós. Dois velhos viúvos, que combateram na guerra, que sobreviveram a sei lá mais o quê, não conseguiram ficar em casa dois ou três dias nesta altura de doidos sem se encontrarem para beber um copito. E agora andaram a rastejar dentro de um esgoto para não terem de ouvir um ralhete da polícia e desembolsar umas dezenas de Euros. Diz-me tu se não é para rir…”
Zé Massano não se deixou levar pela súbita boa disposição do companheiro e alargou o seu queixume:
“Pois eu não acho graça nenhuma, até porque o pior ainda está para chegar.” Dada a surpresa de Mário, lá decidiu explicar que tinha dito à filha, com quem vivia, que ia só à Farmácia porque se lhe tinham acabado os comprimidos para a tensão. “Como é que lhe explico agora aparecer neste estado?”.
Mário esboçou um sorriso e disse com calma: “Fácil, escuta com atenção...”
- Dizes à tua filha que apanhaste uma molha. Estava ou não estava a chover torrencialmente quando chegamos ao restaurante?
- É verdade, estava.
Tinham desaguado em parte incerta, os pés a enterrarem-se em lamas e limos. Era uma zona baldia, florestada que se estendia à frente deles. Deambularam livremente a respirar o ar sem ameaças de vírus, sem obrigações de máscaras e álcool até que avistaram sob uma árvore frondosa de vastos galhos pendentes, os olhos vítreos de um cadáver que ali jazia. Era de um rapaz novo, e ainda estava bastante inteiro. Aqueles olhos, o cheiro a esgoto, a morte também cheirava a esgoto não no princípio, uns dias depois, mas este cheiro não era do cadáver, era deles, só deles, "ninguém fica para trás"... Zé Massano ouviu a mina a explodir outra vez, apertou o canivete, os nós dos dedos brancos e doridos. Gritos, pedaços de carne a semear a terra vermelha e sedenta. Não conseguia respirar, e agora não era por causa da máscara. Eram esses olhos, sempre os olhos, silenciosos, doloridos, mortos. Quietos.
Mário ria-se, ria-se, ria-se, ria cada vez mais, as palavras tão presas no peito, que nem as gargalhadas as conseguiam libertar.
Era de um rapaz novo, e ainda bastante inteiro, como eles antes da guerra.

Tiago Pina
Giuseppa Giangrande
Francisco Semedo
Helena Campos
Patrícia Louro


«THAT'S ALL FOLKS» (completo)

«That’s all folks!», repetia entredentes, enquanto esperava atrás da porta. Não lhe arrancariam nem mais uma palavra. Não é que tivesse alergia às palavras, ou suspeitasse da sua inutilidade. Aos seus olhos era mais simples: tinha uma vida inteira de palavras a falar por si, uma vida inteira de ações a substanciar essas palavras. Eram muitas palavras, ditas, repetidas, demasiadas vezes, demasiado o mesmo. Agora acumulava-se-lhe nos ossos o cansaço, uma certeza cimentada pelo cansaço, pela repetição das mesmas perguntas, pela procura incessante das respostas certas que parassem as perguntas. Ou de respostas que mudassem as perguntas. Se alguém quisesse saber porquê, só tinha de percorrer para trás o caminho que tinha trazido os seus saltos altos até aqui, a esta porta.
«That’s all folks!», a mão suada e trémula rodou a maçaneta e saiu.
O sol que brilhava lá fora contrastou dolorosamente nos seus olhos com a escuridão de onde saia. Quando os conseguiu abrir viu o jardim. O mesmo jardim que em criança tinha visto pela primeira vez no dia em que, a custo de uns joelhos esfolados, subiu a árvore para o espreitar por cima do alto muro. Parecera-lhe encantado como nas histórias, falsas, que lhe liam. As sebes cortadas com uma precisão microscópica, o cheiro quente das flores e a grande fonte no meio. Hoje tudo estava assustadoramente igual, mas o encanto esse tinha abandonado aquelas partes há muito tempo. Durante anos pensou como seria estar ali e agora só lhe faltava um passo. Deu-o. A ausência de sentimentos desiludiu-a. Continuou a andar até chegar à fonte e parou em frente dela. Olhou para cima e, por um instante, viu-o, criança, lá em cima outra vez. Como naquele dia em que ele lhe falou, do cimo da fonte para o cimo da árvore. Fechou os olhos e sacudiu a angústia.
“Estão prontos para a receber!” ouviu do outro lado do jardim. «That’s all folks!» sibilou baixinho. De uma maneira ou de outra, hoje tudo acabava.
Mas não era assim: naquele dia nada acabava. A história dela seguia, continuava graças a água da fonte que a lavou, a livrou de todas as angústias.
Voltaram os sentimentos e ela voltou a vê-lo, ali no cimo da árvore. Fechou os olhos e chegou à altura dele. Não sentia cansaço, apenas alegria; parou à frente dele. O seu coração começou a bater quando pensou: será que ele me vai dar respostas que mudem as perguntas? Respostas certas? Vão deixar as palavras de falar por si? Mas ele só disse que nada para ela acabava, teriam de falar para ela ter as certezas de precisava.
Dirigiu-se aos advogados que a esperavam para finalmente poderem ler o testamento do seu Pai. Eram três senhores engravatados com ar altivo. Sentou-se calmamente ainda com a imagem dele no cimo da árvore e à medida que iam lendo o que o Pai decidira, ia-se formando uma ideia - cada vez mais clara - que este seria o início e o fim de tudo o que a atormentava há tanto tempo.
"That's all folks!", ressoava no seu peito.
A voz monocórdica de um deles dizia que o Pai tinha uma fortuna avaliada num milhão de Euros.
Estremeceu.
Um milhão de euros resolvia tudo. Não haveria mais perguntas nem mais respostas. Um milhão de euros era a resposta. Não há nada no mundo que o dinheiro não resolva. E quando transportou pelo jardim a pasta milionária, ele já não estava lá.


Patrícia Louro
Francisco Semedo
Giuseppa Giangrande
Mariana Matias
Helena Campos


MINIATURAS (completo)

Para maior cidade do universo, era demasiado pequena. Já era a terceira vez esta semana que se cruzava com as mesmas pessoas a caminho do emprego. É verdade que era sempre em sítios diferentes do percurso, mas eram sempre as mesmas pessoas e sempre na mesma sequência. O mais estranho de tudo é que as conhecia a todas, de vista, mas de cidades diferentes onde tinha vivido em momentos dispersos da sua vida. Tinha mudado para aqui havia 2 anos e não estava arrependido de ter aceitado a oferta de emprego que lhe tinha aparecido, um pouco do nada, mas no momento certo. Foi num impulso que aceitou e só pensou na decisão que tinha tomado no dia seguinte, enquanto atravessava os ares a caminho da que viria a ser, ainda não o sabia, a última cidade que iria conhecer. Para trás deixava uma vida sem grande história, ou com história nenhuma, já que tudo o que tinha de importante lhe coube numa pequena mala que jazia agora no porão do avião onde seguia. Nem telefonou ao patrão a dizer que não voltava; talvez o fizesse depois de chegar.
A manhã estava luminosa, a temperatura tinha subido e atravessava a cidade a passo não muito rápido, mas decidido. Foi quando chegou ao cruzamento e parou à espera da mudança do semáforo, que o dia ia irremediavelmente mudar. Olhou em frente e lá estava.
Lá estava ela. Nunca teria imaginado que iria vê-la novamente.
De algum modo, tinha ficado nas suas lembranças, talvez mais do que qualquer outra pessoa de todas as cidades onde tinha vivido.
O aspeto mais estranho desse encontro imprevisto e inesperado era que ela tinha significado algo na sua vida sem histórias, ou melhor, naquela vida que acreditava ser sem histórias.
Não falaram, apenas olharam um para outro: naquele momento, teve a certeza de que a sua vida, de repente, tinha mudado e para sempre.
Tomou uma decisão: ia ficar, não sabia porquê, mas tinha essa certeza.
Ia ficar porque agora era o seu coração que lhe dizia isso: volta atrás e fica.
Depois de refrear o impulso de andarilho, pensou em todas as qualidades deste lugar. Trânsito ordenado, ruas limpas, parques de quebrar de cansaço quaisquer pernas. E abraçou esta última ideia. Resolveu pôr-se em forma e foi correr diariamente, depois do trabalho, para a mancha verde em frente ao seu apartamento de varanda envidraçada. E rematava o exercício com uma caminhada lenta e ritmada, exatamente no sentido que a vira percorrer.
Passaram-se os meses e a sua balança já lhe sorria alegremente. Um peso conforme à moda e um mar de possibilidades para a saúde e para um vestuário atraente. Mas dela, nem sinais. Praguejava fortemente, amaldiçoando o seu acanhamento. Acrescentou um passatempo à sua vida. Ingressou numa turma de olaria e depressa se sentiu em casa, de tal modo o cheiro do barro lhe lembrava a terra onde plantava legumes e batatas com o seu avô. Em breve a prateleira superior da estante maior ficou apinhada de troféus multiformes.
Quando as obras de louça já chegavam perto do fogão, pensou que talvez já fosse hora de se iniciar na cozinha, que, pelo menos, gerava obras perecíveis e comestíveis. Tão bem-sucedido foi que, em ano e meio, já se preparava para se aventurar numa escola de Cordons Bleus. Mas Matilde tardava em dar sinais de vida e ele não queria desprender-se de mais uma cidade que implicava agora um corte com o seu fundo mais emocional. Porém, avançou. Chegada a semana da viagem desejada e com os documentos prontos para a partida, o patrão previamente informado, já estava mais conformado e sonhava com a Cidade Luz. Quem sabe se dali não surgiria um brilho mais forte para o seu futuro?
Decidiu que, se era para cortar amarras, devia deixar tudo para trás. Já tinha cancelado o contrato de arrendamento e vendido quase todos os pertences. Faltava apenas a sua singela coleção de obras de olaria. Por alguma razão era difícil pensar em desfazer-se delas. Talvez porque representavam a esperança de que tudo podia ser diferente. Foi quando viu Matilde, que fez as mudanças na sua vida que o levaram a dedicar-se a elas. A primeira que tinha feito era até uma tentativa da silhueta dela. De qualquer forma, a decisão estava tomada. Tinha abandonado a esperança e, sendo assim, não podia guardar resquícios que o fizessem pensar o contrário. Dirigiu-se à estante despida e enfiou as pequenas peças numa sacola de pano. Num qualquer fórum na Internet tinham-lhe recomendado uma galeria de escultura que, diziam, fazia boas ofertas por qualquer pedaço de barro minimamente moldado. Pegou na sacola e saiu de casa. Quando chegou à rua percebeu que estava triste, mas isso não era novidade. Decidiu ir a pé para arejar a melancolia.
Chegado à morada indicada, de olhos postos nos números no topo das ombreiras das portas trabalhadas, palmilhou a calçada em busca do 145. A avenida estava a chegar ao fim e ainda ia no 99. Sentiu a esperança novamente a importuná-lo, mas durou pouco e rapidamente, por qualquer razão, os números das portas saltaram do 103 para o 143. Com o conforto da desilusão, decidiu percorrer as portas que restavam de olhos no chão. Olhou para cima. A tabuleta reflectiu o Sol contra ele e entrou ainda meio encadeado, balbuciando um qualquer cumprimento à turva personagem na sua frente. Depois ouviu Matilde.
E ali estava ela, recortada em contraluz, tal como a vira na primeira vez. Era a dona da galeria que lhe ia comprar as peças. Ele sempre há coincidências!
- Há quanto tempo! – sussurraram ambos, ele com as mãos um tanto trémulas, subitamente tímido, diante daquele sonho materializado, ela com as peças esquecidas nas mãos. Trôpegos como dois adolescentes, saíram e percorreram as ruas da cidade aproveitando a última luz do ocaso. E seria aquela para ele a última cidade. O trota-mundos que ele fora encontrara por fim o seu porto de abrigo.

