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LABORATÓRIO DE TEXTOS

Esta é uma fresta por onde se pode espreitar o nosso laboratório.

Gostamos de experimentar textos, inventar espaços e condições especiais e neles deixarmo-nos espantar pelo que acontece.

Aqui, recolhemos algumas das linhas que vão sendo criadas em diferentes oficinas. Algumas delas, dirigidas a antigos alunos, como a Naftalina, são iniciativas regulares; outras, abertas a quem por cá passa, são encontros e iniciativas extra-aulas. Placas de Petri.

Os textos, produzidos no tempo e condições das sessões, têm como único — e suficiente — critério de publicação a vontade do seu autor de vê-los aqui reproduzidos. Experimente ler, mas proteja-se: o prazer da experiência pode ser contagiante.

O FOLHETIM é um projecto de histórias a várias mãos vão sendo escritas ao longo das sessões. Cada história tem 5 episódios.
 FolhetimAs histórias em curso podem ser lidas nesta publicação.
À medida que se completam, passam para aqui:

Na sessão de 1 de maio fechámos algumas histórias:
Fantasmas na Biblioteca, O Desafio e Duvidar é humano.
Os textos completos estão ainda aqui antes de passarem para a publicação referida acima.

Continuam (resumos):

Escolha: Manuel vê por todo o lado a imagem de um ser que finalmente lhe diz que vai tomar o seu lugar no outro lado. Chega à conclusão que o «outro» é ele próprio e que precisa de dar uma reviravolta na sua vida. Ouve chuva, lá fora e numa música. Fica com os pés encharcados e toma uma atitude. Decide chamar José ao seu outro «eu» saem juntos. Numa montra um manequim olha-os e José começa a chorar. Manuel foge para casa, decide confrontar o seu outro e tentar que um caminho paralelo o salve da crise a que chegou.

À espera: o texto começa com um poema que cruza a primavera, a guerra que vivemos, a espera que nos resta. Depois, a história continua com uma personagem numa era em que não há guerra, nem trigo, nem quatro estações do ano...

Sinais de Fumo: Micael, um empregado de supermercado, acaba o turno, há no ar um atmosfera de ameaça velada, mas que não passa disso. De repente a sirene dos bombeiros começa a apitar. O armazém explode e entre gritos de evacuação vê uma bandeira russa e uma frase em alemão

Capa Preta: o início situa a história no funeral de um escritor, «comerciante de palavras», como o autor diz. Família, amigos e leitores cumprem o ritual da despedida. De repente, um baque e um grito abafado. É a narradora que desfalece, inconsolável com o desaparecimento do autor. Mas uma voz conforta-a, parece a voz dele...

O homem que queria abraçar o Sol: o desejo deste homem parece condenado, por um lado «sol» é muita coisa, por outro, o movimento celeste faz com a localização seja sempre problemática. 
Cogita e ocorre-lhe que talvez possa apanhar a estrela com outras estrelas, desde que devidamente protegido para não estorricar como os frangos do primo.
 
Novos caminhos: uma pessoa reflecte na necessidade de mudar de vida e de repente o telefone toca. Do outro lado, uma voz desconhecida. É o convite para voltar a ingressar no coro Coral. O convite e arco-íris parecem um bom prenúncio. Lembra-se de ter abandonado esse coro há anos, aborrecida. Um amor antigo fala-lhe do outro lado do telefone, mas há ressentimento no ar... «Patife», chama-lhe ela, antes de aceitar o seu convite.

 

À espera (cap. 1,2)

 

à espera
sentada à espera da primavera
veio outra coisa
chegou a fome, chegou a guerra

melhores coisas aconteceram a uma quinta-feira
eu nasci a uma quinta-feira, não digo que fui incrível, mas nunca fui uma guerra.

nesta quinta-feira,
um espaço contestado entre este e oeste
ergueu-se à porta de casa, no jardim

um pedaço de terra que
ameaçava rasgar-se em dois
puxado por forças téctonicas
que seguiam caminhos separados
ao final de tantos anos juntas

dizem que este ano a colheita de trigo não será a mesma
os campos que sobreviverem até ao verão, não serão colhidos

os que morrerem, morrem queimados, tóxicos

a terra estéril, e o mundo com fome, com medo, com sede de vingança
quando não tivermos trigo para comer, alimentar-nos-emos de raiva.

mas a primavera ainda não chegou, e tudo ainda pode mudar.

é sentar e esperar.

«Estranho, este pequeno texto», pensou. Surgido numa folha manuscrita, como que enfiada à pressa num livro de química da biblioteca, intrigava-o profundamente.
Fome e guerra eram coisas que desconhecia, embora tivesse lido sobre o tema e o mundo vivesse em paz há várias décadas.
Já a primavera era-lhe familiar. Uma estação do ano que durava seis meses e alternava com o outono.
Quanto ao trigo, há muito que muito que deixara de ser produzido, desde que a dieta humana passara exclusivamente a ser baixa em calorias e rica em gorduras.
«Será algo anterior ao Degelo, uma peça com valor arqueológico», concluiu.

 

Cláudia Madruga
Fernanda O'Brien

 

Sinais de Fumo (cap.1,2)

 

Nas colunas do supermercado tocava a rádio local intercalada pelo Pi, pi, pi. A conta subia. Micael, funcionário do supermercado, ia passando os produtos, sobretudo conservas e mercearias, trocava com os clientes umas palavras de circunstância e aqui e ali uns pequenos sorrisos, apesar de tudo. Ninguém levava a ameaça a brincar mas também não se deixavam abater por ela, afinal ainda não passava disso, uma ameaça. As prateleiras começavam a ter um ar despido mas ainda havia suficiente para ninguém sair de mãos a abanar.
Lá fora a luz diminui, aproxima-se a hora de fecho e Micael já pensa no jantar. O som do rádio é abafado pela sirene do quartel dos bombeiros.
O armazém explodira sem que Micael, trôpego pelo cansaço, disso se tivesse apercebido.
- Estás parvo ou quê? É evacuar! – gritou-lhe o supervisor
- Ã?!
E ele evacuou, a olhar aterrado para a fumaceira, mas anestesiado pela fadiga.
Um ucraniano fugia aos berros do interior do armazém em brasa.
- Chamem polícia!
Dois tipos enrolados na bandeira russa precipitaram-se para dentro de uma carrinha que ostentava no vidro uma frase em alemão – «Moskau über alles».

 

João Cotrim
Helena Campos
 

Capa Preta (cap.1,2)

 

Chove. A despedida chora-se. Chegam, um a um, os teus amigos, a tua família. É inverno, a capela está fria e todos trememos, temos a alma gelada. Vamos colando num álbum, uma fotografia em que apareces como pai, irmão, avô, amigo, amante ou simplesmente comerciante, de palavras. No íntimo da ermida, entre soluços, encapamos a tristeza de olhos postos em ti; no átrio, os teus leitores, abrigam-se em capas pretas. Na pedra, livros são amontoados em tua homenagem, protegendo, para todo o sempre, numa dura capa, os capítulos da tua história. Alguém rompe o silêncio e sente-se um forte baque precedido de um grito abafado
Era eu, encoberta pela capa preta, que caí para o chão “come corpo morto cade “ nas palavras de Dante... eu, amante dos teus livros e ardente admiradora das tuas palavras. Só agora percebo que te perdi para sempre, quem me vai regalar aquelas palavras bonitas, que me faziam sobressaltar o coração?
Chega aos meus ouvidos uma voz, acho que é a tua voz, ou melhor, aquela das tuas palavras. Uma mão forte ajuda-me a levantar-me do chão e sempre a mesma voz sussurra para me dar conforto... 
Joana Leitão
Giuseppa Giangrande
 

 

O homem que queria abraçar o Sol (cap. 1,2)

Era uma vez um homem queria abraçar o Sol. O problema não era que o Sol fosse um rei ou um deus. É que rei também é o Roberto Carlos e não recebe menos abraços por isso. A grandeza do problema era verdadeiramente astronómica: é que o Sol tem uma órbita! O circuito da mecânica celeste faz com que o Sol ande de um lado para o outro. Se o poente devém sempre nascente, é porque o Sol ao dormir, que é o que se faz à noitinha, levanta-se sempre no mesmo sítio onde se deitou. Ou então, o Sol mexe-se muito à noite e acaba por rebolar celestialmente até ao nascente.
Foi então que lhe surgiu a ideia de atrapar o Sol o tempo suficiente com uma corda para o poder agarrar. Mas como? Qualquer tipo de material seria facilmente incinerado…com a exceção de um.
O Sol era uma estrela, portanto podia ser encurralado pelas suas compatriotas! Coincidentemente lembrara-se do seu amigo, o qual inventara uma tecnologia de encolhimento. Pois é, podia usá-la para fazer uma corrente de estrelas. Não era mal pensado, até porque ao contrário do Sol, as estrelas estão fixas na abóboda celeste. Facilmente vai-se ao local com uma nave espacial e selecionasse as melhores.
Mas se o seu plano desse resultado e parasse a bola solar fugitiva, conseguiria finalmente abraçá-la sem ela o punir? Claro que sim, por isso é que levaria um fato à prova das radiações solares, para não ser estorricado como os frangos deliciosos do seu primo.
Benjamim
José Maria Covas
 


Escolha (cap. 1, 2,3, 4)

Não sabia o que fazer. Via-o no espelho ao acordar, nas poças da rua que percorria para o trabalho, até no vidro dos óculos quando os limpava. Sempre calado, a olhar para mim fixamente. Sentia-me cada vez mais fraco e notei ontem que o rosto parecia mais jovem no vidro da janela. Toquei na superfície refletiva e inexplicavelmente comecei a ficar melhor. Foi então que o ser falou. Manuel, está na hora de trocar. Oh não, fez-me algo. Se quiser viver, tenho de agora tomar o seu lugar no outro lado, mas valerá a pena? Afinal, vou ficar trancado, tendo apenas os meus próprios pensamentos como companhia.
E, para dizer a verdade, era boa a companhia dos meus pensamentos. E, ao final, percebi que aquele ser, que quase se tinha tornado uma perseguiçãoção, era eu mesmo.
O outro lado era o meu lado que tinha ficado escondido, incapaz de ler, até àquele momento, dentro de mim.
Tinha -me afastado de tudo o que era importante na minha vida, era um ser muito solitário.
Agora era a altura certa...se eu quiser viver, tinha que dar uma reviravolta à minha vida.
Começou a chover... aquela chuva que limpava os vidros da janela, limpava a minha existência. O ressoar de uma canção: «... E eis que ela bate no vidro, trazendo a saudade...»
Manuel começou a sentir os pés encharcados e isto fez com que voltasse a si.
Fechou a porta da varanda e entrou em casa. Olhou à sua volta, estava desarrumada, cheia de passado.
No cadeirão viu a sua figura, esperava-o. Era hora de fazer alguma coisa. Primeiro, decidiu chamar-lhe José.
Ele e José seriam uma equipa e juntos iriam dar a volta à vida de Manuel.
Com o sol já a espreitar lá fora, pegaram na mala amarela que estava a ganhar pó à porta de casa, desde aquele dia, e saíram os dois.
Já na rua, Manuel tropeçou numa montra e quando viu a manequim olhar-lhe de volta, José começou a chorar.
 Manuel começou a sentir os pés encharcados e isto fez com que voltasse a si.
Fechou a porta da varanda e entrou em casa. Olhou à sua volta, estava desarrumada, cheia de passado. No cadeirão viu a sua figura, esperava-o. Era hora de fazer alguma coisa. Primeiro, decidiu chamar-lhe José.
Ele e José seriam uma equipa e juntos iriam dar a volta à vida de Manuel.
Com o sol já a espreitar lá fora, pegaram na mala amarela que estava a ganhar pó à porta de casa, desde aquele dia, e saíram os dois.
Já na rua, Manuel tropeçou numa montra e quando viu a manequim olhar-lhe de volta, José começou a chorar.
- Aquele tipo deve estar bêbado ou doente – comentou o funcionário da loja – a tropeçar assim nas montras! Ó amigo, quer ajuda?
- Não, não obrigado – respondeu Manuel, enquanto a manequim lhe fazia caretas
diabólicas e José gesticulava para ele se ir embora.
Manuel regressou a casa e pegou no frasco dos comprimidos. Tinha de tomar um para parar com aquelas alucinações. Lá estava José de novo sentado à sua frente. Manuel não queria que na rua alguém percebesse que ele padecia daquela doença. Mas antes disso, queria ter uma conversa final com aquele José, aquela versão mais nova dele próprio, e orientá-lo para outra escolha num universo paralelo.
Quem sabe se a escolha tivesse sido diferente na sua juventude, ele não estivesse ali, na meia-idade, fracassado, alucinado e encharcado em comprimidos.
José Maria Covas
Giuseppa Giangrande
Rita Gomes
Helena Campos

Novos caminhos (cap. 1, 2, 3)

Estou um pouco cansada de fazer sempre as mesmas coisas. O que me incomoda mais é a arrogância de certas pessoas, agora chega, quero fazer algo diferente e apesar do grande risco, tomei uma decisão: vou virar a página da minha vida, tenho que retemperar forças e pôr-me a caminho. Não sei onde isso me vai levar, mas o importante agora é mudar de rumo.
Estou a pensar muito nisso, quando o silêncio que me rodeia é quebrado pelo retinir do telefone. Não sei se atender ou não...
Acabo por atender. E do outro lado ouço uma voz que não conheço...
Enquanto ouvia as primeiras palavras, detive-me a olhar pela janela: um arco-íris acabava de se formar. Sempre tive esta crença de que os arco-íris anunciam coisas boas.
- Boa tarde, faço parte do coro Coral e o seu nome e contacto consta da lista de anteriores membros. Pensamos retomar a atividade em breve e estamos a contactar antigos cantores. Estaria interessada em cantar novamente?
Lá estava a «magia». Como era possível? Parecia que alguém, nalgum lado, adivinhava este meu desejo de fazer algo novo.
Bem, não era assim tão novo, pois já lá tinha cantado. E a bem dizer, não me lembro porquê, mas o certo é que tinha abandonado o coro, aborrecida, há já alguns anos...
Hesitava em responder, não sabia bem o porquê, mas o meu coração batia agitado.
A voz no outro lado da linha adivinha o meu estado e interroga sobre a demora na resposta:
-Então não voltaremos a cantar juntos!?
-Mas... quem fala afinal?
-Eu...
-Eu quem?
- Alguém da tua infância...
-És tu e estás a ligar passados 25 anos?
-Sim, reconheço que já deveria ter ligado antes..., mas sabes, tenho andado ocupado!
-Patife...
-Nunca esqueci...
-Nem eu...
- Sempre vens cantar? Adorava rever-te.
E eu disse-lhe que sim. 
Giuseppa Giangrande
Teresa Gonçalves
Frederico d'Orey

