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LABORATÓRIO DE TEXTOS

Esta é uma fresta por onde se pode espreitar o nosso laboratório.

Gostamos de experimentar textos, inventar espaços e condições especiais e neles deixarmo-nos espantar pelo que acontece.

Aqui, recolhemos algumas das linhas que vão sendo criadas em diferentes oficinas. Algumas delas, dirigidas a antigos alunos, como a Naftalina, são iniciativas regulares; outras, abertas a quem por cá passa, são encontros e iniciativas extra-aulas. Placas de Petri.

Os textos, produzidos no tempo e condições das sessões, têm como único — e suficiente — critério de publicação a vontade do seu autor de vê-los aqui reproduzidos. Experimente ler, mas proteja-se: o prazer da experiência pode ser contagiante.

Ana Hatherly O Escritor 1975

«Escrevo porque algo aconteceu ou acontece.
Escrever é isso, mas escrever é sobretudo produzir o acontecer.», Ana Hatherly
 
Inspirados na Ana Hatherly, propusemos dois desafios nesta sessão final.
O primeiro, partindo do início e fim de uma das histórias da autora.
O segundo, utilizando a frase Sem saber tinha chegado o fim.
 
(na imagem: O Escritor, Ana Hatherly, 1975)
 
 
 
 
 
Era uma vez uma pessoa que procurava a sabedoria
sabia que era tesouro bem escondido e por isso preparou-se lendo enciclopédias e consultando mapas ante de iniciar a aventura de a procurar. Depois de ter acumulado todo o conhecimento subiu montes, desceu vales, navegou por mares e rios, viajou no espaço, mas nunca a encontrou...
Então cansado parou, sentou-se, refletiu, pensou e ouviu uma voz bem lá dentro do seu coração, era aí, achara-a!
Sem saber, tinha chegado.

Sandra Martins
 

Era uma vez uma pessoa que procurava a sabedoria, porque não sabia o que era, queria conhecer mais coisas. Então começou uma viagem que a levou para países longínquos, a falar com outras pessoas chamadas sábias. Mas nada, a verdade era que não conseguia compreender o que era a sabedoria, às vezes eram conceitos demais abstratos.
Afinal, decidiu voltar para o seu país, insatisfeita e se calhar um pouco triste.
Começou depois de um tempo transcurso de certa maneira na apatia outro percurso, esta vez dentro de si mesma e foi então que se deu conta de uma coisa, com as palavras de uma simples canção: sem saber, tinha chegado.

Giuseppa Giangrande
 
 
Era uma vez uma pessoa que procurava a sabedoria. Já dizia Salomão na Sagrada Escritura que a imortalidade se encontra na aliança com a sabedoria.
E a pessoa queria ser imortal, voar sobre os telhados de todos os tempos históricos.
Engolir o mundo, cavalgar no tempo, ter o olho de Deus.
Estudou Física, construiu um telescópio, um microscópio e por fim uma máquina do tempo. Viajou para o indefinido e voltou para casa. Sorver o instante como uma eternidade era a sabedoria. Sem saber, tinha chegado.
 
Helena Campos
 
 
CAMINHADA

Era uma vez uma pessoa que procurava a sabedoria.
Deixara para trás o seu lar e enfrentara o desconhecido. Agora seguia trilhos nunca percorridos, por entre florestas, rios, montanhas e vales, enquanto decifrava o puzzle da vida.
Só a obra universal da Natureza lhe revelava segredos. As grandes civilizações concebidas pelo Homem, com todas as suas bibliotecas de conhecimento parcial, templos de desiluminacao e
invenções materiais, não haviam conseguido descobrir a costa que separava o corpo criado do espírito criador.
Apercebeu-se, no fim desértico de tudo, da resposta: para ser mais deve-se abandonar os princípios fundadores da Humanidade: a logica, a moralidade, pois foram moldados por mãos de crianças. Ao aceitar isto, o aprendiz deixou o cajado de apoio ser engolida pela terra e as suas vestes protetoras serem desfeitas pelo vento, abandonando assim parte do seu ser para se tornar em algo novo. O mestre então viu a luz cega da superfície da realidade a apagar-se, revelando a oculta escuridão de possibilidades infinitas para la do horizonte.
Sem saber, tinha chegado.

José M. Covas
 
 
 
Tinha trabalhado todo o dia, chegar bastante cansada a casa, caíra na cama e adormecera de imediato.
Acordei sobressaltada com o prédio a achocalhar tanto que parecia que ia desabar a qualquer instante.
Vivia num terceiro andar, dirigi-me à janela para saltar, apesar de ser uma alternativa pouco aprazível, parecia-me a única possível.
Cheguei à janela a cambalear, ouvi os vidros do prédio a partirem, vi vasos a caírem dos andares mais acima.
Subi para o parapeito da janela para saltar a qualquer instante.
Sem saber tinha chegado o fim.

 Sandra Martins
 

Sem saber tinha chegado o fim... O fim dos seus medos e assim tinha começado o tempo dos seus sonhos, que sim temia também porque não sabia onde podiam alcançar, até onde a podiam levar. Agora sabia uma coisa, tinha a certeza: chegara o tempo em que tinha aprendido a sonhar e o seu convencimento era que uma vez terminados os anos de aprendizagem, agora não queria parar de sonhar. A partir deste momento foram suas as palavras de Pessoa: “Eu sei que não sou nada e que talvez nunca tenha tudo. À parte isso, eu tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

Giuseppa Giangrande


MANIPULAÇÃO

Ela fora vítima de um crime sem castigo que não consta do Código Penal. Sabendo que neste mundo todos criminalizam a vítima, decidiu procurar um especialista em Ética, único no país, para poder desabafar. A conversa durou 3 anos, uma vez por mês, as 6ªs feiras à tarde.
Ele instigava-a a mudar de vida, mudar radicalmente de profissão, esquecer o passado porque aquilo não tinha conserto. Aquilo que ela chamava de falta de ética eram os preconceitos de uma elite contra ela.
Ela não gostava dele, sentia que estava a desabafar com o inimigo, a queixar-se do diabo ao próprio diabo. Pressentia pelas palavras, pelo tom, pela pose, que ele pertencia à mesma elite que boicotara a sua vida.
Mas água mole em pedra dura…as fantasias com que ele a iludia iam ocupando lugar na sua memoria, mobilizando-lhe as decisões e os passos. Era agora ele que comandava a cabeça dela e ela já apenas um autómato.
Só quando ficou irreversivelmente desempregada, consciencializou que tinha sido manipulada. O lobo, como todos os lobos da alta escol, queriam-na na sargeta. Era uma órfã para ser devorada e ele conduzira-a, cega, para o abismo.
No último email trocado, ela argumentava que o especialista em ética não tinha ética nenhuma, para não falar da moral.
Ele respondeu, acanalhado, que ela interpretara mal a sua metodologia, que na próxima sessão lhe explicaria tudo.
Não houve próxima. Ela nunca mais apareceu.
Ele não sabe se ela se suicidou para escapar à sargeta ou se ainda conseguiu agarrar o último emprego possível para uma velha tonta.
Nunca mais soube dela. Sem saber, tinha chegado ao fim.

Helena Campos



AVENTURA SURREALISTA

Sem saber, tinha chegado. Muito difícil, esta jornada. Talvez, por ser ingles, tenha uma certa propensão em achar qualquer empreendimento fácil de se fazer, inclusive transpor uma
viagem fictícia num documentário.
Por não ser um homem muito viajado nunca tive a nocao da falta de desenvolvimento a nível tecnológico fora da Europa. So me apercebi do facto quando a duração de um percurso de três
dias, por terra ou mar, se tornou em uma semana de estadia num comboio ou barco praticamente vazio na costa e mar do Pacifico, apesar de ser convidativo a contemplacao. Ao
mesmo tempo, valorizei a ingenuidade humana, utilizando-se métodos ancestrais de navegação para evitar tufões no mar do Sul da China e uma mistura de sorte para evitar a
explosão de um contentor mal embalado no Golfo Persico.
No entanto, estas experiências levaram-me a pensar se estamos demasiado dependentes das supostamente avancadas tecnologia e sociedade atuais, pois facilmente se vive com o
essencial, em comunidades isoladas do resto do mundo na floresta amazonica. Se houver um cataclismo global, como a falta de internet ou aviões, sera muito difícil para os demais
reconectarem com as suas raízes culturais, as quais presam a colaboração com a Natureza para a sobrevivência. Assim, o individuo sente-se parte de um todo universal e, por isso, mais
realizado, mesmo em casas e mercados flutuantes no Vietname, ou ate como barbeiro cego na India, guiado pelo tato para não separar precocemente o espirito do corpo. Verdadeiramente,
estes ricos ambientes de partilha e amizade durante adversidades melhoraram-me enquanto pessoa, fazendo-me sentir mais em casa do que a terra fria de onde parti há meses atras e
para a qual agora retornei.
Rio-me por o inicio e fim da minha busca terminar onde o tudo ilusório do conforto material e nada, querendo voltar para onde o nada aparente e tudo, inclusive uma frágil jangada com
ampla oferta de doença e termino a merce dos quatro elementos.