Francisco Feio
Giuseppa Giangrande
Lídia Vieira
Francisco Semedo
Helena Campos


A LÍNGUA DOS OLHOS (completo)

Olhou para o espelho: os olhos dela falavam.
Falavam em muitas coisas, em inumeráveis sentimentos e sensações, às vezes tempestuosas.
Os olhos, porém, queriam que ela também falasse, que desse liberdade a tudo aquilo que ela sentia e tinha no seu coração.
Então ela pediu aos seus olhos que falassem, que continuassem a falar, porque ela não conseguia expressar claramente os seus sentimentos, aquilo que estava fechado no seu coração e que não podia dizer através da sua voz.
E foi naquele momento que os seus olhos falaram novamente, com lágrimas.
Eram lágrimas de felicidade ou de tristeza? Era saudade? De quem? De quê?
Caiam pele fora, gota a gota, recheadas de lembranças, memórias e angústias.
Os olhos queriam que ela falasse daquela tarde, daquele revirar tão abrupto na sua vida.
As lágrimas eram de profunda tristeza, pelo vazio imenso que se instalou no seu peito ao ver a sua casa em chamas.
Regressar a esse dia era demasiado doloroso, pelas coisas que desapareceram, mas particularmente, por tudo aquilo que lá vivera.
Mas o que ela não queria mesmo revisitar dentro de si era o porquê daquele incêndio.
Aí, as lágrimas pararam de cair.
Não aguentava mais o som, por isso fechou os olhos para os silenciar. Já tinha revivido aquela tarde cem vezes. “Não foi culpa tua”, murmurou para si mesma, com doçura. Mas quando reabriu os olhos eles disseram-lhe, molhados, a mesma coisa que todos os olhos que a olharam desde esse dia. “Mataste-os a todos. Perdeste o controlo e mataste-os”. Calou novamente os olhos. Inspirou fundo, expirou com força e calma ao mesmo tempo e numa paz fingida voltou lá. O gosto das lágrimas na boca era igual ao que tinha sentido. Ouviu outra vez os gritos ameaçadores e sentiu outra vez o frio no peito, que lhe entrava pela sua camisa rasgada. Sentiu o mesmo medo e em todo o corpo voltou a tremer. Queria fugir, mas não sabia para onde se aquela era a única casa que tinha conhecido. Todos os que amou na vida estavam ou tinham estado ali. Ouviu outra vez os passos atrás de si e gritos, mais gritos. Seria possível o amor transformar-se naquilo? Sentiu outra vez o puxão nos cabelos. Deixou-se cair de joelhos da mesma forma que caíra quando foi atirada naquela tarde. Sentiu a mesma raiva a chegar à garganta, mas hoje não gritou. Hoje não entregou a sua mão à lareira, nem pegou com ela nas brasas iluminadas, nem lhas atirou. Hoje não se ergueu. E hoje também não ia fugir.
Eulália, Láli para todos os que a amavam, estava desfeita de tal forma que já não lhe restavam forças para remoer o funesto incêndio.
Sim, tinham morrido todos. Sim, tinha sido a única a salvar-se por causa de um vício que a matava aos poucos. Sim, uma parte de si tinha ido com as fagulhas, como ia a outra parte sempre que cedia à prata castanha.
Já tinha sido julgada, condenada e decapitada por todos os que a conheciam.
Levantou-se e foi até aos escombros; o cheiro a queimado, a claridade das labaredas, os gritos, as lágrimas acordaram rapidamente.
Eulália, presa na sua cabeça, entrou na drogaria ao lado do que outrora fora a sua casa, comprou álcool, material inflamável e, dirigindo-se para as ruínas, ateou um fogo na esperança de que este levasse a memória e trouxesse de volta os seus filhos, o seu marido que dormiam tranquilamente a sesta quando Lália deixou o cigarro acesso ao pé do fogão e saiu para se ir envenenar mais um pouco.
O fogo apenas ardia como o coração dela e os seus olhos. Eulália, pouco a pouco, teve consciência de que aquele fogo nunca faria regressar os seus filhos e o seu marido. Percebeu uma vez mais a sua solidão, o seu sentimento de culpa, todas as culpas caíam sobre ela, era impossível encontrar uma saída.
Então, voltou ao espelho e os seus olhos falaram-lhe esta vez, falaram-lhe ainda com as lágrimas que caíram no seu rosto e chegaram ao seu coração para a livrar, como por milagre, dos remorsos que tinha e que a perseguiam. Preparou uma mala com poucas coisas e foi-se embora. Pôs-se a caminho para fazer uma viagem que podia significar recuperar a sua vida, ou melhor, encontrar a salvação. Os olhos tinham-lhe dito: havia ainda uma possibilidade de salvação para ela.

Giuseppa Giangrande
Mariana Matias
Francisco Semedo
Tiago Pina
Giuseppa Giangrande


CONTOS PROIBIDOS (completo)

A carta tinha ido para a morada errada. E ainda bem. Passo a explicar. Há uns anos emprestaram-me um livro muito raro, sobre um escândalo político e financeiro passado em Macau, de que só houve primeira edição, tendo o autor, entretanto, asilado em parte incerta. Li-o e reli-o, depois guardei-o na estante, sempre com a ideia de o devolver. O tempo foi passando e um dia recebi uma sms do proprietário do livro, reclamando-o. Passaram mais uns dias, talvez semanas, e nova sms. Finalmente decidi-me - embrulhei o livro em papel pardo (tenho resmas em casa), atei o embrulho com um cordel daqueles antigos, que já só se encontra nas drogarias dos bairros onde ainda há drogarias, um cordel de duas cores – azul e cru, verde e cru, vermelho e cru (este era preto e cru) – e escrevi “LIVRO” no embrulho, assim me livrando de escrever uma qualquer nota de pedido de desculpas pois a tarifa de expedição de livros não permite, sequer, que nele vá agarrado um cabelo quanto mais um cartão de visita. Afincadamente, escrevi o nome e a morada do destinatário. Quer dizer, escrevi o nome do destinatário e a rua onde ele residia. Como a morada só se completa com o código postal, foi aqui que a história começou (ou continuou, pois começar tinha começado quando me emprestaram o livro), ao inserir o meu código postal e não o do destinatário.
A princípio estranhei não ter notícia do destinatário, que tanta pressa parecia ter em reaver o livro; depois não pensei mais no assunto até ao dia em que chegou mais uma mensagem a perguntar se sempre o tinha enviado. Respondi que sim e não voltei a ter resposta. O assunto estava encerrado e um dia, ao regressar de viagem, esperava-me um postal dos correios para ir levantar uma encomenda, com a menção “morada desconhecida”. Entreguei o postal e devolveram-me a minha encomenda. Segundo o funcionário, aquela morada não existia naquele código postal. Existiam 52 ruas com o mesmo nome no país, 26 com o mesmo número de porta, 8 com o mesmo andar, mas nenhuma naquele código postal. Ainda me perguntou se sendo tão perto, não seria melhor ir entregá-la em mão. Perante a minha estranheza apontou-me o código postal e disse-me: a rua não conheço, mas este código é desta zona e abrange três quarteirões.
Levei o embrulho comigo. Estava tal e qual o tinha feito, com o mesmo papel pardo atado com o mesmo fio de cores. Abri-o para fazer um novo e quando folheei o livro, escorregou de entre as páginas uma fotografia que ali deve ter ficado esquecida. Olhei-a. Nunca a tinha visto e parecia-me que não seria minha. Foi quando olhei com mais atenção que percebi. Ou melhor, que nunca iria perceber o que se estava a passar.
Peguei na fotografia e o meu corpo, primeiro a cabeça, depois o resto dos membros,
mergulhou para dentro do retrato.
Dei comigo em Lisboa, eu que não punha lá os pés há 20 anos, na rua onde crescera e passara a minha infância.
A rua estava igual à memória que mantinha dela; o jardim onde berlindava, parecia chamar-me como quando tinha 6 anos e corria para lá; as mesmas pessoas, o Sr. Alberto, sentado no banco, a gritar «Foi penalty», tudo parecia ter ficado em 1999, ano em que fugi para Macau, ter com o meu pai que, coitado, sofria com as calúnias de um escândalo em que se vira envolvido com uns magnatas macaenses.
Estava em Alvalade, mas sabia que não era possível; ninguém mergulha para dentro de uma fotografia e toma parte da ação. Desci a rua e dei de caras com o «Lulu», meu amigo de sempre e por quem sempre tinha tido uma paixão. Este reconheceu-me e, antes que pudesse dizer alguma coisa, tirou uma pistola e disparou dois tiros que me acertaram na cabeça.
- Um é por me fazeres passar por menina e o outro é pelo meu pai que se suicidou por causa do teu.
O meu corpo jazia na rua, na minha rua, mas eu não estava morto. Como nos sonhos, nas histórias não se morre.
Instintivamente anunciei-lhe o próprio nome, ao que ela respondeu:

