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LABORATÓRIO DE TEXTOS

Esta é uma fresta por onde se pode espreitar o nosso laboratório.

Gostamos de experimentar textos, inventar espaços e condições especiais e neles deixarmo-nos espantar pelo que acontece.

Aqui, recolhemos algumas das linhas que vão sendo criadas em diferentes oficinas. Algumas delas, dirigidas a antigos alunos, como a Naftalina, são iniciativas regulares; outras, abertas a quem por cá passa, são encontros e iniciativas extra-aulas. Placas de Petri.

Os textos, produzidos no tempo e condições das sessões, têm como único — e suficiente — critério de publicação a vontade do seu autor de vê-los aqui reproduzidos. Experimente ler, mas proteja-se: o prazer da experiência pode ser contagiante.

typewriter w 4 hands

 

 

Nesta edição terminámos 2 histórias: THAT’S ALL FOLKS e TUNEL DE CAMARATE Outras 3 histórias entraram: A MALA, UM DIA DE CHUVA NUM CAFÉ e FOLGA INDESEJADA
Cada história tem cinco capítulos e a cada sessão, sorteamos quem escreve o próximo.

Resumos:

Na nova história A MALA, Susana prepara-se para partir, põe a máscara e arrasta a mala. Na estação, o revisor diz-lhe que a protecção já não é necessária. Ela olha para a carruagem e finalmente percebe… o quê? Fica com o próximo escritor.

UM DIA DE CHUVA NUM CAFÉ começa com uma mulher hipnotizada pela língua desconhecida de outra mulher que fala ao telemóvel num café. Para onde caminhará este encantamento?

Problema sério na FOLGA INDESEJADA: um dia da semana tira folga com consequências em catadupa. Agora Sérgio Godinho está num dilema – o que vai acontecer ao tema da Feira da Ladra, às tantas da madrugada…? A rima, senhores, o que será da rima?

O SENHOR BELO deixa de cumprir o seu papel: adjectivar. A confusão e a revolta instalam-se. Não adianta procurar substitutos, aquele adjectivo não pode desaparecer assim de repente. Um ___ pandemónio. O Sr. Barata chega-se à frente, ainda com fresco sotaque dos brasis, propõe «um barato» como novo adjetivo nacional. Mas as entidades supremas não estão pelos ajustes. A Sra. Xenófoba vê aqui a sua oportunidade.

No CAMPO DE PAPOILAS um casal em fuga da cidade, sedento de liberdade está num campo de papoilas que os acolhe-os com o seu perfume e brisa. De repente cai uma chuvada, os trovões e apito do comboio confundem-se. O casal sorri sempre e fala em ir para casa.

O REGRESSO traz-nos Bruno de volta ao local onde viveu e com a memória de sirenes após um acidente contra uma árvore icónica da região. Vê-se à porta de uma casa que lhe é familiar. Uma voz chama-o. É Inocêncio, amigo de juventude, agora caído em desgraça. Tenta vender-lhe um candeeiro, mas enquanto Bruno matuta na infelicidade do amigo, este bate-lhe com o objecto na cabeça e sai do local aviado com a bem fornecida carteira de Bruno. De novo ouvem-se sirenes. Combalido, Bruno recorda que um amigo nunca foi boa rês. Subitamente leva a mão à carteira. Ufa… sim, a carta ainda lá está. Carta!?


A MALA I

Olhava a mala fechada, junto à porta e revia mentalmente o seu conteúdo. Será que se tinha esquecido de alguma coisa? Agarrou na mala, meteu-a em cima da mesa que estava no meio da sala e quando a ia abrir, parou. Como se poderia ter esquecido de alguma coisa numa casa que estava vazia. Restava apenas a mesa, o sofá onde tinha dormido e aquela mala que continha o que restava do seu passado e seria o início do seu futuro.
Pela janela aberta chegou o som de uma buzina em três toques curtos; tinha chegado o transporte para o terminal ferroviário. Susana arrastou a mala pelas escadas até sair para a rua onde o motorista lhe estendia uma máscara que prontamente ajeitou a tapar o nariz e a boca, um gesto que tinha repetido à exaustão nos últimos anos.
Atravessava a cidade deserta e pensava que não havia razão para ter estado tanto tempo à espera do transporte. Na realidade, já nem se lembrava de o ter pedido ou o que estaria ali a fazer. Chegou ao terminal e arrastou de novo a mala pelo cais à procura da linha certa. O revisor olhou para ela enquanto lhe estendia o bilhete e disse: sabe que já não é necessário usar máscara, não sabe? Olhou atentamente para o homem, mas foi só quando olhou para o interior da carruagem que percebeu.

Francisco Feio

 

UM DIA DE CHUVA, NUM CAFÉ I
 
Uma vez - era um dia de chuva e não tinha comigo o meu guarda-chuva- entrei num café que me ofereceu abrigo. Sentei-me e depois de mandar vir um chá para aquecer-me um pouco, chamou-me a atenção uma mulher que estava sentada numa mesa, não muito longe de mim. Conseguia ouvir as suas palavras, enquanto ela estava a falar ao telemóvel. Ela, porém, falava numa língua desconhecida para mim; era um idioma que na voz daquela mulher tinha um som melodioso, embora tenha percebido que havia alguma tristeza nas suas palavras. Tentei interpretar os seus pensamentos e o que estava a dizer, estava como que encantada pelo mistério que parecia envolver aquela voz e aquelas palavras.

Giuseppa Giangrande


FOLGA INDESEJADA I

Era uma vez um dia da semana que decidiu tirar folga por tempo indeterminado. Não queria saber da feira da Ladra, nem do Carnaval, nem de qualquer outro acontecimento que tivesse de ser alterado para outro dia qualquer.
Entregou o pré-aviso à coordenadora dos dias, a Semanada, que ficou assim, como dizer, chateada com F mesmo grande.
- Trabalha de 6 em 6 dias e quer folga? E agora, o que é que eu faço?
Telefonou ao Sérgio Godinho e, depois de lhe dizer todas aquelas coisas que se dizem a uma figura conhecida “Gosto muito da sua música, dos seus livros, etc…” disse-lhe, muito desconsolada.
- Tem uma letra de uma música que terá de alterar, porque a dita cuja decidiu tirar folga e, por lei, não podemos nem sequer dizer ou cantar o seu nome.
Depois de descobrir a que palavra se referia a Semanada, Sérgio Godinho tentou reformular a tão badalada canção.
A rapariga podia continuar a ir vender mágoas ao desbarato que isso não fazia diferença nenhuma. Também podia ir vender o que quisesse que era para onde dormia melhor. Mas, e o início? Será que podia começar assim:
- É quinta-feira, feira de Carcavelos, abre hoje às cinco da madrugada? Não rima.

Tiago Pina


O SENHOR BELO I, II

Há muito tempo atrás, houve um adjetivo que deixou de adjetivar.
Até esse dia, o senhor Belo sempre cumprira a sua função, respeitando sempre a sua ordem nas frases, não se baralhando com o género e o número e respeitando escrupulosamente os graus em que deveria aparecer.
Nunca ninguém tinha apresentado qualquer reclamação, nem feito queixa à entidade superior que mandava nos adjetivos. O senhor Belo não mostrava sinais de estar doente, de ter dificuldades financeiras nem de passar por alguma crise de amores.
Foi por isso com alguma estranheza que, quando se começou a perceber tal omissão, os outros adjetivos começaram, em surdina, a comentar:
- Agora, o Belo não adjetiva?
- O que é que se passou?
Começavam a surgir relatos de pessoas que se diziam muito incomodadas:
- Ontem, abri a janela, estava um sol magnífico e disse para os meus botões: Que ____ dia! mas surgiu uma voz que disse: Lamentamos, mas o adjetivo em causa não está disponível. Tente outro!
Os mais tolerantes ainda aceitavam a sugestão e procuravam um sinónimo, mas e os teimosos? Teimavam, insistiam e vociferavam:
- Tentar outro??? Eu quero o ____ e mais nenhum.
O Sr. Barata, que era vizinho do Sr. Belo, ouviu os acesos protestos e resolveu intervir. Tinha regressado há pouco tempo do Brasil, onde vivera 40 anos, e ainda não tinha decidido como ocupar a reforma. Teve uma ideia brilhante: foi falar com a sábia entidade superior que manda nos adjectivos e apresentou uma proposta. Ele, Barata, passaria a substituir o Sr. Belo nas frases de júbilo ou encanto, na sua versão masculina. Por exemplo: «que-----passeio!» passava a ser «que barato este passeio!»; ou «que barato foi este filme» em vez de «que ----filme».
A entidade superior que manda nos adjectivos, chamada Diccionário Final e Total da Língua Portuguesa, respondeu que Portugal não era o Brasil e que barato não significava necessariamente ----- no nosso País. E indeferiu a proposta, por unanimidade e com aclamação.
No outro extremo da rua vivia a Sra. Xenófoba, a quem agradou esta decisão. Viu a sua oportunidade e, movendo-se, sem alarde mas com firmeza, …..

Tiago Pina
Conceição Brito

 

O CAMPO DE PAPOILAS II

Os dois queriam ter uma nova vida, fugir da monotonia daqueles dias tão sombrios. Deixaram a cidade trazendo consigo, no coração, muitas e grandes esperanças. Não tinha sido fácil abandonar o seu lugar, mas agora aquela que era a sua velha vida ficou para trás deles.
O único desejo deles era ter a liberdade, livrar-se das obrigações que a sociedade lhes impunha.
O caminho tinha sido longo, finalmente chegaram a um lugar que parecia mágico: um campo enorme, cheio de papoilas apareceu aos olhos deles. Havia no ar uma ligeira brisa que acariciava o verde do campo e as flores vermelhas, que pareciam dançar ao ritmo daquele vento suave. Do campo exalava- se um perfume, trazido pelas papoilas que ondulavam no verde do prado…
Do quase nada apeteceu-lhes andar de comboio...
Do céu e de repente, muitas, muitas nuvens, quase tantas como papoilas; sofregamente, a chuva cai por sobre os lagos, por sobre as estufas, por sobre as papoilas, por sobre tantos e tantos cheiros que de uma só vez parece que se soltam e se desnorteiam...estavam em todo o lado... E eles sorriam.
Um relâmpago, a seguir outro...agora o trovão 1,2,3,4,5,6,7 BARRUUUUMMMM, ouve-se o comboio, uhh,uhh pouca terra, muita água, BARRRRUM, cada vez mais perto: 1,2 e 3 Ai ai!! Passa o combóio que só passa, não vai parar: " A seguir vem o próximo disse logo o maquinista desabafando para a máscara da farda, acenando para os pintos calçudos.
E as papoilas...essas dançavam e choravam: Tanta alegria, quanta liberdade desde que se com paciência se vai da sente à flor... Papoilas vermelhas, sem dor.
Água da cor do breu, aquele que aprendeu a brilhar. Chuva teimosa. Mora no céu, n sua casa são as nuvens e de vez em quando vem ver debaixo o nosso mesmo céu.
- Vamos para casa...não achas?
- Sim...
E sorriem.

Giuseppa Giangrande
Joana Dinis


O REGRESSO I, II, III

Tudo estava diferente desde que partira depois dos motins que assolaram a cidade naquele que seria o último verão da sua juventude. Não que houvesse uma data certa para a entrada na vida adulta, mas tudo o que acontecera nesses meses acabou por ser uma barreira que separa um antes e um depois. Um marco temporal gravado não só na memória, mas igualmente no corpo. Bruno está agora diante da frondosa árvore onde ainda estão visíveis, se bem que esbatidas pelo tempo, as marcas do violento embate da sua carrinha contra aquele tronco gigantesco, um ícone turístico local que refere serem necessários 12 homens para o abraçar. Fecha os olhos e fica à escuta. O som das sirenes é agora distante e a luz do dia esbateu as luzes azuis e vermelhas que ainda viu a bailar na noite antes de perder os sentidos.
Bruno está agora diante da casa que o viu nascer. Não tem nada a ver com a lembrança que tinha dela. Parece-lhe muito maior, o que é estranho pois com a idade os espaços vão-se tornando mais pequenos. Limpou os óculos calmamente e percebeu que afinal já não era a sua casa. Era uma construção que nada tinha a ver com a que tinha conhecido. Bruno, disse uma voz hesitante atrás dele. Voltou-se e disse que sim.
- Há quanto tempo!!! – exclamou a voz hesitante.
Bruno reconheceu-o pela mancha branca das pestanas.
- Inocêncio, o que é feito de ti, rapaz?
- Olha, cá vou andando. Isto está difícil.
Bruno olhou para Inocêncio com mais atenção e viu que, de facto, as coisas estavam espinhosas. O ar acabado, as calças rotas, os sapatos sem atacadores eram a prova dos espinhos que, por vezes, nos atravessam a vida. Na mão trazia um saco de plástico com qualquer coisa volumosa no interior.
- Estás a ver a tua antiga casa? Agora é uma loja de velharias.
- Pois, é o que estou a ver.
- Olha, não me queres comprar isto?
De dentro do saco tirou um candeeiro com ar de quem pertenceu ao cenário da Vila Faia ou que repousava na secretária de Duarte e Companhia.
- Precisava de vender isto, para ter algum para comer. Desde que fiquei sem trabalho que…
Bruno ficou sem reação. Inocêncio apercebeu-se e disse-lhe:
- Tu ainda tiveste sorte. Foste contra a bisarma, mas recebeste a indemnização da Câmara. Eu…
De facto, apesar de culpado do acidente, Bruno ainda conseguira processar o Estado porque a árvore já deveria ter sido deitada abaixo, apesar de atração local. O advogado de Bruno, Doutor Campos da Moita, senhor muito reconhecido na praça, lá desencantara o ofício que mandava a dita cuja para o maneta, de modo que Bruno ainda tinha alguns euros para se valer.
Inocêncio, num passe de magia, pegou no candeeiro, atirou-o contra a cabeça de Bruno e surripiou-lhe a carteira, onde algumas notas estavam alinhadas por ordem crescente.
Fugiu com elas, deixando Bruno no chão a ouvir novamente as sirenes que o vinham acudir.
E foi uma longa e dolorosa sessão de déjà vue: os carros de polícia a parar com um grito dos pneus no asfalto quente, os vultos fardados a correr na sua direcção, uma mão a tactear-lhe a cabeça «dói aqui?, dói aqui?». Doía em toda a parte, mas desta vez não desmaiou, apenas fechou os olhos para afastar o brilho insuportável do sol e esconder a sua não menos insuportável humilhação.
Que estúpido! O leopardo não muda as suas malhas e o Inocêncio, ladrãozeco recorrente, também não mudara as dele. Como pudera esquecer-se? O Inocência até cumprira pena por furto, mas não aprendia, voltava sempre ao seu mester preferido de apropriação de bens alheios. As vítimas já lhe conheciam o modus operandi e nem se davam ao trabalho de apresentar queixa: iam à sua procura, davam-lhe uma carga de pancada, recuperavam o que ainda podiam e, não podendo, lá lhe partiam uns dentes ou uns dedos, abriam-lhe uns lanhos na cabeça para ele não repetir a avaria.
Enquanto esperavam a ambulância, Bruno conseguiu, finalmente, abrir o olho que não estava magoado, e viu, com alívio, a sua carteira no chão, mesmo ali ao lado. Pegou-lhe e abriu-a com mãos trémulas de antecipação. Ainda lá estava a carta! Involuntariamente levou o envelope aos lábios e murmurou «obrigado, obrigado, graças a Deus».
Aquela carta era a razão por que voltara a esta terra do inferno, onde jurara nunca mais pôr os pés. Iria procurar quem a escrevera e, finalmente, tentar reconciliar-se com o passado.