José M. Covas
 

zzzzzz oulipoOs escritores e práticas da Oulipo são desde o início um dos temas preferidos da Naftalina. Estes «ratos de laboratório que constroem o seu próprio labirinto» mostram-nos como a escrita pode ser sempre reinventada. Enquanto leitores, os textos trazem-nos a alegria da decifração, enquanto escritores, o desafio de criar a cifra, de juntar forma e tema num novo texto.

 
Desafio I
A partir dos «Exercícios de Estilo» de Raymond Queneau, escrevemos novas versões do mesmo acontecimento.
 
SINÓNIMOS
Na camioneta 20 em pleno engarrafamento, está um individuo na casa dos vinte e muitos anos com um capelo na cabeça, com fio em vez de fita. A pessoas chegam e vão.
Argumenta contra um homem por ter sentido empurrão.
Ao observar um assento desocupado dirige-se rapidamente para ele.
Duas horas passadas ele está de novo na avenida a falar com um comparsa que lhe diz: "Devias por mais um botão na gola da casaca".

Sandra Martins
 
 
ÀPARTES
No outro dia de manhã, vinha eu no autocarro 20, atolado de gente como sempre, sem espaço nem para coçar a cabeça. Já se sabe: a cidade está cheia de carros, o trânsito adensa-se, os autocarros atrasam-se, as pessoas evitam os transportes públicos por causa dos atrasos, mais carros circulam, mais os autocarros se atrasam. Enfim, é isto que temos.
Como ia a dizer, ia eu no autocarro, e reparo lá ao fundo num jovem altíssimo, não devia ter mais de 30 anos. Trazia um chapéu mole. Aquilo intrigou-me. É uma raridade nos dias de hoje ver alguém como uma peça daquelas.
Bem, continuavam a entrar pessoas entrar, a entrar…já se sabe: os motoristas deixam aquilo encher até mais não. E começo a ouvir o rapaz a discutir alto com outro homem. Dizia que o tinha empurrado, vejam lá. Hoje em dia, as pessoas arranjam confusão em qualquer coisa. Se o autocarro está à pinha, as pessoas nem espaço para respirar têm, não hão-de tocar umas nas outras? Olha que coisa. Parece que com a pandemia ficou tudo ainda mais doido. Mas bem, o rapaz, mal apanhou um lugarzito vazio correu para o apanhar ferozmente. Nem teve o cuidado de ver se alguém mais necessitado precisava de se sentar. Hoje em dia as pessoas só pensam nelas próprias, é uma coisa que a mim me faz muita confusão…
Bem, a verdade é que nunca mais pensei naquele episódio. Vim para o trabalho, e com tanta coisa que uma pessoa tem para fazer aqui, até é difícil lembrar-me de comer quanto mais pensar nos episódios que me acontecem no autocarro. Acreditas que na quarta-feira estive cinco horas sem me levantar? Não admira ter as costas como tenho.
Ah, voltando ao tema. Não é que naquele dia de manhã, me voltei a cruzar com o rapaz? Cerca de duas horas depois, vi-o na avenida a falar com um amigo que lhe diz, “Devias pôr mais um botão na gola do sobretudo”. Não percebo esta mania que as pessoas têm de intrometerem nos vestuários um dos outros. Cada um deve vestir-se como quer e como se sente bem. Se o jovem está bem sem aquele botão, porque é que o outro tem de meter a colher?

Teresa Sousa
 
 
EVENTO
Autocarro 20 - hora de ponta
O que é que se passa?
Há um homem alto e jovem
Entrar e sair de pessoas
Discutir, queixar-se
Outro homem, um alegado empurrão
Corrida, como uma competição, para um lugar vazio
Passam duas horas, outro evento na rua
É protagonizado pelo homem do autocarro 20
Conversa com um amigo
que o avisa:
Falta um botão no casaco...

Giuseppa Giangrande
 

Desafio II
Escolhendo livremente uma dos constrangimentos oulipianos, os participantes escreveram ou reescreveram um texto. O texto proposto para reescrita foi tirado da Constituição da República Portuguesa.
 
 
SINÓNIMOS
Portugal é uma Republica rainha baseada na dignidade da pessoa individuo e na vontade do individuo e na vontade do povo e empenhada na construção de uma sociedade mais desprendida, honesta e altruística.
A Republica Portuguesa é um Estado antiautoritário, baseado na soberania das gentes, multiplicidade de expressão e organização politica igualitária, no respeito e na garantia de efetivação dos direitos e liberdades elementares e na segmentação e reciprocidade de poderes, visando a realização da democracia produtiva, comunitária e educativa e o aprofundamento da democracia interativa.

Sandra Martins
 
 
V+7 (cada verbo substiuído pelo sétimo que lhe sucede no dicionário)
Portugal serena uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.
A República Portuguesa serena um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo..., viscondizando a realização...

Giuseppa Giangrande
 
 
 

 Folhetim

FOLHETIM é um projecto de histórias a várias mãos vão sendo escritas ao longo das sessões. Cada história tem 5 episódios. 

 

À ESPERA

à espera
sentada à espera da primavera
veio outra coisa
chegou a fome, chegou a guerra

melhores coisas aconteceram a uma quinta-feira
eu nasci a uma quinta-feira, não digo que fui incrível, mas nunca fui uma guerra.

nesta quinta-feira,
um espaço contestado entre este e oeste
ergueu-se à porta de casa, no jardim

um pedaço de terra que
ameaçava rasgar-se em dois
puxado por forças téctonicas
que seguiam caminhos separados
ao final de tantos anos juntas

dizem que este ano a colheita de trigo não será a mesma
os campos que sobreviverem até ao verão, não serão colhidos

os que morrerem, morrem queimados, tóxicos

a terra estéril, e o mundo com fome, com medo, com sede de vingança
quando não tivermos trigo para comer, alimentar-nos-emos de raiva.

mas a primavera ainda não chegou, e tudo ainda pode mudar.

é sentar e esperar.

«Estranho, este pequeno texto», pensou. Surgido numa folha manuscrita, como que enfiada à pressa num livro de química da biblioteca, intrigava-o profundamente.
Fome e guerra eram coisas que desconhecia, embora tivesse lido sobre o tema e o mundo vivesse em paz há várias décadas.
Já a primavera era-lhe familiar. Uma estação do ano que durava seis meses e alternava com o outono.
Quanto ao trigo, há muito que muito que deixara de ser produzido, desde que a dieta humana passara exclusivamente a ser baixa em calorias e rica em gorduras.
«Será algo anterior ao Degelo, uma peça com valor arqueológico», concluiu.
Pegou nas duas folhas de papel, amarrotou-as distraída. Uma acertou em cheio no caixote do lixo, a outra escondeu-se debaixo da estante. Não sabia nada de guerra, muito pouco de paz, e menos ainda de dietas e do futuro.
Bebeu o resto do chá frio. Se estivesse no futuro a olhar para agora, o que poderia ver? Se estivesse agora a escrever para o futuro, o que poderia contar?
Levantou-se. Resgatou primeiro a folha do caixote. Ajoelhada diante da estante, estendeu o braço. A primeira coisa que a mão tocou estava fria e pegajosa. Engoliu o mal-estar, moveu a mão. Encontrou a segunda folha, perfeitamente amarrotada. Trazia um troço de cotão agarrado.
Tinha acabado de se sentar quando a porta se abriu.
- Depressa! Anda, temos de ir já! 
Trouxe comigo a carta de amor. Talvez fosse importante para alguém. Esse pensamento acentuou-se quando vi de relance o corpo do bibliotecário cravado de balas. A boca por onde escorria um rio de dor e os óculos embaciados pareciam suplicar pelo meu auxílio. Tinha de encontrar a tal Juliana no meio do fumo, por entre os incêndios e edifícios abandonados.
Após longas horas de luta vi-a no fim da vila, escondida por detrás de uma árvore. Corri enquanto gritava o seu nome, ela veio ao meu encontro, mas ao entregar a mensagem, caí no chão, tendo uma bala me trespassado o pulmão. Juliana brevemente olhou para mim com desdém e, quando um dos oficiais inimigos apareceu, beijou-o vigorosamente antes de juntos desaparecerem pela estrada fora num descapotável. Assim fiquei ali estendido, pensando se a minha história, devido aquele tonto sacrifício, teria um próximo capítulo ou não. 
Tinham sido aquelas imagens terríveis que afetaram o meu sonho. O som metálico do despertador fez - me sobressaltar, corri para a casa de banho para lavar o suor do meu rosto.
Logo corri para a secretária, onde tinha deixado a folha de papel com o poema escrito: tinha medo de não encontrar o texto, fiquei aliviado já que estava lá, mas ao mesmo tempo decidi tirá-lo ao lixo, aquele poema - era isso o que sentia - era a causa do meu pesadelo.
Claro, não queria esquecer a realidade desta altura, mas comecei a escrever um novo poema, que tinha que ser uma mensagem de esperança, sem imagens de morte.
 