“Sim, bem sei quem sou. E quem vem a ser o senhor?” – Continuei estarrecido a olhar para ela sem dizer uma palavra. Não a via desde que fugi com o pai para Macau mas tudo nela estava perturbantemente igual. O sorriso cínico, as mãos esguias, as sobrancelhas finas, a olhar impaciente. Dei conta então que estava a tremer. Tanto tempo passado a sonhar com isto e no fim só tinha de voltar aqui. Mas o que fazia ela em casa do “Lulu”? Num instante, coberto de antecipação olhei para a mão de Filomena. Nada de aliança.
“Desculpe, mas tenho mais que fazer do que ficar aqui a olhar para si? Acabei de mudar para esta casa e tenho muita coisa por arrumar. Sabe, o antigo dono dela era um antigo colega de escola, que soube há pouco tempo ter morrido e… Enfim, posso ajudá-lo com alguma coisa?” – Aparentemente, o meu aspeto estava mais mudado que o dela. Lembrei-me de todas as vezes que a fora buscar a casa dos pais para passear no Jardim e finalmente consegui dizer:
“Só um momento! Peço imensa desculpa, mas preciso de fazer uma coisa”
Virei costa e fui a correr ao jardim, colhi uma rosa vermelha e voltei à porta, que como expectável estava fechada. Bati. Filomena abriu e antes que pudesse descarregar em mim a raiva que tinha nos olhos disse:
“Nunca antes estive à tua porta sem te trazer uma rosa vermelha… Não seria hoje a primeira vez”. A raiva sumiu-se-lhe dos olhos e trocou-a por surpresa:
“Cristóvão?” – disse ela.
Sorri e respondi: “Que me dizes, vamos passear no jardim?”
Vi o «Lulu» afastar-se, acender um cigarro (será que ainda fumava SG Gigante?) e eu só me perguntava como é que tinha escrito o meu código postal e não o do dono do livro.
Fechei os olhos e quando os abri senti uma violenta dor de cabeça: tinha batido com a testa na esquina da mesa quando me baixei para apanhar a foto que deslizara de dentro do livro para o chão.
O Lulu, murmurei com estranheza. O estupor do Lulu tinha-me dado dois tiros, ainda que fictícios, a mim, seu fã incondicional! Sabia lá que os outros lhe chamavam menina! Para mim ele era o sol que iluminava o meu planeta…até ao dia em que dei de caras com a Filomena e a minha vida mudou para sempre…pelo menos durante algum tempo!
É verdade que ele fez umas cenas camilianas debaixo da minha janela, encheu o pátio da escola com dislates e ameaças, mas o meu destino estava traçado: Filomena ou nada!
Esta mudança alegrou imensamente o meu progenitor, conservador empedernido, mas teve consequências funestas para o Lulu, cujo pai, igualmente dinossáurico e inimigo do meu pai, se atirou de carro, da falésia de Peniche para o mar.
Todas estas recordações passaram diante dos meus olhos, com uma clareza dolorosa. Deve ter sido da pancada, concluí.
Sem vislumbrar culpa, nem saber porquê, senti uns violentos remorsos pela estultícia da minha juventude e decidi tentar corrigir o que ainda podia ser corrigido, nem que fosse só para, egoistamente, sentir algum apaziguamento.
Vou procurar o Lulu, pode ser que esta espécie de sonho tenha sido um aviso. Será que ainda mora na mesma casa?
Rapidamente, chamei um Uber e desci em frente daquela moradia que tão bem conhecera. Com mão trémula toquei a campainha e afastei-me um pouco, sem saber bem porquê.
A porta abriu-se com vigor e à minha frente surgiu uma imagem que nunca esquecera: Filomena!
Instintivamente anunciei-lhe o próprio nome, ao que ela respondeu: “Sim, bem sei quem sou. E quem vem a ser o senhor?” – Continuei estarrecido a olhar para ela sem dizer uma palavra. Não a via desde que fugi com o pai para Macau mas tudo nela estava perturbantemente igual. O sorriso cínico, as mãos esguias, as sobrancelhas finas, a olhar impaciente. Dei conta então que estava a tremer. Tanto tempo passado a sonhar com isto e no fim só tinha de voltar aqui. Mas o que fazia ela em casa do “Lulu”? Num instante, coberto de antecipação olhei para a mão de Filomena. Nada de aliança.
“Desculpe, mas tenho mais que fazer do que ficar aqui a olhar para si? Acabei de mudar para esta casa e tenho muita coisa por arrumar. Sabe, o antigo dono dela era um antigo colega de escola, que soube há pouco tempo ter morrido e… Enfim, posso ajudá-lo com alguma coisa?” – Aparentemente, o meu aspeto estava mais mudado que o dela. Lembrei-me de todas as vezes que a fora buscar a casa dos pais para passear no Jardim e finalmente consegui dizer:
“Só um momento! Peço imensa desculpa, mas preciso de fazer uma coisa”
Virei costa e fui a correr ao jardim, colhi uma rosa vermelha e voltei à porta, que como expectável estava fechada. Bati. Filomena abriu e antes que pudesse descarregar em mim a raiva que tinha nos olhos disse:
“Nunca antes estive à tua porta sem te trazer uma rosa vermelha… Não seria hoje a primeira vez”. A raiva sumiu-se-lhe dos olhos e trocou-a por surpresa:
“Cristóvão?” – disse ela.
Sorri e respondi: “Que me dizes, vamos passear no jardim?”

Paula Carvalho
Francisco Feio
Tiago Pina
Conceição Brito
Francisco Semedo

 

BOLSOS VIVIDOS (completo)

As poucas vezes que levou as mãos aos bolsos, sentiu percorrer-lhe o corpo um arrepio desvairado que o levou, em menos de um ápice, a deitar-se na cama, com mantas encardidas por cima e a cabeça tapada por um gorro, de repasto das muitas traças que faziam vida nos seus armários. Assegurava, num tom de voz de militar de ocasião, que jamais o veriam colocar novamente as mãos nos bolsos, que já por mais vezes do que as que conseguia contar estivera às portas da morte e não fosse a sua Rosarinho, de mãos de orquídea e pescoço de salvação, estaria já desfeito e comido por larvas. "Porque não usas tu calças sem bolsos, se tanta maleita te provocam?", perguntavam os amigos. Isso a eles não lhes dizia respeito, mas a sua Rosarinho, que cheirava a terra molhada e chorava sonhos alados, da sua respiração brilhante, sussurrava que nos bolsos das calças ficam os restos de vida que durante o dia abandonamos. Agora, a sua Rosarinho respirava vazia em cima da cama.
E ele não conseguia deixar de pensar nas suas palavras: porventura, nos bolsos aterradores, iria encontrar a memória viva e vívida, das últimas horas de Rosarinho?
À medida que a respiração dela se ia desvanecendo, tomou uma decisão: aconchegou a delicada mão na sua e, cuidadosamente, deslizou os dedos para dentro de um dos bolsos. Um clarão de amor quase o cegou e sentiu o coração transbordar. Segurou firmemente a mão de Rosarinho e ouviu a sua voz dizer “eu estou contigo, aqui e agora, não tenhas receio”. Olhou-a e deixou-se envolver pelo brilho da sua respiração. O rosto permanecia tranquilo, imóvel.
“Onde estás, minha querida? Para que mundo me estás a levar?”
Os olhos de Rosarinho abriram-se num cintilar de diamante, os lábios desenharam um sorriso e murmurou, sem falar, “não tenhas receio, vem comigo”.
Ele deixou-se envolver por uma cornucópia de cores e partiu num sonho alado, antes de perder a consciência.
A sua mão nunca largou a de Rosarinho durante a alucinante descida em espiral pela cornucópia colorida. A descida parecia não ter fim, a cada 360 graus a velocidade da queda amentava exponencialmente: onde iriam parar? Procurou o olhar de Rosarinho em busca de um porto seguro e descansou quando viu o seu sorriso.
De repente pararam e ficaram como que suspensos no vazio, as mãos sempre juntas, os olhares presos. As cores da cornucópia desvaneceram lentamente, o cenário tornou-se mais nítido.
Estavam no quintal da casa da avó na aldeia serrana. António já não tinha o gorro traçado na cabeça e vestia uns calções de linho e uns ténis de pano. Era verão e as cigarras faziam uma barulheira infernal ao longe. António sentiu o bolso esquerdo pesado, como que a puxar-lhe os calções para baixo. Olhou novamente para Rosarinho e, sem nunca desviar o olhar, meteu a mão devagarinho no bolso. Assustou-quando os seus dedos tocaram numa superfície fria e perfeitamente lisa: eram os seus berlindes.
Donde teriam surgido? Tinha deles uma cruel lembrança, tinha a certeza que os tinha deitado para o rio depois daquele horrível acidente com a sua irmã pequenina, a Susana. Os seus olhos continuaram a fitar Rosarinho que, suavemente, entrelaçou os dedos nos seus e, juntos, retiraram as esferas multicolores do bolso, e deixaram-nas rolar por entre as mãos para o solo quente.
A náusea ácida queimou-lhe a garganta e cortou-lhe a respiração. Reviveu o momento, há tantos anos, em que se apercebeu que a sua irmãzinha parara de brincar com estes mesmos berlindes e jazia imóvel no chão.
Ele estava proibido de jogar com eles perto da criança, pareciam rebuçados e eram tentadores e perigosos.
A mãe tinha-lhe dito que olhasse pela mana durante a manhã. Escondeu os berlindes na concha da mão, que enfiou no bolso dos calções, e foram ter com os seus amigos.
Foi divertido, mas subitamente apercebeu-se que a Susana fora engolindo os berlindes que deixara abandonados no chão. O terror que sentiu mudou-o para sempre.
Mas agora Rosarinho segurou-lhe ambas as mãos e disse, num murmúrio: «Observa o passado. Acabou o teu pesadelo, podes começar a esquecer»
Ele continua deitado, imóvel, indiferente à azáfama que reina à sua volta. Na cabeça ressoam estas últimas palavras de Rosarinho sobre observar o passado e começar a esquecer. Sente-se mais confuso que o habitual. Como pode ele observar algo que começa a esquecer? A mão está fria, mais fria que o corpo. Reparou agora que tem alguma coisa na mão. Abre-a lentamente e descobre um grande berlinde de vidro, com as habituais torções coloridas no interior. Olha atentamente a esfera transparente à procura da sua irmã Susana e de Rosarinho, mas não encontra qualquer sinal delas. O quintal da casa da serra, que parecia estar ainda agora ali na sua memória, desaparecia à medida que ia rodando o vidro na sua mão. Talvez as palavras de Rosarinho não fossem um pedido, mas apenas a descrição do que seguia. A acidez na garganta voltou e pela primeira vez pareceu dar sinais de vida. Olhou com dificuldade a mão e o berlinde tinha desaparecido. Resignou-se; já nem sabia de onde lhe tinha aparecido aquilo na mão. Esquecer, era a única coisa de que se lembrava. E o pesadelo talvez fosse aquele apito intermitente que parecia marcar um compasso lento acompanhando a sua respiração. Já não se apercebeu quando o som ficou contínuo. Ainda menos quando se calou.


Rodrigo Rufino
Conceição Brito
Inês Rodrigues
Conceição Brito
Francisco Feio


O CONGRESSO (completo)