Duvidar é humano e eu sou apenas humana (completo)

Não devia ter sido tão assertiva. Fui um tanto rude. Mas de que outra maneira poderia eu defender-me? Ela agiu mal e eu tinha que a fazer ver isso mesmo. Não porque eu lhe esteja a tentar dar uma educação que ela não teve, mas sim porque ela tem que perceber que não pode esperar tratar-me daquela maneira sem que eu responda. Não deixarei que a minha pacificidade demonstrada até então seja confundida com fraqueza. No entanto, mesmo sabendo que ela agiu mal pelo que fez, não consigo não me sentir mal, culpada pela maneira como falei. Talvez houvesse outra maneira de me expressar. É uma parvoíce, eu sei. Mas é humano duvidar, é humano errar. De certa forma, quem me diz que ela não está a pensar também no mesmo? Pela pessoa que é não creio que seja o caso. Mas não tenho a certeza, naturalmente. Quero ser uma pessoa melhor, não quero errar. Mas de que forma espero eu melhorar sem errar?
Eu sou uma máquina a fazer erros, erros em linha de montagem, erros em cascata, o erro sistemático, o erro em dominó, o erro tragédia grega.A babel da linguagem, a polissemia, as múltiplas interpretações de uma frase.
Aspiro a uma vida bonançosa e não à sobressaturação em que vivo atolada.
Ela era a minha chefe, a minha patroa, dela dependia a minha sobrevivência.
Que naquela empresa não havia teletrabalho – disse ela com displicência
- Como? – espantou-se o inspector da ACT – estamos em pandemia!
E chamou-se o sindicato e 3 doutos advogados para clarificar a frase.
- Chame a polícia! Meta em tribunal!
Já imaginava as calúnias no tribunal.
- Chega sempre atrasada, passa a vida no dentista, não sabe nada.
Os machistas dos juízes haveriam de ficar do lado da entidade patronal, e eu estou farta desta violência opaca que nos tolhe.
Vi-me a mim própria, como um autómato de cera, a assinar um acordo de revogação infame e suicidário e sair porta fora para uma Lisboa alienada.
Sim, a alienação apoderou-se de mim, assim como da cidade. A minha cabeça estava confusa, vagabundava pelas ruas de Lisboa, sem que percebesse nada do que estava a acontecer ao meu redor.
Assim transcorreram as horas, num caminho que parecia sem fim.
Era já noite, apanhei um eléctrico que me levou a dar a volta à cidade, parecia que estava num carrossel, numa ronda louca que não parava.
Acho que acabei por adormecer, porque de repente uma mão me sacudiu do torpor em que me encontrava.
Saí do eléctrico, que me restituiu de qualquer maneira à vida, na cidade vazia.
Desde uma janela rompeu o silêncio da noite uma antiga canção italiana: Città vuota e fiquei a pensar em como podia sair daquele beco sem saída...
A filosofia new age veio em meu auxílio e uma das minhas vozes (chamo-lhe Bette porque é uma típica personalidade de tipo A, sempre motivada para me pôr em movimento. É verdade que a Bette original não é nada new age, mas no calor dos apuros estas distinções são detalhes com pouca importância), recitou: Uma longa viagem começa com um único passo!
E os meus pés obedeceram, começaram a mover-se, um à frente do outro, em direção à janela de onde provinha a canção «Le strade piene/ La folla intorno a me/Mi parla e ride».
Nisto, o telemóvel começou também a cantar dentro na mala, «Peguei, trinquei e meti-te na cesta,/ ris e dás-me a volta à cabeça/Vem cá, tenho sede, quero o teu amor d'água fresca/ Peguei, trim».
- Alô?
- Estou a falar com a senhora Clara Machado dos Reis?
- A própria.
- Sou o senhor Calvo, do sindicato. Estou a telefonar-lhe para resolvermos esta situação amigavelmente.
Foi nesse momento que a sua personalidade mais pragmática, a Senhora Custódia, se manifestou.
-Já está resolvido, não se preocupe.
Antes de o homem poder responder, Custódia tirou da mala o controlo remoto e premiu o botão. Clara recuperou os sentidos com o som da explosão do edifício para o qual tinha retornado, ao som da música sugestiva das suas personalidades.
-Desculpe, não a consegui ouvir bem com o barulho de fundo?
Clara desligou o telefone, horrorizada com o sucedido, mas depois, a música regressou. De olhos arregalados para as chamas, um pé começou a mover-se, depois o outro. As mãos também inconscientemente se juntaram à dança. Por fim, Clara entregou-se ao impulso súbito de se despedir da sua antiga vida e começar de novo. Tudo graças às suas ricas amigas. Conheciam-na de ginjeira e sabiam como motivá-la a resolver os seus dilemas existenciais.
Clara Barreto
Helena Campos
Giuseppa Giangrande
Patrícia Louro
José Maria Covas

Fantasmas na biblioteca (completo)

- Você andou no liceu ABC – irrompeu uma voz no silêncio da biblioteca municipal.
Eu levantei os olhos para ver quem falava, mas não o reconheci. Tinha ido à biblioteca ultimar uma pesquisa necessária e não esperava que o passado se intrometesse, de rompante e a más horas, na calmaria ordeira do presente.
Fixei o meu despropositado interlocutor e respondi:
- Sim, é verdade, mas isso foi há 35 anos.
Mas para ele não havia 35 anos, era como se estivesse plantado e enraizado no ABC e o passado fosse eternamente presente, sem descolar do chão sagrado da infância.
- Mas você era da minha turma? – perguntei, perscrutando o seu rosto, subitamente rubicundo, em busca de perceber quem ele era.
O meu cérebro, atafulhado e gasto, não conseguia localizar, assim de repente, no catálogo de colegas da adolescência, quem era aquele sujeito.
- E você foi para que área? – indagou ele, antes de fugir com uma pressa inusitada, deixando-me a olhar para aquela porta que vai dar ao passado.
Aquilo da área fez-me localizá-lo, tinha-me cruzado com ele, nos idos de 84, no gabinete de orientação vocacional do 9ºano, onde eu desgracei a minha vida ao escolher a área errada.
Depois, voltei a encontra-lo mais 3 vezes, em diferentes bibliotecas, como um fantasma, que surgia do nada, abalroando o silêncio daqueles templos de leitura e acabando por fugir velozmente, como se fugisse para o interior dos livros.
Voltei à primeira biblioteca. Estava decidida a continuar o trabalho de pesquisa com que me tinha comprometido. E isto apesar do pânico de ser máquina nervosa de não escrever coisa nenhuma. Afinal aquela história de fantasmas não podia ser verdade. Claro está; não contei a ninguém; não me fossem dar como louca varrida por um fantasma do 9.º ano. Vá lá, não tinha as cuecas rotas; já não era mau.
— Parvoíce. — exprimia o meu cérebro.
Sentei-me noutro sítio. Justamente, o oposto de onde me sentava habitualmente. Não fosse o Senhor Fantasma tecê-las e aparecer-me de novo. Abri, mais uma vez, O Discurso do Método, cuja tradução portuguesa insistia em chamar «Renato Cartésio» a Monsieur Descartes. «O bom senso é a coisa do mundo mais bem distribuída».
— Que reconfortante; nada melhor que ideias claras e distintas! — desabafava o meu cérebro consigo mesmo.
O fantasma inesperadamente saiu do livro e falou-me:
— Pandam, pandam. Aqui ‘tou eu; em espécie de malin génie.
— Cruzes canhoto! Lá está ele outra vez. — expeli eu de surpresa.
Julguei estar louca; lá continua ele a turvar-me as ideias, agora escuras e indistintas. Qual corcundinha perturbador, das histórias de infância alemães, do início do século, ele assobiava e girava os livros sob a mesa. O Senhor Bibliotecário olhava-me com um ar inquisidor, pois eu fechava os livros de rompante — na sua perspectiva claramente redutora — para que eles (os livros) o levassem.
— Raios o partam! — pensava o meu cérebro indiscutivelmente atarefado.
Ele corria entre as estantes dos livros e eu, num ímpeto, corria atrás ou através dele.
— Já nem sei bem. — lamuriava-se o meu cérebro que já não aguentava com uma gata pelo rabo.
Tudo isto foi o suficiente para que o bibliotecário se precipitasse atrás de mim a correr, gerando uma perturbação generalizada na biblioteca normalmente pacata.
O Senhor Fantasma abriu a porta do passado — a tal por onde o havia reconhecido da primeira vez — e sem hesitar corri atrás dele, entrando lá para dentro. Ou era isso, ou teria que explicar algo inexplicável ao Senhor Bibliotecário.
Lá entrei e ele esfumou-se.
Um ambiente profundamente azul, mas de uma claridade inusitada. Um passo instrumental de tonalidades inescrutáveis e na minha cabeça um gira-discos impossível cantarolava lentamente: «Huuummm / She wooore bluuue veeel-vet / Bluer than velvet was the night / Softer than satin was the light / From the stars / She wooore bluuuue velvet / Bluer than velvet weeere her eyes». Era uma sala toda enfeitada com espelhos emoldurados à maneira dos russos. Enormes, douradamente espalhafatosos, mas de algum modo graves. Cada espelho reflectia a imagem de uma fase da minha vida até aos idos de ‘84, onde eu me via acompanhada desse fantasma. Ele-mesmo, o Senhor Fantasma, mantendo-se igual a si próprio, mas em situações onde não poderia ter estado, segundo a memória que o meu cérebro conservava desses eventos. E o disco girava repetitivamente na minha cabeça nesse tempo em suspenso como uma fotografia, cujo canto inferior esquerdo estava queimado pelo sol.
Abri os olhos na hora do fecho da Biblioteca, cabeça encostada nos braços, sobre o livro. Pisquei várias vezes em busca da imagem do azul infinito do meu pesadelo, entre atração e horror... Mas tudo parecia igual, a mesma mesa, na mesma sala de sempre. As pessoas saiam da sala aos poucos, silenciosamente, apenas murmúrios de despedida ao bibliotecário. Habitantes normais deste mundo recolhido, não identifiquei o meu fantasma nem os fantasmas de mim própria.
Levantei-me devagar, receosa do que poderia ser real ou imaginário, de ser novamente tomada por aquela memória psicadélica dos meus receios. Não acreditava que o pó e o tédio do “Discurso do Método” pudessem ter um efeito tão fantasioso. Não tinha experimentado cogumelos...
Invadiu-me o medo, a idade... a saúde... teria tido um AVC? Já que li que nas paragens do coração, quando e cronometro do nosso corpo interrompe, o nosso cérebro passa-nos rasteiras, o passado nos assalta e o azul, um azul profundo nos arrasta.
Quando cheguei a casa encontrei o Discurso do Método na entrada. Quem teria tido a amabilidade de mo entregar? Talvez alguém vira como o meu estado mental me tinha feito deixar o livro na mesa da biblioteca, com a folha de requisição por cima. No entanto, a folha de requisição permanecia vazia.
Ao folhear as páginas deparei-me com uma carta dirigida a mim pelo meu colega fantasma. Nesse momento, o filme da nossa vida passou à frente dos meus olhos e, não aguentando mais, caí no chão, enquanto as lágrimas inundavam-me a cara. Mas por que razão eu lhe tinha pedido para me impressionar com um gelado naquele dia abrasador? Talvez se não tivesse atravessado a rua a correr, para apanhar a carrinha, estaríamos na mesma área, a fazer juntos pesquisa na biblioteca…
E, como disse, passaram pelos meus olhos imagens de um passado que, muito infelizmente, não vai voltar.
Apesar de tudo, não tinha morrido, nada disso... andava a ler aquela carta e as lágrimas continuavam a cair copiosamente...
O texto, ao final, lembrou-me algumas coisas que tinha esquecido e que estavam escondidas no fundo da minha alma. Agora entendia o que aquela visita inesperada nas várias bibliotecas significava para mim: eu tinha sempre considerado as minhas escolhas como um erro, mas talvez não fosse assim... sim, finalmente podia entender também o sentido da vida e do ser feliz: é importante não ter remorsos e a felicidade é amar o que se tem...
Aquele fantasma tinha irrompido na minha vida para me lembrar disso e agora queria muito reencontrá-lo para agradecer, quiçá possa ter novamente essa oportunidade...