Cláudia Madruga
Fernanda O'Brien
Patrícia Louro
José Maria Covas
Giuseppa Giangrande

 

 

SINAIS DE FUMO

Nas colunas do supermercado tocava a rádio local intercalada pelo Pi, pi, pi. A conta subia. Micael, funcionário do supermercado, ia passando os produtos, sobretudo conservas e mercearias, trocava com os clientes umas palavras de circunstância e aqui e ali uns pequenos sorrisos, apesar de tudo. Ninguém levava a ameaça a brincar mas também não se deixavam abater por ela, afinal ainda não passava disso, uma ameaça. As prateleiras começavam a ter um ar despido mas ainda havia suficiente para ninguém sair de mãos a abanar.
Lá fora a luz diminui, aproxima-se a hora de fecho e Micael já pensa no jantar. O som do rádio é abafado pela sirene do quartel dos bombeiros.
O armazém explodira sem que Micael, trôpego pelo cansaço, disso se tivesse apercebido.
- Estás parvo ou quê? É evacuar! – gritou-lhe o supervisor
- Ã?!
E ele evacuou, a olhar aterrado para a fumaceira, mas anestesiado pela fadiga.
Um ucraniano fugia aos berros do interior do armazém em brasa.
- Chamem polícia!
Dois tipos enrolados na bandeira russa precipitaram-se para dentro de uma carrinha que ostentava no vidro uma frase em alemão – «Moskau über alles».
A carrinha arrancara a cem à hora e rapidamente desaparecera no fundo da rua.
No supermercado o rádio continuava a debitar informação, mas de forma confusa, ataque a uma base militar... coluna de fogo...
Algo se passa no terreno.
Lá fora as pessoas regressavam a casa no fim de um dia de trabalho e tentavam transmitir normalidade dentro do possível, a maioria seguiam os seus trajetos embrenhados nos seus pensamentos.
Do outro lado da rua uma idosa à janela na companhia do seu gato pareciam congelados no tempo.
Um casal de namorados que descia a rua também seguia na sua própria bolha.
Um homem de meia idade saia da casa para ir passear o cão.
Micael pensava, estaria realmente a passar-se algo?
Ou tudo deveria ser considerado fumo branco num difícil processo de negociação que se arrastava há anos?
Ou seria sinal de algo mais grave?
Micael não entendia o que estava a acontecer ao seu redor... Sirene, evacuação... o que é que era tudo isso, se depois a vida parecia ser a de sempre? Não tinha sentido, se as pessoas continuavam com o dia a dia e despreocupadas.
E aquela comunicação no rádio que falava de um ataque e de colunas de fogo... era tudo muito estranho.
Ou possivelmente o que ele ouvira tinha sido o fruto da sua imaginação.
Decidiu então fazer um pouco de clareza e começou a perguntar à senhora que estava à janela, mas ela olhou para o Micael tranquila e respondeu-lhe que não tinha passado nada e que ela estava à janela a esperar o cortejo das danças populares.
O Micael agradeceu e voltou para a sua casa, na esperança de esclarecer o que tinha vivido naquelas horas convulsas.
Ligou o rádio e o moderador anunciou uma canção alemã, um êxito de há muitos anos: 99 Luftballons...
Micael decidiu entregar-se à música. Deixou que a melodia lhe entrasse suavemente pelos ouvidos e, a cada palavra, transformasse as preocupações do dia em notas de bateria, piano eléctrico, e guitarra. A sua cabeça era agora o centro de um concerto, onde personagens-miniatura se contorciam para lhe proporcionar o melhor espectáculo possível.
Sem que desse por isso, os seus lábios desenhavam o primeiro sorriso do dia.
A música galopava determinada para o último refrão quando um estrondo dantesco interrompeu o concerto improvisado. Micael sentiu o seu corpo ser atirado violentamente contra a parede - sem que o choque mostrasse qualquer respeito pela composição natural do corpo humano. Pernas a subir desvairadas para o lugar dos braços, braços a emaranharem-se no pescoço com a flexibilidade de um ginasta olímpica.
Demorou algum tempo a recuperar a autonomia do corpo, que lhe fora tirada quando o choque terrífico o arrancou da poltrona e o reposicionou na parte oposta da sala.
Notou que tinha um pó denso, misturado com sangue, a cobrir-lhe o rosto. Mas a música continuava a tocar como se nada tivesse acontecido.
 
João Cotrim
Helena Campos
Sandra Martins
Giuseppa Giangrande
Teresa Sousa 

 

O HOMEM QUER QUERIA ABRAÇAR O SOL

Era uma vez um homem que queria abraçar o Sol. O problema não era que o Sol fosse um rei ou um deus. É que rei também é o Roberto Carlos e não recebe menos abraços por isso. A grandeza do problema era verdadeiramente astronómica: é que o Sol tem uma órbita! O circuito da mecânica celeste faz com que o Sol ande de um lado para o outro. Se o poente devém sempre nascente, é porque o Sol ao dormir, que é o que se faz à noitinha, levanta-se sempre no mesmo sítio onde se deitou. Ou então, o Sol mexe-se muito à noite e acaba por rebolar celestialmente até ao nascente.
Foi então que lhe surgiu a ideia de atrapar o Sol o tempo suficiente com uma corda para o poder agarrar. Mas como? Qualquer tipo de material seria facilmente incinerado…com a exceção de um.
O Sol era uma estrela, portanto podia ser encurralado pelas suas compatriotas! Coincidentemente lembrara-se do seu amigo, o qual inventara uma tecnologia de encolhimento. Pois é, podia usá-la para fazer uma corrente de estrelas. Não era mal pensado, até porque ao contrário do Sol, as estrelas estão fixas na abóboda celeste. Facilmente vai-se ao local com uma nave espacial e selecionam-se as melhores.
Mas se o seu plano desse resultado e parasse a bola solar fugitiva, conseguiria finalmente abraçá-la sem ela o punir? Claro que sim, por isso é que levaria um fato à prova das radiações solares, para não ser estorricado como os frangos deliciosos do seu primo.
Então começou a trabalhar para poder atingir o seu objetivo. E o que fez? Chamou a girafa que comia estrelas, protagonista da história escrita por José Eduardo Agualusa, e durante a noite ela apanhou no seu pescoço milhares de estrelas.
O plano era deixar sair as estrelas imediatamente, dispondo-as em forma de caminho para que o homem pudesse chegar ao Sol.
Levou o fato à prova das radiações solares e iniciou o seu percurso, tocando levemente com os pés as estrelas, que eram como um tapete brilhante. Chegou finalmente ao Sol, que estava a dormir, e pouco a pouco aproximou-se dele...
Isso é tudo uma grande estupidez! – irrompeu o Joãozinho contra o professor da 4ª classe – A mecânica celeste não funciona assim. Porque contam parvoíces às crianças? Odeio historietas! – E saiu desembestado pela porta fora ante o espanto de todos na sala de aula.
O João Quintela era um miúdo superdotado e seria no futuro um rapaz problemático e eventualmente um adulto inútil, um peso para a família e para a Segurança Social.
Deu dois pontapés raivosos numa bola que corria perdida no recreio enquanto se dirigia para a biblioteca, com uma única missão: derrubar a estante dos livros de histórias infantis para pôr termo ao ludibriar das crianças com fantasias absurdas.
O sol permanecia imperturbável como estrela dominadora, o João Quintela fechado no planeta continuava a girar à sua volta, mas desvalorizando esse facto.
O homem estava ainda mais determinado em abraça-lo, e nem a atitude do miúdo o atrapalhara, assustara ou demovera, agora que tinha conseguido chegar tão próximo.
Abeirou-se ainda mais, primeiro e tocou-lhe a medo com a ponta de um dedo, de imediato sentiu um corrente de energia percorrer todo o seu corpo, meio assustado, recuou. Mas atração que sentia por aquele astro voltou a faze-lo aproximar-se novamente e desta vez tocou-lhe com uma mão aberta e a corrente de energia já não o assustara como da primeira vez.
E finalmente abraçou o sol! Num gesto longo e demorado, sentiu-se carregado de emoções e sensações, sentiu-se transportado para outra dimensão.
Subitamente, sentiu-se projetado para longe deslocando-se à velocidade da luz por entre planetas, satélites e cometas, navegava ao sabor dos ventos intergalácticos, dele emanava uma luz, agora cintilava como as outras estrelas, tornara-se num pequeno sol em viagem pelo espaço.