Odiava aquelas festas infindáveis da embaixada: muitos sorrisos, muita conversa oca, muitas mentiras simpáticas e cansativas, muito nada fazer para parecer fazer alguma coisa. O surdo tumulto das vozes, com decibéis ditados pelo champagne generoso, as luzes brilhantes e cansativas, a música de fundo num martelar constante do inconsciente, eram o cenário habitual de tais acontecimentos.
Meu deus, o tempo que estas coisas demoram. Ainda não percebi a utilidade disto tudo. Amanhã vamos continuar a fazer tudo da mesma maneira.
E o meu contacto que nunca mais aparece
Mais um sorriso, «que prazer, há quanto tempo não o via, temos que nos encontrar para um café tranquilo» e desistiu de esperar. A dor de cabeça era insuportável, amanhã tinha uma reunião preparatória do congresso logo de manhã bem cedo. Será que esta gente nunca dorme? intrigou-se.
Pediu o casaco na recepção, e saiu para a frescura da noite. Até o cheiro intenso de combustível lhe pareceu um bálsamo.
Acenou a um táxi que se aproximava e, quando ia entrar, ouviu uma voz, que bem conhecia, dizer: «entre, tenho estado à sua espera»
Ainda hoje não sabe explicar a razão de ter entrado no táxi e não ter estranhado de imediato vê-la ali, tantos anos depois, exatamente na mesma, com o mesmo ar com que a tinha deixado, da última vez que se viram, na improvisada sala de embarque no aeroporto para onde tinham ido na esperança de apanhar os últimos voos a sair do país. Foram tempos complicados e o mundo nunca mais voltaria a ser o mesmo, apesar das festas regulares organizadas nas diversas embaixadas pretenderem o contrário. Julgava-te morto, disse ela. Já tinha deixado de te procurar e foi numa mensagem sobre o congresso que soube que tinhas reaparecido. Pois eu tinha a certeza que não tinhas escapado quando toda a tua delegação desapareceu sem deixar rasto, disse ele. Primeiro as pequenas revoluções que grassaram um pouco por todo o lado, depois o vírus que veio para ficar e agora isto. Ela ouvia em silêncio. O táxi continuava a atravessar a cidade e ele desviou o olhar para o exterior. À medida que a cidade se desenrolava na janela ia sentindo alguma estranheza que não sabia identificar. Finalmente pararam. Ele abriu a porta para sair e ela disse-lhe: sabes que o congresso não pode acontecer. Amanhã tens de os convencer a desistir.
Saiu e ficou a olhar o táxi a afastar-se. Foi então que reparou que tinham andado às voltas. Estava exatamente no lugar de onde tinha saído. Mas estava num tempo diferente. A casa onde era agora a embaixada, estava tal e qual a tinham encontrado há vinte anos quando se mudaram para ali.
- Olhe desculpe – perguntou a um transeunte que passava - Em que ano estamos?
O outro olhou-o como se ele fosse um louco atarantado.
- Não sabe a quantas anda? Está bêbado? É claro que estamos em 1984.
Devo estar a sonhar, ou então é o Regresso ao futuro! – pensou enquanto cofiava a barba e o bigode inexistentes e entrou em casa porque a porta estava aberta. As paredes forradas com fotografias dela e pósteres de bandas rock Duran Duran, Spandau Ballet, Kajagogoo, Geoge Michael, David Bowie, Orchestral Manouvers in the Dark. Um telefone preto com uma roda de algarismos, um grande gira-discos, quatro leitores de cassetes, um leitor de vídeos. Bestial! Portugal ainda não entrou na CEE, não há telemóveis nem internet.
O que é que ela tinha dito? Para avisar os outros que não ia haver congresso? Que se lixassem! Toda a vida sonhara voltar à adolescência para escolher outro curso sem ser Direito. Ia regressar ao fim do liceu, ao momento exacto da candidatura à Universidade e escolher outra área.
E foi isso mesmo que fez quando a manhã chegou, depois de uma noite mal dormida em que não parava de pensar em toda a sequência de eventos que o tinham trazido até aquele momento. Quando chegou aos serviços do ministério, percebeu pela longa fila que era dia de candidatura. Levantou os impressos, tomou o seu lugar na fila, preencheu-os enquanto a linha de pessoas se ia escoando e esperou. Foi aí que reparou, pela primeira vez, que algo não estava certo. Toda a gente falava um pouco exaltada de uma série de acontecimentos a que chamavam o grande evento e que teria ocorrido uns dias antes. Atrás dele, um grupo cantava uma música que lhe era familiar, de uma banda que vivia num poster na parede do quarto onde tinha dormido. Tinha repetido aquela música vezes sem conta, com o seu grupo de amigos, mas tinha a certeza de que as palavras não eram exatamente aquelas. Percorria a lista das faculdades e eram todas iguais em todas as cidades do país, sem qualquer opção de curso e isso parecia não incomodar nenhum dos seus colegas que aguardavam como ele.
Quando estava a chegar à porta de entrada olhou para o outro lado da rua e viu um anúncio que ocupava a fachada toda do prédio e onde se lia “O Congresso espera por ti”.
Agora que pensava nisso, a única coisa de que se lembrava era de ter saído da embaixada e ter entrado num táxi. Estava certo de que a qualquer momento ia acordar e perceber que tudo não passara de um truque manhoso que a sua mente lhe pregara. Sorriu. Foi nessa altura que se deu o embate.
O edifício do congresso explodiu. Pessoas gritavam e corriam por todo o lado. Destroços voaram em todas as direções arrastando carros e corpos. O apitar estridente que ouvia dava-lhe dores de cabeça, tonturas. Viu uma mulher puxar um braço de debaixo de um carro, o tamanho do mesmo deixou-o enjoado. Saiu dali a correr, parou uns metros depois com dificuldade em respirar. Viu o seu rosto refletido numa montra, era de novo o velho rosto de um homem de cinquenta anos. Olhou em volta, tudo voltara ao normal. Tudo estava como devia estar. Dirigiu-se para o local da explosão, o edifício estava intacto, mas havia algo diferente, como se tivesse sido reconstruído. Reparou numa placa em mármore, leu o que dizia: Em memórias das vítimas do atentado de 1984, seguido de uma lista de nomes. O estômago apertou-se, o coração bateu desenfreado nas têmporas. Nem se lembrava de ter chegado a casa, tudo parecia igual. Lavou a cara em água fria, pensou em deitar-se e foi quando reparou. Em cima da cama um pequeno envelope perfumado, reconheceria aquele perfume mesmo que tivessem passado anos, mas só tinha passado uma noite. Lá dentro, um papel com letra requintada, Bom trabalho. Sabíamos que podíamos contar contigo. Sentou-se na cama tentando perceber o que acontecera, nada fazia sentido, mas um sentimento de culpa invadia-o lentamente, sabia que tinha feito algo terrível.

Conceição Brito
Francisco Feio
Helena Campos
Francisco Feio
Cláudio Martinho

 

 

 

 

 

 

 

 

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A técnica de escrita Mosaico inspira-se no Cento ou Centão (centão: manta de retalhos) e consiste em criar um texto a partir de fragmentos de outros.
Décimo Magno Ausónio, no séc. IV, escreveu o Cento Nuptialis a partir da Eneida e outros versos de Virgílio e descreveu o método: «a partir de vários trechos e sentidos, uma certa estrutura de versos consolidada, de tal modo que num único verso unem-se dois ou mais fragmentos, ou um verso e o seguinte, com a metade de outro. […] (é uma) pequena obra contínua de segmentos, tornada una a partir de muitos, um divertimento de seriedades, nosso a partir do alheio».
Outros exemplos da técnica incluem o canto gregoriano, com versos da Bíblia, A Terra Devastada, de T.S. Eliot, citando versos de Homero, Virgílio, Walt Whitman, Shakespeare, Baudelaire, Bram Stoker e muitos outros, inclusive canções populares, e a Antologia, de Manuel Bandeira, um poema criado a partir de outros do autor.

Partimos textos já produzidos pelos participantes noutras sessões da Naftalina e escrevemos um novo.


Ontem
Aqueles ataques, não tinham nada de acaso; era o seu sonho albanês. Um turbilhão colorido, um tornado guardado numa esfera de vidro, que se desenrola a partir de um dos polos, mas para dentro. Os tornados não sabem ficar imóveis e a nossa memória das tempestades é curta.
Deixou o cérebro ir.
Há uma urgência no ar. Instantâneos de uma fotografia que passam e que recordam um tempo em que se saboreou a felicidade; depois o resto. Desejo.
Agora que é noite, o comboio continua a atravessar a imensidão que nos separa do mar. O silêncio é o único registo que fica da viagem. Abriu os olhos e não encontrou nenhuns outros para se ver refletida.
Ele já tinha finado. Não precisas de dizer adeus, porque ele já és tu.
                                                                                           Francisco Feio

 

Gato Galego, quando voltares à Terra,
lembra-te de um cheiro que gostes muito,
que deixe sentir tranquilidade,
calma e que dê felicidade.

Ignora o pau de canela,
a tira de casca de limão,
o gengibre,
o mel
e a gema gelada.
Não precisas de dizer adeus, a hora muda e é um turbilhão colorido, como uma orquestra em movimento.

Gato Galego, eis-nos juntos
Passávamos o tempo assim
“Há dois tipos de pessoas, e depois o resto de todos nós.” Um grande embuste!

Gato Galego, pareces o mesmo todos os dias
Desconfio que à noite, ele ainda se move lentamente.

Esse silêncio é o único registo que perdurará.
                                                                          Tiago Pina

 

Há uma urgência no ar:
gulosinar gulosinas.

A hora muda,
todos os dias de manhã.

Passávamos o tempo assim,
um tempo maravilhoso em que se saboreou a felicidade e a liberdade.
Desejo de que esse tempo volte.

Uma luz clara e brilhante,
uma gema gelada,
uma gota gotejante ontem.

Era o seu sonho albanês:
pau de canela e gengibre.

Agora que é noite,
António sai do autocarro.
O autocarro parte e é como uma orquestra em movimento.

Instantâneos de uma fotografia,
o cérebro já estava longe,
os olhos aproximaram-se.

Ó Gato galego,
tem uma rosa por perto
para não te perderes, quando voltares à Terra.

Trago no bolso uma luz brilhante,
é um turbilhão colorido, outro olhar.
                                                          Giuseppa Giangrande


Há uma urgência no ar.
… parece o mesmo todos os dias, mas desconfio que, à noite, quando não estamos a olhar, ele se move lentamente atravessando a imensidão que nos separa ainda do mar.
Há sempre alguma coisa para fazer, para pensar, para experimentar: mel com um pau de canela, casca de limão, gengibre qb, sabe-lhe muito bem.
Instantâneos de uma fotografia que recordam um tempo em que saboreou a felicidade.
Desejo que esse tempo volte.
Abriu os olhos e não encontrou nenhuns outros olhos para se ver reflectida... e não precisas de dizer adeus…
                                                                                           Conceição Brito


Sonho albanês
António sai do autocarro e repara no único carro parado no estacionamento. Eis-nos juntos, a atravessar a imensidão que nos separa ainda do mar. Como a nossa memória das tempestades é curta, ele parece o mesmo todos os dias, instantâneos de uma fotografia que passa, uma luz clara, brilhante, tão brilhante que deixa ver tudo em branco, mas que depois se faz azul.
Sempre alguma outra coisa para experimentar. Gato galego, ouvi onde ouvir, 1 Pau de canela, garrafas de água e barras de granola, gengibre em mel de luar. Lembra-te de um cheiro que gostes muito, um grande embuste, outro olhar.
Quando não estamos a olhar continuam a ser 60 minutos sem troféus nem relógios de ouro. Instantâneos que recordam um tempo maravilhoso, uma grande sinfonia interior que todos tocam e ninguém irá ouvir.
António, falando limpo, deseja que esse tempo volte. Onde? Ontem.
                                                                                            Patrícia Louro

 

 

NaftaMini

 

O microconto é um dos «clássicos» da Naftalina. Desta vez inspirámo-nos num começo, num meio e num fim de textos do microcontista Fernando Guerreiro para três novos microcontos
A segunda parte da sessão foi dedicada ao projecto FOLHETIM.

 

Imprevistos
Sem que nada o fizesse prever, o rio transbordou. O sismologista nada assinalara, o meteorologista anunciara maré baixa, o Borda D'Água tão pouco se referira a sinistros. Contudo, os arrozais inundados estavam impraticáveis. E houve um morto a assinalar: o senhor José Inácio, quase sobrevivente de mais uma bebedeira, morreu afogado.

Sem derrubes
Sua alteza esperava uma receção calorosa. O Alcaide recebeu-o com pompa e vénias. Antes mesmo de receber as insígnias, o monarca estacou. Uma varejeira mordia-lhe insistentemente a mão esquerda. Tentou imediatamente matar a mosca desferindo um golpe de espada com a mão oposta em direção desta. Por pouco, feria gravemente o polegar. Guardou a arma na bainha. Assobiando, sacudiu firmemente a mosca, confessando entre dentes: "Antes isto do que a ameaça de um opositor republicano!"

