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LABORATÓRIO DE TEXTOS

Esta é uma fresta por onde se pode espreitar o nosso laboratório.

Gostamos de experimentar textos, inventar espaços e condições especiais e neles deixarmo-nos espantar pelo que acontece.

Aqui, recolhemos algumas das linhas que vão sendo criadas em diferentes oficinas. Algumas delas, dirigidas a antigos alunos, como a Naftalina, são iniciativas regulares; outras, abertas a quem por cá passa, são encontros e iniciativas extra-aulas. Placas de Petri.

Os textos, produzidos no tempo e condições das sessões, têm como único — e suficiente — critério de publicação a vontade do seu autor de vê-los aqui reproduzidos. Experimente ler, mas proteja-se: o prazer da experiência pode ser contagiante.

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«Se soa a escrita, reescreve», Elmore Leonard
 
Escrever diálogos é um equlíbrio entre a oralidade e os códigos da escrita. Mas também apenas através de uma conversa entre personagens, pode ler-se uma narrativa completa, uma história que vai para além do que é dito. 
Para treinarmos, propusemos este último caminho. 
 
 

A entrevista

- Bom dia. Venho para a entrevista de emprego. Fui convocada.
- Certo. E o seu nome é?
- Judite Silva
- Sim, está aqui o seu currículo. Porque concorreu a esta vaga?
- Fiquei desempregada o mês passado e ando à procura de uma nova oportunidade de trabalho.
- Porque ficou desempregada? A empresa onde estava faliu?
- Não. Mudou de gerência. A nova gerência decidiu reduzir o pessoal
- Estou a ver. Descreva-me as suas funções.
- Bem, atualizava bases de dados, fazia tabelas e gráficos, traduzia catálogos, trocava emails com clientes e fornecedores.
- Ou seja, tarefas administrativas. Mas você tem um curso superior, não tem? E já é sénior com essa idade, não é? Não lhe davam outras responsabilidades?
- A gestão era muito autocrática…Não havia categorias profissionais. Era obedecer.
- Então porque não mudou de empresa mais cedo? Com essa idade…
- Porque não havia anúncios durante a crise económica.
- Mas você tem de mexer-se. Tem de ser resiliente, empreendedora e proactiva
- Pois
- Pois. Nós não queremos gente velha e lerda aqui, está a perceber?
- Olhe, eu não gosto de psicólogos. Sempre a acharem que a culpa é dos pobres. A gente só quer um salário ao fim do mês para comer e pagar a renda da casa. Adeus – levantou-se e bateu com a porta.

Helena Campos


A Festa de Anos

-“ Conseissão, Ana Bela, Baneça, Felóra...” –teve que se concentrar para continuar a leitura, perdida que estava de riso – “Tumás, Carlus i Máuru.” “São só estes?”.
- “Sim, sim mãe.”
- “Bicos de patu, rissoes de peiche mas tamém pode ser de carne, corquetes, pipocas doces mas tamém pode ser salgadas, aquela coisa que é de xocolate e se come com colher mas não sei o nome e não é bolo, parece puré, bulinhos de bacalhau, alface de frutas...” – para quem andava no primeiro ano até não estava mal escrito de todo, se se lesse em voz alta percebia-se, mas ...– “Alface de frutas?!”
- Oh mãe, é aquela alface que se faz sem as folhas verdes, leva só maçã, pêra, uvas, ananás, mas não é daquela com sumo de borbulhas, com o daquela vez na casa da minha madrinha e fiquei cheia de sono e acordei mal disposta...”
- “Ah, já sei, salada de frutas “
-“É isso mesmo! Mas em casa da madrinha era uma salada com muito refresco com borbulhas, devia ser daquela água com pedras, não gostei nada.”
- “Pois, não gostaste tu nem eu quando soube que tinhas bebido cup” – pensou a mãe, prosseguindo depois em voz alta – “Não achas que falta alguma coisa?”
- “Acho que não mãe, está tudo o que gosto, ah, se calhar uns queques, aqueles pequeninos com manteiga e compota, adoro, adoooro!»
- “Scones?”
- “Isso!!!”
- “Mas então, o principal, o bolo de anos?”
- “Ah, isso... olha, se calhar fazemos como no ano em fiz cinco anos e morreu a tia Mariazinha e não tive festa: viras uma tigela de marmelada ao contrário e espetamos sete velas. Estava maravilhoso, mesmo com a cera toda derretida e apesar de ter apanhado uma dôr de barriga, ih!ih!ih! O que achas?”

Paula Carvalho
 

- Sabes que és muito bonita?
- Obrigada, mas não preciso dos teus elogios. Já sei o que tu queres.
- Tens a certeza? O que é que achas de mim?
- Sei lá! Ou melhor, já sei que és uma mentirosa, mentes como um cesto roto!
- És injusta comigo.Eu quero só um pouco de companhia e falar um bocadinho.
- Vai-te embora!
- Acho que estás nervosa.
- Tu és a que me enerva.
- Mas porquê?
- Basta de histórias! Falei de mais, agora chega!
- Como queres, vou-me embora. Mas eu...
- Vai -te embora, não ouviste?
- Está bem, vou - me embora.
- Finalmente compreendeste?
A pobrezinha, a lombriga, vai-se embora. Mas volta logo, foi a recolher uma florzinha para a oferecer à maçã.
- Outra vez aqui?
- Esta é para ti.
- Oh... eu... eu... creia que tu querias comer-me...
- As aparências iludem às vezes...
- Não tenho palavras para te agradecer... fui injusta contigo...
- Não faz mal... amigas?
- Está bem.

Giuseppa Giangrande

Nós

- Ele tem qualquer coisa fisgada, já te disse…
- Cala-te.
- Tu sabes, tu sabes…
- Sei o quê?
- Que as perguntas dele têm um fim…
- Qual fim?
- O nosso! O nosso fim!
- Cala-te!
- Porque é que ele nos fechou aqui?
- É para nosso bem…
- Porque é que não nos deixa ver ninguém?
- Para o bem deles…
- Já te deu mesmo a volta a cabeça… Estás a ouvir?
- O quê?
- A ti! Já falas como ele.
- Eu falo como eu.
- Coitado. Achas mesmo que ele quer o teu bem?
- Não quer…?
- Nunca quis! Eu não tinha razão com os comprimidos?
- Tinhas…
- Não era verdade que te faziam dormir o dia inteiro?
- Faziam...
- E que desde que os começaste a esconder debaixo da língua não ficou tudo melhor?
- Não sei se é melhor… tenho pesadelos.
- Mas eu não estou sempre lá contigo?
- Estás.
- Não estive sempre contigo desde que éramos crianças?
- Estiveste.
- Não é melhor assim?
- Ele diz que não…
- Ele, ele, ele… qualquer dia…
- Qualquer dia o quê?
- Damos cabo dele.
- Não podemos…
- No dia da enfermaria… o bisturi de cortar as ampolas…
- O bisturi…
- Tiram-te o sangue e tu muito mansinho pedes para ficar a descansar…
- E depois..?
- Depois a enfermeira vai ao doutor e tu sacas o bisturi…
- Posso sacar…
- E na consulta… zás!
- E ficamos livres?
- Sim.
- E não há comprimidos?
- Não.
- E não diz mais que és só…
- Só...?
- Só... vozes…
- Cala-te!

C Borges

 
 

 FolhetimNOVA TEMPORADA 2021/22

Nesta temporada do FOLHETIM novas histórias a várias mãos vão sendo escritas ao longo das sessões. Cada história terá 5 episódios. 
 
As histórias completas vão passando para outra publicação: https://www.escreverescrever.com/blog/185-sabonaria-folhetim-historias-completas.html
 
 
Resumos das histórias em curso:
 
A Oliveira que Matava Miguelistas será verdade ou mito? Uma personagem faz-se ao Alentejo à procura da famosa oleácea. Decide continuar a fazer-se passar por parvo e vai pensando nos 70 quilos que lhe quer pôr em cima.Mas não se provocam as árvores com passados obscuros... O nosso protagonista decide testar a oliveira com o peso de 70 quilos de pedras nos seus ramos. E este foi mesmo o seu último acto. E agora, quem acaba a história?
Uma Gaivota viajada regressa ao Miradouro da Graça. Traz consigo a história de uma cerejeira farta da costumeira beleza da passagem das estações. O que ela queria era ser gaivota. E esse sonho parecia à vista de se realizar quando a cerejeira estremece e cai. Infelizmente os zelosos funcionários da câmara apressaram-se a enraizá-la de novo. E agora, o que fará a cerejeira para conseguir voar? O que é verdade é que a cerejeira se encheu de brios e de força e conseguiu desensaizar-se, para espanto dos funcionários de recolha de lixo. 
Recomeçar do Zero traz-nos a história de uma mulher «com um vínculo muito forte com o verbo CORTAR». Decidida a mudar de vida, liga o rádio e ouve uma música especial. Muda de canal e vai atrás de uma pulseira mágica. Primeiro cor de prata e depois, no seu pulso, azul. O que significara isso? No autocarro viaja satisfeita e leve, mas um acidente e um raio luminoso que saem da sua pulseira mudam tudo. Agora, a pulseira são algemas...
O Labirinto das Escolhas é a nova história que nos traz uma mulher perante um dilema: depois de um vazio aparecem-lhe cinco ofertas de emprego. Com o peso das esolhas enganadas, faz um gráfico à procura de respostas.
 
 
 
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A Oliveira que Matava Miguelistas 3

   Lancei-me à estrada e pelas indicações muito vagas que tinha, cheguei a uma vila do Alentejo e indaguei pela oliveira, convencido que a oleácea era uma atração turística; se não é grande novidade uma oliveira resistir várias centenas de anos, ter uma que matou com os seus próprios ramos, dezenas de miguelistas, deveria ser motivo de orgulho.
Ninguém sabia e, pelos olhares desconfiados que fizeram, diria que me acharam meio estavanado, para não pronunciar mesmo atoleimado. Ia já desistir, quando um senhor se abeirou de mim.
- Ouça lá, o senhor acredita mesmo nessa história ou é tão parvo como parece?
      Olhei-o, mantendo a expressão que me fazia passar por parvo. Interiormente, senti um arrepio frio, seco, metálico, os olhos, semicerrados, formando uma linha plana e negra, entre as frontes e o nariz, a boca, de tão fina, tornando-se invisível.
- Não há por aí, sequer, um olival antigo, não é dessas modernices que os espanhóis cá vieram plantar, todos alinhadinhos, quais tranças de carapinhas...
- Pois, compadre, venha daí comigo que já lhe mostro um desses antigos, já o mê avô e antes dele os avós dele e os avós dos avós lá trabalharam.
O “venha daí comigo” era só uma força de expressão. Meti-o no carro, obriguei-o a apertar o cinto e arranquei. Enquanto avançava pela sinuosa estrada municipal que me conduziria a um estradão pensei se os ramos de oliveiras suportariam um peso de 70 quilos para poder cumprir a função que eu, com indisfarçável gozo interior, ia antecipando.
   Saí do carro apressadamente, tirei o saco de pedras e coloquei-o num dos ramos finos daquela árvore ancestral. Eis a minha surpresa quando o ramo instantaneamente se quebrou.- Estava à espera de uma árvore que se soubesse defender… Ela não ficou aqui parada quando os miguelistas a tentaram cortar aos bocados para fazer lenha.Má hora em que disse isto, pois um novo galho brotou do cepo do velho na minha direção, penetrando o meu corpo e deixando-me empoleirado no ar a ver o meu próprio sangue a escorrer. Tinha pouco tempo. Reuni as minhas forças, encarei o homem pálido que se encontrava paralisado no chão e supliquei-lhe para tirar da sua lapela um bloco de notas e uma caneta.De seguida pus-me a escrever desenfreadamente até chegar ao momento actual, em que o último sopro de vida me deixa ao acabar com a frase que ficará numa tabuleta aqui perto para a posterioridade: «Esta árvore parece franzina, mas por favor não se metam com ela para satisfazer a vossa curiosidade, pois as aparências enganam!»
 
Tiago Pina
Paula Carvalho
José Maria Covas
 

Uma Gaivota 4
 
   Uma gaivota voa livre e feliz no céu. Ela está muito feliz por ser uma gaivota, porque não tem laços, pode ir e voar aonde ela quer, apesar de ter a sua casinha numa árvore no Miradouro da Graça em Lisboa. O que é mais interessante é que ela um dia pode estar em Lisboa, um dia na Sicília, um dia em África, um dia em vi rem ajuda Goa… e ainda mais interessante é que ela todas as vezes que volta para Lisboa, pode contar muitas histórias, até às crianças que nos dias de sol brincam nas ruas perto do Miradouro e às pessoas que lhe dão alguma migalha para comer. Acabou de voltar esta vez do Japão e está a contar a história de uma cerejeira que guardava um segredo…
   Pois contara-lhe a cerejeira quão estranha se sentia com as modificações sofridas ao longo de todos os dias do ano: à explosão branca e perfumada que lhe vestia os ramos, sucedia-se a queda do virginal manto e o crescimento de frutos redondos e carnudos, vermelhos côr de pecado, após o que chegava uma pausa fresca e verdejante, mas, quando mais precisava de aconchego e agasalho, entrava numa hibernação despida e nua. Isto ano após ano, sem pausa, descanso, alteração ou imprevisão. “Quem me dera ser gaivota!”, suspirara a cerejeira “Partir e conhecer outros mundos, navegar pelos ares, ver as coisas ao longe e ao perto, não ter raízes...”
   Ao suspirar com mais força, não é que a cerejeira tremeu e se desequilibrou? Quando as raízes se soltaram da terra, o ruído das pedras da calçada a chocarem umas contra as outras foi intenso e ensurdecedor. Uma senhora idosa que trazia o cão pela trela ainda se magoou ao tentar desviar-se de uma mão-cheia delas que a atingiram de raspão e o poodle da senhora perdeu o piu com o golpe que as pedras lhe fizeram no dorso.Entretanto, a cerejeira inchada com o sufoco de perder a sustentação, só pensava em pôr-se em pontas, mas as raízes contorcidas em nada a ajudavam. Via-se já moribunda e derrotada para sempre nos seus sonhos de liberdade e vida mais ampla. No meio de tanto pânico, perdeu os sentidos.Acordou com a frescura da manhã. Os jardineiros da Câmara esforçavam-se por a pôr em pé, e, à pergunta “Prontos?” reergueram-na e replantaram-na numa operação delicadíssima.A cerejeira gritava debalde: “Não, não me prendam! Eu quero mudar de vida! Deixem-me voar.” E os homens, já muito transpirados, iam dizendo: “Pobrezinha, uma árvore tão bonita de que todos gostam. Merece bem uma segunda oportunidade!” E os calceteiros convocados completaram a obra de restauro, perante o choque da bela cerejeira. 
   Mas à segunda foi de vez. Foi numa noite de breu povoada pelo silêncio absoluto. Ginasticou as raízes com toda a fúria que tinha até eclodir daquela prisão subterrânea e projectar-se nos céus. Falharam-lhe as asas que não tinha, sacudiu os galhos, fracos músculos, contra o vento e acabou por cair numa lixeira ali perto onde um carro do lixo descarregava caixotes.
- Que é isto? Agora caem árvores do céu? – espantou-se um funcionário
- E é uma cerejeira! Alguém que não gosta de cerejas – disse outro
- Mas ela vinha a voar!
- Alguém que a tinha num vaso num andar alto e a jogou fora. Vou levá-la para o meu quintal.
 
 
Giuseppa Giangrande
Paula Carvalho
Lídia Vieira
Helena Campos
 
 
Recomeçar do Zero 3
 
   A vida dela tinha sido sempre cinzenta, sempre na mesma rotina. Para dizer a verdade, tinha certa aversão às inovações de qualquer tipo.
Chegou a pandemia e a solidão, que fizeram a sua vida ainda mais cinzenta… quase cortou com os poucos contactos que tinha até àquele momento. E, de facto, a sua vida tinha sido isso: um vínculo muito forte com o verbo CORTAR. Tinham-lhe cortado as asas, cortado relações e cortado muito mais. Só ficara o sofrimento.
Agora, depois meses de isolamento, estava decidida a tomar as rédeas da sua vida, queria recomeçar de zero e apagar o passado. Ligou o rádio e ouviu Ricomincio da qui.
   Infelizmente o seu italiano estava um bocado ferrugento, por isso mudou de canal. Um locutor entusiasmado apregoava uma pulseira com polos magnéticos que atraíam a ressonância das profundezas terrestres e mudavam de cor e a vida de qualquer um. Era só ligar. Estava por tudo. Nem acreditava. Nunca tinha ganhado nada na vida e agora estava à porta da Rádio Relâmpago com o coração a bater. Na recepção já estava o envelope com o seu nome. Sentou-se num banco e abriu o pacote. Era linda, brilhante, cintilante e chamava por si. Pôs a pulseira no pulso. A cor de prata ficava mesmo bem com o resto do bronzeado do Verão. Abriu o volumoso livrinho que dizia anunciava: MagiMagnet – Pulseira mágica. Instruções e advertências. Tantas instruções, que estupidez, pensou, e levantou os olhos ao céu. Nesse momento chegava o autocarro. As instruções ficaram para trás. Deu um salto e agarrou-se com força ao poste do autocarro. A pulseira brilhava no seu pulso. Agora estava azul. 
    O azul também combinava com o resto do bronzeado. Por isso, estava satisfeita.
Amplificou o som da rádio onde estavam a anunciar a entrega do prémio e sentiu-se grata por esta vitória.
Durante dez minutos fez-se embalar pelas melodias da Antena 3, para onde entretanto mudara. Bamboleava-se como uma praticante de Hula-Hula, oscilando entre voltas e contravoltas em torno de uma roda imaginária. Já quase conseguia visualizar o sucesso destes esforços, desde que os mantivesse durante as semanas necessárias. Outro recomeço cantaria e poderia regressar às saias e calças entretanto abandonadas por manifesta escassez de tecido nas ancas e na cintura. Estendeu o seu enlevo a um miúdo que lhe fazia caretas de se escangalhar a rir. Azar do menino, nada a faria cortar com os magníficos exercícios.
O autocarro deu um valente solavanco, e, quando se virou, indignada em direção do condutor que lhe estragava o parêntesis de ginásio, dirigiu um braço desajeitado para o suposto ofensor. Instantaneamente, a pulseira emitiu um raio luminoso sobre o espelho que o condutor consultava, ferindo-lhe a vista, levando-o a chocar estrondosamente com outra carreira. Gritos de pânico seguiram-se antes mesmo de ela parar de admirar o seu adorno.
- O que me terá escapado? -pensou, enquanto vários dedos apontados para ela encorajavam o polícia a algemá-la e a pô-la fora do veículo.

 

 
Giuseppa Giangrande
C. Borges
Lídia Vieira
 

O Labirinto das Escolhas 1

   Apareceram-lhe 5 ofertas de emprego ao mesmo tempo.
Na vida é sempre assim: durante largo tempo não temos nada, mas quando aparece algo, aparece às catrefadas, um engarrafamento de oportunidades e o peso inexorável da escolha.
E escolhemos sempre mal, e depois a culpa, a responsabilidade, a suprema angústia sartreana de quem está condenado à liberdade.
Sempre fora torturada por indecisões intermináveis e naquele instante voltou à estrada que se bifurca, à vertigem da decisão, a memória que se repetirá para toda a vida: porque não escolhi ao contrário?
Desenhou uma grelha com 6 linhas e 3 colunas onde escreveu as 5 hipóteses, vantagens e inconvenientes de cada uma, na senda de um qualquer algoritmo de engenharia decisional que lhe iluminasse a escolha acertada.
O algoritmo não surgiu, as vantagens e desvantagens cintilavam aleatoriamente em toda a tabela.
Era um momento pluripotencial, em que tinha abertos todos os destinos, todas as possibilidades, como um deus cego, ou como um escritor diante de uma página em branco.

