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LABORATÓRIO DE TEXTOS

Esta é uma fresta por onde se pode espreitar o nosso laboratório.

Gostamos de experimentar textos, inventar espaços e condições especiais e neles deixarmo-nos espantar pelo que acontece.

Aqui, recolhemos algumas das linhas que vão sendo criadas em diferentes oficinas. Algumas delas, dirigidas a antigos alunos, como a Naftalina, são iniciativas regulares; outras, abertas a quem por cá passa, são encontros e iniciativas extra-aulas. Placas de Petri.

Os textos, produzidos no tempo e condições das sessões, têm como único — e suficiente — critério de publicação a vontade do seu autor de vê-los aqui reproduzidos. Experimente ler, mas proteja-se: o prazer da experiência pode ser contagiante.

non finito

                                                                                                                                                                  Michelangelo, Escravos

Tema: Era uma v... | Textos inacabados


1 - O poema fragmentado
A partir de uma versão parcial, e sem conhecerem o original, os participantes completaram as frases de um poema, fazendo-o seu.

 

O meu poema teve um sonho:
Diz às palavras vivam
E ide procurar conhecimento;
O meu poema tem o brilho do saber.
Posso vê-lo cintilando
Em cornucópias de prata
Sem pressa
Ou receio.
Pergunto-lhe: com que sonhaste?
Mas apenas me envolve
E fica ali a pulsar na dádiva da plenitude.
                                           Conceição Brito Lopes

O meu poema teve um furo
Diz às palavras: não sei se tenho salvação
e ide procurar ajuda.
O meu poema tem remendo
posso vê-lo a insuflar esperança.
Em fé
sem medo de morrer de velhice
ou de doença.
Pergunto-lhe: mas vais ficar bem?
mas apenas me devolve um suspiro
e fica ali apenas a existir.
                          Tânia Teixeira


O meu poema teve um problema
Diz às palavras: Voem no céu
E ide procurar versos.
O meu poema tem agora versos
Posso vê-lo feliz
em companhia dos seus versos
sem preocupações
ou tristeza.
Pergunto-lhe: O que é que te deixa ficar tão feliz?
Mas apenas ouve a voz dos seus versos
E fica ali a regalá-los.
                   Giuseppa Giangrande


O meu poema teve um bloqueio
Diz às palavras: regressem
E ide procurar as fontes
O meu poema tem angústias de alma, febres de perfeição
Posso vê-lo a tremer, a hesitar
Em tardes outonais de fim de linha
Sem rumo
Ou ponto de mira
Pergunto-lhe onde está
Mas apenas murmura em surdina algo desconexo
E fica ali a olhar o vazio
                    Helena Campos


O meu poema teve um sonho do qual acorda pensativo
Diz às palavras: deixem-me só
e ide procurar outras palavras que as substituam e sejam mais verdadeiras.
O meu poema tem esperança
Posso vê-lo desnudo
em busca da raiz da emoção
sem vocabulário
ou gramática
Pergunto-lhe: o que queres dizer afinal?
mas apenas se cala
e fica ali a página em branco
                             Paulo de Lima


Poema original que inspirou o exercício:

O meu poema teve um esgotamento nervoso.
Já não suporta mais as palavras.
Diz às palavras: palavras
ide embora,
ide procurar outro poema
onde habitar.
O meu poema tem destas coisas
de vez em quando.
Posso vê-lo: ali distendido
em cama de linho muito branco
sem perspectivas ou desejo
quedando-se num silêncio
pálido
como um poema clorótico.
Pergunto-lhe: posso fazer alguma coisa por ti?
mas apenas me fixa o olhar;
fica ali a fitar-me de olhos vazios
e boca seca.
                Daniel Jonas, in Os Fantasmas Inquilinos

 

2 - Fragmentos que contam histórias.
É possível contar uma história apenas com frases inacabadas? Ao fazer o exercício, percebemos que deixar por dizer dá outra expressividade ao texto.