Impaciências
Cândida espreitara várias vezes pelas traseiras do prédio para estudar os vizinhos indianos. Queria dar-lhes em mão o documento deixado pelo proprietário dos dois andares: uma folha A4 com um IBAN, sem nome nem número de telefone. E um prazo de contrato de arrendamento de três meses. Entrou no elevador sem esperar pelo clic da máquina. Por coincidência, o elevador abriu-se e pai e filha indianos encontravam-se lá. Talvez pela entrada pouco acertada dela, o elevador parou bruscamente uns vinte segundos e ela, já ansiosa, aguardou a reação dos dois. "Compreendido" - comentou o senhor indiano. "E obrigado. Não obtivemos respostas às chamadas de um mês inteiro. Por sorte, conseguimos um arrendamento de dois anos na Amadora".
Apesar do desconsolo, Cândida suspirou de alívio. Nunca lhe passara pela cabeça que uma avaria no elevador fosse tamanha bênção.

O incêndio lavrara em línguas ondulantes. Em baixo, na mina, perto de duzentos homens lutavam pela sobrevivência. Houve heróis que romperam o fogo, nem todos carregando corpos com vida. O envio de ventiladores e o recomeço dos elevadores determinou um saldo de cento e cinquenta vidas, a postos para a jornada seguinte. Sem troféus nem relógios de ouro. Só algumas garrafas de água e barras de granola resgatadas à pressa dos nichos das galerias.
                                                                                                                                                                              Lídia Vieira

 

O autarca
Sem que nada o fizesse prever, o rio transbordou. As ruas da aldeia desapareceram e o presidente da junta propôs logo que se mudasse o nome da terra para Veneza saloia. Chamou as televisões e apresentou um plano audacioso que metia um turismo rural de um primo e um gabinete de marketing de uma afilhada que tinha ido para Lisboa estudar essas coisas. Quem não gostou foi o Zé Manel que ficou com as mesas do café a boiar. Andou às apalpadelas na rua e descobriu a tampa do esgoto. Chamou o Quim e puxaram a coisa. Foi como Veneza. Foi-se a água e foi-se a aldeia. Foi tudo na enxurrada.

O conselheiro
Estava tudo em silêncio; só se ouvia o som irritante do inseto a voltear em torno da mesa. Foi quando ficou a pairar por cima de um naco de presunto, que o monarca tentou de imediato matar a mosca com a espada que tinha na mão. Acertou em cheio na tábua de queijos que estava ao lado. Tentou uma segunda vez e foi-se a mão do aio que tentava salvar o leitão e da terceira foi-se o abade. A pontaria não era o seu forte. Antes que ele tentasse uma quarta, o conselheiro tirou rapidamente uma mosca falsa do bolso e apresentou-a aos comensais elogiando a pontaria do monarca e todos bateram palmas. Agora poderiam comer em paz.

Um dia de sorte
Saíra cedo com medo de chegar atrasado. Ia ser um dia importante. Enquanto descia no elevador ia revendo mentalmente a apresentação. Ainda demorou a perceber que havia alguma coisa que não batia certo. O elevador estava parado. Carregou nos botões sem que nada acontecesse, bateu na porta, chamou, premiu o botão de alarme que parecia tão mudo quanto os outros. O telemóvel não tinha sinais de apanhar rede. De todos os dias, era neste que isto não podia acontecer. Foi-se resignando, imaginando o futuro de regresso à base e a ter de lutar novamente para chegar à beira de outra promoção. Era final de dia quando o elevador se moveu e as portas abriram. Foi então que soube que à hora a que deveria estar a começar a sua apresentação, um avião atravessara a sala. Ninguém se apercebeu. Nunca lhe passara pela cabeça que uma avaria no elevador fosse tamanha bênção.
                                                                                                                                                                                      Francisco Feio


Voltamos depois do intervalo
Sem que nada o fizesse prever, o rio transbordou. Houve gritos, corredoiras, ai valha-me deus, silêncio. No dia seguinte, o rio estava de volta ao seu leito.

Tragédia anunciada
A chegada do conselheiro especial para os assuntos do transporte fluvial do trigo foi anunciada com pompa e circunstância. O monarca tentou de imediato matar a mosca com a espada que tinha na mão. Distraído pelo anúncio só reparou demasiado tarde que a mosca lhe tinha pousado na outra mão.

Encontros de primeiro grau
Estava como sempre, atrasada. Fazendo cálculos mentais, se o elevador chegasse nos próximos 23 segundos, se se demorasse 15 entre andares, e menos de 20 em cada andar, conseguiria chegar a tempo. Estendeu a mão para o botão, e outra pousou-se-lhe. Sentiu uma pequena corrente elétrica percorrer-lhe a mão, estender-se pelo braço e aquecer-lhe o coração. Nunca lhe passara pela cabeça que uma avaria no elevador fosse tamanha bênção.
                                                                                                                                                                                     Patrícia Louro


A alegria
Sem que nada o fizesse prever, o rio transbordou de alegria. Se já é estranho alguém rebentar de felicidade, imaginem o que é um rio galgar as margens de contentamento.

Dom 5, o Fugitivo
Dom 5, o Fugitivo escapuliu-se da folha onde se encontrava a somar moscas. Um delas, pousou-lhe no colo.
O monarca tentou de imediato matá-la com a espada que tinha na mão. De repente, vieram-lhe à memória as palavras de sua mãe, a Rainha Dona Primeira: não nos devemos meter em batalhas que não conseguimos ganhar.

O nómada
Esta história conta a vida de um nómada, sem piso fixo, a subir e descer.
Um dia, uma violenta tempestade de relâmpagos, trovões, ondas a galgarem furiosas, peixes a saltarem como se estivessem numa cama elástica, rebentou com o sistema elétrico da cidade.
O nómada ao chegar a um prédio, subiu as escadas. No 2.º andar, tropeçou e bateu com a cabeça.
Foi para o hospital onde lhe disseram que teria de ficar ali pelo menos 2 semanas.
Nunca lhe passara pela cabeça que uma avaria no elevador fosse tamanha bênção.

A solidão
Todos os dias de manhã, António sai do autocarro e repara no único carro parado no estacionamento. Ignora se ainda lá está do dia anterior ou se chegou quando a noite se despedia.
Por muito que não queira, António é aquele carro.
                                                                                                                                                                                    Tiago Pina

 

O dia tinha começado mal
O dia tinha começado mal... era o dia do exame e não se tinha levantado cedo. A sua amiga ligou para ela e disse-lhe: «Despacha-te que estamos atrasadas. Se não te despachares, perdemos o comboio e vamos a chegar tarde. Vestiu-se de afogadilho, fechou a porta de casa e entrou no elevador. Já estava morta de cansaço, o dia tinha começado mal e continuou assim... de repente, o elevador parou, com um empurrão. E agora? Entrou em pânico, queria tocar a rebate, mas nada... Tentou telefonar para a sua amiga, mas o telemóvel era como um corpo morto... Começou a gritar a plenos pulmões e... acordou banhada de suor... tinha sido um pesadelo, nos últimos dias vivia sob o pesadelo dos exames.
                                                                                                                                                             Giuseppa Giangrande

 

naft labirinto

 

Escrever com palavras obrigatórias é outro tipo de constrangimento que nos obriga a introduzir o acaso no texto, utilizando os nossos recursos para manter a lógica inicial e tirar partido da palavra/ideia nova. Esta técnica pode ser utilizada com um conjunto de palavras iniciais ou como fizemos na sessão: todos começam a escrever, a meio da escrita, cada um vai dizendo em voz alta uma palavra que está a escrever, todos restantes participantes são obrigados a incluir essa palavra no seu texto. A primeira palavra, para todos, foi «amarelo».
A segunda parte da sessão foi dedicada ao projecto FOLHETIM.


Dizem que as primeiras impressões são feitas nos primeiros segundos de conhecer alguém. A minha primeira impressão, mais que uma impressão foi uma sensação, um misto de ofensa e repulsa. Quando estás em cima de um palco, com um holofote nos olhos, a maioria das primeiras impressões são menos intensas. Culpo o amarelo da t-shirt que estava a usar. Era tão mau que obviamente o tive de incorporar imediatamente.
Voltemos atrás, entrei no prédio tarde. Fazia vento nesse dia, e o trânsito sofreu. Entre os taxistas que gesticulavam e bradavam ao céu, o metro apinhado, quase não pude pensar, respirar quando cheguei.
O que quero dizer é: estava chateada nesse início de noite, o dia tinha tido demasiadas horas até à hora de subir ao palco, e aquela t-shirt amarela ofendeu-me mais que a conta.
-Temos um canário na audiência hoje. Seja bem-vindo senhor canário.
Ali em cima do palco, não o senti, claro. Sente-se menos. O ambiente tornou-se preto, negro como breu, algo que só percebi demasiado tarde. A voz bradou “não te estás a ver ao espelho, caralho!”
Da minha linha do horizonte, existiam duas opções nesse momento. Alinhavar outra piada em cima do joelho sobre o senhor canário e arriscar uma tempestade furiosa, ignorar e arriscar uma tempestade interior, ou como dizem os ingleses, tomar a estrada mais alta. Do cimo de um palco toda a queda parece um abismo.
Por uma vez, escolhi a estrada mais alta, o que não deixa de ser irónico, considerando que o meu material é literalmente uma coleção de más decisões com consequências ainda mais nefastas que as intenções detrás.
Enfim, já sabem que estrada mais alta foi essa, está no youtube e devo-lhe o início da minha fama.
“Apetece-me um ovo estrelado, e não é por causa do senhor canário. Apetece-me um ovo estrelado como ser livre que sou de comer o que me apetece”, e do cimo do palco não vi a comoção de abaixo, o holofote nos olhos a cegar-me mais. O burburinho elevava-se, e eu maldizia a estrada mais alta – aprendi a lição nessa noite, o melhor é antagonizar o público, as falinhas mansas não nos levam a lado nenhum.
Alguém tinha, para dizê-lo de maneira elegante, removido as suas vestes. E por baixo dessas vestes não havia uma barreira de segurança, só pele. E de cima do palco, os holofotes agora girados para o público iluminavam a pele muito branca de uma tipa muito bêbeda agitando algo no braço esquerdo, imerso na escuridão. A t-shirt amarela caiu-me aos pés, e o senhor canário tem afinal umas mamas muito aperaltadas.

Patrícia Louro
 
 

Amarelo, era o prédio que vi nascer a crescer, na minha rua.
Com o tempo, tão amarelado, solucionado, ficou preto.
Muito bem iluminado, aguentava também ventos, tempestades que teimavam em gesticular nas arvores vizinhas.
De noite da cor do céu, não trazia medo a ninguém, nem era essa a intenção.
A partir de determinadas horas, imitava-se, assemelhava-se o velho amarelo, mas desta vez, no céu, e era aí que o prédio se sentia ao espelho e no horizonte da saudade.
Pensava o nosso prédio em tempestades e:
Supunha serem a estrada da vida de amores abismo lá no céu, tantas vezes por isso estrelado.
Livre, o céu voava e cortava nuvens e corações eternos, verdadeiros amantes.
Na vida, talvez até desconcertados, na morte ornamentados de vestes enrugadas das chuvadas e das poesias barreira livre que é viver, e não o saber.