Helena Campos

 

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Histórias completas (a partir de novembro/21)

 

 Sonhos

    Há quanto tempo estaria naquele quarto? Talvez semanas, ou até meses… Era tão difícil saber. Aliás, era exatamente por causa disso que tinha ido para aquele local longínquo, no qual o dia é um feixe de luz que atravessa o vidro da janela por uns breves instantes antes de ser consumido novamente pelas trevas envolventes. Precisava escrever. O problema não era a falta de ideias, tinha uma arca cheia delas, mas sim transfigurá-las da mente para o papel. Para isso tinha que estar totalmente concentrado e alheado da realidade do seu dia a dia, de maneira a meditar acerca da construção do universo da sua história.
    Estendeu o olhar para o horizonte azul que sempre o inspirara e deparou com uma senhora grisalha que passeava na calçada afagando um gato cinzento de pêlos reluzentes. A senhora, esguia e de passos determinados, derretia a sua firmeza em afagos e beijinhos breves ao seu bem escovado felino. Num desses momentos de distração deleitosa, o pescoço do gato esticou-se e o ágil acrobata de quatro patas aterrou no asfalto. Trazia um pardalinho entre os dentes aguçados. A senhora desfez o sorriso amoroso e ergueu o indicador admoestando:
- Oh, seu malvado! Vá, não te mexas e abre a boca devagarinho.
O gato mimado fez ouvidos moucos e, ostentando dentes semi-serrados, desenhou-lhe com as unhas um trilho de esqui, sangrando-lhe o braço estendido.
   Um gato traidor. Gente traidora. A traição sempre fora um bom mote para uma história. O desconcerto do mundo.De um lado, um personagem crédulo, de moral íntegra, uma boa pessoa, no que bom significa trouxa, pacóvio. Um simplório incapaz de entender a vida.Do outro lado, uma raposa astuta, de lábia matreira, de grande rodagem mundana a cortar as pernas ao tonto. Enfim, uma história tão velha como o mundo.Pegou numa esferográfica verde e num papel amarelo e começou a verter torrencialmente a história de um sujeito que tinha estudado para padre em tempos de antanho.De súbito, a realidade sobrepõe-se à escrita que se interrompe pasmada diante de uma pancadaria estrondosa na porta do quarto. 
    Abriu os olhos e foi acordando lentamente, permanecendo numa semi-vigília estremunhada, própria de acordares intempestivos.
Que história sem pés nem cabeça, pensou alto, sentindo um misto de angústia e de alívio, esperando ter o caderno de apontamentos e a caneta na mesa de cabeceira para a anotar, com todos os pormenores.
Entretanto, a pancaria estrondosa na porta do quarto transformara-se num som metálico que emanava dum objecto que vibrava sons e luzes – um despertador? Nestes tempos modernos, um telemóvel?
Orientado pela luz psicadélica do objeto que vibrava, tacteou a mesa de cabeceira mas apenas encontrou o vazio.
- Ai, ai, ai – gemeu, o pânico puro invadindo-lhe todo o corpo, bloqueando a mente, sentindo que estava prestes a hiperventilar, sem lexotans nem sacos de papel para ordenar a respiração.
Quando pensava que nada poderia ser pior, sentiu que algo húmido e macio lhe fazia cócegas no pescoço. Na sua cabeça, o coração parou de bater. Morri – pensou.
    Mas pouco a pouco recuperou a tranquilidade. Começou a tocar-se a testa, o pescoço, as mãos... Felizmente, estava tudo bem. Acendeu a luz e deu-se conta de que não tinha ido desta para melhor. Foi à cozinha, bebeu um copo de água e deu um suspiro de alívio. Assomou à janela, a luz do sol e o azul do céu acolheram-no. Decidiu sair de casa, para desfrutar daquele dia, na esperança de poder encontrar uma qualquer inspiração e finalmente poder escrever. Com os pensamentos voltou ao sonho, que tinha sido na realidade um pesadelo... uma vez em casa, sentou-se à mesa, tomou a caneta e começou a escrever. Voltando ao sonho, quis escrever algo mais positivo.
- É importante alimentar e infundir esperanças, não só descrever o mal.- pensou.
E as palavras fluíram na folha de papel, antes branca.
José Maria Covas
Lídia Vieira
Helena Campos
Paula Carvalho
Giuseppa Giangrande

 

Ludmila e os Anjos

    Compravam cartuchos de cerejas e iam comê-los para os jardins, faltavam às aulas e aos trabalhos sem que nada de mal lhes acontecesse, adoravam algodão doce, baloiços, o nascer do sol e a lua cheia. Observando bem, percebia-se que, homens ou mulheres, todos inham bochechas como nuvens e soltavam risinhos que despertavam brisas lilases. Mas, de resto, estava a ficar cada vez mais difícil distingui-los dos verdadeiros seres humanos. Ludmila não estava contente com isso. Tinha acordado cedo, como sempre, e quando abriu a janela para deixar o resto da torrada aos pardais, viu um deles. Decidiu agir drasticamente.
   Meteu a cabeça fora da janela e gritou:
- Tu aí aproxima-te, quero-te conhecer melhor, saber como e onde vives e como poderemos ser amigos.
Mas ele, esvoaçando perto da janela, fixou-a com os olhos brilhantes e soltando um risinho maroto, deixou cair delicadamente uma cereja apetitosa no parapeito da janela.
Depois voando aos zig-zags no céu escondeu-se atrás de uma nuvem desapareceu como por magia
Voltou a gritar:
-Não me podes fazer isto.
Precisava de descobrir uma forma de o conquistar. «Já sei», lembrou-se, « talvez procurando naquela arca da minha avó, guardada no sótão e cheia de livros antigos, eu descubra algum texto sobre artes de comunicar com o sobrenatural, e assim consiga encontrar uma forma de os cativar…»
Então Ludmila foi ao sótão. Num primeiro momento não conseguiu ver a arca, escondida coberta por um lençol de cor azul. Levantou devagarinho o lençol que, por sua vez, fez alçar uma leve nuvem de pó, abriu a arca e ali estava o tesouro da sua avó: uma verdadeira biblioteca com textos de diferentes géneros que difundiam uma aura quase mágica. Tinham títulos como: A magia da música, O encanto do mar, Outros mundos... Entre os textos encontrou o que estava a procurar, mas só a imagem da capa deixava entender que o livro tinha a ver com os anjos: leu o título escrito numa língua desconhecida: Melekler... quem poderia agora ajudá-la a decifrar aquele idioma tão esquisito e para ela desconhecido? E então perguntou-se como teria aquele livro chegado até a arca da sua avó...
Ao abri-lo, deparou-se com uma carta, com uma caligrafia irrepreensível, as letras todas alinhadas e bem caligrafadas, sinal que a mesma já tinha alguns anos. Sabendo que estava a cometer uma ilegalidade, porque as cartas que não nos são endereçadas, não são para perscrutar, Ludmila começou a lê-la.
«Querida Jesus, com o mavioso toque da minha caneta, e como prova de todo o meu amor, ofereço-te este livro, redigido numa escrita que apareceu por volta do ano 500 a.C, na Península Ibérica, conhecida como a Escrita do Sudoeste, e que fala de anjos que apareciam para dar fortuna e boas colheitas aos povos que habitavam esta coordenada geográfica da Hispânia. Se o quiseres desvendar, segue até Loulé e procura pelo Senhor Maia dos Anjos. Toda a gente o conhece.»
Do teu, e aqui a leitura era irreconhecível.
Ludmila ficou sem saber o que pensar. A avó teria tido um amante? Valeria a pena descodificar aquela escrita? O senhor Maia dos Anjos estaria ainda vivo?
   «Ora a avó nasceu em 1918» – pensou com os seus botões – «há mais de um século portanto, morreu há dez anos, já entrada nos noventa, o senhor dos Anjos deveria rondar essa idade, dificilmente estará vivo. Uma pena que a mãe não esteja bem da cabeça, nem vale a pena perguntar-lhe, só iria gerar confusão...Por outro lado, ela parece lembrar-se melhor dos acontecimentos do passado. Loulé, Loulé, porquê Loulé? Toda a nossa família é beirã, bem toda, toda também não sei, porque a mãe é filha de pai incógnito incógnito, não daqueles incógnitos no registo mas que toda a gente sabia quem era. E por isso o autor da carta não era amante – será que era o avó incógnito?».
Ludmilla «googlou», sem convicção, «Maia dos Anjos», como única resposta apareceu uma sociedade de advogados no Brasil que dava pelo nome de «Maia & Anjos» e certamente não teria nada a ver com o assunto.
«Oh, que irritação!»
Abeirou-se da mansarda, olhou o jardim que anoitecia devagar, convidando ao repouso, à serenidade, em que Ludmilla progressivamente se deixou cair, esquecendo o frenesim que a afligia. Longe e perto os pequenos seres continuavam o seu afã ordenado, quais formigas. Os últimos raios de sol reflectiam-se neles, como que projectando uma aura quase invisível a olho nu. De repente caiu a noite e todo o jardim se iluminou, com o brilho de mil luzes que desenhavam sinos, laços e bolas, estrelas e cornetas; um arco engalanado unia a copa de duas árvores e nele podia ler-se «Feliz Natal Ludmilla». Era dia 28 de Novembro, começava o Advento.

C. Borges
Isabel Soares
Giuseppa Giangrande
Tiago Pina
Paula Carvalho


Delírios 
 
   Um dos delírios que mais inquietavam Tomás era aquele em que um presidente alemão, meio prostrado num sofá, se foi despedindo estranha e misteriosamente da vida. Fora uma espécie de delírio individual que abriu portas escancarradas a um delírio coletivo.
Tomás examinou o cadáver inerte, frio, acinzentado metodicamente. O facto de ser madrugador ajudava-o pois não só conseguia dar o seu máximo no sossego da alvorada como ganhara fama de ser altamente intuitivo. Naquela manhã, porém, carregado como estava com o desgosto pela partida de Sandra, só conseguia repetir-se que ‘não via um boi’ acerca daquele corpo sem marcas gritantes de violência quanto mais o selo de um psicopata, ou mesmo de um assassino em série, que tão bem preencheriam algumas páginas sensacionalistas. Só o rosto pesadamente adormecido o prendia por lhe lembrar o do presidente cujo enigma ele tanto gostaria de ter investigado pessoalmente. Uma hora e meia depois, já com a equipa reunida, pôs-se à escuta de pistas que o despertassem para o diagnóstico que teimava em fugir-lhe. O que iria divulgar no final da manhã?
   Morrer assim pé ante pé, desligar a vida com se apaga um botão era característico de certos venenos que arroxeavam o sangue, paralisavam os pulmões e o cérebro expirava sem oxigénio como um peixe num aquário seco.
Sandra é que era especialista em drogas e batera com a porta. Toda a gente acabava mais tarde ou mais cedo por se volatilizar no ar.
- O que dizemos à comunicação social, doutor?
- Olhe, diga que morreu intoxicado por um veneno ainda não identificado.
De facto, o presidente alemão com quem aquele individuo se parecia sobremaneira também morrera de um estranho veneno que resultava desconhecido em todos os testes de laboratório.
   Aqui há gato!
Não se consegue identificar o veneno, já foram chamados especialistas e nada.
Por outro lado, também não se consegue perceber porquê assassinar este homem, um pacato cidadão comum.
Será porque era parecido com o tal presidente alemão? Terá sido uma ingestão acidental?
Pelo facto de estarmos perante a presença duma substância totalmente desconhecida da comunidade científica, acho que deveremos orientar a nossa investigação na procura dum cientista extremista, pois não é nada bom continuar à solta na posse de uma substância tão poderosa.
E logo agora que a Sandra bateu com a porta ela que costuma ser uma ajuda preciosa nestes casos.
Outro problema vai ser a Comunicação Social que estão de dentes afiados para saber quais a nossas suspeitas e não nos vão deixar tranquilos, o que perturba sempre a investigação.
   Aquele crime era um quebra-cabeças, a solução do caso parecia estar muito longe. De repente, quando parecia impossível chegar ao ponto final da investigação apareceram de maneira inexplicável na mão do morto algumas flores de cor azul, assim explicou a Sandra. O caso fazia-se ainda mais misterioso... A notícia do crime chegou a Alemanha e um dia Tomás recebeu um telefonema de um colega da polícia federal de Berlim. O tal Martin Piekkenagen falou também de misteriosas flores azuis encontradas na mão do presidente alemão. O Instituto Robert Koch tinha sido chamado para colaborar e deslindar a questão, tão complicada. Tomás era atormentado pelas dúvidas: havia uma possibilidade que o caso chegasse ao fim?
    Chegou a casa. Vazia. Sem Sandra. Desde que entrara naquele clube de leitura, tudo tinha mudado. Já não cheirava a leite creme ou aos mimos que ela preparava. Em vez disso, começara a haver grupo de homens barbudos e mulheres com meias grossas a ocupar-lhe o sofá e os maples a dar opiniões irritantes sobre livros – ah a Ana Karenina, ah o Nome da Rosa. Espera! Tomás ficou alerta. Havia qualquer coisa nesse livro, o que era, o que era… um veneno, isso era certo, mas como era…? Tomás deu um salto. Marcou o número da esquadra – vá, lá, vá, lá, Santos, atende homem… Sem esperar e com o telemóvel na mão enfiou uma manga no casaco e correu pelo quarteirão, subiu a escadas da esquadra, a arfar e a gritar:
- As flores, as flores…
Olhavam-no confusos. Tomás continuou a gritar:
- As flores, as flores...
Seguido por dois agentes correu pelo corredor para o gabinete do médico legista. Abriram a porta. O cadáver estava na mesa. No chão, jazia o médico com as flores entre os dedos.
Tomás fez uma conferência de imprensa, deu entrevistas, apareceu em todo o lado. Em quem apareceu também foi a Sandra, impressionada com a nova fama do ex-namorado. No café, Tomás contou-lhe o Caso das Flores Azuis. Rosablu era um clube de botânica para excêntricos interessados na mais misteriosa cor da natureza. Enviavam uns aos outros sementes, bolbos, enxertos e ervas. Uma mistura de bagas dos Himalaias tinha finalmente dado resultado, misturada com terra dava origem a flores de um azul puríssimo que vendiam por milhares. Mas se alguém tocasse nas pétalas, o pólen entrava pelos poros e ia paralisando todos os órgãos. Em todo o mundo todos os pés estavam a ser localizados e destruídos sob supervisão rigorosa. Amanhã mesmo chegavam os técnicos a Lisboa. Então ainda lá estava a planta? Sandra pediu, insistiu, fez beicinho, sussurou-lhe promessas ao ouvido. Era só ver... Prometia, prometia mesmo. A caminho na noite escura, perguntava mais, chamava-lhe herói, e como era isso de venderem a planta por milhares...?
Lídia Vieira
Helena Campos
Isabel Soares
Giuseppa Giangrande
C. Borges

 poesia

 

«Sê sempre um poeta, mesmo em prosa», Baudelaire
Baudelaire relembra-nos que prosa e poesia bebem provavelmente da mesma nascente. Pedimos aos nossos participantes que escrevessem em voz alta, que ouvissem o som da palavra a cair da fonte e deixassem cair na página sem os constrangimentos de sentido fechado da prosa.

 

 

 

O passeio

Percorri já vários caminhos, desde becos recônditos que desembocavam no mar através de uma rede de caves, túneis e cavernas, até vales repletos de construções humanas com vários níveis de complexidade. O meu percurso de eleição é o que me permite alcançar, passo a passo, pedra sobre pedra, uma terra só acessível por uma escada da altura de uma montanha. Este local ao qual chamo casa torna a vida em morte e a morte em vida. Contém as melhores partes de cada experiência, permite a minha boca saborear as labaredas solares, tocar em água tão fria que me gela os ossos e ver os movimentos aleatório das correntes de ar que me elevam até ao centro da espiral de corvos onde o dia se torna noite. Aqui, passado, presente e futuro convergem num diálogo contínuo entre o que é e o que pode ser, cristalizando qualquer sonho num templo de possibilidades.

José Maria Covas


Todos os dias são domingos

Escrever aos domingos, é o que resta a quem gosta de o fazer, mas tem outras profissões para alimentar a da escrita.
Por exemplo, andei a semana inteira com uns pensamentos sobre um conto. Vou por ali, introduzo uma personagem no terceiro parágrafo, mato-a no sexto, tenho de ter cuidado para ela não aparecer no 9.º, tenho de arranjar um início forte que valha a pena, tudo sem interesse.
Vai daí, ontem, deitei-me por volta das 11 da noite e não é que à meia noite e vinte minutos me surgiu uma ideia, daquelas que a gente tem de se levantar e apontá-la para não se esquecer. Lá está, e eu não acredito em coincidências, mas já era domingo.
António Duarte, homem pacato e dado a passeios junto ao mar, foi o primeiro a ver a chegada da hora nova. Segundo ele, uma gaivota trazia-a às costas e lançou-a aos poucos, operação que durou exatamente 60 minutos. A hora nova sorriu, pôs-se em posição e foi à sua vida, atrasando tudo 3600 segundo. Sobre a hora antiga, sabemos que foi descansar para outras paragens mais condignas com a sua condição noctívaga.
Este é um exemplo de um texto de domingo, que amanhã será apagado pois não tem qualidade. E é assim a vida de quem escrevinha só quando pode. Escreve 30 palavras, apaga 50. Reescreve mais 40 e apaga 35. Salvam-se 5. Dessas cinco, esperamos que se multipliquem por algumas mais. Mas é a alegria de ver essa meia dezena que nos faz aguardar ansiosamente pelo próximo domingo ou pela próxima oportunidade de retribuir qualquer coisa que tenha de se escrever com sílabas.

Tiago Pina


Escrever aos domingos

Escrever aos domingos... é um momento importante em que ideias, palavras, mensagens e muito mais se cruzam, como duas estradas, ou dois caminhos que levam à Itália e a Portugal. É uma maneira para deixar reaparecer lembranças bonitas, cores, como o azul do céu, o cor de rosa e o vermelho das flores, imagens de um tempo que parece longínquo, sabores, os abraços...
Escrever aos domingos é deixar ressoar vozes, sons, melodias... Escrever aos domingos é um momento de encontro, apesar das distâncias. Escrever aos domingos é deixar-se levar pela saudade e pela esperança de um novo encontro, apaixonar-se por algo que nunca se conheceu, que talvez fica sempre desconhecido, mas que faz permanecer o seu rasto no coração.

Giuseppa Giangrande
 

Domingo à tarde

Domingo à tarde era um lírio da paz. Uma cortina vermelha a ondular sobre uma seara verde que rodeava a mesa redonda e metálica onde pendia a caneta hesitante sobre o papel impávido.
Domingo à tarde era uma brecha de silêncio numa semana caótica onde a vida a escorraçava sempre, num eterno retorno ao mesmo lugar de Sísifo cansado.
O tambor da máquina a centrifugar a roupa. Uma osga que teimava em aparecer e que latia como um cão a esfolar o silêncio.
E de súbito, a torrente. As palavras a disputarem uma nesga de espaço no papel impávido, a acotovelarem-se como numa feira, as palavras riscadas porque arrependidas de nascer, desajustadas no conjunto, inconvenientes como uma nódoa na brancura aristocrática do papel.
As palavras que não vinham porque se recusavam a vir, porque descansavam, exaustas, de tanto serem solicitadas ao dicionário.
As metáforas que lhe fugiam, as metáforas gastas que lhe surgiam a despropósito.
E lá miava a osga num grito quase humano, a intrometer-se dentro das palavras, a usar as vírgulas como muletas e a varrer com a cauda bamboleante o que restava do sentido.

Helena Campos

 tesoura

«No que toca a escrever, acredito mais na tesoura do que na caneta», Truman Capote
Escrever é sempre cortar. Escolhar e decidir o que fica de fora. No caso dos microcontos ainda mais. Decidimos partir para o desafio, com tempo e caracteres limitados, sob o tema do corte. A experiência suscistou discussão e dúvidas. E, esperamos, algumas novas pistas sobre o que é uma «história» e esta experiência extrema da micronarrativa.

 


Pernas cortadas

Foi no dia que fez 50 anos que Cecília se apercebeu de que não tinha vivido. O passado mais não fora do que arrastar um destino obstinadamente cinzento.
Tudo começara na juventude quando abriu a porta errada, a má escolha do curso conduzira-a à marginalidade obscura de um emprego degradante onde era reduzida à 4ª classe. Passava os dias a contar caixas num armazém esconso enquanto teorizava sobre as elites que lhe tinham cortado as pernas.
Certo dia, no limiar dos 50, conheceu um carismático professor que palestrava sobre o direito à mudança de vida para atingir a felicidade.
Deslumbrada com o discurso dele sobre uma miríade de sonhos e projectos que ainda podia realizar para alcançar a vida a que tinha direito, e que lhe havia sido usurpada, a tola da velha deixou o parco emprego para percorrer todos os caminhos alternativos na senda da felicidade.
Via-a outro dia, debaixo de uma escada, a dormir sem abrigo sobre um caixote e uma manta sebenta.

Helena Campos

Corta!

- Corta! – ordenou o realizador
O actor, de tesoura na mão, queixava-se já da falta de cabelo depois de tantos cortes repetidos na mesma cena.
- Põe-me uma peruca – sugeriu a colega que fazia de cliente.
O actor voltou ao penteado enquanto cuscava efeminadamente a vida de uns e de outros. A dada altura percebeu que a colega lhe roubara o namorado.
- Corta! – repetiu o realizador
E ele, vingativo, cortou com fúria até jorrar sangue. O realizador calou-se. Desta vez, o corte fora perfeito.

Helena Campos


Via láctea de fel

Cortaste-me da tua vida com a frieza duma lâmina, lâmina que prepararas para usar quando não estivesse a ver. Sim, coragem nunca foi teu apanágio, cobarde era teu nome do meio. Regresso uma e outra vez àquele momento em que tudo ainda podia ser, penso no que deveria ter feito diferente para que tudo fosse possível, ainda que apenas agora, e amanhã tudo fosse igual ao que já é. Na minha mente, qual tela de cinema, passa um filme em câmara lenta, em modo de repetição, o filme do que poderia ter sido e não foi. Dizes que foi um acaso sem caso pensado, não acredito, não há acasos premeditados. Pois, mentira era o teu segundo nome, repetido no apelido.
Folheio o álbum que já foi nosso. Não te encontro. Nem quero. A tesoura de Toledo, comprada na lua de mel, cumpriu a sua função higiénica.
E, no entanto, continuo a ver o filme...

Paula Carvalho


Tesoura

Pôs os óculos, pegou na agulha e enfiou a linha. A luz era forte e incidia nos seus dedos. Antes tinha umas mãos tão bonitas, pensou. Mãos de pianista, dizia a avó. Agora, já as começava a sentir mais nodosas. Era subtil, mas o envelhecimento começava a insinuar-se e a aninhar-se no seu corpo. A agulha parou. Estes tecidos rijos são sempre um problema, pensou. Talvez devesse mudar para uma agulha mais grossa. Mas depois o trabalho não ficava tão bonito, esgarçava, notavam-se os buraquinhos. Tinha orgulho na sua perfeição. Depois de muitos falhanços, desta vez tudo tinha corrido bem. Os cortes eram de mestre, as pregas, naturais e tinha finalmente conseguido o ton-sur-ton de que andava há tanto tempo à procura. Com lotes diferentes, era sempre tarefa difícil. Estava pronto. Era lindo, magnífico, a sua obra prima. E pegando na tesoura, cortou a linha. Finalmente o Dr. Frankenstein terminara a Criatura.
 
C. Borges
 

Corte e costura

Dona Mariana decidiu abrir a porta do seu estabelecimento e colocar o trabalho sobre o balcão corrido. Após vários confinamentos, ansiava por confecionar roupas de raíz, algo a que renunciara para se dedicar aos arranjos de costura. Com o aparecimento de uma cliente, interrompeu a costura de um bordado num magnífico vestido de noiva. O vislumbre de tecidos cuidadosamente dobrados num saco de papel encheu-a de esperança.
-“Preciso que me suba um centímetro nestas baínhas” solicitou a cliente.
-“Só isso?” – inquiriu a modista com voz desmaiada.
-“Sim”- respondeu-lhe a senhora espantada, apontando o letreiro da montra: “Fazem-se arranjos rápidos de costura”.
A modista angustiada pela falha na atualização, quase cravou a tesoura num dedo a escassos milímetros da peça que exibia.

Lídia Vieira

 

 aranhaUm conjunto de histórias de algumas das sessões de 2020/21 da arrepiante oficina Teias de Aranha. Prepare-se, virão mais...