Helena Campos
Benjamim
Helena Aragão
José Maria Covas
Giuseppa Giangrande
 

O desafio (completo)

Não tinha escrito já há muito tempo, não tinha vontade de fazê-lo, não sei por quê.
O meu amigo, o meu editor, vendo a minha indolência, desafiou-me a escrever algo, estava em jogo a minha reputação de escritor de renome. Deu-me um ultimato: dois dias para escrever uma história, não era importante o quê. Fundamental: ter uma história.
Então, o que fazer? Comecei a fumar como uma chaminé e daquelas linhas traçadas pelo fumo, começou a surgir algo interessante, pelo menos assim creio...
Para encontrar inspiração, tomei a decisão de dar um passeio, chegar até o rio e desfrutar do dia soalheiro.
A vista de um barco à vela sugeriu-me que podia escrever algo sobre mundos diferentes, longínquos, apesar de eu nunca ter viajado...
De afogadilho, corri como o vento para a minha casa e sentei-me para começar a escrever: frente a mim, a janela aberta, através da qual entrava uma leve brisa que levantava ligeiramente as folhas de papel que tinha posto no meu escritório. Na minha mão, a caneta... desta vez não ia escrever ao computador...
As caravelas traziam especiarias e sedas das Índias e era uma grande barulheira no cais, uma azáfama de promissora riqueza e ociosidade.
Um sujeito de chapéu negro e vestes negras olhava o cais e escrevia de pé sobre uma pedra. Outro sujeito, cego de um olho, nadava furiosamente, com um manuscrito amarrado aos cabelos.
A terra estremeceu e as caravelas foram arremessadas para longe. Impossível atracar no cais. O cais, essa saudade de pedra, um quinto império obliquamente visionado, ali na barra do tejo.
- Olha o barco! – grita alguém, interrompendo a torrente de palavras do escritor.
Quando olhei para o cais, achei que estava a sonhar. A caravela da minha história tinha se materializado no rio. O pobre zarolho agarrava-se à âncora que velozmente descia enquanto a tripulação desembarcava. Finalmente a minha escrita tinha feito algo de bom!
Corri até ao barco na ânsia de ajudar o famoso escritor que se estava a afogar. Estendi-lhe a mão e, ao sair da água, a figura apressadamente desenrolou os cabelos para confirmar se o manuscrito estava intacto. A maré de alegria visível na cara do poeta despertou um negro impulso dentro de mim. Lembrei-me do ódio que sentira quando o meu editor me comparara com ele em termos de sucesso literário. Foi por isso que arranquei das mãos calejadas do náufrago o trabalho da sua vida e, de seguida, o incendiei com o meu isqueiro.
Ai! Rasguei o silêncio com um grito. Não fosse o cigarro queimar-me o dedo e não me aperceberia das chamas que comiam o papel. Sempre tive um sono profundo. Na minha atrapalhação, tentei apagar o fogo com as folhas que já tinha escrito. Idiota. A brisa tinha-se transformado num vento forte e espalhou as fagulhas por todo o escritório. Matei o assunto de uma vez por todas com a camisola que me tinha oferecido a Dulce, a mulher que escrevia livros duas vezes. Fechei a janela, com força. Na minha secretária, encontrava-se uma mancha negra onde antes pousavam páginas escritas. Empurrei o entulho para o chão e voltei a pegar na caneta. Entre calores: do suor e da irritação, veio a mim a determinação de Camões.
Eu era um escritor!
Um dia e meio, chegava. 
O sonho pode materializar-se, fechei os olhos, respirei fundo e voltei a ver a caravela. Agora ela partiu do porto rumo ao oceano para explorar, descobrir e enfrentar obstáculos como outras séculos antes o fizeram, pois há a uma imensidão de saber no mar que ainda não foi conquistado pela humanidade.
A pequena caravela já não leva aprendizes de marinheiro imundos a bordo, mas sim uma equipa de cientistas para estudar ecossistemas marítimos. Já não abre caminho para conhecer novas terras e gentes, mas saberes provenientes das profundezas do mar.
A aventura agora é outra, o desafio da minha caravela é explorar novas formas de vida que nos permitam construir o um mundo mais sustentável. Ela parte eu vejo-a desaparecer ao longe no imenso azul e aguardo pelo seu regresso, pelas novidades que ela me trazer de volta que e permitam à humanidade enfrentar os novos desafios do futuro.
Giuseppa Giangrande
Helena Campos
José Maria Covas
Rita Santos
Sandra Martins
 

zzz seta
«Um escritor deve acreditar que o que está a fazer é o mais importante do mundo.», John Steinbeck.
A frase de Steinbeck deu o mote: o que faz o escritor. Pode-se fazer o guia, a tábua de regras da escrita? Ou em cada texto, estão já as instruções?
Voltando ao real, os textos prescritivos são um excelente pretexto para escrever e, desde o início, tiveram lugar nas nossas oficinas. Nesta sessão voltámos aos textos de Cortázar e espreitámos poemas de João Luís Barreto Guimarães, Vicente Piqueras e Neil Gaiman.
Estes foram os textos que criámos.

 

Sentes-te sozinho?
Triste?
Deprimido?
tens saudades dos tempos da escola?
Precisas de te conectar mais com as pessoas
Precisas de amigos.

Primeiro passo para fazer uma amizade
Olha-te bem no espelho.
O que vês?
Não tenhas receio, medo
Abre bem os olhos
Não vejas só o reflexo
Procura mais fundo dentro de ti

Segundo passo
Olha à tua volta
Que pessoas vês?
Quem são?
São diferentes de ti?
São parecidas contigo?
De que gostam? De que não gostam?
Não fiques pela superficialidade
Não te deixes enganar pelo preconceito

Aproxima-te com um sorriso
Um sorriso poupa palavras
Quebra barreiras
Abre portas
Abre vidas noutras vidas

Sandra Martins


Instruções para lavar as mãos
Em Roma no ano 33, Pilatos pediu um púcaro de água que verteu sobre as mãos
cobardes que podiam ter salvo o sangue inocente de Cristo.
2000 anos depois, na Rússia, o presidente lava as mãos numa casa de banho
esplendorosa ante o sangue de ucranianos inocentes.
Derretem-se as calotes polares num oceano putrefacto, sobe a temperatura a 50ºC na
Índia e os magnatas lavam as mãos na sua toilette de ouro.
Espalha-se um vírus mortal de oriente a ocidente e os chineses lavam as mãos no
remanso do rio amarelo.
Instruções para lavar as mãos:
- Daltonismo para vermelho sangue
- Um pedregulho no lugar do coração – (esta já dissera D. Pedro I de Portugal dos
algozes de Dona Inês de Castro).

Helena Campos


Instruções para viajar no tempo
Pega num livro, em fotografias de um tempo longínquo e deixa-te levar pelas lembranças, verás que vais fazer uma viagem que te conduzirá pelo passado.

**

Instruções para escrever imagens
Toma o azul do céu e do mar,
O verde de um prado,
O vermelho, o amarelo, o cor-de-rosa das flores...
Usa as palavras que saem do coração para as fixar no papel, assim vais escrever imagens

**

Instruções para conseguir algo
Talvez seja preciso fazer apenas uma coisa: não deixes de sonhar...

**

Instruções para quando é preciso ficar em casa em um dia de festa ou de sol
Abre a janela, respira fundo o ar e deixa que o sol acaricie a tua cara...
Deixa-te levar pelo optimismo e tenta ver a vida com cor-de-rosa, apesar das dificuldades.

Giuseppa Giangrande

 

«O mundo é um inferno e a má escrita destrói a qualidade do nosso sofrimento.», Tom Waits.fd5a8fdf1589a78463492a8c9c009b9a
Nesta sessão deixámo-nos inspirar por Tom Waits para escrever livremente, ou seja, melhorar a qualidade o nosso sofrimento.
 
 

Diversão

Como sempre, coloquei a almofada no banco rígido e sentei-me a comer umas pipocas doces, à espera do início do combate habitual.
A bola iria ser lançada ao ar durante longas horas, até à exaustão dos participantes e enfurecimento dos espetadores. Depois iria ser a parte interessante em que finalmente os fãs dos perdedores iriam ao encontro dos apoiantes dos vencedores, segurando firmemente nos seus assentos em chamas para o inevitável ajuste de contas. A festa continuaria então fora do estádio com a destruição das vias públicas, monumentos e edifícios da cidade adversária.
Uma experiência verdadeiramente única de se ver. Eis, portanto a minha surpresa quando a meio do jogo houve um delicioso acrescento de qualidade à história. Não é que a opinião de aficionados como eu foi tida em conta pelos organizadores do evento para este ter um desenlace mais emocionante?
Ao ver os guerreiros da minha equipa a desferir golpes cirúrgicos aos calcanhares dos inimigos desapercebidos com as navalhinhas ocultas na sola das suas chuteiras fiquei tão animado como o resto da multidão. Foi uma delícia presenciar a mescla do verde do campo com o sangue dos derrotados, pois os mais diversos padrões artísticos de sofrimento humano começaram a surgir na tela regada. Aliás, era uma bela maneira de se passar para as celebrações finais de forma rápida e sem impasses aborrecidos.
Agora sim posso dizer que nunca vi melhor espetáculo à face da terra!

José Maria Covas

Não dormir é um inferno
 
Milhões de pensamentos, não sempre bons...As horas passam e sinto um peso no peito...
Ah, que bom dormir, estar envolta nos sonhos e cair nos braços de Morfeu
Que me transportam para lugares distantes, mas queridos.
Ou talvez seja melhor- quando as noites se tornam um inferno - ler, que é sonhar pela mão de outrem...
Dando voltas na cama, queria saber onde é que a noite escondeu o sono e os sonhos...

Giuseppa Giangrande

Uma gota

- Quais são as tuas resoluções para o novo ano?
A pergunta apanhou-me desprevenida. Quero dizer, nem sequer a pergunta em si. Estávamos em setembro, essa pergunta não seria mais adequada para a época de dezembro a fevereiro?
- A minha é melhorar a qualidade do sofrimento. Próprio e alheio.
Olhei para ela com cara de parva, mais perdida que um coelho encadeado. Olhei pela janela, olhei para ela, voltei a olhar pela janela. Como ela continuava à espera de uma resposta, acabei por abrir a boca (acabo sempre por abrir a boca, e acabo a arrepender-me 81% das vezes).
- Qual Ano Novo?
- Ano Novo?
- Sim… Perguntaste-me pelas resoluções de Ano Novo…?
- Não. Perguntei-te pelas resoluções para o novo ano. O novo ano letivo, sabes? O que acaba de começar?
Acentuou muito o novo ano. A ordem das palavras é importante, etc.
- Ah, esse. Não costumo fazer resoluções, aparte sobreviver com a sanidade intacta.
- Ui! A sanidade intacta! Isso sim, é pôr a fasquia alta.
- Diz a pessoa que pretende melhorar a qualidade do sofrimento próprio e alheio, - murmurei.
Fez-se um silêncio. Imagina que nos olhámos como nos westerns, as últimas pessoas à face da terra, o vento a soprar, pó no ar, frente a frente com as mãos preparadas para sacar, uma gota de suor a escorrer lenta bochecha-queixo abaixo. Imagina o silêncio a esticar-se.
E depois ao mesmo tempo:
- A sanidade relativamente intacta!
- Sofrer sem que seja por nada.
Se fosse um western, teríamos acertado as duas, e o mundo acabaria. Em vez disso, levantamo-nos e abraçamo-nos.
- Tive saudades tuas durante o verão.

Patrícia Louro
«Os escritores de ficção científica prevêem o inevitável.», Isaac Asimovzzz utopias
Nesta sessão inspirámo-nos no criador das 3 Leis da Robótica, em música e textos de ficção científica.
Estas foram as histórias que criámos.
 

Borboletário
 
Aqui no borboletário, levo uma existência marcada pela cadência das asas. Cada espécie tem o seu arbusto, o seu lugar. Sou responsável pela manutenção do asseio, da ordem e do equilíbrio deste sistema. Conheço cada mariposa que nasce. Recolho as que caem, cansadas de voar e de viver. Coloco-as, então, nas histórias que contos às crianças que nos vêm visitar. Por vezes irrompem pássaros transviados por aqui adentro. Causam estragos e fazem grande alarido. São sempre uma aparição ou, quiçá, um prenúncio. Depressa tudo volta a serenar.
Contemplo as borboletas, magia do ar e quase consigo esquecer a sua natureza intangível.
Aqui, debaixo da redoma de hologramas que habitamos, onde a matéria é cada vez menos densa e a consciência mais pesada.
Fernanda O’Brien
 
Os livros
 
Estou cansada... os meus olhos estão a arder por ter que seguir os milhões de letras que desfilam no ecrã.
Há já anos tivemos que renunciar aos livros, esses objetos que agora quase ninguém conhece, sobretudo as crianças, acostumadas até a brincar apenas com os videojogos... nenhuma delas brinca com os amigos na rua, ah, era muito bonito ouvir as vozes alegres delas...
Fecho e abro os olhos: ainda bem! Era só um sonho... levanto-me do sofá, abro a janela e lá em baixo estão crianças que jogam à bola, felizes. Dirijo o meu olhar para o estante onde estão os meus livros, tomo um deles, «Os Lusíadas», de Camões, folheio as páginas, cheiram bem, sento -me novamente e leio...
Giuseppa Giangrande
 
Nostradamus
 
Nos idos de 1500, Nostradamus profetizou que no início de 2000, o anti-Cristo haveria de emergir do povo amarelo, habitante do reino dos morcegos, e engolir o mundo.
Em 2020, o povo amarelo manipulou um vírus que alastrou pelo planeta e ceifou milhões de vidas.
Os maníacos da investigação científica e os obcecados do marketing digital tanto empreenderam que destruíram as calotes polares e a chuva nunca mais voltou.
Em 2022, um louco na Rússia lançou todo o armamento nuclear, químico e biológico de que dispunha, e o planeta Terra explodiu de um ápice.
Um tipo que se ia suicidar de uma janela teve o trabalho facilitado assim como outro que inventava um implante de um botão de suicídio imediato.
As cinzas do planeta vaguearam pelo espaço e pousaram nas mãos de Cristo que sorriu para Nostradamus, no buraco negro onde o céu esteve escondido desde o início dos tempos.
Helena Campos