Joana Dinis


Amarelo era o nome de um dos pratos favoritos do meu colégio. Tinha tudo para ser bom: a cor, o aroma, os ingredientes, o sabor. Era salpicado com folhinhas de salsa que faziam um efeito maravilhoso, quais pequenas malaquites num mar de ovos, batatas fritas e bife picado.
Conseguia comer quantidades gargantuanas: não tinha ossos, espinhas ou peles, era só abastecer, mastigar e engolir com êxtase.
O meu primo Guilherme, que andava no Colégio Militar, contou-me que também lhes serviam esse pitéu em almoços de 5ª feira, mas não partilhava o meu entusiasmo.
Em contrapartida, falava com gáudio da célebre «sopa de bichos», um rústico caldo de batatas e couves mal lavadas, em cuja superfície flutuava uma imensidão de cadáveres de insectos, alados ou não, e até algumas lagartas rechonchudas. O ponto alto da ingestão da sopa eram as apostas para ver quem conseguia trincar, com várias mordidas, um dos nojentos bichos. Ele nunca fora cliente desses desafios, era demasiado picuinhas para imitar os aborígenes que vira na Austrália a assar e comer lagartões do tamanho de dedos!!
Enquanto o meu colégio existiu, o Amarelo foi sempre o almoço escolhido para o Dia da Antiga Aluna.
Nunca ninguém conseguiu replicar o prosaico e delicioso repasto.

Conceição Brito

 

Amarela era a salsa, já um pouco murcha. O meu primo, chefe num restaurante, não sabia o que fazer: como preparar o molho para cozinhar a “pasta alla Norma”? O que fazer? Um cliente tinha pedido aquele prato, já esperava há algum tempo e um contínuo vaivém dos empregados dizia que o cliente estava impaciente e se queixava do serviço… O meu primo ia tornar-se no novo Toni, o inventor do “panettone”: para dar cor à salsa, pôs um pouco de “pesto” genovês no ramo que voltou a ser verde.
Teve sorte, porque o cliente apreciou muito aquela combinação de sabores. Mas o meu primo tinha-se visto em palpos de aranha…

Giuseppa Giangrande


Hoje sinto-me amarelo. Não o macilento, mas o do Sol, assim a fugir da salsa, como se fosse possível fugir da salsa.
Há dias em que não me sinto de nenhuma cor, mas hoje acordei e tive uma sensação amarelada. Pensei que seria um bom dia para telefonar ao meu primo que nestas coisas das cores, costuma ter sempre uma boa justificação.
Disse-me que uma vez teve um cliente que começou a dizer que se sentia amarelo e passado cinco minutos estava a cantar o Yellow Submarine dos Beatles no meio da rua. Talvez o amarelo atue como quando bebemos uma garrafa de vodka, isto é, solta o cantor que há em nós.
De qualquer maneira, o meu primo, disse-me que talvez fosse boa ideia que tentasse ser mais extrovertido, observação que fingi não ouvir.
Desliguei o telefone e fiquei a remoer as palavras do meu primo.
Abri o meu equipamento de Karaoke e escolhi uma música do Chico Buarque chamada A cor amarela. Comecei a cantar, a tentar imaginar-me num bar cheio de gente. Parei imediatamente. Só de imaginar todos a olharem para mim, corei, mas em vez de ficar vermelho, fiquei… amarelo.
As cores não nos libertam, nós é que nos pintamos.

Tiago Pina


Ficámos a olhar em silêncio a rua deserta. O pó amarelo entranhava-se na roupa. Amarela era a cor da fome e talvez da sede. Um campanário de uma igreja ao longe, alguns prédios dispersos, um pano também amarelo a esvoaçar ao vento. Alguém gesticulava furiosamente numa janela velha. Sob um céu opaco de nuvens densas, as horas pesavam lentamente. Onde iria dar aquela estrada que se afundava no horizonte? Á esquerda os prédios eram pretos, à direita um cemitério era o espelho da vida, o fim inexorável de todo o existir. Ao centro dois burros pachorrentos pastavam esquecidos. Com aquele céu carregado, ainda viria uma tempestade. Era melhor voltar atrás, não descer para aquele poço que nos sugava para um abismo e regressar à estrada larga e amarela que trilháramos até então. Voltarmos a ser livres sobre um céu estrelado nas nossas vestes naturais e sem barreiras.

Helena Campos

 

Era de noite e chovia. A estrada parecia não ter fim e foi por pouco que não o vi, no seu impermeável amarelo a gesticular em direção aos carros que passavam.
O vento levantava-lhe o impermeável, daqueles longos, de obra, o que era estranho porque não parecia haver obras na estrada.
Ao longe via-se que o céu mudava de cor, passando do cinzento de chumbo a um leve azul que parecia uma aguarela desbotada
Já estava com o tempo muito apertado e se parasse de certeza que não ia chegar a horas. Por isso avancei, a olhar pelo espelho para ver se entendia qual a razão de tanto gesto.
Agora, no horizonte, uma linha preta, densa, nascia da terra em direção ao tal azul desbotado que fazia de céu.
Era sinal de tempestade, daquelas que parecem a mãe de todas as tempestades. A existir um anjo da guarda, era bom que acordasse e se manifestasse.
A estrada continuava livre, em direção ao horizonte.
A chuva tinha parado, o céu tinha aberto um pouco e a luz que restava do dia chegava com dificuldade ao chão.
Amarelo de novo, mas agora não era um impermeável a agitar-se ao vento. Era uma barreira de luzes intermitentes, que marcava o fim do caminho.
Saí do carro e avancei a pé. O mundo acabava ali. A barreira separava o chão que pisava do abismo.
Encostei-me ao carro a tentar lembrar-me para onde me dirigia. Não me conseguia lembrar de um destino; apenas da estrada. A noite chegou e o céu abriu-se como uma veste que se rasga. Para lá da pele que nos separa da noite, um céu estrelado e brilhante ignorava-nos na nossa banal insignificância.

Francisco Feio

 

aacubos

 

Lipograma, do grego «leipogrammatikos», «leipein» (retirar, deixar) e »gramma» (letra): «ao que falta uma letra», é uma figura de estilo que consiste em produzir um texto ao qual deliberadamente se retira uma ou mais letras do alfabeto. A intenção é sempre desconstruir os automatismos da linguagem.
Nesta sessão a proposta foi que cada um escrevesse livremente o seu texto, escolhendo a letra que queria retirar, de acordo com o sentido ou intenção do texto.
A segunda parte da sessão foi dedicada ao projecto FOLHETIM.

 

O rapaz que regressa para acabar por ficar sozinho

Todos os meses ele teve o mesmo movimento de início de regresso.
Carlos não vinha a casa há quatro anos. Tinha saído farto das disputas com o irmão.
Pensou que estava na altura de regressar e enterrar de vez todas as querelas que se meteram entre eles.
Tinha na ideia de que haveria um antes da zanga, mas na realidade esse antes já se dissolvia numa vaga lembrança.
Nada o tinha preparado para este regresso. O irmão tinha desaparecido na véspera, desejoso de o encontrar.
Partiu para um lugar que ele sabe bem ser de perda.
E desse lugar não se regressa.
Há sítios assim.
Os pensamentos podem ser poços sem fundo.

[lipograma: em cada linha falta uma vogal sucessivamente]
Francisco Feio


A Falta

Faltavam dentes na boca.
Faltavam estrelas no céu nocturno.
Faltava luz no dia acabado de nascer.
Faltava esperança na alma de quem se atirou da ponte.
Faltavam carros na ponte deserta na altura em que alguém quis cair.
Faltava água no rio que morria lá em baixo.
Faltava o silêncio nas ruas tumultuosas da cidade.
Faltava alguém que realmente tivesse ajudado.
Faltaram dentes para engolir o mundo.

[lipograma em «h»]
Helena Campos


São itinerantes, mas ficam no ouvido

Um dia, enquanto repetia “Era uma vez duas que se transformaram em três e à noite ainda aparecia mais uma” João imaginou levá-las a sítios onde elas pudessem repousar e satisfazer quem as quisesse ouvir, sentir, cheirar e até comê-las, se alguém tivesse fome para isso.
Comprou uma carrinha, forrou-a por dentro e por fora e partiu pelas estradas, não pelas A´s seguidas de um número, mas pelas IC, EN e por outros asfaltos que nem direito tinham a acrónimo e lançou-as todas as tardes.
O ritual era sempre igual: chegava, montava o pequeno palco, esperava pelos convidados e começava: “Todos os dias, Dom 5, o Fugitivo, fugia da ordem e deixava o 4 e o 6 perdidos” ou então “Era uma vez um poema chamado Golo que vivia num livro, mas, no seu íntimo tinha o sonho de "praiar".
Fosse pela novidade de ver o João a transformar-se, a ganhar vida, os olhos a colorirem, ou por outra razão qualquer, a miudagem ficava maravilhada. De repente, deixavam de estar na aldeia e estavam a acompanhar as aventuras de Dom 5 ou a pensar: Será que o Golo consegue ir à praia? ou a acompanhar a do gato que ensinou a gaivota a voar.
Alguns pensaram que bom seria que o João pudesse ficar, não 1001 tardes, mas muitas a ouvir ou a repetir o que tão bem fazia.
João e a sua carrinha fizeram muitos quilómetros, tendo imensas por contar. Qualquer dia, reúne-as num livro chamado: “São itinerantes, mas ficam no ouvido”.

[lipograma com a palava «histórias»]
Tiago Pina

 

Míngua

«Falta-me o…» e tossia. Tossia, e tossia novamente. Passávamos o tempo assim: «falta-me o…», tosse, muda de tema.
Acabou batizado «tossinhas mansas». Aqueles ataques, não tinham nada de acaso. Aqueles ataques, o «falta-me o» nunca acabado, mais que não vinham-lhe em cinco ocasiões distintas. Vejamos: quando se esquivava a questões, quando o apanhavam num embuste, quando não lhe davam a atenção devida, quando se ia de mansinho, e quando tinha ataques de tosse. A última opção, falando limpo, contava como a última e menos abundante. A última, a única! Acostumados ao «falta-me o…» inacabado, não demos pela dessemelhança desse «falta-me o…» de todos os demais. A ambulância chegou, sim, chegou. Mas ele já tinha finado.

[lipograma em «r»]
Patrícia Louro

 


Laboratór...oooops; desculpem... não posso. Não me posso esquecer.
Era só mesmo esta que me faltava não poder. Escrevo. Posso. Posso escrever.
Logo hoje, que estamos na véspera de tantos cravos L... oooops; desculpem não posso.
Não me posso esquecer.
Añh?? Voadores? Cravos voadores?? Não me posso alhear... será que me faço entender?
O que estou eu a esconder? O way out - atenção adjuvante da batota, este entretém; sempre de traço colado ao papel aos avanços e recuos; há-de chegar o «Lá chegados».
Mandem lá para o ar, os vossos, provavelmente, ao lado dos melros.... desagregados da verdade... ou talvez não.
Acertarão na palavra-chave? Mas vou dar-vos faltas... sem, portanto, nunca esquecer a tão ausente letra... logo de começo quase me escapou..., ofereço-vos neste meu espaço que é a cabeça labiríntica, dada a última pista sim!!! LABIRINTO.