 
 
 
 
Quase Certeiro

É certo e sabido que todos os pais têm um filho preferido, mesmo que até sejam a cara chapada uns dos outros e com feitios idênticos. André era o mais velho. Olhava para as duas irmãs com algum desdém, mas não tolerava a preferência descarada dos pais por Natacha. Ela era, como ele dizia, «a menina dos olhos deles».
Planeou o crime minuciosamente, simulando um assalto à habitação da família, com o único propósito de executar a irmã a sangue-frio.
O corpo nu foi encontrado pelos pais no chão da sala. O crânio esmagado alagou-o numa poça de vermelho-vivo. Os olhos foram retirados com um saca-rolhas, deixando dois buracos enormes com vista para o interior. Cada osso do rosto foi partido com a violência exigida, transformando-o numa papa ensanguentada. Não havia ponta que não fosse roxa e não estivesse retalhada.
Quando André chegou perto da família, não precisou de simular a perturbação. Esta ganhou forma humana e veio a caminhar até ele quando Natacha se aproximou, para chorar a morte da sua gémea, Noa.
Liliana Duarte Pereira
 
 
Cobrança

Adelinda fechou a porta da cave, acendeu a luz e pôs-se ao trabalho. Diante de si, estava um homem das Finanças, pendendo do teto por correntes. As grilhetas eram tão fortes que talvez tivessem partido as articulações — das mãos e dos pés — que não tinham sido trabalhadas pelo martelo da carne. Era bom que assim fosse para não fugir.
— Tem vindo o senhor cá há anos para se alimentar de todas as minhas poupanças, não é? Hoje, mudamos um bocadinho as coisas.
Adelinda pegou no machado que usava para cortar lenha no quintal e decepou ambas as mãos do ganancioso, seguidas dos pés. Depois, espetou agulhas nos cepos para que o sangue vertesse para diversos frascos de geleia. A seguir, como se fatiasse fiambre, aparou a barriga oval para onde fora todo o dinheiro roubado. Com cuidado. Lentamente.
Só após muitas horas e muitos gritos é que Adelinda usou uma colher de gelados para extrair os olhos, ajustando-os no topo do prato de carne que tinha o sangue como cobertura. Colocou o saque no forno de barro para ser o jantar dos seus animais. E eventualmente o seu.
Subiu então as escadas para ver televisão, enquanto esperava que a carne estivesse no ponto. E ao fechar a porta, com um sorriso, disse para o homem lá em baixo:
— Amanhã, há mais.
José Maria Covas
 
A Boleia

Sempre achei as pessoas muito cruéis e egoístas. Comigo não costumam ser simpáticas. Na verdade, gozam-me por causa dos meus dentes encavalitados e tortos. São tão grandes e incómodos que me impedem de fechar a boca corretamente. Mas todos na minha família padecem deste mal. A minha mãe diz que uma rapariga franzina e tímida como eu tem de ganhar calo para as agruras da vida. Assegurou-me de que as rasteiras e empurrões dos meus colegas de turma, por exemplo, formam o caráter. E com o tempo, aprendemos a ignorar os insultos. Aliás, já ninguém me chama pelo nome. Sou a «dentuça» ou a «dentes de cavalo». Perdi a conta às vezes que me pediram para relinchar.
Portanto, foi com grande surpresa que hoje, a caminho de casa, fui abordada com amabilidade por um senhor distinto, preocupado com a segurança de uma rapariga sozinha na rua àquelas horas da noite. Com uma simpatia rara, ofereceu-se para me dar boleia até casa. «Era o mínimo que podia fazer», sossegou-me, abrindo-me a porta do carro.
Hesitei de início, mas acabei por entrar e me sentar no banco de trás, enquanto a sua voz melodiosa me perguntava onde eu morava e se alguém me esperava em casa. Escondi um sorriso danificado, agradecida, e respondi que só a minha irmã mais nova me aguardava. Acrescentei que estava a tomar conta dela na ausência dos nossos pais.
O veículo arrancou pouco depois de trancar as portas. À medida que lhe ia dando as direções, comecei a sentir-me mal por lhe ter mentido, mas a minha mãe tinha-me pedido para levar o jantar para casa, e estes bons samaritanos são tão fáceis de enganar.
Marta Nazaré
 
A Dança

Todos sabiam o que acontecia a quem passasse pelo cemitério depois do pôr-do-sol. Não era nada de aterrador, na verdade — pelo menos para quem não fosse vivo e prescindia de crenças tão curiosas como a morte tratar-se de um sono eterno, ou os mortos deverem ficar sossegados, pelo menos enquanto os vivos estivessem por perto.
Em defesa dos residentes do cemitério, eles esperavam sempre que o último vivo abandonasse o recinto antes de começarem a sua dança. Mas se algum por lá decidia ficar, por que haveriam eles de voltar às suas posições diurnas? A eternidade era tremendamente aborrecida para se ficar parado a toda a hora.
Além disso, se um vivo ficava a observar a dança, seria certamente porque se queria juntar. E porque não? Os residentes do cemitério, apesar de inicialmente reticentes quanto a esta questão da «morte», depressa se aperceberam das vantagens da sua nova condição — adeus às preocupações tão estúpidas da vida! Perante essa completa leveza, quem não quereria dançar para todo o sempre?
Era por isso que ninguém se aproximava do cemitério depois de certas horas. Não por falta de consideração ou hospitalidade dos cadáveres. Muito pelo contrário.
Patrícia Passos de Sá

A Mais Bela Flor

Jacinto colheu as rosas brancas da estufa e ofereceu-as à filha de Orquídea. Rosa, que fazia catorze anos, agradeceu-lhe com um sorriso, mostrando-lhe os dentes de pérola. Jacinto corou e devolveu-lhe o sorriso, fixando por momentos o rosto de pele delicada, os cabelos louros ondulantes e os olhos de um tom azul-marinho.
Estava nervoso, sentado ao lado de Rosa. Nem mesmo as rosas mais exóticas exalavam o perfume que se desprendia do seu cabelo e da sua pele: um odor de gordura fresca não azeda e um cheirinho de iogurte acabado de fazer. Rosa era uma flor a desabrochar para a adolescência.
Enquanto mãe e filha conversavam, serviu-lhes uma tisana e uns biscoitos de manteiga. A senhora Orquídea, que ocupava quase dois lugares no sofá, pediu-lhe mais chá e mais biscoitos. Jacinto foi até cozinha, ferveu a água e juntou-lhe um ingrediente especial. Pouco tempo depois, Rosa e Orquídea dormiam.
Jacinto observou-as de perto e, com cuidado, amarrou-as e amordaçou-as. A seguir, levou Rosa para a estufa e aparou-a com delicadeza. Arrancou lentamente os belos olhos com uma tesoura de poda para não os danificar. Esquartejou-lhe os braços com uma pequena enxada. Descolou as unhas dos pés e das mãos com um serrote, separando com paciência a pele das unhas. Colocou-a no colo e enterrou o corpo até se ver a cabeça, deixando de fora os belos cabelos louros. Depois, regou-a com orgulho, a mais bela flor da sua estufa.
Sandra Amado

«Escrever é a pintura das palavras.», Voltaire.

Nesta sessão escrevemos a partir de uma conhecida obra da artista portuguesa Helena Almeida (1934-2018). A imagem funcionou como ponto de partida que cada participante trabalhou livremente.

 

 helenaVasconcelos

 


Fora / dentro / fora
Cor / negro / branco cinza
Luz / sombra / sombras
Opaco / fosco/ translúcido
Encobrir / descobrir
Fechar / abrir
Olhar / não olhar
Escutar / não escutar
Cheirar / não cheirar
Saborear / não saborear
Sentir / não sentir
Respirar / Suster
Inspirar / Expirar
Suspender / extender
Contrair / expandir
Pousar / fluir / flutuar
Sólido / líquido / gasoso
Neve / rio / nuvem
Princípio / caminho / fim
Querer / rejeitar
Escolher / duvidar
Amar / odiar
Princípio / fim
Nascer / viver / morrer
Ir / ficar
Rir / chorar
Verbo / sujeito
Directo / indirecto
Querer / rejeitar
Verão / inverno
Primavera / Outono
Vermelho / branco
Verde / amarelo
Verde / verde / verde
Vale / montanha / cume
Nascente / foz
Novo / velho

Se no princípio era o verbo, onde fica o sujeito?
Se os rios correm para o mar onde ficam os meus risos? E os choros, têm lugar? Ou habitam-me de madrugada, à hora que ninguém vê?
Vem vida, vamos juntas, a par, não me deixes, não me pregues mais partidas, não mudes as tuas perguntas porque já esgotei as respostas.
Sim, eu sei que queria seguir um caminho que nunca ninguém percorrera, calcá-lo e fazê-lo meu, sob o arco dum céu de veludo e sem outra bagagem que não os meus demónios.
Olho agora esse caminho, em que sombras se adensam e um nevoeiro espesso aperta, sem outra opção que não seja seguir um trilho, expulsar demónios e convocar os anjos que me deixaram cedo demais.
Vou, não vou? (É uma afirmação, não uma pergunta).Levo na bagagem as memórias, os risos, as cores, dos verões e dos serões que passaram, que nada pesam, ao contrário da certeza deste opressor inverno polar.

Paula Carvalho


ALEXANDRA ESCONDEU-SE ATRÁS DO AZUL

Alexandra escondeu-se atrás do azul enquanto observava o filho Daniel a pintar o silêncio gota a gota, no tempo em que uma arma biológica atingia o mundo.
- She got the blues – gozavam na empresa onde lhe caiam os tostões ao fim do mês. Colocada numa sala deserta sem fazer nada e nem assim lhe davam teletrabalho na pandemia. Era o assédio moral em pleno, até o sindicato a oprimia. A negra opressão da ditadura a que fora votada a sua carreira. Queres uns tostões ao fim do mês? Deita os canudos ao lixo e 4ª classe para a frente.
Meteu baixa por depressão por tempo indeterminado.
Arranjou uma caixa de aguarelas e começou a pintar sapatos em cima de cabeças, diplomas rasgados, vidas a partirem-se pelas escadas abaixo.
Lá fora, a pandemia rugia, 300 mortos por dia, 15 000 infectados por dia e ela pintava vírus dentudos a estrangularem inocentes ante o riso da bandeira chinesa.
Certa tarde, abandonou as pinturas e foi prostrar-se à janela da casa, agora transformada em gaiola anti-virus. Quando regressou à sala, uma flor azul tinha nascido na tela. O filho autista, com os dedos cobertos de tinta azul, olhava fixamente a parede com os seus olhos de céu nocturno.

Helena Campos


O MAR, UMA MANCHA AZUL

Estou à frente do mar, que me aparece como uma imensa mancha azul; está vento, que agita as ondas e as faz subir e descer. Fico submersa na onda das recordações, de um tempo agora distante.
Quem me dera poder voltar a felicidade daqueles dias, mas tenho de me resignar, - o que se foi embora não vai voltar, perdeu-se, não haja ilusões.
Olho para o céu, outra imensa mancha azul; vejo um bando de gaivotas que voam livres, felizes! Também queria ser uma delas, voar, ser feliz.
Ao olhar novamente para o mar encrespado pelas ondas, tenho consciência de que, no fim de contas, talvez a vida seja como aquelas ondas que andam numa roda-viva, que se aproximam da terra, para depois se afastarem de novo. Enfim, uma série de altos e baixos.
Ouço o canto das gaivotas que esta vez me faz acordar de uma espécie de torpor em que tinha caído; aquele canto é um convite a olhar para frente, para o futuro sem ficar apanhada nos laços do passado. Então, vejo na voz das gaivotas uma mensagem. Uma mensagem que me infunde a esperança de algo novo e melhor. De coração leve, viro as costas ao mar, aquela imensa mancha azul, e volto para casa, decidida a recomeçar do zero, olhando para o céu, outra mancha azul.

Giuseppa Giangrande

 

Não quero continuar escondida atrás deste azul imenso de dúvidas que ensombraram toda a minha vida.
Quem fui e quem sou?
Ontem triste e derrotada, hoje alegre e conquistadora, como estarei amanhã?
Um longo caminho de hesitações e receios que me aprisionam atrás deste mar de insegurança.
Quero libertar-me, emergir da profundidade, mostrar um meu outro Eu .
Dar a conhecer as minhas conquistas, experiências vividas de relação humana, de dor e sofrimento e até de morte, mas também tantos momentos de felicidade e alegria que exprimem o sentimento de missão cumprida .
Esta na hora de pegar no pincel e pintar uma nova tela.

Isabel Soares

 

Após uma breve apresentação das maleitas e queixas de Manuela ao osteopata, bem como referência aos medicamentos e pomadas utilizadas, o médico analisou o raio-x da sua coluna vertebral. Manuela foi convidada a contornar o biombo do amplo consultório de traça pombalina. Despiu a blusa, fincou os pés e inclinou o torso para que o médico palpasse a extensão das crispações e inflamações na coluna e o agravamento do desvio ósseo.
- As inflamações aumentaram-lhe claramente a escoliose e o desnível das ancas - confirmou o médico.
- Daí o sofrimento que não cessa. Eu bem tento corrigir a postura, Dr., mas não consigo, as dores não me largam. Os analgésicos não produziram o alívio desejado. Acabei por recorrer ao Valdispert 125 que me tem oferecido um sono pesado o suficiente durante as noites e a cabeça pelo menos vai funcionando.
- Sim, sim - foi concordando o médico - pressionando as áreas bloqueadas com mãos sábias para as descongestionar.
Manuela fechou os olhos e tentou descontrair-se repetindo-se: o doente é participante ativo na sua cura; tenho de colaborar. E começou a respirar com mais soltura. Cerca de uma dezena de minutos depois, o médico deu a primeira sessão do tratamento por terminada.
- Não posso avançar mais. Se a pressionar demasiado, amanhã não poderá fazer a sua vida normal.
À palavra 'normal', Manuela despertou completamente. O corpo estava ligeiramente dorido, mas o alívio ao nível das costelas e dos pulmões mais libertos, davam-lhe novo fôlego.
- Naturalmente, sentirá algumas dores durante dois dias. Os transtornos estão acentuados. Vamos marcar para daqui a três dias? A menos que surja algum problema. Nesse caso, marque que eu atendo-a como urgência.
- De acordo, Dr. Acredito que a partir de agora vou recuperar. Pena tenho eu de ter agravado tanto a questão.
Já na escada de soalho encerado, Manuela renunciou ao elevador e desceu cautelosamente o piso até ao átrio de entrada do prédio. Sentia-se como nova, ou prestes a sê-lo com uma coluna leve e flexível e um quotidiano ativo e feliz. E nunca mais se lembraria de pintar as dependências todas da casa! É certo que a reforma lhe trouxera uma sensação de desconforto e inutilidade, agora que o marido brilhava como reitor na Faculdade de Belas Artes. Ele que se dedicasse à pintura de obras artísticas e aos seus múltiplos afazeres. Ela praticaria o seu Pilates com supervisão médica como se fosse uma modalidade olímpica. Um feito para quem, em silêncio, já receava a invalidez.
 
Lídia Vieira 

NOVA TEMPORADA 2021/22

 passaros

 «A escrita, se olhares bem para ela, é um delírio organizado.», António Lobo Antunes

Aqui, na Naftalina-Sabonária, escrevemos textos durante a sessão inspirados num tema, texto ou estilo apresentados na sessão. Também continuamos com o projecto FOLHETIM, a acompanhar também neste blog, em publicação separada.
Nesta sessão inspirámo-nos no conceito de «delírio organizado» que nos trouxe a citação de A. Lobo Antunes.

A proposta foi começar com uma palavra «escrita». A partir daí, fazer associações livres, até a caneta ou teclado, tiver vontade de começar uma pequena história.

 

Escrita
Essência
Grita
Cria
Espanta

A mente de Demétrio estava imóvel. Era natural, pois o impossível acabara de ocorrer. Mas como? Talvez até fosse isso que o espantara, pois sabia que, de facto, o acontecimento tinha uma causa, agora se esta se encontrava enquadrada em qualquer padrão do conhecimento humano a resposta certamente era não. No entanto, desconhecia se o seu grito teria sido de horror ou de alegria ao se aperceber que o que apareceu à sua frente após ter escrito “Fim ou início?” na última página desafiava o meio envolvente.
Podem as palavras ter tanta força ao ponto de tornarem o abstrato em algo concreto, ancorado a esta realidade, mas que continua ligado a outro plano de existência? O que será mais verdadeiro, ele, sentado nesta cadeira com os pés presos ao chão de madeira e as suas mãos agarradas tanto à pena como ao papel, ou a sua criação, uma ideia que não se encontra presente neste mundo? Não sabe. Nem sabe se esta ideia manifestada faz parte dele, se a criou de raiz para complementar o que ele sabia que tinha em falta, se lhe foi apresentada por um ser superior à qual ela pertence, ou até se ele estaria a pensar nesta situação ao contrário: será que ele era a criação e não o criador?
O que ficou a seguir a saber era que tinha três opções: podia negar a existência daquela entidade e, portanto, desconstruí-la de maneira a preservar a sua própria identidade e meio ambiente, pensar que de facto já era tempo de haver uma mudança e de recomeçar do zero ao ser o ele atual obliterado, ou de optar por o antigo e o novo coexistirem, ajudando-se um ao outro com as suas melhores qualidades.
Escolheu a terceira opção. Lentamente, ergueu-se, ouviu os sussurros de aprovação e de incentivo. Estendeu a sua mão. A figura converteu-se num líquido negro e verde que voou pelo quarto hospitalar, tocou nos seus dedos, percorreu os seus braços e penetrou os seus olhos, desaparecendo dentro de si. Estava contente. Abriu a janela enquanto as fendas surgiam na sua cara e percorriam o seu corpo de cima a baixo, ergueu os braços e desintegrou-se. As partículas de ambos foram de seguida levadas por uma brisa para serem reconstituídos noutro lugar, noutra época, como algo diferente, algo mais.
              José Maria Covas


Escrita
escriva
criva
balas
rimas
força

O Quinquilhas trabalhava com rimas; gostava de se ver a si próprio como um carpinteiro, mas em vez de madeira, o seu material eram palavras. Pegava nas sílabas, baralhava-as, distribuía-as, engalanava-as, perfumava-as e colocava-as num caderninho onde estas ganhavam forma. Quando estavam prontas, dava-as a experimentar a alguns amigos.
- Estão muito doces!
- Falta-lhes um pouco de sal!
- Estão no ponto!
- Experimenta grelhar mais um bocadinho!
Desde que aprendera a ler, na Escola Básica de Marvila, as palavras sempre lhe despertaram um interesse que não tinha para os números. As lengalengas deixavam-no feliz por as poder continuar.
“Atirei o pau ao gato, to, to, mas o gato, to, to não morreu, eu, eu, Dona Chica, ca, ca, assustou-se, se, se com o berro, com o berro que o gato deu. MIAU! Encontrei-o na praia do Vau, au, au, a chorar, ar, ar, Dona Pipa, pa, pa, teve pena, na, na e levou-o e levou-o para casa, sa,sa!”
No bairro onde vivia, sítio com fama de ter má fama, a força, algumas vezes, era conquistada ao murro, outras bastava acenar com uma arma. Para Quinquilhas, as rimas, os poemas que fazia, eram as suas balas, eram a maneira que tinha de comunicar.
Por isso, quando tinha 16 anos, apresentou-se a um concurso com uma história sobre dois senhores que no dia 7 de setembro de 2002, receberam uma carta do IPO a dizer que tinham cancro. Os dois senhores moravam em Chelas, mas não se conheciam. Com os tratamentos, descobriram que viviam perto um do outro.
Começava aqui uma amizade que só a doença travou.
A história convenceu o júri que lhe atribuiu uma menção honrosa.
Para Quinquilhas, era importante desmistificar a má reputação que o seu bairro tinha. Por isso, escrevia na esperança que um dia, as notícias noticiassem:
- Hoje, em Chelas, apareceram palavras, rimas, restos de frases nas casas das pessoas!
Um dia, tinha 19 anos, ao sair de casa, viu um arco-íris a aparecer do nada a iluminar Chelas. Achou aquilo tão bonito que sacou do seu caderno e ia começar a escrever quando uma bala perdida lhe entrou na cabeça.
Caiu logo ali, juntamente com o caderno. A última entrada dizia:
“-Uma palavra pode ser doce, mas não adocicada.
Uma palavra pode estar congelada, mas não é gelo.
Uma palavra pode ter força, mas não é ela que mata.”
                       Tiago Pina


TETO
Há três meses que a Guida procurava um teto para comprar e o tempo urgia. Correra os bairros de que mais gostava, mas tudo lhe estava vedado por excesso de zeros nos preços apontados. E nem as sugestões de descontos de 20% ou de supressão do pagamento da escritura a animavam. Os vendedores solícitos insistiam em enaltecer as vantagens do jardim de um rés-do-chão sombrio ou a luminosidade de um sótão liliputiano proibitivo para o seu metro e oitenta. Só os imóveis por construir correspondiam a um empréstimo próximo do teto de esforço aceitável para o programa de validação imposto pela banca. Tudo o resto era risível para os funcionários que a atendiam, tentativa após tentativa.
A Guida ía preenchendo os seus dados e impressões num caderninho de escola onde antes fizera as redações. Só que não conseguia escrevinhar nada com um possível final feliz.
Todos os domingos, os pais convidavam-na a almoçar para ‘porem a escrita em dia’. Expor oralmente e expôr-se ao sorriso benigno da mãe e aos comentários mordazes do pai organizava-lhe o pensamento cada vez menos delirante, a cada dia mais focado.
O discurso do senhorio, outrora afável, depois irrompendo com o argumento da necessidade para uso próprio, disfarçava cada vez menos a adesão ao arrendamento lucrativo. Uma tentação que mudaria a vida de muitas pessoas para sempre.
Calcorreados tantos bairros, muito cabisbaixa de tanta frustração e raiva, começou a buscar os quadrados dos escritos, coisa tão rara. Num prédio remodelado, o seu olhar encostou-se a três novos pisos de cobertura contendo os clássicos quadradinhos. Decidiu ir tentar a sua sorte, procurando num novo aluguer e na Deco interlocutores menos espinhosos do que as instituições bancárias. Pigarreou e procurou andar sem tropeços, ritmando palmadinhas no seu caderno de bolso.
                       Lídia Vieira


liberdade
pensamentos

Que se tornam realidade numa folha de papel solta.
Palavras que parecem sem sentido, mas que escondem e querem dizer algo, falar ao coração. Agora compete a ti, leitor, interpretar o que elas, as palavras, querem comunicar.
Elas desejam ultrapassar os limites, que representam as imposições dadas por alguém que não tem direito a reprimir o que vem do coração. Muitas vezes elas, as palavras, são consideradas perigosas e podem fazer mal e causar sofrimento. É isso o que estou a viver, uma vida cheia de sofrimento… mas não quero mover a compaixão, desejo só que as palavras sejam um incitamento a viver livremente…
A escrita agora interrompe-se no meio da frase, que não chega ao fim…
Respiro fundo: quem pode ter escrito isso, nesta folha de papel solta, que encontrei debaixo do chão de mosaico na casa que acabo de comprar e que está a ser remodelada? Foi um homem, uma mulher a fixar essas palavras na folha de papel amarelada que agora tenho na minha mão e que me fazem sentir calafrios? O que aconteceu a essa pessoa e por que se interrompeu a frase de repente?
Ao ler essas poucas palavras, sinto-me na obrigação de fazer algo, de decifrar o enigma que está atrás deste breve texto. A única coisa que virá em minha ajuda é a data em cima da folha ou melhor o ano, posso ler apenas 1950…
                  Giuseppa Giangrande