 

Sonhava acordada com...
Ela pediu-lhe que...
Assustei-me e...
E não foram felizes para sempre porque...
Sem saber como..
A luz apagou-se...
Lembrou-se...
Naquela madrugada...
Ainda o sol não tinha raiado...
Sonhava acordada com...
O passado...
Ainda mal acabara...
Quando o carro...
Assustou-se...
Ele nunca mais lhe respondeu e...
Se não chover...
Quando chegaram ao funeral...
Ela pediu-lhe que...
Era uma vez.
         Tânia Teixeira


Já não sou
Odeio quando
Ouvi algo de


Não tive como
Enganei-me
Não soube escolher
O tempo
Não fui a
Não disse que
Hoje não há
Dizes para
Insistes em
Não há
Já não há
O tempo
Nunca será
          Helena Campos


Era uma vez
A madastra fazia anos que
O príncipe sempre com medo de
Até o dia que
A bebida no copo estava
Um gole e o príncipe
No meio da noite chega o
Beija o príncipe e ele
Fogem os dois de mãos
A madastra tenta
Mas volta com as mãos
A princesa decide que
E a madastra perde sua
                    Paulo de Lima

 


3 - Non finito em texto
Este exercício foi uma tentativa de exploração do non finito em texto.
O non finito nas artes plásticas (exemplo da reprodução de Michaelangelo acima) é uma obra inacabada que permite espreitar para as marcas do criador, para o processo criativo. Será possível fazer o mesmo em texto? Experimentámos.

 

...
Às 12 badaladas Branca pica-se no fuso do tear e desmaia. Nesse mesmo momento, a sua preciosa carruagem transforma-se numa abóbora e os sete anões acorrem a salvá-la.
(Estou tramada! Espelho meu, espelho meu, haverá alguém que confunda mais as histórias de princesas do que eu? Nunca sei quem é maltratada pela madrasta - serão todas? - ou pica o dedo, ou come a maçã, ou tem um príncipe - ah! isso sei, são todas!)
...
A luz da manhã rompe-lhe o sono e a ladeá-la está um monstro que a assusta.
- Calma Bela! - responde-lhe ele.
- O que é que aconteceu?
- Foste amaldiçoada pela rainha má, mas eu vou levar-te para longe e ficarás sã e salva.
- Como? - responde ela atordoada.
- Neste tapete mágico!
(Mentiria se dissesse como me desenvencilhar deste problema. Ah! Com um clichê!)
...
Num castelo num alto de um monte verdejante, a princesa e o seu amado viveram felizes para sempre.
                                                                                                                                    Tânia Teixeira

 

helna

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 …….de Neve e……

……….e, finalmente! alisou a última das sete caminhas. Olhou em redor, com cuidado, para não bater com a cabeça no tecto baixo [adjectivo redundante?]. O espelho do quarto continuava totalmente tapado (tantas recordações más) [mas ainda não quero falar disso ]
e os seus amiguinhos em breve chegariam para almoçar. Que vida horrível, sempre na cozinha!!
Só de pensar em comida, ficou com fome (no palácio comia-se tão bem! e tinha aios para servir, não tinha que cozinhar)
(…..) lá estava a maçã a olhar para ela, a chamar por ela. Afinal não a ia repartir com os sete anões, ia comê-la já, como a velha recomendara.
……ainda teve tempo para perceber que o egoísmo pode ser perigoso.
                                                                            Conceição Brito Lopes


Branca de Neve estava a preparar o lanche dos anos, que logo chegariam do trabalho, quando ouviu batidas na porta. Intrigada, foi abrir. Era uma velha/senhora (decidir qual palavra usar. Não quero que digam que discrimino os idosos etc. e tal)
(Talvez seja mais verossímil se ela olhasse antes quem está batendo. Mas pode quebrar o ritmo.)
Boa tarde, minha jovem.
Boa tarde, senhora. Em que posso ajudá-la?
(Ressaltar o caráter ingénuo da Branca de Neve.)
Tenho aqui umas maçãs que estou vendendo para comprar comida para meus netinhos. A senhora gostaria de comprar uma?
Claro, minha senhora. Espere aqui que vou pegar o dinheiro.
Ela foi até a cômoda, pegu umas moedas e voltou para a porta. Pagou a velha e pegou uma maçã. (Não, a velha tem de dar a maça envenenada para ela. Ou todas as maçãs do cesto estão envenenadas?)
Parece muito gostosa mesmo.
Dê uma mordida para ver como é suculenta.
(Fazer suspense com a mordida?)
                                      Paulo de Lima

 

jornais

 

Tema: MANCHETE. Escrever a partir de notícias de jornal

Nesta sessão explorámos as ligações e possibilidades de cruzamento entre escrita literária e escrita jornalística.
Porque aparentemente a distância é ainda maior, tomámos como exemplo a poesia, inspirada ou que recorre a linguagem jornalística. O mote foi dado com poemas de Alexandre O'Neill, Carlos Queirós, Manuel Bandeira, Daniel Filipe.