Sentir
 
Passaram-se mais anos, do que aqueles que tinha desde que disse “sim”.
Não assinei nenhum papel. Nem gravações. Não há qualquer registo. Nunca os há.
Apenas uma assinatura cerebral.
O único momento em que me permiti dizer “sim”, na minha mente.
O descuido. O lapso momentâneo.
Ainda sou do tempo em que as conversas que tinhamos connosco próprios, eram privadas.
Bastou um momento de fraqueza.
As nossas gerações não sabem o que é poder. Somos observados, por olhos que não conhecemos e por olhos que não vemos, que nos julgam a todo o momento.
A culpa foi da minha geração que os deixou entrar.
Dissemos que sim, depois voltamos a dizer que sim, depois ainda outro sim…
Quando demos por nós, o fim eram as regras.
Por nossa culpa, os nossos filhos não podem ter um pensamento errado sem ter receio de uma punição severa.
Por nossa culpa, os nossos descendentes nunca saberão o que é ansiar sem ter medo de ser interrogado, torturado e utilizado como um saco de carne para eles disporem a seu bel-prazer.
Eu, fui dos que lutou por esta sociedade.
Como me deixei levar.
Mesmo assim, durante muito tempo persisti.
Vi colegas e vizinhos desaparecerem. Até aí tudo bem.
Na minha cabeça, era certo. Os meios justificam os fins.
Por uma sociedade mais pura. Mais feliz.
Só me custou quando começaram a ir atrás dos meus.
Primeiro pensei que não podiam ser tão bons quanto os tinha em conta.
Depois, que se calhar não tinham de ser perfeitos.
Em seguida, talvez estivéssemos todos a ser demasiado rígidos.
Acreditei que enquanto sociedade iriamos apercebermo-nos do erro e ajustar, antes que fosse demasiado tarde.
Os meus filhos desapareceram.
Foi quando, por fim, desmoronei.
Tudo estava errado. Mas também já não queria saber.
À minha volta, a sociedade era uma amálgama sem nexo nem consequência. Não queria saber.
Vivi para ver o sol tornar-se cinzento.
O prazer morreu. E com ele nós também.
Então, cometi o erro.
Esqueci as normas de conduta e olhei para ela.
Já nem sabia o que era luxúria quando o fiz.
Cobicei. E ela sentiu que a cobicei.
Os olhos que tudo vêem não perdoaram a minha falha.
Fui levado para a Sala pouco depois.
Um homem à minha frente disse-me, sem mexer os lábios, o MAL que eu tinha cometido e como todos os MALES, devem ser expurgados, de imediato. Havia, contudo, uma solução. Ele disse-me qual era.
A minha pele era importante. Nela, podia residir a solução para vários males.
Só tinha de dizer “sim” e deixavam-me continuar a existir.
Por momentos, senti-me um ser humano que responde a uma pergunta, de igual para igual e disse que “sim”, sem proferir uma palavra.
Estava feito.
O homem saiu da sala. Nunca mais o vi. Mas, também, nunca mais vi ninguém.
Só os robots que retiram camada a camada a minha preciosa pele e verificam os meus sinais vitais durante todo o dia, todos os dias que restam da minha vida.
Pensei que já não existia sofrimento.
Afinal, ainda havia espaço dentro de mim, para sentir.
Rita Santos
Jacinta chegou a casa era já noite, com o cansaço da odisseia que tinha sido aquele 27 de março a latejar nos seus pés.
Entrou no escritório sentou-se na cadeira das secretárias e ligou o computador. Desde pequena que tinha dificuldade em lidar com mortes, e tinha visto bastantes, mas agora havia uma maneira de não ter de chorar mais.
Digitou a sua password e entrou na aplicação. Depis, afastou o cabelo da nuca e com os dedos sentiu a entrada USB. Puxou o cabo do computador e ligou-se. Olhou para a fotografia de Manuel na mesa. No ecrã surgiu a mensagem: «Deseja esquecer o dia todo?» - Jacinta disse que sim.
Quem não morre vive para sempre e Manuel continuaria, agora, vivo dentro de si.
Rita Santos
 
 
 
Jacinta chegou a casa era já noite, com o cansaço da odisseia que tinha sido aquele 27 de março a latejar nos seus pés.
Entrou no escritório sentou-se na cadeira das secretárias e ligou o computador. Desde pequena que tinha dificuldade em lidar com mortes, e tinha visto bastantes, mas agora havia uma maneira de não ter de chorar mais.
Digitou a sua password e entrou na aplicação. Depis, afastou o cabelo da nuca e com os dedos sentiu a entrada USB. Puxou o cabo do computador e ligou-se. Olhou para a fotografia de Manuel na mesa. No ecrã surgiu a mensagem: «Deseja esquecer o dia todo?» - Jacinta disse que sim.
Quem não morre vive para sempre e Manuel continuaria, agora, vivo dentro de si.   
Rita Gomes

 

O filho do Diabo

O filho do diabo pode amar o seu Pai? Era uma pergunta inevitável para Hans Bessman naquela manhã em que se vê confrontado com as notícias hediondas sobre os massacres levados a cabo pelos russos em Kiev.
A sucessão de imagens arquivadas há muito na sua memória brotava agora vulcanicamente, como farrapos soltos de magma incandescente a incendiar o cérebro. Recordar sua mãe Ulrika e o horror soviético era incontornável e deixava-o paralisado.
Seria possível o diabo amar o seu Pai?
Nascera em Brandeburgo, num berço dourado, num lar feliz em que se ouvia epicamente o som de Wagner, discutia-se Friedrich Nietzsche, e a gloria germânica.
O seu afetuoso Pai, Rodolfo Bessman, era alto e forte, como um cavaleiro teutónico, tarjava orgulhosamente um uniforme das SS no dia em que morreu metralhado na defesa de Berlin em 1945.
A invasão russa, a barbari, as violações, a obsessão pela morte indiscriminada, tudo fazia feder a podre, a pólvora e a vodka na capital do Reich.
A viúva Ulrika Bessman, fora uma alemã orgulhosa, mas tudo acabara mal, a Pátria tombara, restando apenas a chacina, a dor, o medo e vergonha.
Por amor, sim por amor, tenta poupar os seus cinco filhos ao sofrimento e à desonra, despejando a luger de família na sua prole, guardando a última bala para estourar os seus próprios miolos de seguida.
Morreram todos os Bessman, ou quase todos...
Hans, foi salvo ainda com vida por um oficial soviético que o cuida e entrega a uma enfermeira da Cruz Vermelha.
Ingrid era o nome dela, Ludovic o do herói russo que o salvara.
Hans filho de um Nazi e mãe assassina, foi odiado e apelidado de um «imundo», um proscrito pelos vencedores e vítimas da guerra, um portador de uma culpa que não lhe pertencia.
Hans, não poderia sobreviver se não tivesse amado o diabo em segredo, o que haveria de ser dele, sem esse pai extremoso e inventado de quem tanto sentia falta. Era verdade que ele amara o diabo um dia e não via mal algum nisso.

Frederico d'Orey

 

O haiku é já um clássico da Naftalina - desde o início, ficámos fascinados por esta escrita tão breve, puramente sensorial. Um bom exercício de depuração e de descoberta do que é essencial.zzzz flor
Nesta sessão o tema foi a primavera.             

 

Dançam as flores
ao ritmo do vento
no prado verde.

O sol beija
o jardim de margaridas
brancas e amarelas.

As andorinhas voam e
deixam uma longa esteira branca
no azul do céu.

A chuva primaveril
molha as folhas verdes
e as flores.
                       Giuseppa Giangrande


Sol a despertar,
Brisa de muitas asas,
Bosque a cantar.

Risadas voam,
Quando dentes-de-leão,
Fazem espirrar.

Crianças correm,
Com os anciãos atrás,
Cheios de vida.
                      José Maria Covas


Jardins sobrelotados
com turistas
autofotografados.

Costumam chegar
com a flor
das cameleiras.
                    Teresa Gonçalves

 

O gato à janela
Os pássaros na cerejeira
Brasas da lareira

Narcisos frescos
Sol nos prados sem geada
Dias mais longos

                    Irene Aragão 

 

Verdes trigais em flor
Chilreiam jovens enamorados
Pássaros no jardim

Num mar de papoilas
O pólen esvoaça
Espirram passarinhos

Despontam folhas no arvoredo
Morre o inverno no poente
Cintilam flores nos prados

Muda a hora, os dias alongam-se
Sopra uma brisa azul e fresca
Na mesa cheia de amêndoas coloridas
                                       Helena Campos


o dia nasce fresco
o verde das folhas
com orvalho no jardim

a vida espreita
enquanto o sol tímido
fica um instante

os pássaros chilreiam
voltaram para ficar
outra temporada
                   Cláudia Madruga

 

Voam andorinhas
Vasos surgem às janelas
Cheiro a sardinhas

Roupa estendida
À despedida do Sol
Lá no horizonte

Choram os olhos
Entopem-se os narizes
Pólen aos molhos

Chuva miúda
Chilreia-se nos cabos
Erguem-se cravos
                       João Cotrim

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O Espanador limpa o pó dos locais mais recônditos. Desta vez, foi até ao armário dos sapatos e das fez-se ao caminho dos textos com 3 desafios:

Uma história com sapatos
Este sapato tem a sua história
Uma história com a expressão «gastar a sola dos sapatos».

Eis alguns dos textos escritos na sessão.

 

 

 

 

Uma história cheia de sapatos

Ele vivera toda a vida com uma pedra no sapato – tinha a profissão errada – e volta e meia dava à sola dos maus empregos que ia arranjando. O irmão dizia-lhe que havia sempre um sapato velho para um pé cansado e que haveria de encontrar um emprego à medida. Ele contraponha que todos os patrões eram ingratos, faziam
dele gato e sapato e havia mais ingratos que sapatos. Uma vida a gastar sola de sapatos a procurar empregos que não serviam, pois, a vida era dura como a sola de um sapato. Os outros, a quem Deus dava botas apesar de já terem sapatos, não conseguiam porem-se nos sapatos dele. Arranjar um emprego estável era uma bota que ele não conseguia descalçar. Andava de sapato raso sem cunha e quando finalmente alguém por caridade lhe meteu uma cunha bateu as botas.

Helena Campos

 

Uma história sobre sapatos

A Ana adorava sapatos desde criança. Sapatos, sapatilhas - ou ténis como muito mais tarde aprendeu - botas, sandálias, chinelos. O que servisse no pé e no seu gosto, nem sempre muito requintado, a Ana calçava. Vibrava com o cheirinho a sapatos novos nas duas sapatarias onde ia com a mãe e a avó nos anos 90, antes de os centros comerciais acabarem com a magia de entrar numa loja quentinha e luminosa, num final de tarde escuro e chuvoso de Inverno. Normalmente um fim de Sábado, depois da missa. Era a melhor hora para comprar sapatos, segundo os antigos. 
De mão dada com a mãe e a avó, a pequena Ana fervilhava de entusiasmo quando experimentava calçado nunca antes usado por ninguém. Não tinha riscos, nem vincos nem a sola suja nem formato de pé. Um sapato novo era como um caderno em branco onde muitas histórias podiam ser escritas. 
Escolhidos os sapatos e paga a fatura que a pequena Ana não entendia, era chegada a hora de imediatamente os calçar. Viver em sapatos novos era viver mais alegre, era um mundo de experiências e histórias novas. Os sapatos velhos eram remetidos à sua nova caixa e, com muito gosto, encerrados os seus tempos áureos. 
O problema da pequena Ana vinha depois: colocar os sapatos no chão e, efetivamente, andar neles. A sujidade das ruas, os vincos ao dobrar o pé e, pior que tudo, a possibilidade de alguém distraído e desastrado pisar o sapato novo!
A experiência de comprar sapatos novos terminava invariavelmente em lágrimas, nesta dicotomia que a vida também é, entre as aventuras que ansiamos e os arranhões que tememos. 


Este sapato tem a sua história

A minha avó mostrou-o numa das mãos:
Este sapato, tal como o vês, tem a sua história. 
E contou-me que aquele sapato pertencera a António, que não conseguia esquecer.
Por vezes, disse-me, deitava-se na cama com o sapatinho pequeno entre as duas almofadas: a dela e a do meu avô, que mantinha o seu lugar na cama intacto, mesmo já lá não dormindo há tantos anos. E assim adormecia, com o marido e o filho juntinho de si, imaginando-os felizes ao rirem-se dela e da sua falta de oportunismo para finalmente ocupar a cama inteira. 
Uma noite, no silêncio do pequeno apartamento onde agora vivia sozinha, jura tê-los ouvido a rir. “Eram eles”, disse-me. “O teu avô e o teu tio que eu bem os ouvi”. 
Quando acordou, o sapatinho continuava no mesmo lugar, entre as duas almofadas. Inexplicavelmente, dentro de um deles, repousava uma pétala de rosa amarela. “Eram as flores que o teu avô me dava sempre”, explicou-me em lágrimas. “Nos dias em que as saudades do meu António apertavam, eram rosas amarelas que me aqueciam o coração”. 


Gastar a sola dos sapatos

Gasto a sola dos sapatos e o chão da maternidade. Percorro mais quilómetros hoje do que em qualquer uma das mini-maratonas em que ultimamente me (es)forço a participar. Não gosto propriamente de as fazer, mas seduz-me imaginar que fujo da realidade, desta vida que não escolhi.
Quando páro de correr, estou aqui e não vejo saída. Estou nesta vida que eu não quero, nesta rotina que nada tem do que sonhei para mim. Um filho! Estou prestes a ter um filho e nem por mim próprio sei olhar. Que exemplo de pai serei eu? O que tenho eu para ensinar a um novo ser humano a quem eu já desejei a morte mesmo antes da vida? O que lhe vou contar sobre o amor - a minha verdade? Serei capaz de suportar o olhar de condescendência adolescente quando, ta como me disse o meu pai, lhe disser que o amor é uma “treta inventada por Hollywood"? Quanto tempo levará até que ele desista de mim - um pai frustrado, sem amor e sem valor, que lhe deu a vida e lhe desejou a morte?
“Parabéns, Pai. O seu rapaz já é um valentão!”. Não reajo. Vejo-o, mas não lhe toco. E então choro. Choro como nunca e sinto o sabor diferente destas lágrimas. “São lágrimas de amor”, atira-me a enfermeira, sem piedade pela minha convulsão sentimental embaraçosa. Sinto-me a sufocar: o meu pobre cérebro não sabe como processar tanta informação emocional.
Arrependo-me: de não o querer, de maldizer o dia em que, por uma horas de prazer, o concebi. Como fui ridículo durante toda a vida; tantas palavras inúteis, tanto tempo mal gasto. Deus deu-me botas, filho, e eu já tinha sapatos.