Francisco Feio
Tiago Pina
Conceição Brito


O TÚNEL DE CAMARATE (completo)

Sem fazerem barulho, a lembrar os raides noturnos que faziam juntos, dirigiram-se para as traseiras do restaurante em direção ao túnel, que os livraria da multa por violação de todas as regras do dever de confinamento, não fosse dar-se o caso deste ser um túnel de escoamento de água que ia desaguar a um ribeiro.
Uma vez lá dentro, e como havia uma forte corrente de água a entrar, Zé Massano e Mário Antunes olharam um para o outro e o juramento que fizeram há muitos anos, ecoou nas paredes curvas do túnel:
- Ninguém fica para trás!
Esta promessa poderia fazer sentido no mato, agora ali em Camarate, no meio de um túnel que não se via a saída?
Zé Massano pegou no canivete que tinha no bolso, olhou para o companheiro de armas e…
Os dois avançaram no túnel.
O Zé pegara no canivete para que lhes desse sorte, como já tinha sido há muitos anos no mato. Quem sabe se também ali eles precisarem do canivete para combater contra feras verdadeiras ou imaginárias? O Zé e o Mário na realidade tinham de combater contra a corrente de água que continuava a subir e a encher. Os dois amigos olharam um para o outro: parecia impossível escapar aquela corrente que no final os submergiu e os arrastou.
Perderam os sentidos, mas tiveram a sorte do seu lado: a corrente livrou-os da escuridão e estreiteza do túnel e devolveu-os à luz, à normalidade tão desejada no tempo do confinamento.
Ampararam-se um no outro e saíram do ribeiro. Ou melhor, da água que aquilo de ribeiro tinha muito pouco. Eram duas fracas figuras que se sentavam agora na margem do corredor de água, cobertos de limos e outras coisas bem menos higiénicas. Mário, olhando para o companheiro a tentar, sem sucesso, recompor a sua imagem, não conseguiu domar uma alta gargalhada.
“Estás a rir-te de quê, oh artista? Deves pensar que estás com melhor ar que eu!” – disse Zé Massano furioso.
“Estou de rir-me de nós. Dois velhos viúvos, que combateram na guerra, que sobreviveram a sei lá mais o quê, não conseguiram ficar em casa dois ou três dias nesta altura de doidos sem se encontrarem para beber um copito. E agora andaram a rastejar dentro de um esgoto para não terem de ouvir um ralhete da polícia e desembolsar umas dezenas de Euros. Diz-me tu se não é para rir…”
Zé Massano não se deixou levar pela súbita boa disposição do companheiro e alargou o seu queixume:
“Pois eu não acho graça nenhuma, até porque o pior ainda está para chegar.” Dada a surpresa de Mário, lá decidiu explicar que tinha dito à filha, com quem vivia, que ia só à Farmácia porque se lhe tinham acabado os comprimidos para a tensão. “Como é que lhe explico agora aparecer neste estado?”.
Mário esboçou um sorriso e disse com calma: “Fácil, escuta com atenção...”
- Dizes à tua filha que apanhaste uma molha. Estava ou não estava a chover torrencialmente quando chegamos ao restaurante?
- É verdade, estava.
Tinham desaguado em parte incerta, os pés a enterrarem-se em lamas e limos. Era uma zona baldia, florestada que se estendia à frente deles. Deambularam livremente a respirar o ar sem ameaças de vírus, sem obrigações de máscaras e álcool até que avistaram sob uma árvore frondosa de vastos galhos pendentes, os olhos vítreos de um cadáver que ali jazia. Era de um rapaz novo, e ainda estava bastante inteiro. Aqueles olhos, o cheiro a esgoto, a morte também cheirava a esgoto não no princípio, uns dias depois, mas este cheiro não era do cadáver, era deles, só deles, "ninguém fica para trás"... Zé Massano ouviu a mina a explodir outra vez, apertou o canivete, os nós dos dedos brancos e doridos. Gritos, pedaços de carne a semear a terra vermelha e sedenta. Não conseguia respirar, e agora não era por causa da máscara. Eram esses olhos, sempre os olhos, silenciosos, doloridos, mortos. Quietos.
Mário ria-se, ria-se, ria-se, ria cada vez mais, as palavras tão presas no peito, que nem as gargalhadas as conseguiam libertar.
Era de um rapaz novo, e ainda bastante inteiro, como eles antes da guerra.

Tiago Pina
Giuseppa Giangrande
Francisco Semedo
Helena Campos
Patrícia Louro


«THAT'S ALL FOLKS» (completo)

«That’s all folks!», repetia entredentes, enquanto esperava atrás da porta. Não lhe arrancariam nem mais uma palavra. Não é que tivesse alergia às palavras, ou suspeitasse da sua inutilidade. Aos seus olhos era mais simples: tinha uma vida inteira de palavras a falar por si, uma vida inteira de ações a substanciar essas palavras. Eram muitas palavras, ditas, repetidas, demasiadas vezes, demasiado o mesmo. Agora acumulava-se-lhe nos ossos o cansaço, uma certeza cimentada pelo cansaço, pela repetição das mesmas perguntas, pela procura incessante das respostas certas que parassem as perguntas. Ou de respostas que mudassem as perguntas. Se alguém quisesse saber porquê, só tinha de percorrer para trás o caminho que tinha trazido os seus saltos altos até aqui, a esta porta.
«That’s all folks!», a mão suada e trémula rodou a maçaneta e saiu.
O sol que brilhava lá fora contrastou dolorosamente nos seus olhos com a escuridão de onde saia. Quando os conseguiu abrir viu o jardim. O mesmo jardim que em criança tinha visto pela primeira vez no dia em que, a custo de uns joelhos esfolados, subiu a árvore para o espreitar por cima do alto muro. Parecera-lhe encantado como nas histórias, falsas, que lhe liam. As sebes cortadas com uma precisão microscópica, o cheiro quente das flores e a grande fonte no meio. Hoje tudo estava assustadoramente igual, mas o encanto esse tinha abandonado aquelas partes há muito tempo. Durante anos pensou como seria estar ali e agora só lhe faltava um passo. Deu-o. A ausência de sentimentos desiludiu-a. Continuou a andar até chegar à fonte e parou em frente dela. Olhou para cima e, por um instante, viu-o, criança, lá em cima outra vez. Como naquele dia em que ele lhe falou, do cimo da fonte para o cimo da árvore. Fechou os olhos e sacudiu a angústia.
“Estão prontos para a receber!” ouviu do outro lado do jardim. «That’s all folks!» sibilou baixinho. De uma maneira ou de outra, hoje tudo acabava.
Mas não era assim: naquele dia nada acabava. A história dela seguia, continuava graças a água da fonte que a lavou, a livrou de todas as angústias.
Voltaram os sentimentos e ela voltou a vê-lo, ali no cimo da árvore. Fechou os olhos e chegou à altura dele. Não sentia cansaço, apenas alegria; parou à frente dele. O seu coração começou a bater quando pensou: será que ele me vai dar respostas que mudem as perguntas? Respostas certas? Vão deixar as palavras de falar por si? Mas ele só disse que nada para ela acabava, teriam de falar para ela ter as certezas de precisava.
Dirigiu-se aos advogados que a esperavam para finalmente poderem ler o testamento do seu Pai. Eram três senhores engravatados com ar altivo. Sentou-se calmamente ainda com a imagem dele no cimo da árvore e à medida que iam lendo o que o Pai decidira, ia-se formando uma ideia - cada vez mais clara - que este seria o início e o fim de tudo o que a atormentava há tanto tempo.
"That's all folks!", ressoava no seu peito.
A voz monocórdica de um deles dizia que o Pai tinha uma fortuna avaliada num milhão de Euros.
Estremeceu.
Um milhão de euros resolvia tudo. Não haveria mais perguntas nem mais respostas. Um milhão de euros era a resposta. Não há nada no mundo que o dinheiro não resolva. E quando transportou pelo jardim a pasta milionária, ele já não estava lá.

Patrícia Louro
Francisco Semedo
Giuseppa Giangrande
Mariana Matias
Helena Campos


MINIATURAS (completo)

Para maior cidade do universo, era demasiado pequena. Já era a terceira vez esta semana que se cruzava com as mesmas pessoas a caminho do emprego. É verdade que era sempre em sítios diferentes do percurso, mas eram sempre as mesmas pessoas e sempre na mesma sequência. O mais estranho de tudo é que as conhecia a todas, de vista, mas de cidades diferentes onde tinha vivido em momentos dispersos da sua vida. Tinha mudado para aqui havia 2 anos e não estava arrependido de ter aceitado a oferta de emprego que lhe tinha aparecido, um pouco do nada, mas no momento certo. Foi num impulso que aceitou e só pensou na decisão que tinha tomado no dia seguinte, enquanto atravessava os ares a caminho da que viria a ser, ainda não o sabia, a última cidade que iria conhecer. Para trás deixava uma vida sem grande história, ou com história nenhuma, já que tudo o que tinha de importante lhe coube numa pequena mala que jazia agora no porão do avião onde seguia. Nem telefonou ao patrão a dizer que não voltava; talvez o fizesse depois de chegar.
A manhã estava luminosa, a temperatura tinha subido e atravessava a cidade a passo não muito rápido, mas decidido. Foi quando chegou ao cruzamento e parou à espera da mudança do semáforo, que o dia ia irremediavelmente mudar. Olhou em frente e lá estava.
Lá estava ela. Nunca teria imaginado que iria vê-la novamente.
De algum modo, tinha ficado nas suas lembranças, talvez mais do que qualquer outra pessoa de todas as cidades onde tinha vivido.
O aspeto mais estranho desse encontro imprevisto e inesperado era que ela tinha significado algo na sua vida sem histórias, ou melhor, naquela vida que acreditava ser sem histórias.
Não falaram, apenas olharam um para outro: naquele momento, teve a certeza de que a sua vida, de repente, tinha mudado e para sempre.
Tomou uma decisão: ia ficar, não sabia porquê, mas tinha essa certeza.
Ia ficar porque agora era o seu coração que lhe dizia isso: volta atrás e fica.
Depois de refrear o impulso de andarilho, pensou em todas as qualidades deste lugar. Trânsito ordenado, ruas limpas, parques de quebrar de cansaço quaisquer pernas. E abraçou esta última ideia. Resolveu pôr-se em forma e foi correr diariamente, depois do trabalho, para a mancha verde em frente ao seu apartamento de varanda envidraçada. E rematava o exercício com uma caminhada lenta e ritmada, exatamente no sentido que a vira percorrer.
Passaram-se os meses e a sua balança já lhe sorria alegremente. Um peso conforme à moda e um mar de possibilidades para a saúde e para um vestuário atraente. Mas dela, nem sinais. Praguejava fortemente, amaldiçoando o seu acanhamento. Acrescentou um passatempo à sua vida. Ingressou numa turma de olaria e depressa se sentiu em casa, de tal modo o cheiro do barro lhe lembrava a terra onde plantava legumes e batatas com o seu avô. Em breve a prateleira superior da estante maior ficou apinhada de troféus multiformes.
Quando as obras de louça já chegavam perto do fogão, pensou que talvez já fosse hora de se iniciar na cozinha, que, pelo menos, gerava obras perecíveis e comestíveis. Tão bem-sucedido foi que, em ano e meio, já se preparava para se aventurar numa escola de Cordons Bleus. Mas Matilde tardava em dar sinais de vida e ele não queria desprender-se de mais uma cidade que implicava agora um corte com o seu fundo mais emocional. Porém, avançou. Chegada a semana da viagem desejada e com os documentos prontos para a partida, o patrão previamente informado, já estava mais conformado e sonhava com a Cidade Luz. Quem sabe se dali não surgiria um brilho mais forte para o seu futuro?
Decidiu que, se era para cortar amarras, devia deixar tudo para trás. Já tinha cancelado o contrato de arrendamento e vendido quase todos os pertences. Faltava apenas a sua singela coleção de obras de olaria. Por alguma razão era difícil pensar em desfazer-se delas. Talvez porque representavam a esperança de que tudo podia ser diferente. Foi quando viu Matilde, que fez as mudanças na sua vida que o levaram a dedicar-se a elas. A primeira que tinha feito era até uma tentativa da silhueta dela. De qualquer forma, a decisão estava tomada. Tinha abandonado a esperança e, sendo assim, não podia guardar resquícios que o fizessem pensar o contrário. Dirigiu-se à estante despida e enfiou as pequenas peças numa sacola de pano. Num qualquer fórum na Internet tinham-lhe recomendado uma galeria de escultura que, diziam, fazia boas ofertas por qualquer pedaço de barro minimamente moldado. Pegou na sacola e saiu de casa. Quando chegou à rua percebeu que estava triste, mas isso não era novidade. Decidiu ir a pé para arejar a melancolia.
Chegado à morada indicada, de olhos postos nos números no topo das ombreiras das portas trabalhadas, palmilhou a calçada em busca do 145. A avenida estava a chegar ao fim e ainda ia no 99. Sentiu a esperança novamente a importuná-lo, mas durou pouco e rapidamente, por qualquer razão, os números das portas saltaram do 103 para o 143. Com o conforto da desilusão, decidiu percorrer as portas que restavam de olhos no chão. Olhou para cima. A tabuleta reflectiu o Sol contra ele e entrou ainda meio encadeado, balbuciando um qualquer cumprimento à turva personagem na sua frente. Depois ouviu Matilde.
E ali estava ela, recortada em contraluz, tal como a vira na primeira vez. Era a dona da galeria que lhe ia comprar as peças. Ele sempre há coincidências!
- Há quanto tempo! – sussurraram ambos, ele com as mãos um tanto trémulas, subitamente tímido, diante daquele sonho materializado, ela com as peças esquecidas nas mãos. Trôpegos como dois adolescentes, saíram e percorreram as ruas da cidade aproveitando a última luz do ocaso. E seria aquela para ele a última cidade. O trota-mundos que ele fora encontrara por fim o seu porto de abrigo.