1 - Da notícia ao texto literário.

Como transformar uma notícia num texto literário, poema ou texto fragmentado?
Que história, ainda que breve e depurada, podemos revelar? Como manter o equilíbrio?

Transformar em pequeno texto cada notícia, ou ambas.

 

ze pipo

                 xanana

 

As últimas chamadas

A 5 de novembro as últimas chamadas
Quem falou com ele?
Não há resposta à essa pergunta
Ainda estão as luzes apagadas
em redor da pessoa desparecida.

O presidente jardineiro

Na capital timorense
há um presidente jardineiro
Os jardins da cidade agora
têm alguém que cuida deles
e reflorescem esplendorosos.
                                  Giuseppa Giangrande


I
Há seis meses
Ele falava ao telefone
Todos o viram
Enquanto falava, dobrou a esquina
E sumiu
Desapareceu
Evaporou
O telefone foi encontrado
O homem continua desaparecido.

II

Primeiro foram as armas.
Era preciso lutar.
Depois vieram as reuniões e as solenidades.
Era preciso governar.
Agora são os jardins.
Cultivar a beleza ainda é preciso.
                                              Paulo de Lima


Valham- nos Anjos.
Sempre os anjos.
Omnipresentes e tão cientes.
Não lhes cabe registar.
Resta-lhes o sabê-lo.
Somente o sabem.
Falo-vos de atitudes elegantemente rapinadas ao civismo tido como marginal.

Surgem de noite. Não deixam rasto.
Ficam reluzindo no dia as sementes de lugares.
Lugares donde se arrancaram as ervas daninhas.
Sementes livres...
Sementes de ajardinados acarinhados.

Não há nomes por chamar.
As atitudes tomaram- lhes o lugar.
Chega sempre o Natal.
Quente e frio.
É verdade é facto.
                          L@dyBirdBeL

 
João sem jeito era soldado combatente e matava à bala.
Depois foi telefonista e apagava os registos das chamadas convenientes.
Um dia decidiu ser jardineiro para cortar as flores e atirá-las ao vento.
Foi visto a última vez em Tomar.
                                           Helena Campos
 
 
 

2 - Continuar a distopia

Depois de ouvirmos o trecho da Invenção do Amor de e por Daniel Filipe, continuar a história dos amantes, da cidade, da liberdade, da repressão.

A Invenção do Amor, Daniel Filipe

 

… Mas o homem e a mulher
já fugiram para os jardins escondidos
do amor e dos sonhos
e de ali deixam chegar às pessoas
uma mensagem de amor.
Já que os sonhos e o amor
são revolucionários,
nos corações das pessoas
floresce finalmente a flor vermelha
da tolerância e da liberdade
Ninguém pode reprimir o
avanço do amor.
                             Giuseppa Giangrande


É indispensável encontrá-los.
As autoridades decretaram que o amor é um vírus perigoso e determinaram que todos ficassem em suas casas.
Dizem nas rádios e na televisão que se trata de uma epidemia grave que deve ser combatida a qualquer custo.
Mas talvez seja tarde. Pois começam a ser vistos por toda a cidade casais de mãos dadas.
Casais que desafiam o confinamento e vão para as praças e os parques se beijar.
São detidos imediatamente. Mas já faltam carros para transportar todos os presos e prisões para encarcerá-los.
E começam também a circular outras versões para o discurso oficial das autoridades.
O amor não é o vírus, dizem essas versões.
Na verdade, é a vacina contra a monotonia e os dias cinzas, contra tudo que desbota a vida.
As autoridades têm medo.
Os amantes, esperança.
                                        Paulo de Lima
 

Para quem vive e o não sabe...
Para quem nos morre num porquê..

Das guerras que nos são impostas eis- nos mais um porquê.
Porquê tanta garantia que a espingarda é de exibir e o amor de proibir?

Porque estão as crianças a brincar acompanhadas de sorrisos sonantes sinceros invisíveis escondidos e mascarados?
Desmascarando as gargalhadas e descobri- las de boa fé.
Senti- las acutilantes e distraídas honestas e sabê- las tão sentidas.
Para quem vive sem nunca te ver.
Para quê morrer se nunca te crer foi para valer.