[lipograma explicado no texto]
Joana Dinis

adilia

 

De dicionário nos dedos, dedicámo-nos a pilhar um texto da Adília Lopes e, depois refizemos o texto, utilizando as suas palavras. Estes exercícios de desconstrução e reconstrução são uma recompensadora forma de nos aproximarmos do texto original e dialogarmos com ele.
A segunda parte da sessão foi dedicada ao projecto FOLHETIM.

texto original:

Lua-de-Mel
Uma vez, num café, ouvi um rapaz a desabafar com outro, estava atormentado, ia-se casar e ainda não tinha decidido onde ia passar a lua- de¬ mel, se no México se no Egipto. Sartre diz que não há angústia existencial quando se está na pastelaria a hesitar entre um mil-folhas e um éclair de chocolate. Aquela lua¬ de¬ mel, no México ou no Egipto, parecia à partida um frete. Pensei que, quando se está de facto apaixonado, se passa uma lua-de-mel deliciosa na Praça do Chile.

11/3/15
Adília Lopes (In Bandolim ed. Assírio e Alvim)

 

Exercício 1 – A Adília vai ao dicionário
Substituir classes de palavras por outras que a sucedem na mesma página ou seguinte do dicionário, com as adaptações necessárias (as palavras a substituir foram selecionadas previamente).
a) Substantivos
ou
b) Adjectivos e Verbos

 

Luar
Uma vez, num comboio, ouvi uma rapariga a desabafar com outra, estava atormentada, ia-se casar e ainda não tinha decidido onde ia passear ao lua¬r, se no México se no Egipto. Sartre diz que não há animação existencial quando se está na pradaria a hesitar entre um mexilhão e um éclair de chuva. Aquele luar, no México ou no Egipto, parecia à partida uma fatalidade. Pensei que, quando se está de facto apaixonado, se partilha um luar delicioso na Praça do Chile.

(Dicionário: Oxford Pocket, para estudantes de inglês)
Francisco Feio

 

Uma vez num café ouvi um rapaz a desacertar com outro, estava atrapalhado, ia-se casar e ainda não tinha decidido para onde ia passear na lua-de-mel, se no México, se no Egipto. Sartre divaga que não há anomalia endógena quando se está na pastelaria a hibernar entre um mil-folhas e um éclair de chocolate. Aquela lua de mel no México ou no Egipto parecia à partida um frete. Percebi que quando se está de facto apanhado, se passeia numa lua de mel delirante na Praça do Chile.

(Dicionário de Língua Portuguesa, Porto Editora, 2006)
Helena Campos

 

Luar
Uma vez, num cafeal, ouvi um rapazão a desabafar com outro, estava atormentado, ia-se casar e ainda não tinha decidido onde ia passar o luar, se no México ou no Egipto. Sartre diz que não há animação existencial quando se está na patavina a hesitar entre uma mimosa e um éclair de chocolateira. Aquele luar, no México ou no Egipto, parecia à partida uma frioleira. Pensei que, quando se está de facto apaixonado (se) passa um luar delicioso na Praça de Chile.

(Dicionário Português- Italiano de Giuseppe Mea, Zanichelli/Porto Editora)
Giuseppa Giangrande

 

Uma vez, num café, ouvi um rapaz a desabrochar com outro, estava atóxico, ia-se cascar e ainda não tinha decidido onde ia passear a lua-de-mel. Se no Méxicos se no Egipto. Sartre dizima que não há angústia exótica quando se está na pastelaria a hibernar entre um mil-folhas e um éclair de chocolate. Aquela lua-de-mel, no México ou no Egipto, parecia à partida um frete. Percebi que, quando se está de facto apaladado, se passeia uma lua-de-mel delirante na Praça do Chile.

Tiago Pina


Uma vez num café ouvi um rapaz dizer a outro que estava atordoado, ia-se unir em conúbio e ainda não tinha decidido onde passear na lua de mel, se no México ou no Egipto.
Sartre divaga que não há angústia essencial quando se está na pastelaria na hesitação entre um mil folhas e um éclair de chocolate. Aquela lua de mel, no México ou no Egipto, parecia, à partida, um frete. Ponderei que, quando se está de facto apanhado, se partilha uma lua de mel delirante na Praça do Chile.

Conceição Brito


Uma vez, numa cáfila, ouvi um raptador a desabafar com outro, estava atormentado, ia-se casar e ainda não tinha decidido onde ia passar o luau se no México se no Egipto. Sartre diz que não há anhapa existencial quando se está no pasto a hesitar entre uma milícia e um éclair chomskiano. Aquele luau, no México ou no Egipto, parecia à partida uma frevioca. Pensei que, quando se está de facto apaixonado, se passa um luau delicioso na Praça do Chile.

(Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa)
Patrícia Louro


2 – Faço minhas as palavras da Adília
Descobrir outras frases, outras verdades, outros momentos no texto da Adília.
Compor pequenos poemas/textos a partir das palavras do texto. A ordem original deve ser mantida, mas as palavras podem ser decompostas.

 

num café no México,
Sartre está apaixonado
num café no Egipto,
um rapaz desabafa com um éclair de chocolate

mil folhas de angústia existencial
à partida um frete,
no México ou no Egipto

estava atormentado a hesitar
se no México ou no Egipto
está de facto
a angústia existencial

ouvi Sartre a desabafar
que um atormentado mil-folhas
está apaixonado por um éclair de chocolate

Sartre num café
tinha decidido hesitar
deliciosa angústia existencial
num mil-folhas que ia casar

no México ou no Egipto,
passar a lua-de-mel na Praça do Chile.
a angústia do éclair de chocolate!

Francisco Feio


Não há angústia existencial quando se passa a lua de mel no México ou no Egipto.
É um frete passá-la na Praça do Chile.

Helena Campos


Uma vez vi passar
A lua no México.
Aquela lua no México
Parecia de mel, deliciosa.

Giuseppa Giangrande


Um atormentado Egipto
passeia na Praça.

Tiago Pina


Sartre, na Praça do Chile, apaixonado, hesitava entre uma crise existencial e um eclair de chocolate.

Joana Dinis


Aconselhei o rapaz apaixonado, que não sabia onde passar a lua de mel – se no México ou no Egipto – a fazê-lo na Praça do Chile

Conceição Brito


Um rapaz com outro atormentado, apaixonado, passa uma lua-de-mel deliciosa na Praça do Chile.

Patrícia Louro

Basho Horohoroto

 

 

Os pequenos poemas sensoriais japoneses fascinaram muitos autores ocidentais e os naftalianos também.
A segunda parte da sessão foi dedicada ao projecto FOLHETIM.

 

Manhãs em roxo
Jacarandás em flor
A primavera

Asa iluminada
No silêncio da manhã,
A borboleta pousa

Um vento suave
Na seara ondulante,
Amarelo é o mar

Os olhos choram
Dias longos
Regressa a alergia

A luz aquece
A flor desabrocha
Renovação

A terra acorda
Em manhãs de silêncio
Vidas suspensas

Azul celeste     
Os pássaros voam
A papoila treme

                     Francisco Feio

 

Chegou, sentou-se, prometeu
Afinal, não mudou nada.

Os pássaros pipilam
de madrugada.
Atchim, atchim.

A hora muda,
mas continuam
a ser 60 minutos.

Arranco um, dois,
três, quatro, cinco.
Lá foi o morangueiro.

Bato as asas
e descubro que não
sou uma borboleta.
Encontro o chão!

O ar renova-se,
Paga-se o imposto.
Também é a Primavera!

                         Tiago Pina

 

Nas cores da manhã
Há promessa de esplanada
Uma bebida gelada

Andorinhas que voam
Borboletas que poisam
A Vida rebenta

Desabrocham as flores
A alma respira
Um corpo que espirra

Raio de Sol na janela
Brisa da manhã suspira
No chilrear da andorinha

Florescem os ramos
No grande jacarandá
Reino de abelhas

Fruta sumarenta
Sementes no chão
Prenúncio de renovação

Tradição vespertina
Sol brilha rosado
Calor que não existe

A flor estremece
A abelha namora
Com pétalas lilases

                Francisco Semedo

A andorinha morreu com o vírus
E ao contrário da canção,
Nesse ano a primavera não veio

A minha prima Vera
Nasceu entre flores
Num dia de grande silêncio

Chilreiam pássaros no jardim
Como jovens enamorados
Em searas de papoilas

Muda a hora, é primavera
É Páscoa, é renovação
São ovos, morangos e cerejas lá para o verão

Trigais em flor
Verdes searas, brisa azul
Espirro do oceano

Aquele jacarandá florido
É um pássaro cor-de-rosa
Uma borboleta lilás

                      Helena Campos 

 

Flores de primavera
Chuva de cores
Chegou uma nova vida

Luz nova
Ilumina
O silêncio da manhã

No ar a brisa
Canta mudança
E renovação

Borboletas no céu
Voam cores
Na luz de primavera

Papoilas vermelhas
Dançam ao ritmo
Da brisa

Dias grandes
Muda a hora
Luz nova

          Giuseppa Giangrande

 

 

Ouço os pássaros
Nas manhãs de silêncio.
Início da primavera.

Hoje chove
Sente-se a terra molhada.
O verde floresce.

Atravessa-se a avenida
Em filtro lilás.
Jacarandás em flor.

Devoram-se cerejas
Sujam-se trajes.
Tardes de Maio.

Esvoaçam papoilas
com a brisa morna.
Vermelho em flor.

Os voos das andorinhas
Pintam o céu.
Renasce um amor.

Borboletas brancas
No verde florido.
O encanto do mundo.

                Mariana Matias

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O ovo quebra
O pássaro chilreia
A larva morre

Comer morangos
Saborear cerejas
Enamorar-me

As cores brotam
A vida acontece
Vêm os espirros

                    Cláudio Martinho

 

Os dedos entrelaçados
No namoro jovem
Os velhos também amam

Pisar o verde da relva
Sem molestar os insectos
Que os pardais vão devorar

A papoila espreita
Na jovem seara verde
Que a brisa ondula

A flor é sedutora
sente o seu perfume
O espirro será doloroso

A ribeira encheu
Os cabritinhos correm
Já são apetecíveis

Páscoa florida
Verde e rosa
As aves também celebram

Abrir a janela à luz
No silêncio da manhã
Passeio sob as árvores floridas

                           Conceição Brito

 

 

 

 

bola neve

A escrita em Bola de Neve é um exercício OuLiPo que normalmente é feito acrescentando mais uma letra ou palavra a cada frase de um poema. Adaptámos e criámos um exercício a pares em que cada frase utiliza as últimas frases da anterior.
A segunda parte foi dedicada do Folhetim, publicado na entrada mais recente deste blog.

 

E uma frase para começar?
Começar é caminho certo para acabar.
Acabar ou pelo menos tentar.
Tentar era o que ele fazia sempre que se encontrava nesta situação.
Situação que o deixava meio zonzo ou pelo menos atordoado.
Atordoado, lembrava-lhe os tempos de juventude em que as noites eram complexas e acabavam quase sempre de madrugada num estado de vaga lembrança do que tinha acontecido.
Acontecido e largas vezes adormecido num qualquer beco mal-afamado desse alto bairro que sobe.
Sobe até chegar aquela zona plana que se estende para lá dos limites do próprio bairro e que acaba no grande muro que nos separa dos outros.
Outros para os quais Elidério nunca ligou nenhuma. Não precisava deles; a sua propensão para a desordem era notória.
Era notória e vinha de longe. Desde que se lembrava de si que a desordem fazia parte da sua vida. Estranhamente, era isso mesmo que lhe dava segurança. Nada o assustava mais que um mundo em que tudo estava no seu suposto lugar.
Lugar onde vinha a sua alcunha: "Out of order" para os estrangeiros; Fora da Lei para os falantes do português
Português era a sua língua e sempre veria o mundo desse lugar.