Francisco Feio
Giuseppa Giangrande
Lídia Vieira
Francisco Semedo
Helena Campos


A LÍNGUA DOS OLHOS (completo)

Olhou para o espelho: os olhos dela falavam.
Falavam em muitas coisas, em inumeráveis sentimentos e sensações, às vezes tempestuosas.
Os olhos, porém, queriam que ela também falasse, que desse liberdade a tudo aquilo que ela sentia e tinha no seu coração.
Então ela pediu aos seus olhos que falassem, que continuassem a falar, porque ela não conseguia expressar claramente os seus sentimentos, aquilo que estava fechado no seu coração e que não podia dizer através da sua voz.
E foi naquele momento que os seus olhos falaram novamente, com lágrimas.
Eram lágrimas de felicidade ou de tristeza? Era saudade? De quem? De quê?
Caiam pele fora, gota a gota, recheadas de lembranças, memórias e angústias.
Os olhos queriam que ela falasse daquela tarde, daquele revirar tão abrupto na sua vida.
As lágrimas eram de profunda tristeza, pelo vazio imenso que se instalou no seu peito ao ver a sua casa em chamas.
Regressar a esse dia era demasiado doloroso, pelas coisas que desapareceram, mas particularmente, por tudo aquilo que lá vivera.
Mas o que ela não queria mesmo revisitar dentro de si era o porquê daquele incêndio.
Aí, as lágrimas pararam de cair.
Não aguentava mais o som, por isso fechou os olhos para os silenciar. Já tinha revivido aquela tarde cem vezes. “Não foi culpa tua”, murmurou para si mesma, com doçura. Mas quando reabriu os olhos eles disseram-lhe, molhados, a mesma coisa que todos os olhos que a olharam desde esse dia. “Mataste-os a todos. Perdeste o controlo e mataste-os”. Calou novamente os olhos. Inspirou fundo, expirou com força e calma ao mesmo tempo e numa paz fingida voltou lá. O gosto das lágrimas na boca era igual ao que tinha sentido. Ouviu outra vez os gritos ameaçadores e sentiu outra vez o frio no peito, que lhe entrava pela sua camisa rasgada. Sentiu o mesmo medo e em todo o corpo voltou a tremer. Queria fugir, mas não sabia para onde se aquela era a única casa que tinha conhecido. Todos os que amou na vida estavam ou tinham estado ali. Ouviu outra vez os passos atrás de si e gritos, mais gritos. Seria possível o amor transformar-se naquilo? Sentiu outra vez o puxão nos cabelos. Deixou-se cair de joelhos da mesma forma que caíra quando foi atirada naquela tarde. Sentiu a mesma raiva a chegar à garganta, mas hoje não gritou. Hoje não entregou a sua mão à lareira, nem pegou com ela nas brasas iluminadas, nem lhas atirou. Hoje não se ergueu. E hoje também não ia fugir.
Eulália, Láli para todos os que a amavam, estava desfeita de tal forma que já não lhe restavam forças para remoer o funesto incêndio.
Sim, tinham morrido todos. Sim, tinha sido a única a salvar-se por causa de um vício que a matava aos poucos. Sim, uma parte de si tinha ido com as fagulhas, como ia a outra parte sempre que cedia à prata castanha.
Já tinha sido julgada, condenada e decapitada por todos os que a conheciam.
Levantou-se e foi até aos escombros; o cheiro a queimado, a claridade das labaredas, os gritos, as lágrimas acordaram rapidamente.
Eulália, presa na sua cabeça, entrou na drogaria ao lado do que outrora fora a sua casa, comprou álcool, material inflamável e, dirigindo-se para as ruínas, ateou um fogo na esperança de que este levasse a memória e trouxesse de volta os seus filhos, o seu marido que dormiam tranquilamente a sesta quando Lália deixou o cigarro acesso ao pé do fogão e saiu para se ir envenenar mais um pouco.
O fogo apenas ardia como o coração dela e os seus olhos. Eulália, pouco a pouco, teve consciência de que aquele fogo nunca faria regressar os seus filhos e o seu marido. Percebeu uma vez mais a sua solidão, o seu sentimento de culpa, todas as culpas caíam sobre ela, era impossível encontrar uma saída.
Então, voltou ao espelho e os seus olhos falaram-lhe esta vez, falaram-lhe ainda com as lágrimas que caíram no seu rosto e chegaram ao seu coração para a livrar, como por milagre, dos remorsos que tinha e que a perseguiam. Preparou uma mala com poucas coisas e foi-se embora. Pôs-se a caminho para fazer uma viagem que podia significar recuperar a sua vida, ou melhor, encontrar a salvação. Os olhos tinham-lhe dito: havia ainda uma possibilidade de salvação para ela.

Giuseppa Giangrande
Mariana Matias
Francisco Semedo
Tiago Pina
Giuseppa Giangrande


CONTOS PROIBIDOS (completo)

A carta tinha ido para a morada errada. E ainda bem. Passo a explicar. Há uns anos emprestaram-me um livro muito raro, sobre um escândalo político e financeiro passado em Macau, de que só houve primeira edição, tendo o autor, entretanto, asilado em parte incerta. Li-o e reli-o, depois guardei-o na estante, sempre com a ideia de o devolver. O tempo foi passando e um dia recebi uma sms do proprietário do livro, reclamando-o. Passaram mais uns dias, talvez semanas, e nova sms. Finalmente decidi-me - embrulhei o livro em papel pardo (tenho resmas em casa), atei o embrulho com um cordel daqueles antigos, que já só se encontra nas drogarias dos bairros onde ainda há drogarias, um cordel de duas cores – azul e cru, verde e cru, vermelho e cru (este era preto e cru) – e escrevi “LIVRO” no embrulho, assim me livrando de escrever uma qualquer nota de pedido de desculpas pois a tarifa de expedição de livros não permite, sequer, que nele vá agarrado um cabelo quanto mais um cartão de visita. Afincadamente, escrevi o nome e a morada do destinatário. Quer dizer, escrevi o nome do destinatário e a rua onde ele residia. Como a morada só se completa com o código postal, foi aqui que a história começou (ou continuou, pois começar tinha começado quando me emprestaram o livro), ao inserir o meu código postal e não o do destinatário.
A princípio estranhei não ter notícia do destinatário, que tanta pressa parecia ter em reaver o livro; depois não pensei mais no assunto até ao dia em que chegou mais uma mensagem a perguntar se sempre o tinha enviado. Respondi que sim e não voltei a ter resposta. O assunto estava encerrado e um dia, ao regressar de viagem, esperava-me um postal dos correios para ir levantar uma encomenda, com a menção “morada desconhecida”. Entreguei o postal e devolveram-me a minha encomenda. Segundo o funcionário, aquela morada não existia naquele código postal. Existiam 52 ruas com o mesmo nome no país, 26 com o mesmo número de porta, 8 com o mesmo andar, mas nenhuma naquele código postal. Ainda me perguntou se sendo tão perto, não seria melhor ir entregá-la em mão. Perante a minha estranheza apontou-me o código postal e disse-me: a rua não conheço, mas este código é desta zona e abrange três quarteirões.
Levei o embrulho comigo. Estava tal e qual o tinha feito, com o mesmo papel pardo atado com o mesmo fio de cores. Abri-o para fazer um novo e quando folheei o livro, escorregou de entre as páginas uma fotografia que ali deve ter ficado esquecida. Olhei-a. Nunca a tinha visto e parecia-me que não seria minha. Foi quando olhei com mais atenção que percebi. Ou melhor, que nunca iria perceber o que se estava a passar.
Peguei na fotografia e o meu corpo, primeiro a cabeça, depois o resto dos membros,
mergulhou para dentro do retrato.
Dei comigo em Lisboa, eu que não punha lá os pés há 20 anos, na rua onde crescera e passara a minha infância.
A rua estava igual à memória que mantinha dela; o jardim onde berlindava, parecia chamar-me como quando tinha 6 anos e corria para lá; as mesmas pessoas, o Sr. Alberto, sentado no banco, a gritar «Foi penalty», tudo parecia ter ficado em 1999, ano em que fugi para Macau, ter com o meu pai que, coitado, sofria com as calúnias de um escândalo em que se vira envolvido com uns magnatas macaenses.
Estava em Alvalade, mas sabia que não era possível; ninguém mergulha para dentro de uma fotografia e toma parte da ação. Desci a rua e dei de caras com o «Lulu», meu amigo de sempre e por quem sempre tinha tido uma paixão. Este reconheceu-me e, antes que pudesse dizer alguma coisa, tirou uma pistola e disparou dois tiros que me acertaram na cabeça.
- Um é por me fazeres passar por menina e o outro é pelo meu pai que se suicidou por causa do teu.
O meu corpo jazia na rua, na minha rua, mas eu não estava morto. Como nos sonhos, nas histórias não se morre.
Instintivamente anunciei-lhe o próprio nome, ao que ela respondeu:
“Sim, bem sei quem sou. E quem vem a ser o senhor?” – Continuei estarrecido a olhar para ela sem dizer uma palavra. Não a via desde que fugi com o pai para Macau mas tudo nela estava perturbantemente igual. O sorriso cínico, as mãos esguias, as sobrancelhas finas, a olhar impaciente. Dei conta então que estava a tremer. Tanto tempo passado a sonhar com isto e no fim só tinha de voltar aqui. Mas o que fazia ela em casa do “Lulu”? Num instante, coberto de antecipação olhei para a mão de Filomena. Nada de aliança.
“Desculpe, mas tenho mais que fazer do que ficar aqui a olhar para si? Acabei de mudar para esta casa e tenho muita coisa por arrumar. Sabe, o antigo dono dela era um antigo colega de escola, que soube há pouco tempo ter morrido e… Enfim, posso ajudá-lo com alguma coisa?” – Aparentemente, o meu aspeto estava mais mudado que o dela. Lembrei-me de todas as vezes que a fora buscar a casa dos pais para passear no Jardim e finalmente consegui dizer:
“Só um momento! Peço imensa desculpa, mas preciso de fazer uma coisa”
Virei costa e fui a correr ao jardim, colhi uma rosa vermelha e voltei à porta, que como expectável estava fechada. Bati. Filomena abriu e antes que pudesse descarregar em mim a raiva que tinha nos olhos disse:
“Nunca antes estive à tua porta sem te trazer uma rosa vermelha… Não seria hoje a primeira vez”. A raiva sumiu-se-lhe dos olhos e trocou-a por surpresa:
“Cristóvão?” – disse ela.
Sorri e respondi: “Que me dizes, vamos passear no jardim?”
Vi o «Lulu» afastar-se, acender um cigarro (será que ainda fumava SG Gigante?) e eu só me perguntava como é que tinha escrito o meu código postal e não o do dono do livro.
Fechei os olhos e quando os abri senti uma violenta dor de cabeça: tinha batido com a testa na esquina da mesa quando me baixei para apanhar a foto que deslizara de dentro do livro para o chão.
O Lulu, murmurei com estranheza. O estupor do Lulu tinha-me dado dois tiros, ainda que fictícios, a mim, seu fã incondicional! Sabia lá que os outros lhe chamavam menina! Para mim ele era o sol que iluminava o meu planeta…até ao dia em que dei de caras com a Filomena e a minha vida mudou para sempre…pelo menos durante algum tempo!
É verdade que ele fez umas cenas camilianas debaixo da minha janela, encheu o pátio da escola com dislates e ameaças, mas o meu destino estava traçado: Filomena ou nada!
Esta mudança alegrou imensamente o meu progenitor, conservador empedernido, mas teve consequências funestas para o Lulu, cujo pai, igualmente dinossáurico e inimigo do meu pai, se atirou de carro, da falésia de Peniche para o mar.
Todas estas recordações passaram diante dos meus olhos, com uma clareza dolorosa. Deve ter sido da pancada, concluí.
Sem vislumbrar culpa, nem saber porquê, senti uns violentos remorsos pela estultícia da minha juventude e decidi tentar corrigir o que ainda podia ser corrigido, nem que fosse só para, egoistamente, sentir algum apaziguamento.
Vou procurar o Lulu, pode ser que esta espécie de sonho tenha sido um aviso. Será que ainda mora na mesma casa?
Rapidamente, chamei um Uber e desci em frente daquela moradia que tão bem conhecera. Com mão trémula toquei a campainha e afastei-me um pouco, sem saber bem porquê.
A porta abriu-se com vigor e à minha frente surgiu uma imagem que nunca esquecera: Filomena!
Instintivamente anunciei-lhe o próprio nome, ao que ela respondeu: “Sim, bem sei quem sou. E quem vem a ser o senhor?” – Continuei estarrecido a olhar para ela sem dizer uma palavra. Não a via desde que fugi com o pai para Macau mas tudo nela estava perturbantemente igual. O sorriso cínico, as mãos esguias, as sobrancelhas finas, a olhar impaciente. Dei conta então que estava a tremer. Tanto tempo passado a sonhar com isto e no fim só tinha de voltar aqui. Mas o que fazia ela em casa do “Lulu”? Num instante, coberto de antecipação olhei para a mão de Filomena. Nada de aliança.
“Desculpe, mas tenho mais que fazer do que ficar aqui a olhar para si? Acabei de mudar para esta casa e tenho muita coisa por arrumar. Sabe, o antigo dono dela era um antigo colega de escola, que soube há pouco tempo ter morrido e… Enfim, posso ajudá-lo com alguma coisa?” – Aparentemente, o meu aspeto estava mais mudado que o dela. Lembrei-me de todas as vezes que a fora buscar a casa dos pais para passear no Jardim e finalmente consegui dizer:
“Só um momento! Peço imensa desculpa, mas preciso de fazer uma coisa”
Virei costa e fui a correr ao jardim, colhi uma rosa vermelha e voltei à porta, que como expectável estava fechada. Bati. Filomena abriu e antes que pudesse descarregar em mim a raiva que tinha nos olhos disse:
“Nunca antes estive à tua porta sem te trazer uma rosa vermelha… Não seria hoje a primeira vez”. A raiva sumiu-se-lhe dos olhos e trocou-a por surpresa:
“Cristóvão?” – disse ela.
Sorri e respondi: “Que me dizes, vamos passear no jardim?”