 

Escrita
livro
biblioteca
traça
mafra
viagem
camionete

PARAGEM
A paragem da camionete tinha o abrigo estragado. A chapa do tecto estava rasgada numa estrela assimétrica que pouco fazia pela violência do sol. O banco estava solto de um dos lados e era a perna dele que fazia da que faltava. Quase cansava mais estar sentado do que em pé. Uma carrinha de caixa aberta com duas gaiolas de galinhas brancas tremeu pela estrada e deixou mais uma camada de pó nas suas botas. Agora já não fazia diferença, a caminhada tinha-as posto daquela cor que faz sede e comichão na garganta só de olhar. A camionete passava às 3, se não se atrasasse. Ainda tinha 15 minutos para contar os carros que passavam. Tirou da mochila o telemóvel. Sem rede, o costume. Desligou e voltou a ligar. Nada. Levantou-se e leu o horário em letras pequenas e um cartaz que anunciava «Nando e as Chiques, 15 de Agosto nas Festas da Senhora do Calvário». Só que era do ano passado. Admirou a cabeleira lustrosa e os ray-ban do Nando, as Chiques eram duas raparigas em collants e plumagens cor-de-rosa que sorriam muito. Bons dentes, pensou. De certeza que já tinha passado meia-hora. Seca, seca a toda a sua volta. Ouviu um motor ao longe e pegou na mochila. Olhou para a curva e viu surgir um carro azul metalizado. Pousou a mochila outra vez. O carro era bem bonito, de matrícula alemã – imigrantes, pensou, embora o modelo não batesse certo.
Pegou no telemóvel e caminhou para a frente e para trás na estrada de poeira e pedras. Depois, nem rede, nem bateria. Passaram duas horas? Havia sempre a camionete das 6. Já passava das 6? Voltou para o abrigo. O rasgão do tecto deixava ver uma nuvem cinzenta. Quase de repente começou a chover. Encolheu-se a um canto. Se ficasse bem encostado podia quase escapar à chuva. As botas ficaram outra vez pretas e a terra tornou-se lama. Um raio iluminou o céu e um trovão fê-lo vacilar. A tempestade era um canhão em cima dele. Um novo raio desceu do céu direito aos pinheiros do outro lado da estrada. Com horror viu a árvore engolir o feixe de luz e depois ficar completamente carbonizada. A trovoada durou muito tempo e ele ficou encharcado e infeliz. Sentou-se no banco a arfar, ouvindo os últimos pingos da chuva e o crepitar que vinha das árvores. Estava demasiado escuro para sair dali. O cansaço fazia-o ver luzes e ruídos que não existiam. O restolhar das folhas confundia-se com passos e sons arquejantes. O seu eco? Voltou o silêncio. Agora parecia que pontinhos de luz vinham na sua direcção. Dois a dois, calmamente, mas sem parar. Cada vez mais próximos. Tinham descido os lobos.
                   C. Borges

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Arrumámos a casa com o desfecho das histórias ainda abertas. Em setembro voltamos à escrita a várias mãos. E outras!


LEGÍTIMA DEFESA

A rapariga saiu pesadamente da cama. Mais que levantar-se, descolou-se dos lençóis molhados de suor e salpicados de sangue. Mais um dia, mais um espancamento, mais um passo para a sua total anulação.
Mas hoje não chorara nem gritara, enquanto ele lhe batia, repetindo e repetindo, no mesmo ritmo: «Faço isto (estalo)…para (estalo)...teu bem... (murro)».
Acrescentando sempre – «porque quero o teu bem, não te esqueças. Quem dá o pão dá a educação».
Seu tarado, murmurou ela – não hás-de conseguir. Podes matar-me, mas não me vais dobrar nunca. Mais depressa te mato eu.
Parou subitamente. Que ideia libertadora! Porque não pensara nisso há mais tempo? Já era suficientemente crescida para conseguir fazer frente ao miserável, especialmente à noite, quando ele chegava a casa bêbado – o que acontecia quase todos os dias.
Arranjava uma faca – não, podia não ter força para a cravar bem fundo! Ou não acertar no sítio certo!...
Então o machado de cortar os cavacos para o fogão…Também não, se falhasse ele rachava-a de alto a baixo.
Tinha de ser um martelo, ou uma barra de ferro. Escondia-se atrás da porta e ele nem tinha tempo de se virar: Pás, bem no alto da cabeça para ele desmaiar ou morrer logo.
Enquanto se ia confortando com estas maquinações, lavou-se, mudou de roupa, tratou de esconder os hematomas e tomou 5 aspirinas. Quando se penteava, olhou para o espelho sobre o lavatório, viu o rosto pisado, o lábio que ainda sangrava, e não conteve as lágrimas de ódio.
- Foi a última vez que me tocaste. Na próxima vez que te atrevas, mato-te! Em legítima defesa!
Havia atrás da porta uma longa barra de ferro cuja proveniência ela já nem se lembrava. Veio bêbado o traste na noite seguinte. Escondeu-se atrás da porta e aplicou-lhe um golpe certeiro na cabeça zonza. Ele caiu ao chão e vai de bater naquela cabeçorra com a força maior de muitos anos recalcados.
Alcançou um facão e cortou-lhe as carótidas. O traste expirou. A faca continuou a trabalhar, desceu atá às virilhas e capou-o, depois desmembrou-o dedo a dedo, membro a membro, vazou-lhe os olhos e esmagou-os debaixo dos pés, reduziu-lhe a cabeça à marretada até ao tamanho de um punho, acabou de cortar o resto do pescoço e todo o dia retalhou aquela carne porcina. Foi deitando pedaço a pedaço na sanita e puxando o autoclismo.
Quando os vizinhos mais tarde lhe perguntaram por ele, respondeu que morrera em coma alcoólico e todos acreditaram.
A verdade era um segredo entre ela e o cano do esgoto e esse, nas grandes cidades, é o cúmplice perfeito dos lodaçais da existência.

Conceição Brito Lopes
Helena Campos

 

ADIVINHA

O meu santuário é um aeroporto, qualquer aeroporto, todos os aeroportos, grandes, pequenos, no centro de cidades ou perdidos num descampado longe de outros sinais de civilização. Podem vendar-me, meter-me num avião, deixar-me noutra geografia, sacar-me do avião e, de olhos tapados, posso adivinhar onde estou. Os meus amigos não acreditavam que possuísse este talento, puseram-me à prova. Começámos em Oslo, dificuldade média: tempo de voo cerca de 4 horas, o que exclui a maior parte da Europa, e quando senti o frio soube que estávamos a norte. Podia ser Estocolmo também, mais coisa, menos coisa, mas os suecos são extrovertidos, e o silêncio que nos recebeu tirou-me de dúvidas. Depois Londres, Gatwick. Munique. Levava acertados 3 dos 5 voos. Ainda apanhámos o voo seguinte, havia um pânico no ar que tornava difícil escutar os rumores locais. Quando aterrámos, pela primeira vez não sabia onde estava: tantas vozes, tão altas, e medo, tanto medo. Guerra, pensei. Mas guerra não é um aeroporto. Síria? Iémen? Não, não podia ser. O tempo estava todo mal: o tempo de voo, o clima. O tempo era outro já, mas isso só o saberíamos passado tempo, e por enquanto ainda estávamos só a 7 de março do ano em que o a.C e d.C mudaram de significado. Em Paris, disseram-me.
Mas eu não acreditava… pelo que me sugeriam a minha perspicácia e o meu talento, aquilo não podia ser Paris. Tirei a venda e à minha frente abriu-se um espetáculo devastador: eu tinha razão, aquilo não era Paris. Aquilo tampouco era o meu tempo, a minha dimensão, nem sequer conseguia entender; pensamentos obscuros ocuparam a minha cabeça, comecei a ver aquele espetáculo, a ficar obcecada pela ideia da morte… Mais uma vez, dei-me conta da falta do meu tempo, talvez o que eu via fosse algo distante ou se calhar não. Ouvi-me gritar por socorro e acordei, assustada… Tudo tinha sido um pesadelo, mas no meu coração instalou-se uma dúvida: será que eu tinha visto, era na verdade o espelho da alma aflita? Era melhor não pensar nisso e voltar a pôr pé em terra, nunca mais aeroportos!

Patrícia Louro
Giuseppa Giangrande

 

A CAMINHO DA ESTAÇÃO

Sempre que Joana ia apanhar o comboio, na estação que ficava perto de casa, escolhia ir pela rua da padaria que aquela hora estava a acabar de cozer a última fornada de pão. Lembrava-lhe o cheiro de quando era pequena e abria a porta de casa para retirar o pão que o padeiro lá tinha deixado antes da primeira luz da manhã. Há muito tempo que já não havia pão à porta e o trajeto matinal era uma lembrança que lhe aquecia a alma. No regresso, vinha por outra rua, mais curta e hoje sem cheiros a evocar memórias. A loja dos jornais tinha fechado, a pastelaria tinha virado banco, a mercearia do senhor António não tinha tido ninguém para lhe pegar depois da sua morte e até o barbeiro da esquina tinha desistido das barbas e dos cabelos. Joana sabia que um dia sairia de casa, viraria à esquerda para a rua da padaria, mas daquele forno já não sairia mais pão. Na rua do regresso tinha sido assim. Sem aviso prévio as casas iam fechando, os rostos desaparecendo e o silêncio entranhando. Por isso parava sempre antes de virar a esquina, enchia o peito de ar e enfrentava a rua de passo decidido com a secreta esperança que nada tivesse mudado. Mas aquele dia ia ser diferente.
Quando virou a rua, não sentiu o cheiro do pão. Um grande cartaz à porta dizia “Trespassa-se à melhor oferta”. Joana meditou e perguntou-se: E porque não? Joana não era nacionalista, nem patriota; era de Chelas.
Andava há algum tempo, talvez há demasiado, a pensar dar uma volta à sua vida. Todos os dias se queixava que o seu bairro de sempre estava a desaparecer, diariamente via o desânimo dos habitantes e, não raras vezes, ouvia os vizinhos a incentivá-la.
- Menina Joana, faça alguma coisa que tem a vida toda pela frente. Até o nome nos querem tirar.
Se queria fazer a diferença, talvez o anúncio fosse um sinal.
Gostaria de ver o acrescento que aquela agência imobiliária colocava depois de os negócios ficarem ultimados. Já era, se nos é permitida a publicidade.
Quando chegou à estação, não entrou no comboio. Sentou-se no banco e tentou recordar-se do pão que o seu avô fazia. Lembrava-se de todos os passos.
A sua cabeça de analista financeira dizia-lhe que se decidisse ir em frente, arriscava tudo o que até então tinha como garantido. Um bom ordenado, subsídio de férias, férias na neve e na praia, apoio à saúde, folhas de Excel a perder de vista, análises de risco e a meio da manhã, um sumo, um café e uma sandes de queijo fresco da Padaria Portuguesa.
Levantou-se e deu meia volta.
Bateu à porta na esperança de que alguém lá estivesse dentro. Quando abriram, não reconheceu a pessoa, mas o cheiro que emanava do interior era parecido ao que cheirava todos os dias.
- Bom dia, queria saber o que é preciso para me candidatar à Junta de Freguesia de Marvila!

Francisco Feio
Tiago Pina


O PREÇO DAS DIÁSPORAS

Amílcar passou o olhar altivo pelas pessoas reunidas no hall do velório. O semi-sorriso irónico estampado na figura erguida um bom palmo acima dos que o rodeavam, recuou ainda um passo subtil.
Dez anos de permanência em Frankfurt, e um alto cargo no reino da informática, depois de ter passado por Praga e Moscovo tinham-lhe aumentado o grau de distância social aceitável.
Vitória saiu do salão onde velara o pai para se dirigir depois ao cemitério onde se realizava a breve missa e a cremação. O seu rosto sempre firme e impávido descaira para o choro compulsivo, de pronto aconchegado pelos abraços das amigas. Trabalhara com afinco máximo, como em tudo o que fazia, para acompanhar o pai enquanto o Alzheimer lhe ía engolindo a razão e a vontade e depois, quando o corpo se fragilizara mais e a cabeça se recusava a comer até que a química e os tratamentos foram debalde. Era uma matriarca decidida e despachada que conduzia o navio como um almirante que se queria invencível.
Amílcar, longe das lágrimas dela, como da cultura de onde partira para abraçar a carreira e depois a nova família numa terra a que chamava sua com afeto na voz, continuava a soltar ironias.
Saído da cerimónia prévia à cremação, lançou ainda “As tuas primas são tão minúsculas!”
“É verdade”, respondeu-lhe Vitória. “Trabalham muito, ao ponto da Marta já ter sido operada três vezes à coluna. As noites passadas enquanto médica nos hospitais a fazer banco, custaram-lhe caro”.
Amílcar deu-lhes uma curta boleia e, passando a outro assunto, perguntou ao filho como andavam as notas do 12.º ano e sobre as opções que ele vislumbrava. O filho esticou as longas pernas como pôde e aproveitou as palavras gotejadas pelo pai para estabelecer diálogo. Terminado o percurso, o filho arrastou-se em busca de prolongamento de proximidade, esticou os braços palpando o ar por um afago. Cortando a hipótese de prolongar estes momentos, o pai pôs aspereza na voz e disse-lhe que não se esquecesse da mochila no porta-bagagens. Um adeus seco sucedeu-se e o pequeno núcleo de família e alguns amigos íntimos continuaram a conversar durante uns minutos antes de se despedirem com abraços cordiais e de regressarem a casa.
Amílcar saiu dali com vontade de ir comer dióspiros. Sempre que tinha de lidar com alguma coisa que o deixava desconfortável, era a este fruto que recorria. Funcionava como antidepressivo ou na sua linguagem, software contra qualquer maleita.
O casamento com Vitória acabara porque esta não queria ser uma nómada, mesmo que digital. Nem o nascimento do filho, Alberto, lhe travara a ideia de conhecer outras cidades, nelas trabalhar e quando se fartasse do frio, das pessoas, da língua, zarpar para qualquer outro sítio. Bastava-lhe pegar no computador, no carregador e poderia trabalhar em qualquer parte do globo.
Desde pequeno, jurara que nunca mais ninguém se riria dele. O rol de enxovalho era extenso e, não bastas vezes, o conculcar atingia tamanho desprezo que, ao Amílcar, só lhe apetecia chorar por dentro.
- “Olha o Gordo!”, “Vidrinhos”, “Só se vê com uma lupa” e outros que me abstenho de continuar.
Só Vitória não o escarnecia, talvez por partilhar com ele o excesso de gordura, as hastes e a altura diminuta e o gosto pelos dióspiros. Tamanhas afinidades só poderiam resultar em boda, debaixo de um diospireiro, claro está.
Amílcar procurava uma loja que lhe saciasse a fome quando viu um homem a decapitar um pombo.
Dentado a seu lado um miúdo, que aparentava uns 8 anos, começou a chorar histericamente, aterrorizado, chocado com a imagem do pombo decapitado ainda a agitar debilmente as asas como se tentasse recuperar a cabeça ensanguentada.
O homem, talvez pai do rapaz, sacudiu-o bruscamente pelos ombros e, numa língua que Amílcar não foi capaz de identificar, falou-lhe asperamente. A criança encolheu-se, anulou-se na cadeira, chorando cada vez mais alto, com os olhos dilatados pelo pânico.
O brutamontes levantou uma mão grossa e deu-lhe um tabefe na boca, na tentativa estúpida de o calar. Amílcar, que os observava, sentiu-se a reviver a amargura dos muitos anos de vexames e humilhações, maus tratos e insultos que sofrera.
Num impulso irreprimível, mas controlado, avançou uns passos e desferiu um potente murro na cara do abusador de crianças e pombos indefesos.
E, enquanto o homem, tonto e atónito, tentava estancar o sangue que lhe jorrava do nariz, Amílcar afastou-se, tranquilamente, acompanhado pela salva de palmas dos circunstantes que se tinham retraído.
Apossou-se dele uma enorme euforia e começou a rir às gargalhadas, sentindo que as cadeias que transportava há tantos anos se tinham, finalmente, começado a soltar. Ah! O doce sabor da vingança!
E nem fora preciso comer um dióspiro…

Lídia Vieira
Tiago Pina
Conceição Brito

 

 

UMA NOITE DE VERÃO I

Uma noite de verão fazia muito calor, aqui onde ela estava. Já era muito tarde, não conseguia dormir; levantou-se da cama, abriu a janela e ficou a olhar para as estrelas.
De repente, uma luz pequena pousou antes na balaustrada, logo no seu ombro. Ela ficou assustada, mas num instante da luz proveio uma voz suave , que a sossegou. Nessa voz, ela reconheceu a voz do seu coração que lhe retrouxe lembranças de um tempo longínquo, em que tinha sido feliz, mas a que ela tinha renunciado. Uma lágrima desceu no seu rosto, a voz da luz chegou-lhe ao coração. Porque tinha renunciado à felicidade e à liberdade que muitos anos antes tinham passado pela sua vida?

Giuseppa Giangrande

 


HISTÓRIA NOVA IV

Os olhos azuis do bonito desconhecido à minha frente mudavam de tom. Mais uns minutos e teria mais um engate bem-sucedido. O sorriso passava-lhe dos lábios pálidos para os olhos entrecerrados, os dedos musculosos já procuravam a minha pele. Só precisava do toque final.
- ´Tás a sempre a contar a mesma história.
- Hã? – este é o problema de focar a atenção. Perdes perspetiva dos perigos que te rodeiam. E este perigo particular falava demasiado alto, demasiado depressa, demasiado enérgico. A mão forte no meu braço, sinto o corpo girar, o que vejo não é o bonito desconhecido de olhos azuis e sorriso tímido à minha frente, o que vejo é o meu amigo Paulo a tentar manter-se em pé.
- Já ninguém te aguenta. Blábláblá, cresceste numa cidade pequena, blá, sair do armário, blá. Fugiste de casa porque se ficasses o teu pai te matava por seres maricas. Já sabemos, pá. Já sabemos. Blábláblá. Quantos anos é que tens agora? Trinta? Não achas que é altura de contares uma história nova?
Sim, pensei. Gostava de contar uma nova história, mas infelizmente estas histórias são sempre as mesmas, ainda que possam parecer diferentes. E depois era a minha história. Como queria ele que a história ficasse diferente de um dia para o outro? Fui-me sentar num canto da sala e numa rápida viagem pela memória percebi que todos os anos passados seriam sempre poucos e não deixavam nenhuma vontade de voltar. Nunca mais tinha sabido de ninguém, nem do que poderá ter acontecido depois de ter saído de casa naquela manhã em direção à escola, pelo caminho habitual, até ao cruzamento que à direita leva ao centro da vila e à esquerda ao resto do mundo. Nem hesitou quando voltou à esquerda, com a mesma naturalidade de quem faz esse caminho todos os dias. Só lamentava não se ter despedido de uma pessoa, mas sabia que não lhe poderia pedir que o seguisse. Sentiu uma mão, agora suave, a agarrar-lhe o braço e uma voz do passado a chamá-lo pelo nome.
- Olá, João, nem acredito que és tu! Como estás, filho?
Ficou pregado ao chão, imóvel, quase sem respirar, enquanto os olhos se enchiam de lágrimas e os lábios balbuciavam sons incoerentes. Não era possível, não podia estar a acontecer surgir à sua frente o ser que mais odiara e que o forçara a seguir um caminho tão distinto daquele que tinha planeado.
Com um gesto raivoso limpou o rosto e virou-se para se afastar. Mas o pai sacudiu-lhe a mão, num longo aperto, passou-lhe o braço à volta dos ombros, e abraçou-o com firmeza.
- Há quanto tempo, filho! Tenho sabido notícias tuas por amigos e pelas notícias de jornais da especialidade. Desde a morte da tua mãe que pouco saio, mas as pessoas vão-me contando. A Inês também pergunta por ti.
João continuava estático, sem conseguir articular uma frase coerente, uma frase que traduzisse toda a frustração, ódio e perda que o acompanharam durante os últimos anos. As palavras do pai caiam sobre ele em catadupa, afogando-o e sufocando-o.
Quem era este sujeito que fora a causa do seu afastamento, da perda da sua juventude e da sua inocência e que agora o olhava com tanta ternura? Não sabia se havia de rir ou de lhe dar um murro e mandá-lo para o outro lado do inferno donde fugira
- Anda, filho, vamos tomar a bebida, daqui a pouco já são horas de jantar e faço questão que jantes comigo. Temos tanta vida para contar e acho que já é tempo de saber porque partiste.
O João não acreditava no que estava a ouvir. O pai tinha a desfaçatez de perguntar o porquê da sua saída... que descaramento! Com certeza, havia uma explicação para tudo isso: agora ele estava sozinho, precisava de companhia e fazia como se nada tivesse acontecido... Ele não sabia quanto lhe tinha custado tomar aquela decisão de sair de casa para não voltar mais... Na verdade, o João não sabia para que lado se havia de virar... O pai disse - de repente - que corriam boatos ao seu respeito. Então, por muitas voltas que desse, o resultado seria sempre o mesmo: o seu pai não tinha mudado, enquanto que os anos tinham transformado o João. O pai continuava a ter preconceitos... De repente, no bar ouviu-se uma velha canção italiana: Nessuno mi può giudicare, nemmeno tu...