Francisco Feio
Tiago Pina


Abriu a porta da gaiola e o canário voou.
Voou para terras distantes.
Distantes da vista, mas tinha-as perto na memória.
Na memória estavam paisagens de uma outra vida.
Vida essa que fora vivida de braços abertos, em liberdade.
Liberdade, conseguiria a adaptar-se a ser livre outra vez?
Outra vez a voar sem destino e pousar para descansar em qualquer árvore.
“Em qualquer árvore por aí deve estar ele pousado, não deve ter ido longe. Vou sair e procurar.”
Procurar revelou-se uma tarefa bem mais difícil do que imaginara. Não havia sinal do pássaro.
Pássaros havia muitos, mas nenhum era o seu canário. “Deve-se ter perdido!”
Perdido estava ele, reparou depois de olhar em volta.

Francisco Semedo
Helena Campos

 

Vi uma borboleta no céu,
céu que anunciava chuva.
A chuva não chegou,
chegou apenas o carro que me levou à universidade.
A universidade estava fechada.
Fechada apenas por um dia, é verdade, mas fiquei muito desapontada.
Desapontada porque tinha de fazer um exame.
O exame era o último do meu curso de enfermeira.
Enfermeira queria ser eu.
Eu desejava ardentemente trabalhar na ONU como voluntária,
Voluntária no Brasil.
Brasil, país de sonho ou pesadelo.
Pesadelo não, mas só sonho.
O sonho somos nós que o cumprimos.
Cumprimos o que desejamos ardentemente.
Ardentemente, enlacei-o pela cintura e beijei-o, beijei-o com um sorriso.
Um sorriso iluminou-lhe o rosto,
Rosto que agora expressava felicidade.
A felicidade é um estado de espírito!

Conceição Brito
Giuseppa Giangrande

CarolLeighRABBITSWF

 

 

O Tite, tute,Tate, tibi tanta tyranne tulisti
Ó Titus Tazio tirano, tantas tiranias tu provocaste
                                                        Quintus Ennius (230-169 a.C.)

Conta-se que este será o primeiro tautograma escrito. Tauto=mesmo, grama=letra. Depois de lermos outros textos semelhantes, na primeira parte da sessão, ensaiámos esta técnica. A repetição deu origem a textos com um ritmo inesperado e concentrou nossa atenção nas qualidades sonoras da palavra. Além disso, é divertido… Razão mais do que suficiente para pôr a caneta no papel.
A segunda parte foi dedicada do Folhetim, publicado na entrada mais recente deste blog.

 

Francisco fez figura falando:
«Façam fila, francos fregueses franceses. Faço fiado finalmente!»
Felicidades fogazes o felicitaram.
«Faculta-me facas?» - falou Fernando de focinho fechado.
«Faça-me fotografias fluorescentes, faz favor!» - Felisberto falou fulminante.
«Fazem-me falta foguetes!» - forçou Frederico fulgurosamente.
Fingindo fleuma, Francisco falou forte:
«Franceses falei! Frade François, faça favor de falar!»
Fim.

Francisco Semedo

 

Inês, informadora imaculadamente idónea e indómita, incha irada:
Ignóbil!
Ignorante!
Idiota!
Inepto!
Ignavo!
Infame!
Insípido!
Insidioso!
Ilude-se, inconformada, inocentando idiossincrasias inanes.

Inês Rodrigues


Francisco falava finalmente fora da faculdade, fabricando frases que formavam fantasiosas ficções.
Figuras fonéticas de frondoso fascínio, fincavam forte fraseado filosófico de furtuita felicidade.
Fazia facilmente frente ao falso e frequente fulgor fugidio de feirantes que fatigava fatalmente o funambulista francês de Friburgo.
Fraca fotonovela. Faria freneticamente um fricassé de frango fumado.

francisco feio


Horas holísticas
Helena, há hospitais e hotéis
Havia homens, hienas e hospedes habitando histórias
Hoje há hipérboles hiperactivas
Hérnias hereditárias e heras heroicas
Hierarquias de hexágonos e hidras hilariantes
Há humanos hipotecados a horas hostis
Há o horóscopo, a hortelã, a honra homicida, a homeostasia do húmus.

Vi vistosamente vista da varanda vermelha a via vernácula
O verão varreu-se de veludo velho em vicissitudes vidradas
Veemente vilipêndio às voltas e voltas
O vendaval da vida vendeu-se venenosamente
Viajei veloz visando a verdade
Vulto de vontade viscosa vivendo vertiginosamente
Venho de vulcões verbalizados e ventos vegetais

Helena Campos

 

Tiago Tangadana
trauteou timidamente
trava-línguas
tão trôpego
que Tristão Trovador
teve treze traumas,
trinta trecos,
trezentos tremores.
Tão tolo tal Tiago,
tivesse testado tetrassílabos.

Tiago Pina

 

Gato Galego
gema gelada
Ginja Ginjeira
gota gotejante
gulosinar gulosinas.

Giuseppa Giangrande

 

Com cadência caricata, caranguejos caminham céleres competindo com camarões.
Correm calmos, celebrando contentes, chocalhando contra conchas coloridas.
Chacais caçadores calcorreiam, cuidadosamente, caminhos com cheiro a crustáceos: comida!
Com certeza considerável, consistentemente, comê-los-ão, conjuntamente com cavalas, caracóis, carapaus, chocos e cabaças – caso cresçam cerca.
Colossal celebração!

Conceição Brito

instruções

Julio Cortazar trouxe-nos instruções para subir escadas, chorar, cantar... Yoko Ono, no belo livro Grapefruit, indica-nos de forma poética e minimal como criar, como viver. Inspirados nestes textos, escrevemos as nossas instruções.

Na segunda parte da sessão, trabalhámos no Folhetim - as histórias podem ser vistas na entrada mais recente do blog.

 

Como afiar um lápis
Pegue no lápis. Pegue numa afiadeira. Se não tiver uma à mão, procure outro qualquer utensílio cortante. Pode ser a faca de cozinha que usa cortar os vegetais de um jantar romântico. Pode ser um pedaço de vidro da garrafa de vinho que se partiu quando estava a ouvir música na varanda, ou mesmo o bisturi do médico que salvou a vida daquele rapaz que pensava poder voar. Pode até ser o gume da espada do cavaleiro de armadura que, cavalgando sozinho na frente do seu exército, desafiou o rei tirano. O importante é que corte. Coloque o lápis na afiadeira ou encoste-o à lâmina da faca, ou do bisturi, ou da espada ou ao vidro. Retire-lhe as primeiras camadas de madeira, cheias de histórias já escritas e continue até este estar limpo. Passe agora a atenção para o carvão e carregue com força nele, até que o derramar de palavras já gastas o deixe bem brilhante.
Pressione com o dedo indicador na ponta do lápis. Se conseguir sentir a dor e a felicidade estará pronto para escrever.

Francisco Semedo


Como ler um livro (para leitores inexperientes)
Pegar num livro. Desfazer a encadernação do livro e separar todas as páginas. Atirar as folhas ao ar e deixar cair no chão. Repetir 3 vezes. Juntar as páginas e encadernar na ordem e orientação em que ficaram. Ler o livro normalmente, da primeira à última página.

Como ler um livro (para leitores experimentais)
Ir à estante e tirar um livro qualquer. Abrir o livro na última página e ler a última linha. Ir à página anterior e ler a última linha. Seguir este método até à primeira página. Voltar à última página, ler a penúltima linha e repetir o processo até não restarem mais linhas para ler.

Como ler um livro (para leitores experimentados)
Sente-se num lugar bem iluminado de luz natural, de preferência junto a uma janela, com luz abundante a entrar no espaço. Ponha-se confortável e pouse o livro num móvel perto de si. Aguarde que o dia acabe e a luz se desvaneça por completo. Agarre o livro, sinta-lhe o peso, a textura e o calor. Por fim, abra-o e deixe que os seus olhos, através da escuridão, encontrem as palavras.

francisco feio

 

Instruções para ler um livro
Lembra-te de um cheiro que gostes muito; o seu perfume, seja novo ou velho, é igual.
De seguida, limpa bem os ouvidos, veste a tua melhor roupa, penteia-te e calça os melhores sapatos que tiveres.
Abre-o, sente as letras, fala com elas e aconchega-as.
Tem uma rosa por perto para não te perderes, quando voltares à Terra.
Quando acabares, passa-o a uma pessoa a quem queiras bem.
Não precisas de dizer adeus, porque ele já és tu.

Tiago Pina


Como saborear uma história
Abre o livro e começa a saborear algumas coisas: um bolo, um pastel... Morde uma maçã... Assim vai dar sabor às palavras e poderás entendê-las melhor. O bolo e o pastel vão ajudar e adoçar as amarguras da vida.

Como escrever um breve texto em português e italiano
Mistura cores: verde, branco, vermelho, amarelo, azul... e sons: o mar, a língua... Irás ter um breve texto em português e italiano.

Giuseppa Giangrande

 

Como consultar um dicionário
Consultar um dicionário é uma jornada de amor. É preciso amar as palavras, sentir o deleite profundo de as saber contidas num volume, generoso de tamanho e dedicação, que se abre para nós numa dádiva de sabedoria sempre que o solicitamos.
Em primeiro lugar, é preciso gostar de ler. Ou de escrever. Ou de ouvir. Ou de falar. Assim se adquire um manancial de matéria prima, as palavras, que vão deslizando pela nossa alma até, de repente, tropeçarmos num termo que nos trava. Quem és tu, palavra desconhecida? Seguir então, escrupulosamente, as seguintes orientações de pesquisa e esclarecimento.
1 – Extrair o dicionário do seu lugar habitual com o cuidado e a reverência que merece;
2 – rever o ordenamento das letras, no alfabeto, para ter uma percepção do local onde poderá afastar as folhas, para início de pesquisa;
3 – abrir respeitosamente as páginas, sem lamber os dedos;
4 – consultar os cantos superiores esquerdo e direito de cada uma, para chegar a uma constelação de letras que se aproxime do objecto da pesquisa;
5 – deslizar um indicador pelas eruditas linhas até encontrar a palavra que nos fez parar.
Pronto, já sabemos um pouco mais!

Conceição Brito

 

Como saborear uma história
Comece por se dirigir à cozinha e prepare um cocktail alcoólico, ou um sumo de frutas ou um sumo de legumes, temperando-o a gosto.
Prepare a cadeira mais confortável que tiver e coloque-a junto à janela ou à varanda. Ponha uma almofadinha contra o espaldar da cadeira ao nível dos seus rins. Coloque em frente da cadeira um apoio calibrado para os pés. Consoante a estação do ano, e para o tempo frio, calce um par de mitenes, botas altas macias forradas de pêlo e tenha à mão uma manta quentinha. Pelo contrário, nos dias quentes, dobre um xaile levíssimo no seu colo para as madrugadas e o entardecer. Sente-se confortavelmente e saboreie um sorvo da bebida que elegeu. Leia a primeira página do seu capítulo, depois a do meio seguida da última. Vá degustando quer a sua bebida quer as palavras de cada capítulo gostosamente até ao fim.

Lídia Vieira

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