Paula Carvalho
Francisco Feio
Tiago Pina
Conceição Brito
Francisco Semedo

 

BOLSOS VIVIDOS (completo)

As poucas vezes que levou as mãos aos bolsos, sentiu percorrer-lhe o corpo um arrepio desvairado que o levou, em menos de um ápice, a deitar-se na cama, com mantas encardidas por cima e a cabeça tapada por um gorro, de repasto das muitas traças que faziam vida nos seus armários. Assegurava, num tom de voz de militar de ocasião, que jamais o veriam colocar novamente as mãos nos bolsos, que já por mais vezes do que as que conseguia contar estivera às portas da morte e não fosse a sua Rosarinho, de mãos de orquídea e pescoço de salvação, estaria já desfeito e comido por larvas. "Porque não usas tu calças sem bolsos, se tanta maleita te provocam?", perguntavam os amigos. Isso a eles não lhes dizia respeito, mas a sua Rosarinho, que cheirava a terra molhada e chorava sonhos alados, da sua respiração brilhante, sussurrava que nos bolsos das calças ficam os restos de vida que durante o dia abandonamos. Agora, a sua Rosarinho respirava vazia em cima da cama.
E ele não conseguia deixar de pensar nas suas palavras: porventura, nos bolsos aterradores, iria encontrar a memória viva e vívida, das últimas horas de Rosarinho?
À medida que a respiração dela se ia desvanecendo, tomou uma decisão: aconchegou a delicada mão na sua e, cuidadosamente, deslizou os dedos para dentro de um dos bolsos. Um clarão de amor quase o cegou e sentiu o coração transbordar. Segurou firmemente a mão de Rosarinho e ouviu a sua voz dizer “eu estou contigo, aqui e agora, não tenhas receio”. Olhou-a e deixou-se envolver pelo brilho da sua respiração. O rosto permanecia tranquilo, imóvel.
“Onde estás, minha querida? Para que mundo me estás a levar?”
Os olhos de Rosarinho abriram-se num cintilar de diamante, os lábios desenharam um sorriso e murmurou, sem falar, “não tenhas receio, vem comigo”.
Ele deixou-se envolver por uma cornucópia de cores e partiu num sonho alado, antes de perder a consciência.
A sua mão nunca largou a de Rosarinho durante a alucinante descida em espiral pela cornucópia colorida. A descida parecia não ter fim, a cada 360 graus a velocidade da queda amentava exponencialmente: onde iriam parar? Procurou o olhar de Rosarinho em busca de um porto seguro e descansou quando viu o seu sorriso.
De repente pararam e ficaram como que suspensos no vazio, as mãos sempre juntas, os olhares presos. As cores da cornucópia desvaneceram lentamente, o cenário tornou-se mais nítido.
Estavam no quintal da casa da avó na aldeia serrana. António já não tinha o gorro traçado na cabeça e vestia uns calções de linho e uns ténis de pano. Era verão e as cigarras faziam uma barulheira infernal ao longe. António sentiu o bolso esquerdo pesado, como que a puxar-lhe os calções para baixo. Olhou novamente para Rosarinho e, sem nunca desviar o olhar, meteu a mão devagarinho no bolso. Assustou-quando os seus dedos tocaram numa superfície fria e perfeitamente lisa: eram os seus berlindes.
Donde teriam surgido? Tinha deles uma cruel lembrança, tinha a certeza que os tinha deitado para o rio depois daquele horrível acidente com a sua irmã pequenina, a Susana. Os seus olhos continuaram a fitar Rosarinho que, suavemente, entrelaçou os dedos nos seus e, juntos, retiraram as esferas multicolores do bolso, e deixaram-nas rolar por entre as mãos para o solo quente.
A náusea ácida queimou-lhe a garganta e cortou-lhe a respiração. Reviveu o momento, há tantos anos, em que se apercebeu que a sua irmãzinha parara de brincar com estes mesmos berlindes e jazia imóvel no chão.
Ele estava proibido de jogar com eles perto da criança, pareciam rebuçados e eram tentadores e perigosos.
A mãe tinha-lhe dito que olhasse pela mana durante a manhã. Escondeu os berlindes na concha da mão, que enfiou no bolso dos calções, e foram ter com os seus amigos.
Foi divertido, mas subitamente apercebeu-se que a Susana fora engolindo os berlindes que deixara abandonados no chão. O terror que sentiu mudou-o para sempre.
Mas agora Rosarinho segurou-lhe ambas as mãos e disse, num murmúrio: «Observa o passado. Acabou o teu pesadelo, podes começar a esquecer»
Ele continua deitado, imóvel, indiferente à azáfama que reina à sua volta. Na cabeça ressoam estas últimas palavras de Rosarinho sobre observar o passado e começar a esquecer. Sente-se mais confuso que o habitual. Como pode ele observar algo que começa a esquecer? A mão está fria, mais fria que o corpo. Reparou agora que tem alguma coisa na mão. Abre-a lentamente e descobre um grande berlinde de vidro, com as habituais torções coloridas no interior. Olha atentamente a esfera transparente à procura da sua irmã Susana e de Rosarinho, mas não encontra qualquer sinal delas. O quintal da casa da serra, que parecia estar ainda agora ali na sua memória, desaparecia à medida que ia rodando o vidro na sua mão. Talvez as palavras de Rosarinho não fossem um pedido, mas apenas a descrição do que seguia. A acidez na garganta voltou e pela primeira vez pareceu dar sinais de vida. Olhou com dificuldade a mão e o berlinde tinha desaparecido. Resignou-se; já nem sabia de onde lhe tinha aparecido aquilo na mão. Esquecer, era a única coisa de que se lembrava. E o pesadelo talvez fosse aquele apito intermitente que parecia marcar um compasso lento acompanhando a sua respiração. Já não se apercebeu quando o som ficou contínuo. Ainda menos quando se calou.

Rodrigo Rufino
Conceição Brito
Inês Rodrigues
Conceição Brito
Francisco Feio


O CONGRESSO (completo)

Odiava aquelas festas infindáveis da embaixada: muitos sorrisos, muita conversa oca, muitas mentiras simpáticas e cansativas, muito nada fazer para parecer fazer alguma coisa. O surdo tumulto das vozes, com decibéis ditados pelo champagne generoso, as luzes brilhantes e cansativas, a música de fundo num martelar constante do inconsciente, eram o cenário habitual de tais acontecimentos.
Meu deus, o tempo que estas coisas demoram. Ainda não percebi a utilidade disto tudo. Amanhã vamos continuar a fazer tudo da mesma maneira.
E o meu contacto que nunca mais aparece
Mais um sorriso, «que prazer, há quanto tempo não o via, temos que nos encontrar para um café tranquilo» e desistiu de esperar. A dor de cabeça era insuportável, amanhã tinha uma reunião preparatória do congresso logo de manhã bem cedo. Será que esta gente nunca dorme? intrigou-se.
Pediu o casaco na recepção, e saiu para a frescura da noite. Até o cheiro intenso de combustível lhe pareceu um bálsamo.
Acenou a um táxi que se aproximava e, quando ia entrar, ouviu uma voz, que bem conhecia, dizer: «entre, tenho estado à sua espera»
Ainda hoje não sabe explicar a razão de ter entrado no táxi e não ter estranhado de imediato vê-la ali, tantos anos depois, exatamente na mesma, com o mesmo ar com que a tinha deixado, da última vez que se viram, na improvisada sala de embarque no aeroporto para onde tinham ido na esperança de apanhar os últimos voos a sair do país. Foram tempos complicados e o mundo nunca mais voltaria a ser o mesmo, apesar das festas regulares organizadas nas diversas embaixadas pretenderem o contrário. Julgava-te morto, disse ela. Já tinha deixado de te procurar e foi numa mensagem sobre o congresso que soube que tinhas reaparecido. Pois eu tinha a certeza que não tinhas escapado quando toda a tua delegação desapareceu sem deixar rasto, disse ele. Primeiro as pequenas revoluções que grassaram um pouco por todo o lado, depois o vírus que veio para ficar e agora isto. Ela ouvia em silêncio. O táxi continuava a atravessar a cidade e ele desviou o olhar para o exterior. À medida que a cidade se desenrolava na janela ia sentindo alguma estranheza que não sabia identificar. Finalmente pararam. Ele abriu a porta para sair e ela disse-lhe: sabes que o congresso não pode acontecer. Amanhã tens de os convencer a desistir.
Saiu e ficou a olhar o táxi a afastar-se. Foi então que reparou que tinham andado às voltas. Estava exatamente no lugar de onde tinha saído. Mas estava num tempo diferente. A casa onde era agora a embaixada, estava tal e qual a tinham encontrado há vinte anos quando se mudaram para ali.
- Olhe desculpe – perguntou a um transeunte que passava - Em que ano estamos?
O outro olhou-o como se ele fosse um louco atarantado.
- Não sabe a quantas anda? Está bêbado? É claro que estamos em 1984.
Devo estar a sonhar, ou então é o Regresso ao futuro! – pensou enquanto cofiava a barba e o bigode inexistentes e entrou em casa porque a porta estava aberta. As paredes forradas com fotografias dela e pósteres de bandas rock Duran Duran, Spandau Ballet, Kajagogoo, Geoge Michael, David Bowie, Orchestral Manouvers in the Dark. Um telefone preto com uma roda de algarismos, um grande gira-discos, quatro leitores de cassetes, um leitor de vídeos. Bestial! Portugal ainda não entrou na CEE, não há telemóveis nem internet.
O que é que ela tinha dito? Para avisar os outros que não ia haver congresso? Que se lixassem! Toda a vida sonhara voltar à adolescência para escolher outro curso sem ser Direito. Ia regressar ao fim do liceu, ao momento exacto da candidatura à Universidade e escolher outra área.
E foi isso mesmo que fez quando a manhã chegou, depois de uma noite mal dormida em que não parava de pensar em toda a sequência de eventos que o tinham trazido até aquele momento. Quando chegou aos serviços do ministério, percebeu pela longa fila que era dia de candidatura. Levantou os impressos, tomou o seu lugar na fila, preencheu-os enquanto a linha de pessoas se ia escoando e esperou. Foi aí que reparou, pela primeira vez, que algo não estava certo. Toda a gente falava um pouco exaltada de uma série de acontecimentos a que chamavam o grande evento e que teria ocorrido uns dias antes. Atrás dele, um grupo cantava uma música que lhe era familiar, de uma banda que vivia num poster na parede do quarto onde tinha dormido. Tinha repetido aquela música vezes sem conta, com o seu grupo de amigos, mas tinha a certeza de que as palavras não eram exatamente aquelas. Percorria a lista das faculdades e eram todas iguais em todas as cidades do país, sem qualquer opção de curso e isso parecia não incomodar nenhum dos seus colegas que aguardavam como ele.
Quando estava a chegar à porta de entrada olhou para o outro lado da rua e viu um anúncio que ocupava a fachada toda do prédio e onde se lia “O Congresso espera por ti”.
Agora que pensava nisso, a única coisa de que se lembrava era de ter saído da embaixada e ter entrado num táxi. Estava certo de que a qualquer momento ia acordar e perceber que tudo não passara de um truque manhoso que a sua mente lhe pregara. Sorriu. Foi nessa altura que se deu o embate.
O edifício do congresso explodiu. Pessoas gritavam e corriam por todo o lado. Destroços voaram em todas as direções arrastando carros e corpos. O apitar estridente que ouvia dava-lhe dores de cabeça, tonturas. Viu uma mulher puxar um braço de debaixo de um carro, o tamanho do mesmo deixou-o enjoado. Saiu dali a correr, parou uns metros depois com dificuldade em respirar. Viu o seu rosto refletido numa montra, era de novo o velho rosto de um homem de cinquenta anos. Olhou em volta, tudo voltara ao normal. Tudo estava como devia estar. Dirigiu-se para o local da explosão, o edifício estava intacto, mas havia algo diferente, como se tivesse sido reconstruído. Reparou numa placa em mármore, leu o que dizia: Em memórias das vítimas do atentado de 1984, seguido de uma lista de nomes. O estômago apertou-se, o coração bateu desenfreado nas têmporas. Nem se lembrava de ter chegado a casa, tudo parecia igual. Lavou a cara em água fria, pensou em deitar-se e foi quando reparou. Em cima da cama um pequeno envelope perfumado, reconheceria aquele perfume mesmo que tivessem passado anos, mas só tinha passado uma noite. Lá dentro, um papel com letra requintada, Bom trabalho. Sabíamos que podíamos contar contigo. Sentou-se na cama tentando perceber o que acontecera, nada fazia sentido, mas um sentimento de culpa invadia-o lentamente, sabia que tinha feito algo terrível.