Patrícia Louro
Francisco Feio
Conceição Brito
Giuseppa Giangrande

 

O PROBLEMA 

Nas últimas vezes tinha sido sempre assim. Por mais voltas que desse na rotunda, ia sempre acabar numa estrada nova, onde tinha de ir abrindo caminho à medida que ia avançando. Nem o Machado se lembraria desta, até porque no tempo dele creio que a rotunda ainda não tinha sido inventada e os caminhos de que falava eram mais de bosques e montanha. Estava perdido nestes pensamentos quando reparei na placa com uma seta de direção onde mal se liam as palavras “abrigo de montanha”. Por mais estranho que me parecesse a coincidência, coisa em que não acreditava, resolvi abrir caminho pela seta e tentar descobrir se o tal abrigo existia e o que me aguardava. Nem o facto de estar numa planície me afastou da ideia. Antes pelo contrário. Que faria um abrigo de montanha numa zona que era totalmente plana? Depois de andar 45 minutos no que penso ser uma linha reta, sem nada que aparecesse no horizonte, olho para trás para descobrir que a vista era exatamente igual. Olho de novo para a frente e lá estava. A menos de 50 metros erguia-se o abrigo, com um sinal luminoso a piscar onde se lia “abrigo de montanha”. Estacionada frente à porta, uma velha 4L dava um ar familiar à cena. A chaminé fumegava e na porta estava uma placa que dizia “aberto”. Olhei a matrícula e reconheci-a imediatamente: tinha sido minha. Mas não me lembro de ter aquelas cores todas. Foi então que uma voz se fez ouvir: “então? De novo aqui?”
Antes de responder, fitei longamente a minha - de certeza minha - 4L. As cores brilhantes não deixavam perceber que já fora verde e já se desfizera, em tempos, de encontro a um muro. As recordações acudiram em catadupa e desviei os olhos para o indivíduo que me fitava da porta e convidava a entrar. O tempo parou subitamente: perante mim estava eu próprio, 35 anos mais novo, tal como era na primeira vez em que, durante uma caminhada na montanha, me abriguei nesta mesma cabana para fugir a uma forte borrasca.
Antes de entrar olhei para trás e não avistei nada que não fosse o deserto a perder de vista e a estrada, por onde viera, que se descolava, com lentidão, para um horizonte invisível.
Com as pernas a tremer, cruzei a soleira da porta e olhei em volta. Estava tudo igual, a mesma mesa de tampo riscado, as cadeiras desirmanadas, meia dúzia de chávenas à espera do café que murmurava sobre as brasas da lareira. Parecia sentir-lhe ainda o gosto, amargo e reconfortante, naquele dia já esquecido, mas nunca perdido.
Olhei para o meu alter ego, que sorria tranquilamente, e numa voz enrouquecida pelo pânico, disse:
-Vais ter de me explicar o que se passa!
Fiquei pasmado, não sabia o que dizer e custava mexer-me. Então, o meu alter ego, quase como se fosse uma criança, pegou na minha mão e levou-me para a mesa. Lá sentado, fechei-me no meu mutismo. Mas as sensações que eu tinha, eram de cansaço e de satisfação ao mesmo tempo. O meu alter ego estava lá a espera de uma explicação que não vinha. Eu estava imerso nos meus pensamentos, era como no mundo das coisas de há tantos anos, como num poema de Guido Gozzano, numa evocação de um tempo que tinha voltado...
-Futuro eu, queres as boas ou as más notícias?, interrompeu-me o meu eu do passado, sem rugas, sem marcas de cansaço e noites mal dormidas debaixo dos olhos e do queixo. Não podia ver, claro, mas com um fígado intacto também.
-Por acaso, eu nem tenho fígado. Tu tens a matéria, eu tenho a memória. Olha – pegou-me na mão e não senti nada entre os dedos, uma força invisível controlava-me a mão, aproximou-a do coração, não, do lugar onde o coração devia estar, e não senti nada, nenhum movimento, nenhum rumor. Olhei sem perceber, a ousadia de usar palavras perdida entre as brasas da lareira.
– Queres sentir-me?, ofereceu.
- Sim.
- De certeza?
- Sim.
O meu eu passado, sem matéria, sorriu, um sorriso lavado pela luz, aproximou novamente a minha mão do coração, e senti o meu coração bater-lhe no peito, no meu peito, vi diante de mim o percurso do sangue, às voltas na rotunda, uma estrada nova, abrindo caminho pelas artérias de ida, passando por uma seta de direção quando mudava para as veias, “abrigo de montanha”, uma linha reta numa planície.
- Então, queres as boas ou as más notícias?
As boas notícias são como os abrigos de montanha, deixam-nos protegidos, de maneira que disse:
- As más.
Percebi pela sua cara que o meu Eu passado talvez não esperasse esta resposta.
- Seja. A estrada por onde vieste, não tem volta.
- As boas?
- Ficaremos aqui os dois.
Olhei para ele. O tempo não perdoa.
O não voltar para trás não me incomodava. Conviver com o meu Eu passado, aí a conversa já era outra.
Ele lembrava-me o que tinha perdido há 35 anos.
Não fora só um companheiro de escalada; o tempo irado levara-me a paixão da minha vida.
Demorei a superar a perda, já não era altura de voltar.
- Irei na mesma. Como na canção, o que foi não volta a ser.
Saí do abrigo. Olhei à minha volta. Vi a imagem do Pierre.
- A deusa levou-me, abraçou-me nos seus braços.
Chorei então as lágrimas que sustivera nos últimos 35 anos. O meu Eu passado esfumou-se.
Pude então seguir viagem nesta planície que teima em não acabar.

Francisco Feio
Conceição Brito
Giuseppa Giangrande
Patrícia Louro
Tiago Pina


A MALA 

Olhava a mala fechada, junto à porta e revia mentalmente o seu conteúdo. Será que se tinha esquecido de alguma coisa? Agarrou na mala, meteu-a em cima da mesa que estava no meio da sala e quando a ia abrir, parou. Como se poderia ter esquecido de alguma coisa numa casa que estava vazia. Restava apenas a mesa, o sofá onde tinha dormido e aquela mala que continha o que restava do seu passado e seria o início do seu futuro.
Pela janela aberta chegou o som de uma buzina em três toques curtos; tinha chegado o transporte para o terminal ferroviário. Susana arrastou a mala pelas escadas até sair para a rua onde o motorista lhe estendia uma máscara que prontamente ajeitou a tapar o nariz e a boca, um gesto que tinha repetido à exaustão nos últimos anos.
Atravessava a cidade deserta e pensava que não havia razão para ter estado tanto tempo à espera do transporte. Na realidade, já nem se lembrava de o ter pedido ou o que estaria ali a fazer. Chegou ao terminal e arrastou de novo a mala pelo cais à procura da linha certa. O revisor olhou para ela enquanto lhe estendia o bilhete e disse: sabe que já não é necessário usar máscara, não sabe? Olhou atentamente para o homem, mas foi só quando olhou para o interior da carruagem que percebeu.
A Susana percebeu... percebeu... e tornou a perceber.
A sua preciosa mala só lá tinha dentro, imagine-se... máscaras não estava em crer. Percebeu.
Que absurdo! Percebeu.
Mas desde há quanto tempo eu sou perseguida por absurdos???
Não quero acreditar!!! Percebeu.
Tenho máscaras que vão desde certificadas a engraçadas, àquelas que só cheiram a higiene. Entendeu.
- Eu compreendo-a, disse-lhe gentilmente o revisor.
Decifrou-a. P'lo ar incrédulo que ela desmascarara.
- Já passou!!!
- ...Hmm... pergunta ela... e a Feira da Ladra ainda lá está?
- ...Sim...e desinfectada!!! Sorriu.
- ...Ok... resolvido: bilhete para Santa Apolónia!
Ao chegar a Santa Apolónia, Susana foi acolhida por uma atmosfera alegre, pensou que talvez os absurdos já tivessem acabado aquela perseguição de que já estava farta. Dirigiu os seus passos rumo à Feira da Ladra. Agora - como por encanto - nem sequer precisava de arrastar a mala, que se tinha tornado - era incrível, mas verdadeiro - muito leve, ou se calhar, era ela mais leve…
Lá, na Feira da Ladra, viu muitas pessoas como sempre nos dias de feira, não acreditava nos seus olhos… Agora queria livrar-se definitivamente daquela mala, símbolo dos absurdos que a perseguiam, pousou-a no chão e abriu-a: outro encanto…
da mala saíram borboletas de muitas cores e…
E, com as borboletas, Susana foi arrastada da Feira da Ladra para a Feira da Malveira que, espreitando e roubando alguma ideia à história da Folga Indesejada, que, como estarão recordados, provocou uma crise na rima de Sérgio Godinho que, diga-se, poderia ser substituída por
«É quinta-feira
Feira da Malveira
Abre hoje pela mão do Senhor Meira.»
Mas, como não quero estar aqui a estragar a história à colega que está a resolver o problema, Susana deu consigo na Malveira, onde para além das quinquilharias que se encontram na Feira da Ladra, oferece também uma atração única: a possibilidade de comprar cadeados que não fecham. Exatamente, são vendidos assim mesmo.
Há várias bancas que os vendem, todos certificados. Para o efeito, pediram, isto é, pagaram os direitos de autor (e novamente o Sérgio Godinho aparece para aqui aos trambolhões) e instalaram à entrada do recinto um cartaz que anuncia:
«Cadeados que não fecham: Cuidado com as imitações, oh Casimiros.»
Susana ficou fascinada com os aloquetes: tal como as máscaras, existiam de várias cores, tamanhos e especialidades.
Encheu a mala com todos os espécimes que encontrou e decidiu que passariam a ser o seu presente de Natal para todos os amigos, familiares, conhecidos e desconhecidos.
Não imaginava era o sarilho onde se estava a meter com o Senhor Meira, que para os distraídos é quem abre a Feira da Malveira.
Na realidade, o único cadeado que fechava era o do Senhor Meira, que o utilizava para fechar a feira todos os dias.
Era um cadeado igual a todos os outros. A única diferença era que fechava. Susana perguntou ao Senhor Meira onde o tinha encontrado e ele disse que era um cadeado que estava avariado e que tinha sido deitado fora por ser inútil. Ele próprio não sabia bem o que fazer com ele e foi a mulher, farta de o ver olhar tamanha bizarria, que lhe deu a solução; usa-o para fechar a feira, homem! Ele achou a ideia genial. Apesar da feira ser ao ar livre e não ter porta, o senhor Meira não achou que isso fosse um problema. Espetou duas estacas no chão e passou duas correntes que se uniam pelo tal cadeado. Se o espaço era aberto, para que servia então o cadeado? O Senhor Meira olhou para ela. Primeiro um pouco incrédulo, depois um pouco transtornado e por fim derrotado. Com uma simples pergunta, tinham deitado por terra todo o empenho e diligência com que diariamente encerrava a feira. O trabalho de uma vida reduzido à sua inutilidade. Susana regressou à feira da ladra e despachou metade dos cadeados. Com a mala mais leve apanhou o comboio de regresso. Já em casa sentou-se, cansada, a pensar na imagem do Senhor Meira, a olhar o inútil cadeado. Quando acordou demorou a perceber porque tinha uma máscara na cara. Ao lado dela ouvia-se o som ritmado de máquinas a que estava ligada e uma voz, por detrás de uma máscara e viseira disse-lhe: bem-vinda de regresso!
 
Francisco Feio
Joana Dinis
Giuseppa Giangrande
Tiago Pina
Francisco Feio


FOLGA INDESEJADA

Era uma vez um dia da semana que decidiu tirar folga por tempo indeterminado. Não queria saber da feira da Ladra, nem do Carnaval, nem de qualquer outro acontecimento que tivesse de ser alterado para outro dia qualquer.
Entregou o pré-aviso à coordenadora dos dias, a Semanada, que ficou assim, como dizer, chateada com F mesmo grande.
- Trabalha de 6 em 6 dias e quer folga? E agora, o que é que eu faço?
Telefonou ao Sérgio Godinho e, depois de lhe dizer todas aquelas coisas que se dizem a uma figura conhecida “Gosto muito da sua música, dos seus livros, etc…” disse-lhe, muito desconsolada.
- Tem uma letra de uma música que terá de alterar, porque a dita cuja decidiu tirar folga e, por lei, não podemos nem sequer dizer ou cantar o seu nome.
Depois de descobrir a que palavra se referia a Semanada, Sérgio Godinho tentou reformular a tão badalada canção.
A rapariga podia continuar a ir vender mágoas ao desbarato que isso não fazia diferença nenhuma. Também podia ir vender o que quisesse que era para onde dormia melhor. Mas, e o início? Será que podia começar assim:
- É quinta-feira, feira de Carcavelos, abre hoje às cinco da madrugada? Não rima.
A semanada pensou melhor, chamou o advogado e pôs a terça-feira em Tribunal. A terça-feira chamou o Sindicato dos dias, meses, anos e períodos de tempo relativos e fizeram queixa na Autoridade para as Condições de Trabalho. A terça-feira meteu baixa na Segurança Social porque estava em burn-out, trabalhava desde a antiga Grécia e precisava de descansar. A semanada pediu à Segurança Social uma junta médica de verificação de incapacidades para retirar a baixa à terça-feira a fim de obrigál-a a regressar ao trabalho. A terça-feira pediu consulta de Medicina do Trabalho e meteu baixa não remunerada.
Entretanto, o Sérgio Godinho continuava sem saber o que fazer com a canção embora lhe passasse pela cabeça substituir simplesmente por “É dia de feira da ladra” na esperança de que o público se lembrasse de que dia se tratava.
A situação estava a arrastar-se há demasiado tempo e começava já a extravasar as feiras e a atingir outros sectores que atraem grande público. A terça-feira de carnaval resolveu fazer greve, muito ajudada pelas autoridades de saúde e mesmo o domingo de páscoa esteve até à última hora a dizer que não contassem com ele, apesar de no fim lhe ter faltado a coragem de levar a sua recusa por diante.
Por esta altura, já o Sérgio Godinho tinha desistido e estava agora a braços com a Etelvina, na esperança de que se a revolta chegasse aos nomes, este, pouco usado nos dias que correm, seria dos últimos a levantar problemas. O que ninguém esperava foi o que aconteceu de seguida. Estava mesmo a ver-se; a arraia-miúda revolta-se e não se sabe onde as coisas vão parar. Andava a semanada em protestos e reuniões de comités diversos e nem deu conta das movimentações acima na hierarquia. Sem aviso prévio, aí estavam os meses a protestar. As quinzenas, coitadas, animadas à espera do bom tempo e do fim do confinamento, nem tiveram tempo de se organizar. Numa manhã amena, o porta-voz dos meses falou às rádios e televisões: os meses estavam fartos de marcar o calendário e iam retirar-se de cena. O ano estava oficialmente mergulhado no caos.
Intervieram então novamente os dias da semana, querendo fazer raciocinar os meses em protesto. Não tinha nenhum sentido aquela revolta: o que ia acontecer agora? O perigo era grande: em outros países os meses tinham a firme intenção de começar uma greve… os primeiros a juntarem-se aos meses portugueses foram os italianos, que cruzaram os braços em sinal de solidariedade. Então ao Sérgio Godinho ocorreu uma ideia: organizar um festival da canção onde os protagonistas tinham de ser canções que celebravam os meses e as feiras. Convidou, por exemplo, o Riccardo Del Turco para que cantasse Luglio col bene che ti voglio, Angelo Branduardi tinha de intervir com Alla Fiera dell’ Est per due soldi... Será que os cantores conseguiriam fazer arrepiar caminho aos meses?
Julho reclamou de imediato, porque não queria ver o seu nome associado a tantos ai,ai, ais, e as feiras chisparam de indignação: uma canção sobre comprar ratos numa feira? Estás maluco, oh Sérgio?? Nunca mais ninguém ia às feiras, só os técnicos de laboratórios de investigação, para se abastecerem!!!
O ano, apesar de estar oficialmente mergulhado no caos, teve uma ideia: fez uma pesquisa no google e voilá, instantâneamente apareceu uma play list de musiquinhas com títulos para todos os meses do ano, desde Roberta Campos e Nando Reis a gorgolejar sobre amor em Janeiro, até Taylor Swift a chorar Dezembro, passando pelo deprimente Novembro dos Guns’ and Roses.
Será que não há melhor do que isto? matutou o ano. Há séculos que se toca música e só me aparecem coisas destas?
O século ouviu o seu nome a ser invocado em vão. E não gostou. Mesmo nada, nadinha. E decidiu que não estava para essas ofensas. Trabalhava cem anos a fio sem outro reconhecimento que não fossem uns algarismos romanos sempre com umas letritas coladas a chamar-lhe antes e depois!! Vá lá, tinha tido um fugaz reconhecimento quando lhe deram o título de Século das Luzes, mas não durou muito tempo. Assim tomou uma decisão: decidiu tirar também uma folga. Conferenciou com o século XX, que se recusou a sair da sua merecida reforma: «não querias mais nada, já dei os meus 100 anos».
Procurou o século XXII, que lhe fez um gesto feio com a mão, era o que faltava, ainda mal lhe começavam a nascer os dentes de leite e já tinha de governar o mundo? Ainda por cima com o péssimo trabalho que o XXI estava a fazer, com tantas guerras e mortes, fome por tantos continentes e esta peste incontrolada? Um apocalipse!
O XXI propôs uma solução: convidava-se aquele cantor dos caracóis para cantar «Oh tempo volta para trás, traz-me tudo o que perdi». Se o tempo se comovesse e trouxesse tudo o que tinha sido perdido, estava o assunto arrumado. Se o tempo, na sua infinita indiferença nada fizesse, o XXI entraria em greve porque ainda não tinha tempo de serviço para se reformar. E em democracia todos têm os mesmos direitos.
E foi assim que uma folga inesperada de um dia da semana trouxe o terminar do tempo, que não se comoveu nem ficou indiferente, apenas fez o que o universo lhe ordenou: nada.
 
Tiago Pina
Helena Campos
Francisco Feio
Giuseppa Giangrande
Conceição Brito

 

UM DIA DE CHUVA, NUM CAFÉ 

Uma vez - era um dia de chuva e não tinha comigo o meu guarda-chuva - entrei num café que me ofereceu abrigo. Sentei-me e depois de mandar vir um chá para aquecer-me um pouco, chamou-me a atenção uma mulher que estava sentada numa mesa, não muito longe de mim. Conseguia ouvir as suas palavras, enquanto ela estava a falar ao telemóvel. Ela, porém, falava numa língua desconhecida para mim; era um idioma que na voz daquela mulher tinha um som melodioso, embora tenha percebido que havia alguma tristeza nas suas palavras. Tentei interpretar os seus pensamentos e o que estava a dizer, estava como que encantada pelo mistério que parecia envolver aquela voz e aquelas palavras.
Pensei que poderia estar a separar-se de alguém (às vezes, separar-se é uma coisa triste) ou estar zangada ou simplesmente ser uma pessoa atreita a depressões. Fantasiava nestes pensamentos quando a mulher se levantou e, quando tirava a carteira para pagar, vi no interior da sua mala, uma pequena bandeira do País Basco.
Pensei para com os meus botões: o idioma deve ser o basco, a mulher deve ser de lá. E devia estar a falar com alguém também basco, ou pelo menos, que soubesse a língua.
Baptizei-a rapidamente como Sabina Arana, em homenagem ao pai fundador do nacionalismo basco, e quando ela saiu do café, decidi segui-la.
A rapariga saiu do café, continuou pela rua em direção ao mercado e virou na 1.ª à esquerda, para o Bairro dos Desgraçados, ou em linguagem inclusiva, o Bairro das Pessoas menos afortunadas pelas vicissitudes da vida que infelizmente sofreram.
- Isto não é bom.
O Bairro era assim conhecido por ser um sítio de negócios pouco claros, um território onde o número de identificação fiscal não era preciso e se pagava a dinheiro.
A Sabina Arana acenou a uma pessoa, que se dirigiu a ela e lhe entregou um dossiê que dizia «Como fazer uma bomba para mandar isto tudo pelos ares.»
Tu queres ver que tropecei numa etarra que quer reativar um comando qualquer?
É que este lugar, já por si, só lhe falta o cemitério, os prédios todos grafitados e com erva a brotar dos telhados, com o símbolo dos okupa escrito por todo o lado.
Começou-me a dar vontade de rir, é que há muito tempo atrás, fui roubada, na Galiza por um qualquer independentista que ficou na posse dos meus documentos.
Só a mim… passados praticamente 30 anos, em plena crise de meia-idade, deu-me para ter o look dessa altura…pensei…algo que não ficou bem resolvido, não há coincidências…
Vamos lá a ver o que é que eu faço aqui…
Refugiei-me, comprei uma boina basca, em tudo semelhante à dos independentistas Galegos.
Verifiquei-me de meias vermelhas.
Independência para mim própria, tentei brincar comigo
Estava numa situação muito marada, que surtia em mim uma explosão de emoções e balancés. Gostava.
Assumi EUSKADI, não me vou disfarçar daqui.
Liberdade é liberdade saberei sair enquanto tal de tudo e de todos.
Dei com a porta onde ela entrou, quem eu perseguia, a tal Sabina Arana, pediram-me a senha para entrar arrisquei: KORTATU (grupo de música Punk intervencionista), em cheio, entrei.
Lá estava eu… assisti à divulgação, com todos reunidos, do dossier.
Senti fogo no estômago, estava assustada, confesso.
Estava disfarçada de mim de há 30 anos atrás, a qualquer pretexto contar-lhes-ia a minha aventura na Galiza, aquando da boleia de Bilbao para Vigo. Quando fui roubada, talvez se lembrassem de mim.
Portanto, para o bem e para o mal já fazia parte pensei: Sai enquanto estiveres a ganhar…
O número fiscal, como já disse não interessa e eu estava de facto cheia de dinheiro.
- E tu, qual é a tua especialidade?, não vejas como, as meias e a boina ensinaram-me basco, e percebo tudo. O problema é que perdida nas minhas fantasias, não me dei conta das especialidades já reclamadas. Estava numa enrascada, arrisquei
- Marketing e relações internacionais, que foi recebido coletivamente com aprovação, uns quantos sussurros de incredulidade e olhares de admiração, e um grande revirar de olhos do corpulento tipo que dirigia a reunião.
- Estas modernices que me mandam agora. Então, não há aqui ninguém que saiba montar bombas? Estes jovens…, palavras que lançaram uma nuvem sobre o ambiente que se tinha relaxado. Ao fundo alguém levanta uma mão, timidamente
- Eu sei fazer explosivos, mas bombas não. Explosivos em carros, disseram-me que era para isso. Agora são bombas para quê?, o tipo que dirigia a reunião revirou ainda mais os olhos,
- Fazer explosivos, fazer bombas, são sinónimos…, interrompido imediatamente pelo da mão tímida
- Não são nada sinónimos, e a precisão é importante, crucial. Sobretudo quando se trabalha com explosivos.
O tipo que dirigia a reunião via-se que tinha o pavio curto, e que estava a chegar quase ao fim. Perguntei-me se explodiria como uma bomba ou como um carro atestado de explosivos.
Quando recuperei os sentidos, estava encostada a uns caixotes do lixo e tinha vista para o que sobrava do barracão que era agora uma pilha de madeiras queimadas e ferros retorcidos.
De início ainda pensei que fosse a polícia, o exército ou um grupo rival. Aos poucos veio-me a imagem do rapaz que afinal sabia tanto de explosivos e de bombas como eu e todos os outros. Estavam todos amontoados em torno da mesa, concentrados a seguir com o olhar e a respiração suspensa os gestos do rapaz que ia manipulando explosivos, pregos, porcas e parafusos para servirem de estilhaços, detonadores e baterias com o à-vontade de quem não faz a mínima ideia do que está a fazer.
Eu estava atrás do chefe corpulento, dobrado sobre a mesa e já tinha desistido de estar em bicos dos pés para tentar seguir a coreografia. Alguém disse um palavrão num basco tão basco que não consegui entender. Também ninguém deve ter entendido. A violência do sopro e o que sobrava do chefe fizeram-me atravessar a parede.
A chuva caía, a boina tinha voado e o resto da minha roupa também era agora vermelha. Um abrigo e um chá quente era só o que precisava. E de dormir.