 

Ana Rocha

 

Problema

A situação de Ernesto era preocupante. De facto, os sapatos eram perfeitos. Protegiam os seus pés de todas as intempéries, permitiam-lhes percorrer o país de uma ponta a outra num só dia sem nunca ficarem cansados. Contudo, os sapatos eram tão bons que não os conseguia tirar. O interior tinha se tornado numa câmara selada e os seus pobres pés, encurralados, serviam de alimento aos residentes fúngicos e bacterianos das profundezas. Pouco faltava para um dia a carne, junto com as suas enervações, desaparecer. Esse seria o dia em que os ossos deixariam de ser guiados pela sua vontade e finalmente descansariam no chão. Se ao menos tivesse dado mais atenção à etiqueta dos sapatos quando os comprou: Muito obrigado, ao comprar estes sapatos orgânicos está a prestar uma grande ajuda ao meio ambiente.

Desafio

Alcina mostrou-o numa das mãos.
Este sapato, tal como vês, tem a sua história.
E contou-me que aquele sapato pertencera a Jorge, que não conseguia se separar do seu tesouro reluzente.
Por vezes até enchia com ouro fundido o interior na esperança de começar a nascer na sua própria pele joias e safiras.
Uma noite, sentiu que precisava de se divertir e fez uma aposta com a sua criada. Se ela conseguisse remover o sapato sem o danificar podia ficar com ele. A criada concordou com os termos, mas nada fez, ficou sentada no quarto até Vladimir adormecer profundamente depois de uma das suas habituais bebedeiras. Quando acordou não conseguiu sentir o pé direito a mexer-se. Alcina tinha-o habilmente removido a partir do tornozelo com uma serra ao longo da noite para não atingir a preciosidade. Ora bem, não tinha outra opção senão cumprir o prometido. A criada saiu toda contente dos seus aposentos, mostrando a todos no corredor o seu prémio merecido. Pobre Jorge, tinha de se contentar por ainda ter o sapato do pé esquerdo.
 

Desejo

Finalmente. Porque é que não tinha pensado fazer isto há mais tempo, pensava Augusto enquanto cavava. Era ainda criança quando Dom Afonso lhe tinha tido: Se trabalhares bem serás recompensado. Não precisava de dinheiro porque a mansão providenciava-o com comida e alojamento, mas sempre quis ter algo que o destacasse dos demais. As botas do seu mestre eram a moda da altura e, portanto, cobiçadas. O problema era que Dom Afonso lhas deixara no seu testamento. Portanto, em vez de esperar mais pela vida decorrer de forma natural, Augusto decidiu apressá-la. Nesse momento sentiu a tampa do caixão a bater na pá, abriu-o e agradeceu ao seu mestre as botas bem merecidas.

José Maria Covas

 

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A escrita na primeira pessoa faz parte da história da literatura. Pode ser diarística, confessional. Ou mais ficcional, onde o autor escreve num «eu» que criou e narra de acordo com a visão, vocabulário e recursos dessa personagem. Este ponto de partida pode tornar-se um exercício de escrita interessantes - escrever do ponto de vista de alguém com problemas mentais, ou alguém que perdeu a memória, uma criança, um analfabeto (que talvez dite um texto), um animal.

Seguimos a última vida e criámos textos na primeira pessoa a partir de outras personagens.

 

 

Evolução

Não sabia para onde ia. Também nunca tinha pensado no assunto. Era como se fosse uma máquina orgânica programada para realizar certas tarefas. Andava pelas redondezas em busca de fácil alimento e voltava para o ninho um dia atrás do outro. Imitava os humanos nesse aspeto. Eles viviam e morriam no mesmo local sempre a fazer mesma coisa, quer fosse ir para o trabalho de contabilidade ou casar-se e ter filhos. De facto, não percebia como é que esta era a espécie dominante. Os poucos pensamentos que tinham apodreciam após anos e anos de entupimento mental. Não era muito difícil ultrapassar estes vegetais ambulantes e viver à sua custa.
Ele começara a questionar-se acerca das suas ações há já algum tempo, portanto sabia o que queria, ao contrário dos outros corvos, ainda presos à sua natureza básica. Era bom não só habitar mansões esquecidas pelos seus ocupantes com luz, aquecimento e comida à sua disposição, mas também de dar uso às asas. Sim, elas definiam-no, pois permitiam-lhe ver mais além do que os humanos num curto espaço de tempo.
Os humanos haviam criado latas voadoras para tentarem ser como ele sem sucesso. As suas criações não faziam parte deles, porque eram apenas casulos usados para percorrer longas distâncias. Os humanos que saíam lá de dentro eram os mesmos que começaram a viagem. Permaneciam inalterados, presos nos seus corpos. Já Jacinto mudara com cada navegação ao sentir a mudança do vento, da chuva, do mar, da terra e do sol.
Apercebera-se de que as asas eram o veículo para a liberdade, a maneira de fugir da sua condição animal. Estaria a usá-las como era suposto? O universo não lhe podia ter dado esta ferramenta para não ser aproveitada, ou então não queria saber e a decisão era inteiramente dele. De uma maneira ou doutra, acreditava em si e na sua capacidade de um dia fazer o que as mentes humanas já nem conseguiam imaginar: soltar as amarras e sair desta bolha prisional chamada Terra. Talvez assim conheceria outros como ele para finalmente ter companhia neste estranho mundo que o concebeu.

José Maria Covas

O que as paredes viram

De súbito explodi. As portas das minhas salas abriram-se em simultâneo, largando uma multidão de pés em fuga. Uma professora tropeçou no seu salto agulha e estatelou-se no cinzento da rampa. Um alarme suou estridentemente e abriram-se portões que nunca se tinham aberto.
- É sair, é sair, rápido, rápido!
Ele procurou a menina dos seus olhos, queria pegar nela ao colo, num ímpeto de primeiro amor, e sair dali para fora, provar-lhe de vez que era um herói, mas havia entre eles, como num pesadelo, um mar de corpos agitados. Impossível de atravessar.
Há primeiros amores que nunca se consumam, gastam-se os olhos e os dias e resta na memória um rastilho recalcado do que poderia ter sido.
O colega que fabricara o explosivo abrigara-se na cave que oscilava aos saltos de todas as cores entre o álcool e a droga.
Reunião no conselho directivo. Sanção disciplinar máxima: expulsão.
Não sei se o explosivo tinha ácido sulfúrico ou hidróxido de sódio. Nunca fui bom a química. Cheira mal o laboratório.
À noite dei na televisão. Fui notícia de abertura no telejornal. Estávamos em 1986 e passava a seguir o filme Morte no Nilo. Agatha Christie.

Helena Campos


Eis que apareceram uns homens aqui no fundo do mar. Têm objetos estranhos nas mãos, o que estão a fazer? Pelo menos um pouco de movimento depois de tantos séculos de solidão, aqui na profundidade marina.
Contudo, tenho histórias interessantes para contar... desde aquele dia em que estava a voltar a Portugal daquelas terras longínquas com uma carga de mercadorias e objetos preciosos.
Mas a força do destino não quis que voltássemos, vítimas de uma tempestade que nos empurrou até esse abismo.
Estava numa agonia, esperava este momento em que alguém reparasse em mim. Estou ansioso por contar as minhas histórias, só assim posso voltar a viver...

Giuseppa Giangrande

 

Ouvi fechar uma porta com estrondo ao longe e despertei numa cama que não era a minha (ou era?). Estava tudo escuro, não havia uma fisga de luz, e no pânico de tentar perceber onde estava derrubei algo com os pés, ouvi o som do vidro a estilhaçar no chão. Voltas e voltas, talvez tenha gritado, ou pensei gritar, sem me conseguir lembrar como tinha ali chegado. Onde estava? Quando o barulho do meu coração a bater descompassadamente parecia ir engolir-me, a minha mão encontrou o que parecia ser um interruptor e sem saber bem como acendi a luz.
Reconheci o velho cobertor verde que me cobria as pernas, e o quarto da minha infância, com a mobília bege florida, embora não soubesse como tinha ido parar ali. Senti um aperto no pescoço e descobri um fio de ouro amarelo, com um medalhão em forma de coração, abri-o e lá dentro estava a fotografia de um homem, o qual nunca vi.
Não sei quanto tempo passou desde que abri o medalhão, nem como fechei a luz. O quarto esfumou-se e deu lugar a um jardim, onde voava (Que asas eram aquelas? Quando aprendi a voar?). Assim que pensei, deixei de saber voar. Pousei no que parecia ser o dedo de uma criança, um menino:
- Uma joaninha! Apanhei uma joaninha, mamã!
Tentei falar, com medo que me esmagasse, consciente da minha frágil condição. Lembrei-me que as joaninhas não falam, só voam. Senti as asas a mexer e voltei a saber como voar.
A porta voltou a fechar, voltei à cama (que cama?). O velho cobertor tinha desaparecido, procurei de seguida com os dedos o colar no pescoço, também já lá não estava lá. Voltei a acender a luz, e o meu quarto de menina, tinha-se transformado no meu.

Filipa Bernardo

O sol entra pelas frestas das cortinas do meu quarto. Acordo. Sinto-me feliz e descansada. Olho para o lado e não vejo o Luís. Deve ter se levantado mais cedo e foi comprar o leite para o nosso pequeno-almoço. “Vou começar a preparar as torradas”, pensei. Levanto-me, sento-me na cama e deparo-me com um degrau junto aos meus pés. “Para que raio é isto?”, disse, ignorando a sua existência. Levanto-me para ir à casa de banho. As pernas doem-me. Talvez tenha abusado ontem nas caminhadas. “Não faz mal, amanhã já deixaram de me doer”. Vou até ao lavatório e olho-me ao espelho. “Sou eu esta velhota? Meu deus! Que idade tenho eu?” Sinto uma dor angustiante no peito, porque subitamente me apercebo. O meu marido faleceu. Um misto de solidão, impotência e medo apoderam-se de mim. Começo a chorar copiosamente. Lembro-me do que ele diria se me estivesse a ver: “Vai fazer o que vieste fazer, sua parva. Continuas a ter necessidades fisiológicas!”. “Certo. É verdade, Luís. Tenho que ir fazer chichi”, exclamei.
Sem vontade de comer, dirijo-me à cozinha. Lembro-me da primeira noite que passámos juntos. Nessa madrugada eu tinha sentido fome e ele fez-me os melhores ovos mexidos que já alguma vez tinha comido. Sinto-me estúpida. Como é que ele não está comigo? Porquê? Porque é que ele tinha que morrer primeiro que eu? Sempre lhe disse: “Não comas isso, Luís, sabes que te faz mal! Vai ao médico, Luís. Tem cuidado com a tua saúde!”. Ouço uma chave na porta. “Luís?”, digo esperançosamente. Mas não, é o meu filho Diogo. É verdade, eu tenho um filho. “Olá, querido. Senta-te que a mãe faz-te uma torrada.”, digo cumprimentando-o com um beijo. Vou para agarrar na faca, e sinto uma tontura. Tropeço no tapete da cozinha. O meu filho agarra-me e diz: “Deixa estar, mãe, eu faço as torradas. Senta-te, aqui.”. Fico a olhar para o meu filho de costas, alto, com as proporções certas e com um belo rabo. “Tal pai, tal filho, afinal. Como é que de um dia para o outro me tornei nesta velha que nem consegue preparar a sua comida, nem se lembra do seu filho…”, pensei. Adormeço na cadeira da cozinha, entre lágrimas.
Era Outono e estava a chover a cântaros. De regresso a casa, eu e o Luís levamos pela mão o nosso filho que caminha entre nós. “Vou pisar a poça, não quero!”, exclama o pequeno. E mesmo antes de ter tempo de chegar junto dela, eis que eu e o Luís o levantamos pelos braços. De seguida, puxou-nos para que repetíssemos uma e outra vez.
Sinto um abanão no braço. “Em que poça tens tu receio de te molhar agora?”, disse eu, acordando sobressaltada. Vejo um homem à minha frente. Começo a gritar “Luís, oh meu deus, quem é este homem? Socorro!”. “Mãe, sou eu o teu filho.” “Não podes ser, o meu filho é apenas uma criança!” “Certo, mãe, é um facto que serei sempre uma criança. Mas também sou eu, mãe. O teu filho Diogo. Está tudo bem.” É verdade. De repente reconheço-o. Mas se ele é tão crescido. Não faz sentido. “O teu pai ainda está a dormir?, pergunto”. “Não, mãe. O pai não está a dormir”. “Ah, então deve ter saído para ir comprar leite. Eu prefiro esperar por ele para tomar o pequeno-almoço”.