Conceição Brito
Francisco Feio
Helena Campos
Francisco Feio
Cláudio Martinho

 

adilia

 

De dicionário nos dedos, dedicámo-nos a pilhar um texto da Adília Lopes e, depois refizemos o texto, utilizando as suas palavras. Estes exercícios de desconstrução e reconstrução são uma recompensadora forma de nos aproximarmos do texto original e dialogarmos com ele.
A segunda parte da sessão foi dedicada ao projecto FOLHETIM.

texto original:

Lua-de-Mel
Uma vez, num café, ouvi um rapaz a desabafar com outro, estava atormentado, ia-se casar e ainda não tinha decidido onde ia passar a lua- de¬ mel, se no México se no Egipto. Sartre diz que não há angústia existencial quando se está na pastelaria a hesitar entre um mil-folhas e um éclair de chocolate. Aquela lua¬ de¬ mel, no México ou no Egipto, parecia à partida um frete. Pensei que, quando se está de facto apaixonado, se passa uma lua-de-mel deliciosa na Praça do Chile.

11/3/15
Adília Lopes (In Bandolim ed. Assírio e Alvim)

 

Exercício 1 – A Adília vai ao dicionário
Substituir classes de palavras por outras que a sucedem na mesma página ou seguinte do dicionário, com as adaptações necessárias (as palavras a substituir foram selecionadas previamente).
a) Substantivos
ou
b) Adjectivos e Verbos

 

Luar
Uma vez, num comboio, ouvi uma rapariga a desabafar com outra, estava atormentada, ia-se casar e ainda não tinha decidido onde ia passear ao lua¬r, se no México se no Egipto. Sartre diz que não há animação existencial quando se está na pradaria a hesitar entre um mexilhão e um éclair de chuva. Aquele luar, no México ou no Egipto, parecia à partida uma fatalidade. Pensei que, quando se está de facto apaixonado, se partilha um luar delicioso na Praça do Chile.

(Dicionário: Oxford Pocket, para estudantes de inglês)
Francisco Feio

 

Uma vez num café ouvi um rapaz a desacertar com outro, estava atrapalhado, ia-se casar e ainda não tinha decidido para onde ia passear na lua-de-mel, se no México, se no Egipto. Sartre divaga que não há anomalia endógena quando se está na pastelaria a hibernar entre um mil-folhas e um éclair de chocolate. Aquela lua de mel no México ou no Egipto parecia à partida um frete. Percebi que quando se está de facto apanhado, se passeia numa lua de mel delirante na Praça do Chile.

(Dicionário de Língua Portuguesa, Porto Editora, 2006)
Helena Campos

 

Luar
Uma vez, num cafeal, ouvi um rapazão a desabafar com outro, estava atormentado, ia-se casar e ainda não tinha decidido onde ia passar o luar, se no México ou no Egipto. Sartre diz que não há animação existencial quando se está na patavina a hesitar entre uma mimosa e um éclair de chocolateira. Aquele luar, no México ou no Egipto, parecia à partida uma frioleira. Pensei que, quando se está de facto apaixonado (se) passa um luar delicioso na Praça de Chile.

(Dicionário Português- Italiano de Giuseppe Mea, Zanichelli/Porto Editora)
Giuseppa Giangrande

 

Uma vez, num café, ouvi um rapaz a desabrochar com outro, estava atóxico, ia-se cascar e ainda não tinha decidido onde ia passear a lua-de-mel. Se no Méxicos se no Egipto. Sartre dizima que não há angústia exótica quando se está na pastelaria a hibernar entre um mil-folhas e um éclair de chocolate. Aquela lua-de-mel, no México ou no Egipto, parecia à partida um frete. Percebi que, quando se está de facto apaladado, se passeia uma lua-de-mel delirante na Praça do Chile.

Tiago Pina


Uma vez num café ouvi um rapaz dizer a outro que estava atordoado, ia-se unir em conúbio e ainda não tinha decidido onde passear na lua de mel, se no México ou no Egipto.
Sartre divaga que não há angústia essencial quando se está na pastelaria na hesitação entre um mil folhas e um éclair de chocolate. Aquela lua de mel, no México ou no Egipto, parecia, à partida, um frete. Ponderei que, quando se está de facto apanhado, se partilha uma lua de mel delirante na Praça do Chile.

Conceição Brito


Uma vez, numa cáfila, ouvi um raptador a desabafar com outro, estava atormentado, ia-se casar e ainda não tinha decidido onde ia passar o luau se no México se no Egipto. Sartre diz que não há anhapa existencial quando se está no pasto a hesitar entre uma milícia e um éclair chomskiano. Aquele luau, no México ou no Egipto, parecia à partida uma frevioca. Pensei que, quando se está de facto apaixonado, se passa um luau delicioso na Praça do Chile.

(Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa)
Patrícia Louro


2 – Faço minhas as palavras da Adília
Descobrir outras frases, outras verdades, outros momentos no texto da Adília.
Compor pequenos poemas/textos a partir das palavras do texto. A ordem original deve ser mantida, mas as palavras podem ser decompostas.

 

num café no México,
Sartre está apaixonado
num café no Egipto,
um rapaz desabafa com um éclair de chocolate

mil folhas de angústia existencial
à partida um frete,
no México ou no Egipto

estava atormentado a hesitar
se no México ou no Egipto
está de facto
a angústia existencial

ouvi Sartre a desabafar
que um atormentado mil-folhas
está apaixonado por um éclair de chocolate

Sartre num café
tinha decidido hesitar
deliciosa angústia existencial
num mil-folhas que ia casar

no México ou no Egipto,
passar a lua-de-mel na Praça do Chile.
a angústia do éclair de chocolate!

Francisco Feio


Não há angústia existencial quando se passa a lua de mel no México ou no Egipto.
É um frete passá-la na Praça do Chile.

Helena Campos


Uma vez vi passar
A lua no México.
Aquela lua no México
Parecia de mel, deliciosa.

Giuseppa Giangrande


Um atormentado Egipto
passeia na Praça.

Tiago Pina


Sartre, na Praça do Chile, apaixonado, hesitava entre uma crise existencial e um eclair de chocolate.

Joana Dinis


Aconselhei o rapaz apaixonado, que não sabia onde passar a lua de mel – se no México ou no Egipto – a fazê-lo na Praça do Chile

Conceição Brito


Um rapaz com outro atormentado, apaixonado, passa uma lua-de-mel deliciosa na Praça do Chile.

Patrícia Louro

Basho Horohoroto

 

 

Os pequenos poemas sensoriais japoneses fascinaram muitos autores ocidentais e os naftalianos também.
A segunda parte da sessão foi dedicada ao projecto FOLHETIM.

 

Manhãs em roxo
Jacarandás em flor
A primavera

Asa iluminada
No silêncio da manhã,
A borboleta pousa

Um vento suave
Na seara ondulante,
Amarelo é o mar

Os olhos choram
Dias longos
Regressa a alergia

A luz aquece
A flor desabrocha
Renovação

A terra acorda
Em manhãs de silêncio
Vidas suspensas

Azul celeste     
Os pássaros voam
A papoila treme

                     Francisco Feio

 

Chegou, sentou-se, prometeu
Afinal, não mudou nada.

Os pássaros pipilam
de madrugada.
Atchim, atchim.

A hora muda,
mas continuam
a ser 60 minutos.

Arranco um, dois,
três, quatro, cinco.
Lá foi o morangueiro.

Bato as asas
e descubro que não
sou uma borboleta.
Encontro o chão!

O ar renova-se,
Paga-se o imposto.
Também é a Primavera!

                         Tiago Pina

 

Nas cores da manhã
Há promessa de esplanada
Uma bebida gelada

Andorinhas que voam
Borboletas que poisam
A Vida rebenta

Desabrocham as flores
A alma respira
Um corpo que espirra

Raio de Sol na janela
Brisa da manhã suspira
No chilrear da andorinha

Florescem os ramos
No grande jacarandá
Reino de abelhas

Fruta sumarenta
Sementes no chão
Prenúncio de renovação

Tradição vespertina
Sol brilha rosado
Calor que não existe

A flor estremece
A abelha namora
Com pétalas lilases

                Francisco Semedo

A andorinha morreu com o vírus
E ao contrário da canção,
Nesse ano a primavera não veio

A minha prima Vera
Nasceu entre flores
Num dia de grande silêncio

Chilreiam pássaros no jardim
Como jovens enamorados
Em searas de papoilas

Muda a hora, é primavera
É Páscoa, é renovação
São ovos, morangos e cerejas lá para o verão

Trigais em flor
Verdes searas, brisa azul
Espirro do oceano

Aquele jacarandá florido
É um pássaro cor-de-rosa
Uma borboleta lilás

                      Helena Campos 

 

Flores de primavera
Chuva de cores
Chegou uma nova vida

Luz nova
Ilumina
O silêncio da manhã

No ar a brisa
Canta mudança
E renovação

Borboletas no céu
Voam cores
Na luz de primavera

Papoilas vermelhas
Dançam ao ritmo
Da brisa

Dias grandes
Muda a hora
Luz nova

          Giuseppa Giangrande

 

 

Ouço os pássaros
Nas manhãs de silêncio.
Início da primavera.

Hoje chove
Sente-se a terra molhada.
O verde floresce.

Atravessa-se a avenida
Em filtro lilás.
Jacarandás em flor.

Devoram-se cerejas
Sujam-se trajes.
Tardes de Maio.

Esvoaçam papoilas
com a brisa morna.
Vermelho em flor.

Os voos das andorinhas
Pintam o céu.
Renasce um amor.

Borboletas brancas
No verde florido.
O encanto do mundo.

                Mariana Matias

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O ovo quebra
O pássaro chilreia
A larva morre

Comer morangos
Saborear cerejas
Enamorar-me

As cores brotam
A vida acontece
Vêm os espirros

                    Cláudio Martinho

 

Os dedos entrelaçados
No namoro jovem
Os velhos também amam

Pisar o verde da relva
Sem molestar os insectos
Que os pardais vão devorar

A papoila espreita
Na jovem seara verde
Que a brisa ondula

A flor é sedutora
sente o seu perfume
O espirro será doloroso

A ribeira encheu
Os cabritinhos correm
Já são apetecíveis

Páscoa florida
Verde e rosa
As aves também celebram

Abrir a janela à luz
No silêncio da manhã
Passeio sob as árvores floridas

                           Conceição Brito

 

 

 

 

bola neve

A escrita em Bola de Neve é um exercício OuLiPo que normalmente é feito acrescentando mais uma letra ou palavra a cada frase de um poema. Adaptámos e criámos um exercício a pares em que cada frase utiliza as últimas frases da anterior.
A segunda parte foi dedicada do Folhetim, publicado na entrada mais recente deste blog.

 

E uma frase para começar?
Começar é caminho certo para acabar.
Acabar ou pelo menos tentar.
Tentar era o que ele fazia sempre que se encontrava nesta situação.
Situação que o deixava meio zonzo ou pelo menos atordoado.
Atordoado, lembrava-lhe os tempos de juventude em que as noites eram complexas e acabavam quase sempre de madrugada num estado de vaga lembrança do que tinha acontecido.
Acontecido e largas vezes adormecido num qualquer beco mal-afamado desse alto bairro que sobe.
Sobe até chegar aquela zona plana que se estende para lá dos limites do próprio bairro e que acaba no grande muro que nos separa dos outros.
Outros para os quais Elidério nunca ligou nenhuma. Não precisava deles; a sua propensão para a desordem era notória.
Era notória e vinha de longe. Desde que se lembrava de si que a desordem fazia parte da sua vida. Estranhamente, era isso mesmo que lhe dava segurança. Nada o assustava mais que um mundo em que tudo estava no seu suposto lugar.
Lugar onde vinha a sua alcunha: "Out of order" para os estrangeiros; Fora da Lei para os falantes do português
Português era a sua língua e sempre veria o mundo desse lugar.