Tudo isto não faz sentido.
Tudo isto me baralha, tudo isto se instala.
Tudo isto me faz morrer.
                                     L@dyBirdBeL


E mais homens e mulheres se encontrem
Contra a lei, contra a ordem
E a repressão baixe os braços, cansada e finalmente vencida
Porque um dia a repressão há-de morrer
E há-de nascer um pássaro com asas de neve, numa aurora tão longamente ansiada
Decrete-se uma lei onde se assassinem todos os amantes
Construam-se prisões de alta segurança
Coloquem-se cadeiras eléctricas para os detractores, achincalhadores da ordem
Antes que um dia um cravo espetado numa arma anuncie a aurora da liberdade sem regresso
E depois do adeus, passarão aves
Quebrar-se-ão grilhetas,
e não sobrará ninguém para contar a história daquele cartaz
                                                                                 Helena Campos

 

 
 

 

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tema: LITERATURA POTENCIAL. No aniversário da morte de Italo Calvino, escritas oulipianas

 

1 – Técnicas Oulipianas a partir de um texto baseado em escritos de Italo Calvino

Texto base:
Os clássicos são livros dos quais se costuma ouvir: «Estou a reler» e nunca «Estou a ler». No entanto, toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta, como a primeira. Aliás, toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura. Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. São livros que trazem consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes). É clássico aquilo que tende a relegar a actualidades a ruído de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse ruído de fundo.

 

Textos criados na sessão:


...Clássico, seja...

Os ouvintes, oram, operam, olvidam o outro, o outrem.
Ouvindo o ontem ondulando outra, outra ouvida, orando onde oiçam oficialmente.
Ontem ouviu- se oiro
Ontem ouviste oiro
Ontem ouvi onde ouvir
Ontem ouvi como ouvir
Ontem, outrora o ocaso, outro olhar. Onde? Ontem.

Amanhã aprofundarei
Enquanto houver manhãs
Igrejas abertas sem cruz, sino só
Ouvirei sempre como novidade
Uivarei a essa Lua Nova que badalará de noite aquando do meu mergulho...
...Oceano...
L@dyBirdBel
TÉCNICA: TAUTOGRAMA em «o» e ABECEDÁRIO com vogais.

 


Clássicos são os lobisomens dos quais se costuma ouvir: «Estou a remendar-te» e nunca «Estou a libertar-te».
No entanto, todo o remendado por um clássico faz uma libertação de descoberta, como a primeira.
Aliás, toda a primeira visão de um clássico é um rebanho de remendos.
Um clássico é um lobisomem que nunca terminou de dominar aquilo que tinha para dominar.
São lobisomens que tricotam a marca dos lençóis em que nos deitamos e, atrás de si, olvidam as tragédias que deixaram no cunhado ou nos cunhados que atropelaram (ou então, deixaram marca, tão simplesmente, no linho ou no cotão).
Pedro Caeiro
TÉCNICA: S+6 E V+6 - substituir cada substantivo e verbo de um texto pelo sexto que o sucede no dicionário. ​

 


Clássicos são livros dos quais se costuma ouvir “estou a reler”
Ler uma só vez não é suficiente
Aliás, a releitura de um clássico é uma descoberta
Sempre fica a sensação que foi uma primeira leitura
Sempre uma primeira leitura é de facto uma releitura
Ironicamente são livros que nunca mais acabam de dizer o que tem para dizer
Como se trouxessem consigo as marcas das leituras que precederam a nossa
Onde se vislumbram os traços que deixaram nas culturas que atravessaram
Sem prescindir da actualidade, relegam-na para ruído de fundo
Helena Campos
TÉCNICA: ACRÓSTICO com a palavra «Clássicos»


Os livros são clássicos dos quais se costuma ouvir: «Estou a reler» e nunca «Estou a ler». No entanto, todo clássico de uma releitura é uma descoberta de leitura, como a primeira. Aliás, todo primeiro clássico de uma leitura é na releitura uma realidade. Um livro é um clássico que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. São marcas que trazem consigo os livros dos traços que precederam a nossa e atrás de si as leituras que deixaram nas culturas ou na cultura que atravessaram (ou mais simplesmente nos costumes ou na linguagem). É actualidade aquilo que tende a relegar o clássico a ruído de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse ruído de fundo.
Paula Carvalho
TÉCNICA: PERMUTAÇÃO - alterar a ordem dos substantivos do seguinte modo: o primeiro pelo segundo e vice-versa, o terceiro pelo quarto, etc.