Benjamim
José Maria Covas
Giuseppa Giangrande
Helena Campos

 

ESCOLHA

Não sabia o que fazer. Via-o no espelho ao acordar, nas poças da rua que percorria para o trabalho, até no vidro dos óculos quando os limpava. Sempre calado, a olhar para mim fixamente. Sentia-me cada vez mais fraco e notei ontem que o rosto parecia mais jovem no vidro da janela. Toquei na superfície refletiva e inexplicavelmente comecei a ficar melhor. Foi então que o ser falou. Manuel, está na hora de trocar. Oh não, fez-me algo. Se quiser viver, tenho de agora tomar o seu lugar no outro lado, mas valerá a pena? Afinal, vou ficar trancado, tendo apenas os meus próprios pensamentos como companhia.
E, para dizer a verdade, era boa a companhia dos meus pensamentos. E, ao final, percebi que aquele ser, que quase se tinha tornado uma perseguiçãoção, era eu mesmo.
O outro lado era o meu lado que tinha ficado escondido, incapaz de ler, até àquele momento, dentro de mim.
Tinha -me afastado de tudo o que era importante na minha vida, era um ser muito solitário.
Agora era a altura certa...se eu quiser viver, tinha que dar uma reviravolta à minha vida.
Começou a chover... aquela chuva que limpava os vidros da janela, limpava a minha existência. O ressoar de uma canção: “... E eis que ela bate no vidro,Trazendo a saudade...”
https://m.youtube.com/watch?v=tC88Oyz8Khs
Manuel começou a sentir os pés encharcados e isto fez com que voltasse a si.
Fechou a porta da varanda e entrou em casa. Olhou à sua volta, estava desarrumada, cheia de passado.
No cadeirão viu a sua figura, esperava-o. Era hora de fazer alguma coisa. Primeiro, decidiu chamar-lhe José.
Ele e José seriam uma equipa e juntos iriam dar a volta à vida de Manuel.
Com o sol já a espreitar lá fora, pegaram na mala amarela que estava a ganhar pó à porta de casa, desde aquele dia, e saíram os dois.
Já na rua, Manuel tropeçou numa montra e quando viu a manequim olhar-lhe de volta, José começou a chorar.
- Aquele tipo deve estar bêbado ou doente – comentou o funcionário da loja – a
tropeçar assim nas montras! Ó amigo, quer ajuda?
- Não, não obrigado – respondeu Manuel, enquanto a manequim lhe fazia caretas
diabólicas e José gesticulava para ele se ir embora.
Manuel regressou a casa e pegou no frasco dos comprimidos. Tinha de tomar um para
parar com aquelas alucinações. Lá estava José de novo sentado à sua frente. Manuel
não queria que na rua alguém percebesse que ele padecia daquela doença.
Mas antes disso, queria ter uma conversa final com aquele José, aquela versão mais
nova dele próprio, e orientá-lo para outra escolha num universo paralelo.
Quem sabe se a escolha tivesse sido diferente na sua juventude, ele não estivesse ali,
na meia-idade, fracassado, alucinado e encharcado em comprimidos.
No caminho, Manel desconhece as ruas. Segue, a passo cada vez mais apressado como se estivesse a ser perseguido, mas continua perdido.
O coração parecia querer sair pela boca e fazer-se ouvir, tal era o eco que sentia no peito. Parou, respirou fundo, olhou em redor e avistou uma cabine, daquelas dos anos 90, aberta, sem caixa. Desencantou umas moedas do bolso das calças, colocou na ranhura do telefone e ligou para sua casa.
- Estou? Clarisse? Clarisse, que bom ouvir-te, chegaste bem de Coimbra? Olha, estou perdido. Não sei onde estou, mas sei que não quero voltar para trás.
- Que dizes? Onde estás? Estás estranho. Vou-te buscar, mas tens de me dar referências.
- Estou frente a um prédio amarelo que tem em baixo um café chamado “Volto já”. Está fechadérrimo, isso sim.
- Acho que já sei onde é. Fica aí, abriga-te e espera.
Poucos minutos se passaram até que a irmã chegasse e o levasse para casa. De toalha nos ombros, já com os cabelos enxugados e roupa seca, dirige-se para a sala e vê José sentado. Pára, dá um gemido contido e Clarisse, percebendo a estranheza, exclama:
- Manel, apresento-te o Zé, nosso irmão. Tens um irmão gémeo. Foi criado com uma outra família por um erro no hospital. Contactou-me há um par de meses e disse-lhe que nos devia vir conhecer. Chegou antes de mim e não tive oportunidade de te comentar porque queria também que fosse uma surpresa para o teu, vosso, dia de anos. Parabéns aos dois! Brindemos e sentemo-nos a celebrar os caminhos cruzados.

José Maria Covas
Giuseppa Giangrande
Rita Gomes
Helena Campos
Catarina Ariztía

 

A escrita sensorial é um dos pilares da escrita. Os textos tocam-se, saboreiam-se, cheiram-se... Não é a primeira vez que abordamos este tema na Naftalina e desta vez procurámos outropontozzzz sentidos de vista: o dejá vu. O fenómeno neurológico que faz com que a experiência vivida seja armazenada na memória de médio ou longo prazo, é vivido com um misto de estranheza e familiaridade, como algo que os nossos sentidos já registaram noutro tempo, noutra vida.
O excerto do poema Sudden Light de Dante Gabriel Rossetti inspirou-nos:
I have been here before,
But when or how I cannot tell:
I know the grass beyond the door,
The sweet keen smell,
The sighing sound, the lights around the shore
 
 
 

Acordei como sempre às seis da manhã, em ponto, ao som da música acolhedora do Ed Sheeran.
Quando me viro e olho para ele, ele já está sempre acordado com um sorriso largo no rosto e beija-me com um hálito a menta fresca, que me acorda definitivamente.
Ele levanta-se de imediato para preparar o pequeno almoço, eu fico mais algum tempo a sentir o quente da cama que me aconchega e em faz sentir segura, aos poucos começo a sentir o aroma a café e do pão quente vindo da cozinha e que por breves instantes me faz viajar até a casa da minha avó nas férias do Natal.
Levanto-me, tomo um duche rápido a água fresca a escorrer sobre a minha pele enche-me de energia e afasta a letargia de há pouco.
Visto-me e desço as escada, ele já tem a mesa de pequeno almoço pronta na varanda que está virada para o jardim, o chilrear dos pássaros produz uma melodia deliciosa que adoça o meu iogurte light de morango, sinto-me no paraíso.
- Está na hora! - Diz ele
Abraçamo-nos e despedimo-nos com um beijo apaixonado, húmido que me reconforta e aquece para todo o dia.
É sempre assim todas as manhãs, uma vez por mês desde á 5 anos, quando tenho de uma reuniões com o Conselho de Administração
Não sei como seria sem ele!

Sandra Martins


Vida?

Regresso à praia da minha infância. Mudou tanto. As casas piscatórias a poucos metros de distância eram agora mansões góticas, tendo o verde do chão sido aprisionado por baixo do betão. O cheiro salgado, gerado pelo batimento das ondas no cais, havia sido substituído pelo cheiro a queimado, que voava das fábricas distantes. Até o mar, anteriormente convidativo, parecia mais agreste. A água parecia quase congelar os incautos e a areia, projetada para cima dos fugitivos pelas rajadas do vento, tornara-se áspera.
Aquela memória do que fora outrora permanecia comigo. Impulsionara as minhas viagens em navios de carga para o Novo Mundo quando a vila fora anexada à cidade. Família e amigos fora separada pelas correntes da vida laboral, tendo já alguns partido para lá do horizonte, mas mesmo assim procurava o local onde poderia voltar a reencontrar essas sensações, essa conexão com o berço da vida.
Não fui bem-sucedido. África, Ásia, Américas e Europa não conseguiram recriar os momentos passageiros da minha antiga vida. Outrora poderiam, mas agora também estavam num processo de decomposição. Ah, a Humanidade, tão feia que é ao disfarçar as suas tendências parasíticas com palavras belas. Progresso…mais aparenta ser um Retrocesso ponderado e virulento a caminho da extinção.
Já não estarei cá para o ver. Sento-me, inspiro fundo, e depois levanto-me. Ao usar o instrumento da minha libertação, nem noto a transição. Deixo a minha carcaça imperfeita, saio disparado, atravesso as nuvens tóxicas deste mundo abandonado e vou em direção ao solarengo portão no alto, de volta a casa.