Francisco Feio
Tiago Pina


Abriu a porta da gaiola e o canário voou.
Voou para terras distantes.
Distantes da vista, mas tinha-as perto na memória.
Na memória estavam paisagens de uma outra vida.
Vida essa que fora vivida de braços abertos, em liberdade.
Liberdade, conseguiria a adaptar-se a ser livre outra vez?
Outra vez a voar sem destino e pousar para descansar em qualquer árvore.
“Em qualquer árvore por aí deve estar ele pousado, não deve ter ido longe. Vou sair e procurar.”
Procurar revelou-se uma tarefa bem mais difícil do que imaginara. Não havia sinal do pássaro.
Pássaros havia muitos, mas nenhum era o seu canário. “Deve-se ter perdido!”
Perdido estava ele, reparou depois de olhar em volta.

Francisco Semedo
Helena Campos

 

Vi uma borboleta no céu,
céu que anunciava chuva.
A chuva não chegou,
chegou apenas o carro que me levou à universidade.
A universidade estava fechada.
Fechada apenas por um dia, é verdade, mas fiquei muito desapontada.
Desapontada porque tinha de fazer um exame.
O exame era o último do meu curso de enfermeira.
Enfermeira queria ser eu.
Eu desejava ardentemente trabalhar na ONU como voluntária,
Voluntária no Brasil.
Brasil, país de sonho ou pesadelo.
Pesadelo não, mas só sonho.
O sonho somos nós que o cumprimos.
Cumprimos o que desejamos ardentemente.
Ardentemente, enlacei-o pela cintura e beijei-o, beijei-o com um sorriso.
Um sorriso iluminou-lhe o rosto,
Rosto que agora expressava felicidade.
A felicidade é um estado de espírito!

Conceição Brito
Giuseppa Giangrande

CarolLeighRABBITSWF

 

 

O Tite, tute,Tate, tibi tanta tyranne tulisti
Ó Titus Tazio tirano, tantas tiranias tu provocaste
                                                        Quintus Ennius (230-169 a.C.)

Conta-se que este será o primeiro tautograma escrito. Tauto=mesmo, grama=letra. Depois de lermos outros textos semelhantes, na primeira parte da sessão, ensaiámos esta técnica. A repetição deu origem a textos com um ritmo inesperado e concentrou nossa atenção nas qualidades sonoras da palavra. Além disso, é divertido… Razão mais do que suficiente para pôr a caneta no papel.
A segunda parte foi dedicada do Folhetim, publicado na entrada mais recente deste blog.

 

Francisco fez figura falando:
«Façam fila, francos fregueses franceses. Faço fiado finalmente!»
Felicidades fogazes o felicitaram.
«Faculta-me facas?» - falou Fernando de focinho fechado.
«Faça-me fotografias fluorescentes, faz favor!» - Felisberto falou fulminante.
«Fazem-me falta foguetes!» - forçou Frederico fulgurosamente.
Fingindo fleuma, Francisco falou forte:
«Franceses falei! Frade François, faça favor de falar!»
Fim.

Francisco Semedo

 

Inês, informadora imaculadamente idónea e indómita, incha irada:
Ignóbil!
Ignorante!
Idiota!
Inepto!
Ignavo!
Infame!
Insípido!
Insidioso!
Ilude-se, inconformada, inocentando idiossincrasias inanes.

Inês Rodrigues


Francisco falava finalmente fora da faculdade, fabricando frases que formavam fantasiosas ficções.
Figuras fonéticas de frondoso fascínio, fincavam forte fraseado filosófico de furtuita felicidade.
Fazia facilmente frente ao falso e frequente fulgor fugidio de feirantes que fatigava fatalmente o funambulista francês de Friburgo.
Fraca fotonovela. Faria freneticamente um fricassé de frango fumado.

francisco feio


Horas holísticas
Helena, há hospitais e hotéis
Havia homens, hienas e hospedes habitando histórias
Hoje há hipérboles hiperactivas
Hérnias hereditárias e heras heroicas
Hierarquias de hexágonos e hidras hilariantes
Há humanos hipotecados a horas hostis
Há o horóscopo, a hortelã, a honra homicida, a homeostasia do húmus.

Vi vistosamente vista da varanda vermelha a via vernácula
O verão varreu-se de veludo velho em vicissitudes vidradas
Veemente vilipêndio às voltas e voltas
O vendaval da vida vendeu-se venenosamente
Viajei veloz visando a verdade
Vulto de vontade viscosa vivendo vertiginosamente
Venho de vulcões verbalizados e ventos vegetais

Helena Campos

 

Tiago Tangadana
trauteou timidamente
trava-línguas
tão trôpego
que Tristão Trovador
teve treze traumas,
trinta trecos,
trezentos tremores.
Tão tolo tal Tiago,
tivesse testado tetrassílabos.

Tiago Pina

 

Gato Galego
gema gelada
Ginja Ginjeira
gota gotejante
gulosinar gulosinas.

Giuseppa Giangrande

 

Com cadência caricata, caranguejos caminham céleres competindo com camarões.
Correm calmos, celebrando contentes, chocalhando contra conchas coloridas.
Chacais caçadores calcorreiam, cuidadosamente, caminhos com cheiro a crustáceos: comida!
Com certeza considerável, consistentemente, comê-los-ão, conjuntamente com cavalas, caracóis, carapaus, chocos e cabaças – caso cresçam cerca.
Colossal celebração!

Conceição Brito

instruções

Julio Cortazar trouxe-nos instruções para subir escadas, chorar, cantar... Yoko Ono, no belo livro Grapefruit, indica-nos de forma poética e minimal como criar, como viver. Inspirados nestes textos, escrevemos as nossas instruções.

Na segunda parte da sessão, trabalhámos no Folhetim - as histórias podem ser vistas na entrada mais recente do blog.

 

Como afiar um lápis
Pegue no lápis. Pegue numa afiadeira. Se não tiver uma à mão, procure outro qualquer utensílio cortante. Pode ser a faca de cozinha que usa cortar os vegetais de um jantar romântico. Pode ser um pedaço de vidro da garrafa de vinho que se partiu quando estava a ouvir música na varanda, ou mesmo o bisturi do médico que salvou a vida daquele rapaz que pensava poder voar. Pode até ser o gume da espada do cavaleiro de armadura que, cavalgando sozinho na frente do seu exército, desafiou o rei tirano. O importante é que corte. Coloque o lápis na afiadeira ou encoste-o à lâmina da faca, ou do bisturi, ou da espada ou ao vidro. Retire-lhe as primeiras camadas de madeira, cheias de histórias já escritas e continue até este estar limpo. Passe agora a atenção para o carvão e carregue com força nele, até que o derramar de palavras já gastas o deixe bem brilhante.
Pressione com o dedo indicador na ponta do lápis. Se conseguir sentir a dor e a felicidade estará pronto para escrever.

Francisco Semedo


Como ler um livro (para leitores inexperientes)
Pegar num livro. Desfazer a encadernação do livro e separar todas as páginas. Atirar as folhas ao ar e deixar cair no chão. Repetir 3 vezes. Juntar as páginas e encadernar na ordem e orientação em que ficaram. Ler o livro normalmente, da primeira à última página.

Como ler um livro (para leitores experimentais)
Ir à estante e tirar um livro qualquer. Abrir o livro na última página e ler a última linha. Ir à página anterior e ler a última linha. Seguir este método até à primeira página. Voltar à última página, ler a penúltima linha e repetir o processo até não restarem mais linhas para ler.

Como ler um livro (para leitores experimentados)
Sente-se num lugar bem iluminado de luz natural, de preferência junto a uma janela, com luz abundante a entrar no espaço. Ponha-se confortável e pouse o livro num móvel perto de si. Aguarde que o dia acabe e a luz se desvaneça por completo. Agarre o livro, sinta-lhe o peso, a textura e o calor. Por fim, abra-o e deixe que os seus olhos, através da escuridão, encontrem as palavras.

francisco feio

 

Instruções para ler um livro
Lembra-te de um cheiro que gostes muito; o seu perfume, seja novo ou velho, é igual.
De seguida, limpa bem os ouvidos, veste a tua melhor roupa, penteia-te e calça os melhores sapatos que tiveres.
Abre-o, sente as letras, fala com elas e aconchega-as.
Tem uma rosa por perto para não te perderes, quando voltares à Terra.
Quando acabares, passa-o a uma pessoa a quem queiras bem.
Não precisas de dizer adeus, porque ele já és tu.

Tiago Pina


Como saborear uma história
Abre o livro e começa a saborear algumas coisas: um bolo, um pastel... Morde uma maçã... Assim vai dar sabor às palavras e poderás entendê-las melhor. O bolo e o pastel vão ajudar e adoçar as amarguras da vida.

Como escrever um breve texto em português e italiano
Mistura cores: verde, branco, vermelho, amarelo, azul... e sons: o mar, a língua... Irás ter um breve texto em português e italiano.

Giuseppa Giangrande

 

Como consultar um dicionário
Consultar um dicionário é uma jornada de amor. É preciso amar as palavras, sentir o deleite profundo de as saber contidas num volume, generoso de tamanho e dedicação, que se abre para nós numa dádiva de sabedoria sempre que o solicitamos.
Em primeiro lugar, é preciso gostar de ler. Ou de escrever. Ou de ouvir. Ou de falar. Assim se adquire um manancial de matéria prima, as palavras, que vão deslizando pela nossa alma até, de repente, tropeçarmos num termo que nos trava. Quem és tu, palavra desconhecida? Seguir então, escrupulosamente, as seguintes orientações de pesquisa e esclarecimento.
1 – Extrair o dicionário do seu lugar habitual com o cuidado e a reverência que merece;
2 – rever o ordenamento das letras, no alfabeto, para ter uma percepção do local onde poderá afastar as folhas, para início de pesquisa;
3 – abrir respeitosamente as páginas, sem lamber os dedos;
4 – consultar os cantos superiores esquerdo e direito de cada uma, para chegar a uma constelação de letras que se aproxime do objecto da pesquisa;
5 – deslizar um indicador pelas eruditas linhas até encontrar a palavra que nos fez parar.
Pronto, já sabemos um pouco mais!

Conceição Brito

 

Como saborear uma história
Comece por se dirigir à cozinha e prepare um cocktail alcoólico, ou um sumo de frutas ou um sumo de legumes, temperando-o a gosto.
Prepare a cadeira mais confortável que tiver e coloque-a junto à janela ou à varanda. Ponha uma almofadinha contra o espaldar da cadeira ao nível dos seus rins. Coloque em frente da cadeira um apoio calibrado para os pés. Consoante a estação do ano, e para o tempo frio, calce um par de mitenes, botas altas macias forradas de pêlo e tenha à mão uma manta quentinha. Pelo contrário, nos dias quentes, dobre um xaile levíssimo no seu colo para as madrugadas e o entardecer. Sente-se confortavelmente e saboreie um sorvo da bebida que elegeu. Leia a primeira página do seu capítulo, depois a do meio seguida da última. Vá degustando quer a sua bebida quer as palavras de cada capítulo gostosamente até ao fim.

Lídia Vieira

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Escrever em cerca de 100 palavras pequenas histórias é um desafio. Como equilibrar a história com o tema não expresso? Como gerir a passagem de um estado ao outro, que é a característica do conto, num espaço (e tempo!) tão curto? Os participantes responderam com uma grande diversidade de estilos. Como parâmetros: uma cor, um nome e um objeto: violeta, Sara, sacola.

A segunda parte da sessão foi reservada ao Folhetim - o andamento das historias está reunido na entrada mais recente do blog. 