Os clássicos são REUNIÕES DE CADERNOS MANUSCRITOS OU IMPRESSOS COSIDOS ORDENADAMENTE dos quais se costuma ouvir: «Estou a reler» e nunca «Estou a ler». No entanto, todo ACTO DE RELER um clássico é um ACTO DE LER de INVENTO, como O QUE NUMA CLASSE OU SÉRIE ESTÁ EM PRIMEIRO LUGAR. Aliás, todO primeirO ACTO DE LER de um clássico é na realidade um ACTO DE RELER. Um clássico é umA REUNIÃO DE CADERNOS MANUSCRITOS OU IMPRESSOS COSIDOS ORDENADAMENTE que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. São REUNIÕES DE CADERNOS MANUSCRITOS OU IMPRESSOS COSIDOS ORDENADAMENTE que trazem consigo OS CUNHOS dOs ACTO DE RELER que precederam O nossO e atrás de si os VESTÍGIOS que deixaram nO ESTUDO ou nOS ESTUDOS que atravessaram (ou mais simplesmente na EXPRESSÃO DOS PENSAMENTOS OU SENTIMENTOS POR PALAVRAS ou nos USOS). É clássico aquilo que tende a relegar a OCASIÃO PRESENTE a OSTENTAÇÃO de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir dessa OSTENTAÇÃO de fundo.
Paula Carvalho
TÉCNICA: DEFINIÇÕES - Substituir alguns termos pela sua definição de dicionário.
 

2 – Redefinições para as Seis Propostas Para o Próximo Milénio de Italo Calvino

Leveza: airosamente, nuvem, voadora, algodão, pairar, bailar, esperteza
Rapidez: estrada, morte, vida, alegria, motor, barulho, explosão
Exactidão: ferozmente, facto, verdade, real, prontidão, escrita, tranquilidade
Visibilidade: mar, terra, binóculos, guerra, importância, família, ilha
Multiplicidade: cidadania, respeito, interrogação liberdade, parafuso, cultura, camaradagem
Consistência: ferro, fogo, navio, avião, avô, laço, puré
Pedro Caeiro, L@dyBirdBeL

Deus livre a Literatura da exactidão
Para isso bastam as ciências exactas
Toda a arte é multiplicidade e leveza
Toda a arte torna presentes os invisíveis evidentes de que é feita a alma
Helena Campos


O livro tem de estar bem escrito, com muitas metáforas, tem de permitir visualizar o que se está a ler, tem de fazer sentir bem. E também um pouco de poesia, é libertador, não enfadonho. Também gosto da consistência, uma coerência no argumento, nas personagens, detalhes que não se perdem.
Leveza – fluidez, elegância narrativa, pormenores, picaresco, pictórico. As histórias-mosaico ou dimensionais com várias personagens a contar a mesma história na sua perspectiva (exemplos: Amor & Cia, Julian Barnes Quarteto de Alexandria, Lawrence Durrell).
Consistência – fio condutor excepção: o surrealismo
Paula Carvalho

 

 

 

Em julho e setembro organizámos uma atividade de passeio e escrita sobre Lisboa. A partir de um roteiro preparado previamente pelos os becos e calçadas à volta da Sé, Castelo e Rossio, os participantes escreveram e fotografaram. Voltaremos a estes passeios mais vezes.

  

Rossio

Os meus passeios levam-me à praça do Rossio, sobretudo à noite. A luz do dia que me acompanhou nos meus caminhos de manhã aqui é substituída pela luz da lua, romântica e porta-voz dos sonhos. Ela, o azul obscuro do céu noturno e as luzes dos faróis refletem-se na calçada do chão que parece tomar vida e se transforma em ondas, como as dos mares que em tempos longínquos navegaram as caravelas portuguesas. As estátuas que adornam as fontes da praça projetam sombras. De longe, chega uma voz da Mouraria, que entoa um fado.