José Maria Covas

 


Os sentidos em alerta

Tinha o telemóvel na mão quando subi as escadas. Até o corrimão era áspero. No último andar um círculo de portas negras numeradas e o murmúrio de vozes de um homem e de uma mulher.
Sentei-me à espera enquanto mastigava um naco de pão com um travo de bolor. Algo ali cheirava a morte.
Da porta 4 saiu um vulto feminino que se escapuliu pela escadaria abaixo. A porta fechou-se e voltou a abrir-se pouco depois.
Era um sujeito entroncado, de farto cabelo negro e todo vestido de escuro que vinha receber-me. Uma figura sinistra.
Tinha o telemóvel na mão e pensei em dizer-lhe que tinha de me ir embora imediatamente porque surgira uma emergência. Mais valia tê-lo feito.
Antes ainda de ouvir-lhe a voz metálica, vi-lhe a expressão do olhar. Já vira aquele olhar há 30 anos, no tipo que me destruíra a vida, a cintilação da malvadez, uma luz satânica quente como o fogo, ávida de destruir vidas, como um lobo que espera pacientemente a sua presa e se delicia com a sua súbita aparição.
- Você tem uma intuição poderosa, use-a! – dissera-me alguém há muitos anos.
Os sinais de alerta vermelho dispararam todos no meu cérebro – É igual ao outro de há 30 anos, vais-te queimar!
Tinha o telemóvel na mão. Podia ter dito que havia uma emergência e fugir…

Helena Campos

 
O dia era azul, quando cheguei ali.
Tudo me dava uma sensação de bem-estar, sobretudo porque, apesar de não ter estado naquela cidade antes, sentia que eu lhe pertencia de alguma maneira.
O sol acariciava levemente o meu rosto, o azul do céu e as cores das flores eram um espectáculo para os meus olhos.
Logo, quando me sentei à borda de uma piscina rodeada por árvores e pus os pés na água, foi como voltar a um tempo distante...para dizer a verdade, era como se ele voltasse para mim e revi cenas da minha infância, um lago, e ouvi vozes alegres e queridas...

Giuseppa Giangrande

 
 
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Inspirados por textos de Scott Fitzgerald e diálogos da série Fargo, mergulhámos no mundo do não-dito. O desafio foi não escrever... Explicamos: criar um texto, mas onde fosse evidente o que fica por dizer, a entrelinha, o subtexto.Mas não ficámos por aqui. Depois deste primeiro texto, escrevemos a sua versão explícita, digamos assim, deixando vísivel o que no outro se adivinhava.
 
 

 

- Os meu Parabéns Catarina! A apresentação foi brilhante! Muito melhor que a minha.
- Obrigada Maria...
- Bem sei que mal tens tempo para trabalhar num projeto de tão grande dimensão, mas nunca pensei tivesses tão grande capacidade de organização!
- Obrigada, mas uma vez...
- Faço questão de ajudar-te a escolher o vestido que vais usar no dia da cerimónia de entrega do prémio no final do mês, em Londres!
- Não sabia que te preocupavas tanto comigo ...
- É claro que me preocupo, querida! Até já estive a ver alguns modelos!... Olha só para este vestido às riscas em forma de sereia! É espetacular!
- Não, sei o que diga... Sou baixa e forte, acho que não me favorece...
- Que disparate! É o ideal para ti, meu amor! Combina com o teu tom de pele, faz-te muito mais magra e tira-te à vontade uns 10 dez anos. Faço questão que o leves. Nada que possas escolher tão fantástica e maravilhosa!

 

 

 

 

- Trabalhei tanto, esforcei-me tanto, fiz uma apresentação brilhante e rejeitaram-na.
A Catarina é mãe de 3 crianças, é pequena, gorda, não tem tempo para nada e conseguiu que escolhessem a sua apresentação.
Devia ser eu a ir a Londres receber o prémio.
Vou ajuda-la a escolher um vestido que a fará horrível, fará má figura no dia de entrega do prémio. Eles vão arrepender-se de a terem escolhido.

 

 

Sandra Martins

 
 

 

- Este papel é seu. Esqueceu-se dele no pára-brisas do meu carro! Grita
- Como assim? Só lhe pedi para não estacionar atrás do meu.
- Não lhe corresponde decidir por mim, além disso o seu espaço é maior do que o meu, tem muito mais por onde escolher.
- Mas não entendo, porque leva a mal?
- O senhor pode estacionar na rua, na garagem ou até no jardim, se lhe der na gana. Faça o favor de não importunar os demais.
Atira com o papel à cara do vizinho, fecha-lhe abruptamente a porta e apanha o elevador.

 

- Este papel é seu. Não gosto que me deixe recados e me diga o que devo ou não fazer com o meu carro, ou seja com o que for.
- Não deixei recado nenhum, mas acho pouco civilizado bloquear outros carros sem avisar sequer.
- Lá porque eu não tenho uma casa com garagem e jardim, não lhe permito que me diga o que fazer, já me chega lá no trabalho ou a minha mãe.
- As invejas não se resolvem com violência.
- Pode ter mais dinheiro, mais tempo, mais liberdade de escolha e pode até ter mais espaço e um carro melhor, mas isso de me dar ordens que me façam sentir inferior e estar a ser mandado não lhe aceito.
A inveja incentiva-o a atirar o papel à cara do vizinho e a força das frustrações fecha firmemente a porta.
 

Catarina Ariztía

 

 

 

O dia passava lentamente, a Catarina, muito cansada, quase arrastava os pés.
Levava uma existência miserável, marcada pela tristeza. Perdida nos seus pensamentos, sobressaltou quando o telefone deixou ouvir o seu som.
- Estou... disse com um filo de voz
Uma voz mais forte contestou:
- Sempre a mesma voz... já preparaste o almoço?
- Sim...
- Ainda bem, estou a chegar! Até já!
Sem responder, a Catarina desligou e sentou-se no sofá, a esperar que o seu marido voltasse.

 

Quando desligou, o marido da Catarina começou a pensar que - ele era um cínico - ter casado com a Catarina tinha sido um grande erro. Era a mesma coisa que pensava a Catarina, apesar de ser uma pessoa de poucas palavras.
A Catarina lembrou-se de ocasiões perdidas e não passava um dia sem que se arrependesse da sua decisão. O marido, entretanto, no carro já mudou de ideia e depois de ter ligado para a Catarina, para avisar que tinha tido um imprevisto e que não ia almoçar, dirigiu-se ao clube de regatas.
Ainda bem, pensou a Catarina aliviada, e abriu a janela para respirar fundo.

Giuseppa Giangrande

 

- Posso ir lá, ou não? (Tchau, até ao meu regresso.)
- Tu é que sabes, mas eu tenho que comer. (Atreve-te a sair, meu camafeu!)
- Ok, mas eu posso deixar o prato arranjado e é só aqueceres. (Filho, orienta-te...)
- Vai lá. (Se saíres, escusas de voltar.)
- Tens a certeza que não te importas. (Mesmo que te importes, adeus.)
- O que é que disseste? (Mas tens coragem?)

                                                                                                       Tiago Pina

 

 

Maria Luísa continuou a dobrar a roupa. O marido continuava a falar. Não o ouvia. Sabia que devia prestar-lhe atenção, que havia pormenores e detalhes e informações e coisas que lhe convinha saber. O marido, não, nada de marido! Era melhor mudar-lhe o título já: o futuro ex-marido seguia com a diarreia verbal.
- Percebes, querida? Não és tu, sou eu.
- Percebo, percebo. Sabes, é quinta-feira, estou muito cansada. Podemos continuar esta conversa outro dia?
- Amanhã vou de viagem.
- Estamos casados há 23 anos, um dia não vai fazer diferença nenhuma.
- Vou estar fora duas semanas, não é um dia.
- Falamos daqui a duas semanas, então.

 

Maria Luísa continuou a dobrar a roupa. O marido continuava a falar. Não o ouvia. Sabia que devia prestar-lhe atenção, que havia pormenores e detalhes e informações e coisas que lhe convinha saber. O marido, não, nada de marido! Era melhor mudar-lhe o título já: o futuro ex-marido seguia com a diarreia verbal.
- Estou farto desta vida dupla. Este casamento é um beco sem saída.
- De onde é que isto saiu? Como é que nunca me disseste nada e agora queres divorciar-te?
- Não quero continuar a adiar a minha vida.
- Grandessíssimo cabrão, andas a enganar-me há não sei quanto tempo, quero lá saber se tens pressa.
- Isto é definitivo, não vou mudar de ideias. E já esperei muito tempo.
- E eu tenho tempo de sobra e nenhuma pressa.


Patrícia Louro

 

 

 

zzz seta
«Um escritor deve acreditar que o que está a fazer é o mais importante do mundo.», John Steinbeck.
A frase de Steinbeck deu o mote: o que faz o escritor. Pode-se fazer o guia, a tábua de regras da escrita? Ou em cada texto, estão já as instruções?
Voltando ao real, os textos prescritivos são um excelente pretexto para escrever e, desde o início, tiveram lugar nas nossas oficinas. Nesta sessão voltámos aos textos de Cortázar e espreitámos poemas de João Luís Barreto Guimarães, Vicente Piqueras e Neil Gaiman.
Estes foram os textos que criámos.

 

Sentes-te sozinho?
Triste?
Deprimido?
tens saudades dos tempos da escola?
Precisas de te conectar mais com as pessoas
Precisas de amigos.