Giuseppa Giangrande
Tiago Pina
Joana Dinis
Patrícia Louro
Francisco Feito


O SENHOR BELO 

Há muito tempo atrás, houve um adjetivo que deixou de adjetivar.
Até esse dia, o senhor Belo sempre cumprira a sua função, respeitando sempre a sua ordem nas frases, não se baralhando com o género e o número e respeitando escrupulosamente os graus em que deveria aparecer.
Nunca ninguém tinha apresentado qualquer reclamação, nem feito queixa à entidade superior que mandava nos adjetivos. O senhor Belo não mostrava sinais de estar doente, de ter dificuldades financeiras nem de passar por alguma crise de amores.
Foi por isso com alguma estranheza que, quando se começou a perceber tal omissão, os outros adjetivos começaram, em surdina, a comentar:
- Agora, o Belo não adjetiva?
- O que é que se passou?
Começavam a surgir relatos de pessoas que se diziam muito incomodadas:
- Ontem, abri a janela, estava um sol magnífico e disse para os meus botões: Que ____ dia! mas surgiu uma voz que disse: Lamentamos, mas o adjetivo em causa não está disponível. Tente outro!
Os mais tolerantes ainda aceitavam a sugestão e procuravam um sinónimo, mas e os teimosos? Teimavam, insistiam e vociferavam:
- Tentar outro??? Eu quero o ____ e mais nenhum.
O Sr. Barata, que era vizinho do Sr. Belo, ouviu os acesos protestos e resolveu intervir. Tinha regressado há pouco tempo do Brasil, onde vivera 40 anos, e ainda não tinha decidido como ocupar a reforma. Teve uma ideia brilhante: foi falar com a sábia entidade superior que manda nos adjectivos e apresentou uma proposta. Ele, Barata, passaria a substituir o Sr. Belo nas frases de júbilo ou encanto, na sua versão masculina. Por exemplo: «que-----passeio!» passava a ser «que barato este passeio!»; ou «que barato foi este filme» em vez de «que ----filme».
A entidade superior que manda nos adjectivos, chamada Diccionário Final e Total da Língua Portuguesa, respondeu que Portugal não era o Brasil e que barato não significava necessariamente ----- no nosso País. E indeferiu a proposta, por unanimidade e com aclamação.
No outro extremo da rua vivia a Sra. Xenófoba, a quem agradou esta decisão. Viu a sua oportunidade e, movendo-se, sem alarde mas com firmeza…
… propôs ser ela a que poderia substituir o Senhor___. Lamentavelmente, a proposta da Senhora Xenófoba encontrou o favor de muitos, tinha chegado uma época na qual os vários Senhores e Senhoras Xenófobos tinham terreno fértil para deixar propagar as suas ideias, sobre tudo entre pessoas muito ignorantes que eram partidárias do mote “orgulhosamente sós”. Mas, a um primeiro momento de euforia- parecia ter chegado o adjetivo certo para o papel de___. A pós um breve tempo, seguiu o desconforto e surgiu o medo, porque a Senhora Xenófoba e os amigos dela semeavam o terror entre os que, pouco a pouco, se opunham aos seus ditames.
Organizou-se, então, na clandestinidade, um movimento de oposição e protesto que…
… que se movia nos túneis liderado pelo sr. º Belo que, desgostoso com este novo estado das coisas, decidiu agir.
Para tal, o silêncio era indispensável. Já não sabia em quem podia confiar; os amigos de antigamente estavam a ter problemas com os “Xenofobianos”; por exemplo, o Desengonçado tinha sido preso, veio a saber-se depois, denunciado pelo Enjoado.
A senhora Xenófoba, desconfiada de tudo e de todos, pagava alvíssaras a quem relatasse alguma atividade suspeita.
Uma noite, o Delator, encontrou-se com ela e disse:
- Corre por aí que o Belo lidera um movimento contra si. Nunca mais ninguém o viu.
Desgostosa com a falta de respeito do senhor Belo pela nova ordem dos acontecimentos, encetou uma caça ao adjetivo que recebeu o nome de código “Operação Chega de Beleza”. Espalhou cartazes pelas paredes, montou vigilâncias, tentou fazer de tudo o que era possível para encontrar o senhor Belo, mas a procura não deu em nada.
Este, sabendo das movimentações que faziam para o apanhar, decidiu fugir. Com os contactos feitos no submundo dos túneis, conseguiu disfarçar-se e, depois de longos dias sem ver ninguém a calcorrear cimento sujo, percebeu que tinha chegado a outro país, quando o primeiro adjetivo que o viu lhe disse:
- Ça va bien?
Saído de uma vida de túneis e esconderijos, sobressaltos de coração e sofrimentos feios, o senhor Belo ficou deveras surpreendido por passar por vilas e aldeias que lhe pareciam cenários bem pintados com canteiros coloridos junto às portas, nas janelas e em muitos jardins. E que dizer de tantos monumentos geniais? A travessia alindou-lhe as memórias que bem precisavam de um novo fôlego.
O senhor Belo viveu uma vida regalada mais pelo ânimo e disciplina pessoal do que por bens materiais, muito pela esperança que lhe inspirava este país de liberdade e livre expressão. E pelo apreço dos que admiravam a sua coragem e ousadia, mais a bela família que a ele se reuniu. Pois a beleza era sem dúvida rainha naquele país encantado com a criação a todos os níveis. Ele era o beau tableau, a belle robe, o beau temps... até nas famílias este adjetivo reinava pimpão: a belle fille, o beau frère, a belle mère... Sem interditos, censuras, mortes, nem exílios forçados.
Esta história teria tido um final feliz e belamente perfeito não fossem os desenvolvimentos num partido chefiado agora por uma senhora de imagem ariana que lhe trouxe à memória intolerâncias antigas com trajes modernos e uma mão cheia de novas problemáticas. Ainda pensou em militar contra tais infâmias, mas sentiu que o seu papel era pôr a sua pedrinha diária de esforço no seu querido e saudoso Portugal.

Tiago Pina
Conceição Brito
Giuseppa Giangrande
Tiago Pina
Lídia Vieira

 

O CAMPO DE PAPOILAS 

Os dois queriam ter uma nova vida, fugir da monotonia daqueles dias tão sombrios. Deixaram a cidade trazendo consigo, no coração, muitas e grandes esperanças. Não tinha sido fácil abandonar o seu lugar, mas agora aquela que era a sua velha vida ficou para trás deles.
O único desejo deles era ter a liberdade, livrar-se das obrigações que a sociedade lhes impunha.
O caminho tinha sido longo, finalmente chegaram a um lugar que parecia mágico: um campo enorme, cheio de papoilas apareceu aos olhos deles. Havia no ar uma ligeira brisa que acariciava o verde do campo e as flores vermelhas, que pareciam dançar ao ritmo daquele vento suave. Do campo exalava- se um perfume, trazido pelas papoilas que ondulavam no verde do prado…
Do quase nada apeteceu-lhes andar de comboio...
Do céu e de repente, muitas, muitas nuvens, quase tantas como papoilas; sofregamente, a chuva cai por sobre os lagos, por sobre as estufas, por sobre as papoilas, por sobre tantos e tantos cheiros que de uma só vez parece que se soltam e se desnorteiam...estavam em todo o lado... E eles sorriam.
Um relâmpago, a seguir outro...agora o trovão 1,2,3,4,5,6,7 BARRUUUUMMMM, ouve-se o comboio, uhh,uhh pouca terra, muita água, BARRRRUM, cada vez mais perto: 1,2 e 3 Ai ai!! Passa o combóio que só passa, não vai parar: " A seguir vem o próximo disse logo o maquinista desabafando para a máscara da farda, acenando para os pintos calçudos.
E as papoilas...essas dançavam e choravam: Tanta alegria, quanta liberdade desde que se com paciência se vai da sente à flor... Papoilas vermelhas, sem dor.
Água da cor do breu, aquele que aprendeu a brilhar. Chuva teimosa. Mora no céu, n sua casa são as nuvens e de vez em quando vem ver debaixo o nosso mesmo céu.
- Vamos para casa...não achas?
- Sim...
E sorriem.
O comboio abrandou e quase parou na curva apertada, mais à frente, mas não o tentaram alcançar, e foram caminhando ao longo dos carris, sem pressa.
Ainda não tinham andado umas centenas de metros quando lhes pareceu ouvir um ruído que se assemelhava ao miar dos gatos. Gatos aqui? Na débil luz do fim do dia conseguiram distinguir a origem do barulho: uma trouxa de roupa, que se agitava enérgica e sonoramente. Com cuidado foram afastando panos e, com grande espanto e horror, descobriram que cobriam um bebé. Sem saberem o que fazer com a criatura, pegaram-lhe ao colo para ver se trazia alguma identificação. Absolutamente nada, mas estava agasalhado e limpo, e era tão pequenino que ainda tinha restos do cordão umbilical no seu pequeno ventre. Os jovens olharam um para o outro:
- acho que foi alguém que o atirou do comboio ali na curva - disse um.
- que vamos fazer? Ainda pensam que o roubámos! – assustou-se o outro.
- tenho uma ideia, vê lá se concordas…
Ele viajara muito para lá chegar. Do Arizona, de avião e com uma escala em Nova Iorque, fizera o percurso até Paris, e, da capital francesa tomara o comboio mais lento que encontrou para chegar ao local desejado. Os seus olhos raramente se despregaram da janela da carruagem onde viajou. Só uma vez se despediu de uma senhora grisalha com olhos muito azuis, gordinha e de roupas garridas e malas antiquadas. Era exatamente como a memória muito distante que trazia da avó paterna, sorridente e firme.
Fora o pai a convencê-lo a fazer a viagem, para construir memórias, como agora se usa. A viagem Paris-Lille pareceu-lhe curta comparada com as distâncias largas que enfrentava nos Estados Unidos, só para ir veranear num rio. E, finalmente, o maquinista fez uma frenagem suave e o comboio, cheirando a novo, estacou convidativo. A mala apertada nos dedos, a mochila endireitada, e, eis que ele saltou deste século, em busca de sinais de um episódio de há mais de cem anos. Decidiu sentir ele próprio parte do peso suportado pelo seu antepassado e com a bagagem, que de bélica só tinha um conjunto de navalhas suíças e a faca com que fizera as sandes do percurso a pé, pausou para merendar antes de empreender caminho até às colinas disformes de Mesen, nesta estação cobertas de papoilas.
- E se esta for a oportunidade que falávamos?
- Como assim?
- Este bebé pode ser nosso e começarmos aqui, no meio das papoilas, a nova etapa das nossas vidas. Repara, ninguém nos conhece, construímos a nossa família.
Sorriram. Ironicamente, talvez aquele bebé recém-nascido lhes pudesse dar um novo rumo.
Indiferentes à chuva, foram para casa e, no campo de papoilas, começaram o segundo capítulo das suas vidas.
O construtor de memórias avançava em direção à Flandres, pouco convencido da história que os seus pais lhe contavam quando era pequeno.
Fora ali, numa dessas curvas que fora atirado, há uns anos atrás, da janela de um comboio.

Giuseppa Giangrande
Joana Dinis
Conceição Brito
Lídia Vieira
Tiago Pina

 

O REGRESSO 

Tudo estava diferente desde que partira depois dos motins que assolaram a cidade naquele que seria o último verão da sua juventude. Não que houvesse uma data certa para a entrada na vida adulta, mas tudo o que acontecera nesses meses acabou por ser uma barreira que separa um antes e um depois. Um marco temporal gravado não só na memória, mas igualmente no corpo. Bruno está agora diante da frondosa árvore onde ainda estão visíveis, se bem que esbatidas pelo tempo, as marcas do violento embate da sua carrinha contra aquele tronco gigantesco, um ícone turístico local que refere serem necessários 12 homens para o abraçar. Fecha os olhos e fica à escuta. O som das sirenes é agora distante e a luz do dia esbateu as luzes azuis e vermelhas que ainda viu a bailar na noite antes de perder os sentidos.
Bruno está agora diante da casa que o viu nascer. Não tem nada a ver com a lembrança que tinha dela. Parece-lhe muito maior, o que é estranho pois com a idade os espaços vão-se tornando mais pequenos. Limpou os óculos calmamente e percebeu que afinal já não era a sua casa. Era uma construção que nada tinha a ver com a que tinha conhecido. Bruno, disse uma voz hesitante atrás dele. Voltou-se e disse que sim.
- Há quanto tempo!!! – exclamou a voz hesitante.
Bruno reconheceu-o pela mancha branca das pestanas.
- Inocêncio, o que é feito de ti, rapaz?
- Olha, cá vou andando. Isto está difícil.
Bruno olhou para Inocêncio com mais atenção e viu que, de facto, as coisas estavam espinhosas. O ar acabado, as calças rotas, os sapatos sem atacadores eram a prova dos espinhos que, por vezes, nos atravessam a vida. Na mão trazia um saco de plástico com qualquer coisa volumosa no interior.
- Estás a ver a tua antiga casa? Agora é uma loja de velharias.
- Pois, é o que estou a ver.
- Olha, não me queres comprar isto?
De dentro do saco tirou um candeeiro com ar de quem pertenceu ao cenário da Vila Faia ou que repousava na secretária de Duarte e Companhia.
- Precisava de vender isto, para ter algum para comer. Desde que fiquei sem trabalho que…
Bruno ficou sem reação. Inocêncio apercebeu-se e disse-lhe:
- Tu ainda tiveste sorte. Foste contra a bisarma, mas recebeste a indemnização da Câmara. Eu…
De facto, apesar de culpado do acidente, Bruno ainda conseguira processar o Estado porque a árvore já deveria ter sido deitada abaixo, apesar de atração local. O advogado de Bruno, Doutor Campos da Moita, senhor muito reconhecido na praça, lá desencantara o ofício que mandava a dita cuja para o maneta, de modo que Bruno ainda tinha alguns euros para se valer.
Inocêncio, num passe de magia, pegou no candeeiro, atirou-o contra a cabeça de Bruno e surripiou-lhe a carteira, onde algumas notas estavam alinhadas por ordem crescente.
Fugiu com elas, deixando Bruno no chão a ouvir novamente as sirenes que o vinham acudir.
E foi uma longa e dolorosa sessão de déjà vue: os carros de polícia a parar com um grito dos pneus no asfalto quente, os vultos fardados a correr na sua direcção, uma mão a tactear-lhe a cabeça «dói aqui?, dói aqui?». Doía em toda a parte, mas desta vez não desmaiou, apenas fechou os olhos para afastar o brilho insuportável do sol e esconder a sua não menos insuportável humilhação.
Que estúpido! O leopardo não muda as suas malhas e o Inocêncio, ladrãozeco recorrente, também não mudara as dele. Como pudera esquecer-se? O Inocência até cumprira pena por furto, mas não aprendia, voltava sempre ao seu mester preferido de apropriação de bens alheios. As vítimas já lhe conheciam o modus operandi e nem se davam ao trabalho de apresentar queixa: iam à sua procura, davam-lhe uma carga de pancada, recuperavam o que ainda podiam e, não podendo, lá lhe partiam uns dentes ou uns dedos, abriam-lhe uns lanhos na cabeça para ele não repetir a avaria.
Enquanto esperavam a ambulância, Bruno conseguiu, finalmente, abrir o olho que não estava magoado, e viu, com alívio, a sua carteira no chão, mesmo ali ao lado. Pegou-lhe e abriu-a com mãos trémulas de antecipação. Ainda lá estava a carta! Involuntariamente levou o envelope aos lábios e murmurou «obrigado, obrigado, graças a Deus».
Aquela carta era a razão por que voltara a esta terra do inferno, onde jurara nunca mais pôr os pés. Iria procurar quem a escrevera e, finalmente, tentar reconciliar-se com o passado.
O pingo de sangue caía em câmara lenta queixo abaixo, e Bruno, aliviado pela posse da carta, distraído pela espera, perguntou-se se ficaria com uma cicatriz na sobrancelha. Uma cicatriz-convite para começar uma conversa. Para chamar a atenção de um olhar de 2 a 4 metros. A dor não era desconhecida para Bruno, não desde o acidente, um zumbido permanente em dias de chuva no nariz. Quem não o conhecia confundia-o com um cocainómano nesses dias de chuva, em mais de um dia de chuva tinha acabado num cubículo estreito pelas razões erradas, saindo de rabo entre as pernas. Não era que não gostasse de drogas, sorriu, acariciou a carta, era mais que a sua droga de eleição não era a branquinha. Não, a sua droga do coração, graças ao acidente, era uma combinação de endorfinas e dopamina, e exigia-lhe mais esforço e envolvimento pessoal que tapar uma narina e respirar forte pela outra. Exigia-lhe chamar a atenção de um olhar, a palavra ou o gesto certo, saliva, suor e sémen.
As luzes vermelhas e azuis da ambulância cegaram-no, viu a árvore ao longe, doze homens para a abraçar, imaginava-os de tronco nu, os músculos perfilados contra o tronco, ouviu as palavras ofendidas dele outra vez antes de saltar da carrinha em movimento, o pé forte no acelerador, as lágrimas quentes a caírem em câmara lenta queixo abaixo, a árvore já ali.
Conseguiu fugir e finalmente abriu a carta. Não tinha nada dentro. Apenas um papel amarelecido pelo tempo com os vestígios indecifráveis da caligrafia de alguém. Agendou uma consulta de psicanálise para largar o passado no divã, a árvore, os acidentes, o amigo ladrão, as drogas e tudo o mais. Que o passado ficasse como aquele papel, um passado indiferente em tons esbatidos e impossíveis de ler.

Francisco Feio
Tiago Pina
Conceição Brito
Patrícia Louro
Helena Campos

 

O TÚNEL DE CAMARATE 

Sem fazerem barulho, a lembrar os raides noturnos que faziam juntos, dirigiram-se para as traseiras do restaurante em direção ao túnel, que os livraria da multa por violação de todas as regras do dever de confinamento, não fosse dar-se o caso deste ser um túnel de escoamento de água que ia desaguar a um ribeiro.
Uma vez lá dentro, e como havia uma forte corrente de água a entrar, Zé Massano e Mário Antunes olharam um para o outro e o juramento que fizeram há muitos anos, ecoou nas paredes curvas do túnel:
- Ninguém fica para trás!
Esta promessa poderia fazer sentido no mato, agora ali em Camarate, no meio de um túnel que não se via a saída?
Zé Massano pegou no canivete que tinha no bolso, olhou para o companheiro de armas e…
Os dois avançaram no túnel.
O Zé pegara no canivete para que lhes desse sorte, como já tinha sido há muitos anos no mato. Quem sabe se também ali eles precisarem do canivete para combater contra feras verdadeiras ou imaginárias? O Zé e o Mário na realidade tinham de combater contra a corrente de água que continuava a subir e a encher. Os dois amigos olharam um para o outro: parecia impossível escapar aquela corrente que no final os submergiu e os arrastou.
Perderam os sentidos, mas tiveram a sorte do seu lado: a corrente livrou-os da escuridão e estreiteza do túnel e devolveu-os à luz, à normalidade tão desejada no tempo do confinamento.
Ampararam-se um no outro e saíram do ribeiro. Ou melhor, da água que aquilo de ribeiro tinha muito pouco. Eram duas fracas figuras que se sentavam agora na margem do corredor de água, cobertos de limos e outras coisas bem menos higiénicas. Mário, olhando para o companheiro a tentar, sem sucesso, recompor a sua imagem, não conseguiu domar uma alta gargalhada.
“Estás a rir-te de quê, oh artista? Deves pensar que estás com melhor ar que eu!” – disse Zé Massano furioso.
“Estou de rir-me de nós. Dois velhos viúvos, que combateram na guerra, que sobreviveram a sei lá mais o quê, não conseguiram ficar em casa dois ou três dias nesta altura de doidos sem se encontrarem para beber um copito. E agora andaram a rastejar dentro de um esgoto para não terem de ouvir um ralhete da polícia e desembolsar umas dezenas de Euros. Diz-me tu se não é para rir…”
Zé Massano não se deixou levar pela súbita boa disposição do companheiro e alargou o seu queixume:
“Pois eu não acho graça nenhuma, até porque o pior ainda está para chegar.” Dada a surpresa de Mário, lá decidiu explicar que tinha dito à filha, com quem vivia, que ia só à Farmácia porque se lhe tinham acabado os comprimidos para a tensão. “Como é que lhe explico agora aparecer neste estado?”.
Mário esboçou um sorriso e disse com calma: “Fácil, escuta com atenção...”
- Dizes à tua filha que apanhaste uma molha. Estava ou não estava a chover torrencialmente quando chegamos ao restaurante?
- É verdade, estava.
Tinham desaguado em parte incerta, os pés a enterrarem-se em lamas e limos. Era uma zona baldia, florestada que se estendia à frente deles. Deambularam livremente a respirar o ar sem ameaças de vírus, sem obrigações de máscaras e álcool até que avistaram sob uma árvore frondosa de vastos galhos pendentes, os olhos vítreos de um cadáver que ali jazia. Era de um rapaz novo, e ainda estava bastante inteiro. Aqueles olhos, o cheiro a esgoto, a morte também cheirava a esgoto não no princípio, uns dias depois, mas este cheiro não era do cadáver, era deles, só deles, "ninguém fica para trás"... Zé Massano ouviu a mina a explodir outra vez, apertou o canivete, os nós dos dedos brancos e doridos. Gritos, pedaços de carne a semear a terra vermelha e sedenta. Não conseguia respirar, e agora não era por causa da máscara. Eram esses olhos, sempre os olhos, silenciosos, doloridos, mortos. Quietos.
Mário ria-se, ria-se, ria-se, ria cada vez mais, as palavras tão presas no peito, que nem as gargalhadas as conseguiam libertar.
Era de um rapaz novo, e ainda bastante inteiro, como eles antes da guerra.