Clara Barreto

 

 

«Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve.» Vergílio Ferreira

zzzlabirint

Unidos, separados, rivais ou cúmplices, a relação entre o «eu» e o «eu escritor» ocupou parte da sessão de hoje. O ponto de partida foi o texto seguinte de Jorge Luís Borges:

«Ao outro, a Borges, é que sucedem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e demoro-me, talvez já mecanicamente, a olhar para o arco de um vestíbulo e o portão gradeado; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo o seu nome numa lista de professores ou num dicionário biográfico. Agradam-me os relógios de areia, os mapas, a tipografia do século XVIII, as etimologias, o gosto do café e a prosa de Stevenson; o outro partilha comigo estas preferências, mas de um modo vaidoso transformando-as em atributos de um ator. Seria exagerado afirmar que a nossa relação é hostil; eu vivo, eu deixo-me viver, para que Borges possa tramar a sua literatura, e essa literatura justifica-me. Não me custa nada confessar que alcançou certas páginas válidas, mas estas páginas não podem salvar-me, talvez porque o bom já não seja de ninguém, nem mesmo do outro, mas da linguagem ou da tradição. Além disso, eu estou destinado a perder-me, definitivamente, e só algum instante de mim poderá sobreviver no outro […] Há alguns anos tentei livrar-me dele e passei das mitologias de subúrbio aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora são de Borges e terei de imaginar outras coisas. Assim minha vida é uma fuga e tudo perco e tudo é do esquecimento, ou do outro. Não sei qual dos dois escreve esta página.»
Jorge Luís Borges, Borges e eu


A escritora e eu
Não escrevo sobre coisas de que não gosto, que não conheço.
Quando escrevo, prefiro encontrar “inspiração”nas lembranças, em todas aquelas coisas que me dão alegria.
Escrever para mim revelou - se algo inesperado. Nunca tinha pensado em que um dia podia tornar-me uma escritora. Por amor de Deus! Não me considero verdadeiramente uma escritora, mas o exercício de escrever dá-me a oportunidade de mergulhar em outros mundos, é como um desafio, também linguístico, que me permite em certo sentido de lançar uma ponte entre o meu aqui e o meu ali, de me aproximar a realidades também distantes. E de traduzir em palavras a minha imaginação, os meus desejos, as minhas saudades...

Giuseppa Giangrande


O laranjinha de olhos verdes saltava-me para o colo e estendia o dorso que eu afagava, numa volúpia de carícias, até à cauda ondulante. Quando eu parava, miava deliciado e colocava as patas dianteiras nos meus ombros, encostando os bigodes à minha face.
E assim ficava eu tardes de verão com um gato agarrado a mim, num abraço laranja e felpudo. Nesses dias, tínhamos longas conversas em gatês em que nos compreendíamos perfeitamente. Ele lamuriava-se nos seus miados delicados e eu respondia, na mesma língua, numa toada íntima.
Certo dia, a porta ficou aberta e ele atreveu-se a conhecer mundo. Foi barbaramente abocanhado por um cão.
E, no entanto, nunca escrevo sobre isto.
Eu odeio cães desde a infância, seres quezilentos de bocarra escancarada, sempre a ladrarem estrondosamente, a rosnarem com os dentes afiados ávidos de morder, e na sua malvadez, assassinaram o meu querido gato. Eu odeio cães, mas apesar disso, são eles que aparecem nas minhas ficções, são eles que são fiéis às minhas personagens, são eles que ganem de mansinho, de olhos a pedir festas, nas entrelinhas dos meus textos ficcionais.
Igualmente, eu que toda a vida fiz fila nas paragens de autocarro e desci escadas de metro por entre as turbas agitadas, eu que nunca sequer tirei carta de condução, apresento as minhas personagens ao volante de potentes automóveis, a atirar para as janelas embaciadas espirais de fumo de um cigarro que eu nunca fumei.

Helena Campos


A escritora e eu
Ela escreve à mão e sofre com os dedos presos que eu estraguei pelos teclados. Prefere a verdade dessa dor, a verdade da caligrafia irregular, das palavras hesitadas e riscadas. Eu faço outras escritas - mentiras rápidas a preto e branco, tiros ao alvo. As madrugadas fascinam-nos, mas eu já não a acordo tão cedo como antes e, com o tempo, acabámos por partilhar também a preguiça. Perco-me na poesia e tento impô-la à outra. Em vão. Não se atreve, diz. Mas, aqui e ali, há uma personagem que fica parada a contemplar um fruto que amadurece, alguém com um abraço que derrete serras de neve. Sem ela saber, boicoto-lhe os movimentos. Preencho-lhe os dias com mudaneidades, distraio-as com frases-feitas, faço-a corar com textos berrantes. Não sei quem é mais impostora.
C. Borges

«Não só não me importo, como acho uma honra ser pirateado», Miguel Esteves Cardosozzz_olho.jpg

O intertexto cruza linhas de vários autores para criar uma nova narrativa, apropriada e recontextualizada pelo autor. É uma das forma mais irresistiveis de partir para a escrita e de soltar a criatividade. Também para o leitor há o prazer em descobrir as «piscadelas de olho» que o autor vai deixando com citações e referências.

Na sessão, partimos de exemplos visuais, o Caravaggio da Cindy Sherman, por exemplo, e lemos Alberto Pimenta e Chico Buarque. Como material base para o intertexto, os participantes tinham alguns textos bem conhecidos: o Fogo que arde sem se ver, a Balada da Neve do Augusto Gil, os primeiros artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, uma lista de provérbios, um excerto do Cântico dos Cânticos o início do Inferno de Dante. Os participantes trouxeram ainda Fernando Pessoa.

 

Noite
É noite, fecho os olhos e vejo-me a caminho da Praça do Comércio. É uma noite brilhante como uma estrela, mas sopra uma ligeira brisa que acaricia o Tejo. Aproximo-me à beira, estou perto do Cais das Colunas.
Aparece um barco a vela, com velas brancas, parece um daqueles navios que há muito tempo sulcavam os mares e que se tinha perdido no mar indefinido, como escrevia Pessoa. O rio é assim, é como um mar indefinido.
Fico com fixos olhos rasos de ânsia
Fitando a proibida azul distância...
Abro os olhos, agora não estou mais lá fora, em Lisboa, mas perto de uma janela a fitar o céu estrelado, outro mar indefinido.

Giuseppa Giangrande
A partir de A Noite e outros texto de A Mensagem, Fernando Pessoa

 

Pau que nasce torto nunca se endireita.
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos, para inglês ver. No final do dia:
Não sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer ser nada
Á parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Sonhos que nunca se concretizam porque a tesoura do mal é incansável na poda das minhas vãs esperanças de realizá-los.
E é assim que
No meio do caminho da vida
vi-me perdida numa selva escura
E uma infinita tristeza
uma funda turvação
entra em mim, fica em mim presa
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?

Helena Campos
A partir de: provérbio popular, Declaração Un.Direitos Humanos, Álvaro de Campos (Tabacaria), Dante (Inferno), Augusto Gil (Balada da Neve).

 
 

 

 z book

Histórias completas (a partir de novembro/21)
 
 

O Labirinto das Escolhas 

Apareceram-lhe 5 ofertas de emprego ao mesmo tempo.
Na vida é sempre assim: durante largo tempo não temos nada, mas quando aparece algo, aparece às catrefadas, um engarrafamento de oportunidades e o peso inexorável da escolha.
E escolhemos sempre mal, e depois a culpa, a responsabilidade, a suprema angústia sartreana de quem está condenado à liberdade.
Sempre fora torturada por indecisões intermináveis e naquele instante voltou à estrada que se bifurca, à vertigem da decisão, a memória que se repetirá para toda a vida: porque não escolhi ao contrário?
Desenhou uma grelha com 6 linhas e 3 colunas onde escreveu as 5 hipóteses, vantagens e inconvenientes de cada uma, na senda de um qualquer algoritmo de engenharia decisional que lhe iluminasse a escolha acertada.
O algoritmo não surgiu, as vantagens e desvantagens cintilavam aleatoriamente em toda a tabela.
Era um momento pluripotencial, em que tinha abertos todos os destinos, todas as possibilidades, como um deus cego, ou como um escritor diante de uma página em branco.
O que fazer então? Decidiu entregar-se à sorte. Preparou cinco papelinhos em que escreveu os nomes dos cinco empregos - entre eles, havia um trabalho numa escola, um emprego de secretária, uma oferta para trabalhar numa editora em Lisboa, o que teria significado deixar a sua cidade, mas quem sabe... às vezes as maiores incógnitas escondem surpresas agradáveis - e começou o sorteio da sua lotaria. Tirou à sorte o primeiro papelinho e saiu a oferta de trabalho em Lisboa. Ficou um pouco perplexa e já que não estava convencida quanto àquele primeiro sorteio, tirou à sorte novamente. Parecia que o acaso estava a fazer pouco dela, porque saiu outra vez a oferta de emprego em Lisboa... Interrogou-se sobre aquela coisa tão estranha, estava preocupada com o dilema, agora o importante era saber o que ela verdadeiramente queria, ou seja... será queria realmente dar um salto para o desconhecido?
Novamente perante aquela encruzilhada .
Ou escolher aleatoriamente o que a sorte lhe destinava ou interiorizar bem o que queria fazer
Voltou a fazer uma tabela analisando os pontos negativos e positivos
De facto sair da sua zona de conforto onde se movimentava com segurança e partir para a cidade grande, impessoal, sem pontos de referência eram um ponto negativo
Iniciar um trabalho que parecia aliciante pois tratava-se de um projecto inovador com uma equipa jovem que parecia integrar- se no seu perfil eram um ponto positivo.
Resolveu contactar o responsável da empresa para esclarecer algumas duvidas e o resultado foi muito esclarecedor poderia ficar a trabalhar em casa, os encontros de grupo eram na maioria das vezes on-line, só precisava de ir a empresa uma vez por semana e ordenado era aceitável para uma principiante.
Então estava decidido não?
Não! o bichinho da dúvida persistia e se … na outra empresa as condições fossem ainda melhores?
Tomou então uma decisão, fez um novo quadro com todas as questões que queria perguntar nesta outra empresa com o registo de impressão positiva ou negativa para cada uma das questões e no final teria mesmo que decidir.
Então ligou…
- Memorex Limitada, bom dia!
- Bom dia... é por causa do anúncio de emprego...
- Senhorita, a entrevista é hoje, daqui a 20 minutos! É vir já, é vir já!
A voz urgente não lhe dava outra alternativa. E, se calhar, o melhor era não ter tempo para pensar.
Saíu do metro a correr e deu logo com o nome da firma em letras elegantes numa placa de vidro. Entrou no prédio e abriu o elevador - era antigo, de madeira, ferragens douradas e até com banquinho de veludo vermelho encostado ao espelho. De que tempo viria?
Estendeu a mão para a porta do escritório que se abriu de par em par. Estava numa enorme recepção de tecto alto pintado de anjos rosados e nuvens gordas.
- Boa tarde, senhorita!
Baixou os olhos até ao seu interlocutor.
- Amado Rubro, gerente. Por aqui, por aqui, venha senhorita...
Seguiu o homem por um longo corredor de tapete alto e fofo. As portas de um lado e outro mostravam gabinetes - um totalmente verde, decorado com plantas carnudas, outro, com tapeçarias indianas nas paredes, um, de espelho, outro, branco leitoso.
Entraram numa sala de reuniões. Trazia o curriculum na mão.
- Sim, sim, tudo visto, é para começar já..
- Mas..., o salário..., as condições...., o horário... ? - a lista de perguntas tão bem ensaiada esbarrava com a pressa frenética do gerente.
- É tudo como está na carta da senhorita. Vamos começar, que temos muito que escrever!
- Mas... escrever o quê, para quem, enfim... qual é o vosso ramo...?
- Memorex, senhorita, Memorex: fazemos memórias, novas recordações à la carte para clientes especiais. Vamos, vamos...
O seu novo trabalho tinha três tempos distintos: o de pesquisa, o da leitura e o de escrita. Levou-a a bibliotecas, a arquivos, tanto públicos, como pessoais, debruçando-se sobre inúmeros documentos, diários, cartas, fotografias, enfim o essencial de uma vida. Passava desses materiais, para as entrevistas, para os relatos na primeira pessoa, embora soubesse que quem conta acrescenta sempre um ponto. O passado ia-se compondo à frente dos seus olhos. Lia, relia, de forma objetiva, e só então, passava para a escrita, para a parte ficcionada, embora fosse importante ter um referente real.
Era essencial que a história fosse verosímil, que estivesse enquadrada no espaço e no tempo certo, senão, havia o sério risco de a invenção ser descortinada. Na Memorex, Lda. isso era um pecado capital, que poderia incorrer em processos morosos por parte dos seus famosos clientes, que pagavam as memórias em peso de ouro. Os clientes gozavam de um estatuto de privacidade total, levando a que todos na empresa tivessem assinado um contrato de confidencialidade, redigido pelo melhor escritório de advogados da cidade. Quando havia problemas no escritório, vinha sempre um batalhão deles, para ajudar nas questões legais.
Descobriu o seu talento para criar memórias infalíveis, tão possíveis de serem reais, que ninguém seria capaz de apresentar prova contrária. O seu momento favorito, era sentar-se à secretária de carvalho castanho escuro e deixar os dedos voar no teclado do computador. Quanto mais escrevia, mais sentia que tinha encontrado a sua vocação. E quando os clientes a pediam especificamente, embora trabalhasse sobre um pseudónimo, dava-lhe uma enorme alegria, sentia-se reconhecida. Era quase irónico, que ao investigar a vida de outras pessoas, tivesse começado a compreender de outra forma a natureza humana, dando-lhe também a ela uma segurança nos seus passos. Ela mais que ninguém, com as suas indecisões e com o seu passado desinteressante, conseguia compreender porque os clientes pagavam por essas memórias, por isso era tão boa no seu trabalho. Enquanto escrevia memórias, ia ao mesmo tempo escrevendo em paralelo um novo capítulo na história da sua vida.