Primeiro passo para fazer uma amizade
Olha-te bem no espelho.
O que vês?
Não tenhas receio, medo
Abre bem os olhos
Não vejas só o reflexo
Procura mais fundo dentro de ti

Segundo passo
Olha à tua volta
Que pessoas vês?
Quem são?
São diferentes de ti?
São parecidas contigo?
De que gostam? De que não gostam?
Não fiques pela superficialidade
Não te deixes enganar pelo preconceito

Aproxima-te com um sorriso
Um sorriso poupa palavras
Quebra barreiras
Abre portas
Abre vidas noutras vidas

Sandra Martins


Instruções para lavar as mãos
Em Roma no ano 33, Pilatos pediu um púcaro de água que verteu sobre as mãos
cobardes que podiam ter salvo o sangue inocente de Cristo.
2000 anos depois, na Rússia, o presidente lava as mãos numa casa de banho
esplendorosa ante o sangue de ucranianos inocentes.
Derretem-se as calotes polares num oceano putrefacto, sobe a temperatura a 50ºC na
Índia e os magnatas lavam as mãos na sua toilette de ouro.
Espalha-se um vírus mortal de oriente a ocidente e os chineses lavam as mãos no
remanso do rio amarelo.
Instruções para lavar as mãos:
- Daltonismo para vermelho sangue
- Um pedregulho no lugar do coração – (esta já dissera D. Pedro I de Portugal dos
algozes de Dona Inês de Castro).

Helena Campos


Instruções para viajar no tempo
Pega num livro, em fotografias de um tempo longínquo e deixa-te levar pelas lembranças, verás que vais fazer uma viagem que te conduzirá pelo passado.

**

Instruções para escrever imagens
Toma o azul do céu e do mar,
O verde de um prado,
O vermelho, o amarelo, o cor-de-rosa das flores...
Usa as palavras que saem do coração para as fixar no papel, assim vais escrever imagens

**

Instruções para conseguir algo
Talvez seja preciso fazer apenas uma coisa: não deixes de sonhar...

**

Instruções para quando é preciso ficar em casa em um dia de festa ou de sol
Abre a janela, respira fundo o ar e deixa que o sol acaricie a tua cara...
Deixa-te levar pelo optimismo e tenta ver a vida com cor-de-rosa, apesar das dificuldades.

Giuseppa Giangrande

 

«O mundo é um inferno e a má escrita destrói a qualidade do nosso sofrimento.», Tom Waits.fd5a8fdf1589a78463492a8c9c009b9a
Nesta sessão deixámo-nos inspirar por Tom Waits para escrever livremente, ou seja, melhorar a qualidade o nosso sofrimento.
 
 

Diversão

Como sempre, coloquei a almofada no banco rígido e sentei-me a comer umas pipocas doces, à espera do início do combate habitual.
A bola iria ser lançada ao ar durante longas horas, até à exaustão dos participantes e enfurecimento dos espetadores. Depois iria ser a parte interessante em que finalmente os fãs dos perdedores iriam ao encontro dos apoiantes dos vencedores, segurando firmemente nos seus assentos em chamas para o inevitável ajuste de contas. A festa continuaria então fora do estádio com a destruição das vias públicas, monumentos e edifícios da cidade adversária.
Uma experiência verdadeiramente única de se ver. Eis, portanto a minha surpresa quando a meio do jogo houve um delicioso acrescento de qualidade à história. Não é que a opinião de aficionados como eu foi tida em conta pelos organizadores do evento para este ter um desenlace mais emocionante?
Ao ver os guerreiros da minha equipa a desferir golpes cirúrgicos aos calcanhares dos inimigos desapercebidos com as navalhinhas ocultas na sola das suas chuteiras fiquei tão animado como o resto da multidão. Foi uma delícia presenciar a mescla do verde do campo com o sangue dos derrotados, pois os mais diversos padrões artísticos de sofrimento humano começaram a surgir na tela regada. Aliás, era uma bela maneira de se passar para as celebrações finais de forma rápida e sem impasses aborrecidos.
Agora sim posso dizer que nunca vi melhor espetáculo à face da terra!

José Maria Covas

Não dormir é um inferno
 
Milhões de pensamentos, não sempre bons...As horas passam e sinto um peso no peito...
Ah, que bom dormir, estar envolta nos sonhos e cair nos braços de Morfeu
Que me transportam para lugares distantes, mas queridos.
Ou talvez seja melhor- quando as noites se tornam um inferno - ler, que é sonhar pela mão de outrem...
Dando voltas na cama, queria saber onde é que a noite escondeu o sono e os sonhos...

Giuseppa Giangrande

Uma gota

- Quais são as tuas resoluções para o novo ano?
A pergunta apanhou-me desprevenida. Quero dizer, nem sequer a pergunta em si. Estávamos em setembro, essa pergunta não seria mais adequada para a época de dezembro a fevereiro?
- A minha é melhorar a qualidade do sofrimento. Próprio e alheio.
Olhei para ela com cara de parva, mais perdida que um coelho encadeado. Olhei pela janela, olhei para ela, voltei a olhar pela janela. Como ela continuava à espera de uma resposta, acabei por abrir a boca (acabo sempre por abrir a boca, e acabo a arrepender-me 81% das vezes).
- Qual Ano Novo?
- Ano Novo?
- Sim… Perguntaste-me pelas resoluções de Ano Novo…?
- Não. Perguntei-te pelas resoluções para o novo ano. O novo ano letivo, sabes? O que acaba de começar?
Acentuou muito o novo ano. A ordem das palavras é importante, etc.
- Ah, esse. Não costumo fazer resoluções, aparte sobreviver com a sanidade intacta.
- Ui! A sanidade intacta! Isso sim, é pôr a fasquia alta.
- Diz a pessoa que pretende melhorar a qualidade do sofrimento próprio e alheio, - murmurei.
Fez-se um silêncio. Imagina que nos olhámos como nos westerns, as últimas pessoas à face da terra, o vento a soprar, pó no ar, frente a frente com as mãos preparadas para sacar, uma gota de suor a escorrer lenta bochecha-queixo abaixo. Imagina o silêncio a esticar-se.
E depois ao mesmo tempo:
- A sanidade relativamente intacta!
- Sofrer sem que seja por nada.
Se fosse um western, teríamos acertado as duas, e o mundo acabaria. Em vez disso, levantamo-nos e abraçamo-nos.
- Tive saudades tuas durante o verão.

Patrícia Louro
«Os escritores de ficção científica prevêem o inevitável.», Isaac Asimovzzz utopias
Nesta sessão inspirámo-nos no criador das 3 Leis da Robótica, em música e textos de ficção científica.
Estas foram as histórias que criámos.
 

Borboletário
 
Aqui no borboletário, levo uma existência marcada pela cadência das asas. Cada espécie tem o seu arbusto, o seu lugar. Sou responsável pela manutenção do asseio, da ordem e do equilíbrio deste sistema. Conheço cada mariposa que nasce. Recolho as que caem, cansadas de voar e de viver. Coloco-as, então, nas histórias que contos às crianças que nos vêm visitar. Por vezes irrompem pássaros transviados por aqui adentro. Causam estragos e fazem grande alarido. São sempre uma aparição ou, quiçá, um prenúncio. Depressa tudo volta a serenar.
Contemplo as borboletas, magia do ar e quase consigo esquecer a sua natureza intangível.
Aqui, debaixo da redoma de hologramas que habitamos, onde a matéria é cada vez menos densa e a consciência mais pesada.
Fernanda O’Brien
 
Os livros
 
Estou cansada... os meus olhos estão a arder por ter que seguir os milhões de letras que desfilam no ecrã.
Há já anos tivemos que renunciar aos livros, esses objetos que agora quase ninguém conhece, sobretudo as crianças, acostumadas até a brincar apenas com os videojogos... nenhuma delas brinca com os amigos na rua, ah, era muito bonito ouvir as vozes alegres delas...
Fecho e abro os olhos: ainda bem! Era só um sonho... levanto-me do sofá, abro a janela e lá em baixo estão crianças que jogam à bola, felizes. Dirijo o meu olhar para o estante onde estão os meus livros, tomo um deles, «Os Lusíadas», de Camões, folheio as páginas, cheiram bem, sento -me novamente e leio...
Giuseppa Giangrande
 
Nostradamus
 
Nos idos de 1500, Nostradamus profetizou que no início de 2000, o anti-Cristo haveria de emergir do povo amarelo, habitante do reino dos morcegos, e engolir o mundo.
Em 2020, o povo amarelo manipulou um vírus que alastrou pelo planeta e ceifou milhões de vidas.
Os maníacos da investigação científica e os obcecados do marketing digital tanto empreenderam que destruíram as calotes polares e a chuva nunca mais voltou.
Em 2022, um louco na Rússia lançou todo o armamento nuclear, químico e biológico de que dispunha, e o planeta Terra explodiu de um ápice.
Um tipo que se ia suicidar de uma janela teve o trabalho facilitado assim como outro que inventava um implante de um botão de suicídio imediato.
As cinzas do planeta vaguearam pelo espaço e pousaram nas mãos de Cristo que sorriu para Nostradamus, no buraco negro onde o céu esteve escondido desde o início dos tempos.
Helena Campos