Tiago Pina
Giuseppa Giangrande
Francisco Semedo
Helena Campos
Patrícia Louro


«THAT'S ALL FOLKS» 

«That’s all folks!», repetia entredentes, enquanto esperava atrás da porta. Não lhe arrancariam nem mais uma palavra. Não é que tivesse alergia às palavras, ou suspeitasse da sua inutilidade. Aos seus olhos era mais simples: tinha uma vida inteira de palavras a falar por si, uma vida inteira de ações a substanciar essas palavras. Eram muitas palavras, ditas, repetidas, demasiadas vezes, demasiado o mesmo. Agora acumulava-se-lhe nos ossos o cansaço, uma certeza cimentada pelo cansaço, pela repetição das mesmas perguntas, pela procura incessante das respostas certas que parassem as perguntas. Ou de respostas que mudassem as perguntas. Se alguém quisesse saber porquê, só tinha de percorrer para trás o caminho que tinha trazido os seus saltos altos até aqui, a esta porta.
«That’s all folks!», a mão suada e trémula rodou a maçaneta e saiu.
O sol que brilhava lá fora contrastou dolorosamente nos seus olhos com a escuridão de onde saia. Quando os conseguiu abrir viu o jardim. O mesmo jardim que em criança tinha visto pela primeira vez no dia em que, a custo de uns joelhos esfolados, subiu a árvore para o espreitar por cima do alto muro. Parecera-lhe encantado como nas histórias, falsas, que lhe liam. As sebes cortadas com uma precisão microscópica, o cheiro quente das flores e a grande fonte no meio. Hoje tudo estava assustadoramente igual, mas o encanto esse tinha abandonado aquelas partes há muito tempo. Durante anos pensou como seria estar ali e agora só lhe faltava um passo. Deu-o. A ausência de sentimentos desiludiu-a. Continuou a andar até chegar à fonte e parou em frente dela. Olhou para cima e, por um instante, viu-o, criança, lá em cima outra vez. Como naquele dia em que ele lhe falou, do cimo da fonte para o cimo da árvore. Fechou os olhos e sacudiu a angústia.
“Estão prontos para a receber!” ouviu do outro lado do jardim. «That’s all folks!» sibilou baixinho. De uma maneira ou de outra, hoje tudo acabava.
Mas não era assim: naquele dia nada acabava. A história dela seguia, continuava graças a água da fonte que a lavou, a livrou de todas as angústias.
Voltaram os sentimentos e ela voltou a vê-lo, ali no cimo da árvore. Fechou os olhos e chegou à altura dele. Não sentia cansaço, apenas alegria; parou à frente dele. O seu coração começou a bater quando pensou: será que ele me vai dar respostas que mudem as perguntas? Respostas certas? Vão deixar as palavras de falar por si? Mas ele só disse que nada para ela acabava, teriam de falar para ela ter as certezas de precisava.
Dirigiu-se aos advogados que a esperavam para finalmente poderem ler o testamento do seu Pai. Eram três senhores engravatados com ar altivo. Sentou-se calmamente ainda com a imagem dele no cimo da árvore e à medida que iam lendo o que o Pai decidira, ia-se formando uma ideia - cada vez mais clara - que este seria o início e o fim de tudo o que a atormentava há tanto tempo.
"That's all folks!", ressoava no seu peito.
A voz monocórdica de um deles dizia que o Pai tinha uma fortuna avaliada num milhão de Euros.
Estremeceu.
Um milhão de euros resolvia tudo. Não haveria mais perguntas nem mais respostas. Um milhão de euros era a resposta. Não há nada no mundo que o dinheiro não resolva. E quando transportou pelo jardim a pasta milionária, ele já não estava lá.


Patrícia Louro
Francisco Semedo
Giuseppa Giangrande
Mariana Matias
Helena Campos


MINIATURAS 

Para maior cidade do universo, era demasiado pequena. Já era a terceira vez esta semana que se cruzava com as mesmas pessoas a caminho do emprego. É verdade que era sempre em sítios diferentes do percurso, mas eram sempre as mesmas pessoas e sempre na mesma sequência. O mais estranho de tudo é que as conhecia a todas, de vista, mas de cidades diferentes onde tinha vivido em momentos dispersos da sua vida. Tinha mudado para aqui havia 2 anos e não estava arrependido de ter aceitado a oferta de emprego que lhe tinha aparecido, um pouco do nada, mas no momento certo. Foi num impulso que aceitou e só pensou na decisão que tinha tomado no dia seguinte, enquanto atravessava os ares a caminho da que viria a ser, ainda não o sabia, a última cidade que iria conhecer. Para trás deixava uma vida sem grande história, ou com história nenhuma, já que tudo o que tinha de importante lhe coube numa pequena mala que jazia agora no porão do avião onde seguia. Nem telefonou ao patrão a dizer que não voltava; talvez o fizesse depois de chegar.
A manhã estava luminosa, a temperatura tinha subido e atravessava a cidade a passo não muito rápido, mas decidido. Foi quando chegou ao cruzamento e parou à espera da mudança do semáforo, que o dia ia irremediavelmente mudar. Olhou em frente e lá estava.
Lá estava ela. Nunca teria imaginado que iria vê-la novamente.
De algum modo, tinha ficado nas suas lembranças, talvez mais do que qualquer outra pessoa de todas as cidades onde tinha vivido.
O aspeto mais estranho desse encontro imprevisto e inesperado era que ela tinha significado algo na sua vida sem histórias, ou melhor, naquela vida que acreditava ser sem histórias.
Não falaram, apenas olharam um para outro: naquele momento, teve a certeza de que a sua vida, de repente, tinha mudado e para sempre.
Tomou uma decisão: ia ficar, não sabia porquê, mas tinha essa certeza.
Ia ficar porque agora era o seu coração que lhe dizia isso: volta atrás e fica.
Depois de refrear o impulso de andarilho, pensou em todas as qualidades deste lugar. Trânsito ordenado, ruas limpas, parques de quebrar de cansaço quaisquer pernas. E abraçou esta última ideia. Resolveu pôr-se em forma e foi correr diariamente, depois do trabalho, para a mancha verde em frente ao seu apartamento de varanda envidraçada. E rematava o exercício com uma caminhada lenta e ritmada, exatamente no sentido que a vira percorrer.
Passaram-se os meses e a sua balança já lhe sorria alegremente. Um peso conforme à moda e um mar de possibilidades para a saúde e para um vestuário atraente. Mas dela, nem sinais. Praguejava fortemente, amaldiçoando o seu acanhamento. Acrescentou um passatempo à sua vida. Ingressou numa turma de olaria e depressa se sentiu em casa, de tal modo o cheiro do barro lhe lembrava a terra onde plantava legumes e batatas com o seu avô. Em breve a prateleira superior da estante maior ficou apinhada de troféus multiformes.
Quando as obras de louça já chegavam perto do fogão, pensou que talvez já fosse hora de se iniciar na cozinha, que, pelo menos, gerava obras perecíveis e comestíveis. Tão bem-sucedido foi que, em ano e meio, já se preparava para se aventurar numa escola de Cordons Bleus. Mas Matilde tardava em dar sinais de vida e ele não queria desprender-se de mais uma cidade que implicava agora um corte com o seu fundo mais emocional. Porém, avançou. Chegada a semana da viagem desejada e com os documentos prontos para a partida, o patrão previamente informado, já estava mais conformado e sonhava com a Cidade Luz. Quem sabe se dali não surgiria um brilho mais forte para o seu futuro?
Decidiu que, se era para cortar amarras, devia deixar tudo para trás. Já tinha cancelado o contrato de arrendamento e vendido quase todos os pertences. Faltava apenas a sua singela coleção de obras de olaria. Por alguma razão era difícil pensar em desfazer-se delas. Talvez porque representavam a esperança de que tudo podia ser diferente. Foi quando viu Matilde, que fez as mudanças na sua vida que o levaram a dedicar-se a elas. A primeira que tinha feito era até uma tentativa da silhueta dela. De qualquer forma, a decisão estava tomada. Tinha abandonado a esperança e, sendo assim, não podia guardar resquícios que o fizessem pensar o contrário. Dirigiu-se à estante despida e enfiou as pequenas peças numa sacola de pano. Num qualquer fórum na Internet tinham-lhe recomendado uma galeria de escultura que, diziam, fazia boas ofertas por qualquer pedaço de barro minimamente moldado. Pegou na sacola e saiu de casa. Quando chegou à rua percebeu que estava triste, mas isso não era novidade. Decidiu ir a pé para arejar a melancolia.
Chegado à morada indicada, de olhos postos nos números no topo das ombreiras das portas trabalhadas, palmilhou a calçada em busca do 145. A avenida estava a chegar ao fim e ainda ia no 99. Sentiu a esperança novamente a importuná-lo, mas durou pouco e rapidamente, por qualquer razão, os números das portas saltaram do 103 para o 143. Com o conforto da desilusão, decidiu percorrer as portas que restavam de olhos no chão. Olhou para cima. A tabuleta reflectiu o Sol contra ele e entrou ainda meio encadeado, balbuciando um qualquer cumprimento à turva personagem na sua frente. Depois ouviu Matilde.
E ali estava ela, recortada em contraluz, tal como a vira na primeira vez. Era a dona da galeria que lhe ia comprar as peças. Ele sempre há coincidências!
- Há quanto tempo! – sussurraram ambos, ele com as mãos um tanto trémulas, subitamente tímido, diante daquele sonho materializado, ela com as peças esquecidas nas mãos. Trôpegos como dois adolescentes, saíram e percorreram as ruas da cidade aproveitando a última luz do ocaso. E seria aquela para ele a última cidade. O trota-mundos que ele fora encontrara por fim o seu porto de abrigo.

Francisco Feio
Giuseppa Giangrande
Lídia Vieira
Francisco Semedo
Helena Campos


A LÍNGUA DOS OLHOS 

Olhou para o espelho: os olhos dela falavam.
Falavam em muitas coisas, em inumeráveis sentimentos e sensações, às vezes tempestuosas.
Os olhos, porém, queriam que ela também falasse, que desse liberdade a tudo aquilo que ela sentia e tinha no seu coração.
Então ela pediu aos seus olhos que falassem, que continuassem a falar, porque ela não conseguia expressar claramente os seus sentimentos, aquilo que estava fechado no seu coração e que não podia dizer através da sua voz.
E foi naquele momento que os seus olhos falaram novamente, com lágrimas.
Eram lágrimas de felicidade ou de tristeza? Era saudade? De quem? De quê?
Caiam pele fora, gota a gota, recheadas de lembranças, memórias e angústias.
Os olhos queriam que ela falasse daquela tarde, daquele revirar tão abrupto na sua vida.
As lágrimas eram de profunda tristeza, pelo vazio imenso que se instalou no seu peito ao ver a sua casa em chamas.
Regressar a esse dia era demasiado doloroso, pelas coisas que desapareceram, mas particularmente, por tudo aquilo que lá vivera.
Mas o que ela não queria mesmo revisitar dentro de si era o porquê daquele incêndio.
Aí, as lágrimas pararam de cair.
Não aguentava mais o som, por isso fechou os olhos para os silenciar. Já tinha revivido aquela tarde cem vezes. “Não foi culpa tua”, murmurou para si mesma, com doçura. Mas quando reabriu os olhos eles disseram-lhe, molhados, a mesma coisa que todos os olhos que a olharam desde esse dia. “Mataste-os a todos. Perdeste o controlo e mataste-os”. Calou novamente os olhos. Inspirou fundo, expirou com força e calma ao mesmo tempo e numa paz fingida voltou lá. O gosto das lágrimas na boca era igual ao que tinha sentido. Ouviu outra vez os gritos ameaçadores e sentiu outra vez o frio no peito, que lhe entrava pela sua camisa rasgada. Sentiu o mesmo medo e em todo o corpo voltou a tremer. Queria fugir, mas não sabia para onde se aquela era a única casa que tinha conhecido. Todos os que amou na vida estavam ou tinham estado ali. Ouviu outra vez os passos atrás de si e gritos, mais gritos. Seria possível o amor transformar-se naquilo? Sentiu outra vez o puxão nos cabelos. Deixou-se cair de joelhos da mesma forma que caíra quando foi atirada naquela tarde. Sentiu a mesma raiva a chegar à garganta, mas hoje não gritou. Hoje não entregou a sua mão à lareira, nem pegou com ela nas brasas iluminadas, nem lhas atirou. Hoje não se ergueu. E hoje também não ia fugir.
Eulália, Láli para todos os que a amavam, estava desfeita de tal forma que já não lhe restavam forças para remoer o funesto incêndio.
Sim, tinham morrido todos. Sim, tinha sido a única a salvar-se por causa de um vício que a matava aos poucos. Sim, uma parte de si tinha ido com as fagulhas, como ia a outra parte sempre que cedia à prata castanha.
Já tinha sido julgada, condenada e decapitada por todos os que a conheciam.
Levantou-se e foi até aos escombros; o cheiro a queimado, a claridade das labaredas, os gritos, as lágrimas acordaram rapidamente.
Eulália, presa na sua cabeça, entrou na drogaria ao lado do que outrora fora a sua casa, comprou álcool, material inflamável e, dirigindo-se para as ruínas, ateou um fogo na esperança de que este levasse a memória e trouxesse de volta os seus filhos, o seu marido que dormiam tranquilamente a sesta quando Lália deixou o cigarro acesso ao pé do fogão e saiu para se ir envenenar mais um pouco.
O fogo apenas ardia como o coração dela e os seus olhos. Eulália, pouco a pouco, teve consciência de que aquele fogo nunca faria regressar os seus filhos e o seu marido. Percebeu uma vez mais a sua solidão, o seu sentimento de culpa, todas as culpas caíam sobre ela, era impossível encontrar uma saída.
Então, voltou ao espelho e os seus olhos falaram-lhe esta vez, falaram-lhe ainda com as lágrimas que caíram no seu rosto e chegaram ao seu coração para a livrar, como por milagre, dos remorsos que tinha e que a perseguiam. Preparou uma mala com poucas coisas e foi-se embora. Pôs-se a caminho para fazer uma viagem que podia significar recuperar a sua vida, ou melhor, encontrar a salvação. Os olhos tinham-lhe dito: havia ainda uma possibilidade de salvação para ela.

Giuseppa Giangrande
Mariana Matias
Francisco Semedo
Tiago Pina
Giuseppa Giangrande


CONTOS PROIBIDOS

A carta tinha ido para a morada errada. E ainda bem. Passo a explicar. Há uns anos emprestaram-me um livro muito raro, sobre um escândalo político e financeiro passado em Macau, de que só houve primeira edição, tendo o autor, entretanto, asilado em parte incerta. Li-o e reli-o, depois guardei-o na estante, sempre com a ideia de o devolver. O tempo foi passando e um dia recebi uma sms do proprietário do livro, reclamando-o. Passaram mais uns dias, talvez semanas, e nova sms. Finalmente decidi-me - embrulhei o livro em papel pardo (tenho resmas em casa), atei o embrulho com um cordel daqueles antigos, que já só se encontra nas drogarias dos bairros onde ainda há drogarias, um cordel de duas cores – azul e cru, verde e cru, vermelho e cru (este era preto e cru) – e escrevi “LIVRO” no embrulho, assim me livrando de escrever uma qualquer nota de pedido de desculpas pois a tarifa de expedição de livros não permite, sequer, que nele vá agarrado um cabelo quanto mais um cartão de visita. Afincadamente, escrevi o nome e a morada do destinatário. Quer dizer, escrevi o nome do destinatário e a rua onde ele residia. Como a morada só se completa com o código postal, foi aqui que a história começou (ou continuou, pois começar tinha começado quando me emprestaram o livro), ao inserir o meu código postal e não o do destinatário.
A princípio estranhei não ter notícia do destinatário, que tanta pressa parecia ter em reaver o livro; depois não pensei mais no assunto até ao dia em que chegou mais uma mensagem a perguntar se sempre o tinha enviado. Respondi que sim e não voltei a ter resposta. O assunto estava encerrado e um dia, ao regressar de viagem, esperava-me um postal dos correios para ir levantar uma encomenda, com a menção “morada desconhecida”. Entreguei o postal e devolveram-me a minha encomenda. Segundo o funcionário, aquela morada não existia naquele código postal. Existiam 52 ruas com o mesmo nome no país, 26 com o mesmo número de porta, 8 com o mesmo andar, mas nenhuma naquele código postal. Ainda me perguntou se sendo tão perto, não seria melhor ir entregá-la em mão. Perante a minha estranheza apontou-me o código postal e disse-me: a rua não conheço, mas este código é desta zona e abrange três quarteirões.
Levei o embrulho comigo. Estava tal e qual o tinha feito, com o mesmo papel pardo atado com o mesmo fio de cores. Abri-o para fazer um novo e quando folheei o livro, escorregou de entre as páginas uma fotografia que ali deve ter ficado esquecida. Olhei-a. Nunca a tinha visto e parecia-me que não seria minha. Foi quando olhei com mais atenção que percebi. Ou melhor, que nunca iria perceber o que se estava a passar.
Peguei na fotografia e o meu corpo, primeiro a cabeça, depois o resto dos membros,
mergulhou para dentro do retrato.
Dei comigo em Lisboa, eu que não punha lá os pés há 20 anos, na rua onde crescera e passara a minha infância.
A rua estava igual à memória que mantinha dela; o jardim onde berlindava, parecia chamar-me como quando tinha 6 anos e corria para lá; as mesmas pessoas, o Sr. Alberto, sentado no banco, a gritar «Foi penalty», tudo parecia ter ficado em 1999, ano em que fugi para Macau, ter com o meu pai que, coitado, sofria com as calúnias de um escândalo em que se vira envolvido com uns magnatas macaenses.
Estava em Alvalade, mas sabia que não era possível; ninguém mergulha para dentro de uma fotografia e toma parte da ação. Desci a rua e dei de caras com o «Lulu», meu amigo de sempre e por quem sempre tinha tido uma paixão. Este reconheceu-me e, antes que pudesse dizer alguma coisa, tirou uma pistola e disparou dois tiros que me acertaram na cabeça.
- Um é por me fazeres passar por menina e o outro é pelo meu pai que se suicidou por causa do teu.
O meu corpo jazia na rua, na minha rua, mas eu não estava morto. Como nos sonhos, nas histórias não se morre.
Instintivamente anunciei-lhe o próprio nome, ao que ela respondeu:

“Sim, bem sei quem sou. E quem vem a ser o senhor?” – Continuei estarrecido a olhar para ela sem dizer uma palavra. Não a via desde que fugi com o pai para Macau mas tudo nela estava perturbantemente igual. O sorriso cínico, as mãos esguias, as sobrancelhas finas, a olhar impaciente. Dei conta então que estava a tremer. Tanto tempo passado a sonhar com isto e no fim só tinha de voltar aqui. Mas o que fazia ela em casa do “Lulu”? Num instante, coberto de antecipação olhei para a mão de Filomena. Nada de aliança.
“Desculpe, mas tenho mais que fazer do que ficar aqui a olhar para si? Acabei de mudar para esta casa e tenho muita coisa por arrumar. Sabe, o antigo dono dela era um antigo colega de escola, que soube há pouco tempo ter morrido e… Enfim, posso ajudá-lo com alguma coisa?” – Aparentemente, o meu aspeto estava mais mudado que o dela. Lembrei-me de todas as vezes que a fora buscar a casa dos pais para passear no Jardim e finalmente consegui dizer:
“Só um momento! Peço imensa desculpa, mas preciso de fazer uma coisa”
Virei costa e fui a correr ao jardim, colhi uma rosa vermelha e voltei à porta, que como expectável estava fechada. Bati. Filomena abriu e antes que pudesse descarregar em mim a raiva que tinha nos olhos disse:
“Nunca antes estive à tua porta sem te trazer uma rosa vermelha… Não seria hoje a primeira vez”. A raiva sumiu-se-lhe dos olhos e trocou-a por surpresa:
“Cristóvão?” – disse ela.
Sorri e respondi: “Que me dizes, vamos passear no jardim?”
Vi o «Lulu» afastar-se, acender um cigarro (será que ainda fumava SG Gigante?) e eu só me perguntava como é que tinha escrito o meu código postal e não o do dono do livro.
Fechei os olhos e quando os abri senti uma violenta dor de cabeça: tinha batido com a testa na esquina da mesa quando me baixei para apanhar a foto que deslizara de dentro do livro para o chão.
O Lulu, murmurei com estranheza. O estupor do Lulu tinha-me dado dois tiros, ainda que fictícios, a mim, seu fã incondicional! Sabia lá que os outros lhe chamavam menina! Para mim ele era o sol que iluminava o meu planeta…até ao dia em que dei de caras com a Filomena e a minha vida mudou para sempre…pelo menos durante algum tempo!
É verdade que ele fez umas cenas camilianas debaixo da minha janela, encheu o pátio da escola com dislates e ameaças, mas o meu destino estava traçado: Filomena ou nada!
Esta mudança alegrou imensamente o meu progenitor, conservador empedernido, mas teve consequências funestas para o Lulu, cujo pai, igualmente dinossáurico e inimigo do meu pai, se atirou de carro, da falésia de Peniche para o mar.
Todas estas recordações passaram diante dos meus olhos, com uma clareza dolorosa. Deve ter sido da pancada, concluí.
Sem vislumbrar culpa, nem saber porquê, senti uns violentos remorsos pela estultícia da minha juventude e decidi tentar corrigir o que ainda podia ser corrigido, nem que fosse só para, egoistamente, sentir algum apaziguamento.
Vou procurar o Lulu, pode ser que esta espécie de sonho tenha sido um aviso. Será que ainda mora na mesma casa?
Rapidamente, chamei um Uber e desci em frente daquela moradia que tão bem conhecera. Com mão trémula toquei a campainha e afastei-me um pouco, sem saber bem porquê.
A porta abriu-se com vigor e à minha frente surgiu uma imagem que nunca esquecera: Filomena!
Instintivamente anunciei-lhe o próprio nome, ao que ela respondeu: “Sim, bem sei quem sou. E quem vem a ser o senhor?” – Continuei estarrecido a olhar para ela sem dizer uma palavra. Não a via desde que fugi com o pai para Macau mas tudo nela estava perturbantemente igual. O sorriso cínico, as mãos esguias, as sobrancelhas finas, a olhar impaciente. Dei conta então que estava a tremer. Tanto tempo passado a sonhar com isto e no fim só tinha de voltar aqui. Mas o que fazia ela em casa do “Lulu”? Num instante, coberto de antecipação olhei para a mão de Filomena. Nada de aliança.
“Desculpe, mas tenho mais que fazer do que ficar aqui a olhar para si? Acabei de mudar para esta casa e tenho muita coisa por arrumar. Sabe, o antigo dono dela era um antigo colega de escola, que soube há pouco tempo ter morrido e… Enfim, posso ajudá-lo com alguma coisa?” – Aparentemente, o meu aspeto estava mais mudado que o dela. Lembrei-me de todas as vezes que a fora buscar a casa dos pais para passear no Jardim e finalmente consegui dizer:
“Só um momento! Peço imensa desculpa, mas preciso de fazer uma coisa”
Virei costa e fui a correr ao jardim, colhi uma rosa vermelha e voltei à porta, que como expectável estava fechada. Bati. Filomena abriu e antes que pudesse descarregar em mim a raiva que tinha nos olhos disse:
“Nunca antes estive à tua porta sem te trazer uma rosa vermelha… Não seria hoje a primeira vez”. A raiva sumiu-se-lhe dos olhos e trocou-a por surpresa:
“Cristóvão?” – disse ela.
Sorri e respondi: “Que me dizes, vamos passear no jardim?”