Helena Campos
Giuseppa Giangrande
Isabel Soares
C.Borges
Filipa Bernardo

 

Ludmila e os Anjos

    Compravam cartuchos de cerejas e iam comê-los para os jardins, faltavam às aulas e aos trabalhos sem que nada de mal lhes acontecesse, adoravam algodão doce, baloiços, o nascer do sol e a lua cheia. Observando bem, percebia-se que, homens ou mulheres, todos inham bochechas como nuvens e soltavam risinhos que despertavam brisas lilases. Mas, de resto, estava a ficar cada vez mais difícil distingui-los dos verdadeiros seres humanos. Ludmila não estava contente com isso. Tinha acordado cedo, como sempre, e quando abriu a janela para deixar o resto da torrada aos pardais, viu um deles. Decidiu agir drasticamente.
   Meteu a cabeça fora da janela e gritou:
- Tu aí aproxima-te, quero-te conhecer melhor, saber como e onde vives e como poderemos ser amigos.
Mas ele, esvoaçando perto da janela, fixou-a com os olhos brilhantes e soltando um risinho maroto, deixou cair delicadamente uma cereja apetitosa no parapeito da janela.
Depois voando aos zig-zags no céu escondeu-se atrás de uma nuvem desapareceu como por magia
Voltou a gritar:
-Não me podes fazer isto.
Precisava de descobrir uma forma de o conquistar. «Já sei», lembrou-se, « talvez procurando naquela arca da minha avó, guardada no sótão e cheia de livros antigos, eu descubra algum texto sobre artes de comunicar com o sobrenatural, e assim consiga encontrar uma forma de os cativar…»
Então Ludmila foi ao sótão. Num primeiro momento não conseguiu ver a arca, escondida coberta por um lençol de cor azul. Levantou devagarinho o lençol que, por sua vez, fez alçar uma leve nuvem de pó, abriu a arca e ali estava o tesouro da sua avó: uma verdadeira biblioteca com textos de diferentes géneros que difundiam uma aura quase mágica. Tinham títulos como: A magia da música, O encanto do mar, Outros mundos... Entre os textos encontrou o que estava a procurar, mas só a imagem da capa deixava entender que o livro tinha a ver com os anjos: leu o título escrito numa língua desconhecida: Melekler... quem poderia agora ajudá-la a decifrar aquele idioma tão esquisito e para ela desconhecido? E então perguntou-se como teria aquele livro chegado até a arca da sua avó...
Ao abri-lo, deparou-se com uma carta, com uma caligrafia irrepreensível, as letras todas alinhadas e bem caligrafadas, sinal que a mesma já tinha alguns anos. Sabendo que estava a cometer uma ilegalidade, porque as cartas que não nos são endereçadas, não são para perscrutar, Ludmila começou a lê-la.
«Querida Jesus, com o mavioso toque da minha caneta, e como prova de todo o meu amor, ofereço-te este livro, redigido numa escrita que apareceu por volta do ano 500 a.C, na Península Ibérica, conhecida como a Escrita do Sudoeste, e que fala de anjos que apareciam para dar fortuna e boas colheitas aos povos que habitavam esta coordenada geográfica da Hispânia. Se o quiseres desvendar, segue até Loulé e procura pelo Senhor Maia dos Anjos. Toda a gente o conhece.»
Do teu, e aqui a leitura era irreconhecível.
Ludmila ficou sem saber o que pensar. A avó teria tido um amante? Valeria a pena descodificar aquela escrita? O senhor Maia dos Anjos estaria ainda vivo?
   «Ora a avó nasceu em 1918» – pensou com os seus botões – «há mais de um século portanto, morreu há dez anos, já entrada nos noventa, o senhor dos Anjos deveria rondar essa idade, dificilmente estará vivo. Uma pena que a mãe não esteja bem da cabeça, nem vale a pena perguntar-lhe, só iria gerar confusão...Por outro lado, ela parece lembrar-se melhor dos acontecimentos do passado. Loulé, Loulé, porquê Loulé? Toda a nossa família é beirã, bem toda, toda também não sei, porque a mãe é filha de pai incógnito incógnito, não daqueles incógnitos no registo mas que toda a gente sabia quem era. E por isso o autor da carta não era amante – será que era o avó incógnito?».
Ludmilla «googlou», sem convicção, «Maia dos Anjos», como única resposta apareceu uma sociedade de advogados no Brasil que dava pelo nome de «Maia & Anjos» e certamente não teria nada a ver com o assunto.
«Oh, que irritação!»
Abeirou-se da mansarda, olhou o jardim que anoitecia devagar, convidando ao repouso, à serenidade, em que Ludmilla progressivamente se deixou cair, esquecendo o frenesim que a afligia. Longe e perto os pequenos seres continuavam o seu afã ordenado, quais formigas. Os últimos raios de sol reflectiam-se neles, como que projectando uma aura quase invisível a olho nu. De repente caiu a noite e todo o jardim se iluminou, com o brilho de mil luzes que desenhavam sinos, laços e bolas, estrelas e cornetas; um arco engalanado unia a copa de duas árvores e nele podia ler-se «Feliz Natal Ludmilla». Era dia 28 de Novembro, começava o Advento.

C. Borges
Isabel Soares
Giuseppa Giangrande
Tiago Pina
Paula Carvalho

A oliveira que matava miguelistas

     Lancei-me à estrada e pelas indicações muito vagas que tinha, cheguei a uma vila do Alentejo e indaguei pela oliveira, convencido que a oleácea era uma atração turística; se não é grande novidade uma oliveira resistir várias centenas de anos, ter uma que matou com os seus próprios ramos, dezenas de miguelistas, deveria ser motivo de orgulho.
Ninguém sabia e, pelos olhares desconfiados que fizeram, diria que me acharam meio estavanado, para não pronunciar mesmo atoleimado. Ia já desistir, quando um senhor se abeirou de mim.
- Ouça lá, o senhor acredita mesmo nessa história ou é tão parvo como parece?
     Olhei-o, mantendo a expressão que me fazia passar por parvo. Interiormente, senti um arrepio frio, seco, metálico, os olhos, semicerrados, formando uma linha plana e negra, entre as frontes e o nariz, a boca, de tão fina, tornando-se invisível.
- Não há por aí, sequer, um olival antigo, não é dessas modernices que os espanhóis cá vieram plantar, todos alinhadinhos, quais tranças de carapinhas...
- Pois, compadre, venha daí comigo que já lhe mostro um desses antigos, já o mê avô e antes dele os avós dele e os avós dos avós lá trabalharam.
O “venha daí comigo” era só uma força de expressão. Meti-o no carro, obriguei-o a apertar o cinto e arranquei. Enquanto avançava pela sinuosa estrada municipal que me conduziria a um estradão pensei se os ramos de oliveiras suportariam um peso de 70 quilos para poder cumprir a função que eu, com indisfarçável gozo interior, ia antecipando.
    Saí do carro apressadamente, tirei o saco de pedras e coloquei-o num dos ramos finos daquela árvore ancestral. Eis a minha surpresa quando o ramo instantaneamente se quebrou.
- Estava à espera de uma árvore que se soubesse defender… Ela não ficou aqui parada quando os miguelistas a tentaram cortar aos bocados para fazer lenha.
Má hora em que disse isto, pois um novo galho brotou do cepo do velho na minha direção, penetrando o meu corpo e deixando-me empoleirado no ar a ver o meu próprio sangue a escorrer. Tinha pouco tempo. Reuni as minhas forças, encarei o homem pálido que se encontrava paralisado no chão e supliquei-lhe para tirar da sua lapela um bloco de notas e uma caneta.
De seguida pus-me a escrever desenfreadamente até chegar ao momento actual, em que o último sopro de vida me deixa ao acabar com a frase que ficará numa tabuleta aqui perto para a posterioridade: «Esta árvore parece franzina, mas por favor não se metam com ela para satisfazer a vossa curiosidade, pois as aparências enganam!»
     O alentejano ficou para ali espantado a olhar para aquele sujeito que lhe apareceu não sabia de onde e que acabava de ser morto por uma oliveira. Coçou a cabeça. A sua mente pendulava em dúvida sobre a decisão a tomar.
- Se chamo a polícia, ainda pensam que eu sou o assassino. Se não chamo, apodrece o cadáver pendurado na árvore.
Nisto passa um jipe que se detém ao pé da oliveira e dele sai um sujeito alto e barbudo.
- Eu conheço este homem – afirmou, apontando para a árvore – É o Miguel Travassos, foi meu colega. O que é que se passou aqui?
- Olhe – gaguejou o alentejano – este senhor pediu papel para escrever e de repente sentiu-se mal e a modos que desmaiou.
O barbudo arranca o papel das mãos do morto e fica assombrado.
E mais assombrado fica quando o tronco da árvore se abre com um fecho éclair e sai de lá um individuo a rir-se – Mais um que caiu na armadilha!
     Grande foi o espanto para o homem barbudo e o pobre alentejano. O indivíduo que tinha surgido do tronco da árvore continuava a rir, agora desatava às gargalhadas e avançava com olhar ameaçador para os dois homens. Foi o barbudo a certo ponto que dominou a situação. Não se sabe como é que de repente apareceu na sua mão direita um machado, que ele lançou com força contra o sujeito surgido da oliveira. O alentejano, neste entretanto, estava pasmado, incapaz de mexer um dedo... Ainda maior foi o seu assombro quando o machado atingiu em pleno peito o homem da árvore, que caiu redondamente no chão. Ao mesmo tempo, Miguel ressuscitou. Foi assim que um homem barbudo matou a oliveira que matava os miguelistas.

Tiago Pina
Paula Carvalho
José Maria Covas
Helena Campos
Giuseppa Giangrande

 

Recomeçar do zero

    A vida dela tinha sido sempre cinzenta, sempre na mesma rotina. Para dizer a verdade, tinha certa aversão às inovações de qualquer tipo.
Chegou a pandemia e a solidão, que fizeram a sua vida ainda mais cinzenta… quase cortou com os poucos contactos que tinha até àquele momento. E, de facto, a sua vida tinha sido isso: um vínculo muito forte com o verbo CORTAR. Tinham-lhe cortado as asas, cortado relações e cortado muito mais. Só ficara o sofrimento.
Agora, depois meses de isolamento, estava decidida a tomar as rédeas da sua vida, queria recomeçar de zero e apagar o passado. Ligou o rádio e ouviu Ricomincio da qui.
    Infelizmente o seu italiano estava um bocado ferrugento, por isso mudou de canal. Um locutor entusiasmado apregoava uma pulseira com polos magnéticos que atraíam a ressonância das profundezas terrestres e mudavam de cor e a vida de qualquer um. Era só ligar. Estava por tudo. Nem acreditava. Nunca tinha ganhado nada na vida e agora estava à porta da Rádio Relâmpago com o coração a bater. Na recepção já estava o envelope com o seu nome. Sentou-se num banco e abriu o pacote. Era linda, brilhante, cintilante e chamava por si. Pôs a pulseira no pulso. A cor de prata ficava mesmo bem com o resto do bronzeado do Verão. Abriu o volumoso livrinho que dizia anunciava: MagiMagnet – Pulseira mágica. Instruções e advertências. Tantas instruções, que estupidez, pensou, e levantou os olhos ao céu. Nesse momento chegava o autocarro. As instruções ficaram para trás. Deu um salto e agarrou-se com força ao poste do autocarro. A pulseira brilhava no seu pulso. Agora estava azul.
   O azul também combinava com o resto do bronzeado. Por isso, estava satisfeita.
Amplificou o som da rádio onde estavam a anunciar a entrega do prémio e sentiu-se grata por esta vitória.
Durante dez minutos fez-se embalar pelas melodias da Antena 3, para onde entretanto mudara. Bamboleava-se como uma praticante de Hula-Hula, oscilando entre voltas e contravoltas em torno de uma roda imaginária. Já quase conseguia visualizar o sucesso destes esforços, desde que os mantivesse durante as semanas necessárias. Outro recomeço cantaria e poderia regressar às saias e calças entretanto abandonadas por manifesta escassez de tecido nas ancas e na cintura. Estendeu o seu enlevo a um miúdo que lhe fazia caretas de se escangalhar a rir. Azar do menino, nada a faria cortar com os magníficos exercícios.
O autocarro deu um valente solavanco, e, quando se virou, indignada em direção do condutor que lhe estragava o parêntesis de ginásio, dirigiu um braço desajeitado para o suposto ofensor. Instantaneamente, a pulseira emitiu um raio luminoso sobre o espelho que o condutor consultava, ferindo-lhe a vista, levando-o a chocar estrondosamente com outra carreira. Gritos de pânico seguiram-se antes mesmo de ela parar de admirar o seu adorno.
- O que me terá escapado? -pensou, enquanto vários dedos apontados para ela encorajavam o polícia a algemá-la e a pô-la fora do veículo.
    - Assassina! Bruxa! Queria matar-nos a todos... Enfeitiçou o condutor com uma luz saída do nada... só pode ser um bruxedo do Demo! – vozes desencontradas vociferavam impropérios diversos, alguns impróprios para transcrição até porque o alvo era a mãe, não ela, como costuma aliás acontecer com os pobres dos árbitros. Sentia-se leve, apesar do ambiente tenso e explosivo, que, qual electricidade estática em dias de trovoada seca, apenas esperava a ignição certa para detonar e tudo mandar pelos ares, ela incluída.
Moveu o braço, ainda dourado do sol do Verão passado, a pulseira lançou um raio metálico, qual espada de Jedi, que a todos, menos ela, cegou. Aproveitou a confusão para se libertar das algemas, galgou os degraus do autocarro, olhou para ambos os lados e desatou a correr loucamente, em direcção à Liberdade anunciada pela toponímia local, sempre era avenida, larga e comprida, muito melhor do que a travessa donde saíra de manhã.
Bem sabendo que não o podia fazer, olhou para trás...
    E a pulseira desapareceu, tal como estava escrito nas advertências.
O pessoal do autocarro recuperou a visão e desatou a correr, enfurecido, atrás dela. Ela desceu o metro da avenida e atirou-se para dentro de uma carruagem que partia, quase a fechar a porta. Os seus perseguidores jamais a encontrariam.
Saiu na estação terminal da Amadora, entrou num cabeleireiro, pintou o cabelo de louro, comprou uns óculos e uma roupa vintage, respondeu a um anúncio de emprego colocado numa montra e assim recomeçou do zero.
Às vezes, basta uns instantes com uma pulseira nova para a sorte mudar.