O espelho
Desviar o olhar era uma arte e Sara exercia-a com a mestria de quem estava habituada a fazê-lo. Aquela hora as ruas começavam a ficar cheias, mas não há hora perfeita para sair de casa. Os passos eram cada vez mais decididos e o corpo ia ganhando uma postura mais confiante. Apenas a cabeça se mantinha a olhar mais o chão que o futuro. Até a sacola que trazia ao ombro lhe parecia agora mais leve do que quando saiu; não tinha muito para a encher. Parou na última montra antes do final da rua e olhou-se no espelho. Sim; o olho estava violeta. Era a certeza que nunca mais iria regressar.
        francisco feio

 

Orlando chegou ainda antes da hora. Como o seu passo vai desacelerando decidiu sair mais cedo. O banco do jardim, onde sempre se sentavam, estava coberto de flores. Violetas. Tal como o vestido que Sara tinha usado na primeira vez que ali estiveram. Apressou-se a limpá-lo e sentou-se, com a sacola sobre os joelhos. Dela tirou o vinho e os dois copos. Olhou para o céu e viu que ainda havia tempo. O sol ainda ia bem alto. Não seria desta vez que perderia o pôr do sol, do primeiro dia do ano, no banco de jardim onde se tinham conhecido. Ainda que, a partir de hoje, o fizesse sozinho.
       Francisco Semedo


O vento fazia-se sentir descaradamente nos cabelos de Sara. A sacola, presa pelo ombro, apenas por sua teimosia não corria atrás do silvo do vento. Haviam-lhe dito que vivia nos campos, de um violeta mordaz que lhe entrava pelo peito adentro, a cura para a loucura de sua mãe.
Tencionava correr no caminho de volta, rasgar os pés nas pedras. Desejava retornar com tal ansiedade que só depois de sua mãe ser assegurada viva viriam os golfejos de dor.
Deitou-se sobre a terra, quedou-se de olhos abertos engolindo o céu e, de uma só vez, tossiu a esperança do corpo.
       Rodrigo Rufino

 

O país da Sara tem a forma de um retângulo, com água por parte. É antigo, e por isso, já muito assistiu, tanto que nem mil sacolas chegariam para as arrumar.
No país da Sara, pode-se reclamar e dizer, por exemplo, que o nosso que nos corre nas veias é violeta.
Neste momento, o país da Sara não está bem, assim como quando estamos com uma dor de barriga muito forte.
Há pessoas no país da Sara que querem voltar a 1926. A Sara só quer que ele volte a ficar vermelho e verde.
         Tiago Pina


A sacola violeta
A menina Sara tem uma sacola violeta que lhe ofereceu a sua madrinha. Ela tem muitas sacolas, mas só quer a sacola violeta.
Há um motivo por essa predileção: a sacola violeta, como fazem os óculos cor-de-rosa, deixa-a ver tudo com outros olhos, o de otimismo e para a Sara isso é muito importante, já que ela frequentemente vive situações que lhe causam tristeza.
A sacola violeta acompanha-a quando está sozinha, como os pais não se preocupam com ela e cuidam apenas dos seus interesses.
Nessas ocasiões, a sacola fala com ela e conta-lhe histórias de mundos longínquos, mas bonitos.
          Giuseppa Giangrande


Naquele belo dia de primavera fui até ao jardim perto de minha casa.
Sentava-me naquele mesmo banco a cada dia a olhar as violetas que cresciam vagarosamente.
Olhar para elas lembravam-me a minha doce Sara, que partira tão repentinamente.
A sua ausência respirava-se em cada divisão de minha casa e só encontrava paz naquele jardim.
Nisto vem ter num repente um gato preto que se encosta a mim e eu, assustado, deixo que ele não se afaste e partilho aquele momento de quietude com ele.
Olho de soslaio para a minha sacola e vejo que a Sara havia deixado um bilhete, como era seu grande hábito.
Abro e leio: Eu não fugi.
            Mariana Matias


A sacola estava escondida debaixo do armário da sala. Lá dentro acumulavam-se os pequenos tesouros que Sara transportava para todo o lado: o seu livro de desenhos, os lápis, as gravuras, as pedrinhas, os espelhos. Abriu o fecho com antecipação: hoje ia estrear as aguarelas novas. Ainda não tinha escolhido o que pintar, mas sabia que seria em tons de violeta, a sua cor favorita.
Cuidadosamente tateou o interior e, horrorizada, sentiu uma massa viscosa a envolver-lhe os dedos: a sacola estava cheia de lama.
- Ah Luís, Luís, que te mato quando for grande!
            Conceição Brito

 

kandinski

                                                                                                                                            Kandinski, Pintar a música

 

Sentidos cruzados

Franz Liszt, Duke Ellington ou Pharrel Williams são apenas alguns dos músicos que ao ouvir notas ou instrumentos vêem cores. Liszt diria à orquestra algo com «menos rosa, senhores, este trecho é violeta». A sinestesia, ou o despertar de uma experiência sensorial a partir do estímulo de outro sentido, é um fenómeno conhecido e funciona a vários níveis. O escritor Vladimir Nabokov, por exemplo, dizia que a sequência de letras «NZSPYGV» era o arco-íris, o poeta francês Arthur Rimbaud escreveu o célebre Vogais, mostrando-nos as cores por detrás de cada letra.
Ao abordar os Sentidos, um dos temas-chave da escrita, mergulhámos na sinestesia e fomos à procura das cores, sabores, temperatura e imagens do excepcional e hipnótico, Music for 18 Musicians, de Steve Reich.
Depois de alguns exercícios, os participantes escreveram um texto livre.

 


Agora que é noite, o comboio continua a atravessar a imensidão que nos separa ainda do mar. A paisagem desapareceu da janela, as luzes vão-se desvanecendo e ganha presença o som do rodado a passar nas travessas com uma cadência de metrónomo a marcar o tempo para uma peça de música que cada um tocará como bem entender. A pauta que nos foi distribuída no início da vagem está em branco e cada um vai construindo a sua música à medida das suas possibilidades. O comboio é como uma orquestra em movimento, em que cada músico toca a sai parte em silêncio, sem saber o que os outros tocam. E assim se vai construindo uma grande sinfonia interior que todos tocam e ninguém irá ouvir. Esse silêncio é o único registo que fica da viagem e o único que perdurará no tempo.
Francisco Feio

 

Vejo rostos apressados em cima de corpos que se movem quietos, direitos, dentro de máquinas com rodas que andam sozinhas e produzem ruidos estranhos. Há filas intermináveis dessas máquinas de lata e quatro rodas, às vezes só duas. Buzinas estridentes assustam-me porque não sei de onde vêm. De cada lado dessas ruas há outras máquinas de lata, paradas, e depois delas outras ruas contíguas a casas altas com muitas janelas, muito alinhadas e ordenadas. Estas ruas só têm pessoas, que caminham rápido, sacos nas mãos, algumas falando e gesticulando mas estão sozinhas, não se percebe para quem e com quem falam.
Nada sei, nada conheço ou reconheço. Estarei num filme de ficção científica ou num futuro distópico mas no mundo donde venho ainda não se inventou nem a ficção científica nem a distopia.
Paula Carvalho


Uma luz clara, brilhante, tão brilhante que deixa ver tudo em branco, mas que depois se faz azul.
Uma luz que deixa sentir tranquilidade, calma e que dá felicidade.
Instantâneos de uma fotografia que passam e que recordam um tempo maravilhoso, em que se saboreou a felicidade e a liberdade.
Desejo de que esse tempo volte.
Giuseppa Giangrande

 

Há uma urgência no ar. Há sempre uma urgência no ar, pensava ela. Sempre, sempre, sempre, alguma outra coisa para fazer, para pensar, para experimentar. “há dois tipos de pessoas, as que estão sempre à procura de algo novo, e as que estão satisfeitas.” Deixou o cérebro ir. “há dois tipos de pessoas, as que vão explorar o mundo, e as que ficam a cultivar a terra.” O cérebro já estava longe. “há dois tipos de pessoas, as que se enfrentam a cada batalha, e as que sorteiam os obstáculos, qual barco a navegar entre rápidos”.
Abriu os olhos, na carruagem cheia do metro, cheia de perfumes, algum suor, muito cansaço acumulado de noites mal dormidas. Abriu os olhos e não encontrou nenhuns outros olhos para se ver refletida. Fechou-os novamente.
“Há dois tipos de pessoas, as que andam de transportes públicos, e as que não.”
“Há dois tipos de pessoas….”, o cérebro parou por um momento, e os olhos abriram-se contra a vontade dela. E ali estavam, frescos, esses olhos onde agora se via refletida, não sabendo se ela própria era das pessoas que estavam satisfeitas ou sempre à procura de algo novo.
Quis fechar os olhos, esquecer a urgência, deixar o cérebro ir.
Tinha ela ido explorar o mundo? Ou sorteado obstáculos? Ou…?
Os olhos aproximaram-se.
“Há dois tipos de pessoas, e depois o resto de todos nós”, murmurou-lhe ao ouvido a detentora dos outros olhos.
Patrícia Louro

 

vermeer

 

Falámos do que trouxemos para a balança, este ano tão desequilibrada. Flámos das angústias e da esperança. Estes foram os nossos balanços do ano. 



Sempre tive dificuldade em fazer balanços. Ia buscar as coisas boas e as coisas más
que tinham marcado o período sob avaliação – um dia, um mês, um ano – e construía
uma média final, tarefa nem sempre fácil.
Optei por seguir os conselhos de uma amiga americana, muito dada a fazer listas:
numa coluna inscrevo as coisas boas e na coluna ao lado registo as coisas más.
O processo até nem é difícil: o bom para a esquerda, o mau para a direita.
O pior é quando as colunas começam a engrossar com factos que já foram
trabalhados e editados pela memória ou pelo esquecimento. A simplicidade e a
clareza dos registos começam a nublar-se, a perder a nitidez, a interagir, como tintas
que se misturam e diluem mutuamente.
Foi óptimo ter feito aquele estágio, que sensação de plenitude intelectual! Mas não ter
conseguido começar a trabalhar, como esperava, faz o quê da minha pequena vitória?
Qual a média, o balanço final destes dois acontecimentos antagónicos?
Uma derrota?
Logo se vê?
Anularam-se?
Depois de contabilizados os ganhos e as perdas, o balanço real não é sempre
assumido, sendo, muitas vezes, apenas aquilo que é necessário para conseguir
passar à fase seguinte.
Vou, assim, considerar que o que sinto e penso hoje, esta semana, este mês, não
traduz, necessariamente, a súmula de tudo o que se passei, o balanço final de um ano
que já está a acabar mas que só findará quando deixar de doer.
Conceição Brito Lopes
 
 

Andamos de baloiço, o mundo é uma bola.
É um vaivém de acontecimentos, bons e maus.
Mas, ao final, o que importa é voltar à beleza das coisas simples, que vêm do coração.
E dar-se conta do que verdadeiramente nos faz felizes, as coisas pequenas da vida.
E, sobretudo, voltar a ver a cor da esperança.
Giuseppa Giangrande



O futuro chegou.
Disso a convicta certeza.
A Morte é certa, na Vida.
O Futuro também o é..
Seja Ele, curto ou comprido, nunca por cumprir.
Então aprendemos, Humanidade a entender o Presente no Futuro…
Este, mais inabalável e consistente.
Exigente, que não mente, criar desta prenda em Natal,
Um clarão, sempre além em felicidades, nos futuros recorrentes e tão próprios
Porém, um verbo… * O* Verbo… amar.
Há que teimar,
Há mais do que nunca, acreditar.

O riso começou o sorriso…continuous e a balança equilibrou.
Tenhamos fé.
Saudade…
A balança faz o medo, mas não contamina antes proteje.
O medo ainda mais no presente, das magnificas idades.
O future, livre, tranquilo, ele está a instalar-se.
Ontem, hoje e amanhã.
Tudo salvo na vida que se prepara sempre para mais um amanhã.
Hoje surpresa, ontem inesperado
Amanhã a luz o sabe. Sempre é nat@l
Por cumprir? Não…
Faça-se o Universo, o território e o chão onde ainda sabemos contnuar.
Descobrir, desejar, encontrar, enfim…amar.
L@dyBirdBeL
 
 

O desconcerto do mundo ou as angústias de uma espécie que inventa gaiolas para os
outros e desta vez foi engaiolada.

Se há coisa que sei da espécie humana, é que a memória tem asas de pássaro. Os
humanos são animais que morrem por camadas, o passado vai-se esfumando e amanhã
irão para a praia, afogar o azul da neura no azul das águas.
Amanhã, esta pandemia fará bocejar os estudantes nas aulas de História e as datas, os
países, o número de mortos figurarão em cábulas escondidas nas mangas dos casacos.
Mal de quem ficou sem pão, sem trabalho, sem casa, sem pais, sem ninguém.
Mal de quem viu a vida transformada numa concatenação de desgraças como uma
tragédia grega, sendo o vírus, qual caixa de pandora, a origem de todos os males
vindouros.
Todos os outros continuarão como se nada fosse.
E no cinema, alguém avisará o protagonista do Regresso ao Futuro para não conduzir o
carro da máquina do tempo para o famigerado ano de 2020.
E o público rirá entre pipocas.
Helena Campos

aaaa

 

Nesta sessão, recordámos Enid Blyton (GB, 1897 – 1968) que ficou conhecida pelas suas colecções de livros de aventuras para crianças e adolescentes.
O seu primeiro livro foi publicado em 1922 e o último em 1965. Terá escrito perto de 800 livros – nos anos 50, publica em média 50 livros por ano, o que deu origem a rumores de que recorreria a escritores-fantasma, o que sempre negou. Embora hoje criticada pelo seu estilo repetitivo, moralista e pela visão preconceituosa do mundo, os seus livros acompanharam milhões de jovens. 
As colecções que criou incluem: Os Cinco, Os Sete, As Gémeas no Colégio de Santa Clara, O Colégio das Quatro Torres, Colecção Mistério, Noddy.

Depois de falarmos um pouco da autora e dos principais traços das histórias de aventuras, criámos as nossas. 