Sentir
 
Passaram-se mais anos, do que aqueles que tinha desde que disse “sim”.
Não assinei nenhum papel. Nem gravações. Não há qualquer registo. Nunca os há.
Apenas uma assinatura cerebral.
O único momento em que me permiti dizer “sim”, na minha mente.
O descuido. O lapso momentâneo.
Ainda sou do tempo em que as conversas que tinhamos connosco próprios, eram privadas.
Bastou um momento de fraqueza.
As nossas gerações não sabem o que é poder. Somos observados, por olhos que não conhecemos e por olhos que não vemos, que nos julgam a todo o momento.
A culpa foi da minha geração que os deixou entrar.
Dissemos que sim, depois voltamos a dizer que sim, depois ainda outro sim…
Quando demos por nós, o fim eram as regras.
Por nossa culpa, os nossos filhos não podem ter um pensamento errado sem ter receio de uma punição severa.
Por nossa culpa, os nossos descendentes nunca saberão o que é ansiar sem ter medo de ser interrogado, torturado e utilizado como um saco de carne para eles disporem a seu bel-prazer.
Eu, fui dos que lutou por esta sociedade.
Como me deixei levar.
Mesmo assim, durante muito tempo persisti.
Vi colegas e vizinhos desaparecerem. Até aí tudo bem.
Na minha cabeça, era certo. Os meios justificam os fins.
Por uma sociedade mais pura. Mais feliz.
Só me custou quando começaram a ir atrás dos meus.
Primeiro pensei que não podiam ser tão bons quanto os tinha em conta.
Depois, que se calhar não tinham de ser perfeitos.
Em seguida, talvez estivéssemos todos a ser demasiado rígidos.
Acreditei que enquanto sociedade iriamos apercebermo-nos do erro e ajustar, antes que fosse demasiado tarde.
Os meus filhos desapareceram.
Foi quando, por fim, desmoronei.
Tudo estava errado. Mas também já não queria saber.
À minha volta, a sociedade era uma amálgama sem nexo nem consequência. Não queria saber.
Vivi para ver o sol tornar-se cinzento.
O prazer morreu. E com ele nós também.
Então, cometi o erro.
Esqueci as normas de conduta e olhei para ela.
Já nem sabia o que era luxúria quando o fiz.
Cobicei. E ela sentiu que a cobicei.
Os olhos que tudo vêem não perdoaram a minha falha.
Fui levado para a Sala pouco depois.
Um homem à minha frente disse-me, sem mexer os lábios, o MAL que eu tinha cometido e como todos os MALES, devem ser expurgados, de imediato. Havia, contudo, uma solução. Ele disse-me qual era.
A minha pele era importante. Nela, podia residir a solução para vários males.
Só tinha de dizer “sim” e deixavam-me continuar a existir.
Por momentos, senti-me um ser humano que responde a uma pergunta, de igual para igual e disse que “sim”, sem proferir uma palavra.
Estava feito.
O homem saiu da sala. Nunca mais o vi. Mas, também, nunca mais vi ninguém.
Só os robots que retiram camada a camada a minha preciosa pele e verificam os meus sinais vitais durante todo o dia, todos os dias que restam da minha vida.
Pensei que já não existia sofrimento.
Afinal, ainda havia espaço dentro de mim, para sentir.
Rita Santos
Jacinta chegou a casa era já noite, com o cansaço da odisseia que tinha sido aquele 27 de março a latejar nos seus pés.
Entrou no escritório sentou-se na cadeira das secretárias e ligou o computador. Desde pequena que tinha dificuldade em lidar com mortes, e tinha visto bastantes, mas agora havia uma maneira de não ter de chorar mais.
Digitou a sua password e entrou na aplicação. Depis, afastou o cabelo da nuca e com os dedos sentiu a entrada USB. Puxou o cabo do computador e ligou-se. Olhou para a fotografia de Manuel na mesa. No ecrã surgiu a mensagem: «Deseja esquecer o dia todo?» - Jacinta disse que sim.
Quem não morre vive para sempre e Manuel continuaria, agora, vivo dentro de si.
Rita Santos
 
 
 
Jacinta chegou a casa era já noite, com o cansaço da odisseia que tinha sido aquele 27 de março a latejar nos seus pés.
Entrou no escritório sentou-se na cadeira das secretárias e ligou o computador. Desde pequena que tinha dificuldade em lidar com mortes, e tinha visto bastantes, mas agora havia uma maneira de não ter de chorar mais.
Digitou a sua password e entrou na aplicação. Depis, afastou o cabelo da nuca e com os dedos sentiu a entrada USB. Puxou o cabo do computador e ligou-se. Olhou para a fotografia de Manuel na mesa. No ecrã surgiu a mensagem: «Deseja esquecer o dia todo?» - Jacinta disse que sim.
Quem não morre vive para sempre e Manuel continuaria, agora, vivo dentro de si.   
Rita Gomes

 

O filho do Diabo

O filho do diabo pode amar o seu Pai? Era uma pergunta inevitável para Hans Bessman naquela manhã em que se vê confrontado com as notícias hediondas sobre os massacres levados a cabo pelos russos em Kiev.
A sucessão de imagens arquivadas há muito na sua memória brotava agora vulcanicamente, como farrapos soltos de magma incandescente a incendiar o cérebro. Recordar sua mãe Ulrika e o horror soviético era incontornável e deixava-o paralisado.
Seria possível o diabo amar o seu Pai?
Nascera em Brandeburgo, num berço dourado, num lar feliz em que se ouvia epicamente o som de Wagner, discutia-se Friedrich Nietzsche, e a gloria germânica.
O seu afetuoso Pai, Rodolfo Bessman, era alto e forte, como um cavaleiro teutónico, tarjava orgulhosamente um uniforme das SS no dia em que morreu metralhado na defesa de Berlin em 1945.
A invasão russa, a barbari, as violações, a obsessão pela morte indiscriminada, tudo fazia feder a podre, a pólvora e a vodka na capital do Reich.
A viúva Ulrika Bessman, fora uma alemã orgulhosa, mas tudo acabara mal, a Pátria tombara, restando apenas a chacina, a dor, o medo e vergonha.
Por amor, sim por amor, tenta poupar os seus cinco filhos ao sofrimento e à desonra, despejando a luger de família na sua prole, guardando a última bala para estourar os seus próprios miolos de seguida.
Morreram todos os Bessman, ou quase todos...
Hans, foi salvo ainda com vida por um oficial soviético que o cuida e entrega a uma enfermeira da Cruz Vermelha.
Ingrid era o nome dela, Ludovic o do herói russo que o salvara.
Hans filho de um Nazi e mãe assassina, foi odiado e apelidado de um «imundo», um proscrito pelos vencedores e vítimas da guerra, um portador de uma culpa que não lhe pertencia.
Hans, não poderia sobreviver se não tivesse amado o diabo em segredo, o que haveria de ser dele, sem esse pai extremoso e inventado de quem tanto sentia falta. Era verdade que ele amara o diabo um dia e não via mal algum nisso.

Frederico d'Orey

 

O haiku é já um clássico da Naftalina - desde o início, ficámos fascinados por esta escrita tão breve, puramente sensorial. Um bom exercício de depuração e de descoberta do que é essencial.zzzz flor
Nesta sessão o tema foi a primavera.             

 

Dançam as flores
ao ritmo do vento
no prado verde.

O sol beija
o jardim de margaridas
brancas e amarelas.

As andorinhas voam e
deixam uma longa esteira branca
no azul do céu.

A chuva primaveril
molha as folhas verdes
e as flores.
                       Giuseppa Giangrande


Sol a despertar,
Brisa de muitas asas,
Bosque a cantar.

Risadas voam,
Quando dentes-de-leão,
Fazem espirrar.

Crianças correm,
Com os anciãos atrás,
Cheios de vida.
                      José Maria Covas


Jardins sobrelotados
com turistas
autofotografados.

Costumam chegar
com a flor
das cameleiras.
                    Teresa Gonçalves

 

O gato à janela
Os pássaros na cerejeira
Brasas da lareira

Narcisos frescos
Sol nos prados sem geada
Dias mais longos

                    Irene Aragão 

 

Verdes trigais em flor
Chilreiam jovens enamorados
Pássaros no jardim

Num mar de papoilas
O pólen esvoaça
Espirram passarinhos

Despontam folhas no arvoredo
Morre o inverno no poente
Cintilam flores nos prados

Muda a hora, os dias alongam-se
Sopra uma brisa azul e fresca
Na mesa cheia de amêndoas coloridas
                                       Helena Campos


o dia nasce fresco
o verde das folhas
com orvalho no jardim

a vida espreita
enquanto o sol tímido
fica um instante

os pássaros chilreiam
voltaram para ficar
outra temporada
                   Cláudia Madruga

 

Voam andorinhas
Vasos surgem às janelas
Cheiro a sardinhas

Roupa estendida
À despedida do Sol
Lá no horizonte

Choram os olhos
Entopem-se os narizes
Pólen aos molhos

Chuva miúda
Chilreia-se nos cabos
Erguem-se cravos
                       João Cotrim

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O Espanador limpa o pó dos locais mais recônditos. Desta vez, foi até ao armário dos sapatos e das fez-se ao caminho dos textos com 3 desafios:

Uma história com sapatos
Este sapato tem a sua história
Uma história com a expressão «gastar a sola dos sapatos».