Giuseppa Giangrande
C. Borges
Lídia Vieira
Paula Carvalho
Helena Campos

 
 
Uma Gaivota

Uma gaivota voa livre e feliz no céu. Ela está muito feliz por ser uma gaivota, porque não tem laços, pode ir e voar aonde ela quer, apesar de ter a sua casinha numa árvore no Miradouro da Graça em Lisboa. O que é mais interessante é que ela um dia pode estar em Lisboa, um dia na Sicília, um dia em África, um dia em vi rem ajuda Goa… e ainda mais interessante é que ela todas as vezes que volta para Lisboa, pode contar muitas histórias, até às crianças que nos dias de sol brincam nas ruas perto do Miradouro e às pessoas que lhe dão alguma migalha para comer. Acabou de voltar esta vez do Japão e está a contar a história de uma cerejeira que guardava um segredo…
Pois contara-lhe a cerejeira quão estranha se sentia com as modificações sofridas ao longo de todos os dias do ano: à explosão branca e perfumada que lhe vestia os ramos, sucedia-se a queda do virginal manto e o crescimento de frutos redondos e carnudos, vermelhos côr de pecado, após o que chegava uma pausa fresca e verdejante, mas, quando mais precisava de aconchego e agasalho, entrava numa hibernação despida e nua. Isto ano após ano, sem pausa, descanso, alteração ou imprevisão. “Quem me dera ser gaivota!”, suspirara a cerejeira “Partir e conhecer outros mundos, navegar pelos ares, ver as coisas ao longe e ao perto, não ter raízes...”
Ao suspirar com mais força, não é que a cerejeira tremeu e se desequilibrou? Quando as raízes se soltaram da terra, o ruído das pedras da calçada a chocarem umas contra as outras foi intenso e ensurdecedor. Uma senhora idosa que trazia o cão pela trela ainda se magoou ao tentar desviar-se de uma mão-cheia delas que a atingiram de raspão e o poodle da senhora perdeu o piu com o golpe que as pedras lhe fizeram no dorso.
Entretanto, a cerejeira inchada com o sufoco de perder a sustentação, só pensava em pôr-se em pontas, mas as raízes contorcidas em nada a ajudavam. Via-se já moribunda e derrotada para sempre nos seus sonhos de liberdade e vida mais ampla. No meio de tanto pânico, perdeu os sentidos.
Acordou com a frescura da manhã. Os jardineiros da Câmara esforçavam-se por a pôr em pé, e, à pergunta “Prontos?” reergueram-na e replantaram-na numa operação delicadíssima.
A cerejeira gritava debalde: “Não, não me prendam! Eu quero mudar de vida! Deixem-me voar.” E os homens, já muito transpirados, iam dizendo: “Pobrezinha, uma árvore tão bonita de que todos gostam. Merece bem uma segunda oportunidade!”
E os calceteiros convocados completaram a obra de restauro, perante o choque da bela cerejeira.
Mas à segunda foi de vez. Foi numa noite de breu povoada pelo silêncio absoluto. Ginasticou as raízes com toda a fúria que tinha até eclodir daquela prisão subterrânea e projectar-se nos céus. Falharam-lhe as asas que não tinha, sacudiu os galhos, fracos músculos, contra o vento e acabou por cair numa lixeira ali perto onde um carro do lixo descarregava caixotes.
- Que é isto? Agora caem árvores do céu? – espantou-se um funcionário
- E é uma cerejeira! Alguém que não gosta de cerejas – disse outro
- Mas ela vinha a voar!
- Alguém que a tinha num vaso num andar alto e a jogou fora. Vou levá-la para o meu quintal.
Ainda estremunhada pela queda, a cerejeira tentava libertar-se do lixo mal cheiroso, quando avistou a gaivota sua amiga que esgravatava na lixeira.
-Ora aqui estás tu de novo , mas minha amiga tenho que te confessar, afinal voar não foi nada uma boa ideia .Além de não ter visto nada ,não falei com ninguém e quando tentei ninguém me ligou ,a queda foi muito desagradável e agora aqui estou eu mergulhada nesta porcaria fedorenta, magoada e com alguns ramos partidos.
Felizmente vão me levar para um novo quintal onde espero tomar um bom banho e ser replantada com os pés bem assentes na terra ,e junto de companheiras simpáticas que alegrem os meus dias .
A gaivota sorriu e desejando -lhe dias melhores, voou para junto das outras companheiras.
No meio duma chinfrineira e esvoaçar de “adeuses” o bando partiu à procura de novas aventuras…

Giuseppa Giangrande
Paula Carvalho
Lídia Vieira
Helena Campos
Isabel Soares

 

 Sonhos

    Há quanto tempo estaria naquele quarto? Talvez semanas, ou até meses… Era tão difícil saber. Aliás, era exatamente por causa disso que tinha ido para aquele local longínquo, no qual o dia é um feixe de luz que atravessa o vidro da janela por uns breves instantes antes de ser consumido novamente pelas trevas envolventes. Precisava escrever. O problema não era a falta de ideias, tinha uma arca cheia delas, mas sim transfigurá-las da mente para o papel. Para isso tinha que estar totalmente concentrado e alheado da realidade do seu dia a dia, de maneira a meditar acerca da construção do universo da sua história.
    Estendeu o olhar para o horizonte azul que sempre o inspirara e deparou com uma senhora grisalha que passeava na calçada afagando um gato cinzento de pêlos reluzentes. A senhora, esguia e de passos determinados, derretia a sua firmeza em afagos e beijinhos breves ao seu bem escovado felino. Num desses momentos de distração deleitosa, o pescoço do gato esticou-se e o ágil acrobata de quatro patas aterrou no asfalto. Trazia um pardalinho entre os dentes aguçados. A senhora desfez o sorriso amoroso e ergueu o indicador admoestando:
- Oh, seu malvado! Vá, não te mexas e abre a boca devagarinho.
O gato mimado fez ouvidos moucos e, ostentando dentes semi-serrados, desenhou-lhe com as unhas um trilho de esqui, sangrando-lhe o braço estendido.
   Um gato traidor. Gente traidora. A traição sempre fora um bom mote para uma história. O desconcerto do mundo.De um lado, um personagem crédulo, de moral íntegra, uma boa pessoa, no que bom significa trouxa, pacóvio. Um simplório incapaz de entender a vida.Do outro lado, uma raposa astuta, de lábia matreira, de grande rodagem mundana a cortar as pernas ao tonto. Enfim, uma história tão velha como o mundo.Pegou numa esferográfica verde e num papel amarelo e começou a verter torrencialmente a história de um sujeito que tinha estudado para padre em tempos de antanho.De súbito, a realidade sobrepõe-se à escrita que se interrompe pasmada diante de uma pancadaria estrondosa na porta do quarto. 
    Abriu os olhos e foi acordando lentamente, permanecendo numa semi-vigília estremunhada, própria de acordares intempestivos.
Que história sem pés nem cabeça, pensou alto, sentindo um misto de angústia e de alívio, esperando ter o caderno de apontamentos e a caneta na mesa de cabeceira para a anotar, com todos os pormenores.
Entretanto, a pancaria estrondosa na porta do quarto transformara-se num som metálico que emanava dum objecto que vibrava sons e luzes – um despertador? Nestes tempos modernos, um telemóvel?
Orientado pela luz psicadélica do objeto que vibrava, tacteou a mesa de cabeceira mas apenas encontrou o vazio.
- Ai, ai, ai – gemeu, o pânico puro invadindo-lhe todo o corpo, bloqueando a mente, sentindo que estava prestes a hiperventilar, sem lexotans nem sacos de papel para ordenar a respiração.
Quando pensava que nada poderia ser pior, sentiu que algo húmido e macio lhe fazia cócegas no pescoço. Na sua cabeça, o coração parou de bater. Morri – pensou.
    Mas pouco a pouco recuperou a tranquilidade. Começou a tocar-se a testa, o pescoço, as mãos... Felizmente, estava tudo bem. Acendeu a luz e deu-se conta de que não tinha ido desta para melhor. Foi à cozinha, bebeu um copo de água e deu um suspiro de alívio. Assomou à janela, a luz do sol e o azul do céu acolheram-no. Decidiu sair de casa, para desfrutar daquele dia, na esperança de poder encontrar uma qualquer inspiração e finalmente poder escrever. Com os pensamentos voltou ao sonho, que tinha sido na realidade um pesadelo... uma vez em casa, sentou-se à mesa, tomou a caneta e começou a escrever. Voltando ao sonho, quis escrever algo mais positivo.
- É importante alimentar e infundir esperanças, não só descrever o mal.- pensou.
E as palavras fluíram na folha de papel, antes branca.
 
José Maria Covas
Lídia Vieira
Helena Campos
Paula Carvalho
Giuseppa Giangrande
 
 
Delírios 
 
   Um dos delírios que mais inquietavam Tomás era aquele em que um presidente alemão, meio prostrado num sofá, se foi despedindo estranha e misteriosamente da vida. Fora uma espécie de delírio individual que abriu portas escancarradas a um delírio coletivo.
Tomás examinou o cadáver inerte, frio, acinzentado metodicamente. O facto de ser madrugador ajudava-o pois não só conseguia dar o seu máximo no sossego da alvorada como ganhara fama de ser altamente intuitivo. Naquela manhã, porém, carregado como estava com o desgosto pela partida de Sandra, só conseguia repetir-se que ‘não via um boi’ acerca daquele corpo sem marcas gritantes de violência quanto mais o selo de um psicopata, ou mesmo de um assassino em série, que tão bem preencheriam algumas páginas sensacionalistas. Só o rosto pesadamente adormecido o prendia por lhe lembrar o do presidente cujo enigma ele tanto gostaria de ter investigado pessoalmente. Uma hora e meia depois, já com a equipa reunida, pôs-se à escuta de pistas que o despertassem para o diagnóstico que teimava em fugir-lhe. O que iria divulgar no final da manhã?
   Morrer assim pé ante pé, desligar a vida com se apaga um botão era característico de certos venenos que arroxeavam o sangue, paralisavam os pulmões e o cérebro expirava sem oxigénio como um peixe num aquário seco.
Sandra é que era especialista em drogas e batera com a porta. Toda a gente acabava mais tarde ou mais cedo por se volatilizar no ar.
- O que dizemos à comunicação social, doutor?
- Olhe, diga que morreu intoxicado por um veneno ainda não identificado.
De facto, o presidente alemão com quem aquele individuo se parecia sobremaneira também morrera de um estranho veneno que resultava desconhecido em todos os testes de laboratório.
   Aqui há gato!
Não se consegue identificar o veneno, já foram chamados especialistas e nada.
Por outro lado, também não se consegue perceber porquê assassinar este homem, um pacato cidadão comum.
Será porque era parecido com o tal presidente alemão? Terá sido uma ingestão acidental?
Pelo facto de estarmos perante a presença duma substância totalmente desconhecida da comunidade científica, acho que deveremos orientar a nossa investigação na procura dum cientista extremista, pois não é nada bom continuar à solta na posse de uma substância tão poderosa.
E logo agora que a Sandra bateu com a porta ela que costuma ser uma ajuda preciosa nestes casos.
Outro problema vai ser a Comunicação Social que estão de dentes afiados para saber quais a nossas suspeitas e não nos vão deixar tranquilos, o que perturba sempre a investigação.
   Aquele crime era um quebra-cabeças, a solução do caso parecia estar muito longe. De repente, quando parecia impossível chegar ao ponto final da investigação apareceram de maneira inexplicável na mão do morto algumas flores de cor azul, assim explicou a Sandra. O caso fazia-se ainda mais misterioso... A notícia do crime chegou a Alemanha e um dia Tomás recebeu um telefonema de um colega da polícia federal de Berlim. O tal Martin Piekkenagen falou também de misteriosas flores azuis encontradas na mão do presidente alemão. O Instituto Robert Koch tinha sido chamado para colaborar e deslindar a questão, tão complicada. Tomás era atormentado pelas dúvidas: havia uma possibilidade que o caso chegasse ao fim?
    Chegou a casa. Vazia. Sem Sandra. Desde que entrara naquele clube de leitura, tudo tinha mudado. Já não cheirava a leite creme ou aos mimos que ela preparava. Em vez disso, começara a haver grupo de homens barbudos e mulheres com meias grossas a ocupar-lhe o sofá e os maples a dar opiniões irritantes sobre livros – ah a Ana Karenina, ah o Nome da Rosa. Espera! Tomás ficou alerta. Havia qualquer coisa nesse livro, o que era, o que era… um veneno, isso era certo, mas como era…? Tomás deu um salto. Marcou o número da esquadra – vá, lá, vá, lá, Santos, atende homem… Sem esperar e com o telemóvel na mão enfiou uma manga no casaco e correu pelo quarteirão, subiu a escadas da esquadra, a arfar e a gritar:
- As flores, as flores…
Olhavam-no confusos. Tomás continuou a gritar:
- As flores, as flores...
Seguido por dois agentes correu pelo corredor para o gabinete do médico legista. Abriram a porta. O cadáver estava na mesa. No chão, jazia o médico com as flores entre os dedos.
Tomás fez uma conferência de imprensa, deu entrevistas, apareceu em todo o lado. Em quem apareceu também foi a Sandra, impressionada com a nova fama do ex-namorado. No café, Tomás contou-lhe o Caso das Flores Azuis. Rosablu era um clube de botânica para excêntricos interessados na mais misteriosa cor da natureza. Enviavam uns aos outros sementes, bolbos, enxertos e ervas. Uma mistura de bagas dos Himalaias tinha finalmente dado resultado, misturada com terra dava origem a flores de um azul puríssimo que vendiam por milhares. Mas se alguém tocasse nas pétalas, o pólen entrava pelos poros e ia paralisando todos os órgãos. Em todo o mundo todos os pés estavam a ser localizados e destruídos sob supervisão rigorosa. Amanhã mesmo chegavam os técnicos a Lisboa. Então ainda lá estava a planta? Sandra pediu, insistiu, fez beicinho, sussurou-lhe promessas ao ouvido. Era só ver... Prometia, prometia mesmo. A caminho na noite escura, perguntava mais, chamava-lhe herói, e como era isso de venderem a planta por milhares...?
Lídia Vieira
Helena Campos
Isabel Soares
Giuseppa Giangrande
C. Borges