Giuseppa Giangrande

 

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Rua da Saudade

Nasci e vivi na Rua da Saudade, num quarto andar do número 23, com vista para o Tejo, prédio famoso porque nele viveram o Ary das canções do festival e o O’Neill, aquele da coisa em forma de assim. O andar era o último, gelado no inverno, tórrido no verão. Vivíamos lá três gerações – avós paternos, pais, dois irmãos rapazes, um mais velho dez anos e o outro seis, que cedo fizeram pela vida, tornaram-se um, canalizador, o outro electricista, e cedo casaram, com moças do Bairro – ambas da Rua das Merceeiras -, e mudaram-se para Santo António dos Cavaleiros. Ao Domingo vinham almoçar connosco.
No Santo António de 1980, tinha eu 16 anos e acabado o décimo primeiro ano. A Directora de Turma chamara os meus pais para lhes dizer que eu era inteligente e devia continuar os estudos mas a conversa nem começou porque o velho disse que não ia, não queria doutores na família e doutoras ainda menos - e a minha mãe não se atrevia a contradizê-lo. A minha vida era calcorrear as vielas da Sé, descer do Limoeiro à Baixa, e fazer os recados da avó nas retrosarias da Rua da Conceição, ou subir aos Lóios, descer as Escadas de S. Crispim, apanhar S. Mamede e daí a Rua da Madalena, e na Praça da Figueira fazer as compras para a despensa. Não desgostava daquela vida preguiçosa mas sentia que tinha que haver mais – mulheres a cozer e a bordar o dia todo, as agulhas que se partiam, os dedos que se picavam, a vista que se finava aos poucos, o avô a tossir e a arrastar os chinelos, o velho a chegar ao fim do dia com cheiro a suor requentado, a entregar a marmita vazia e, ao fim do mês, o salário com que se pagava a renda, a água, a luz e o gás, porque a comida, essa, saía das rendas e dos bordados. Sem saber o que queria da vida sabia que aquilo não era vida para mim.
Nessa noite de Santo António fui com um grupo para o Largo da Sé para saltar a fogueira e comer umas sardinhas e um caldo verde. A avó tinha-me dado duas notas de cinquenta, daquelas com a Rainha Santa, e o meu pai uma das verdes, com a cara do Santo que dava nome à noite. Foi nessa noite e no Largo da Sé que conheci o João Carlos, mais velho que eu dez anos, um borracho, lindo de morrer, louro, branco e com olhos verdes de gato. Magro, muito magro, eu também o era, não tinha ainda formas de mulher, era lisa com uma tábua. De costas ou de frente parecíamos dois rapazinhos. O João Carlos não era do bairro, era fino e de boas famílias, morava num andar na Rodrigo da Fonseca, com elevador e aquecimento central. Sozinho, que os pais tinham ido para o Brasil em 74 e por cá o deixaram a estudar Direito e com mesada milionária – ou assim me contou a história. Mudei-me para a Rodrigo da Fonseca nessa noite, noite em que passei da infância ao inferno, sem parar no purgatório.
Hoje é noite de Santo António, tenho vinte anos e sei que estou a morrer. Tornei-me esquelética, quase transparente, os meus ossos furam a pele, que está coberta de manchas negras. Mal respiro, já tive várias pneumonias e ninguém me diz o que tenho. Ou podem ter dito e eu esqueci-me, como costuma acontecer. Só não me esqueço de duas coisas – da explosão que senti naquela madrugada de Santo António, quando o João Carlos pela primeira vez me injectou o cavalo e que a partir daí a minha vida foi a busca incessante de voltar a sentir a explosão.

Paula Tavares de Carvalho

P

minha laranja amarga e doce, meu poema, feito de gomos de saudade, minha pena, pesada e leve,
secreta e pura, minha passagem para o breve breve instante da loucura

20 de Junho | No solstício de Verão, escritas em bola de neve.