Eis alguns dos textos escritos na sessão.

 

 

 

 

Uma história cheia de sapatos

Ele vivera toda a vida com uma pedra no sapato – tinha a profissão errada – e volta e meia dava à sola dos maus empregos que ia arranjando. O irmão dizia-lhe que havia sempre um sapato velho para um pé cansado e que haveria de encontrar um emprego à medida. Ele contraponha que todos os patrões eram ingratos, faziam
dele gato e sapato e havia mais ingratos que sapatos. Uma vida a gastar sola de sapatos a procurar empregos que não serviam, pois, a vida era dura como a sola de um sapato. Os outros, a quem Deus dava botas apesar de já terem sapatos, não conseguiam porem-se nos sapatos dele. Arranjar um emprego estável era uma bota que ele não conseguia descalçar. Andava de sapato raso sem cunha e quando finalmente alguém por caridade lhe meteu uma cunha bateu as botas.

Helena Campos

 

Uma história sobre sapatos

A Ana adorava sapatos desde criança. Sapatos, sapatilhas - ou ténis como muito mais tarde aprendeu - botas, sandálias, chinelos. O que servisse no pé e no seu gosto, nem sempre muito requintado, a Ana calçava. Vibrava com o cheirinho a sapatos novos nas duas sapatarias onde ia com a mãe e a avó nos anos 90, antes de os centros comerciais acabarem com a magia de entrar numa loja quentinha e luminosa, num final de tarde escuro e chuvoso de Inverno. Normalmente um fim de Sábado, depois da missa. Era a melhor hora para comprar sapatos, segundo os antigos. 
De mão dada com a mãe e a avó, a pequena Ana fervilhava de entusiasmo quando experimentava calçado nunca antes usado por ninguém. Não tinha riscos, nem vincos nem a sola suja nem formato de pé. Um sapato novo era como um caderno em branco onde muitas histórias podiam ser escritas. 
Escolhidos os sapatos e paga a fatura que a pequena Ana não entendia, era chegada a hora de imediatamente os calçar. Viver em sapatos novos era viver mais alegre, era um mundo de experiências e histórias novas. Os sapatos velhos eram remetidos à sua nova caixa e, com muito gosto, encerrados os seus tempos áureos. 
O problema da pequena Ana vinha depois: colocar os sapatos no chão e, efetivamente, andar neles. A sujidade das ruas, os vincos ao dobrar o pé e, pior que tudo, a possibilidade de alguém distraído e desastrado pisar o sapato novo!
A experiência de comprar sapatos novos terminava invariavelmente em lágrimas, nesta dicotomia que a vida também é, entre as aventuras que ansiamos e os arranhões que tememos. 


Este sapato tem a sua história

A minha avó mostrou-o numa das mãos:
Este sapato, tal como o vês, tem a sua história. 
E contou-me que aquele sapato pertencera a António, que não conseguia esquecer.
Por vezes, disse-me, deitava-se na cama com o sapatinho pequeno entre as duas almofadas: a dela e a do meu avô, que mantinha o seu lugar na cama intacto, mesmo já lá não dormindo há tantos anos. E assim adormecia, com o marido e o filho juntinho de si, imaginando-os felizes ao rirem-se dela e da sua falta de oportunismo para finalmente ocupar a cama inteira. 
Uma noite, no silêncio do pequeno apartamento onde agora vivia sozinha, jura tê-los ouvido a rir. “Eram eles”, disse-me. “O teu avô e o teu tio que eu bem os ouvi”. 
Quando acordou, o sapatinho continuava no mesmo lugar, entre as duas almofadas. Inexplicavelmente, dentro de um deles, repousava uma pétala de rosa amarela. “Eram as flores que o teu avô me dava sempre”, explicou-me em lágrimas. “Nos dias em que as saudades do meu António apertavam, eram rosas amarelas que me aqueciam o coração”. 


Gastar a sola dos sapatos

Gasto a sola dos sapatos e o chão da maternidade. Percorro mais quilómetros hoje do que em qualquer uma das mini-maratonas em que ultimamente me (es)forço a participar. Não gosto propriamente de as fazer, mas seduz-me imaginar que fujo da realidade, desta vida que não escolhi.
Quando páro de correr, estou aqui e não vejo saída. Estou nesta vida que eu não quero, nesta rotina que nada tem do que sonhei para mim. Um filho! Estou prestes a ter um filho e nem por mim próprio sei olhar. Que exemplo de pai serei eu? O que tenho eu para ensinar a um novo ser humano a quem eu já desejei a morte mesmo antes da vida? O que lhe vou contar sobre o amor - a minha verdade? Serei capaz de suportar o olhar de condescendência adolescente quando, ta como me disse o meu pai, lhe disser que o amor é uma “treta inventada por Hollywood"? Quanto tempo levará até que ele desista de mim - um pai frustrado, sem amor e sem valor, que lhe deu a vida e lhe desejou a morte?
“Parabéns, Pai. O seu rapaz já é um valentão!”. Não reajo. Vejo-o, mas não lhe toco. E então choro. Choro como nunca e sinto o sabor diferente destas lágrimas. “São lágrimas de amor”, atira-me a enfermeira, sem piedade pela minha convulsão sentimental embaraçosa. Sinto-me a sufocar: o meu pobre cérebro não sabe como processar tanta informação emocional.
Arrependo-me: de não o querer, de maldizer o dia em que, por uma horas de prazer, o concebi. Como fui ridículo durante toda a vida; tantas palavras inúteis, tanto tempo mal gasto. Deus deu-me botas, filho, e eu já tinha sapatos.

 

Ana Rocha

 

Problema

A situação de Ernesto era preocupante. De facto, os sapatos eram perfeitos. Protegiam os seus pés de todas as intempéries, permitiam-lhes percorrer o país de uma ponta a outra num só dia sem nunca ficarem cansados. Contudo, os sapatos eram tão bons que não os conseguia tirar. O interior tinha se tornado numa câmara selada e os seus pobres pés, encurralados, serviam de alimento aos residentes fúngicos e bacterianos das profundezas. Pouco faltava para um dia a carne, junto com as suas enervações, desaparecer. Esse seria o dia em que os ossos deixariam de ser guiados pela sua vontade e finalmente descansariam no chão. Se ao menos tivesse dado mais atenção à etiqueta dos sapatos quando os comprou: Muito obrigado, ao comprar estes sapatos orgânicos está a prestar uma grande ajuda ao meio ambiente.

Desafio

Alcina mostrou-o numa das mãos.
Este sapato, tal como vês, tem a sua história.
E contou-me que aquele sapato pertencera a Jorge, que não conseguia se separar do seu tesouro reluzente.
Por vezes até enchia com ouro fundido o interior na esperança de começar a nascer na sua própria pele joias e safiras.
Uma noite, sentiu que precisava de se divertir e fez uma aposta com a sua criada. Se ela conseguisse remover o sapato sem o danificar podia ficar com ele. A criada concordou com os termos, mas nada fez, ficou sentada no quarto até Vladimir adormecer profundamente depois de uma das suas habituais bebedeiras. Quando acordou não conseguiu sentir o pé direito a mexer-se. Alcina tinha-o habilmente removido a partir do tornozelo com uma serra ao longo da noite para não atingir a preciosidade. Ora bem, não tinha outra opção senão cumprir o prometido. A criada saiu toda contente dos seus aposentos, mostrando a todos no corredor o seu prémio merecido. Pobre Jorge, tinha de se contentar por ainda ter o sapato do pé esquerdo.
 

Desejo

Finalmente. Porque é que não tinha pensado fazer isto há mais tempo, pensava Augusto enquanto cavava. Era ainda criança quando Dom Afonso lhe tinha tido: Se trabalhares bem serás recompensado. Não precisava de dinheiro porque a mansão providenciava-o com comida e alojamento, mas sempre quis ter algo que o destacasse dos demais. As botas do seu mestre eram a moda da altura e, portanto, cobiçadas. O problema era que Dom Afonso lhas deixara no seu testamento. Portanto, em vez de esperar mais pela vida decorrer de forma natural, Augusto decidiu apressá-la. Nesse momento sentiu a tampa do caixão a bater na pá, abriu-o e agradeceu ao seu mestre as botas bem merecidas.

José Maria Covas