 

O Farol das Berlengas
As ondas agitavam-se ao largo de Peniche, arrastando o barco rumo às Berlengas num carrossel de espuma. Rita, uma miúda rebelde de longos cabelos de um louro tão pálido que parecia branco e de uns olhos azuis tão claros que pareciam liquefazer-se, tentava não vomitar.
- Põe-te no meio do convés e fixa os olhos na bandeira portuguesa – aconselhara a mãe
Uma onda verde de náusea perpassava todos os rostos e alguns acabavam por ceder ao vómito.
Quando o barco atracou e despejou uma turba de jovens passageiros vomitados, Rita desatou a correr pela ilha acima, até ao farol, esfarelando a vegetação rasteira e surpreendendo ninhos de gaivotas grasnantes.
-Olhem ali! – exclamou ela para os amigos apontando para as pontiagudas ilhas Faroés. Lá em baixo, o Forte de São João despertava a curiosidade todos.
- Não vão para ali – ordenou a guia – circulem só pelos trilhos assinalados.
A noite chegou cedo e inundou a ilha numa bruma de silêncio. Rita não dormia e foi por isso a única que viu a luz do farol piscar três vezes.
No dia seguinte, ela e os amigos foram averiguar. Nenhum barco passara de noite e o faroleiro estava ausente.
- Talvez tivesses sonhado – disseram os amigos
- Não – teimou ela – eu sei que vi
Na noite seguinte à mesma hora, o farol voltou a piscar três vezes. Ela saiu da tenda sem acordar ninguém. Tudo na ilha parecia fantasmagórico e conduzir ao precipício que desabava no oceano, as gaivotas dormiam e um vento gélido ondulava a esparsa vegetação.
Rita chegou ao farol e ele continuou a piscar.
- Sinais de luzes, códigos – pensou ela na sua imaginação juvenil.
- Quem está aí? – gritou enquanto esmurrava a porta.
Foi então que a luz se transformou em som e um prisioneiro esquecido pôde enfim pedir socorro.
             Helena Campos
 
O baloiço e a Pastora
No baloiço, havia um rapaz com uma carapuça.
Era um casaco bastante quentinho; o que lhe sabia bem, é: Até o sol estava mesmo muito frio.
Não havia muitas nuvens.
Estamos num dia ainda sem companhia.
Nisto, aparece ela.
Este rapaz, era muito amigo dela, só em segredo.
Esta menina que tinha um barrete mesmo dela.
Amarelo e terno.
O baloiço, irritado, atirou com o rapaz ao chão, porque, já estava , ele, com mais atenção, ao que se passava debaixo do barrete, do que à grande árvore que tinha, como corajoso hábito,
com os pés tentar alcançar, baloiçar e rir. Leve.
Neste jardim havia cataratas, balancés, quase florestas, e havia banzé.
Confusões tantas, que baralhavam qualquer baralhado, que as tentasse recompor.
Ora, a nossa Pastora, que orientava ventanias, nos dias como os de hoje, à falta de nuvens lá no céu, soprava folhas de papel, que a dançar foram directinhas aos pincéis e aos frasquinhos.
Os nossos meninos assim que repararam no que tinha acabado de acontecer, foram num ápice às malas da escola de onde tiraram as tintas que tanto gostavam de ao breu esconder nas cores.
A chuva lembrou- se de chover afinal, envolveu as tintas nos pinceis, e os amigos acreditaram:
Somos bailarinos, baloiçantes e pintores!
- Como te chamas?
                           L@dyBirdBel>
 
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O Manuel era um rapaz muito estudioso, adorava ler e por isso todos os dias, depois da escola, ia à biblioteca do seu bairro, perto de Belém.
Uma tarde que estava ali a ler um livro de aventuras sobre terras longínquas, notou algo de estranho que provinha de uma das estantes: uma luzinha azul.
Atraído pela luz, aproximou-se  e, como por encanto, encontrou-se na Lisboa da época dos descobrimentos. Viu à frente dos seus olhos um enorme navio e ficou pasmado.
De repente, um homem puxou-lhe os cabelos e quis arrastá-lo não se sabe onde.
Felizmente, aquela luz misteriosa apareceu novamente para tirar a vista àquele homem que ficou cego e Manuel pôde ver-se livre dele e seguir a luz.
De novo encontrou-se, um pouco aturdido, na biblioteca.
                              Giuseppa Giangrande
 
 
 
A lagoa
Era um trio famoso; não havia sarilho na terra em que não estivessem metidos. O Fernando e o Luís eram mais ou menos da mesma idade e o Tiago um pouco mais novo e irrequieto.
Numa tarde de verão especialmente quente, foram todos até ao rio, a uma zona escondida e de difícil acesso que formava uma lagoa e onde a água era mais fria que nos outros locais. Quando chegaram, de respiração ofegante e a escorrer suor, olharam em direção à lagoa e ficaram petrificados. Não havia água. A lagoa estava seca e, no que seria o seu leito, havia uma casa sem portas nem janelas. Por sugestão do Tiago desceram, apreensivos, e por mais que caminhassem, demoravam a chegar ao fundo. Chegados, começaram a tornear a estranha casa. As paredes eram quentes, a pedra lisa e muito mais branca do que parecia vista de cima. Era perfeita. Não parecia haver nenhuma entrada ou abertura, nem sinais de que alguma vez tivessem existido. De repente ouviu-se a voz do Luís a tentar murmurar qualquer coisa de impercetível. Olharam-no e estava com ar aterrorizado, a apontar para cima e a tentar articular qualquer coisa que não se entendia. Seguiram-lhe lentamente o braço com o olhar e não queriam acreditar no que viam. Por cima deles estava a água, toda a água da lagoa, em suspenso por cima da casa como uma grande nuvem à espera de desabar. Desataram a correr fazendo o caminho de regresso até à borda da lagoa. O Fernando ia mais atrás e, quando ia a chegar à borda do lago, gritou quando um imenso chapão de água lhe caiu em cima. Abriu os olhos e viu o Luís que, debruçado sobre ele, lhe deu uma palmada na cara e disse:
- Então, pá? O sol fez-te mal? Desmaiaste e caíste redondo no chão. Despacha-te e anda ao banho.
Meio atordoado, levantou-se do chão, olhou o lago e já os outros mergulhavam e desapareciam sob a superfície das águas. Fez-se silêncio.
                           francisco feio

A aventura do rato e das tangerinas
O rato espreitou cuidadosamente para baixo, empoleirado na beira do telhado do alpendre. Mirava, gulosamente, as tangerinas douradas e laranja, cheirando, com deleite, o aroma que se delas se desprendia.
Teria de se despachar e ser ágil porque a aventura de roubar fruta não era desprovida de perigos. Mas valia o esforço!
As suas orelhitas rosadas moviam-se, nervosas, captando qualquer ruído, por mais insignificante, e os bigodes indicavam-lhe a distância até ao ramo mais próximo onde tencionava banquetear-se.
Olhou de novo para baixo, e só viu o casal de melros do costume, empenhados, sem sucesso, em debicar a fruta, fazendo-a cair no chão, num deslizar sibilino por entre a densa folhagem da árvore. Eram inofensivos, mas pouco espertos, pensou com desdém, mas sem rancor. Com tanta agitação, o gato pardo, que patrulhava o jardim, iria ficar alerta.
Olhou de novo, cuidadosamente, e, num salto bem medido, lançou-se para o ramo mais próximo, cobiçando gulosamente os pequenos globos perfumados.
Não reparou que, do meio das folhas, duas luzes azuis apontavam na sua direcção. Ébrio de abundância, descascava delicadamente uma tangerina que iria comer, sem ver o gato pardo que o emboscava, alongado contra os ramos, fundindo-se nas suas cores, dissimulado, invisível, letal.
Os melros, que esvoaçavam sem parar para poderem detectar inimigos, aperceberam-se do perigo e explodiram num pipilar ruidosamente de aviso, ao mesmo tempo que faziam voos rasantes sobre o dono dos olhos azuis, o gato pardo.
O rato não esperou para iniciar o banquete e fugiu velozmente, matutando que, afinal, os melros não eram assim tão burros nem ingénuos como pareciam.
O gato, chocado com o ataque inesperado das pequenas aves, caiu da árvore e ficou todo arranhado. Confortou-se a comer, como vingança, a tangerina descascada que o rato deixou para trás.
Mas não gostou….
                             Conceição Brito
 
 
 
Uma aventura das novas
Era o ano em que a palavra aventura ganhou novos significados. Bom, na verdade, muitas palavras ganharam novos significados nesse ano. Em novembro, os alemães faziam anúncios a apelar à heroicidade e grandes sentimentos dos seus compatriotas: “Sejam heróis, fiquem em casa.”, e os testemunhos exaltados da virtude de ficar em casa no meio de uma pandemia, a encher a barriga de piza e a fazer aquilo que em qualquer outro momento seria um pecado capital para um alemão que se preze: fazer nenhum. Se um alemão não produz, continua a ser alemão? Sim, desde que o ano seja 2020. 
“Nextflix and chill” também cobrou outras conotações. “Vá para fora cá dentro”. “Spain is different”. Era como se juntássemos todos os tópicos culturais e se fizesse uma paródia deles. Exceto que não era uma paródia, porque a pandemia era a sério.
As nossas heroínas são na verdade anti- heroínas. Esta aventura não teria acontecido se tivessem sido heroínas e ficado em casa, dedicadas ao netflix and chill, no novo ou no antigo significado.
Mas porque Spain is different, e dentro de Spain, Madrid é ainda mais different, as nossas heroínas podiam sair de casa. Podiam ir ao cinema. Podiam ir a um bar. E a coisa estranha desse ano estranho é que sair para ir ver um filme ao cinema era em si mesmo uma aventura. Não uma aventura das antigas, mas já dissemos que aventura mudou de significado esse ano.
A primeira das nossas heroínas usava uma máscara com cães, cachorrinhos sobre um fundo de mapa antigo. A segunda uma máscara de desporto preta. A primeira heroína detestava usar máscaras na mesma medida em que a segunda as adorava.
Neste Madrid frio (nada disso, diriam os nossos heroicos alemães, sabem lá vocês o que é frio!), e meio vazio (se Madrid tem as ruas vazias ainda é Madrid? Desde que seja 2020, já sabemos que sim), ir ao cinema é uma aventura com muitas pequenas dificuldades. A primeira: há gente a morrer, é-nos permitido ir ao cinema? Permitimo-nos nós ir ao cinema?
Tanto a heroína das máscaras com cachorrinhos como a da máscara desportiva decidiram que sim, e haveria um monte de gente que as crucificaria em termos modernos, ou seja, qualquer coisa inflamada no Twitter, entre essa gente os tais alemães heroicos que ficavam em casa, produtivamente a netflix and chill.
Aos obstáculos emocionais de ir ao cinema no meio de uma pandemia, e navegar um ambiente em que sair de cada para fazer alguma coisa que não fosse trabalhar ou às compras, ainda que tomando todas as precauções, era um pecado capital (quando é que nos tornamos todos alemães no sul, afinal?), juntavam-se os desafios logísticos ou logístico-emocionais: arranjar bilhetes para um festival de cinema: acabou-se a dolce vita e os planos de última hora, compras os bilhetes com duas semanas de antecedência ou bye-bye. (se os amigos alemães das nossas heroínas não estivessem metidos em casa a deprimir-se pela falta de luz e pelos nazis e conspiranóicos que não paravam de crescer, estariam impressionados com esta capacidade de planeamento).
Chegar ao cinema (decisão heroica de ir a pé e arriscar morte por hipotermia, ou ir de metro e ser péssimo patriota?). Como estamos em Madrid, as nossas heroínas vão de metro. Maus patriotas são os catalães ou os bascos, andem eles de a pé ou de metro.
Limpar as mãos com gel ao entrar na sala de cinema. A nossa heroína que detesta máscaras adora o gel, e a que adora máscaras odeia o gel. Cada qual prefere liberdade em partes corporais diferentes.
Respeitar distância de segurança e os lugares vazios entre lugares ocupados. Essa coisa tão simples de estender uma mão quando se ouve a pessoa ao lado a fungar num desses momentos em que a alma se rompe numa sala escura. Com esse lugar vazio, essa mão estendida é mais que um simples gesto de conforto, é uma declaração política, uma declaração de guerra ou desafio sobre uma cadeira vazia. A mão foi estendida e as mãos pegajosas do gel entrelaçaram-se, e como nos dias do antigamente disseram mais palavras que todas as outras palavras que trocaram as heroínas nessa noite.
E como depois do cinema era tarde, tiveram a parte frustrada da aventura, tentar beber mais uma. Que não se pode, há recolher obrigatório, e a malta leva isso de interagir com a polícia a sério. Há uma bonita tradição de multas a comércios na cidade, e ninguém se quer arriscar.
A moral da história? Não há. Também não há heroínas, nem as nossas que foram ao cinema, nem os alemães que ficaram (ou não) em casa. Atrever-se a ser humano foi a aventura do ano.
         Patrícia Louro
 
 
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Sozinha em casa

A manhã ia alta quando Milai acordou, num quarto que o frio tornara desconhecido e cujas vidraças despidas de estores permitiam a invasão do cinzento deprimente do exterior.
Por mais que se esforçasse, Milai não se reconhecia naquele ambiente, habituada que estava a ser acordada pela mãe, ao calor do aquecimento central, dos edredons fofos, dos reposteiros de cores cálidas…
Saltou da cama e não encontrou os chinelos, os pés nus encolhiam-se na madeira fria e seca, tampouco encontrou o roupão… A porta estava aberta e dava para um corredor desconhecido, cujas paredes não ostentavam nem quadros nem fotografias familiares. Avançou a medo – que casa era aquela, que chão nu e frio era aquele, onde estava a mãe que não a despertara?
Ao fundo do corredor, uma porta escancarada emoldurava uma sala revolvida – livros pelo chão, gavetas esventradas, almofadas revolvidas e cadeiras de pernas para o ar. A confusão, evidente, contaminou-lhe o pensamento, que se recusava a perceber o que via.
Um gemido em forma de miado e uma bola de pelo que lhe chocou nas pernas sinalizaram a existência de outra vida – não necessariamente a que mais gostaria de ter encontrado. O susto foi potente, deixando-a pregada no chão, o coração a bombar a toda a força, e o cérebro a gritar – e se tem pulgas, e se tem pulgas, e se tem pulgas…
Fechou os olhos. Queria a mãe, queria a sua casa, queria a sua vida de volta.
Acordou na cama fofa de edredons de cores garridas, o gato deitado aos pés da cama, alguém lhe media a febre enquanto outra pessoa lhe massaja a fronte com um pano quente embebido no que, pelo cheiro, seria álcool. Sentia-se gelada e tremia e batia os dentes como castanholas.
- Milaizinha querida – era a voz do pai –, nossa heroína! O teu sonambulismo hoje salvou-nos de sermos assaltados. Os ladrões, quando te viram à porta do escritório, pensaram que eras uma alma penada e depois o gato atirou-se a eles e deixou-lhes as caras numa chaga, um deles é alérgico a gatos e teve uma crise de asma, foi levado no 112, não se sabe se escapa.
     Paula Carvalho

 
 
 
 
 
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