Para inspirar: um cadáver esquisito em dança

 

 

1. ÎLLOT – MOLLO

À medida que se escreve, cada um vai dizendo uma palavra em voz alta que todos têm de incorporar no texto

Manifesto Anti-Lockdown

Na Bíblia, primeiro era o verbo, no nosso caso, primeiro foi o lockdown: não sairás de casa ... descontadas as vinte e sete excepções contantes de outras tantas alíneas da lei.
Passámos toda a Primavera confinados no confinamento do lar, a trabalhar em trabalho remoto, dito tele-trabalho. Sem sair.
Primeiro construímos a narrativa da segurança - não se usava máscara porque dava falsa sensação de segurança. Nem se faziam testes porque davam qualquer coisa que parece que também era falsa. Talvez fosse aquilo dos falsos positivos...
Não celebramos Páscoa e muito menos o dia da Mãe.
Tivemos, sim, cravos, discursos e festa na Assembleia, manif na Alameda, autocarros vindos de todo o lado, coreografias de Leni Riefenstahl.
E, de repente, Maio chegou e sem máscara não andarás e testar testarás.
E desconfinar desconfinarás, excepto nas dezassete excepções de outras tantas alíneas da lei.
Desconfinarás a bicas na baixa, a almoços no Bairro Alto, a espectáculos no Campo Pequeno em que os toureados fomos nós, o povão que come e cala – e parece que gosta.
Desconfinarás também na Praia da Rocha, tu de bikini, na espuma das ondas, os Men In Black de fato e gravata e sapato de polimento a calcar a areia.
Não se pode parar para pensar que não foi para estarmos confinados em prisão domiciliaria, a morrer de pobreza, solidão e tristeza, que se fez o 25 de Abril?
E, de repente, chegou o Verão.
Paula Carvalho

Arte de morrer

Iam sem destino pela rua fora numa tarde quente de estio. O mar ao longe era um convite à evasão. Começaram a correr, os ténis leves a bater nos traseiros, até ao primeiro autocarro que encontraram. Atiraram-se para os assentos com a luz do solstício a invadir as janelas.
Quando o veículo parou, soltaram-se como massas pegajosas a escorrer para o areal. O mar agora perto a rugir como um leão na selva. Sentaram-se na espuma à espera das ondas. A maré descia, vazava na direcção do horizonte.
Olharam um para o outro e pensaram que a vida era aquilo, a arte de morrer. Estenderam-se na areia de olhos fechados, crianças balbuciavam ao longe, talvez um cão. O trabalho que dava morrer devagar. O som de um barco, talvez de um avião no céu sem nuvens.
Não construímos nada na vida – pensavam em uníssono. Porque a maré vazava naquele dia em vez de subir? Teria dado jeito. Até a maré estava em desacordo.
No passado, circulavam sapatilhas de borracha que se vendiam à entrada daquela praia, assim como tábuas de madeira que os velhos alugavam em busca de iodo para uma saúde débil
Agora, nem sapatilhas nem tábuas, restava uma praia pedregosa abandonada entre limos e algas. Abandonada como eles aos ventos do ocaso.
Helena Campos

2. HISTÓRIA COLABORATIVA

A partir de nome de personagem, tique, ditado popular, cor e outros elementos escolhidos previamente pelos participantes.

Penélope costumava dizer que de bom grado deixava o bom gosto todo para os outros e que ela se bastava com ter o gosto de gostar de amarelo.
Tudo começou por acaso, que é como começa quase tudo, a mãe, costureira numa loja de vestir, trazia para casa, no fim de cada estação, os monos a que dava a volta e transformava em roupas decentes para Penélope e Ulisses, os gémeos que havia tido com Ambrósio, seu falecido – não porque ele se finara mas porque se finara o casamento – as cores claras e alegres, como o amarelo e o vermelho, eram para Penélope, as mais discretas – azul e verde (credo, escarro na parede!) para Ulisses. Mas, num Carnaval, Ulisses tivera direito a um fato azul e vermelho com o homem morcego estampado, enquanto Penélope se vestira de veludo azul, como a Pequena Sereia, aquela cuja verdadeira história nada tinha de Disney mas era sim um repositório de horrores e de violência de género – maldito Andresen, reflectia Penélope, enquanto coçava a cabeça, e que ainda bem que tudo se passara há umas décadas pois se fosse agora teria a pobre da mãe sido acusada de perpetuar estereótipos de género.
Paula Carvalho

Algures na China
Os morcegos de dentes arreganhados eram um grande problema.
Gostava do azul do crepúsculo colado com a noite, do silêncio deserto do mercado nocturno, um vasto chão cheio de sangue coalhado, animais esventrados. Os dentes dos morcegos a faiscar no escuro.
Ambrósio circulava pelas sombras cosido com o negrume, ainda assim apanhou o vírus. Quem anda à chuva molha-se.
Helena Campos

Até já! Voltamos depois do Verão.

vintage summer 06