Paula Carvalho
Francisco Feio
Tiago Pina
Conceição Brito
Francisco Semedo

 

BOLSOS VIVIDOS 

As poucas vezes que levou as mãos aos bolsos, sentiu percorrer-lhe o corpo um arrepio desvairado que o levou, em menos de um ápice, a deitar-se na cama, com mantas encardidas por cima e a cabeça tapada por um gorro, de repasto das muitas traças que faziam vida nos seus armários. Assegurava, num tom de voz de militar de ocasião, que jamais o veriam colocar novamente as mãos nos bolsos, que já por mais vezes do que as que conseguia contar estivera às portas da morte e não fosse a sua Rosarinho, de mãos de orquídea e pescoço de salvação, estaria já desfeito e comido por larvas. "Porque não usas tu calças sem bolsos, se tanta maleita te provocam?", perguntavam os amigos. Isso a eles não lhes dizia respeito, mas a sua Rosarinho, que cheirava a terra molhada e chorava sonhos alados, da sua respiração brilhante, sussurrava que nos bolsos das calças ficam os restos de vida que durante o dia abandonamos. Agora, a sua Rosarinho respirava vazia em cima da cama.
E ele não conseguia deixar de pensar nas suas palavras: porventura, nos bolsos aterradores, iria encontrar a memória viva e vívida, das últimas horas de Rosarinho?
À medida que a respiração dela se ia desvanecendo, tomou uma decisão: aconchegou a delicada mão na sua e, cuidadosamente, deslizou os dedos para dentro de um dos bolsos. Um clarão de amor quase o cegou e sentiu o coração transbordar. Segurou firmemente a mão de Rosarinho e ouviu a sua voz dizer “eu estou contigo, aqui e agora, não tenhas receio”. Olhou-a e deixou-se envolver pelo brilho da sua respiração. O rosto permanecia tranquilo, imóvel.
“Onde estás, minha querida? Para que mundo me estás a levar?”
Os olhos de Rosarinho abriram-se num cintilar de diamante, os lábios desenharam um sorriso e murmurou, sem falar, “não tenhas receio, vem comigo”.
Ele deixou-se envolver por uma cornucópia de cores e partiu num sonho alado, antes de perder a consciência.
A sua mão nunca largou a de Rosarinho durante a alucinante descida em espiral pela cornucópia colorida. A descida parecia não ter fim, a cada 360 graus a velocidade da queda amentava exponencialmente: onde iriam parar? Procurou o olhar de Rosarinho em busca de um porto seguro e descansou quando viu o seu sorriso.
De repente pararam e ficaram como que suspensos no vazio, as mãos sempre juntas, os olhares presos. As cores da cornucópia desvaneceram lentamente, o cenário tornou-se mais nítido.
Estavam no quintal da casa da avó na aldeia serrana. António já não tinha o gorro traçado na cabeça e vestia uns calções de linho e uns ténis de pano. Era verão e as cigarras faziam uma barulheira infernal ao longe. António sentiu o bolso esquerdo pesado, como que a puxar-lhe os calções para baixo. Olhou novamente para Rosarinho e, sem nunca desviar o olhar, meteu a mão devagarinho no bolso. Assustou-quando os seus dedos tocaram numa superfície fria e perfeitamente lisa: eram os seus berlindes.
Donde teriam surgido? Tinha deles uma cruel lembrança, tinha a certeza que os tinha deitado para o rio depois daquele horrível acidente com a sua irmã pequenina, a Susana. Os seus olhos continuaram a fitar Rosarinho que, suavemente, entrelaçou os dedos nos seus e, juntos, retiraram as esferas multicolores do bolso, e deixaram-nas rolar por entre as mãos para o solo quente.
A náusea ácida queimou-lhe a garganta e cortou-lhe a respiração. Reviveu o momento, há tantos anos, em que se apercebeu que a sua irmãzinha parara de brincar com estes mesmos berlindes e jazia imóvel no chão.
Ele estava proibido de jogar com eles perto da criança, pareciam rebuçados e eram tentadores e perigosos.
A mãe tinha-lhe dito que olhasse pela mana durante a manhã. Escondeu os berlindes na concha da mão, que enfiou no bolso dos calções, e foram ter com os seus amigos.
Foi divertido, mas subitamente apercebeu-se que a Susana fora engolindo os berlindes que deixara abandonados no chão. O terror que sentiu mudou-o para sempre.
Mas agora Rosarinho segurou-lhe ambas as mãos e disse, num murmúrio: «Observa o passado. Acabou o teu pesadelo, podes começar a esquecer»
Ele continua deitado, imóvel, indiferente à azáfama que reina à sua volta. Na cabeça ressoam estas últimas palavras de Rosarinho sobre observar o passado e começar a esquecer. Sente-se mais confuso que o habitual. Como pode ele observar algo que começa a esquecer? A mão está fria, mais fria que o corpo. Reparou agora que tem alguma coisa na mão. Abre-a lentamente e descobre um grande berlinde de vidro, com as habituais torções coloridas no interior. Olha atentamente a esfera transparente à procura da sua irmã Susana e de Rosarinho, mas não encontra qualquer sinal delas. O quintal da casa da serra, que parecia estar ainda agora ali na sua memória, desaparecia à medida que ia rodando o vidro na sua mão. Talvez as palavras de Rosarinho não fossem um pedido, mas apenas a descrição do que seguia. A acidez na garganta voltou e pela primeira vez pareceu dar sinais de vida. Olhou com dificuldade a mão e o berlinde tinha desaparecido. Resignou-se; já nem sabia de onde lhe tinha aparecido aquilo na mão. Esquecer, era a única coisa de que se lembrava. E o pesadelo talvez fosse aquele apito intermitente que parecia marcar um compasso lento acompanhando a sua respiração. Já não se apercebeu quando o som ficou contínuo. Ainda menos quando se calou.


Rodrigo Rufino
Conceição Brito
Inês Rodrigues
Conceição Brito
Francisco Feio


O CONGRESSO 

Odiava aquelas festas infindáveis da embaixada: muitos sorrisos, muita conversa oca, muitas mentiras simpáticas e cansativas, muito nada fazer para parecer fazer alguma coisa. O surdo tumulto das vozes, com decibéis ditados pelo champagne generoso, as luzes brilhantes e cansativas, a música de fundo num martelar constante do inconsciente, eram o cenário habitual de tais acontecimentos.
Meu deus, o tempo que estas coisas demoram. Ainda não percebi a utilidade disto tudo. Amanhã vamos continuar a fazer tudo da mesma maneira.
E o meu contacto que nunca mais aparece
Mais um sorriso, «que prazer, há quanto tempo não o via, temos que nos encontrar para um café tranquilo» e desistiu de esperar. A dor de cabeça era insuportável, amanhã tinha uma reunião preparatória do congresso logo de manhã bem cedo. Será que esta gente nunca dorme? intrigou-se.
Pediu o casaco na recepção, e saiu para a frescura da noite. Até o cheiro intenso de combustível lhe pareceu um bálsamo.
Acenou a um táxi que se aproximava e, quando ia entrar, ouviu uma voz, que bem conhecia, dizer: «entre, tenho estado à sua espera»
Ainda hoje não sabe explicar a razão de ter entrado no táxi e não ter estranhado de imediato vê-la ali, tantos anos depois, exatamente na mesma, com o mesmo ar com que a tinha deixado, da última vez que se viram, na improvisada sala de embarque no aeroporto para onde tinham ido na esperança de apanhar os últimos voos a sair do país. Foram tempos complicados e o mundo nunca mais voltaria a ser o mesmo, apesar das festas regulares organizadas nas diversas embaixadas pretenderem o contrário. Julgava-te morto, disse ela. Já tinha deixado de te procurar e foi numa mensagem sobre o congresso que soube que tinhas reaparecido. Pois eu tinha a certeza que não tinhas escapado quando toda a tua delegação desapareceu sem deixar rasto, disse ele. Primeiro as pequenas revoluções que grassaram um pouco por todo o lado, depois o vírus que veio para ficar e agora isto. Ela ouvia em silêncio. O táxi continuava a atravessar a cidade e ele desviou o olhar para o exterior. À medida que a cidade se desenrolava na janela ia sentindo alguma estranheza que não sabia identificar. Finalmente pararam. Ele abriu a porta para sair e ela disse-lhe: sabes que o congresso não pode acontecer. Amanhã tens de os convencer a desistir.
Saiu e ficou a olhar o táxi a afastar-se. Foi então que reparou que tinham andado às voltas. Estava exatamente no lugar de onde tinha saído. Mas estava num tempo diferente. A casa onde era agora a embaixada, estava tal e qual a tinham encontrado há vinte anos quando se mudaram para ali.
- Olhe desculpe – perguntou a um transeunte que passava - Em que ano estamos?
O outro olhou-o como se ele fosse um louco atarantado.
- Não sabe a quantas anda? Está bêbado? É claro que estamos em 1984.
Devo estar a sonhar, ou então é o Regresso ao futuro! – pensou enquanto cofiava a barba e o bigode inexistentes e entrou em casa porque a porta estava aberta. As paredes forradas com fotografias dela e pósteres de bandas rock Duran Duran, Spandau Ballet, Kajagogoo, Geoge Michael, David Bowie, Orchestral Manouvers in the Dark. Um telefone preto com uma roda de algarismos, um grande gira-discos, quatro leitores de cassetes, um leitor de vídeos. Bestial! Portugal ainda não entrou na CEE, não há telemóveis nem internet.
O que é que ela tinha dito? Para avisar os outros que não ia haver congresso? Que se lixassem! Toda a vida sonhara voltar à adolescência para escolher outro curso sem ser Direito. Ia regressar ao fim do liceu, ao momento exacto da candidatura à Universidade e escolher outra área.
E foi isso mesmo que fez quando a manhã chegou, depois de uma noite mal dormida em que não parava de pensar em toda a sequência de eventos que o tinham trazido até aquele momento. Quando chegou aos serviços do ministério, percebeu pela longa fila que era dia de candidatura. Levantou os impressos, tomou o seu lugar na fila, preencheu-os enquanto a linha de pessoas se ia escoando e esperou. Foi aí que reparou, pela primeira vez, que algo não estava certo. Toda a gente falava um pouco exaltada de uma série de acontecimentos a que chamavam o grande evento e que teria ocorrido uns dias antes. Atrás dele, um grupo cantava uma música que lhe era familiar, de uma banda que vivia num poster na parede do quarto onde tinha dormido. Tinha repetido aquela música vezes sem conta, com o seu grupo de amigos, mas tinha a certeza de que as palavras não eram exatamente aquelas. Percorria a lista das faculdades e eram todas iguais em todas as cidades do país, sem qualquer opção de curso e isso parecia não incomodar nenhum dos seus colegas que aguardavam como ele.
Quando estava a chegar à porta de entrada olhou para o outro lado da rua e viu um anúncio que ocupava a fachada toda do prédio e onde se lia “O Congresso espera por ti”.
Agora que pensava nisso, a única coisa de que se lembrava era de ter saído da embaixada e ter entrado num táxi. Estava certo de que a qualquer momento ia acordar e perceber que tudo não passara de um truque manhoso que a sua mente lhe pregara. Sorriu. Foi nessa altura que se deu o embate.
O edifício do congresso explodiu. Pessoas gritavam e corriam por todo o lado. Destroços voaram em todas as direções arrastando carros e corpos. O apitar estridente que ouvia dava-lhe dores de cabeça, tonturas. Viu uma mulher puxar um braço de debaixo de um carro, o tamanho do mesmo deixou-o enjoado. Saiu dali a correr, parou uns metros depois com dificuldade em respirar. Viu o seu rosto refletido numa montra, era de novo o velho rosto de um homem de cinquenta anos. Olhou em volta, tudo voltara ao normal. Tudo estava como devia estar. Dirigiu-se para o local da explosão, o edifício estava intacto, mas havia algo diferente, como se tivesse sido reconstruído. Reparou numa placa em mármore, leu o que dizia: Em memórias das vítimas do atentado de 1984, seguido de uma lista de nomes. O estômago apertou-se, o coração bateu desenfreado nas têmporas. Nem se lembrava de ter chegado a casa, tudo parecia igual. Lavou a cara em água fria, pensou em deitar-se e foi quando reparou. Em cima da cama um pequeno envelope perfumado, reconheceria aquele perfume mesmo que tivessem passado anos, mas só tinha passado uma noite. Lá dentro, um papel com letra requintada, Bom trabalho. Sabíamos que podíamos contar contigo. Sentou-se na cama tentando perceber o que acontecera, nada fazia sentido, mas um sentimento de culpa invadia-o lentamente, sabia que tinha feito algo terrível.

Conceição Brito
Francisco Feio
Helena Campos
Francisco Feio
Cláudio Martinho

 

 

tiago

Na última edição desta temporada, o tema foi versões do acontecimento. Contar uma história sob outra perspectiva é uma forma criativa de recriar um texto e, num texto original, tornar a história mais cativante. Nesta sessão decidimos pegar numa história de um dos nossos talentos da Naftalina, o Tiago Pina que publicou recentemente o livro Os Piolhos do 4 - a história de uma tabuada que encrava e das atribulações para resolver o problema.

Partimos de um trecho da história e imaginámos novos finais.

«[...]Era oficial: a tabuada do 3 tinha encravado.
O Vítor pegou nela e levou-a a uma oficina.
O mecânico olhou para ela e, muito solenemente, declarou:
- Nós aqui arranjamos motores, mas isso tem ar de estar sujo. Leva-a à lavandaria.
O Vítor saiu da oficina e entrou na primeira lavandaria que encontrou.
A senhora que o atendeu, depois de dar uma olhadela, disse:
- Podemos lavá-la, mas não me parece que seja sujidade.
A tabuada do 3 andou às voltas na máquina de lavar e estendeu-se em cima da tábua de engomar. Ficou lavada e bem-cheirosa, mas continuou encravada.
- O melhor é levá-la ao médico – disse a senhora da lavandaria – Uma vez, tivemos um caso parecido, mas desencravou com a lavagem.
O Vítor foi ao hospital com a tabuada. Fez a triagem, deram-lhe a pulseira verde, que é a menos grave, e esperou pela sua vez.
Quando o chamaram, o Vítor explicou o que tinha acontecido.
- Bem, vamos auscultá-lo para ver se é alguma coisa dos pulmões – disse o médico. – Com este tempo frio, a gente constipa-se e, às vezes, os números encravam.
A auscultação não deu em nada. Nem o exame dos olhos. Nem aos ouvidos. Nem ao nariz.
- Oh, rapaz, o problema não é físico – declarou o médico. – Se amanhã não passar, põe-lhe um bocadinho de óleo. Se continuar encravada, aconselho-te a levá-la [...]»

 

- Se continuar encravada, leve-a a um psicanalista, pode ser psicológico.
A tabuada deitou-se no divã e queixou-se que multiplicava por 3 desde o tempo da Grécia antiga e que estava muito cansada. O psicanalista considerou que a monotonia do trabalho por tão longo tempo levava naturalmente ao burn-out e que da parte dele não havia nenhuma doença psíquica. Sugeriu que fosse a um contabilista que esses, sim, eram especialistas em números.
O contabilista atestou os óculos no nariz e não viu nada de errado naquelas contas. De súbito, entra o filho do contabilista e ao ver aquele objecto, inútil para quem nasceu na geração dos computadores, parte-o e deita-o no lixo..

Helena Campos

 

…a um sítio que eu conheço, que fica na Travessa do Zarco, ali para os lados orientais da cidade. Quando lá chegares, pergunta pelo Manuel Geraldo, que é um velho marinheiro. Toda a gente sabe quem é.
O Vítor e a tabuada do 3 estranharam aquilo tudo, mas por portas e travessas, mais por travessas do que por portas, lá chegaram à dita que era uma rua sem saída com duas dezenas de pequenas casas, onde ninguém fechava a porta à chave.
Encontraram uma senhora e perguntaram-lhe pelo velho embarcadiço.
- É a 2.ª casa, filho! Que bela tabuada tens tu!
O Vítor e a tabuada do 3 bateram à porta e explicaram a situação ao Manuel Geraldo que ficou muito intrigado com a situação e olhem que se comentava por ali que o velho marujo falava com os peixes, com as ondas e até com a Lua.
O marinheiro sacudiu a tabuada, besuntou-a com areia, mas nada feito. Propôs ao Vítor irem dar um passeio de barco.
Mal se pôs ao caminho, os peixes souberam logo que o velho marinheiro estava de volta. Passaram a palavra na linguagem de peixe e passados 10 minutos, os robalos, as sardinhas, as pescadas, as douradas e mais peixes juntaram-se perto do barco do Manuel Geraldo que ficou muito contente por ver e rever todos aqueles animais.
Uns diziam-lhe:
- Desde que desapareceste, o mar nunca mais foi o mesmo.
- Nem uma visitinha nos fizeste, seu velho teimoso.
- Agora, trazes tabuadas? Não me digas que precisa de ser batizada.
O Manuel ria-se com estes comentários enquanto ia perguntando e dizendo:
- Então, e a família? Vai tudo bem?
- Estás mais gordo, daqui a pouco só flutuas.
Depois da euforia por se terem reencontrado, o Manuel Geraldo pegou na tabuada e atirou-a ao mar. Fosse pelo desconforto do sal, da água fria ou de uma bocarra de uma sardinha, a tabuada do 3, rapidamente se desencravou; muito aflita, veio à superfície e pediu ao Vítor e ao velho para voltar ao barco.

Tiago Pina


…Ao psicólogo, para ver o que está na sua cabeça. O Vítor levou a tabuada ao psicólogo, ficou uma hora na sala de espera, quando apareceu o psicólogo com a tabuada na mão e disse que o problema não era de natureza psicólogica, ele mesmo não sabia dar nenhuma explicação àquele fenómeno.
O Vítor ficou confuso ao ouvir as palavras do especialista… o que fazer agora? Foi a mesma tabuada que, cansada de ir de um lado ao outro e de ouvir sempre as mesmas coisas e a mesma palavra “encravada”, bufou de raiva, despeitada, e pediu ao Vítor para levá- la para a escola, onde trabalhava uma professora que tinha a solução ao seu problema: ensinar a tabuada do 3, do 4,… de maneira diferente, livre de esquemas.
Finalmente, alguém acertou! É verdade que ficar prisioneiros de determinados esquemas sempre fixos não nos leva a nada!

Giuseppa Giangrande


Passar óleo? pensou o Vítor. Não sei se vou ser capaz, os algarismos podem começar a desaparecer e depois como é que a tabuada do 3 vai comunicar com as outras tabuadas?
Decidiu levá-la a um spa porque sabia que passavam óleos perfumados nas pessoas para as relaxar, podia ser que assim a tabuada do 3 se descontraísse e desencravasse.
Não, meu rapaz- disseram-lhe -, aqui não massajamos tabuadas abaixo de 6, terás que procurar noutro lugar. Se calhar um mergulho no mar ajudava….
Vítor decidiu que seria ele a desencravar a tabuada. Começou, de mansinho a murmurar 3x1, até sentir um leve arfar da primeira linha. Encorajado, cantarolou, 3x2, e a tabuada, vibrou ligeiramente. Estava a ir bem até aqui! O 3x3 e o 3x4 foram embalados com rapp, mas a tabuada do 3 não gostou, ficou hirta. Bom, vou cantar com a música do Jardim da Celeste. Sucesso! Até o 3x5 e o 3x6 se juntaram à roda, ligeiros e ágeis, como sempre tinham sido.
O Vítor, entusiasmado, continuou a aliciar o 3 com As Pombinhas da Catrina, a Abelha Maia e a Ah, ah, ah, Minha Machadinha, até todas as linhas se desencravarem. Que alegria! A tabuada do 2 e a do 4, vieram felicitar a sua vizinha do 3 pela completa recuperação e tomaram a firme decisão de nunca encravarem enquanto não fosse descoberto outro remédio, menos barulhento, para essa situação

Conceição Brito